Nightingale.
70 I'm giving up on you.
Notas iniciais
"And I will swallow my pride, you're the one that I love and I'm saying goodbye"
Um bip irritante ecoava em meus ouvidos como se eu estivesse em um grande trio elétrico e essa fosse a única música que tocava. Todo meu corpo estava tenso, tentei estalar meus dedos dos pés, no entanto eles pareciam revestidos de cimento, assim como meus dedos das mãos. Minha garganta ardia e doía, assim como meus olhos que lacrimejaram.
Tossi, mas o ar que vinha para mim era forte em jatos suaves. Tentei tocar minha boca revestida por algo de plástico. Minha mão caiu rente ao meu peito.
Forcei meus olhos a abrirem, o lugar estava escuro o que me fez estremecer. Adorei o ar que vinha até mim, era claramente oxigênio puro e meus pulmões ansiavam por aquilo. Respirei ainda mais fundo, segurando meu pescoço, sentindo minha garganta arder ainda mais, entretanto eu não me importava, até porque era ar puro e eu não entendia porque eu gostava tanto dele.
Nem mesmo sabia porque estava ali, mas não me importava. Eu tinha ar puro e era o que eu mais queria.
Tossi mais um pouco e me deitei novamente, tirando a máscara de oxigênio do rosto. Encarei o teto, sentindo o ar misturado com nitrogênio ou qualquer fungo rasgar meu nariz. Sentia como se nunca tivesse respirado daquele ar, como se não pertencesse aquele lugar com cheiro de álcool etílico e sofrimento.
A porta se abriu, trazendo um pouco de luz para o quarto. Tentei me sentar, parecer bem e ereta para qualquer pessoa que estivesse ali.
Embora eu não conseguisse nem erguer os ombros, pude ver Luke fechando a porta atrás dele.
– Luke? — perguntei, com um sorriso — O que eu estou fazendo aqui? Que merda eu aprontei?
Meu primo ficou estático, seus olhos me avaliaram com surpresa e medo. Ele tocou minha testa e colocou a máscara de oxigênio novamente em meu nariz.
– Você se lembra da última vez que acordou? — ele perguntou, carinhoso, acariciando a lateral do meu rosto
– Última vez que acordei? — franzi o cenho — Hm, eu deveria estar na escola, talvez?
– Se lembra... — Luke tossiu, como se estivesse lembrando de uma frase ensaiada — Se lembra de Hampshire?
Hampshire. Um condado ao sul da Inglaterra. Goode. Percy.
Pisquei os olhos, imagens de desespero, fogo.
– Um incêndio. — balbuciei
Meu corpo pareceu perceber que eu podia, sim, me mover. Mas doeu. Todo meu corpo doía.
Gemi de raiva, grunhi de dor, soquei minha maca, mas nada fazia a dor sumir.
– Annie, por favor, fique quieta. — meu primo pediu
Mas eu não podia. Eu tinha que saber se Percy tinha saído da casa, tinha que saber se ele estava bem, precisava saber sobre o que Poseidon estava falando.
Luke não me deixou sair, entretanto.
Ele chamou uma enfermeira, Marlee, eu a conhecia e ela teve que me dar sedativo. Seria mais dois dias sem acordar.
***
Eu havia ficado duas semanas sem acordar. Alimentada por tubos e respirando por oxigênio puro para tentar limpar o líquido ou pó que tinha em meu pulmão. Depois dessas duas semanas, eu consegui minha alta. Meu tornozelo estava enfaixado, assim como a ponta dos meus pés e meus cotovelos, as pontas dos meus cabelos foram cortadas porque ficaram chamuscadas no meio do incêndio.
Thalia tirou uma roupa da mochila: um vestido curto azul de mangas curtas. Marlee aprovou já que disse que seria bem mais fáceis colocar em mim.
Sentei-me na cama desconfortável que fora minha melhor amiga nas duas longas semanas enquanto Marlee me trocava pacientemente. Senti a cama afundando atrás de mim e os dedos calmos e esguios de minha prima desembaraçarem meus cabelos.
– Onde está minha mãe? – perguntei, a voz baixa, rouca, quase vazia
– Ela está assinando a papelada. Já vai sair daqui.
Assenti, entorpecida, embora não estivesse ligando se iria sair logo ou não. Eu nem fazia ideia do motivo de estar tão aérea, mas não me importava também.
Thalia penteou meus cabelos com um pente largo e deixou-os soltos, como eu costumava fazer. A essa altura, Marlee já tinha ido e restava apenas nós, o silêncio torturante e o cheiro de álcool etílico que nos dizia o quanto o quarto era higiênico.
– Vamos? – Thalia apareceu a minha frente, carregando a mochila que tinha trazido
Balancei a cabeça e desci da cama, com calma. Ela fechou a porta assim que passei por ela, Thalia ia ao meu lado, caminhando com serenidade até eu ouvir vozes conhecidas. Parei imediatamente.
– O que houve? – ela perguntou, me encarando como se eu fosse louca
Levei meu indicador aos lábios e a puxei para que atravessássemos um corredor lateral que nos levaria a outro corredor maior, uma sala de espera pequena.
Era a voz de Poseidon e Margareth. A mulher da sede da FBI que me fizera perguntas em sequencia, eu me lembrava dela, embora minha mente estivesse em um processo de lembranças difíceis demais para eu conseguir assimilar.
– Vamos sair daqui, você não deve ouvir isso, Annabeth.
– Cale a boca. – mandei, encostando minhas costas contra a parede
– Annie, é sério, por favor. Você acabou de sair da maca e já quer se meter em confusão.
