Nightingale.
71 Nightingale.
Notas iniciais
"I kinda need a hero, is it you?"
É difícil entender o quanto alguns meses podem te amadurecer, talvez, apenas por uma notícia, talvez por algo que aconteceu.
Eu passei por isso algumas vezes na minha vida em um curto período de tempo. Eu caía, em um baque profundo que mudara toda minha vida e eu me levantei, de um jeito insensato que, claro, não fez com que eu amadurecesse. Então, eu caía mais uma vez, nesse momento, eu tinha que me salvar e tentar entender coisas que até hoje não foram esclarecidas, porém eu me levantei. Naquele momento, eu me sentia tão indefesa e idiota que, inconscientemente, isso me fez amadurecer, eu quebrei a cara algumas vezes depois disso, claro. De um jeito que até hoje dói e que eu tento não reviver, no entanto eu me ergui.
Me sentia novamente medrosa, sem ninguém que me protegesse, dessa vez, contudo, não era apenas eu. Tinha alguém mais a proteger. E mesmo que todo meu corpo se contorcesse em medo e angústia, eu fazia com que as pessoas entendessem que eu sou forte, poderosa e acima de tudo, independente.
Assim que minha mãe havia me deixado no aeroporto LAX, eu soube que seria meu adeus à Hampshire e a toda uma vida que eu construíra com pessoas que amava.
Talvez fosse a última vez que eu veria Thalia e Nico que, embora minha sagacidade e perseverança para leva-los UCLA, eles continuaram firmes em sua decisão de continuarem em Cambridge. Infelizmente. O que queria dizer que a Grande Promessa, como muitas outras, foram quebradas. E eu tentava não ligar, embora doesse muito. Ficar sem sua melhor amiga não é algo fácil de se superar.
Então, eu iria sozinha com dois babacas, vulgo Luke e Ethan, para a minha nova universidade em Los Angeles, vivendo uma vida aparentemente segura sem criminosos por perto e sem planos malignos para matar um velho que queria sua morte por uma vingança confusa.
Mesmo no verão, Hampshire não era tão quente quanto Los Angeles e mesmo que nos dias seguintes, o calor tivesse reinado brevemente, eu estava agasalhada com um sobretudo, jeans negro e uma blusa larga demais para ser minha — e não era.
A entrada da Goode continuava a mesma, exceto por alguns alunos que chegavam. Era final de verão, as matrículas estavam sendo feitas e quem ainda quisesse escolher os melhores quartos, tinha pleno direito.
Atravessei o estacionamento, encolhida em meu agasalho, murmurando um bom dia para o porteiro novo. Assim que atravessei a portaria, pude sentir o ar quente cortar meu rosto e me aquecer por completo.
Abri a porta da secretaria com o quadril, fechando-a suavemente.
Uma mulher de cabelos ruivos presos fortemente em um coque, explicava algo para um homem alto de sobretudo, debruçado casualmente sobre o balcão. Analisei todo o lugar, percebendo que estávamos apenas nós. Uma desconforto conhecido passou por mim, minhas pernas começaram a doer, assim como meus pés.
Não vai demorar muito pra estar em sua linda cama em Los Angeles, pensei.
Quero dizer, depois de quatro meses morando em sua casa de novo com os cuidados que sempre conhecera ao invés de um quarto em um internato onde basicamente você teria que se virar da maneira que preferisse, pensando por esse lado estar sob os cuidados de sua ex-babá e de sua mãe parecia um paraíso.
Respirei fundo, tentando ignorar o remexer conhecido em meu estômago, debrucei-me sobre o balcão de vidro encarando as propagandas e fotos do colégio. Uma foto do time de torcida estava exposto, quando ganhamos no último jogo e o time de futebol perdeu. Eu estava com um sorriso largo, provavelmente cansada e um rabo de cavalo. Parecia uma eternidade desde aquele dia em que aconteceu o sequestro, em seguida o sumiço de Rob. Eu sentia falta dele, na verdade. Ao lado da foto das líderes de torcida, a foto do time de futebol estava posta. Era notável o líder entre eles. O capacete estava posto, os joelhos dobrados e as mãos sobre os mesmos. Percy era incrivelmente notável onde quer que estivesse.
