Nightingale.
26 Lucky.
Notas iniciais
"See I had a lot of crooks try to steal my heart"
O cheiro de maresia impregnava minhas roupas – as que eu queria queimar -, impregnava minha pele e a cada lufada de ar que eu buscava, sentia aquele cheiro indo para meus pulmões.
Abri meus olhos com certa dificuldade, sentindo minhas pernas doerem.
Tudo que eu via era o peito nu de Percy, como suas costas, algumas pintinhas se destacavam em sua pele meio bronzeada. Estiquei os braços, tentando sair do seu aperto em minha cintura, mas parecia impossível.
Continuei quieta, presa em seu calor, em seus braços em sua respiração contra o meu rosto e eu parecia feita por algum tempo.
Acariciei sua bochecha e as marcas roxas abaixo de seus olhos, aquelas marcas que eu tinha percebido agora e que provavelmente estava ali há muito tempo.
– Bom dia. – ele sussurrou, ainda de olhos fechados
Continuei calada, acariciando todo seu rosto e passando os dedos pelos seus lábios.
– Você está melhor?
Percy me deu a visão de seus olhos mais claros que o normal, eu nunca tinha visto aqueles olhos daquela cor. Era um verde musgo meio claro e era uma coisa estranha, mas ao mesmo tempo maravilhosa. Eu não conseguia entender como aquele garoto poderia ser tão perfeito.
– Annie... – ele deu um meio sorriso – Você está melhor? – repetiu
Assenti, ainda séria.
– Por que você está assim? Precisa de alguma coisa...?
– Pode dormir mais, se quiser. Não quero te atrapalhar.
– Você não está atrapalhando, meu amor.
Parei meu carinho instantaneamente. Ele me chamou de meu amor?
Afastei minha mão levemente e vi seus olhos se arregalarem.
– Quero dizer, Annie. Não foi nada, desculpe, eu deixei escapar e...
– Sem problemas. – disse, tentando sentar, mas ele prendeu ainda mais seu braço em minha cintura
– Se não tem problema, por que você está saindo da cama?
– Hm... – dei de ombros e encarei o teto – Ninguém nunca me chamou de amor. Não que eu me lembre. Você já me chamou de amor?
Percy riu e beijou minha bochecha, apoiando a cabeça em meu ombro e acariciando minha cintura mais uma vez. Daí percebi que já estava sem saia, mas não liguei.
– Não que eu me lembre. Você não gostou? Eu posso continuar a te chamar de Annie.
– Não, quero dizer, eu gostei. Obrigada.
– Não precisa dizer obrigada porque te chamei de meu amor.
– Hm, certo.
Ele apoiou o queixo em meu peito e sorriu.
– Meu amor. – então, beijou o vale entre eles
Foi impossível não sorrir.
– Eu gostei disso. – baguncei seus cabelos com as pontas dos dedos, sentindo seus beijos subirem e seu rosto ficar na altura do meu
– Do quê?
– Meu amor. – sussurrei contra seu rosto
Percy sorriu e encaixou nossos lábios. Como sempre, receptivos e macios, mesmo depois que acordamos. Eu me sentia protegida em meio aqueles braços, naqueles lábios, naquela dança louca e viciante que nossas línguas faziam assim que se encostavam. Sorri assim que acabou de me beijar, terminando com um selinho calmo. Ele se apoiou nos cotovelos, com o rosto na altura do meu.
– E então, meu amor, você ainda não me respondeu se você está melhor?
– Depois desse sorriso e desse beijo... Qualquer uma estaria melhor. – acariciei sua nuca com um sorriso abobalhado, bagunçando todos aqueles fios negros
– Você não é qualquer uma, Annabeth. Você é complicada. – ele suspirou e sentou-se em minha barriga, controlando seu peso – Vamos, me diga se você realmente está melhor. Eu sei o quanto aquele velho mexeu com você e...
– Você disse que ia mata-lo. De onde veio aqueles tiros?
– Estávamos tentando protege-las. – explicou e franziu o cenho – Não foi nada demais, era só um susto para ele, mas como sempre, não funcionou.
– Você ia mata-lo?
– Na primeira oportunidade que eu tiver, sim. – Percy inclinou-se e depositou um beijo em minha testa – Venha, vamos tomar um café da manhã... Você tem que esquecer a noite de ontem.
