Nigth End
6 O Brilho da Lua
Notas iniciais
Era uma noite de lua cheia, a única luz que entrava no local era da grande lua redonda e amarela lá fora. O vento balançava as cortinas e uma brisa fria passava pelo local. Allan estava sentado na cadeira de seu escritório com as penas em cima da mesa, olhando a lua através da janela alta e gigantesca do estabelecimento.
— Por quanto tempo você pretende manter essa brincadeira? – Arthur tinha chegado silenciosamente e sentado em um divã vitoriano no meio do escritório.
Allan permaneceu em silêncio olhando através da janela.
— Nunzio me falou que você o enviou para avisar que ela estava de folga hoje para se recuperar de ontem. – Arthur observou Allan por mais uns instantes – Não vai me dizer que ficou com pena... esse não é o seu perfil...
O vento soprava lá fora e os cabelos de Allan se mexiam levemente.
Arthur deitou no divã e colocou suas mãos para trás apoiando a cabeça. — Bom, já que você não quer falar sobre isso e provavelmente também não diria porque mandou a Foice... – Arthur olhou para Allan novamente, esperando qualquer tipo de movimento, mas nada do que falava parecia fazer efeito, então resolveu mudar de assunto.
— E mais uma vez você estava certo, o conselho começou a desconfiar que tem um Sangue Impuro na cidade. Parece que já começaram as buscas... – Arthur fitava o teto que era decorado com pinturas e detalhes em ouro
Continuou — Apenar de eu odiar todos esses velhos do conselho eu também odeio quando você está certo. Queria saber como você faz pra saber as coisas primeiro que todo mundo... Não é possível que só a Foice dê conta de tudo isso. – Arthur tinha um sentimento confuso pelo seu irmão, adorava desobedecer a suas ordens, lhe irritar e causar problemas, mas sabia até onde poderia ir com suas brincadeiras, a admiração que sentia por Allan o fazia respeitá-lo.
Arthur continuou tentando puxar assunto — Sabe, eu estou pensando em voltar para a High Five... aqui anda meio entediante, será que eles deixariam eu ingressar direto na faculdade sem ter terminado a escola? – Arthur olhou para o lado, mas Allan não estava mais na sala.
Ao perceber que foi deixado falando sozinho, sentou-se novamente no divã e olhou para a janela, sorriu para si mesmo e saiu para tocar piano já que Kiara não estava na mansão para perturbá-la.
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Passar aquele dia em casa de folga foi bem relaxante, todas aquelas coisas acontecendo na vida de Kiara a tinha deixado um pouco cansada. Teve que reeducar seu sono, pois agora tinha menos horas para dormir. Passou a noite tentando imaginar um motivo para Ryan ter falado aquilo para ela, não conseguia enxergar nenhum perigo ali. Arthur e Allan eram muito gentis e Nunzio e Gaspare a tratavam muito bem.
Kiara estava encostada na janela olhando a lua, que estava muito bonita, imaginou se era a única que estava admirando aquele astro celeste tão grande e iluminado naquela noite. Kiara olhou para os lados a procura de alguém, de repente sentiu uma sensação estranha, como se algo a observasse. Estava escuro lá fora, só conseguia ver o contorno nas árvores e das pequenas casas da rua. Tomada por essa sensação estranha, fechou a janela e a cortina, e se deitou, pegando em um sono profundo rapidamente.
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Era a véspera do festival dos clubes, a escola estava bem movimentada, porém a notícia de um sequestro foi se espalhando aos poucos, a euforia se dividiu em animação para festival e preocupação com o sumiço do dono da Coffee Candy. A cafeteria era muito famosa na cidade, aquela suspeita de sequestro mexeu com todos. Por todos os lados as pessoas comentavam sobre o incidente.
As meninas como de costume estavam sentadas no gramado no horário de intervalo.
— Parece que foi ontem durante a noite, enquanto ele estava fechando a loja, a última cliente que saiu da loja foi a última pessoa que viu ele. – disse Talita que parecia que seus olhos aumentavam a cada palavra que dizia.
— Eu não entendo porque as pessoas insistem em ir para casa tarde, sabendo que as coisas são perigosas aqui à noite. – Malu rabiscava seu caderno
Kiara olhou para Malu com cara de deboche – AH, olha só quem fala, a nossa presidente do NES que sai de madrugada pra procurar maníacos na floresta.
