Nightingale.
35 Just Bent.
Notas iniciais
"You're holding it in, you're pouring a drink, nothing is as bad as it seems. We'll come clean"
Percy e Luke estavam focados em qualquer ruído que fosse proferido pelas caixinhas de sons.
A primeira câmera apontava por um corredor infinito. Ethan parava para conversar com alguns caras de vez em quando, parecia se mexer demais e por fim, voltava a andar.
Isso se deu por uma hora.
Eu estava cansada de ficar sentada, bebendo suco de uva enquanto o clima estava duplamente tenso sem minha prima para fazer piadas ou Nico para nos ajudar em qualquer coisa que pudéssemos precisar.
Então, lá estávamos nós: uma inútil, um Luke preocupado e um Percy irritado.
Eu queria vomitar toda a comida que consegui colocar logo que desci com o Percy: uma macarronada que esquentei no micro-ondas, e ainda assim, queria acabar com o pote de soverte de baunilha que Luke tinha na sua geladeira. Contudo, eu continuei parada, mastigando minhas unhas, fazendo com que o moletom verde de Luke cobrisse meus punhos cerrados.
Percy vestia um cardigã de Luke enquanto andava de um lado para o outro, os dedos, vez ou outra, afundados nos fios bagunçados de seus cabelos. Por outro lado, Luke estava usando uma regata e bermudas, bebericando seu milésimo café. Meu primo não havia comentado nada e nem parecia em condições para tais. Eu já havia desligado meu celular por tantas chamadas que minha mãe ainda tentava, e então eu realmente me senti sozinha.
Um ruído mais alto foi ouvido.
Todos nós pulamos em frente ao computador.
Ethan havia tropeçado.
– Eu... Acho que vou subir... Tem algum problema?
Percy deu um sorriso de lado, balançou a cabeça e continuou a andar de um lado para o outro do jeito sério e estressante que começara a fazer há uma hora atrás.
Luke nem se virou para mim.
Deixei meus pés me levarem para o quarto que estávamos hospedados. A mesma cama de casal ainda bagunçada parecia me receber de braços abertos, o cheiro de Percy impregnado em cada pedacinho da cama, assim como o cheiro de sexo e o cheiro suave de meu perfume.
Uma mistura viciante, devo admitir.
Eu não consegui ficar cinco minutos ali.
Voltei a perambular pelo corredor, tentando esquecer a dor que me consumia e focar em qualquer coisa, como a cor das paredes.
Não me prendeu por muito tempo.
E eu acabei não percebendo quando estava de volta, sentada ao lado de Luke, bebericando um novo cappuccino e esperando que Percy, finalmente, se sentasse.
– Vai demorar?
– Não... Não sei. – Luke franziu o cenho, confuso
– Percy, vem sentar com a gente.
– Não precisa. – respondeu, tentando sorrir
– Quer um café? Eu posso fazer. – ofereci-me
– Não precisa, obrigado.
– De verdade?
Ele só assentiu, parecendo enjoado com a mesma conversinha, voltando, então, a andar de um lado para o outro.
Meus olhos voltaram a focar na câmera que mexia continuamente, dando-nos uma visão de um corredor sombrio, com pouca iluminação, parecia impregnado de musgo, as paredes eram escuras e portas de madeira estavam por todos os lados. Ninguém parecia estar ali.
Parecia um lugar subterrâneo, na verdade, como vemos em filme de terror. Se a câmera fosse de HD, tenho certeza que veríamos teias de aranha.
– Onde ele está? — perguntei
Luke me encarou de cima, encolhi meus ombros e ele desviou o olhar para o pequeno cubo a nossa frente.
– Em algum lugar da casa do Jack, se ele voltar vivo...
– Ele tem que voltar vivo. — Percy o interrompeu sem encara-lo
– Talvez, saberemos onde é exatamente.
Assenti, começando a fazer um barulho irritante com as unhas no mogno.
Nenhum deles pareceu se importar.
– Cheguei.
A voz abafada de Ethan proferida pelas caixinhas de som fez Percy parar de andar de um lado para o outro e todos nos curvamos em direção do notebook. A imagem mostrava o mesmo corredor, porém conseguíamos ver o final. Dois homens conversavam distraidamente na frente da porta no fim do corredor.
Tudo que ouvíamos era conversas abafadas, passos regularmente devagar (provavelmente de Ethan) e gritos ao longe. Muitos gritos.
– Onde você está? Onde eles estão?
– Calma, loirinha.Não posso ser pego logo agora. E ai, cara?
– Com quem você está falando?! Ethan!
– Annabeth, se você continuar gritando, eles podem escutar ou Ethan pode nos fazer perder a comunicação. Não perdemos tanto para perder o que mais precisamos agora.
