Chapitre Deux: “Ela, a Boneca e sua Voz.”

— “Alice”, você diz? — Phinian perguntou enquanto recolhia suas tralhas do chão e as colocava dentro da mochila. Beau saltitava entre a grama alta, como se pedisse para ser “guardado” também. Parecia temer ser esquecido, provavelmente porque quase desaparecia enquanto estava no chão. Era um cão pequeno, por mais que, no fundo, eu soubesse que ele era mil vezes maior que eu. — Eu nunca ouvi esse nome. Você também é uma viajante?

Eu não respondi. Desta vez, não porque eu não sabia, e sim porque eu não poderia respondê-lo. As palavras vinham até minha boca, mas Ela não me deixaria dizer. Senti seu sopro em minha nuca, o que fez com que meu corpo todo se arrepiasse. O céu, por sua vez, brilhou o entardecer alaranjado — “como pode ser manhã e tarde ao mesmo tempo?” pensei por alguns instantes, mas percebi que não chegaria a lugar algum ruminando sobre esta razão. Afinal, eu caminhara por muito tempo antes de chegar até aqui, certo?

“...”

— Você não é obrigada a responder, se não quiser...! — Eu pude sentir certa pressa em sua voz; agora tinha um tom afobado que antes eu não pude reconhecer. Isto é, se é que já estava lá antes. Mesmo assim, como se fingisse que eu não havia percebido, ele riu ao completar sua frase.

Phinian era contraditório, como um todo. Seu rosto era tão límpido que chegava a brilhar, assim como suas feições, que o denunciavam até mesmo ao maior dos idiotas. Naquele momento, por exemplo, eu podia ver todo o desconforto em seu olhar. E ele sabia que poderia vê-lo. Ainda assim, no entanto, ele se empenhou em vestir uma carapuça que não o servia e abriu um sorriso dissimulado. Por fim, ele coçou sua cabeça, como se esperasse por alguma reação minha. Mas eu não o fiz, porque suas ações me deixavam irritada. Porque, talvez, de certa forma, eu invejasse sua “ignorância”, que o permitia sorrir mesmo depois de ser desmascarado.

O silêncio permaneceu por mais algum tempo, até que ele mesmo continuasse:

— Talvez você precise de um lugar para ficar?

— Não exatamente. — respondi com as palavras que escorregaram de dentro de mim.

— E o que significa o “exatamente”, exatamente? — Ele riu.

“Ora, sequer eu sei o porquê de tê-lo dito, imbecil!”, pensei (e, dessa vez, eu tinha certeza de que o fiz baixo, pois não via nenhum contorcer em seu rosto). Mais uma vez, minha voz falhou a sair; como se, de alguma forma, alguém me impedisse de dizer o que eu realmente queria. Pude sentir um aperto em meu peito, seguido pela sensação esmagadora de ser controlada por alguém. Minha visão se enturveceu enquanto o aperto se transformava em dor.

— Alice. — Phinian estalou os dedos em frente ao meu rosto. No mesmo instante, tudo cessou, e eu olhei para diretamente para seus olhos. — Eu não posso te ajudar se você não me pedir.

Apesar de ter desmanchado seu sorriso, sua feição nunca mentia. Estava há pouco tempo conversando com ele, e eu já tinha certeza sobre isso (era provavelmente a única verdade que aprendi durante todo este dia, “mesmo porque, não fiz nada além de caminhar, certo?”.). Por mais difícil que fosse, engoli toda a angustia e cedi: — Eu preciso de ajuda — humildemente, sussurrei. Não por causa do meu orgulho (por mais que fosse, até certo ponto), mas para que ninguém ouvisse. Especificamente, para que ela não me escutasse gritar.

— Com todo prazer! — seus olhos brilharam. Ele parecia contente por poder ajudar — Por favor, me siga.

Não tardei a fazer o que ele me pediu. Eu o segui por toda a escadaria de toras, tentando acompanhar seu ritmo rápido sem tropeçar em um dos degraus. Depois de muito correr, em fim, pisei sobre uma plataforma pintada de branco: a varanda da casa na árvore.

Diferente da primeira impressão que tive da casa (considerando a pintura grosseira e as cortinas de plástico, eu quero dizer), a entrada estava impecavelmente organizada. A varanda que dava a porta principal era bem pequena, mas não deixava de ser agradável. Não tinha barras de segurança; em vez disso, suas bordas estavam cercadas por vasos de plantas de tamanhos variados — penso agora que este definitivamente não seria o ambiente mais seguro para criar um cachorro, visto que um empurrão seria o suficiente para derrubar a “proteção”. Phinian pareceu perceber o perigo de deixar Beau sozinho nesta área, e, por isso, não nos alongamos muito; fomos direto para dentro da casa.

