Nightmares of The Night
2 Chapitre Un
Chapitre Un: “A Menina de Trapos e Cinzas.”
Sentir o sol em meu rosto depois de despertar de um sono tão profundo me fez perceber o quanto o mundo muda em apenas uma noite de sono. Eu costumava pensar que, talvez, enquanto dormia, o murmurar dos passarinhos de alguma forma me prendia a Terra. Mas não era verdade. Estando inconsciente, eu não podia fazer nada para impedi-lo de evoluir. E, mesmo que seu som parecesse real, ele não chegava perto do que o verdadeiro mundo poderia ser. Por um instante, apreciei o varrer da brisa em minha nuca, seguido pelo arrepio flagelo que percorria minha espinha — Ah! Há quanto tempo não sentia meu próprio corpo? Acredito que os vultos¹ que se passaram diante dos meus olhos não poderiam simular todas as sensações de estar viva.
“Alice! Tu fizeste o que, durante todo este tempo?”
Ponderei por alguns instantes, enquanto caminhava pelo campo do que algum dia talvez tivesse sido parte da minha cidade. A grama alta chegava a meus joelhos, prendendo meu sobretudo em algumas das folhagens mais grossas. Minhas botas de tecido grudavam sobre a terra úmida, tornando audível seu descolar pegajoso. Não tinha certeza de para onde estava indo; naquele momento, eu só queria sentir mais desse mundo. “Desse”, que não era meu, eu quero dizer. Mesmo depois de quebrar o tempo, eu ainda não o tinha — me pergunto se eu ainda queria. Segui pela trilha estreita, marcada pelo que parecia a rotina traçada (“Ou pisada?”, me perguntei.) de alguém. Não hesitava, mas não tinha certeza do porquê eu o fazia. A brisa que me guiava, por fim, cessou.
Olhei os arredores por alguns instantes: o horizonte estava coberto pelas árvores e o chão oscilava entre colinas de grama alta e pequenas planícies. Segui em direção ao topo da colina, imaginando que, talvez, fosse o meu destino final. A lama se tornava mais aderente conforme a subida, quase como se fosse engolir minhas botas. Pela primeira vez no dia, pensei em retornar, mas... Bem, elas já estavam sujas de todo modo. Ao chegar ao cume (por mais que não fosse tão alto assim), passei a observar a enorme planície verde que tomava toda a extensão da terra. Sem as árvores e irregularidades do terreno que antes, lá de baixo, cobriam o horizonte, tudo que podia ser visto era grama. Grama e o vasto céu azul ciano, sem uma nuvem sequer. Não podia ver o sol, muito menos o fim do campo relvado. Mesmo os pássaros de antes, ou o caminho enlameado, não estavam mais lá. Não havia nada. Era, de fato, o fim — seria este o destino que eu procurava?, me perguntei.
“Toma-te coragem e siga em frente, menina.”
E eu segui. Feito uma marionete, guiada por cordéis invisíveis, continuei como o Conselho sugeria. Não que eu tivesse outra escolha senão segui-lo, de todo modo. Sem um abrigo, eu não tinha nenhuma preocupação em me perder; e, além disso, eu estava há tanto tempo no escuro... A claridade do dia me fazia bem. Me sentia mais quente do que antes.
A imensidão do campo parecia me consumir, mas eu já não me importava com coisas triviais como me sentir pequena. Eu caminhei e caminhei, em busca de algo que se diferisse do cansativo verde da grama. Contudo, nada realmente parecia diferente. Talvez eu não devesse ter saído de casa para início de conversa.
Eu já não sei mais o que eu estava fazendo antes de chegar até aqui.
“Esta razão não lhe convém, Alice. Pouco importa ‘como’ ou ‘por quê?’ chegastes onde chegou. Apenas dê as costas a esses pensamentos desnecessários.”
Eu me virei porque queria ver. Eu queria vê-lx.
O arrepio familiar arranhou meu pescoço assim que me deparei com a mudança abrupta de paisagem. Estava aos pés de um gigantesco salgueiro chorão, que derramava suas folhas em um tom amarelado. O decorrer de seu tronco era trilhado por uma escada em espiral, feita com lenhas cortadas pela metade; no topo, podia enxergar uma grande casa-na-árvore, pintada grosseiramente de branco, tendo suas janelas cobertas por finas cortinas de um tecido transparente (não pude ver vidros em um primeiro momento e realmente duvidava que os veria se subisse toda a escadaria.). Respirei fundo, de certa forma encantada com a construção — talvez um pouco aliviada também, confesso. Pensava estar sozinha até então.
— Hum, com licença?
Soou, encostando algo que eu não sentia há muito tempo. Seu toque— ou, melhor, o toque, – deveria ser familiar; era humano, não era? Meus braços se contraíram pelo susto, e, novamente eu me virei, deparando com um garoto de mesma altura que eu. Recuei, mas ele continuou:
— Você precisa de ajuda? Já faz um tempo que não para de olhar para a casa.
“Eu sinto muito!” Gritei, mas nada saiu de minha boca. Eu não sabia como falar. Não mais. Observei o garoto mais uma vez, reparando em seus enormes olhos castanho, além dos cabelos loiros levemente grudados na testa graças ao suor. Seu rosto estava arranhado; cheio de curativos. No entanto, mesmo assim, seu sorriso torto não se desmanchava. Respirei fundo mais uma vez, mas, antes que pudesse tentar falar...
— Eu me chamo Phinian, escrito com “P” e “H” mesmo! — estendeu a mão, deixando algumas tralhas caírem de sua mochila. Seu sorriso pareceu aumentar — Sou o que os outros chamariam de “Viajante”, mas, com toda certeza, posso te dizer que você está olhando para minha casa! — a mochila se moveu por um instante ou outro, até que, de dentro, um pequeno cachorro de pelo alaranjado e orelhas pontudas esgueirou sua cabeça em cima do ombro do menino, espiando com o olhar curioso. — Do Beau também, é claro! Pelo menos a partir de hoje — riu baixo, acariciando o focinho do cachorro.
— Um nome estranho para cachorro... — Pensei. Ou pelo menos achei ter pensado, visto a feição do garoto.
— Eu acho que sim, de certa forma. — seu riso soava mais pelo nariz do que pela boca — Quando o encontrei, vi várias revistas antigas; tão velhas que sequer pude entender o que estava escrito! Eu não me decidi sobre seu nome, mas acredito que “Beáu” soe bem!
— Bô.— corrigi rapidamente. —Lê-se “Bô”.
Minha voz falhava, mas eu queria falar. Depois de tanto tempo, eu precisava.
— Ah! Você o conhece? — Phinian puxou o cachorro de forma não muito delicada, colocando-o em minha frente. — Bem, acredito que, se tem um nome, não há o que mudar! — “eu não o conheço...”, pensei, mas não consegui coragem para dizê-lo. — E como você se chama, afinal? — perguntou, colocando o cachorro no chão.
Mas eu não lembro exatamente quem eu sou...
Ou me lembro?
“Guarda teu coração para mim. Eu sou tua.”
O vento soprou tudo mais uma vez,
mas seus conselhos ainda me guiavam.
Em alto e bom tom, pude ouvir sua voz, minha Boneca.
Eu sou tua “Alice.”.
♥
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