Tentei concordar, no entanto eu ainda estava agarrada a madeira como se fosse minha única salvação. Senti lábios quentes em meu ombro e encarei Percy beijando-me levemente, ameaçando um sorriso e afagando minha bochecha logo em seguida.
Sorri.
Mais passos. Mais gritos. Franzi o cenho. Deixei minha xícara de lado, o café só ia me fazer sair pulando de ansiedade.
Os gritos estavam mais próximos. Eram gritos de dor, e em seguida, vinham gemidos torturantes e mais gritos, dessa vez de um homem.
Eu não entendia nada até a voz feminina gritar um "por favor".
Era Thalia. Eu tinha certeza.
– Ethan é ela. Tira ela daí, por favor! — sussurrei, segurando o comunicador em meus dedos
Luke me afastou, deixando o rádio no lugar de antes e segurando meus ombros.
– Meu Deus.
– Ethan? — Percy avançou contra o rádio — Eles estão ai? Eles estão bem? Meu primo... Ele está com ela?
– Calma, eu...
– O que tá acontecendo com ela, porra? Diz logo! — Luke gritou de uma vez
Ethan pareceu respirar fundo mais uma vez e mais um grito foi ouvido, senti minha garganta fechar e lágrimas brotarem em meus olhos. A nossa frente, na maldita câmera, tudo estava negro.
Luke começou a verificar todos os cabos possíveis com os dedos trêmulos, Percy fazia o mesmo enquanto eu deixava minhas mãos ocupadas cobrindo minha boca, expulsando as lágrimas de meus olhos.
Percy bufou ao verificar que tudo estava correto, resmungando algo para Luke.
– A câmera dele. Ethan, pode nos escutar?
– Posso. – sua voz era baixa e tremula
– Aconteceu algo com sua câmera, dude, você consegue consertar?
– Acho que agora não seria uma boa hora.
– Ethan. – Luke suspirou, sentando-se, por fim, os olhos fechados e as mãos cruzadas no colo – Diz o que você está vendo.
– O Nico tá bem. Mas... -sua voz tremeu e abaixou logo em seguida — Estão torturando a Thalia, cara.
Meu mundo pareceu cair.
Estão torturando minha irmã. Eu queria gritar com todos meus pulmões, no entanto, eu não conseguia fazer nada além de deixar todo meu corpo tremer em convulsões.
– O quê? – Luke deixou escapar
– Plano B. – Percy pulou de onde estava e ligou meu celular em segundos
Não pude reclamar, eu ainda estava chocada demais com os gritos que se seguiam quando me dei conta da verdade. Luke lutou com todas suas forças para levantar-se, eu podia ver. Eu não precisava disso, entretanto. Podia ficar toda a noite ali, sentada, encarando a tela negra e aqueles ruídos assustadores.
– Eu sei o que você está fazendo! – Percy gritava atrás de mim – Pode ir dizendo onde está o Jack... O quê? Você está do lado dele! Sabemos disso, seu idiota... Não seja covarde... Não estou alterado, cala a boca... Nós vam... Porra!
– O que foi? – Luke argumentou
– Ele desligou. Ele disse que ia chamar a polícia. Psiquiatra de merda. – reclamou
– Plano C, então. – a voz de meu primo estava mais baixa que o normal
– Você liga.
Luke suspirou alto.
– Certo. Eu ligo.
***
Não lembro qual foi o momento que tio Zeus passou pela porta soprando fogo. Seu rosto estava mais vermelho que o normal e não usava seu típico terno de risca, estava com uma camiseta branca e bermudas. Ele parou de culpar os garotos assim que viu meu estado.
Também não lembro o momento em que Luke colocou uma arma em minha mão, olhou fundo em meus olhos e disse baixinho “só use se realmente precisar”.
Na verdade, eu lembro de cada momento, só quero esquecer do mesmo jeito que esqueci a morte do meu pai.
Minha mão suava assim que Zeus planejou o plano em um cartaz atrás da caminhonete de Luke. Seus olhos azuis eram duros e quando repousaram sobre mim, pareceu ter pena.
Ele me perguntou três vezes se eu não queria voltar.
Eu neguei todas.
Já estávamos em frente à casa de Jack. Tínhamos o plano principal e o plano reserva.
Luke entraria, atiraria em um dos seguranças e obrigaria algum deles a leva-lo para Jack. E então, entrávamos pelos fundos. Percy atiraria em qualquer cara que estivesse em nossa frente e meu tio nos levaria até a porta onde Thalia estava presa.
Na teoria – e na cartolina onde Zeus desenhara tudo isso – parecia muito fácil, na prática, entretanto, tínhamos certeza que algumas coisas dariam errado.