Ignorei a parte do meu cérebro que trazia mais fatos sobre eles. Eu também tinha que falar com Poseidon para marcar uma visita no hospital. Mesmo que eu quisesse evita-lo, não podia deixar de vê-lo.
– Senhora? — a secretária tocou minha mão
– Ah, perdão. Eu encomendei minha transferência e boletim anual pelo telefone.
– Qual seu nome, senhora?
Forcei-me a não revirar os olhos.
– Senhorita. — corrigi — Annabeth Chase.
– Ótimo. Não vou demorar muito para achar o seu também, Sr. Jackson.
– Tudo bem. — ele respondeu
Ofeguei. Aquela voz.
Não era algo fácil demais para esquecer. Eu ainda tinha vídeos que me diziam o quão sua voz era grossa e rouca, me lembrava dos momentos torturantes no incêndio em que sua voz era abafada pela sua camisa úmida. Não disse nada, apenas virei-me debatendo-me com um sorriso ladino, sua mão apoiando seu queixo em uma pose casual.
Ele usava jaqueta de couro, jeans e uma blusa branca. Seus olhos eram de um verde claro, uma imensidão clara que se assemelhava a um mar com um horizonte indefinido.
– Ah, meu Deus. — arfei, erguendo meus dedos trêmulos para tocar seu rosto — Você é de verdade? Você não é um clone? — toquei sua bochecha, dedilhando até seu queixo
– Pare de ser idiota e me abrace, por favor.
Assenti, sem saber ao certo ao que fazer. Joguei meus braços sobre seus ombros, puxando-o contra mim.
Não me dei conta de que faziam quatro meses desde que não pude sentir o calor de sua pele e sua respiração contra meu cabelo. Parecia uma eternidade, um tempo indefinido que parecia não fazer sentido agora.
– Por que não me ligou? Por que não me procurou?
Percy sorriu; era radiante, sem mágoas. Apenas um misto de saudades tão grande quanto a minha.
– Faz dois meses desde que acordei... Daquilo. Sinto muito, mas eu estava... Ocupado.
Não surtei, gritando, como eu vinha sonhando quando o reencontrasse. Nem bati nele, o que eu esperava fazer.
– Eu morri de saudades. Você deveria ter me avisado. — protestei
– Você está namorando? Já?
Arqueei as sobrancelhas, ofendida.
– Nos encontramos depois de quatro meses e é a melhor pergunta que pode fazer?
Ele riu, afastando-me lentamente.
– Só achei que quando nos víssemos novamente, você me daria seu melhor beijo, mas... — deu de ombros
Sorri, agarrando sua nuca e o puxando contra mim. Seus lábios estavam molhados, um gosto doce predominando em toda sua boca, me trazendo segurança e sensações que eu tentava relembrar todos os dias, mas era impossível.
Alguém pigarreou entre nós. Percy afastou a mão de minha cintura, virando-se.
– Aqui estão as transferências.
– Valeu. — ele pegou as duas pastas e me encarou — Então... — ele abriu a porta, empurrando minha lombar com casualidade, como sempre fazia — Só veio aqui para pegar uma transferência?
Sorri, virando-me e beijando seus lábios mais uma vez enquanto agarrava sua mão.
– Claro que não. Achei que você ainda estava... Internado.
– Quer uma carona? — ele apontou pra moto encostada no estacionamento
– Moto? — acusei, esnobe
– Eu quis inovar.
Percy derrubou o braço sobre meus ombros, puxando-me até sua moto. Segurou minha cintura, empurrando-me até meu quadril estar contra sua moto. Seus lábios atacando-me mais uma vez. Abracei seus ombros enquanto ele deixava as pastas transparentes de qualquer jeito em cima da moto, seus lábios ferozes e suculentos contra os meus.