Lhe mandei um olhar raivoso e Thalia revirou os olhos, ficando ao meu lado enquanto eu esperava meu ouvido se acostumar com as vozes e identificar o que elas falavam.
– Não entendo. O que você faz aqui, afinal?
– Eu vim descobrir o que fizeram em sua casa.
– O que fizeram em minha casa? – Poseidon riu, esnobe – Você sabe muito bem o que vocês fizeram com minha casa.
– Nós não fizemos nada com sua casa, Sr. Jackson e espero que isso fique bem claro antes que eu ache que isso é uma acusação injusta e sem princípios.
– Te conheço há bastante tempo, Margareth. E pode apostar que já sei e já disse o que aconteceu com o Agente Chase.
Houve um silêncio sinistro. Um silêncio que fez minha espinha se arrepiar e minha cabeça girar, como se eu pudesse desmaiar ali.
Lembrava de algumas palavras soltas de Poseidon no incêndio que eu me negava a lembrar, das chamas, da dor, do desespero. Embora tudo isso fosse uma coisa só para mim – que eu não sabia nomear – ainda me lembrava de suas lágrimas rolando pelas bochechas e do meu medo. Um medo por algo maior. Por alguém. Alguém que eu não conseguia lembrar e isso me irritava.
– O que está insinuando, Sr. Jackson?
– Não venha com essas formalidades para mim, mulher. Você sabe muito bem o que aconteceu com Frederick.
– Aquilo foi um acidente. – ela pigarreou, como se estivesse desconfortável
– É o que está escrito na certidão de óbito dele, mas ambos sabemos que não foi isso que aconteceu.
– Olha aqui, Poseidon, Frederick foi um grande homem, um grande agente e tanto a FBI quanto a CIA lamentamos morte fatal dele, lamentamos e muito. Sim, o incêndio foi planejado, não por nós! Você acha mesmo que queríamos perder alguém tão maravilhoso quanto Frederick? Ele foi bem mais corajoso que você por saber das consequências e aceita-las. – cuspiu
– E por que ele se sacrificaria por uma coisa sem... Causa? – Poseidon perguntou, sua voz era carregada de raiva
– Sem causa?! – Margareth esbravejou – Jack perdeu seus melhores homens, ele ficou falido por todos esses anos até seu filhinho com seus amiguinhos irem revirar uma coisa que nem deveriam ter procurado. Queriam vingar a morte de Frederick, parabéns, conseguiram mais inimigos.
– Mais? Sobre o que está falando? Jack não está preso?
– Jack está, sim, preso.
– E sobre o que está falando? O que está escondendo de mim, Margareth? Até onde eu sei, eu ainda trabalho para...
– Scotland. Sim. Bem lembrado. Isso me faz te relembrar que isso são assuntos secretos da minha equipe, então, Poseidon, me dê licença.
Thalia puxou meu braço antes que eu pudesse ouvir o que a voz de Poseidon deixou solta no ar. Ela me fez voltar até o corredor de onde viemos e me encarou nos olhos.
– Você não ouviu nada, entendido? Absolutamente nada.
– Eles falaram sobre meu pai.
– Annabeth. Fique apenas calada. – ela pediu, seus olhos imploravam por aquilo correndo pelo meu rosto
Seus dedos trêmulos colocaram alguns fios de meus cabelos para trás e ela fungou antes de segurar minha mão com força e voltar a me guiar com serenidade pelos corredores e chegarmos a uma outra sala de espera.
O sofá era de uma cor azul pastel que fazia um L na parede. Luke estava sentado no canto de cabeça baixa, jogando alguma porcaria em seu telefone enquanto Nico estava encarando o teto, como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Anfitrite estava linda, como sempre, embora tivesse saindo de um incêndio e suas pernas estivessem enfaixadas, ela usava um vestido curto verde, os cabelos recém-cortados e também chamuscados estavam soltos e brilhantes um pouco acima dos ombros.
Por fim, minha mãe estava encostada na parede, com o olhar vazio e que pareceu se acalmar em meio a uma tempestade ao me ver.
– Querida, meu Deus. – ela me abraçou
Podia sentir todo seu corpo tremendo seguidamente, como se ela esperasse por aquele abraço há tempo demais. Me senti culpada por não ter força para levantar meus braços e abraça-la, chorar por estar livre daquele lugar e poder voltar para casa, mas nada fazia sentido ainda.
Algo faltava. Algo importante. E eu sentia falta. Me parecia um deja-vu, como se eu tivesse vivido aquele momento há muito tempo atrás, embora a tentativa de lembrar fosse falha a todo momento que eu tentava.
– Você está bem, não está? Está se sentindo mal ou algo do tipo? – ela perguntou, verificando qualquer parte do meu rosto, tocando meus ombros e ajeitando a gola do meu vestido – Meu Deus, quanto eu fiquei preocupada! Ah, Thalia, seus pais estão chegando hoje com Jason, acho que eles devem estar chegando por volta de alguns minutos, Zeus disse que tinha acabado de sair do avião.
– Sem problemas, tia.
– O que aconteceu com você, Thalia?
– Nada demais. Apenas um acidente fraco. – ela acariciou o cotovelo que eu havia percebido ter alguns arranhões
– Nada demais? – Luke riu, deixando o celular de lado – Um sangramento na cabeça, quase perder os braços nas ferrugens... O que é nada demais para você, Grace?
Arregalei os olhos.
– Por que você não me contou? – perguntei, surpresa – Por que...? Meu Deus, Thalia.
– Não foi nada demais, Annie. Só tive que ficar no hospital por alguns dias, está tudo bem, está vendo? Luke só faz muito drama pra pouca coisa.