— Não enche – respondeu Malu – Nós somos precavidas, é muito diferente, nós somos os caçadores e não as presas, e não ficamos no meio de uma rua iluminada pedindo para morrer, e também não estávamos sozinhas. Esse ou esses assassinos precisariam ser muito bons pra pegarem três pessoas de uma vez.
Kiara revirou os olhos.
— Nós temos algo mais importante pra falar agora... – disse Talita – eu pensei em algumas coisas para nossa missão amanhã no festival.
— Precisamos de um nome pra missão – disse Malu
— Missão mochila – falou Talita rápido
— Não, ta muito na cara, se alguém ouvir a gente comentando isso, vai saber que nós que pegamos a mochila depois que ela sumir – falou Kiara
— Missão Objeto – propôs Talita – Já que a gente quer saber o que é que ele guarda lá.
— Achei meio estranho, mas pode ser esse aí mesmo – disse Malu – Então para nossa missão objeto, eu pensei que poderíamos trazer algumas coisas pra facilitar nosso furto. Eu vou trazer amanhã um sonífero... Pra em último caso a gente da alguma bebida pra ele e coloca o sonífero dentro.
— Que maluquice, vocês não acham que estão exagerando um pouco? — Disse Kiara
— Não, isso é só em último caso, eu pensei em uma faca pra rasgar a mochila dele ... – disse Talita
— Isso é muito agressivo, não vamos rasgar a mochila dele, menos Talita – disse Malu
Kiara só revirava os olhos em todas as tentativas das meninas de saberem o que tinha na mochila dele, as propostas foram de coisas absurdas como colocar fogo na mochila e assaltar Ryan disfarçadas à coisas bem idiotas, como pedir a mochila emprestado ou pedir para que ele guardasse algo em sua mochila, e olhar enquanto ele guardava.
No final o único plano aceito pelas três foi o que Kiara havia pensado, ela distrair ele e elas tentarem abrir a mochila dele enquanto tivessem em um grande fluxo de gente.
Ryan chegou quase no final do intervalo e sentou-se ao lado das meninas comendo um sanduiche natural.
— Onde você estava ontem à noite? – perguntou Malu indiscretamente
— Que? – disse Ryan de boca cheia
— Onde vo... – Kiara cutucou Malu com o braço e olhou pra ela arregalando os olhos.
— Onde você estava estudando ontem à noite? – perguntou Malu
— Quem disse que eu estava estudando? – disse Ryan após engolir um pedaço do sanduiche
— Nada, só pensei que você estudava todo dia – disse Malu olhando pra cima um pouco desajeitada com a conversa.
Talita fez esforço para não sorrir da situação e Kiara balançou a cabeça com reprovação à amiga impulsiva.
O sinal bateu todos se levantaram para voltar às salas. Ao passarem pelo corredor onde tinham os armários, Jon vinha no sentido contrário da multidão de gente.
— Kiii – disse Jon se aproximando – Procurei você o intervalo todo, onde você estava? Não te vi no refeitório.
Kiara tinha passado a semana inteira evitando o refeitório, sabia que Laura ia fazer questão de criar alguma situação para falar sobre o incidente do dia do jogo e fazer comentários desagradáveis.
— Estávamos no gramado – disse Malu parando ao lado de Kiara
— O que você vai fazer no sábado depois do festival? – perguntou Jon
Kiara olhou para Malu de canto de olho – Não sei ainda, porque?
— Tava pensando se você não queria sair comigo ... – disse Jon com um sorriso simpático
— Err ... – Kiara não sabia o que responder, na verdade não queria aceitar o convite, mas não sabia como recusar, então ficou sem palavras.
— Não precisa responder agora, amanhã você pode me dar a resposta.
Ryan passou esbarrando no ombro de Jon, sem olhar para trás ou pedir desculpas, e sumiu no fluxo de estudantes. Malu saiu logo em seguida como se tivesse com pressa também dando uma pequena esbarrada em Jon. Kiara percebeu que a situação não estava boa, então pediu licença e se retirou, deixando Jon sozinho para trás.
✞
Kiara estava na mansão Monray, limpando os quadros dos corredores do segundo andar, essa foi a segunda tarefa que fora designada para ela por Nunzio, que estava sentado em uma poltrona bege ao lado de um abajur de pé, lendo jornal, Kiara pôde ver de longe a grande foto da Coffee Candy na manchete principal. Nunzio estava engraçado com os óculos de grau na ponta do nariz. Kiara estava apenas tirando poeira dos quadros que nem pareciam estar sujos, ficou se perguntando quem será que limpava aquela mansão gigante, imaginou se apenas cinco funcionários davam conta daquilo tudo, provavelmente a limpeza era feita pela manhã ou pela tarde, já que sempre que chegava a mansão estava limpa. Sempre que Kiara virava de corredor, Nunzio ia logo atrás, o que fez Kiara pensar que Allan mandou vigiá-la. Agora como ia fazer para vasculhar a mansão? Com Nunzio no seu pé o tempo todo. Não dava nem pra dar uma entradinha em um cômodo para procurar pistas ou qualquer outra coisa. A biblioteca, pior ainda, estava trancada e nem fazia ideia onde estavam as chaves.
