Nightingale.
42 In Color.
Notas iniciais
"What doesn't kill you makes you a fighter, footsteps even lighter, doesn't mean I'm over 'cause you gone"
Eu me encarava no espelho, observando as marcas no meu corpo.
Não eram muitas, entretanto.
Os dois lados dos meus rostos estavam bem vermelhos. O suficiente para não me encher de maquiagem; meu pescoço tinha marcas vermelhas leves de seus dedos, minhas coxas possuíam arranhões superficiais. Nada demais.
Como o clichê de sempre: meu coração doía mais que tudo isso.
O espelho refletia meus olhos inchados de tanto chorar no ombro de minha prima e acabar dormindo.
Eu estava com medo: era um fato. Mas eu precisava saber o que havia acontecido ontem. Precisava saber o que fez Percy entrar com aquela agressividade.
Acabei suspirando e recolocando minha maquiagem.
Optei por shorts e uma tshirt que mais parecia um vestido. O que eu precisava hoje.
O corredor estava vazio. As escadas também, o que de certa maneira me confortou. A mesa estava posta para duas pessoas. Pulei os últimos degraus e tomei um susto.
Ele estava ali. Perfeitamente e confortavelmente sem camisa com bermudas azuis comendo suas panquecas com cobertura de chocolate.
Minha respiração parou. O que fez um ruído estranho, ele levantou os olhos para mim. Mordi o lábio inferior.
– Hã, bom dia. – tentei
Percy continuou com os olhos cravados em mim. Uma imensidão de verde que eu estava tentando decifrar, não estavam mais vermelhos, entretanto. Era apenas aquele verde que eu amava e nunca iria esquecer. Seu rosto estava normal a não ser por alguns arranhões nas bochechas que eu nem lembrava que havia dado. Ele tinha bolsas roxas abaixo dos olhos o que fez meu coração cortar e abaixar toda a muralha que eu havia preparado, apenas... Precisava confortá-lo.
Ele não me respondeu. Sua fome pareceu ter acabado assim que me viu. Afastou a cadeira com um ruído irritante, jogando o garfo e a faca de qualquer jeito.
Avancei e segurei seu braço. Ele fechou os olhos com força, como se tivesse se controlando.
– Percy, precisamos conversar... Ontem...
– Por favor... – sua voz estava embargada – Me solta.
– Percy...
– Eu não quero te machucar... – engoliu em seco, novamente, como se estivesse prestes a cair aos prantos (isso só me fez querer abraçá-lo ainda mais) – Por favor. Não me toca. Nunca mais.
– Percy... – respirei fundo, seus olhos ainda estavam fortemente fechados, puxei seu corpo contra o meu e espalmei minhas mãos em seu peito nu – Eu só quero te ajudar.
– Me ajudar? – ele riu e se afastou – Olha pra você. Olha o que eu fiz com você. Eu sou um monstro, Chase. Se me der licença...
E então, sumiu.
Eu não tive reação em segurá-lo de volta. Meu coração batia tão rápido que eu não conseguia ouvir nada além da voz dele ressoando em minha mente: Eu sou um monstro. Eu queria gritar que ele não era, que ele era meu amor, que eu podia entender e eu precisava dele, queria espernear, dizer que perdemos nosso bebê, mas ele me prometeu que continuaria comigo. Que estaria comigo. E onde estava ele? Se escondendo como um covarde.
No entanto, eu tinha que entende-lo.
Em todo o tempo que estávamos na Califórnia, eu apenas tinha ficado com medo por mim e pela minha família. A família dele também estava em jogo; sua mãe, sua nova-irmã, seu pai, sua madrasta e até mesmo Tritão. E eu estava lá, fazendo charminho, implorando por coisas fúteis. Ele estava errado por procurar a bebida, sim, ele estava e ninguém me tiraria a razão quanto a isso, contudo ainda tinha o fato do “trair”.
Respirei fundo, contei até dez e coloquei em minha cabeça que eu deveria comer uma comida descente antes de começar meu interrogatório.