– Não foi pouca coisa, Thalia. – minha mãe retrucou – Nico também estava, mas ele só saiu com alguns arranhões.
Ele balançou a cabeça de onde estava e não disse mais nada.
Thalia franziu os lábios e sentou-se ao lado dele, beijando seu pescoço e abraçando sua cintura. Franzi o cenho. Aquilo me lembrava algo.
Margareth e Poseidon chegaram juntos pela região sul, ambos afastados um do outro e sérios.
Assim que Margareth apareceu, dois policiais grandalhões ficaram ao seu lado.
John Parker e Cameron McCan. Eu me lembrava deles. Eles me seguiram por algum tempo depois de um estupro que ocorreu quando eu saí do pub do meu tio, Ares, porque... Bem, eu não me lembrava porquê, mas foi aterrorizante.
De qualquer maneira, eles estavam ali e pareciam decididos.
Me encolhi e senti os braços de minha mãe me abraçarem.
– O que vocês querem dessa vez? Ela acabou de receber alta. Precisamos de um tempo.
– Só queremos fazer alguns perguntas, Sra. Chase.
– Mãe... Eu não quero responder nada. – encolhi-me em seus braços, abraçando-a – Por favor, mãe.
– Está vendo? Vocês podem, por favor, voltar em outra hora, senhores?
– Só são algumas perguntas, Annie. – Poseidon intercalou de braços cruzados – Quanto mais rápido responde-las, mais rápido se verá longe desses... Dessas pessoas. – completou
– Eu não quero. Por favor. Eu quero ir pra casa, eu quero sair desse lugar, por favor. – sussurrei, abraçando ainda mais minha mãe
– Poseidon, ela não vai responder nada. Nós vamos sair daqui, imediatamente.
Poseidon bufou e veio até mim. Seus olhos eram verdes-mar, uma cor conhecida e que fez meu corpo chocalhar, como se eu realmente precisasse saber com o que aquela cor estava associada.
Pisquei ao ver que seus olhos ainda se mantinham firmes, assim como suas mãos em meus ombros.
– Annabeth, você precisa nos ajudar. Precisa nos ajudar para que eles saiam daqui. E enquanto você não responder essas perguntas, eles não vão descansar.
– Poseidon, você não vai forçar minha filha...
Inclinei meus dedos para suas bochechas – sua tez era bronzeada quase morena natural – embora estivesse claro que era apenas uma consequência do que o sol fazia em sua pele. Tirei seus cabelos negros da testa e o encarei, confusa.
– Você me lembra alguém.
Poseidon assentiu e engoliu em seco, como se ouvir aquelas palavras te doessem.
– Vai responder as perguntas?
Encarei os policiais conhecidos pelo seu ombro, como se fosse uma criança amedrontada e voltei a encarar a expressão dura de Margareth.
– Minha mãe pode ficar comigo?
– Claro. – Poseidon assentiu e encarou minha mãe com um sorriso triste
– Vamos fazer as perguntas aqui mesmo. – Margareth disse
Embora estivesse sem os óculos de armação de aço, e sem a prancheta inclinada sobre o braço, ela era tão ameaçadora quanto eu me lembrava.
– Srta. Chase, o que estava fazendo naquele dia?
– Eu... – tossi, massageando minha garganta, como se lembrar me asfixiasse
Flashes passaram pela minha cabeça, senti meu corpo amolecer, alguém me segurou, mas os flashes continuaram.
Um sorriso. Brilhante. Seus olhos eram verdes, sua tez bronzeada, quase alva, seus cabelos negros bagunçados sobre a testa. Ele usava um terno, bonito, tinha um sorriso bonito também e nos beijamos. No carro, na porta do elevador, no sofá, em tantos lugares que eu mal podia citar todos aqui.
E estávamos em um quarto. Lindo. Em tons pasteis com porta retratos de famílias, nos deitamos em uma cama boa e... Ele me beijou de novo. E de novo.
E então, gostou?
Voltei a visualizar os rostos a minha frente. Eu havia sentado no sofá e Luke me abanava, me encarando com um alivio.
– Está tudo bem?
– Eu estava com Percy. – completei, procurando os olhos duros de Margareth
Ela estava logo atrás.
– Nós estávamos em seu quarto e então... – me abracei, acariciando meus braços – E então, nós vimos os fogos subindo, tomamos uma ducha para tentar não nos queimar com facilidade e... Ele foi procurar Anfitrite. Não o vi depois. Onde ele está?
Minha voz estava afobada, perdida, sem saber o que dizer nem o que querer. Eu sentia os sentimentos que eu sentia para com ele voltando para mim e era difícil senti-los. Era uma mistura louca repleta de amor com uma dor e desespero de não vê-lo nunca mais, uma dor que parecia tomar conta do meu corpo a cada segundo, a cada minuto, a cada respiração.
– O que mais se lembra? – Margareth insistiu
Engoli em seco, ficando ereta e a encarando com a mesma frieza que me lembrava ter.
– Então, eu fiquei com Poseidon e acordei no hospital. Satisfeita?
– Não. O que mais se lembra? O que mais pode nos contar?
– Acha que eu coloquei fogo na casa? Era só o que me faltava. O que me fala de você? Será que foi você que colocou fogo na casa, Margareth?
Seu rosto continuou impassível, embora tivesse percebido seu queixo se erguer um pouco mais.
– Isso daqui é seu. – ela jogou uma bolsinha de veludo negra, peguei-a no ar, com medo de que me acertasse
Encarei-a, esperando que poderia ser uma bomba e abri a bolsinha com cuidado, vendo uma corrente entrelaçada de ouro branco com uma safira pequena no meio.
