Nightingale.
19 Here We Come.
Notas iniciais
"California, here we come, right back where we started from"
Decidi que não iria sentir falta de jogos por um longo tempo.
Nossas aulas já tinham acabado e ontem, fora o último jogo do semestre. Eu estava exausta, cansada e com dor de cabeça devido a uma das melhores festas que Ares decidiu dar um dia antes da minha viagem.
Suada, com uma saia extremamente curta e um suéter brilhante, era assim que eu acordava. De um pesadelo assustador que fez meu corpo enviar altas doses de adrenalina em meu sangue. Sentia meu corpo pesar, assim que consegui sentar, cada músculo doía e poucas partes da minha pele pareciam arder.
Fazia tempo que não tinha aqueles pesadelos, e como sempre, eu não conseguia me lembrar de nada mais além das sensações que persistiam. Abracei-me com força, evitando que as lágrimas descessem.
Do lado de fora, o sol começava a nascer, as cortinas abertas e o aquecedor ligado, me faziam ficar ainda na cama, todo meu corpo pedindo mais minutos de descanso, porém minha mente impedia qualquer tentativa.
Decidi tomar banho e tirar aquelas roupas, aquelas pinturas roxas e brancas do meu rosto, assim como uma tiara de gatinho que eu nem sabia que usava. Por mais que odiasse água fria, achei incrível o ar de descanso e alivio que aquilo me proporcionou, todo meu corpo parecia mais relaxado quando entrou em contato com a água fria, meus cabelos pingavam quando saí do banheiro, o ar quente do quarto causando pequenos choques térmicos.
Minha mala lindamente pronta ao lado da porta. Não tinha muitas coisas, só alguns saltos, coturnos, peças intimas e shorts que eu amava assim como cropped e T-shirts que eu nunca tinha usado por aqui.
Eu ainda tinha dúvida se vestia roupas frescas ou alguma coisa pesada, escolhi a segunda, a chuva forte que caía do outro lado ajudou bastante em minha escolha. Vesti um jeans preto destroyed e uma blusa de alguma banda independente com um casaco em mãos. Ainda era seis horas quando desci com minha mala, o casaco, fones de ouvido e meu celular. Ninguém havia acordado ainda, a preguiça de ir ao Starbucks era muito alta, então arrisquei em fazer um cappuccino qualquer e esperar que todos estivessem prontos.
O que demorou bastante.
Sem querer, eu voltei a dormir encolhida no sofá.
– Ei, meu bem, vamos.
Cocei os olhos e bocejei.
A primeira imagem que tive foi do sorriso de minha mãe inclinada sobre mim, balançando meu corpo. Atrás dela, eu via Thalia saltitante, Nico bocejando e Percy com uma cara emburrada.
Mesmo com todas aquelas emoções misturadas, eu ainda sentia minha felicidade transbordando do meu corpo. Eu estava voltando para Califórnia e aquilo ainda não tinha entrado na minha cabeça!
Fora do prédio, eu via Nico e Percy arrumando algumas coisas no novo carro alugado, supus. Parecia uma van e provavelmente caberia todos ali, Beckendorf e Silena estavam juntos conversando com Afrodite que vestia seu típico look de viagem: um vestido colado em seu corpo jovem, um salto que eu nunca me imaginei usando da cor rosa berrante, um laço da mesma cor no topo da cabeça onde estava o coque e por fim, um sobretudo amarelo. Eu não entendia como ela conseguia ficar absolutamente linda com aquilo.
– Eu acho que estou cega. – Thalia murmurou ao meu lado, coçando os olhos
Apontei para minha outra prima patricinha e seu namorado com a cabeça.
– Por que eles estão assim?
A morena deu de ombros e seguiu seu caminho para o fundo do carro, jogando a mala sobre o peito de Percy e entrando na van, me chamando com a mão.
Fitei meus olhos curiosos para a conversa importante que Afrodite e sua filha pareciam ter, dei minhas malas enormes para os meninos vendo minha mãe chegar com uma mala média e começar a falar euforicamente.
– Eu acho que estou com fome. – Thalia resmungou
– Será que Thomas já está vindo? – continuei teclando coisas rapidamente em meu celular
– Acho que ele já foi. – minha prima avisou – Ou foi isso que sua mãe me falou.
Arqueei as sobrancelhas, confusa e assenti. A conversa que ouvira de Thalia e minha mãe ainda estava grudada em minha cabeça e de um modo estranho, eu não conseguia decifrá-la.