Sentei-me à mesa, servindo-me de waffles e suco de laranja.
Minha mãe adentrou a cozinha pela porta dos fundos usando um macacão jeans sujo, botas e o cabelo preso em um rabo de cavalo.
– Querida! Você está bem? Eu trouxe aquele bolo que me pediu, mas não vi você descer ontem à noite.
– É... Bem, eu estava... Com dor de cabeça.
– Tomou os analgésicos?
Assenti, mesmo que estivesse mentindo.
– Certo. – bateu palminhas com um sorriso enorme no rosto – Seu avô me obrigou a ir pegá-lo em casa para palestra de hoje. Os meninos vão! Você vai, certo?
– Hm, sim, eu vou com o Luke.
Atena franziu o cenho, dando de ombros.
– Tudo bem, eu tenho que confiar nele, de qualquer maneira. Nos vemos na palestra. Não se atrase. – vociferou e desapareceu pela escada
Terminei meu café da manhã com o silêncio assustador.
Encaminhei-me para a sala. Era um silêncio que me... Esmagava, estava me atormentando.
Thalia e Percy estavam debruçados sobre o centro, eles sorriam um para o outro enquanto a mão de minha prima acariciava seu ombro, seu sorriso parecia reconfortante e entendia sua dor.
Eu podia entender a dor dele. Pigarrei e minha prima olhou por cima do ombro, juntando sua mão para seu corpo rapidamente e voltando a encarar o mapa.
– E então? – comentei, andando vagarosamente
– Bom dia, pequena! – Nico saiu das profundezas de algum lugar com uma caneca repleta de café quente, ele beijou minha testa e passou o braço pelo meu ombro, como se nada tivesse acontecido ontem – Bem, o que temos para hoje, certo?
– É. – comentei, desconfortável, meus olhos cravados nas costas curvadas de Percy
– Temos a palestra de seu avô. Todos nós vamos, só avisando! – gritou e jogou-se no sofá – Vamos finalizar alguns detalhes da entrada da casa.
– Você vai finalizar. – Thalia resmungou – Você teve dois dias inteiros para pegar todos essas câmeras!
– Ei, não é tão fácil assim. Você acha que a prefeitura não possui um programa de alta tecnologia com vários programas integrados...
– Que não queremos saber.
–...e nuvens incapazes de serem ativas que eu consegui ativar. Então, fica quieta, namorada linda.
Minha prima revirou os olhos e voltou a sussurrar algo com Percy.
– E então... – Nico avaliou meu rosto, procurando por qualquer falha de ontem e engoliu ao seco quando seus olhos negros chegaram ao meu pescoço – Hm, você está bem?
– Eu...
– Que tal um lanchinho no jardim? Seria maravilhoso, sim? Sim, eu sei que sim. Voltamos em segundos, pessoas felizes!
E então, me arrastou para o jardim frontal. Minha boca semiaberta tentando captar qualquer reação de Percy: ele continuava com a coluna curvada, avaliando o mapa como se sua vida dependesse disso.
A mesa do jardim frontal era de mármore branco, Nico me empurrou até que eu estivesse sentada em frente a uma bandeja com uma jarra de limonada pela metade. Franzi o cenho quando o olhar de Nico vagou para os portões de ferro onde Sam repousava sobre sua SUV desinteressado.
– Eu sei que está se perguntando o que aconteceu.
– É, ainda bem que alguém lê minha mente.
Nico esboçou um sorriso sereno, voltando-se para mim, inclinou-se sobre a mesa.
– Limonada?
– Nico, seja direto.
– Ele estava drogado. Totalmente. Tão drogado que dava pena. E eu não costumo sentir isso.
Senti as batidas de meu coração parar vagarosamente, minha visão se distorceu, como se eu fosse ter um surto. Mas, eu não podia ter um surto.