– Não é tão fácil. – Percy puxou minha mão com força enquanto eu era levantada com dificuldade e bocejava
– Aqui, coloca esse moletom. – ele me estendeu uma calça
Franzi o cenho, obedecendo sua ordem.
– Onde você arranjou isso?
– Não é tão difícil procurar coisas em seu quarto. Vem. – ele entrelaçou nossos dedos, puxando-me para fora do quarto
Ainda no topo da escada, eu já podia ouvir altas vozes e poucas risadas, o que não era comum quando todos nós estávamos reunidos.
Assim que chegamos à cozinha, todos os olhares foram depositados sobre nós e senti minhas bochechas arderem.
– Minha menina... – Mary chegou perto de mim, abraçando-me com força – Você chegou tão tarde! Onde você estava? Você não a levou para festas, a levou?
Percy riu e balançou a cabeça, deixando-me sozinha com minha governanta.
– Estou bem, Mary, obrigada. O que temos para hoje?
Luke carregava duas jarras de suco, levando-a para sala de jantar.
Fui a sua frente, impedindo que ele chegasse primeiro enquanto Percy ajudava os outros a levarem mais coisas para a sala de jantar.
Thalia estava encostada na parede que nos levava para a sala de estar, sua expressão estava séria e ela não parou de falar quando cheguei.
– Eu sei! Não... Pai, por favor. Eu sei que você está fazendo a coisa certa. Pai... Hera não vai se importar, ela te ama e ama o Jason como se fosse filho dela. Por favor. Eu quero vê-lo... Não... Pai. – ela bufou – Tudo bem, por favor, eu imploro. Certo. Também te amo, tchau.
Encerrou a chamada e me encarou com o olhar derrotado.
Sorri e fui abraça-la.
– Vai dar tudo certo, Thals. – disse, encaixando meu rosto em seu ombro
– Espero que sim. – ela suspirou – Espero que sim.
– Café da manhã posto! – Ethan cantarolou nos fazendo encara-lo
Ele estava completamente hilário. Sem camisa e com o avental da Mary, um pano rosa cheio de coraçõezinhos e seu cabelo ruivo estava preso com um laço, Ethan carregava um sorriso grande.
– Vamos, sentem-se. – Ethan nos empurrou até que estivéssemos sentadas lado a lado – Olhem, eu fiz esse bolo de laranja. Tive que acordar quatro horas da manhã para isso, ou seja, comam até que tenha acabado.
– Você pode ter colocado alguma coisa aqui.
– Essa foi a desculpa mais velha que você inventou, Annabeth. – ele revirou os olhos e nos empurrou cinco fatias do bolo – Agora, comam.
Seria um dia normal com minha mãe fora – o que eu já estava meio acostumada – se não fosse pelo silêncio tenso que instalou assim que Luke e Percy chegaram.
Thalia jogava todas as aquelas fatias de um lado para o outro, esfarelando-as e eu comia. Comia tanto que sentia que poderia vomitar toda a aquela comida a qualquer momento, Mary ainda trouxe seus cookies matinais e eu comia, muito.
As palavras de Jack voltaram, ecoando pela minha mente como um disco que sempre voltava para a mesma parte. “Posso te dizer que ele lutou até o último segundo”. Meu corpo começou a se arrepiar e parei de comer, encarando todos aqueles cookies com nojo. Talvez, só talvez se eu tivesse um pingo de sorte e tivesse uma sessão com o Thomas hoje... Talvez eu pudesse ter o surto que eu tanto esperava. Eu já tinha tudo.
– Vocês não podem se deixar afetar pelo o que aquele doente disse. – Luke começou, debruçando-se sobre a mesa e fazendo-nos encara-lo – Não escutei tudo, mas sei que ele disse muita merda.
– Jason, Luke. – Thalia falou, suspirando – Ele sabe onde Jason está. Isso foi o suficiente, não acha? Sinto muito, eu poderia continuar com isso até o fim se o Jason não estivesse envolvido. Mas, eu não posso...
– Nunca pedimos para você entrar, Grace. – Percy comentou, frio enquanto terminava seu sanduiche
– Não foi o que pareceu quando Alex nos meteu nessa.
– Escutem. – Luke fechou os olhos e cruzou as mãos – Eu realmente não queria que nenhuma das duas estivesse nessa, mas agora... Agora que todos aqueles merdas sabem que vocês estão de volta e que agora, vocês sabem de tudo... Vocês estão nessa querendo ou não.
