Nightingale.
31 You And I.
Notas iniciais
"You know I wanna be the one who hold you when you sleep"
O espelho em frente a mim refletia uma garota de olhos cinzentos com olheiras grandes com marcas vermelhas ao longo do corpo e principalmente no pescoço, em suas coxas, palmas vermelhas se estendiam e a garota provavelmente agradecia por não poder ver o que tinha atrás.
Encarei o espelho mais uma vez e sorri. Uma noite e tanto.
No banheiro atrás de mim, o som de chuveiro era claro, Percy havia acordado há algum tempo atrás e agora, estava lá tomando banho.
Sentei na cama, enrolada por um lençol de seda, encarando o teto com um sorriso idiota. Algo vibrou no chão.
Encarei o emaranhado de roupas espalhados e empurrei a cueca dele com o pé, procurando saber de onde aquilo vinha. Puxei a bermuda dele até mim e peguei seu celular que vibrava como se o mundo fosse acabar.
Anjo ligando. Qual era o problema daquela ruiva?
Neguei a chamada e sorri vitoriosa.
– Venci! – resmunguei para o celular e o joguei de volta na cama com um sorriso feliz
Dois minutos e ele voltou a vibrar.
Segurei-o e arqueei as sobrancelhas.
Anjo mandou uma mensagem. Abra!
Revirei os olhos e abri a mensagem.
“Oi, Percy!
Senti saudades, acabei de chegar a Miami. Como estão as coisas por aí? Espero que esteja tudo bem. Sinto muito sua falta! E como estão as coisas com aquela loira? Tudo indo certo? Qualquer coisa mando o FBI atrás dela, não se preocupe, dinheiro é o de menos. Hahaha, sinto muito sua falta.
Espero te ver logo, beijos
Do seu Anjo.”
Calma. Calma, Annabeth. Respira, isso, um, dois, três. Enfiei o celular debaixo dos cobertores e afundei minha cabeça em um travesseiro, gritando de raiva.
Controlei minha respiração. Aquela garota poderia acabar com um dia que poderia nascer para ser perfeito.
– Aconteceu algo? – Percy sussurrou em meu ouvido, rindo quando eu dei um pulo
– Idiota. – resmunguei e pulei da cama, esquecendo de pegar o lençol
– Ei, ei, ei. Se começar a andar assim, não respondo pelos meus atos.
Revirei os olhos e levantei o dedo médio, fechando a porta com um baque estrondoso.
Bufei com raiva, encarando o espelho a minha frente, pensando como esconderia aquelas marcas. Comecei a escovar os dentes e a revirar todas as gavetas, procurando por uma base de pele ou qualquer coisa do tipo.
Encontrei uma gaveta nas profundezas cheia de camisinhas e pílulas. Arqueei as sobrancelhas, esquecida de que aquilo existia.
E fiz a coisa mais louca da minha vida. Peguei todas as camisinhas e joguei no lixo, abri todos os pequenos comprimidos de pílulas e sorri, jogando todos na privada e dando descarga.
Percy era meu. Meu. E ela ia saber disso, de um jeito ou de outro.
Destranquei a porta e fui tomar um banho relaxante.
A água caia pelo meu corpo rapidamente enquanto eu passava o sabão e a porta fora aberta, como eu previra.
– Você pegou meu celular. – ele acusou, sentando-se na pia e me encarando com um meio sorriso enquanto eu voltava a ligar o chuveiro.
– Acho que temos que ter uma relação aberta. – falei alto, por cima do som do chuveiro — E ter uma conversa com seu anjo, não é ter uma relação aberta para mim.
– Ah, é? E o que temos para você me pedir uma relação aberta? – perguntou, com os braços cruzados ressaltando os músculos livres de sua regata
– Ai, Percy, para de ser idiota. – peguei minha toalha, enxugando-me rapidamente
– E temos alguma relação? Desculpa, mas você não deixou isso claro para o homem da relação.
– Homem da relação? Faz-me rir. Só porque acha que comandou nossa noite por uma vez já é homem da relação.
