Nightingale.
55 Independece Day.
Notas iniciais
"You killed me but I survived, and now I'm coming alive
O almoço de quarta-feira era estrogonofe, bife e batata fritas. Precisaria disso tudo, portanto enchi meu prato com o máximo de comida e peguei o maior copo de suco. Sem sobremesas.
Eu ficara quatro dias sem um único treino, tínhamos dois dias para um jogo em casa e tínhamos que arrasar.
Era uma obrigação particular.
Tirado o fato, claro, que eu estava apavorada.
Tinha traído Rob com Percy. O que não era uma surpresa até porque Thalia me encarou com cara de e qual é a novidade? Me senti um lixo, mas ela apenas riu quando eu disse isso.
Voltando para o fato de que, naquela mesma noite, Rob encontrou Percy nas escadas e parecia, no mínimo, raivoso. Não entendi o porquê e decidi não perguntar, juntando o fato de que nós transamos e eu me senti uma puta de esquina.
Ok, juntando o fato de que eu tinha que tomar coragem para ligar para Thomas. Eu e Thalia já tínhamos sentado inúmeras vezes em minha cama, encarando o número e debatendo sobre maneiras de como ele atenderia.
Em nenhuma delas, nós ligamos. Acabamos medrosas e dormindo juntas.
Desabei ao lado de Silena que devorava seu sanduiche natural como almoço.
– Ideias? – Clarisse inclinou-se em minha direção
Todos os olhares caíram sobre mim. Eu tinha que lidar com um namorado, um cara que me queria – e que eu gostava muito –, uma equipe de líder de torcida, minha mãe em Cancun por tempo indeterminado e um cara que sabia “a verdade” – ou a verdade de um louco deslavado – da morte do meu pai.
Ótimo. Pra que vida melhor?
– Eu não sei, me deixem pensar, tudo bem?
Clarisse assentiu e mexeu em sua salada.
– Não quero fazer fofoca, mas... Vocês ficaram sabendo que a Katie se encontrou novamente com o Percy ontem?
Você tem namorado, você não se importa.
– Que legal. – resmunguei, mordendo meu bife
– Ah, ele está se divertindo. – Silena disse, encarando as unhas roxas – O que vocês acham... Se vencermos, podíamos fazer uma apresentação sexy no pub.
– Super de acordo. – Thalia concordou com um sorriso
– Apoiado.
– Não tenho ideia de como seria... – Silena continuou, falando só para mim embora todos estivessem calados, nos escutando – O que acha de uma música de Britney?
– Cansei de Britney. – alguma das meninas disseram, talvez Molly – Tivemos que ouvir todos os hits dela por mais de duas semanas. E nem eram as finais.
– É... Eu estava pensando em alguma coisa de Rihanna. Não sei, talvez Beyonce. – Silena sugeriu
– Hm, eu acho que Chris Brown seria legal. – Clarisse opinou
– É muito hip hop. Queremos algo sensual. Algo...
– Bom. – Thalia completou – Alguma opinião, Annie?
Respirei fundo para não rasgar a garganta delas.
– Não. – grunhi – Posso comer em paz agora?
– O que aconteceu com ela? – elas começaram a sussurrar sem parar ao meu redor
– Se não quisesse... – Silena tentou
– Eu quero! Agora eu estou comendo, vocês podem, por favor, parar de encher o saco enquanto eu simplesmente como?
– Bem, é que você ficou afastada muito tempo e queremos te deixar a par... – Clarisse iniciou
– Eu sei quanto tempo eu fiquei fora! Eu sei o quão vocês querem ganhar, eu também quero...
– Entendemos o recado. – Thalia sorriu, parecia compreensiva
Encarei todos os olhares carregados sobre mim. Respirei fundo e continuei a comer.
***
Deixei a água cair sobre meu rosto. Era a milésima vez que repetíamos a dança que eu e Silena havíamos criado.
Cansativo e difícil, era o mínimo que eu poderia dizer.
Eu e Thalia estávamos sentadas nas arquibancadas, esperando Nico e Rob saírem para podermos dar algo de despedida e ir embora.
– Tenho pensando sobre Thomas. – Thalia disse ao meu lado, dando goles longos em sua bebida
– E?
– Acho que devemos agir logo, sabe.