– De certa forma, é bom para que vocês se dessem conta que não era um sorriso bonito que ia mudar a ideia dele. – Percy levantou o olhar para mim e desviou rapidamente – É a verdade.
– Vamos dar um jeito nisso. Vamos tirar vocês dessa. – Ethan afirmou – Não vai ser tão difícil.
– E qual é sua ideia, fodão?
O ruivo franziu o cenho e encostou as costas na cadeira, derrotado.
– Não sei.
– Podemos... – Nico disse – Podemos invadir a casa dele.
– Fora. – Percy descartou a ideia – Aquela casa é praticamente blindada. Você acha mesmo que o dono do tráfico de drogas iria deixar-nos entrar lá? Nico, mundo real.
Luke concordou com um menear de cabeça e suspirou alto.
– Nos infiltrar? – o loiro virou-se para Percy
– A primeira alternativa dele.
– Alex?
– Ela já fez demais. Se procurarmos ela de novo, algum homem dele irá avisá-lo.
– Certo. – Luke abaixou a cabeça e franziu os lábios – É quase impossível.
– Nossos pais?
Nico balançou a cabeça com a proposta de Percy.
– Sabe. – levantei da mesa – Deveríamos deixar isso de lado. Ou melhor, procurem pistas. Isso é a melhor coisa que podem fazer. Deixem-no pensar que desistimos, que não iremos conseguir. Depois que tiverem pistas, homens ao seu favor... Daí, vocês agem.
– Para onde você vai? – Thalia perguntou, vendo que eu voltava para as escadas
– Preciso encontrar o Thomas.
Com isso, subi para meu quarto.
Tomei um banho rápido, fazendo um rabo de cavalo com meus cabelos e pus um vestido de verão. Verifiquei se tinha um maço de cigarros em minha bolsa carteiro, junto com o isqueiro. Ok. Olhei-me no espelho e apesar das manchas roxas abaixo dos meus olhos que foram rapidamente escondidas por pó e corretivo, eu parecia apresentável. Talvez, só talvez, Thomas não se assustasse ao ver que eu tive que procura-lo e não ao contrário.
Desci as escadas, batendo-me com Percy sem camisa. Como sempre, de se apreciar.
– Não acha que deveria ficar aqui? – ele segurou meu braço, em um movimento rápido prensando meu corpo contra a parede e seu peito
– Vocês vão se virar sem mim. Thalia vai pro Zeus, não é?
Percy assentiu e beijou minha testa, com os olhos fechados.
– Não quero que vá atrás de Thomas.
– Eu preciso dele. – sussurrei, afastando seu peito – Rachel é seu anjo, não é? – ele franziu o cenho com minha pergunta e assentiu, relutante – Thomas é o meu.
Afastei-me do seu peito e comecei a descer.
– O que eu fiz? – ele disse alto, acompanhando meus passos – Não foi porque eu te chamei de amor, foi?
Bufei e virei-me para ele.
– Percy, você passou a semana toda com os meninos. A semana toda sem se importar comigo, Thomas esteve aqui todo esse tempo se você não percebeu. – desviei meu olhar e respirei fundo, tomando coragem – Aliás, vocês podem pensar em coisas do tipo sem mim, certo? Eu sou apenas a isca.
– Você não é a isca...
– Tá, eu sei. – soltei meu braço de sua mão, afastando-me – Eu preciso ir.
Desci as escadas com passos rápidos, sem me importar se estava, de novo, machucando-o. Sem pensar se novamente, ele voltaria com aquela pose fria de antes. Eu só precisava sair dali, esquecer que a noite de ontem aconteceu e Thomas sabia o melhor jeito de fazer isso comigo.
Me encontrei com Luke e segurei seu ombro para que ele prestasse atenção em mim.
– Preciso de seu carro. – pedi – Por favor.
– O Sam tá livre hoje.
– Eu sei, mas eu preciso de seu carro. Por favor, confia em mim.
Luke olhou por cima do meu ombro e acompanhei seu olhar vendo Percy nos encarar com uma expressão de reprovação.
– Lembre que você não gosta dele, certo? E Sam vai levar a Thalia, ela está bem mais abalada que eu. Você consegue imaginá-la indo de táxi? O Sam é o único que confiamos.
– Por que tão baixa, Annabeth? – Percy perguntou, agora do nosso lado
Revirei os olhos e mordi o lábio inferior.