Não conseguimos parar de nos beijar, de nos tocar, de suspirar de felicidade por estarmos juntos. Claro, haviam milhares de empecilhos que nos fariam irritar, gritar um com outro e passar dias sem nos falar. Mas quem se importaria com isso no momento em que a boca faminta dele estava contra minha? Quando eu podia sentir sua respiração entrecortada, seu peito subindo e descendo tão ferozmente que o oxigênio nem se mantinha o suficiente ali dentro. Quem se importava?
Puxei seus ralos cabelos da nuca, inclinando-me ainda mais contra seu peito.
Queria que estivéssemos sozinhos em algum lugar para podermos ser quem quiséssemos e fazer o que quiséssemos.
Entretanto, a realidade era que nada disso iria acontecer. Eu tinha uma faculdade para começar, minha passagem estava marcada para o dia seguinte e... Algo apitou em minha cabeça.
Hesitei, depositando a mão no peito de Percy. Existia um "empecilho" agora.
Um empecilho que, talvez, o fizesse repensar. Um empecilho que não era o sinônimo de problema para mim — e sim, pro meu corpo.
– Percy. — sussurrei em meio ao beijo
Ele bufou, segurando minha cabeça e roçando os lábios contra os meus.
– Você não vai fazer isso.
Ri, afastando seu rosto e acariciando suas bochechas rosadas.
– Preciso... Te contar uma coisa. Importante.
– Sobre o tempo que fiquei fora? Eu decidi que não quero saber nada. Passou. Eu não vivi. Acho que não é justo ficar revirando o passado.
– Não é só um passado. — sussurrei, descendo as mãos para seu peito, ajeitando a lapela de sua jaqueta — É sobre nós.
– E? — seu dedo estava brincando com minha franja caída
– E que, bem, — engoli em seco — estou grávida. — despejei, encarei seus olhos confusos antes de acariciar seu queixo
– É uma gravidez de risco. — disse — Devido a primeira perda do bebê. Foi difícil convencer minha mãe que a médica tinha dito o contrário para vir sozinha. Sabe, é mais sobre...
– De quem é o filho? — ele perguntou, seu tom de voz era frio
Arqueei as sobrancelhas.
– Eu vou fingir que não ouvi isso. — fechei os olhos, apoiando minhas mãos na moto — Espero que saiba que eu nunca faria isso com você. Acabamos de nos ver...
– Mas você estava tomando anticoncepcional, não estava e... Como... Por que você engravidou?
– Ah. Entendi. — dei uma risada fraca, cruzando os braços e erguendo o queixo — Você não quer assumir o filho? Tudo bem. — assenti — Você está na flor da idade, acabou de perceber que você tem que comer muita mulher. Ok, vai lá, fodão.
Ele segurou meu rosto entre suas mãos. Não percebi que queria chorar até que pisquei os olhos e pequenas gotas caiam sobre minha bochecha. Talvez fosse a sensibilidade maldita que a gravidez me trazia e talvez – grande parte de mim concordava – que ele não se importava e que eu iria me entristecer mil vezes mais.
– Me desculpe por ter me... Interpretado errado. Por que não tomou o remédio?
– Foi no dia antes do incêndio. No dia do baile. Teve tudo aquilo, você ficou em coma, ficamos uma semana no hospital. Não deu tempo de lembrar sobre isso.
– Só porque eu estava em coma?
– Eu já entendi! Não quero que crie o filho comigo, ok? Só quero que... Bem, vá vê-lo de vez em quando.
– E... Pra qual faculdade está?
– Faculdade? — bufei — Está preocupado com isso? — ele assentiu — Vou ter meu bebê e volto assim que for possível. Vou me formar em arquitetura, como quero. E...
– Não disse que não queria o bebê. E não vou deixa-la cuidar desse garoto com sua... Mãe. Ela é neurótica.
– Idiota. — sorri, batendo em seu braço
– E ah, preciso abandonar Cambridge. Não vai ser bom ficar em outro continente do meu garoto.
– Seu garoto? — perguntei, desafiadora, embora estivesse com um sorriso
– Sei que é um garoto. Aliás, você está com quantos meses?
– Quatro.