– E o que se faz para ser o homem da relação além de um pênis?
Revirei os olhos com sua brincadeira, jogando minha toalha em sua cara e caminhando até o closet, sabendo que ele me seguiria.
– O ponto não é esse. O ponto é que você me escondeu que tem conversas com ela.
– Bem, eu não posso dizer que escondi, já que você nunca me perguntou.
– Não desvie do assunto! – virei-me, arremessando uma das minhas botas que ele soube desviar rapidamente com um sorriso
– Está com ciúmes? – perguntou, tranquilamente, apoiando o ombro em uma das prateleiras, me vendo colocar minha lingerie e um short de cintura alta rapidamente
– Se eu estiver, não diz a respeito a você! Aliás, se eu posso ser sua, você tem o dever de ser meu. E para ser meu, temos que ter uma relação aberta! Quer que eu soletre? A-b-e-r-t-a.
– Annabeth, eu não sou burro.
– É mesmo? Parece que você é, sim.
Meu corpo fora jogado contra a parede e seus olhos verdes postos com um divertimento e raiva para cima de mim. Comecei a me debater, socando seu braço com força, tentando sair daquela armadilha que ele fizera. Seus lábios foram jogados contra o meu, fazendo todo meu corpo se amolecer rapidamente, puxei todo o ar que consegui quando nos separamos. Minhas bochechas ardiam de raivas e esmurrei seu peito até que ele saísse da minha frente, rindo.
– Não me chame de burro de novo. – disse entre risadas
Empurrei seu corpo enquanto ele continuava a rir e vesti um moletom curto cinza, calçando chinelos.
– Foda-se.
– Annie... – ele puxou minha cintura e colou nossas testas com um sorriso fofo – Eu sou seu. Pode deixar que a Rachel só é uma amiga que me ajudou e eu já disse...
– Blábláblá. Acabou a relação.
– Você quer ter uma relação?
Balancei a cabeça, hesitante, negando.
– Eu quero ter isso que tivemos ontem. Quero ter minhas pernas doendo e ver todas essas marcas... Mas, eu não quero nada sério. Só quero que você seja meu.
Percy riu, apertando minha cintura contra seu corpo, ainda sorrindo e depositando um beijo leve em meus lábios.
– Eu posso ser tudo que você quiser. Como você quiser. Quando você quiser. Eu só quero que você seja minha.
Apertei suas bochechas em minhas mãos, sorrindo.
– Eu sou sua. – prometi, arqueando minhas costas e deixando nossos corpos colados enquanto nos afundávamos em mais um beijo
– Agora vamos, hm? Chega de romantismo de manhã, não faz minha praia. – resmungou, puxando minha mão com força
Ri, acompanhando seus passos. Seu braço fora posto ao redor de meus ombros enquanto eu apertava sua cintura. Descemos as escadas em meio a beijos rápidos e risadas.
– Ela me prefere! E é por isso que ela está me namorando, seu babaca!
Gritos vinham da cozinha, o que fez eu e Percy aumentarmos nossos passos e nos deparando com Nico sem camisa gritando com Luke e o loiro fazendo a mesma coisa enquanto Mary trazia uma bandeja de prata cheia de torradas e geleia, deixando na frente de Ethan que agradeceu com um sorriso. Thalia estava apoiada no fogão, aquecendo algo que colocou em uma jarra de prata, deixando em cima da mesa.
– Chocolate quente?
– O que está acontecendo? – perguntei, sentando na mesa, junto com Percy e despejando chocolate quente em uma das xícaras amarelas
– Ah, eles estão brigando para ver quem eu prefiro. Mas, parece que minha opinião não conta. – Thalia explicou com um sorriso – Ethan, lindo, me passa essas torradas aí.
O ruivo levantou a bandeja de torradas, deixando a morena pegar várias torradas e colocando em seu prato.
– Olha só pra mim, Nico, olha bem. – Nico parou de gritar e encarou Luke com desinteresse – Cabelo dourado, olhos azuis, músculos bem definidos, gostoso... O tipo californiano que toda garota baba para ter. Agora vem cá, uma californiana nata ia preferir um magricela ou eu? Não é óbvio? Quem ela preferiria, Ethan, hãm?