Meus olhos lacrimejaram, senti meu coração apertar e todos os olhos estavam vidrados em mim.
Senti a maldita pergunta na ponta da língua, eu precisava perguntar, certo? Se eu não perguntasse, eles continuaram me encarando com aquelas caras de pena que eu odiava.
Encarei minha mãe, encostada na parede, borbulhando de raiva, como se não pudesse fazer nada além de me encarar.
– Mãe, o que aconteceu com Percy? — perguntei, embora não fosse isso que eu queria perguntar, nem saber
Atena suspirou, desencostando-se da parede.
– Querida, — ela encarou o teto, cruzando os braços em forma de defesa, perguntando para os Céus, talvez, porque ela tinha que dizer essa noticia — Percy não acordou ainda. Ele está em coma profundo, devido a asfixia dentro da mansão e... Talvez ele nunca acorde. — despejou
Não sabia o que fazer, como deveria agir. Talvez eu devesse me jogar no chão e perguntar para qualquer pessoa porquê tudo tinha que acontecer quando as coisas estavam tão bem. Não senti nada, além das lágrimas rolando sobre meu rosto. Doía saber que ele não estaria ali. Eu buscava em minha memória a textura de seus braços ao redor de minha cintura, dos seus lábios furiosos em busca dos meus, dos seus olhos risonhos e o modo que ele ficava protetor do nada, entretanto parecia longe de mais para ser revivido.
E alguém... Alguém o tinha tirado de mim, para sempre talvez.
Meu peito se elevou e minha boca soltou um ruído estranho, algo parecido com um soluço desgastado. Os braços de minha mãe me envolveram, trêmulos, mas não era o suficiente para fazer com que meu corpo parasse de tremer e se mexer em espasmos de dor.
Onde estaria dele para me iludir, dizendo que tudo daria certo?
Me senti perdida em um meio de desespero e tristeza.
– Preciso vê-lo, preciso... — solucei, os braços dela me apertaram ainda mais enquanto minha garganta doía e eu reprimia um grito de dor
Não existia mais ninguém e não me importei por quanto tempo eu estava ali, chorando. Abafando gritos.
Pude ver Poseidon se retirando, com lágrimas nos olhos e Anfitrite o seguindo. Nico também se retirou, como se não suportasse seu próprio sofrimento e devendo se juntar ao meu. Thalia continuou ali, sentada, me observando, sem saber ao certo o que fazer. Luke repetiu.
– Onde ele está, mãe? Por favor...
– Primeiro, você precisa se acalmar. Vamos beber alguma coisa no refeitório. Lembre-se de que você acabou de receber alta.
Não contradisse, até porque ela estava certa e eu sentia meu corpo pedindo por comida de verdade, embora isso não me importasse agora.
Fomos até o refeitório. Bebi uma xícara média de café com bolo de chocolate e esperei minha mãe terminar seu café puro com pouco açúcar.
***
O hospital tinha um aroma próprio: cheiro de ferro e álcool etílico. Embora eu me sentisse forte e menos lerda que antes, Marlee, a enfermeira que cuidara de mim, disse que eu deveria ter um resguardo físico e psicológico de, ao menos, quinze dias.
Mas como eu poderia ficar em casa se o garoto que mais precisava de mim estava em coma? Era sem noção.
Portanto, a decisão de minha mãe foi: você não vai vê-lo. Claro que aquilo me deixou frustrada, raivosa e quase me provocou outro desmaio, mas ninguém se manifestou. Até mesmo Nico, que mal olhara em meus olhos.
Então, eu, minha mãe e Luke voltamos para o loft enquanto Poseidon, Anfitrite, Nico, Thalia e seus pais passariam a noite lá.
Eu sabia que eles tinha recebido a épica notícia "um dia os aparelhos serão desligados". Nem cheguei a pensar em tal hipótese, era impossível para mim porque ele ia acordar, ele tinha que acordar.
Chegamos ao loft e vi Luke assoviar.
– Bom lugar, tia.
– Isso não nos importa agora, Luke. — ralhou e deixou a mochila que minha prima tinha trago no chão — Annie, você quer algo para beber? Um suco? Alguma torrada?
– Estou bem, mãe. — respondi monótona
– Vou pegar um suco de uva.
– Quero ver Percy. — pedi, encarando-a — Por favor.
– Já disse que vamos amanhã. — ela disse da cozinha — Sinto muito, mas você não pode vê-lo naquele estado.
– Em que estado?
Ela não respondeu. Senti lágrimas invadirem meu rosto, rolando pelas minhas bochechas, avancei, subindo as escadas sem realmente me importar se tinha acabado de sair de uma situação delicada pela segunda vez em minha vida.
Abri a porta do meu quarto, um cheiro de rosas, o que me enojou, me dando vontade de vomitar. Joguei-me contra a cama, afundando meu rosto no travesseiro, os soluços escapavam sem que eu realmente pudesse controlar.
Meu corpo se mexia e eu só pensava nele.
Forcei-me a pensar que fora apenas um incêndio acidental. A FBI ou a CIA não tinha nada a ver com isso, como Poseidon achava, e mesmo assim não me parecia tão acidental.
Tinha outro alguém. Um inimigo como Margareth falara, mas eu não tinha ideia e realmente não me importava, ele já havia feito o pior de sua vida: quase matar Percy.
Senti a cama afundando ao meu lado, ergui meus olhos, apenas para ver Luke com um sorriso neutro, acariciando o topo de minha cabeça. Ele ergueu o suco de uva até meus olhos.