– É, preciso vender a moto também. E preciso arranjar um emprego... Precisamos arranjar uma casa, porque morar com sua mãe está fora de cogitação. E... ah, preciso ver todos seus exames. E Nico vai ser o padrinho antes que tenha a ideia de ligar pra Luke.
– Não tive.
– Isso é ótimo. — ele me beijou, acariciando a lateral do meu rosto
Tentei fazer minha mente esquecer tudo aquilo, mas era difícil demais quando eu esperava uma rejeição nata de Percy. E, na verdade, ele começara a fazer planos.
– Nico e Thalia estão em Cambridge, não é?
– Tentei convencê-los para UCLA.
– Vamos tentar de novo. — ele piscou — Agora, suba aqui e vamos dar a grande novidade pro novo vovô. Calma, ele não sabe, sabe?
– Não, Percy. E vamos em Cambridge também, certo?
– Damos um jeito.
Ele não me ofereceu capacete e também não colocou nenhum, apenas subiu na moto, me ajudando logo em seguida.
Meus braços ao redor de sua cintura e o vento trazendo o perfume para minhas narinas me mostravam que estávamos seguros e juntos novamente.
***
"Baby, I'm little blind, I think it's time for you to find me"
***
O sol era incessante. O laptop estava com o Word aberto com oitenta e sete páginas completas, sentia meus olhos doerem mesmo que estivesse com óculos escuros.
Mesmo que estivesse sozinha, com a areia começando a cobrir meu corpo aos poucos, o som do mar se debruçando sobre a mesma e os leves gritos ao longe, eu me sentia completamente relaxada.
Depois de um ano e meio desde que descobrimos que estava grávida e nos mudamos definitivamente para Califórnia, tudo estava andando estranhamente bem. Eu conseguira trabalhar na empresa de comunicação de meu avô enquanto estava grávida e Percy conseguira uma vaga de gerente em um banco local, trabalhamos o suficiente e guardamos dinheiro para dar entrada em uma casa relativamente média perto de UCLA e de patrimônio (depois de muita briga entre eu, minha mãe, Cronos e Thalia) decidimos que a casa de Malibu ficaria para mim e a de Venice Beach para Thalia (que, por sorte, conseguira mudar sua matrícula para UCLA, com certa dificuldade, claro) enquanto as outras casas se dividiam para os outros netos.
E era em Malibu onde estávamos agora, uma casa de costas para o mar com uma passarela de pedras artesanais que nos levava para a areia branca e uma praia quase particular.
Percy, claro, odiara. Ele era do contra de qualquer coisa que viesse da minha família, mas quando ele ganhara o carro do papai, não pude contestar, embora quisesse, mas tive que admitir que precisávamos daquele maldito carro.
Além de que, ele fora compreensivo demais na gravidez. Devido a facilidade de perder o bebê, eu tinha que ter cuidado com qualquer coisa, desde me abaixar, pegar pesos até andar na beira da praia pela manhã, como costumávamos fazer, e mesmo que eu tivesse todos os cuidados possíveis, o risco chegou duas vezes.
Da segunda vez, eu fiquei duas semanas no hospital, podia me lembrar do meu choro, do quanto eu evitava chorar já que minha ginecologista disse que qualquer sentimento negativo poderia, sim, passar para o bebê.
– Vai dar tudo certo, meu amor. – Percy dizia, acariciando meu cabelo
– Não! Você não entende. Não entende o que...
– Se você falar mais uma coisa dessas, eu vou pedir pra Thalia te socar assim que tiver o Paris.
Odiava admitir na frente dele que ele era o único que me deixava segura em uma ocasião como aquela.
Deixei meus olhos vagarem pelas letras do meu trabalho de arquitetura e suspirei.
– Você não deveria estar estudando em um final de semana, garota. – Nico chegou com dois copos de smoothies
– Claro que eu deveria. Eu passo a semana toda com Paris, é o único tempo que eu posso ter pra mim.
Beberiquei o copo, sentindo o gosto gelado e azedo descendo pela minha garganta.
– Tanto faz. – ele deu de ombros e espreguiçou-se ao meu lado – Por isso que não pretendemos ter filhos. E não duvido nada que você fique grávida de novo daqui há alguns meses.