– Eu não vou demorar. É só uma consulta de emergência.
Luke assentiu, apontando para o cômodo ao lado.
– Mais de duas horas, nós vamos atrás de você.
– Duas horas, cara?! Você é louco? Sabe, o que pode acontecer em duas horas?
– Eu sei, Percy. E agora, eu sou o primo dela e ela está sobre minha responsabilidade. Pode ir, Annie.
Sorri, beijando sua bochecha, sem antes deixar de piscar para o moreno. Peguei as chaves do carro em cima do centro de mesa e corri para o jardim.
O carro de Luke era uma caminhonete, com aparência meio velha, mas era muito boa. Saí dos limites da propriedade, dirigindo do melhor estilo californiano até chegar ao hotel do meu psiquiatra. Deixei o carro estacionado no meio-fio e desci, em meus coturnos. Acho que nesse momento, com aquela brisa quente açoitando meu rosto, os fios do meu cabelo arranhando meu rosto, meus coturnos desamarrados e despojados, a minha bolsa de couro, meu vestido balançando... Eu me sentia californiana outra vez.
Entrei no hall do hotel, indo direto a recepção.
– Thomas Jones. Andar três, apartamento quatro.
A recepcionista me encarou com um sorriso e sussurrou algo enquanto teclava no telefone.
– Sinto muito, senhorita, ele não está. Qual é seu nome?
– Annabeth Chase. – dei um sorriso e suspirei – Tudo bem, eu devia ter avisado que estava vindo. Obrigada.
– Não, espera. – ela se distanciou e voltou com uma pasta classificadora – Annabeth Chase, aqui. Você está liberada para entrada. Só espere um minuto, eu vou pegar a chave.
Franzi o cenho, mas continuei sorrindo. Eu não sabia que isso existia em todos os hotéis. Esperei poucos segundos até que a mesma recepcionista voltasse com uma chave e eu andasse, animada, até o elevador.
Não demorei muito para chegar ao terceiro andar.
Algumas pessoas entraram assim que saí e procurei pelo quarto de Thomas. Reconheci imediatamente e adentrei o quarto.
Tudo estava comportadamente arrumado. A cama estava arrumada e bem passada, a mala dele estava aberta de um lado com algumas roupas dobradas em cima, sentei-me na cama, balançando as pernas assim que tranquei a porta.
Respirei fundo. Eu não podia ficar sozinha. Era como assinar que eu estava louca, mas agora... Enquanto eu deixava minha bolsa de lado, procurando pelo meu cigarro, sentia que só aquilo não ia me ajudar. E mesmo assim, eu não poderia deixar o quarto dele fedendo de fumo, sabendo que ele odiava aquele cheiro.
Controlei minha respiração mais uma vez, ouvindo a voz de Jack ecoar pelos meus ouvidos. Eu precisava me livrar daquilo. Não percebi quando já estava trancada no banheiro, encarando meu reflexo e passando as mãos pelas minhas bochechas. Liguei a torneira, vendo a água jorrar com força e enfiei meu indicador, virando-o de um lado para o outro, lentamente.
Abri a privada com a ponta do meu coturno e deixei a torneira ligada, ficando de joelhos diante da mesma. Fechei os olhos, respirei fundo e abri minha boca, esticando minha língua, enfiando, quase no mesmo tempo, meu dedo o máximo que podia para provocar aquela ânsia de vômito.
Senti aquela sensação de quando eu ficava de ressaca... Para esquecer tudo, a mesma sensação que eu senti por dois anos desde os nove anos quando entrei na puberdade. Minha garganta ardeu assim que vomitei por mais de dois minutos. Apoiei minhas mãos em alguma parte da privada, tentando me levantar, procurando forças que eu sabia que eram inexistentes em meu corpo. Depois de muito esforço, eu estava com os cotovelos presos em cima da pia de mármore, ainda ouvindo a água jorrar e tentando controlar minha respiração. Enfiei minha mão debaixo da água, sentindo nojo de mim mesma, repugnando aquela pessoa que eu via no espelho.
Ninguém teria orgulho de mim. Ninguém.
Molhei meu rosto, vendo a maquiagem se desfazer aos poucos, por sorte, o pó desaparecia sem fazer muitos estragos. Eu estava ficando cada vez mais pálida e minhas pernas ainda fraquejavam.