Gritos vagavam em minha mente. Eles me chamavam rapidamente, contudo foquei nos olhos escuros de Nico que me encaravam preocupados, no sol que queimava minha pele, nos meus cabelos tocando minhas costas quase nuas e na grama abaixo dos meus pés.
Foi o suficiente para eu voltar à vida real.
– Está tudo bem?
Assenti, engoli em seco.
– O que... Aconteceu...
– Ele não me disse. – respondeu, voltando a me encarar – Bem, talvez não diga pra você também. Ele só me disse que pegou cocaína... Duzentos gramas. Parece muito pouco, mas pode fazer um grande estrago.
– Ele... Fumou? – franzi o cenho, aproximando-me, confusa
– É. – deu de ombros, relaxando sobre o mármore frio – Ele estava muito chapado. E depois, ele passou em um bar... Aqui perto e encheu a cara. Não me pergunte o motivo. E então, ele teve a maravilhosa ideia de visitar você. O que, convenhamos, não foi uma ideia tão boa matar a saudade naquele momento.
– E... Você está me contando isso...
– Porque você precisa saber disso. Não que eu queira que você o perdoe. Isso é imperdoável. Te bater? – Nico balançou a cabeça – Você está em todo o direito de esquecê-lo e nunca mais ver a cara dele. Percy teve uma segunda chance quando... Bem, quando você teve essa amnésia, eu nunca pensei, de fato, que você voltaria para ele depois do seu primeiro namoro, mas...
– O que ele fez? – inclinei-me ainda mais na mesa, pedindo por explicações – O que ele fez no nosso primeiro namoro?
Nico meneou a mão, desinteressado enquanto bebericava sua limonada.
– Nada demais. Voltando, o que ele fez é incapacitado de perdão, mas eu, como primo dele e melhor amigo, queria que você entendesse que embora ele estivesse fora de si...
– Ele estava chorando. – lembrei-me
– É. – Nico sorriu – Ele estava chorando. E quando eu fui dar banho nele, sim, isso é constrangedor demais, ele só dizia “desculpas” o tempo todo e quando, finalmente, foi dormir, ele me contou tudo isso... E me pediu, não, implorou para que eu fizesse com que vocês nunca se aproximassem novamente.
– E por que você está me contando isso?
– Porque... – Nico pigarreou, levantando-se – Eu queria deixar bem claro que eu vou cumprir esse pedido, Annie. Eu realmente vou. Eu te amo como minha irmã mais nova e sei o que o Luke está sentindo. Ele nem desceu do quarto ainda. Se ele se deparar com Percy, bem, ele vai mata-lo e Percy não vai fazer nada para impedir.
– Como assim?! Nico! Isso...
– É a verdade. – deu um sorriso triste, enfiando as mãos no bolso de sua bermuda de surf – O que Percy fez é imperdoável. Ele sabe disso. E farei o possível para que continuem afastados.
– Mas, ele está na minha casa! – contradisse, sentindo minha cabeça palpitar
– E você está comigo. E eu estou aqui! Olha que coincidência, não? – piscou, dando a volta na mesa e adentrando na casa novamente
O que tinha acontecido no passado? E, eu sabia porque Percy havia se drogado: algo com traição. Algo com Thomas, eu tinha total certeza.
Eu estava, com todas minhas forças, tentando odiá-lo. Tentando saber que ele era o errado. No entanto, havia mais coisas por trás disso tudo.
Havia alguém. E eu tinha minhas suspeitas de quem era.
Encarei o céu, fiz uma rápida prece pedindo por proteção. Eu precisaria muito agora.
***
Nico fez muito bem seu trabalho.
Mas ele não poderia passar o dia todo vigiando a mim.
Luke só desceu uma vez, apenas para almoçar e para nos chamar, dizendo que era a hora da palestra.
Nem mesmo Percy saiu dessa.