Revirei os olhos.
– Claro porque se eu ficar eu vou pedir pra que vocês criem o garoto.
– Ei, ei! – Luke gritou atrás de mim, encolhi-me – Seu sogro chegou. – ele jogou-se ao meu lado, na outra cadeira – Ah, oi, Di Ângelo.
Nico fez uma careta.
– Onde está Thalia? – ele perguntou – Seu primo é um nojento. – comentou
– Kaya Blofis!
– É hoje que eu termino a merda desse trabalho. – resmunguei
– Annabeth! – Thalia parou a minha frente e puxou Jason e Kaya pelos braços – Eles não querem passar a droga do protetor solar! Isso tudo por causa de sua cunhadinha que fica colocando coisas na cabeça do Jason.
– Não fico colocando coisas na cabeça dele, tia. – ela lhe mandou língua
– Olha aqui, garotinha, se fizer isso de novo...
– Não vai acontecer nada. – fechei o laptop e puxei Kaya para o meu colo – Que saco! Eu tento ter paz, mas vocês me perseguem.
– É o amor. – Nico e Luke cantarolaram juntos e emburraram-se, logo em seguida
Peguei o protetor da mão de Thalia e comecei a passar pelos ombros e rosto de Kaya.
– Onde está Percy?
Ela deu de ombros.
– Ele estava dando a comida de Paris quando saímos.
– Jason Grace! – Thalia gritou quando seu irmão saiu correndo em direção a água
– Tudo bem, não vá muito longe, Kaya. – adverti antes que ela saísse correndo
– Sai daí, Nico. Saco. Eu tento, juro que eu tento, relaxar, mas não dá! Esse peste é... – ela respirou fundo – Tudo bem, é meu irmão e eu o amo.
– Essa é sua terapia? – Luke perguntou ao meu lado
– Eu deveria fazer isso com Percy, mas não dá. Ele é, tipo, muito irritante. – disse
– Por que vocês não preparam alguns petiscos? – Thalia perguntou, aconchegando-se aos braços de seu namorado
– Sem chance. Ethan acabou de chegar, vamos jogar videogame.
– Quantos anos você tem? – virei-me para meu primo – Treze? Cara, você está na faculdade.
– Desde quando isso importa? – retrucou e não me deixou debater, saindo correndo
– Nico, precisamos de comida. – Thalia pediu mais uma vez
– Você acabou de comer, Thalia. – rebateu
– Isso é uma indireta para você sair daqui, babaca.
Nico encolheu-se e pegou meu copo de smoothie.
– Nunca mais vou ser legal com você. – e então, saiu
– Drama. – Thalia revirou a mão de maneira indiferente – E aí, concluiu o trabalho?
– Falta algumas páginas, seria ótimo se não tentassem me interromper a cada cinco minutos.
– É tentador pegar esse seu laptop e jogar direto pro mar. Pode ter certeza, eu venho me segurando há muito tempo.
– Isso não é, nem de longe, engraçado.
– Só pra você.
Thalia abaixou os óculos escuros, contudo não demorou muito para que alguém interrompe-se o belo e simples silêncio que havia se instalado.
– Filha! – Atena beijou minha testa
– Querida.
Sally e Atena se sentaram ao meu lado, na borda da espreguiçadeira de Thalia, não demorou muito para que Poseidon agarrasse minha cabeça, dando um beijo em minha testa.
– Oi, nora preferida.
Sorri.
– Oi, chegou agora de viagem?
Ele assentiu, ocupando o lugar que Luke estava antes.
– Eu atrasei alguns minutos por causa do trânsito, mas... — ele deu um sorriso, ao colocar as mãos na nuca — Trouxe uma moto super legal para o Paris.
– Trouxe o quê? — minha mãe quase gritou — O Paris tem seis meses, por que você comprou uma moto?!
Poseidon deu de ombros, ignorando-a sabiamente e fechando os olhos.
– Isso é ridículo. E irresponsável. — Sally completou com seu tom de voz calmo
– Eu vi e achei legal, o que acha, mãe de Paris?