– Annabeth? – ouvi batidas na porta
Senti minhas mãos tremerem ainda mais, porém continuei a lavar meu rosto, tentando trazer alguma aparência de saúde.
– Oi? – gritei, testando minha voz
Minha garganta ainda ardia muito e por sorte, minha voz não estava rouca o suficiente.
– Estou te esperando.
Não respondi. Sequei meu rosto com a toalha e me encarei no espelho novamente. Não estava totalmente satisfeita com aquela aparência de que tinha visto um fantasma, contudo estava melhor que antes.
Abri a porta e sorri para Thomas sentado na cama.
– Fiquei surpreso quando Amy disse que estava aqui.
– É, eu finalmente tomei vergonha na cara e vim falar com você. – dei uma risadinha sem graça, sentando-me ao seu lado
– Aconteceu alguma coisa?
Assenti e cruzei as pernas, vendo seu olhar descer para as mesmas e rapidamente, ele levantou-se.
Suspirei e comecei a lhe contar tudo.
Tipo, tudo mesmo.
Claro, tirando o nome de Jack do meio e de que nossos pais foram agentes da CIA, tirando o fato de que daquela vez, Luke levou um tiro e foi meio óbvio que não citei que Percy e os outros carregavam uma arma pra cima e pra baixo. Na verdade, eu contei o suficiente para que Thomas entendesse porque eu estava tão mal. No caso, tudo em relação ao meu pai.
Ele afagou o topo de minha cabeça e suspirou.
– Annie, por que você não esquece? Tudo que você queria era se divertir aqui em Califórnia, sua mãe deixou você voltar para que... Bem, para que você tivesse um pouquinho de calma e quem sabe, nem precisasse se lembrar de tudo. Não foi isso?
– Mas, não é isso que está acontecendo! Tá tudo de cabeça pra baixo, tá tudo dando errado!
– Calma, ok? Porque... Uma festa! O que acha? Claro, sem bebidas.
– Thomas, vem cá. – revirei os olhos, rindo de verdade pela primeira vez no dia – Você acha que alguém ia para uma festa sem bebidas? Só minha família, não é?
– É. – ele franziu os lábios – Certo... E sabe, vou te dar um conselho, você deveria ficar longe desse velho. Ele não vai te fazer bem e outra coisa, Annie... – ele afagou minha bochecha e sorriu – Quando você quiser sair daqui, sua mãe vai te obedecer, e você sabe disso, linda.
Sorri ainda mais com seu elogio e suspirei.
– É, eu sei. Eu não quero sair, na verdade.
– Hm, o que acha de eu despistar sua mãe?
Arqueei as sobrancelhas, confusa.
– Não, não... Se ela sonhar que você está fazendo isso, vai ser horrível.
– Certeza?
– É, não faça isso. – confirmei, embora uma parte de mim estivesse implorando para ouvi-lo
– Ok. Mas... Se pensar novamente e achar que ficará melhor desse jeito, só é me ligar.
– Certo. – sorri
– Quer um chá? Eu achei uma loja de chás na esquina, podemos conversar mais lá.
Assenti, feliz.
Chegamos ao hall e andamos até a esquina da direita, uma loja pequena e aconchegante, na verdade, parecia uma loja, mas assim que entramos demos de cara com um lugar quente e confortável. Sentamo-nos em uma mesa perto da janela, esperamos um cara nos atender e nos trazer um cardápio com todo tipo de chá.
Bem, foi assim que passamos a tarde até que eu tive que pegar a caminhonete velha de Luke e voltar para minha casa. Mais feliz que antes, definitivamente.
Antes de atravessar os portões, pude ver um carro estranho no meio-fio, mas ignorei.
Sam ainda não tinha chegado, deduzi que ele ainda estivesse acompanhando minha prima. Com o resto de alegria que Thomas havia me dado, abri a porta.
E daí minha alegria se foi.
E sabe de uma coisa que eu percebi desde que eu cheguei? Que minha felicidade não durava um dia inteiro. Nunca.
Respirei fundo e tentei colocar na minha cabeça que tudo estava bem.
Meu ódio por Jack estava, oficialmente, superado.
– Boa tarde. – dei um sorriso grande, trancando a porta atrás de mim
Percy ergueu os olhos para mim e deu um sorriso satisfeito. Rachel – a vadia, filha da puta – que estava deitada em suas pernas com os cabelos ruivos jogados pelo meu sofá levantou-se rapidamente.