Zeus balançou a cabeça, em um sinal para que Luke fosse dar início ao plano. Nosso carro já estava dentro da propriedade. Percy havia batido com um ferro na cabeça de dois seguranças que guardavam os portões. Ninguém fora chamado.
Meu primo estava ao meu lado, sua respiração estava entrecortada.
– Você consegue. – o encorajei, tentando sorrir – Vai dar certo.
– Espero que sim.
Ele levantou os olhos azuis pastosos para meu tio, com um suspiro, ele abriu a porta de sua caminhonete e pulou para a passarela de pedras.
Mais dois seguranças estavam conversando em frente a casa. Meus olhos estavam frenéticos, seguindo cada passo surdo que Luke dava. Ele deveria estar um metro de distância enquanto nosso carro ainda estava longe o suficiente para que ninguém na frente da porta nos visse.
Um tiro.
Luke estava entre os arbustos quando um dos homens caíram, desacordado. Sua cabeça jorrava sangue. Meu coração palpitava.
– Annie... – Percy segurou meu pulso
Em outras ocasiões, eu explodiria de alegria por ele estar falando comigo. Agora, eu gritava em minha mente que meu primo havia matado alguém para fazer com que aquele louco fosse preso ou algo parecido. Mas meu estômago afogava.
– Fecha os olhos, querida. – Zeus acariciou o topo de minha cabeça
Eu não queria obedecê-lo. Mas assim que ouvi o segundo tiro, deixei meus olhos se fecharem por algum tempo até a movimentação do carro me fazer perceber que aquilo não era um sonho. Era real. Estava acontecendo.
Engoli em seco quando Percy se ajoelhou a minha frente, de um jeito esquisito pelo pouco espaço que tínhamos no carro.
– Olha, você pode ficar... – balancei a cabeça, ele suspirou – Meu amor. – meu coração voltou a pular contra meu peito e eu queria chorar, mas forcei as malditas lágrimas a ficarem guardadas
– O que eu tenho que fazer? – murmurei, o mais baixo possível para que Zeus não tivesse ideia do que estava acontecendo
Percy suspirou e deixou uma arma pousar em minhas mãos. Tinha um calibre pequeno e pesava. Na verdade, eu não fazia mínima ideia do que fazer com aquilo, sabia que se eu usasse de maneira errada, teria consequências drásticas, mas naquele momento, eu só queria usar aquilo para estourar a cabeça de Jack.
– Aqui... A arma destrava. – ensinou, apontando para algum lugar que não soube reconhecer – E aqui... É o gatilho. – assenti, me sentindo uma criança, aprendendo algo que já sabia – E só use, por favor, quando estiver em... Situações... Que você sabe que não sairá viva. Ok?
Assenti e soltei o ar que estava prendendo.
– Jackson. Adiante. – Zeus disse no banco da frente
Percy balançou a cabeça e pulou do carro. Luke estava na porta da frente, chutando os corpos com a ponta do pé, talvez para verificar se eles realmente estavam mortos, suas mãos pareciam trêmulas e ele carregava as duas armas dos caras que foram mortos.
– Vem. – Percy segurou minha mão, batendo no próprio ombro e encarando Luke que assentiu, como se fosse uma espécie de sinal
O moreno me puxava com força, nossos passos eram altos, ecoando a casa que, por sorte ou não, estava sem nenhum segurança ao redor. Percy pediu para que eu me agachasse ao lado de uma parede para que ele pudesse “verificar“ as portas dos fundos. Ele estava com a arma presa na cintura, do mesmo jeito sexy que eu adorava, naquele momento, eu não estava pensando naquilo, claro. Em suas mãos, ele estava com o mesmo ferro que usou para deixar os seguranças desacordados.
Ele desapareceu por cinco minutos. Exatos e malditos cinco minutos até Zeus estar agachado ao meu lado, olhando para os dois lados, desconfiado.
Percy apareceu, deixando o cabo de ferro cair e me ajudando a levantar.
– Área livre. – avisou
– Fácil demais. – Zeus avaliou os dois lados e cruzou os braços, empunhando a arma em um rápido movimento – Fique atento, garoto, ele está planejando alguma coisa.
Ele apenas assentiu enquanto meu tio pulava sobre os corpos e adentrava os fundos das casas.
As empregadas gritaram e então, Percy avançou, eu atrás, tentando parecer intimidadora com minha arma trêmula. Ele fez todas as empregadas entrarem no quarto e as trancou lá. Zeus estava bem mais a frente, eu podia ouvir ruídos de briga que não duravam por segundos... Esperava eu que fosse meu tio que estivesse ganhando.
O corredor por onde estávamos passando era amplo, arejado e cheio de luzes. Percy teve que atirar em cinco seguranças até que alcançamos um elevador onde Zeus segurava, esperando por nós.
Eu juro que eu queria ficar ali, quietinha, esperando que tudo aquilo terminasse.