– Dinheiro pra nada. Você podia comprar algumas fraldas, pomadas e leite. Seria ótimo.
– Mas não seria legal. — Percy interrompeu, carregando Paris em um dos braços carinhosamente
Ele se inclinou sobre mim, beijando meus lábios e sorri mais uma vez, adorando sentir a suavidade de seus lábios e seus olhos altamente claros, assim como seu tronco descoberto.
Eu agradecia todos os dias por tê-lo por perto, agradecia por ele ter acordado e por ser meu.
Ele se ajoelhou na areia, deixando Paris em pé na minha espreguiçadeira.
– Você precisa ver, a moto é super legal! Até os caras queriam ter um filho só pra ganhar uma daquelas.
– Sabe que ele não vai usar isso, não é? — perguntei, inclinando-me
– Pode servir de decoração. — Percy deu de ombros
Minha sogra e minha mãe não pareciam estar prestando atenção em nossa conversa, o que eu adorei porque elas costumavam opinar sobre qualquer coisa que fazíamos.
– Diz oi pra mamãe, Paris. — ele balançou o garotinho pra cima e pra baixo com um sorriso bobo
Paris deu um grito animado, mexendo as mãozinhas gordas para todos os lados, batendo no rosto de Percy, ele riu.
– Esse foi o oi mais legal, garotão.
– Esse é meu garoto. – sussurrei, inclinando-me sobre ele e beijando suas bochechas gorduchas
– Eu já disse que ele é sua cara? – Percy argumentou com uma careta enquanto eu colocava Paris em meu colo
– Ele tem seus olhos, Percy. Não é, neném? Diga pro papai. – brinquei
– Paris acabou de comer e vocês ficam balançando-o para todos os lados. – Sally reclamou, cruzando os braços
– Ele pode vomitar se continuarem assim, que tipo de pais são vocês?
Percy revirou os olhos.
Eu sabia o quanto ele ficava irritado quando inventávamos de juntar as duas famílias, ou Sally e Atena se uniam para nos importunar e reclamar do jeito que criávamos nosso filho ou acabava em uma discussão árdua entre meus tios e o pobre do Poseidon.
Era por isso que evitávamos ao máximo sair com todos eles juntos e mesmo assim, era entediante sair apenas com nossos primos já que eles queriam curtir a vida e fazer mil e uma coisas de adolescentes irresponsáveis enquanto tínhamos responsabilidades demais para sair por aí.
– Vocês são irritantes. – Thalia retrucou – O filho são deles, oras.
– Eu te amo, Thals. – Percy piscou para ela e pegou meu filho dos meus braços – Eu deixei a lasanha no fogo, mas não confio nos caras, pode dar uma olhada depois?
Sem contar que Percy ganhou uma maravilhosa qualidade: ele aprendeu a cozinhar. O que eu adorei, de verdade.
Ele pegou a mão de Paris e a balançou no ar, como um tchau.
Thalia bufou.
– Percy já é um babaca e com esse garoto, parece um deficiente mental. – falou e levantou-se – Você vem, Annie?
Não rebati, apenas peguei meu laptop e fugi de lá o mais rápido possível. Eu achava impressionante o jeito que Poseidon conseguia ignorá-las rapidamente. Porque, no mínimo, eu ficava irritada e brigava com ambas.
Por sorte, Thalia estava fora do controle neste dia. Suas respostas para com Nico eram curtas, quase a vi bater em Luke algumas vezes e claro, Ethan era irritante em qualquer dia, em qualquer lugar e em qualquer momento.
Tirei a lasanha do forno e a coloquei em cima da mesa dos fundos que era dividida por uma porta que nos levava direto para a passarela.
Percy passou por ela, balançando o cabelo para todo o lado enquanto Paris gritava em seu colo.
– Percy! – reclamei, sorrindo, percebendo e agradecendo que estávamos sozinhos
Ele sorriu, segurou minha cintura e me beijou. Seus lábios tinham um gosto salificado enquanto Paris batia em minha cabeça. Separei-me, rindo e afastando seus cabelos negros de sua testa, com carinho.
– Você não deveria ir com ele para a praia.