– Eu também acho, mas não consigo ter tempo. Quer dizer, hoje é quarta, temos um dia para ensaiar e na sexta, se vencermos, vai ter a maior festa...
– Final de semana?
– Muito vago. As pessoas estão sempre fora... Eu queria um dia de semana. Afrodite está fora, seria fácil conseguir sair com Silena.
Thalia coçou a nuca e prendeu o cabelo longo em um rabo de cavalo.
– Acho que se Thomas estiver falando sério, ele quer algo de você.
– Ele já teve. – toquei meu lábio inferior, esperando que ele fosse tremer
Minha prima arqueou a sobrancelha, inclinando-se para mais perto.
– Nos beijamos... Quer dizer, ele forçou um beijo, eu estava assustada demais...
– Estou entendendo bem? – meu corpo gelou ao ouvir a voz tão conhecida – Vocês estão pensando em se encontrar com Thomas?
Engoli em seco, sentindo o gosto da bile em minha boca. Era uma boa hora para vomitar e fingir um desmaio. No entanto, abaixei os olhos para Percy. Ele usava o casaco do time, o roxo escuro se sobressaltando em sua pele clara, os cabelos suados jogados sobre a testa e o rosto repleto de raiva.
– Preciso ir. – Thalia disse, pegando sua bolsa e pulando os degraus
Percy segurou seu pulso e a empurrou de leve para cima.
– Sem um passo até me dizer o que vocês estão planejando.
– Nada que te interesse.
Peguei o boné que ele havia me dado alguns dias atrás, abaixei a cabeça e pulei até que estivesse dois degraus abaixo dele.
– Vocês não podem se encontrar com ele, ok? – ouvia seus passos fundos atrás de mim – Eles podem te matar.
– Desculpe, Percy. Isso é algo nosso. – ouvi Thalia dizer enquanto eu tentava sumir da vista dele
– Annabeth! Annabeth! Thalia, eu não vou deixar vocês...
Não escutei mais e desapareci.
***
Meu corpo se abaixou, meus braços seguiram e eu sorri, dando um giro clássico de ballet. O rap começou e eu via os nossos dançarinos fazerem um belo trabalho em Show Me The Money, fazíamos um semicírculo batendo palmas, como se estivéssemos em uma real batalha. Então, eles vinham atrás e nós nos abaixávamos, subindo e descendo os braços em um ritmo continuo.
Lá atrás, Louise e Katie eram levantadas e davam dois giros até caírem perfeitamente no chão. Era o segundo rap, então começamos a rebolar, se estivesse certa, os meninos estariam percorrendo o campo com seus passos maneiros enquanto a plateia delirava. Estávamos vestindo uma blusa normal, não nosso top e um saia roxa com listras brancas.
A batida apareceu depois de muito tempo, agarrei a frente, verificando se o velcro ao lado da blusa estava solto e então a puxei quando a música parou.
Senti o vento frio cortar a pele da minha barriga. Rebolamos até o chão.
Dei as costas para o público e desfilei. Os dois dançarinos estavam a postos.
Éramos a última apresentação, em seguida, vinha os últimos quinze minutos. Comecei a correr quando percebi que faltava poucos metros. Pulei, dei um giro e senti minhas pernas sendo agarradas, eu estava levantada com os braços abertos e gritando “Goode” em plenos pulmões.
– Goode! – ouvi a plateia seguir
Bati no peito e ergui o punho, feliz enquanto os dançarinos me davam uma tour pelo campo.
– É isso aí, Goode! – as meninas gritavam abaixo de mim
Cinco minutos depois, estávamos rindo com toalhas de rosto ao redor do pescoço, brandindo nossas garrafas de Gatorade, como se fossem nosso prêmio.
– Somos demais! – cantarolei, fazendo tin-tin com Clarisse
– Escolheu a música de hoje? Estou pensando em Say Goodbye, mas achei muito brega. – Clarisse disse, debruçada sobre o vidro que nos afastava do campo enquanto os meninos começavam a entrar
– Que tal... – lambi o lábio inferior – Strip? Sexy. – comentei
Clarisse me encarou por um momento e assentiu, surpresa.
– Tin-tin, líder. – chocamos nossas garrafas de Gatorade novamente antes de despejarmos todo o líquido em nossa boca
Como previsto, vencemos. Kent não era páreo para nós. Talvez as líderes de torcida tenham sido boas com seu remix de Beyonce – brega, muito brega -, mas tivemos uma ideia.