Eu estava no banco de passageiro, Luke dirigia calmamente, diferente das outras vezes onde afundava o pé no acelerador. Todos nós estávamos em silêncio, exceto pelos sons dos beijos de Nico e Thalia lá atrás. Encarei o banco de trás pelo retrovisor, a tempo de ver os olhos verdes me encarando pelo mesmo espelho e então, desviando rapidamente para a rua. Percy usava uma blusa verde, uma jaqueta jeans e bermudas. Totalmente desnorteado e com roupas feias. Não vou mentir.
Continuei encarando-o, sua barba ainda estava por fazer, crescendo pelo queixo, ocupando o espaço entre o nariz e o lábio superior. Eu tinha vontade de tocar todo seu rosto já que nunca fiquei muito tempo beijando-o quando ele estava com a barba por fazer.
Mordi o canto da boca, deixando-me levar pelos seus olhos verdes perdidos nas ruas ensolaradas da Califórnia.
– Annie? – Nico resmungou do banco de trás
– Hm? – assenti sem dizer nenhuma palavra
– Sobre o que seu avô vai falar?
– Thalia sabe. – respondi, simples
– Eu esqueci. – falou alto
– Sobre marketing em nível alto. Supostamente apenas para pessoas experientes que saem viajando o mundo. É algo que, reles mortais e adolescentes, como nós, não podem se dar o luxo de ver. – Luke explicou, deixando a caminhonete encostada ao meio fio – Vamos logo. – reclamou
Plano Annabeth em ação.
O anfiteatro do hotel, por coincidência ou não era o de Thomas, estava repleto de estrangeiros com pranchetas de variadas cores, todos tentando conversar entre murmúrios. Meu avô estava cercado pelos seus filhos: Hermes, Afrodite e Atena. Eles sorriam e pareciam animados enquanto tagarelavam.
Eu só precisava de uma deixa. Percy parecia desconfortável ao lado de Thalia, as mãos no bolso e o modo que mexia os ombros me fazia querer me enroscar entre seus braços, andarmos grudados até chegarmos perto de meu avô.
Os olhos dele repousaram em nós: cinco adolescentes com roupas de surfistas andando desleixados em meio a pessoas ricas.
Chamávamos a atenção de todos.
– Minhas crianças. – ele sorriu assim que chegamos perto o suficiente
Recebi dois beijos na testa, assim como Thalia. Ficamos lado a lado enquanto Luke cumprimentava nosso avô com um aperto de mão, assim como os outros garotos.
– As cadeiras de vocês estão reservadas... É na primeira fileira. – avisou com um sorriso orgulhoso
– Ai que ótimo! – Thalia comemorou
Sorri, falsamente.
– Maravilhoso! – resmunguei – Mande bem, vovô!
– Vou detonar. – comemorou, sorrindo e inclinando-se para Afrodite – É assim que os jovens falam, não é?
Ela assentiu com um sorriso gentil.
Então, Nico começou a cortar caminho em meio a todas aquelas pessoas. Luke e Thalia conversavam baixinho atrás dele, sem prestar atenção em nós. Olhei por cima do ombro, Percy estava parcialmente afastado, mas seus olhos estavam focados em mim. Respirei fundo. Era agora.
Continuamos a andar até chegarmos a um corredor estreito com portas cor de tabaco.
Nico se perdeu em meio as pessoas, no entanto eu ainda conseguia ver o cabelo de minha prima preso em um coque alto.
Respirei fundo e bati meu ombro contra a porta da direita, deixando-a aberta e me escondendo atrás da porta – sim, não era muito corajoso.
Assim que uma sombra da jaqueta jeans ultrapassou diante de mim, fechei a porta. A respiração entrecortada.
Estávamos sozinhos.
Fechei a porta, deixando minhas costas grudadas a ela. Um suor caía pela minha nuca. Estávamos em um camarim abandonado. Um espelho enorme se estendia pelo lado esquerdo da sala com várias poltronas velhas onde o estofo era visível. Poucas lâmpadas estavam acesas, mas as janelas abertas traziam a luminosidade suficiente para deixar o lugar tão claro quanto estava lá fora. Ao nosso lado esquerdo, colagem de jornais e fotos em preto e branco se estendiam por toda a parede. Um grande vão se estendia diante de nós.