– Annabeth. Hm, que bom lhe ver.
– Infelizmente, não posso lhe dizer o mesmo, querida. – afastei-a assim que ela chegou perto de mim
– Annie, modos. – Percy revirou os olhos
– Olha quem está tentando me ensinar modos, hm? Onde está o Luke?
– Saiu com Ethan.
– Nico?
– Dormindo.
Bufei e deixei minha bolsa em cima do sofá.
– Como você chegou aqui? – virei-me para Rachel e percebi que o sorriso de Percy estava vacilando
– Hm, o jatinho do meu pai. Mas, ah, bem, não se preocupe, não vou passar muito tempo. Meus pais planejaram uma viagem indesejada e eles não gostam muito de Los Angeles, estamos indo embora amanhã a tarde.
– Que ótimo! – dei um sorriso para a ruiva – Adoro seus pais.
– Quer conversar conosco? – Percy disse, seu sotaque inglês parecia ter se multiplicado – Estamos comentando sobre como o clima daqui é bom.
– Ah, isso quer dizer, ménage em um tom educado?
Rachel corou, fortemente e deu um sorriso.
– Não, porque nós não somos namorados e... Vocês estão tendo algo, certo?
– Nada que você deva se importar, querida. – resmunguei e virei as costas para ela – Podem continuar seu encontrozinho na minha casa.
– Podemos sair, se quiser. – Percy ameaçou se levantar e o fuzilei
– Aqui. Boa viagem, Dare. – mexi a mão, indiferente e continuei meu caminho a cozinha
Mas, claro... Que tudo tinha que dar errado.
Eu ouvia a voz de minha mãe, ainda estava calma. E outra voz, uma voz conhecida.
Cheguei mais perto, ficando no mesmo lugar que estava quando espionei a conversa dos meus tios e dos meus primos. Consegui ver minha mãe sentando-se na mesa de madeira com um sorriso enquanto colocava o bule de café recém-feito em cima da mesma. Poseidon estava com um sorriso enquanto enchia sua xícara e encarava minha mãe com um meio sorriso.
Pareciam um típico casal velho.
– E você veio aqui só pra isso?
– E pra te ver também. Aposto que existem grandes chances de você nunca mais voltar para Hampshire.
– Se Annabeth se curar, sim. As chances são enormes, na verdade. – ela terminou com um sorriso confiante
Poseidon suspirou e começou a rodar a xícara em suas mãos. Ele encarou ambos os lados, distraidamente e voltou a conversar com minha mãe.
Me lembrem de nunca mais ouvir a conversa dos outros. Já está virando uma rotina na verdade.
– Era sobre ela que eu queria falar.
Minha mãe franziu o cenho e bebericou seu café, distraída.
– Aconteceu algo que eu deveria saber?
– Atena... Se você não percebeu, nossos filhos... Bem, nossos filhos voltaram a namorar.
Ela sorriu, animada com a ideia.
Que tipo de mãe eu tinha?
– É, eu sei. Na verdade, eu tentei afastá-lo no começo. Sinto lhe dizer, mas eu achava que ele era um erro para minha menina, mas, no final, Afrodite me abriu os olhos. Ela disse que eles faziam um bonito casal e embora, eu ainda não concorde com isso, quero deixar claro que Annie parece feliz com ele e bem, se eles acharem que é o certo, eu vou estar aqui para apoiar.
Me senti do mesmo jeito quando ela estava conversando com Thalia sobre nós e infelizmente, um sorriso ainda mais bobo escapou de meus lábios.
Entretanto, Poseidon parecia preocupado com o que ela acabou de falar.
– Atena... – ele segurou sua mão e a olhou, profundo – Lembra-se quando ficou grávida da Annabeth? O que tínhamos?
O que tínhamos? Força maior que vive no céu, você não acha que já é demais para dois dias e meio?
Não, mas a culpa era minha, primeiro: por procurar falar com um doente mental e segundo por escutar a conversa dos outros. Isso ainda ia me levar pro buraco.
– O que está insinuando, Poseidon? – minha mãe tirou sua mão da dele e levantou-se, a expressão claramente confusa
– Você sabe o que estou insinuando.
Não podia ver minha mãe, provavelmente ela estava encostada na pia, encarando-o com uma expressão raivosa.
– Bem, estou insinuando que, talvez, Annabeth seja minha filha.
Aquela frase.
Era aquela frase.
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