— Boa noite senhor
Kiara virou para ouvir a quem Nunzio tinha dado boa noite e o viu se curvando e se retirando, Allan deveria estar chegando da aula, pois apareceu no corredor com o uniforme da faculdade e se aproximou.
— Boa noite, pode me acompanhar um instante? – disse Allan cordialmente
— Claro – consentiu Kiara e o acompanhou, eles subiram as escadas e foram para o segundo andar, se dirigiram para o final do corredor, onde tinha uma porta grande e branca detalhada em ouro. Kiara lembrou que não tinha visitado esse cômodo antes, pois eram os dormitórios dos Monray’s. Sentiu um pequeno nervosismo e apressou-se para repreender os pensamentos pervertidos antes que eles começassem.
Quando eles entraram, tinha uma sala toda decorada em branco e dourado que tinham mais três portas, eles passaram pela porta do meio que era o acesso para um grande quarto com grandes janelões e cortinas compridas que esvoaçavam com o vento que vinha de fora, era o quarto mais bonito e imponente que Kiara já tinha visto, a cama era espaçosa e possuía hastes em seus cantos, com uns panos transparentes envoltos que também esvoaçavam. Allan continuou seu trajeto e passou por uma porta de duas folhas que davam acesso a uma varanda, a maior varanda que Kiara já tinha visto em toda sua vida, daria com certeza para dar uma festa ali. Eles andaram até o peitoril e então Allan virou-se para Kiara.
— O que você está achando de trabalhar aqui?
— Bom... quero dizer, ótimo – Kiara se encostou no peitoril olhando para a grande imensidão de vegetação que se estendia ali.
— Imagino que esteja cansativo trabalhar durante noite – Allan também se virou para olhar a vista.
— Não, claro que não, aliás eu até gosto de trabalhar à noite.
— Porque? – Allan olhou para Kiara, os cabelos de Kiara se movimentavam com o vento, seu olhar agora estava fixo na lua, sua pele estava rosada e um sorriso agora desprendia seus lábios.
— Porque... a noite é especial... durante a noite, quando tudo escurece, todos vão para suas casas com o toque de recolher, chegam em casa e encontram suas famílias, jantam juntos, e tem onde se confortarem... falar sobre o dia, sobre os problemas... sobre as alegrias. – Os olhos de Kiara começaram a marejar – Aqui, eu pelo menos distraio a minha mente e encontro companhia de vez em quando, assim não me sinto tão só.
Allan não conseguiu falar nada, não sabia como agir com esse tipo de situação, estava acostumado a lidar com problemas de todos os tipos sozinho, mas esse problema era algo que definitivamente não fazia ideia do que fazer.
— Isso é tão ruim assim? – Allan a observava
— Desculpe – disse Kiara enxugando os olhos
Allan pegou em uma mecha de cabelo de Kiara e cheirou – Seu cheiro é muito agradável.
O coração de Kiara deu uma forte palpitação, suas bochechas ficaram vermelhas e suas mãos automaticamente apertaram o peitoril da varanda.
— Príncipe? – Uma voz feminina veio do outro lado da grande varanda
Allan rapidamente virou-se para ver quem era e franziu o cenho – O que você ta fazendo aqui?
A menina estava sentada no peitoril da varanda, desceu e se aproximou dos dois, era um pouco mais alta que Kiara, seu corpo era esbelto, seus cabelos eram castanhos e faziam cachos grandes e volumosos, seus olhos eram amendoados e castanho claro. A garota utilizava o uniforme preto da High Five, isso significava que estava na faculdade também.
— Quem é essa garota? – disse colocando a mão na cintura
— O que você ta fazendo aqui Akantha? – Allan não parecia feliz
— Eu vim saber o que tá acontecendo com você. – Akantha não tirava os olhos de Kiara
— Não tem nada acontecendo comigo, pode se retirar agora – Allan cruzou os braços
— Hoje faz uma semana que você ta saindo cedo da faculdade, está todo mundo preocupado, eu vim aqui pessoalmente me certificar o que está acontecendo... tem haver com essa garota? – Akantha espremeu os olhos olhando fixamente para Kiara, que estava calada olhando de Allan para Akantha, sem entender o que estava acontecendo.