Engoli em seco.
Percy estava de olhos fechados, encarando o teto.
– Deixa eu sair daqui. – suas pernas se batiam rapidamente contra o chão – Por favor. – implorou
– Não. Você vai ter que me explicar. Tudo.
– O que você quer que eu explique? Eu bati em você! Não é o suficiente para você se afastar de mim? Para você entender que eu sou instável e perigoso? – perguntou, mas seus olhos ainda estavam voltados para o teto branco cheio de teias de aranha
– Parece ser fácil pelo seu ponto de vista. – resmunguei, ameaçando um passo – Eu quero saber que traição foi essa.
Lágrimas desceram pelo seu rosto.
– Percy...
– O quê? – ele finalmente me olhou, os braços cruzados, as lágrimas caindo pelo seu queixo enquanto seus olhos jogavam toda sua culpa em cima de mim – Você ficou com o Thomas? Quero dizer, tudo bem. – deu de ombros – Eu já deveria esperar por isso, certo?
– Não! – gritei e forcei minha voz a ficar ao normal – Eu não fiquei com o Thomas! Ele é meu psiquiatra. E ele é um Jones! Ele é da família de Jack.
– Olha, eu não quero saber disso agora. Só quero ir embora, por favor.
– Não posso fazer isso. Você tem que me explicar. Quem te disse isso? – pressionei, dando mais alguns passos – Quem te disse essa... Mentira deslavada?
– Isso não importa. Nada mais disso importa. Olhe para você! Olhe... – ele segurou meu rosto, em uma delicadeza que não parecia existir – Você não se olhou hoje, não é? Você não sente nojo...? De mim?
– Por que sentiria?
Percy riu, dando um passo hesitante para trás.
– Porque eu bati em você.
– Você estava drogado.
– Tá. Posso ir embora?
– Está fugindo de mim? Somos namorados! – gritei, apoiando minhas mãos em seu peito
Seus olhos voltaram-se para os meus. Eram suplicantes, doíam até em minha alma. Segurei seu rosto entre minhas mãos, aproximando nossos rostos e então, colando nossos lábios. Eu precisava daquilo.
Foram longos três dias sem aquele beijo.
Mesmo com o gosto salgado de suas lágrimas e suas mãos afastadas de minha cintura, eu podia sentir toda minha energia se renovando. Ele se rendeu ao beijo quando nossas bocas já estavam naquela dança viciante, minhas mãos arranhando sua nuca enquanto suas mãos apoiavam minha cintura, levantando-me calmamente.
– Não posso ficar sem você. – sussurrei ainda de olhos fechados, sua boca roçando na minha – Simplesmente...
– Você vai ter que aprender. – se afastou, lentamente – Porque acabou.
– Calma. – ri nervosa – Acabou... O quê?
– Isso. – ele apontou para nós dois, um sorriso debochado no rosto – Não ia durar muito tempo mesmo. Algum de nós ia acabar errando e você deu a sorte de ser eu.
– Nós namoramos por três dias. Percy... Você não pode...
– Eu posso. E eu estou fazendo isso. Acabou, Annabeth. Simplesmente acabou.
– Você me iludiu! – gritei em plenos pulmões, socando seu peito, os olhos turvos pelas lágrimas – Você fez promessas tão... Idiotas! E a lesada aqui acreditou.
– É isso que acontece sempre, não é? – deu um sorriso triste – O cara faz promessas que nunca serão cumpridas e a idiota cai direitinho.
– Não. Não pode ser verdade! Percy, olha... Eles dizem que o que você fez é imperdoável, sei que pode ser, mas... Olha, eu te perdoo. Sei que foi um deslize.
– Você está louca. – ele se afastou de minhas mãos, os olhos lacrimejando
Ri, me afastando.
– Como você pode mentir assim quando até você está chorando? Como...?
– Não preciso de você, Annabeth. Viva sua vida. Pode ter certeza que será bem melhor sem mim.