Percy e Nico entravam de novo no prédio, bufei e gritando, chamando a atenção de ambos.
– Qual problema de vocês? – balancei os braços – Vamos logo, vamos nos atrasar para o voo!
Ambos passaram as mãos rapidamente pela cintura, como se fosse algo sincronizado, Percy apalpava todo lugar onde deveria estar a bainha dos jeans e os bolsos.
Nico balançou a cabeça e me deu as costas, assim como seu primo, voltando para o hall de entrada.
– O que eles estão fazendo? – resmunguei, emburrada, vendo minha mãe acomodar-se no banco do passageiro
– Não sei. – ela franziu o cenho – Acho que esqueceram alguma coisa. Ainda temos tempo, relaxe, filha.
– Relaxe. – resmunguei e sentei-me ao lado de Thalia – Já falou com Luke esses últimos dias?
Ela balançou a cabeça, tratando de me ignorar da melhor maneira possível.
– Não está escondendo nada de mim, está? – abaixei meu tom, desejando que minha mãe não escutasse nada
– Não. Por quê? – seu tom de voz continuava desinteressado e sonolento
– Fala comigo! – balancei seu ombro, pulando no banco – Por que sou eu estou animada por aqui?
– Porque você é uma chata do caralho. Então, fica caladinha aí, vai. – minha prima me empurrou e enfiou os fones de ouvido, fechando os olhos e encostando a testa na janela fria
– Mãe! – gritei, infantil
– Tenho que concordar com ela, querida. Tenha calma, aquele avião não vai sair sem nós lá.
Demorou mais alguns minutos até que ambos os primos voltassem vestindo jaquetas – mais sexys que antes -, tendo o moreno de olhos verdes com uma touca azul por cima dos cabelos bagunçados, provavelmente. Nico, com sua delicadeza típica, me esmurrou e me empurrou até que eu saísse do lado de sua namorada sem graça e ficasse sendo um gay abraçado ao lado dela. Percy não emitiu sequer um ruído enquanto íamos em direção ao aeroporto. Por algum motivo, bom ou ruim, nenhum de nós comentou sobre sua ex-namoradinha que não tinha vindo.
– Onde está Silena? – perguntei em um súbito desespero de termos esquecido a garota lá
– Ah, ela não vai vir. – Afrodite disse, encarando pelos óculos de sol em forma de gatinho no retrovisor – Vai passar algum tempo com seu pai, essas coisas de lei.
– Ela não vai pra Cali? – carreguei um ponto de tristeza na minha voz
– Vai, depois de uns quinze dias. Não se preocupe, ela vai curtir tanto quanto nós.
– Quando você quer dizer “curtir” é em um SPA cinco estrelas por esse mês e meio?
Afrodite apenas sorriu ao meu comentário e continuou dirigindo como se tivéssemos todo o tempo do mundo.
E acabou que tínhamos. Chegamos meia hora adiantados, o que acarretou vários resmungos para mim. Cada um comprou um café enorme em uma cafeteria bem arrumada no aeroporto e nos sentamos, ao meu lado, Percy continuava calado e sério. Até pensei em puxar algum assunto até meu celular tocar escandalosamente no meio daquelas pessoas silenciosas e sérias.
– Hm, oi? – disse com a voz misturada em confusão por não saber quem estava falando
– Priminha!
– Luke! Ai meu Deus, que saudades!
Percebi Percy me olhar de esguelha, uma mistura de estar me chamando de idiota e outra de raiva. Só não consegui parar minha mente para analisar tudo aquilo.
– E ai, pequena. Estou sabendo que vai voltar, uh?
– Sim, estou indo. Pode desmarcar todas essas festas escrotas. Eu voltei purificada.
Ouvi a risada alta do meu primo e tive que acompanha-lo em um nível mais educado para os ingleses.
– Tudo bem, não serei eu que irei acabar com seu tratamento.
– Tratamento? – arqueei uma sobrancelha, e sabia que a essa altura Luke estaria se martirizando
– É, sabe, o psiquiatra. As notícias são rápidas por aqui, pequena. Onde está a Thals?
– Ah, com o namorado. Ops.
– Namorado? Sério?
– Uhum. – sorri abertamente – Hey, ele é legal. Não bata nele, ok?
– Qual o nome do idiota?
Ri e enrolei uma mecha no meu cabelo, pensando se deveria ou não falar algo.