— ... é pequena, mas é melhor que dormir lá fora, eu te garanto! — Ele falou. Assumi que perdi o início de seu monólogo, já que não pude entender ao certo como ele havia chegado a este assunto. — Você pode ficar com o meu quarto até encontrar algo melhor. Eu dormirei na sala!

Assenti com a cabeça, mesmo que não tivesse ideia do que ele estava falando. Estava sentindo algo estranho desde a dor no peito cessara; um mau agouro, como se alguém de fora estivesse praguejando sobre mim. Este pensamento estava me impedindo de me concentrar em qualquer outro. Todos os meus sentidos se tornaram secundários para que eu conseguisse me livrar daquilo. Tudo em mim lutava para que aquilo fosse embora para longe. Lutavam para que, assim como o gelo que me prendia ao passado, derretessem e sumissem para sempre, levando consigo as memórias que estavam me impedindo de aceitar este “outro mundo” de bom grado.

“Este sentimento é só teu, Alice.
Desfrute-o; ame-o.
Tu és Ele; tu és Ela.
És também Eu.”

Minhas mãos estavam molhadas. O cheiro pútrido do esgoto invadia meu olfato, mas não era o bastante para encobrir o odor inconfundível da pólvora no ar. Não podia escutar nada além dos estrondos abafados, mas estes estavam longe de mim; não havia porque para se preocupar. Certo? CeéÉRto! Eu passeava pelas paredes das bochechas e céu da boca com minha língua, buscando avidamente um pouco de saliva que pudesse aliviar o gosto podre que rondava meu paladar. Mas não havia mais nada para engolir. Não pude beber nada há algum tempo por conta da disenteria, que não deixava com que nada parasse em meu estômago. Meu intestino se contraria causando uma dor quase insuportável, mas minhas mãos continuavam molhadas.

“De que, Alice? De quê?” Ela tinha sua voz ecoada dentro de minha cabeça. Era fina, como o apito de um brinquedo; mas ainda soava grave de certa forma. Repetia-se infinitamente dentro de mim, destorcendo-se aos poucos. Vez ou outra eu podia ouvir falhas mecânicas em meio aos murmúrios que me assombravam, mas o apito nunca mudava.

Eu não poderia enxergá-las. Minhas mãos, eu quero dizer. Eu podia senti-las, movê-las... Mas não havia nada lá. Estavam molhadas, no entanto. Isto eu poderia sentir; e eu sabia que ela também.

“Rá. Rá. Rá.” Os intervalos entre Sua risada eram demarcados cuidadosamente entre o som dos impactos, na tentativa de esconder seu banco de voz limitado — “talvez Ela ouvisse meus pensamentos”, considerei, mas eu não poderia fazer nada quanto a isso. Ela estava mais do que perto, afinal. Estava dentro de mim.

“Abra-os, Alice.”.

— O quê? — pela primeira vez, perguntei diretamente. — O que eu devo abrir?! — Projetei minha voz o máximo que consegui, para ter certeza de que ouviria.

“Abra-os agora!” esbravejou. O tom mais grave se tornou evidente, e, por sua vez, pude ouvir toda imperfeição de sua voz.

— Mas eu não faço ideia do que a Senhorita está falando! — tentei polir minhas palavras, esperando que, desta forma, Ela abaixasse seu tom.

No entanto, após isso, o silêncio permaneceu. Busquei por algo em meus arredores, mas não poderia enxergar muita coisa; estava escuro, e o ressoar das explosões impedia-me de manter a concentração. Refleti quieta por alguns poucos instantes, até chegar à conclusão de que “Abri-lo” referia-se as minhas mãos; logo então, eu o fiz. Todavia, para meu assombro, quando finalmente pude vê-las, deparei-me com o líquido viscoso que há tanto tempo não via.

Vermelho vívido; cheirando a podridão. Escorria-se por dentre os dedos, exalando seu aroma de ferro — tão frio! Eu podia senti-lo agora. A sensação de segurar o cano gelado de ferro junto de meus batimentos cardíacos acelerados... Tudo voltava a mim naquele momento: eu o reconhecia. Mais do que tudo neste mundo, eu buscava senti-lo outra vez. O mais puro êxtase; um orgasmo sensorial. Mais uma vez, tudo aquilo era apenas meu.

Tê-lo de volta,
Ó, fluido carmesim,
esta sensação é apenas minha.

“Os teus olhos, puta imunda. Abra-os agora.”

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.