– Você precisa de mim. Você sabe disso.
Percy encarou o teto enquanto eu ainda fincava meus olhos em seu peito. Antes que eu pudesse me dar conta, seus lábios estavam contra os meus novamente, me prendendo entre a parede cheia de jornais, suas mãos estavam embaraçadas em meu cabelo. Era um beijo voraz, cheio de pedidos silenciosos, seu corpo estava contra o meu de forma brutal, minhas mãos puxando seus ombros cobertos contra mim. Percy segurou minhas coxas, virando-me, e então, eu estava sentada na parede direita, por cima da madeira que rangia com nossos movimentos bruscos. Ele desabotoava meus shorts com rapidez, subindo as mãos até estarem apertando meus seios. Eu já havia tirado sua jaqueta, buscando por mais beijos vorazes, mais de sua língua e de seu corpo contra o meu.
Prendi minhas pernas em seu quadril. Seus olhos verdes recobraram os sentidos quando me encararam.
Engoli em seco.
– Não existe nada... Nada como eu e você.
– Por que você está me deixando? – funguei, acariciando seu rosto, seus olhos eram meu único foco – Eu preciso tanto de você.
– É melhor você sair sem esperanças, do que sair machucada. – ele sorriu de canto
– Você acha que isso é uma opção? Eu poderia me machucar mil vezes e eu só precisaria disso... – acariciei seus lábios com o indicador, ele fechou os olhos, envolvendo meu dedo entre seus dentes
– Não posso fazer isso. – se afastou de mim, mordendo o lábio inferior – Acabou. É melhor que entendamos isso.
– Percy. – sussurrei, ele estava vestindo a jaqueta jeans, preparando-se para ir embora
– O quê?
Seus olhos estavam desnorteados quando se encontraram com os meus. Eu queria mais um beijo. Eu queria terminar com aquela palestra e encontrar a cama mais próxima. Entretanto, era clara a determinação que ele tinha em se manter afastado de mim.
Suspirei, encolhendo os ombros, subindo o zíper e pulando da mesa de madeira instável. Mordi o lábio inferior, cruzando os braços.
– Se cuida.
Ele pareceu ficar sem palavras. Abriu a boca várias vezes, coçou a nuca, encarou o teto e assentiu.
– Idem.
E então, desapareceu pela porta cor de tabaco em um corredor vazio com a voz do meu avô preenchendo cada minúsculo átomo livre.
***
Terminar um namoro nunca pareceu tão difícil.
Quero dizer, meu primeiro namorado foi aos catorze ou quinze anos com Percy e eu não fazia ideia como nós tínhamos terminado, na verdade, nem chegamos a terminar. Desde então, eu só tinha ficado com garotos por uma noite e o máximo que fazíamos era sorrir um para o outro, saindo do quarto.
E aliás, eu nunca fiquei grávida de nenhum deles nem mesmo perdi o filho, então terminar o namoro com um cara que você tinha uma ligação tão grande era realmente difícil.
Eu estava tentando participar firmemente na conversa com meu avô, mas eu só ouvia murmúrios já que meus olhos estavam pousados em Percy: seu rosto sério, seu queixo másculo, o jeito como a jaqueta jeans caía sobre seus ombros, os braços cruzados e o corpo encostado de modo relaxado na mesa de comidas do camarim não abandonado.
Seus olhos, em nenhum momento, voltaram-se para mim. Eram todos para meu avô e para sua voz brincalhona.
– Meus netos nunca me quiseram perto... Posso perguntar o porquê de toda essa pressão?
– Porque, agora, queremos você por perto! – Thalia resmungou
– É, vô, você sabe... Vai ser legal. – Luke deu de ombros, parecendo irritado por tanta conversa fora
– E você, Annabeth? – meu avô levou os olhos castanhos até mim, engoli em seco
Os olhos verdes de Percy focaram em mim por milésimos de segundos – o suficiente para eu me perder naquela pequena sala.