– Nico. – falei e percebi Percy me encarando enfurecido, tentando entender que conversa eu estava tendo por citar seu primo
– Q-que? Que nome gay, hein. – sua voz saiu confusa e rápida
– Ei. – chamei-o e me afastei de Percy indo em direção a cafeteria de antes – Não está se drogando, certo?
– Quê? Nada a ver, Annie. Faz meses que não cheiro nada e você sabe disso. Agora, chega, ok? Eu vou ter que ir. Tenho que resolver umas coisas.
– Você vai me pegar no LAX, certo?
– Não sei, pequena. Tenho que resolver algumas coisas por aqui, mas prometo passar na sua casa, certo?
Suspirei, aquela conversa parecia a mesma quando eu tinha cinco anos e Luke, meses mais velhos. Prometendo coisas que nunca aconteceria. Sabia que ele sempre ia tentar se achar o fodão, mas mesmo assim, eu ainda me preocupava com esse idiota, sendo que conversamos pouquíssimas vezes enquanto estava no inferno que aprendi a gostar, a maldita e graciosa Hampshire.
– Tudo bem. – cedi, me sentindo uma perdedora
A ligação foi desligada logo em seguida e voltei para a cadeira de antes vendo minha mãe e minha tia conversarem animadamente ao meu lado.
– Quem era? – Percy falou pela primeira vez desde que o vi hoje mais cedo
– Meu primo.
– O que ele queria?
– Saber como as coisas estavam. – o encarei, curiosa e sorri – Onde está Rachel?
– Não sei se ela vai. E se for, vai passar poucos dias. O pai dela comprou uma viagem surpresa em família.
– Que bom. Pelo menos, ela tem uma família que se importa com ela.
– Tanto faz. – ele deu de ombros – Eu acho que estou me arrependendo a cada segundo que estou aqui sentado.
Ouvi nosso voo ser chamado imediatamente, então sorri e carreguei minha mochila nas costas, puxando as duas malas e segurando o pulso de Percy.
– Não precisa ficar sentado, e nem precisa voltar atrás. Só vamos. – pedi
Provavelmente, ele estava lutando contra si mesmo para levantar, depois do que pareceu uma eternidade, cá estávamos nós, sentados em poltronas confortáveis em uma área de luxo do avião. Thalia ao meu lado ainda com seus fones de ouvido insuportáveis, Nico e Percy à nossa frente, sem trocar palavras, minha mãe e Afrodite do mesmo jeito atrás de nós.
Não consigo definir o que aconteceu quando o avião levantou para o céu.
Estar em Califórnia era ser diferente.
Primeiro, nós fomos visitar Thomas em seu hotel. E aquele filho da puta não estava lá. Ele estava na praia de Los Angeles tarando todas aquelas turistas gostosas.
Certo, até aí tudo foi de boa.
Em seguida, fomos para a minha antiga casa, que continuava aparentemente a mesma coisa.
Externamente, ela era uma típica mansão em um bairro nobre de Los Angeles. Branca, teto alto e um estilo colonial com aquelas colunas brancas erguidas logo na entrada. Os portões de ferros eram grandes, altos e automáticos, então assim que minha mãe acionou um botão em seu controle, entramos para a garagem perto do jardim – que continuava a mesma coisa. Então, assim que vi um velhinho que sofria de calvície encostado em uma Mercedes longa preta, senti que já estava em casa, apenas de ver o motorista particular, Sam, me lançar um sorriso. Minha primeira reação seria correr para os braços daquele velho que falava frases filosofas a todo o momento, porém tudo que fiz foi lhe lançar um sorriso e vê-lo acenar com um sorriso ainda maior.
– Mary! – abri os braços vendo uma velhinha magra vindo em minha direção com seus olhos pequenos rodeados por rugas fundas
– Que saudades, minha menina! O que quer que eu faça? Mousse de limão ou de morango? Que tal uma torta de morango com chocolate para acompanhar?
– Seria ótimo, Mary. – minha mãe disse – Percy e Nico, o quarto de vocês é lá em cima, poderia mostrar a eles, Annie?
– Thals, vai ficar por aqui?
Minha prima sorriu, meneando a cabeça e subindo a escada conosco. Percy trazia uma mala grande, assim como Nico, que carregavam-nas sem dificuldade.
Parei no primeiro quarto a direita e apontei para um atrás de mim.