Faltava no mínimo quatro jogos para o último da temporada, e escolheríamos as melhores músicas de Step Up. Clássico e bom.
Coloquei botas, uma calça de couro e uma blusa branca, meus cabelos estavam rebeldes, mas eu os preferia assim. Tinha ido no jeep maravilhoso de Rob, pensando em mil e uma coisa até estarmos ao pub de Ares.
Eu ainda tinha traumas.
Um arrepio percorreu minha pele. Não muito longe dali, eu havia sido estuprada. Não é o melhor sentimento do mundo, mas o fato de ainda não terem achado culpados, nem mínimas provas me deixava imersa em pensamentos ruins, achando que a qualquer momento meu agressor estaria de volta, pronto para me bater ou o que quer que fosse.
Rob abraçou meu pescoço, a jaqueta de couro dele esquentando minha pele.
– Pronta para mais algumas doses?
– Super! – abracei sua cintura, ficando em sua frente – E então, podemos ir para meu apartamento... O que acha? – Rob sorriu e beijou meus lábios
Estávamos no meio da rua e parecia totalmente certo. Rob rodou as chaves nos dedos, entrelaçando nossos dedos e colocando-as dentro do bolso dianteiro. Ele empurrou a porta com um braço, o som sufocante acabou com o silêncio da noite.
A batida era ensurdecedora e eu amava aquilo. Senti meu corpo encher de energia, as mãos de Rob estavam em meu quadril enquanto eu me remexia aos corpos e a fumaça de gelo seco. Senti seu corpo grudado com o meu, as pessoas pulando ao meu redor.
Resisti o impulso de pular, alegre, meu tornozelo não estava cem por cento, portanto se eu fizesse mais esforço, talvez eu estivesse de volta ao hospital – lugar que eu queria manter distância.
– Olha, Thalia está ali. – apontei para um grupo com bebidas coloridas para o alto
– Vou pegar algumas bebidas, te vejo lá.
Ele me deu um selinho antes de ir. Empurrei vários corpos com o cotovelo até estar ao lado de minha prima, abracei sua cintura, pegando sua bebida e bebericando-a.
– E ai, galera! – cumprimentei, erguendo a taça – Viva, Goode!
Um grito reverberou ao nosso redor e sorri.
– Você foi ótima, garota. – agradeci ao elogio com um aceno de cabeça
Muitos vieram depois desses e continuei assentindo, cumprimentando.
Acabei passando o braço ao redor da cintura de Thalia, ela deixou o seu cair sobre meus ombros enquanto pulava e dava um gole generoso em sua cerveja. Peguei de suas mãos e dei uma grande bebida enquanto pulava de um lado para o outro.
– Porra! Você estava muito boa, sabe disso, certo?
– Você também estava e ei, você está bêbada! – afirmei com meu dedo em seu rosto
Ela revirou os olhos.
– Você também deveria relaxar! – gritou em meio ao barulho aconchegante do pub, segurou meu rosto com as mãos e sorriu – Você merece isso. Nós merecemos isso.
– Não acha que tem meios melhores e viáveis que esse para relaxar?
– Você é mesmo Annabeth californiana?
Acabei rindo e assenti.
– Então, se diverte. Rob está aí. – ela deu de ombros – Ele te protege. Só não vem com seu papinho londrino porque eu quero me di-ver-tir. – soletrou
Minha prima me soltou e voltou a pular ao redor de seu namorado. Fiquei perdida por segundos enquanto Rob aparecia com dois copos, beijando meus lábios rapidamente.
– Eu trouxe cerveja, mas tinha...
– Está ótimo. – dei um gole longo e sorri – Então, para onde vamos?
– Dançar? – ele arqueou a sobrancelha
Inclinei a cabeça para o lado e assenti. Rob segurou minha mão enquanto eu o puxava para que estivéssemos no balcão do bar, o que demorou bastante. As pessoas estavam coladas, gritando e dançando ao som de uma música eletrizante por sinal. Demorou alguns minutos até que minhas costas estivessem encostadas contra o balcão, Rob se debruçou ao meu lado, bebericando sua cerveja.