– Ele gostou, está vendo? Vai ser um surfista tão maravilhoso quanto o pai. – piscou para mim, senti seus dedos acariciando meu rosto – Quando vamos nos livrar dessas pessoas em nossa casa? – sussurrou
– Logo. – respondi
– Malditos! Eu estou escutando! – Thalia brandiu, colocando os talheres em cima da mesa – E eu os odeio.
Percy riu.
– Vou dar um banho em Paris e desço, pode me esperar?
– Não passe muito shampoo, ok?
– Tudo bem. – ele cantarolou, me dando as costas
– E cuidado quando for colocar a fralda!
– Tudo bem.
– Não deixe ele muito tempo na água, Percy!
– Ok. – riu
Dei um sorriso. E ele desapareceu pelas escadas dos fundos.
***
"Cause, baby, you're my sanity, you bring me peace, sing me to sleep"
***
O banho da noite era o melhor. Eu me via longe dos meus familiares que já deveriam estar dormindo e me livrava dos gritos de Paris antes de dormir, isso era o peso de Percy.
Coloquei meu roupão por cima dos ombros e saí do banheiro.
Nosso quarto era o principal do andar superior, tinha uma cama de casal enorme, dois criados mudos ao lado da cabeceira e uma porta de correr com cortinas cinzas que flutuavam devido a brisa do anoitecer. Percy estava de frente para a porta, ele cantarolava algo enquanto Paris pendia a cabeça pelo ombro dele, babando um pouco e os olhos fechados.
Andei calmamente e abracei sua cintura, beijando o meio de suas costas ainda malhadas.
– Meus dois homens preferidos. – sussurrei contra sua pele, acariciando as pintinhas perdidas
– Somos os únicos. – retrucou
Ele virou-se, colocando uma das mãos em meu rosto e beijando-me com fervor.
– Vou... – começou – Hm, colocar Paris na cama.
Seus olhos procuraram os meus com avidez e assenti.
– Só me diz onde está o comprimido de dor de cabeça.
– Na primeira gaveta do criado mudo. – ele deu mais um selinho em meus lábios – Só um minuto.
Ri antes que ele saísse e vagasse pelo quarto.
Revirei os olhos, abri a primeira gaveta, ficando de joelhos devido a bagunça que tinha ali. Contas pra pagar – o que, agora que estávamos adultos e responsáveis, me causava muita dor de cabeça -, anotações das vacinações e etc. Acabei me irritando já que o maldito remédio não entrava em minha visão e Percy também não chegava para que eu finalmente o tomasse.
Acabei erguendo uma parte da gaveta, como se ela estivesse em falso e fosse oca. Franzi o cenho, inclinando-me e puxando a ponta da madeira, era como uma folha fina de madeira que escondia algo embaixo. Tirei todos os papéis, jogando-os no chão de forma despreocupada até que tive a visão de poder tirar todo aquele fundo falso.
E então, dei de cara com uma arma. A mesma arma prateada que Percy carregava quando o vi segurá-la pela primeira vez, encarei-a, meus dedos trêmulos indo em seu encontro, como se fosse algo de outro mundo. Peguei-a em minha mão, verificando se estava carregada. E a maldita estava.
A porta se abriu, ergui os olhos assustada a tempo de ver Percy me olhar, surpreso.
– O que está fazendo? – ele perguntou, fechando e trancando a porta
– Eu deveria perguntar isso, Perseu. – sussurrei, erguendo a arma em minha mão
– Isso é para nos proteger. – murmurou, adiantando o passo
Percy me puxou pelos ombros e segurou meu rosto.
– Eu sei, você pode me julgar, mas saiba que... Eu só quero proteger nossa família.
– Você está com uma arma dentro de nossa casa! No criado-mudo! Um lugar que o Paris mexe toda hora e você só quer proteger a família?! – gritei contra ele, erguendo, sem perceber, a arma
Percy respirou fundo e a pegou em minha mão, colocando-a de volta na gaveta.
– Você tem que confiar em mim. Sabe que eu não estaria com isso caso não fosse extremamente necessário.