– Você, cara, você.
– Toma! Na sua cara!
– Agora olha pra cá... – Nico apontou para sua cara – Branquinho, cabelo preto, olhos lindamente penetrantes, corpo mais definido e gostoso, impossível. Típico inglês sexy, agora, me diz, quem ela preferiria? Um californiano vagabundo ou alguém que seria tudo para ela? Hã? Quem, Percy?
Percy ergueu os olhos, assustados e intercalou o olhar entre o primo, Luke, eu e Ethan. O ruivo assentiu, como se o fizesse prosseguir.
– Você, primo, você.
– Eu! Toma!
– Percy não é sexy! E nem é mulher! Não, bem, ele é gay, mas opinião de gay não conta.
– Ei! Olha...
Ethan balançou a cabeça e sussurrou “não vale a pena”. Percy pareceu pensar e voltou-se a comer sua torrada com geleia de uva.
– Annabeth! – os dois exclamaram juntos
Arqueei as sobrancelhas, confusa.
– Você! Você é uma garota, é sexy...
– Gostosa. – Luke completou – Quem Thalia escolheria?
– Nenhum dos dois. – minha mãe respondeu por mim, com olheiras grandes e enchendo um copo de café – Primeiro, vocês são barulhentos e me acordaram. Então, eu estou estressada. E segundo, vocês só são crianças. Nem músculos de verdade tem. E por último, Thalia prefere um mendigo a dois bebês buscando por atenção, estou certa, querida?
– Certíssima, tia.
– Você não gosta de mim, meu amor? – Nico perguntou, sentando no colo de Thalia que quase cuspiu seu chocolate quente
– Sai de cima de mim, seu búfalo! Sai, sai, sai! – minha prima o empurrou e revirou os olhos – Agora, se vocês não pararem com isso, eu não vou sair com nenhum dos dois, estão me ouvindo?!
– Sim. – ambos responderam com a voz baixa
– Mas, eu sou melhor. – Luke respondeu, empurrando Nico e sentando-se no lugar vazio ao lado de Thalia
Nico sorriu, maléfico atrás da cadeira enquanto meu primo se inclinava para pegar um pedaço de bolo e apertou o que seria os peitos do meu primo, o que me fez gargalhar.
Luke se contorceu, apertando seus peitos e Nico o empurrou para o lado, sentando-se vitorioso.
– Luke, se você fizer alguma coisa... – minha mãe levantou a faca com um sorriso – Eu não tenho medo.
– Mas, mas... Por que ele pode ficar...
– Eles são namorados. Agora, senta.
– Isso é injusto!
– Ai, que saco, Luke, senta aí, logo. – resmunguei
Luke me mandou língua e sentou-se na cadeira a contragosto, passando geleia com raiva pela sua torrada.
***
Deveria ser umas três horas quando todos estávamos jogados no tapete sem noção do que poderíamos fazer, rindo de qualquer coisa e prontos para nos jogar na piscina.
Ou tudo isso, mas estávamos fazendo nada mesmo, o que não fez muito sentido.
Fechei os olhos, aproveitando as mãos de Percy fazendo uma massagem em minhas costas e bocejando.
– Vocês são tão gays. – Thalia resmungou – Quanto tempo vocês vão ficar brigando assim?
Provavelmente, ou certeza, ela estava se referindo a Luke e Nico que ainda jogavam indiretas a todo momento sobre quem seria o melhor.
Meu celular começou a tocar uma música estranha de despertadores.
– O que é isso? – Percy inclinou-se para o lado do meu corpo e pegou meu telefone
Ergui minha cabeça, tentando ver sua expressão e o que era aquilo. Suas bochechas ficaram vermelhas e ele colocou o telefone em frente aos meus olhos.
– Encontro com o Thomas? Sério? E nem é Thomas, é baby?
– Ah, Percy, você tem seu anjo e eu tenho meu baby. – resmunguei, sentando-me com certa dificuldade – Aliás, eu devo estar atrasada. Luke, me empresta seu carro.