– É sempre assim? – ele perguntou, aproximando-se
– Bem, sim. – dei de ombros
– O que acha de... – suas mãos prenderam meu quadril e seu corpo estava colado ao meu, sorri
– Ei, Chase! – Johnson pulou ao meu lado, batendo as mãos no balcão e sorrindo – Você arrasou! Já está sabendo?
Sorri, revirando os olhos.
– Estou sim.
– E aí, conselheiro! O treinador está te chamando...
– Qual é, estamos em uma festa! – segurei os braços de Rob com força – Ele não pode estar chamando o Rob logo agora!
Johnson deu de ombros assim que sua cerveja parou em suas mãos.
– Bem, não sei. Acho que ele só quer parabenizar. Bem, essa é minha deixa, tchau!
– Você não vai, vai?
Rob bufou, segurou meu rosto entre suas mãos e me beijou. Agarrei suas mãos com força, não querendo deixar que ele fosse embora e eu ficasse sozinha de novo.
– É só um minuto. – ele sussurrou, nossos lábios ainda estavam encostados – Volto logo.
E então, sumiu.
Bufei, ficando de frente para o balcão e levantando um dedo para um dos barmans que passavam.
– Eu quero um...
– Pode ir, eu cuido disso. – Ares debruçou-se a minha frente
– Não. – resmunguei, abaixando a cabeça – Sério, tio, qual é?
– Namoradinho novo, hein?
– É, é, agora eu quero um drink.
– Mas você não pode beber e você sabe disso.
– Era só o que me faltava.
– Dois drinks! – alguém bateu a mão no balcão
Respirei fundo. Era meu dia de sorte. Levantei os olhos para Percy com os cabelos bagunçados, debruçado sobre o balcão com seu melhor sorriso cafajeste.
– Ah, pescador.
– Qual é, Ares! – ele bateu os nós dos dedos contra o balcão, inclinando-se mais ainda – Nós vencemos. Quebra essa, vai.
Ares sorriu, revirando os olhos antes de mandar o barman preparar algo que eu não conheci. Enfiei os dedos nos meus cabelos, sentindo a exaustão do dia e nada mais além de raiva.
– Ei, Annie. – chamou – Está ocupada amanhã?
– Pra você? Sim, estou.
– É sério. Meu pai vai dar um jantar e ele te chamou. Engraçado, não?
– Ou você fez a cabeça do seu pai para me chamar. Se eu fosse você, me esquecia. – vociferei
Ele deu de ombros, o sorriso sarcástico ainda predominava em seu rosto.
O barman nos entregou dois copos com bebidas verdes.
– É difícil, devo admitir. Mas... O que acha? Posso te pegar às oito.
– Eu estou cansada de jantares.
– Pode ser um almoço. Um café da manhã, se quiser.
– Uau, você me quer tanto assim? Achei que Rachel estivesse te satisfazendo.
– Não tem nada a ver sobre satisfazer. – ele resmungou, mexendo o copo entre os dedos – Tem sobre eu sentir sua falta.
– Palavras, meras palavras. – dei um gole grande no conteúdo que rasgou toda minha garganta, não tossi embora tivesse vontade de vomitar a bebida – E isso é um não.
– Ah qual é, é só pisar lá.
Arqueei as sobrancelhas. O sorriso havia desaparecido e dava lugar a um repuxar de lábios para baixo, seus cabelos caíam sobre a testa e seus olhos verdes me encaravam, como se de algum modo, apenas com aquele olhar, ele fosse me convencer.
Encarei a multidão, Rob empurrava algumas pessoas para chegar até mim.
– Tudo bem.
– Você nem vai gastar gasolina e... Tudo bem?
– Sim, tudo bem.
– Você está me zoando?
– Não, Percy. – inclinei-me sobre ele – Só estou dizendo que não preciso de sua carona, eu e meu namorado iremos jantar em sua casa amanhã. Sem falta.
– Não. Não. Você está me zoando, certeza. Eu chamei você, não você e seu namorado.
– Bem, eu só vou se ele estiver comigo.
– Eu te odeio.
– É, eu sei. E então, ainda somos bem vindos?
Percy encarou o mesmo ponto a frente que eu. Rob de braços cruzados com sua pior careta e eu estava adorando aquilo.
– Pode ter certeza que sim. – grunhiu
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