– Aquele é o seu Nico. E este é o seu, gentleman.
Acompanhei Percy até seu quarto em um aviso claro para que o casalzinho fosse para o outro quarto, fechei a porta atrás de mim, avaliando tudo ao meu redor.
Uma cama king size no meio do quarto estava bem arrumada, assim como duas poltronas perto da porta já aberta para a área que ainda mantinha aquele jeito colonial e grego, as poltronas eram de um tom roxo escuro com almofadas marfim em cima. As cortinas balançavam levemente trazendo aquele cheiro fresco e forte de maresia, bem parecido com que Percy emanava.
– Aqui é legal. – comecei, sentando ao seu lado na cama, vendo-o tirar os tênis
– É. – concordou
– Ali é o banheiro. – apontei para uma porta da mesma cor das paredes, um tom de marfim leve – E ali é o closet. Não é tão grande quanto o da Goode, mas deve ser o suficiente.
– Tudo bem.
– E assim que terminar, pode descer. Vamos comer um pouco e acho que meus tios e meus primos vão vir.
– Quantos primos você tem aqui além de Luke?
– Hm, que me importam? – perguntei, puxando as pernas para que ficasse mais confortável em cima da cama
Percy assentiu, tirando a jaqueta que vestia e me dando uma visão rápida da regata branca que usava. Pude ver algo metálico na bainha de seu short, mas não prendi muito minha atenção, os músculos expostos de seus braços pareciam bem mais malhados e mais sexys. Talvez, fosse o sol de Califórnia.
– Ahn... Os gêmeos Stoll, eles são mais velhos que Luke, e são do outro casamento do pai dele. Acho que eles devem estar por aqui também. Minha família não é tão barulhenta, e nem de longe, tão unida quanto a sua. – comentei
– Sinto muito. – disse, ainda de costas e encarando-se no espelho ao lado da cama que ia do teto até o chão, conseguia ver seu olhar para si mesmo, o cenho franzido e os lábios imprensados: sexy.
Levantei-me, tentando parecer inocente o suficiente para ele achar que eu estava indo embora, porém antes que eu me virasse para a porta, abracei sua cintura, beijando uma parte das costas, o mais próximo que eu conseguia alcançar sem ficar na ponta dos pés. Começando a acariciar seu abdômen com meus dedos, aspirando seu cheiro.
Percy abriu meus braços levemente, o suficiente para se virar e ficar de frente para mim. Senti suas mãos grandes pousarem em minhas bochechas e seus olhos extremamente verdes penetrantes focarem em mim de um jeito constrangedor, como se conseguisse ler minha mente. Inclinei-me para frente, abraçando sua cintura com força e trazendo seu corpo para mim.
Em questão de segundos, senti seus lábios contra os meus, ferozes. Nossas bocas se chocavam com força, sua língua penetrava minha boca como se fosse a coisa mais natural do mundo: e parecia ser. Em um final glorioso, senti seus dentes rodearem meu lábio inferior e puxarem para si com força, foi impossível não soltar um gemido de prazer.
– Podemos ficar aqui quanto tempo quiser. – comecei a jogar meu corpo contra o dele, o suficiente para fazê-lo mexer sobre os pés e cair sobre a cama
Coloquei meus joelhos ao lado de seus quadris, confortavelmente, beijando seu peito por cima da regata branca e quase transparente, senti suas mãos em minha nuca, emaranhado em meus cabelos, aprovando meus atos enquanto continuava a descer meus dedos até chegar em seu umbigo e algo frio e metálico atrapalhar minha trilha.
– O que... – desci meus dedos para o cós de seus jeans, mas antes ele se virou ficando por cima de mim
– Nada de mais. – avisou e deu um sorriso malicioso e torto, por sinal, muito lindo
Arqueei minhas costas, tentando colar nossos corpos, mas Percy se afastou e puxou minhas mãos para cima da minha cabeça, começando beijos para meu pescoço. Senti todo meu corpo se arrepiar rapidamente e finalmente – a um milagre divino – Percy estava realmente correspondendo a minhas caricias, sem nenhum olhar culpado nem nada do tipo. Seus beijos eram fortes e rápidos, como se não quisesse gastar tempo demais, nem perder nada. Senti sua mão livre subir minha blusa e apertar meus seios por cima do sutiã, reprimi um gemido sufocante, mordendo o lábio inferior e sentindo-o latejar.
Batidas fortes ecoaram na porta da entrada.
