Nightingale.
66 My Lifesaver.
Notas iniciais
"So crazy is this thing we call love and now that we've got it we just can't give up"
– Eu sei o que prometi, moleque! – Poseidon vociferou enquanto carregava um Percy desmaiado ao seu lado
Rob andava a nossa frente, desesperado. Eu podia sentir um misto de emoções: alegria por saber que sua irmã esteve tão perto, desespero por saber que a polícia local tinha três viaturas esperando para leva-lo para a delegacia. Poseidon apoiou-se em uma das paredes do fim do galpão abandonado.
Toquei a testa de Percy novamente, ele estava mais quente que o normal.
– Temos que leva-lo para o hospital logo, Poseidon. – resmunguei
– Você acha que eu não sei? – rebateu – Olha, moleque, você vai sair pelos fundos. Eles sabem quem eu sou. Então, pegue o primeiro avião com o dinheiro que está na minha casa. Você deve saber onde é, não é? – reclamou, o rancor e a raiva pesavam na sua voz – Minha esposa estará esperando por você. Não faça nenhuma gracinha. Nem procure pela Dare.
Rob assentiu, mas estava claro que não seguiria nenhuma dessas ordens. Ele virou-se para mim, seus olhos azuis eram nostálgicos, me traziam boas lembranças se não estivessem cobertos por uma camada de fúria e raiva.
– Eu sinto muito. – ele sussurrou
Sua mão direita agarrou a base do meu pescoço, depositando um selinho longo. Não tive forças de empurrar ou gritar, apenas deixei que ele o fizesse e desaparecesse em meio a plantação de trigo que crescia a nossa frente.
Poseidon não me perguntou nada, o que fiz questão de agradecer. Refizemos o caminho, dessa vez, eu ao lado de Percy, carregando-o.
– Sabe onde está minha mãe? – perguntei, sentindo o cansaço predominar em meu corpo
– Ela está em minha casa.
Não perguntei mais. O tom de voz dele me dizia claramente para que eu ficasse calada. Embora minha mente trabalhasse fervorosamente, me perguntando porque minha mãe estaria na casa de Poseidon. Ela odiava Anfitrite, e deveria odiar ainda mais estar no lugar do casal.
Não me fiz mais perguntas, continuei arrastando Percy, esquecendo que meus pés pareciam gelatinas, que meu coração bombardeava fortemente sangue para todo meu corpo, embora não parecesse chegar em lugares mais triviais. Quando finalmente chegamos a frente do galpão, a polícia já havia adentrado. Alguns carregavam as armas que foram apontadas para nós. Poseidon ergueu a mão, continuando a andar.
– Uma viatura agora para leva-los para o hospital.
Algum dos policiais assentiram. Tirei meu braço das axilas de Percy, vendo Poseidon ditar ordens enquanto levava seu filho e eu era carregada por outros braços estranhos.
Você pode descansar agora, me obriguei. Fechei os olhos e deixei tudo aquilo ser um sonho. Não existia cansaço, não existia dor, Percy estava bem.
***
– Marlee. – sorri quando vi a enfermeira entrar no meu quarto completamente branco
Sentei na ponta da cama, calçando minhas botas de cavalaria e pulando da mesma. Prendi meus cabelos em um coque frouxo, vendo a enfermeira me avaliar.
– Eu disse para não se meter em encrenca.
– Sinto muito lhe dizer, mas ela me procura. – pisquei quando ela veio até mim e me deu um copo de chá
– A médica te liberou, isso não quer dizer que você está totalmente boa. Você precisa comer bastante nutrientes, ok? Carboidratos. Ela já deixou tudo que precisa com sua mãe. Não tente fazer muito esforço físico, nem bebidas alcoólicas, drogas ou...
– Eu entendi. Não se preocupe. Eu sei tomar conta de minha saúde.
Marlee arqueou a sobrancelha, cruzando os braços.
– Tudo bem, talvez nem tanto. – mordi o lábio inferior e abaixei as mangas do suéter marfim, cruzando os braços, peguei o chá entre meus dedos – Como está Percy?
– Ele está bem. Talvez receba alta hoje. Quer ir comigo? Preciso dar sua comida.
– Seria ótimo. Obrigada.
A enfermeira sorriu. Peguei a bolsa que minha mãe tinha trazido com as roupas, fechando a porta branca do quarto sem dar uma única olhada para aquele quarto ridículo de hospital. Dei pequenos goles no chá, era doce e aquecia minha garganta cansada de medicamentos que me fariam “ficar fortes” e água.
Andamos pelo corredor, outra enfermeira entregou um carrinho de prata para Marlee que continuou andando até o último quarto.
Assim que ela o abriu, pude ver Percy sentado na cama, trocando os canais da televisão. Ele usava a roupa que eu usava há minutos atrás, seu cabelo estava bagunçado e tinha algumas agulhas inseridas em seu braço. Seus olhos verdes viraram para mim.
Não pude vê-lo há doze horas, momento em que ele foi levado para tomar soro, cuidar dos ferimentos e comer muito pelo que seria quase nossas trinta e seis horas de cativeiro.
Minha mãe explicou que ficamos desaparecidos logo após o jogo. Ela me disse também que Poseidon estava louco procurando por nós e suspeitava que ele tivesse um chip instalado em Percy já que parecia tão confiante. Fingi que não ouvi essa parte absurda da história enquanto minha mãe tagarelava sobre o quanto eu estava fraca e etc. Thalia também apareceu junto com Nico, eles disseram que Rob tinha aparecido na Goode e que ninguém sabia sobre o paradeiro dele depois de ontem à noite. Só souberam que ele era nosso sequestrador quando Percy disse a seu primo.