– Se continuar negando todo tipo de comida, sinto lhe dizer que vai ter que ficar mais tempo sem ver o idiota.
– Não o chame assim. — ralhei
– Idiota? Sei que ele é. Ele a deixou sozinha e foi sozinho em um incêndio...
– Ele foi pegar a madrasta! — retruquei — Não quero acreditar que está brigando comigo.
– Não estou, Annie. — disse e apertou meu queixo fazendo o líquido doce penetrar em minha boca, descendo de forma forçada pela minha garganta
– Ele está bem? — perguntei, afastando o copo de minha boca e o encarando
Luke limpou algumas lágrimas que insistiam em cair e continuou acariciando meu cabelo.
– Bem...
– Não minta para mim. Eu te imploro.
Seus olhos me fitaram em um misto de surpresa e pena, podia sentir a maldita compaixão exalando de seu ser.
– Ele... Estava muito queimado da primeira vez que o vi. Os braços... Ele achou Anfitrite e ela conseguiu sair pelos fundos, como sempre, ele teve que dar uma de herói. — Luke bufou — A coluna caiu, ele ficou preso, eles tiveram que controlar o fogo primeiro antes de entrarem. Não sei se é a verdade, mas foi o que eu soube.
Lambi o lábio e encarei o suco. Fazia o estilo de Percy, seu lado gentleman ecoando sempre que podia.
– Quando você recebeu a alta foi no mesmo momento que ele estava saindo de uma cirurgia. Poseidon disse que ninguém podia vê-lo e assim foi feito. Deve ser por isso que Nicholas estava irritadinho.
– E o que aconteceu com Nico? O que você sabe?
Luke pareceu pensar, encostou-se na cabeceira de minha cama e me encarou.
– Algo sobre estarem em um carro, voltando da casa dos pais de Nico. Ele disse pra polícia que tinha percebido um carro o seguindo e... Ele bateu no carro, não lembro onde, a Thalia estava sem o cinto, teve que ficar uns dois dias internada, eu não tinha chegado ainda.
– Quem você acha que fez isso?
– Por que você não acha que foi um acidente?
Engoli em seco e me encostei ao seu lado, dando goles favoráveis no meu suco.
– Só... Não chore. — Luke pediu passando o braço sobre meus ombros — Não suporto ver você chorando por um marmanjo.
– Um marmanjo que quase deu a vida por mim.
Luke deu de ombros e ficamos em silêncio, como se de algum modo, a carícia em meu ombro e o ar confortável que invadia meu quarto fosse me fazer ficar melhor.
***
Devia ser sete da manhã quando minha mãe finalmente se arrumou e nos colocou dentro do carro, começando a falar sobre faculdades.
O fato era que eu não me importava e muito menos ligava para o que ela estava falando. Seu foco, claro, era Harvard e ela nem citou Oxford ou Cambridge e eu tinha uma leve noção do porquê.
Luke pareceu ignora-la tão bem quanto eu, e embora o remédio que eu havia tomado para cicatrização tivesse como uma das consequências a sonolência, eu parecia mais acordada que nunca.
Finalmente, chegamos ao hospital, o que foi um alívio.
Passamos pela recepção como velhos conhecidos, chegamos a sala de espera da Ala 3; o sofá em L, Nico encarando o teto, Thalia do seu lado, Anfitrite com cabelos curtos e Poseidon em pé tomando um café puro e aparentemente, ruim. Resumindo, tudo estava idêntico ao dia anterior além da presença dos pais de Thalia e os de Nico.
– Posso visita-lo agora? — perguntei, assim que chegamos a sala
– Annabeth, modos. — Atena brigou — Bom dia. Como ele está?
– Como se você realmente se importasse. — resmunguei
Minha mãe revirou os olhos, deixando claro que estava acostumada com meus ataques de raiva e que eu os teria até alguém em específico acordar.
– Pode vê-lo, Annabeth. Vamos, eu te acompanho.
Poseidon segurou meus ombros. Encarei minha mãe e ela assentiu, como se tivesse que me incentivar. Atravessamos alguns corredores que, com certeza, eu me perderia se viesse sozinha.
– Nós conseguimos um quarto para ele, sozinho. – ele explicou enquanto fazíamos uma curva e atravessamos uma porta com os nomes UTI em vermelho – Espero que não ache que isso seja egoísmo.
– Não. – respondi, prontamente – Não foi, nunca.
– Fico feliz em receber sua aprovação.
– Percy te amava muito.
– Ama. – corrigiu-o
Poseidon sorriu e me apertou entre seus braços.
– Sim, ele a ama. Muito. Fico feliz que ele tenha escolhido a garota certa.
– Rachel já sabe? Sally? Kaya?
– Sally soube, mas ela não quer que Kaya veja o irmão ainda. Elas estão em Toronto e talvez venham na próxima semana.
Confirmei com a cabeça até Poseidon cumprimentar uma enfermeira que passava e pararmos em frente a uma parede de vidro. Um garoto estava deitado, inerte, uma tela mostrando seus batimentos cardíacos calmos e serenos enquanto seu rosto estava repleto de calmaria, como se ele estivesse em um sono muito bom com sonhos maravilhosos.
– Eu... Posso entrar?
– Claro, claro. Quer que eu te espere?
Encarei novamente a parede de vidro.
– Não, não... Precisa. Eu sei como voltar.
– Tudo bem. Me ligue, caso precise de ajuda.
Assenti, sem dar muita importância e abri a porta branca da sala. Como esperado, o cheiro de álcool etílico me alcançou e estremeci. Me causava péssimas lembranças.