– Eu não quero abrir essa porta e saber que vocês estão se amassando aí! – Nico ria, imagino que minha prima seguia seu exemplo
– Vai se foder! – Percy gritou com um sorriso de lado, beijando-me com força, jogando seu peso por cima de mim e encostando sua intimidade contra minha coxa, de novo, mais um gemido de ambos
– Deixa ele lá. – pedi, bagunçando seu cabelo e passando minha mão pelo seu corpo arrepiado
– Temos um mês e meio, não é? – ele piscou e levantou-se, passando as mãos pelos cabelos e sorrindo para mim – Você que disse isso. – acusou
– Mas, eu quero agora! – pedi, cruzando as pernas e tirei minha blusa preta, aproximando-me dele – Não vai me deixar assim, vai? – apontei para meus seios, ressentida
– Annabeth...
Abri o fecho na frente, deixando meus seios nus e mordendo o lábio inferior, trazendo aquela pose sexy que eu tanto sabia fazer.
– Isso é jogo baixo. – ele murmurou, dando um passo para frente e segurando minha cintura com força
Seus lábios foram jogados com voracidade contra meu colo, senti seu nariz roçar levemente entre meus seios e joguei a cabeça para trás, reprimindo mais um gemido.
Como o meu primeiro dia em Los Angeles poderia ser melhor?
Ah, sim, alguém atrapalhando.
Encarei a porta de madeira, tentando manter uma linha de pensamentos racionais, enquanto seus beijos se tornavam mais fortes e variavam confortavelmente para chupões que me faziam querer gemer ainda mais alto.
Assim que vi a maçaneta inclinar-se, tive vontade de gritar de raiva.
Por que esses filhos da puta não nos deixavam a sós? Em um impulso, me virei, fechando meu sutiã e vestindo a blusa, como se nada tivesse acontecido, mas sabia que ambos os idiotas fora do quarto que riam safados tinham visto que eu estava seminua e queria que nenhum deles vissem isso.
Rodei o corpo a tempo de ver Percy vermelho, as bochechas em um tom forte de escarlate.
– Qual o problema de vocês? – vociferou, encarando seu primo e sua namorada com abstinência de sexo
– Ei, nós avisamos. – Thalia tentou falar, rindo – Que é, Percy? Tem que se aliviar, não é, querido? – apontou para as partes inferiores e evitei sorrir, tentando parecer séria e com raiva
– Primeiro dia, hein, galera. Relaxem os hormônios. – Nico riu – E ei, priminho, vai ter uma daquelas doenças de bolas azuis.
Foi impossível não segurar a gargalhada que estava presa em minha garganta, a expressão cínica de Nico era tanta que não demorou muito para que Thalia se apoiasse nele, ainda rindo e saindo de lá.
– Eu vou matar vocês, seus merdas. – Percy ameaçou, saindo do quarto rapidamente
– Eu também. – ameacei, mas não deu tão certo porque eu ainda continuava rindo
Segui atrás de Percy, descendo as escadas com tanta pressa quanto ele que começava a pular os degraus para chegar ao térreo. E assim que o fez, tive tempo de puxá-lo pelo cotovelo.
– Ei, não fica bravo. – pedi com um sorriso – Você não vai ficar com esse problema de bolas azuis e...
– Eu sei que não vou. – interrompeu-me – E eu não ‘tô ligando se temos um mês e meio, eu quero isso agora.
Sorri com sua afirmação e o puxei pela camisa, jogando minhas costas contra a parede e beijando o lóbulo de seu ouvido, sentindo suas mãos apertando minha cintura com fúria.
– Ah, é? – arranhei suas costas – Era assim que eu me sentia quando estávamos quase chegando lá. – empurrei-o com força – Ok?
– Sério isso? Eu tinha namorada.
Dei um sorriso e o puxei pelo pulso antes que o casal feliz descesse e acabasse com o clima novamente. Na primeira sala de estar, os sofás eram grandes e espaçosos, entre eles havia uma mesa de centro e mais espaço até chegarmos a sala de jantar, então a cozinha, onde provavelmente iriamos ficar a maior parte do tempo.
Atena estava sentada, lendo uma revista e ao seu lado, a pessoa que eu mais sentia falta.