— Não... – negou Allan
Akantha esticou a mão para pegar em Kiara, mas Allan segurou impedindo o avanço. – Você não tem permissão para entrar aqui sem minhas ordens – Allan estava sério
— Já entendi, deve ser o seu lanchinho. – Akantha puxou seu braço de volta – Só não sabia que você amaciava suas presas.
Allan fuzilou Akantha com o olhar e disse firme e pausadamente – Saia.
A garota fuzilou Kiara com o olhar e saiu na direção de onde veio, Kiara não sabia porque ela estava saindo naquela direção, já que a única porta de acesso da varanda era por onde ela e Allan tinham entrado, e não era para onde Akantha estava indo. Kiara ficou observando o que a garota estava fazendo indo para o lugar errado, quando Allan a puxou pelo braço, fazendo-a rodar e parar em seu colo, ficando de costas para Akantha.
Kiara tentou se afastar, mas Allan a segurou firme em um abraço. O que será que estava acontecendo, porque uma garota apareceu falando aquelas coisas? Como assim amaciar suas presas? Porque Akantha se dirigiu para ela como uma lancha prestes a ser devorado, um turbilhão de pensamentos invadiu a mente de Kiara, de repente aquela reação de Allan, será que ele ia machucá-la?
— Não pense besteira – disse Allan baixinho – Desculpe por isso
Allan soltou Kiara e se afastou, Akantha já não estava mais lá. – Você já pode ir para casa, vou avisar Nunzio para lhe acompanhar até o carro, tenha uma Boa Noite – Allan se virou e saiu.
Kiara entrou no carro ainda processando todos os acontecimentos do dia, não acreditava que tinha chorado na frente de Allan, como podia ser tão frágil assim? E aquela menina? Porque falou daquele jeito e porque aquela atitude estranha... Será que Ryan tinha razão... Que aquele lugar não era para ela? Allan... Allan estava diferente, ele a elogiou, tocou em seus cabelos, depois aquele abraço repentino... Uma explosão de sentimentos invadiu Kiara, sem perceber olhou para trás, como se tivesse deixado algo ali naquele dia, mas não sabia o que era... Kiara ficou olhando para trás e percebeu uma coisa diferente, que nunca tinha reparado antes... A mansão era muito alta para ter apenas dois andares... Kiara fez a contagem das janelas na vertical, conseguiu contar apenas 3 vezes até que as árvores cobrissem sua visão... a mansão tinha na verdade... 4 andares.
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Allan estava deitado em sua cama espaçosa, no sentido contrário da cabeceira, quando Arthur apareceu na janela do seu quarto.
— Até que foi divertido hoje na escola... – Arthur usava o mesmo uniforme de Allan, só que nas cores invertidas, ao invés de preto, era branco e nas suas extremidades tinham listras pretas.
— Que bom que voltou para a escola ... – Allan fitava o teto pensativo
— As garotas são mesmo irritantes, todas estavam perguntando ‘’aí porque o príncipe está saindo mais cedo todo dia’’, ‘’aí o que está acontecendo com o nosso príncipe ‘’ – disse Arthur em uma voz fina e irritante.
— Ignore-as, é o que eu faço todos os dias
— Achei que teria mais boas-vindas..., mas você está estragando tudo. – Arthur pulou da janela para o chão e se jogou na cama do lado de Allan. – A propósito ... eu tentei impedir Akantha de vir aqui ...
— Mentiroso – Allan se levantou e sentou na janela
— Tá, mas não fui eu que mandei ela vir, ela veio por conta própria ... Ela viu nossa Kiarinha? – brincou
— Viu, e quase me causou problemas ...
— Ela descobriu? – Arthur sentou-se na cama
— Não, por pouco ... – Allan lembrou da cena em que teve que puxar os braços de Kiara e abraça-la.
— Não entendi porque você quis contratá-la... você nem me deixou brincar um pouco com ela, e você também não fez nada... Aliás quase não fez nada ... o que você ta fazendo? – Arthur olhou para Allan e viu que Allan não o estava escutando. O irmão estava parado olhando para o horizonte na janela, pensativo e parecia estar com os pensamentos bem longe dali.
Allan levantou-se da janela com a expressão séria – Vamos ter que demitir ela ... antes que seja tarde demais.
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