– Talvez você goste dessa adrenalina em sua vida, mas não podemos ter essa adrenalina, Percy. Temos um filho e...
– Eu sei disso, meu amor. – ele sorriu, suas mãos se puseram novamente em minhas bochechas, acariciando-as – Estou com ela porque é necessário.
– Por que? Alguém está nos vigiando? Querem nosso filho? Podemos nos mudar...
Ele riu, calmo.
– Não estão nos vigiando e não querem nosso filho. Só... Estou inseguro a algumas coisas.
– Como?
– Como Rob não ter sido encontrado, nem aquele amigo idiota dele.
Assenti, engolindo em seco. De fato, eu não queria que Rob fosse encontrado, não queria que ele fosse preso, muito menos que sofresse na mão dessas pessoas da CIA ou da FBI, eu ainda tinha um pé atrás com ele depois de que saí do hospital. Quanto à Jay, não estava ligando, só queria que fosse morto, mas isso não cabia a nenhum de nós.
– Promete que não vai fazer isso? Promete que vai esconder... Bem escondido?
Percy sorriu, seu sorriso era brilhante e seus dentes alinhados, sua respiração quente se misturando com a minha.
– Prometo. – ele sussurrou, encostando seus lábios aos meus, carinhosamente
– Não gosto de brigar com você. – acariciei sua nuca – E não gosto que me esconda coisas, então não faça isso de novo.
– Não vou fazer isso, e o que acha de darmos uma irmãzinha pro Paris?
– De volta com essas ideias? Sabe que está fora de cogitação?
– Você não vai sofrer tanto quanto a primeira gravidez. – Percy beijou minha testa, descendo pelas minhas bochechas e terminando em minha mandíbula
– Você não é médico.
– Não. Mas eu vou estar lá e você deveria agradecer por isso.
Bati em seu ombro, reprimindo um ruído de surpresa quando senti a cama atrás de meus joelhos e Percy me empurrando ainda mais até que estivéssemos deitados.
– Isso não é o suficiente. – retruquei
Seus olhos me encararam. Um límpido mar verde calmo diante de mim, que me trazia conforto e tranquilidade. Não sei como seria minha vida sem ele, mas sabia que seria muito triste. Percy acariciou meu rosto, seu sorriso tamborilando pelos seus lábios.
– Sou tão sortudo de ter você comigo. – sua voz era baixa e carregada de emoção
Sorri, tirando os fios negros de sua testa e abraçando sua nuca.
– Sabe... – ele desviou o olhar, lambendo os lábios – Não sei como o destino foi tão certo em nos juntar no momento certo.
– Pare de ser clichê. – resmunguei, ainda sorrindo
– É... – ele estreitou os olhos e voltou a me encarar, acariciando a lateral do meu rosto – Como se eu estivesse perdido em uma floresta... Escura. E você aparecesse... Deveria ser um anjo, mas você não apareceu assim.
– Do que está me chamando, Jackson? – brinquei
– Você me trouxe a paz que eu procurava em... Drogas, pessoas, sexo... Você me trouxe isso com um olhar, Chase. Deve se sentir muito boa por isso, não é?
– Você não imagina o quanto, Percy.
– Só preciso de você. Aqui. Comigo. E tudo ficará bem.
Assenti, em transe, seus olhos pareciam dois faróis, como um céu que se abrisse diante de mim, implorando, obrigando-me, atraindo-me.
– Eu prometo. – balbuciei – Sabe que sempre estarei aqui com você.
– É o suficiente, meu amor.
E então, emergimos em nosso próprio mundo. Em um mundo que eu era dele. E ele era meu. E nada além de respirações ofegantes e promessas de entrega nos poderia separar.
Não precisava ficar confusa.
Tudo que eu precisava estava ali. Naquela casa. Meu filho, meus amigos, minha família e meu homem. E onde quer que meu pai estivesse, eu queria que ele soubesse que eu estava bem. E acima de tudo, feliz. Como ele sempre esperou que eu estivesse e dessa vez, eu já não precisava de fogo para afastar o urso, eu tinha meu próprio caçador.
Can you be my nightingale?
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