– O Sam tá aí pra quê? – retrucou
– Luke! – resmunguei – Por favor! Eu não quero ficar alugando o Sam.
– Eu posso precisar do meu carro.
Percy revirou os olhos e puxou Luke meio confuso que se debatia. O moreno empurrou o corpo dele contra Thalia e pegou a chave de seus bolsos. Minha prima gritou enquanto Luke abraçava seu corpo e Nico começava a gritar.
– Vamos, eu te levo.
Dei um sorriso animado, pegando os tênis vermelhos que estavam na sala, largados em uma daquelas ocasiões.
Eu e Percy entramos no carro de Luke em um pulo, ele ligou o rádio e uma música de John Mayer tocava calmamente. Pendi minha cabeça para o lado, sentindo o sono tomar conta do meu corpo. Percy nem tinha ligado o carro.
– Você está tão cansada. – comentou – Por que não marca para outro dia?
– Porque no outro dia, eu também vou estar cansada. – respondi e abri um dos olhos – Anda logo com isso.
Percy revirou os olhos e ligou o carro, hesitante. Seu rosto estava contorcido em uma careta assim que saímos da minha propriedade, como se ele estivesse fazendo algo totalmente errado enquanto dirigia devagar pelas ruas quase vazias.
– O que aconteceu? – encarei seu perfil
Ele me encarou de esguelha, passando a marcha e puxando a gola de seu moletom verde.
– Vou ver Sally. – disse baixinho
– Sério? Que bom!
– E o marido dela. – completou
– E por que está assim? Sabe, ela é legal.
– Eu sei, mas... Ver que ela tem um marido e meu pai... Sei lá, só é estranho.
– Não está com medo, está?
– Por que eu estaria com medo? Eu devo ser bem maior que ele, e mais forte, mais novo...
– Mais sexy.
Percy riu e puxou meus ombros contra seu corpo.
– Atraente.
– Talvez, ele seja um pouco mais bonitinho.
Ele me empurrou de volta, rindo enquanto entravámos na avenida do hotel de Thomas.
– O que vocês fazem aí? Quero dizer, vocês só ficam conversando?
Dei de ombros.
– Basicamente. Ficamos conversando coisas do dia a dia, ou coisas que podem trazer um surto, sabe.
– Aquela coisa com S. – corrigiu
– É, isso.
– Chegamos. – sussurrou, desligando o carro
Inclinei-me sobre o banco e depositei um beijo em seus lábios.
– O que você acha de pegarmos um chá? – comentei, alegre
– Eca, Annie, chá é nojento.
– Não. Eles são bons. Ali atrás, naquela lojinha tem uns chás muito legais.
– Chá combina com o quê?
Encarei as lanchonetes ao redor do hotel e pulei em cima do banco.
– Cookies! Cookies com gotas de chocolate! Eu vou pegar os chás.
– Tudo bem, você está com dinheiro aí?
Encarei o porta-luvas, lembrando do segredo e Percy revirou os olhos, abrindo-o e tirando dinheiro suficiente para nós dois.
– Nós vamos comer rápido, ok? – avisei – Não posso me atrasar para minha consulta e você nem pode se atrasar para ver sua mãe.
– Vai logo comprar o chá. – assenti e pulei do carro
Caminhei até a pequena loja com ar condicionado ligado, puxei as mangas do meu moletom para baixo, agradecida por estar usando e fui direto para o balcão, sentando-me em um daqueles bancos altos.
– Sim, senhorita? – uma garota de cabelos curtos rosas debruçou-se com um sorriso enquanto eu avaliava o cardápio
– Ahn, eu vou querer... Esse doce de amêndoa é tipo... Doce?
A garota sorriu.
– Uhum, ele tem um gosto doce e delicado. É muito bom.
– Certo, eu vou querer um médio desse e... Um rubi. Médio, também. Ah, para levar. Pode colocar em copos ultra térmicos?
– É por fora.
– Sim, eu pago.
– Um minuto e já trago seu chá.