– Hum, é, queremos você por perto. – comentei, sem muita convicção
Meu avô seguiu meu olhar e franziu o cenho.
– Por que está tão distante, querida?
– Ela só está com dor de cabeça. – Thalia sorriu, me encarando com os olhos ferozes como “É melhor nos ajudar antes que eu arranque sua cabeça.”
– Ela...
– Eu só quero que o senhor fique, vovô. Eu... Vou esperar vocês lá fora, tudo bem? Desculpem.
Abri a porta atrás de mim e suspirei, aliviada.
Comecei a andar com passos apressados até a saída do hotel, peguei o corredor certo e então estava na fachada, respirando com dificuldade, engolindo os soluços que insistiam em querer sair, fechei os olhos. O sol de Califórnia atingia meu rosto com toda sua força e se me forçasse a prestar atenção, conseguia ouvir a alegria das pessoas na praia. Respirei fundo e então, braços fortes apertaram meu ombro, um cheiro masculino e estranho para mim.
– Quem...
– Pode chorar. – era Nico, seus braços me apertavam, e sua mão afagava minha cabeça, ele me afastou – Eu disse que ia te ajudar, não disse? Eu vou te proteger, garota.
Meu lábio inferior tremeu, então abracei sua cintura e deixei minhas lágrimas molharem sua camiseta preta, meus ombros subiam e desciam com pressa.
– Ei, vamos pegar um táxi, tudo bem? – disse, assenti levemente – Vem... Você vai ficar bem, certo? Eu prometo.
– Obrigada. – murmurei enquanto Nico se esticava no meio-fio tentando chamar a atenção de algum motorista – Muito obrigada mesmo.
Nico olhou por cima do ombro com um sorriso enorme em seus lábios.
– Só quero que fique bem até estarmos em frente a Jack.
Franzi o cenho.
– Por quê?
– Prefiro que você faça as honras. – deu de ombros assim que o táxi parou à nossa frente
Entramos rapidamente antes que ele saísse correndo. Nico disse o endereço, como se tivesse feito isso por muito tempo. Seu braço abraçou meu ombro e me encolhi.
– O que você quer dizer com isso?
– Bem, eu vou ficar nos computadores. Quem vai mesmo nisso é você, Thals, Percy e Luke. É bem óbvio que no final, só fique você e Thalia. – ele me encarou, os olhos incrivelmente negros estavam sérios – Eu quero proteger vocês duas, aqueles idiotas acham que estão sendo bons nisso, mas, na verdade...
– Eles estão errados. – completei
– É. Thalia está cheia de ódio, pelo... Bem, você sabe o quê.
– E você acha que...
– Eu acho que você é a única equilibrada o suficiente para enfrenta-lo. – abaixou o tom de voz
– Por que acha isso? Ele tirou meu filho! – diminuí o tom de voz depois da última coisa que falei, devido ao seu olhar frustrado – Ele praticamente acabou com minha vida.
– Ele ainda não mexeu com sua família, Annabeth.
– Como você pode dizer isso? Ele ameaçou Jason. Ele é só um garotinho. E qual a parte de ameaçar minha mãe e tirar meu filho, você também não entendeu?
– Não quero igualar nada aqui, mas vamos lá: ele tirou os pais de Thalia do país. Luke acha que vocês duas são a única família dele e o fato de vocês estarem nisso o deixa apavorado. Percy... Bem, a mãe dele sumiu por causa do Jack. Eu estou neutro nisso, só quero ajudar vocês, mas, como eu não vou estar lá... – pigarreou e acariciou o topo de minha cabeça – Eu espero que você faça as honras.
– Isso é estranho, Nico.
Tirei algumas lágrimas que ainda insistiam em cair em minhas lágrimas.
Nico sorriu – era leve e calmo.
– Você vai entender, Annie. E... Proteja a Thalia. – ele pediu enquanto o táxi seguia caminho pela nossa rua
– Vou tentar.
Era mais uma tarefa.
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