Tive que gritar para minha mente e para minhas pernas que Thalia estava lá com Nico, que eles precisavam de nós e não era porque eu estava morrendo de medo que eles iriam se livrar daquilo.
E por fim, lá estávamos nós, descendo em um elevador que podia caber oito pessoas com as luzes falhando sem nenhum espelho. Minhas costas encostadas no ferro frio enquanto o pé do meu tio batia rapidamente contra o aço. A respiração de Percy era entrecortada, como se ele fosse claustrofóbico ou algo do tipo.
Depois de poucos minutos (que pareceram séculos), as portas se abriram e nos revelaram um corredor estreito que só dava para passar duas pessoas lado a lado. Zeus foi à frente.
Percy estava poucos passos a minha frente, a arma em frente ao seu corpo, olhando para os dois lados, desconfiado a cada passo. Minha arma ainda estava presa em minha cintura e eu carregava o ferro de antes, eu me sentia mais segura com algo que eu sabia usar. Minha respiração saindo com ruídos estranhos que me faziam ter vergonha de mim mesma.
Gritos. Gritos agudos.
– Por aqui. – Zeus chamou com a voz baixa
E então, o inferno começou.
Vários homens nos cercaram, eles tinham sacos negros e dois deles tinham armas apontadas para mim e para Percy. Zeus os encarou com um sorriso de lado.
– Onde está Jack?
– Você nunca vai ver o chefe, idiota.
Zeus continuou a sorrir. Um dos homens que tinham a arma estavam a minha frente, encarando Percy enquanto o outro estava em frente ao meu tio, os outros pareciam prontos para atacar, caso algo acontecesse.
Percy atirou. Fechei os olhos, sentindo meus braços serem puxados para trás, minha mão esquerda prendendo o ferro com toda a força, mexi o suficiente para que atingisse a coxa do cara que havia me pegado, repeti o movimento em suas costelas ouvindo seu gemidos altos. Bati novamente só para garantir que ele não levantaria por muito tempo.
Olhei por cima do ombro. Percy e Zeus brigavam no mano a mano com o resto dos seguranças que sobraram. Mais chegavam. Dois vieram em minha direção. Um foi acertado por um tiro nas costas. Levantei o cabo de ferro acima de minha cabeça, atingindo o ombro dele. O segurança veio em minha direção, socando meu estômago. Inclinei-me para frente, sentindo toda a comida subir até minha garganta. Forcei-me a respirar enquanto o segurança segurava meu pescoço e me arrastava até a próxima parede com um sorriso psicótico crescendo em seu rosto.
Não tenho ideia de quantas vezes eu gritei até perceber que meu tio e Percy estavam ocupados demais com seus próprios brutamontes.
– Me solta! – gritei em plenos pulmões, me debatendo em suas mãos que me erguiam mais do chão, me deixando sem ar
Um grito tortuoso foi escutado. Até suas mãos afrouxaram.
Foi o tempo suficiente para que eu levantasse meu cabo e acertasse sua cabeça. Duas. Quatro vezes sem parar. Ele estava desacordado.
Sobrou apenas o homem que estava no chão lutando com Percy e meu tio que acabava de socar o queixo de outro cara que caiu.
Eu tremia.
Zeus ajudou a derrubar o outro cara e então, Percy voltou a segurar minha mão com força enquanto seguíamos pelo corredor, dessa vez, sozinhos. Apertei sua mão, tentando controlar minha respiração enquanto os gritos se tornavam mais próximos que antes. Um alarme tocava e eu só queria chorar assim que reconheci os gritos, assim que admiti de quem era os gritos.
– Vai ficar tudo bem, ok? – Percy sussurrava a minha frente, sem nem ao menos olhar por cima do ombro – Fica calma. – murmurava
E então, chegamos ao fim do corredor. Era uma câmara, a porta era de ferro e parecia meio enferrujada quando Zeus atirou na maçaneta e chutou a porta.
Ainda tive tempo de ver Jack sendo levado de cadeira de rodas por alguém.
E então, os braços de Percy rodearam pela minha cintura, apertando-me enquanto o ferro caía entre minhas mãos.
Tudo que eu via era Thalia chorando, Zeus correndo em sua direção enquanto seu queixo mexia horrivelmente, como se nunca fosse parar de fazer o mesmo movimento repetitivo. Percy murmurou algo antes de me deixar encostada e se perder dentro daquela câmara. Zeus desamarrou sua filha.
Ele nos dispensou.
E então, Percy sorriu para seu primo e para Thalia, segurando meus joelhos e minhas costas, carregando-me com os olhos pesados pelo corredor curto. Estávamos pegando um táxi, um indiano que perguntava seguidamente se eu estava bem, Percy só falava uma coisa “dirija”.
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