Assenti com um sorriso, girando no banco como se fosse uma criança.
E então, meu coração parou de bater por poucos segundos. Eu tinha certeza que pelo resto de minhas férias, eu não veria esse cara e ali estava ele. A cabeça brilhante pelas partes que não tinha cabelo e os olhos castanhos duros e severos enquanto conversava com o homem loiro à sua frente, seu bigode repugnante se mexia enquanto ele dava um sorriso orgulhoso e diminuía enquanto parecia brigar.
Nossos olhares se encontraram e senti que ele podia sacar a arma ali mesmo e acertar meu coração. Tentei controlar a respiração, fingindo que não tinha visto, mas meus olhos não se desgrudavam dos seus. Sua boca se abrindo em um sorriso sinistro.
A pessoa que conversava com ele virou o rosto também.
E Thomas me encarou com aqueles grandes olhos azuis tentando procurar algo.
E me achou.
Apoiei minhas mãos no balcão, não querendo acreditar no que estava vendo. Tentei sorrir, batendo continência de um jeito engraçado, virei as costas para os dois e encarei a menina com meus copos com o símbolo da loja.
– Aqui estão. Deu vinte dólares.
Saquei duas notas do meu bolso com as mãos tremendo e peguei meus copos, louca para sair dali. Assim que abri a porta com o quadril, Percy me parou com uma caixa de cookies.
– Ei, ei. Calma, viu um fantasma?
– Quase isso. – resmunguei e entreguei o copo que tinha um adesivo vermelho, o de rubi – Esse é o seu. Que tal comermos no carro?
– Pensei que poderíamos comer aí. Ar condicionado e tal.
– Não! – gritei, ele franziu a testa e se afastou, assustado – Eu... Não gosto desse lugar, eu estou meio gripada e não vai ser legal. – expliquei
– Tá, tudo bem. – deu de ombros, guiando-me com uma mão na minha cintura até o carro
Sentamo-nos no banco da frente. Percy falava alguma coisa sobre Kaya ser adorável e muito legal enquanto eu assentia, encarando a porta da loja de chá freneticamente. Aqueles olhos aterrorizantes não saiam da minha mente e a cada biscoito que eu pegava, sentia meus dedos tremendo.
– Aconteceu algo, Annie? Você está... Nervosa. – observou
– Não estou nervosa. Por que estaria? – bufei e enfiei um cookie na minha boca
– Certeza? Thalia me mandou uma mensagem, ela disse que o irmão dela chega hoje.
– Jason? Que legal, ele é um amor de pessoa.
– É, eu não o conheci. Estou pensando em levar a Kaya para conhece-lo também, o que você acha?
– É, pode ser legal. – mexi-me no banco vendo Thomas empurrar a cadeira de Jack, casualmente – Hm, acho que vou subindo. Você vem me pegar.
– Daqui à uma hora? Eu poderia te esperar e então, iríamos juntos...
– Percy, não arranja desculpa. – resmunguei e peguei apenas meu chá – Eu vou subindo. Nos vemos depois, tchau. – acenei e adentrei o hall do hotel
O hall era bastante conhecido e tudo que fiz foi acenar para a recepcionista que me recebeu com um sorriso. Adentrei o elevador e esperei chegar ao andar de Thomas, calmamente com minhas mãos trêmulas.
Tudo que eu queria era uma conversa franca entre nós para que, finalmente, eu pudesse entender o que droga estava acontecendo há minutos atrás.
***
– Você parece mais viva. – Thomas comentou, sentando-se em sua cama e tirando os tênis
Fazia meia hora que ele vinha me perguntando coisas típicas, meus olhos estavam cravados em suas costas, querendo arranhar aquele tipo atlético e bater nele para extravasar a raiva e o medo que senti desde que encarei Jack.
– Viva? É, adjetivo legal.
– Então, o que vem acontecendo nesses últimos dias?
– Quem é aquele cara que você estava no chá?
Thomas arqueou as sobrancelhas, confuso e empurrou os tênis com os pés.