Observei o lugar. Um sofá branco encostado a parede, janelas fechadas com cortinas brancas empatando a entrada do sol. Outra porta que eu reconheci como o banheiro e o “bip”, o maldito bip que me acordara.
Tomei coragem para erguer os olhos até Percy.
Seu rosto era totalmente impassível, sem nenhuma emoção além de serenidade, o que deveria ser uma coisa boa. Seu cabelo estava arrumado para um único lado deixando claro uma mancha enegrecida no canto de sua testa, seu queixo anguloso e suas bochechas não estavam com a vermelhidão tão conhecida por mim. Suas mãos estavam abertas ao lado do corpo e sua respiração estava sendo auxiliada por meio de uma máscara que lhe enviava oxigênio puro, além de tubos enfiados em seus braços.
Senti meus olhos lacrimejarem mais uma vez e avancei contra ele e peguei suas mãos entre as minhas.
– Percy. – sussurrei – Eu sinto sua falta. – toquei em seu rosto frio
Parecia mármore, não estava como acharia que estivesse, leve. Sua pele continuava alva, porém pálida demais para me dizer que ele estava saudável.
Talvez... Talvez se eu conversasse com ele, seus olhos se abririam, ele me daria uma mensagem, apertaria minha mão ou sei lá.
Segurei seus dedos rentes aos meus lábios.
– Obrigada. Obrigada por ter me salvado. Por ter sido corajoso para enfrentar tudo aquilo. – sussurrei, inclinando-me sobre seu corpo, desejando que seus olhos se abrissem e eu pudesse visualizar suas íris verdes em tom de divertimento – Eu... Só queria que você soubesse que eu estou aqui, sabe?
Me calei, talvez ele estivesse tentando enviar algum sinal. Sua mão continuava mole rente aos meus lábios. Coloquei meu ouvido em seu peito, sentindo ele subindo e descendo mecanicamente.
Onde estava aquele descontrole de seu coração ao sair de um jogo ou quando estávamos sozinhos? Onde ele estava?
– Diga alguma coisa. – pedi, acariciando seu rosto – Por favor. Não quero desistir de você, não vou desistir de você. Eu prometo. Mas você precisa me ajudar, Percy. Não pode ficar simplesmente... – engoli em seco, percebendo a loucura que eu ia dizer – Parado aí. – completei em um sussurro sôfrego – Sabe o colar que me deu? – perguntei, sorrindo para o nada – Eu não vou usá-lo até você acordar. Não sei como usaria e você não pode me deixar. Não vou usar aquele joia tão perfeita em seu enterro, seu babaca. Você precisa acordar. Eu preciso usar aquela coisa pra momentos melhores. E... Me perdoe. Me perdoe pelas merdas que eu fiz, pelo tempo que perdemos.
Engoli o choro, meu orgulho, meus princípios, mas não pude engolir as lágrimas que desceram em avalanches pelos meus olhos.
– Me desculpe por não ter me dedicado o quanto você merecia. Eu não quero te dizer adeus, meu amor. Não quero e não vou. Não me deixe fazer isso.
Balancei-o, mas ele continuou inerte.
Nenhum sinal.
– Percy. – murmurei – Por favor.
Nenhum sinal.
Suspirei, hesitante. Não poderia desistir, claro, nunca faria isso. Mas era absolutamente frustrante saber que ele não te escutaria.
E talvez nunca o fizesse.
Não.
Não.
Percy estava vivo. Ele iria acordar. Em algum momento, talvez ele precisasse de mais algumas semanas e eu estaria ali, esperando, observando-o, eu queria ser uma das primeiras pessoas a quem ele fosse abraçar.
Senti meu coração despedaçar quando me virei para ele, senti como se fosse a última vez que eu o veria. Não. Eu continuaria ali, claro. Respirei fundo, fechando a porta atrás de mim e ajeitando meu vestido de alças finas. Ele adoraria. Era azul, com flores esverdeadas na barra.
Sorri fraco antes de seguir meu caminho, tentando achar a sala de espera. Perguntei onde era a Ala 3 para uma enfermeira simpática que me levou até o começo da Ala 4, daí por diante, consegui achar a sala onde parte de minha família estava.
Tentei me conformar. Tentei me acalmar, mas não era tão fácil.
Nada parecia existir depois que saí da sala. Ele estava em coma.
Não era como as cenas do filme que ele poderia me escutar, me ouvir, me sentir. Ele estava quase morto.
O garoto que me salvou, me ajudou, me apoiou, me provocou... Ele fez tudo por mim e eu não podia fazer nada, além de desistir.
Eu não podia desistir.
Agarrei meu vestido, poderia ser o verão ameno de Hamsphire, mas parecia que estávamos na pior época do inverno. Atravessei o corredor e pude ver a sala de espera a minha frente.
Minha mãe. Ela estava ali. Depois de tanto tempo sem vê-la, sem tê-la por perto, eu não poderia ser a fraca. Não podia faze-la entrar em uma depressão. Respirei fundo, endireitando minha coluna e cruzando meus braços. Não enxuguei as lágrimas que caíram, não fazia sentido. Todos sabiam o que eu estava sofrendo. Sabiam o quanto eu estava devastada.
Minhas mãos estavam atadas. Não podíamos fazer nada além de esperar.
Nico estava sentado, como antes, dessa vez, ele não chorava, apenas encarava um ponto fixo, com as mãos apoiadas no queixo.
Pigarreei.
Poseidon ergueu a cabeça, Anfitrite me mandou um sorriso triste e afagou a cabeça do marido. Minha mãe se desencostou da parede, descruzando os braços e abraçando meu corpo. Thalia beijou o ombro de Nico e sussurrou alguma coisa para ele.