– Está tudo bem, Sr. Jackson? – Marlee disse, deixando o carrinho ao lado dele
– As comidas daqui são horríveis. Não podemos comer um cheetos ou algo mais salgado? – resmungou
Ri, sentando na beira da cama. Acariciei a lateral de seu rosto, afastando os cabelos de sua testa. Ele sorriu, segurando meu pulso e beijando minha palma três vezes.
– Você está bem?
– Deveria se preocupar com você. – resmunguei, pigarreei e afastei minha mão, cruzando os braços – Marlee trouxe essa comida, parece boa.
Percy arqueou a sobrancelha, fazendo uma careta.
– Sr. Jackson. – ela começou, pegando uma bandeja prata com quatro pés móveis colocando em cima do colo de Percy – Se não comer, não sai hoje.
– Você é bem persuasiva, hein. – ele riu, pegando a colher e fazendo uma careta ao ver a sopa que eu tive que comer mais cedo
– Vou deixa-los sozinhos agora. Venho em alguns minutos. Cuide dele para mim, Srta. Chase.
– Sem problemas, Marlee. – avisei quando ela fechou a porta e se foi
– Onde ele está? – perguntou, dando uma colherada cheia em sua sopa
– Não sei. Seu pai deve estar dando conta dele. – sussurrei – Você está bem, de verdade?
– Estou ótimo. Não sei porque continuam me mantendo aqui.
– Deve ser porque você não está tão “ótimo” assim.
Percy pigarreou e deu mais uma colherada na sopa rala, fazendo uma careta.
– Eu o odeio. Muito.
– Não tem que se preocupar com isso agora. – acariciei seu braço com calma – Passou.
– Eu queria socar aquela cara ridícula dele...
– O baile. – cortei-o, encarando a comida dele com certo nojo, embora estivesse sorrindo
Percy ergueu os olhos, confuso. Apontei para sopa e ele enfiou mais duas colheres na boca.
– O baile de fim de ano que a Silena estava organizando. Aquele... SWYA.
– Parece nome de moto japonesa. – resmungou, bebendo o chá
– É. – soltei uma risadinha fraca – Você vai, não é?
– É o último baile do ano. É óbvio que eu vou. Mas, por que você não quer que eu fale do Rob?
Eu estava tentando falar isso com todo mundo, mas simplesmente não saia. Eu tinha pena dele. Era isso. Eu tinha me apegado a ele o suficiente para saber que ele não seria capaz de arquitetar tudo aquilo sozinho, tinha milhões de coisas atrás daquilo e eu não fazia ideia do que era. Quem eram aquelas pessoas que manipularam Rob, até Poseidon? E o beijo. Eu não queria deixar na cara já que o único que tinha visto aquilo fora o pai de Percy, mas... Aquele beijo tinha deixado uma saudade imensa em mim. Era uma parte de Rob que eu nunca mais veria e eu insistia em guardar em algum lugar dentro de mim.
– Só quero esquecer tudo aquilo.
Percy dedilhou minhas mãos, subindo a manga do meu suéter com suavidade e carinho, seus dedos agarraram e acariciaram meu pulso.
– Eu quero tanto quanto você. E você sabe que eu te conheço mais que você. E, é muito provável que você saiba que meu pai não me esconderia o que Rob fez com você.
Desci a manga onde ele havia subido, afastando-me de seus dedos. Cruzei os braços, descendo da cama e ficando na ponta da mesma, encarando-o. Seus olhos estavam com um misto de emoções – eu não podia identificar nenhuma delas.
Apenas me abracei, tentando ignorar a imensidão de culpa que vinha até mim.
– Não foi nada demais.
– Por que você demorou tanto para me responder?
– Você tem que comer e eu preciso falar com minha mãe. Licença.
– Annabeth, você não vai sair daqui desse jeito.
Engoli em seco, de costas para ele. Eu poderia, sim, sair do jeito que eu quisesse e infelizmente, eu continuei parada, esperando por suas palavras.
Ouvi um suspiro profundo enquanto eu apertava ainda mais meus braços.
– Você gostava dele, não era?
Continuei calada. Ele entenderia como um não e tudo ficaria certo.
– Não era? – perguntou novamente, seu tom de voz quase caindo no desespero
– Por que você quer saber disso? – virei-me de uma vez, tirando uma mecha loira em frente ao meu rosto – Não faz sentindo. Passou. – destaquei – Ficou no passado, assim como todas as coisas que eu tive que perdoar.
– Se você não gostasse dele, não estaria me respondendo com coisas sem sentido. – Percy deu um sorriso triste, encarando o teto, mexendo a sopa com a ponta da colher – E eu não disse nada sobre perdoar ou não. Onde está querendo chegar?
Arqueei as sobrancelhas, percebendo a burrada que eu havia feito.
– Eu... Não é nada. Me desculpe. – aproximei-me novamente dele, afastando seus cabelos da testa – Eu só preciso ir. Tenho que ver minha mãe. – meus dedos tremeram sobre sua pele antes que eu me afastasse, suspirei – Sinto muito.
– Não importa. Eu... Você está bem, certo?
– Estou. – sorri
– Ótimo. Vou ter que procurar um terno pro baile. – comentou – Sou um gentleman. – ele piscou
Ri, beijando seus lábios ressecados com delicadeza.
– Vou procurar uma roupa de cabaré pra ser sua vadia.
Minha última visão foi seu sorriso, ainda triste, coberto por uma capa transparente de falsa alegria.
Fale com o autor