– O Jack? – assenti levemente, sentindo minhas mãos voltarem a tremer só com a citação de seu nome – Ele é meu paciente. Você o conhece?
– Tom, ele é perigoso.
Meu psiquiatra riu e bagunçou os cabelos, andando pelo quarto até achar sua habitual prancheta de madeira, voltando-se a sentar.
–Todos vocês são perigosos, Annie. Nós somos perigosos. Ele só tem um problema... Leve. Fácil de ser tratado.
– Não estou dizendo da doença dele. Estou dizendo que ele é perigoso.
– Sério? – Thomas encolheu os ombros e riu – De que tipo? Ele é tipo aqueles caras super velhos dos filmes que comandam a cidade?
Arregalei os olhos e assenti.
– Basicamente isso.
– Annie, Califórnia não está te fazendo tão bem quanto pensei que iria. Vamos, me conte como está sua relação com sua mãe.
– Está... Legal.
– Ela me disse que hoje vocês teriam um jantar em família e me pediu para te liberar um pouco mais cedo, mas...
– Eu vou com o Percy. Então... Eu não estava sabendo desse jantar, posso ficar aqui o tempo que eu quiser.
– Conte-me mais sobre sua família. Estão todos reunidos aqui?
– Thomas, você já deve saber tudo sobre minha família. Nessa sua ficha deve ter a personalidade de todos.
– É, talvez. Quer me contar algo?
– Além de pedir encarecidamente que você se afaste daquele velho? Para seu bem? – Thomas riu e acenou com a cabeça – Não.
– E seu relacionamento com o Percy? – o loiro mordeu o lábio inferior e voltou a sorrir
– Não temos um relacionamento. – admiti, dando de ombros e arremessando meu copo térmico na lixeira mais próxima
– Ah, vocês não estão namorando?
– Estamos transando, não namorando.
– Tão sincera. – resmungou, anotando alguma coisa em sua prancheta
– É isso que você quer de mim, certo? Por que não me diz que doença o Jack tem?
– A paciente aqui é você, não eu.
– E por que não pode me dizer?
– É contra tudo que eu estudei. – explicou – Contra as leis de ética e deselegante.
– Deselegante quando ele pode te matar, me matar.
– Tenho certeza que ele não fará isso, Annabeth. – Thomas disse, entediado – Quem te falou isso?
– Quem se importa quem me falou isso quando sei que tudo isso é verdade? Ele tem um ódio imenso pela minha família! Ele é o cara que eu fui para a festa, ele odeia os Olympus.
– Annabeth, isso acontece. Rixa entre famílias, isso acontece muito. Tratei muitos casos do tipo. É normal. Nunca acontece nada além de ameaças.
– Thomas... – choraminguei, jogando-me na poltrona
– Annie, vamos ser francos... Eu sei que você está em Califórnia e está explodindo felicidade por estar aqui, mas você vai voltar, isso é um fato. Fazer inimizades com pessoas mais velhas e poderosas não vai lhe trazer nenhum bem.
– Então, você admite que ele é poderoso!
Thomas relaxou os ombros e apoiou-se em um dos braços.
– Claro, a família dele vem de uma longa linhagem bastante rica e respeitada aqui.
– Essa é a desculpa dele?
Meu psiquiatra bufou, raivoso e levantou-se.
– Chega, Annabeth! Eu já estou falando demais sobre ele. Você iria gostar se eu falasse da sua vida pessoal para um estranho? – balancei a cabeça, bufando – Então, chega, ok? Chega.
– E o que você quer de mim? – levantei-me e o encarei, tentando ser superior – O quê? Que eu leve isso numa boa? Aquele cara me odeia!
– Ninguém te odeia. – baixou o tom de voz e afagou meus cabelos – Ninguém. Você só está passando...
– Por um tempo difícil, eu sei. – resmunguei e me afastei de seu braço – Já passou o tempo?
Thomas encarou o relógio de pulso, sentando-se novamente e assentindo.
– Falo com sua mãe quando for a próxima consulta.
Resmunguei um “ótimo” e peguei minha bolsa, saindo dali o mais rápido possível.
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