Seus pais não estavam ali, eles deveriam ter saído ou decidido tomar café. Luke estava quase dormindo, apoiando a mão no queixo para não babar, talvez, em outras ocasiões, eu riria.
Por fim, parei meus olhos em Nico que não falava nada desde que eu recebera minha alta. Sabia que ele estava chateado, talvez zangado. Era seu melhor amigo e eu entendia absolutamente o que ele estava sentindo, talvez de um jeito pior.
E talvez, ele me culpasse.
Me culpasse por ter reatado essa coisa que tínhamos, essa coisa que evitei de chamar de namoro para que não caíssemos na desgraça mais uma vez.
Seus olhos negros me fitaram e pude ver o típico olhar acusador que eu esperava receber. Eu merecia isso, sabia disso, mas receber isso de uma das pessoas que eu considerava como melhor amigo acabou com o resto da sanidade que me restara.
Nico se levantou. Encolhi-me nos braços de minha mãe.
Era isso, ele iria sacar uma arma e seria meu fim.
Controlei meus soluços. Eu merecia isso, primeiro, confiara em Thomas. Ele me traíra. Depois, Rob, o cara que acabou com meu recomeço. E agora eu arcaria com as consequências, estava pronta para morrer.
– Querida... — minha mãe afagou minha testa suada, embora sentisse meu corpo tremer de frio — Querida, Nico quer falar com você.
Engoli em seco e assenti, abrindo os olhos.
Nico estava inclinado sobre mim. Não conseguia identificar nada em seu semblante além de confusão.
– Encontraram isso no jeans dele. — ele empurrou um papel amarelado e úmido — Tem seu nome. E... — ele tossiu, quase esfregando o papel em meu rosto — está molhado, então... Eu não li. — apressou-se a dizer
– Sinto muito. — sussurrei, afastando os braços de minha mãe — Eu sinto tanto, eu não queria que aquilo acontecesse, eu acho...
Nico abraçou meus ombros. Deixei as lágrimas deslizarem mais uma vez naquele dia, meu corpo tremia e minhas mãos seguravam a blusa negra dele com toda força. Nico me abraçou mais forte quando ruídos estranhos saíam de minha boca.
– Eu não queria... — solucei
– Ninguém queria, Annie. Não foi sua culpa, ok? Ei, olha pra mim — ele levantou meu rosto, buscando por meus olhos -, ambos sabemos que isso não vai ficar barato.
– E o que vamos fazer? — murmurei — O que aconteceu com você e Thalia?
– Não foi nada demais. Estávamos entre muitas pessoas. — respondeu e virou o rosto para o lado, uma mancha roxa se erguia ao lado de seu olho esquerdo — Annie, eu o amava, você sabe, ele era meu primo...
Entendi o que ele quis dizer. Nico havia perdido as esperanças.
Nico aceitou a realidade e desistiu.
– Não. — encostei as luvas contra minha bochecha e empurrei Nico pelo peito — Você não fez isso! Ele é seu primo. Você o ama! Ele está vivo, Nico! Você não... — solucei tão alto que meu corpo se irrompeu em um solavanco — Você não pode fazer isso!
Nico não me respondeu. Enfiou o pedaço de papel com cuidado suficiente no bolso do meu casaco antes de voltar para seu lugar de antes.
Engoli em seco. Me obrigando a parar de chorar, minha mãe me abraçou novamente.
Não consegui controlar os tremores que avançam em mim. Nem o choro. Nem os soluços ou os ruídos. Na verdade, era a única coisa que eu consegui fazer por um tempo.
Depois de meia hora, decidi parar de bancar a garotinha idiota. Chorar não faria Percy acordar. Gritar com todo mundo naquela sala não faria ele acordar e me abraçar, me beijar... Me proteger.
Thalia comentou algo com Luke que meneou a cabeça sem muita importância.
O rosto dela estava vermelho, ela tinha um corte no canto da cabeça, mas que já tinha sido cuidado. Eu não tinha paciência de perguntar de novo o que tinha acontecido. Não tinha paciência de falar com ninguém ali.
Também não liguei, entretanto. Encostei-me na poltrona desconfortável, encarando o teto. Meu cotovelo ainda doía de vez em quando. Tirei o papel mais seco do meu bolso.
Ele estava dobrado em quatro partes. Franzi o cenho.
A caligrafia de Percy não era tão conhecida por mim. Eu me odiei por isso. Passei os dedos pela caneta manchada e as marcas que a caneta preta havia feito. Pensei no momento em que ele me deu o colar, em que beijamos, se eu me esforçasse, talvez conseguisse lembrar a textura de seus lábios contra os meus e a surpresa em seus olhos quando viu a labaredas de chamas. E, talvez, ele quisesse me dar antes de toda aquela merda acontecer.
Respirei fundo e tomei coragem para ler.
"Eu sinto sua dor, sua tristeza, sua alegria. Sua felicidade. Eu sinto seu amor.
Meu amor é seu. Meu coração é seu.
Nós somos um. Mesmo que isso seja impossível fisicamente.
Annabeth, você é minha. Eu te quero feliz comigo.
Você é meu tudo.
Quer voltar a namorar comigo? E me prometa, que nunca mais vai embora. Porque eu não vou. Nunca mais.
Seu e pra sempre seu gentleman,
Perseu."
Eu chorei. Não havia mais o que fazer além disso.
***
Era difícil arrumar as malas.
Nunca me dei conta de como era chato arrumar as malas quando tive que o fazer em um momento tão crucial em minha vida.
Eu tentei brigar, tentei argumentar que não, não podíamos sair de Hampshire até Percy acordar, estava fora de cogitação deixa-lo tão frágil a mercê... Dos próprios pais. Claro que não citei a última parte, mas fiquei muito tentada a tal. Poseidon e minha mãe usaram toda persuasão que possuíam para me fazer voltar para Los Angeles com ela e Luke.
Visitei Percy uma última vez. Beijei seu rosto e segurei suas mãos, implorando por um aviso, qualquer que fosse. E o máximo que obtive foi o som da máquina que monitorava seus batimentos cardíacos. Finalmente, eu entendi o porquê dos sofrimentos que eu taxava como drama.
Logo que saímos do hospital, minha mãe nos trouxe a Goode. Ela estava imersa em um silêncio, como se entendesse que o líder do time principal estava em coma sem previsão para que voltasse. Claro, ele não iria liderar mais, isso ficaria para algum veterano que deixara o primeiro ano para ingressar no segundo.
E eu me perguntava se esse líder teria uma vida tão louca quanto ele teve. Se esse líder participaria de um triangulo amoroso e teria uma novata que o quisesse a qualquer custo por motivos tão estranhos que nem ela mesma entendia. Mas que entenderia, algum dia.
E assim que minha mãe me deixou na porta do meu quarto com Luke, me perguntei quem ficaria com meu quarto. Quem usaria meu banheiro e como decoraria. Se ainda colocaria um abajur cinza, ou deixaria as cortinas com aquelas cores claras que a Goode havia imposto. Vi minha mãe desaparecer nas escadas e deixei a porta aberta enquanto Luke pulava na minha cama e pegava uma das minhas provas finais.
– A em química... B em inglês... D em física. Uh, estamos decaindo aqui, Srta. Chase. – ignorei-o, era a coisa mais sábia que vinha fazendo desde que saí do hospital
Também não me importava com minhas notas. Por sorte ou não, eu havia passado direto, o que me deixou, de fato, surpresa, mas grata. Eu não teria tempo para lidar com recuperações depois de hoje.
Nem sei se seria a mesma.
Puxei a mala que ficava no canto do closet e a coloquei em cima da cama. Fiz várias caminhadas até ter trazido todas as roupas, caixas de papelão e a caixa que ficava na prateleira mais alta.
– Por que você tem tantos sutiãs? – Luke pegou um sutiã preto, observando-o
– Porque eu tenho peitos e tecnicamente, eu preciso deles. Agora, me dê.
– Ui, estressadinha.
– Você sabe o porquê de eu estar assim e não importa o quanto tente me animar, você não vai conseguir, então já pode parar. – puxei o sutiã de suas mãos, dobrando-o e colocando-o na mala
Luke se encolheu, deitou-se sobre as almofadas, ainda com a fronha que eu havia trazido da Califórnia, e voltou a folhear minhas provas, como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Deixei de lado todas as roupas pesadas, do tipo segunda pele e os casacos que eu havia comprado aqui. Eu poderia passar em algum orfanato antes de ir embora e doar.
O resto das roupas que eu dobrei estavam empilhadas de forma organizada dentro da mala. Por fim, peguei a caixa de alumínio. Eu deveria levar tudo que estava ali dentro. Era minha caixa de lembranças, a caixa que eu tinha desde os dez anos.
Peguei o maço de cigarro jogando de qualquer modo. Tinha metade dos cigarros e talvez fosse me servir pra algo. Coloquei embaixo de todas as roupas, pegando o isqueiro. Pude ver os olhos de Luke me avaliando discretamente, mas eu o ignorei. Acendi o isqueiro algumas vezes para ver se ainda estava em bom estado e por sorte, sim, estava. Coloquei-o no meu bolso da frente para saber que não importasse onde meu pai estivesse, ele poderia me ajudar agora também. Eu queria dizer pra ele que eu podia vingar a morte dele, que eu ia. No entanto, eu podia ouvir sua voz dizendo-me que me amava.
De que era composto a vingança? Apenas de um ódio frívolo que se perdia futuramente.
Deixei a ideia de lado, empurrando alguns papéis e encontrando algumas fotos. Minha e do meu pai, da minha mãe, das nossas viagens com nossa família. Com Thalia, Silena, as garotas... Escolhi as mais especiais e as coloquei na mala.
Respirei fundo, e fechei a caixa.
– Você pode ver se tem algo no criado mudo? – perguntei para Luke
Ele assentiu e esticou o braço, puxando a primeira gaveta enquanto eu lhe virava as costas, indo procurar algo mais no closet.
– Camisinha... – gritou – Canetas, lápis e uns papéis, quer dar uma olhada?
– Não. – gritei de volta – Mais algo?
– Alguns cadarços... E mais papéis.
Bufei, voltando para o quarto e andando por ele. Luke me observou enquanto eu me agachava ao seu lado e enfiava meu braço por debaixo da cama, tateando se havia perdido algo lá.
Puxei uma superfície macia.
Um boné.
Senti meus olhos lacrimejarem, era como se eu fosse entrar em mais uma crise de choro ou de pânico, não importa o que aquilo fosse. Mordi o lábio inferior. Chega de chorar. Chega.
Suspirei e pus o boné por cima dos meus cabelos bagunçados.
Luke inclinou-se, mudando a aba para trás.
– Fica melhor assim. – sorriu, sem mostrar os dentes, como se entendesse tudo que se passava em mim
Eu deveria sorrir. Agradecer por estar comigo de boa vontade sem dar um surto sequer. Mas não pude fazer isso.
Então, me levantei e peguei minha mala, fechando a porta.
Tudo que ficara. Tudo que ficaria poderia ser levado junto com o fogo.
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