Foi inevitável não deixar Percy de lado porque assim que vi meu primo e ele me viu, abracei-o com todas as forças que eu poderia recuperar tão rápido. Seu cheiro de tabaco com café era simplesmente um dos melhores cheiros que eu já pude ter saboreado. Tudo bem que o de Percy era muito bom – e bem melhor que o de Luke – mas, poxa, ele era meu primo.
Meu irmão mais velho, praticamente.
– Onde você estava, pequena? Demorei uma eternidade aqui.
Ouvi minha mãe bufar e revirar os olhos.
– Annie, você tem consulta com o Tom daqui a duas horas, certo? Se quiser sair, você tem duas horas e...
– Já conversamos, tia. Eu não vou leva-la a nenhum lugar perigoso, por que sempre acha o pior de mim? – ele resmungou com um dos braços ao redor do meu pescoço
– É bom mesmo, Sr. Castellan. Não estou tão confiante em relação a você.
– Mãe. – implorei, envergonhada
– Não se preocupe, Annie, eu entendo sua mãe totalmente. – Luke sorriu para minha mãe – Tia Atena, eu sou o novo segurança de Annabeth, sério!
– Eu não confio em você, moleque. – Atena sorriu e bagunçou os cabelos dele, apertando suas bochechas logo em seguida – E por isso, Percy é o segurança dela.
– Quê? – Percy e Luke falaram ao mesmo tempo
E eu tinha esquecido que o moreno estava ali.
Ele encarava minha mãe com um misto de medo, preocupação, confusão, arrependimento e indignação. Eu não conseguia entender como ele podia ter tantas emoções ao mesmo tempo – e como eu podia identifica-las tão facilmente, como se fosse algo natural.
Pude ver seu medo natural enquanto ele mexia os pés rapidamente, de um lado para o outro, passando as mãos pela cintura, tentando parecer relaxado e então, sua preocupação ao encarar Luke com os olhos semicerrados, travando uma batalha particular entre o sexo masculino que eu não fui chamada.
– Senhora Chase, hã, eu vim pra...
– Ah, eu estava brincando, Percy querido. – minha mãe balançou a cabeça em um aceno desprezível e sorriu – Que tal um jantar hoje à noite? Posso te pegar no hotel de Thomas, Annie?
– Eu trago ela de volta. – Thalia assegurou – Vamos passar em uma feira livre antes.
– Certo, se cuidem. Não vou ficar fora por muito tempo, eu e Dite só vamos ver como Hera e Zeus estão, depois voltamos. Não revirem minha casa, literalmente, ok?
Aposto que ninguém ouviu uma palavra do que ela disse já que um clima mais ou menos tenso tinha se instalado assim que Luke encontrou Thalia. O que eu poderia dizer? Eu adorava o Nico, ele era ótimo e um dos melhores cunhados ever, mas Luke era meu primo e eu idolatrava Thalia, então para mim, eles sempre seriam o melhor casal de Los Angeles. Não importa que merda eles dissessem, e o quanto infantil isso soasse.
– Gata! – Luke tirou seus braços de meus ombros e abraçou Thalia com força, tirando-a do chão, pude ver um sorriso brilhar em seu rosto – Como eu estava com saudade de vocês.
Agora, os primos morenos pareciam fora da nossa realidade.
Era apenas eu e minha pequena família mais nova.
Eu e as pessoas que eu mais amava no mundo.
Era tudo que eu precisava naquele momento.
Empurrando Luke para o lado, consegui ficar entre os dois, abraçando-os com força.
– Awn, momento em família! – Luke disse com aquela voz gay ridícula
– Agora, se beijem. – gritei, empurrando a cabeça dos dois
Thalia se afastou em um pulo e o loiro continuava rindo, assim como eu.
– Annabeth. – ela ofegou, totalmente corada – Annabeth!
– Ok, desculpa, força do hábito.
– Por quê? Vocês se beijavam sempre? – Nico comentou, cruzando os braços
– Ei, cara, e aí? – Luke levou os dois dedos até sua testa, dando um típico cumprimento de soldado, sorrindo – Você é o namorado da Thals, certo? Desculpe por essa atitude...
– Estúpida. – Percy concluiu
Luke o encarou de esguelha, seu olhar de nojo, lembrei, ignorando ele completamente e voltando a encarar Nico com um sorriso.
Nico estava sério, com os braços cruzados, pensando o que faria em seguir, mas minha prima tocou seu braço, abraçando-o de lado.
– Sem brincadeirinhas, os dois. – apontou com o indicador – Vem, Annie. – Thalia me chamou e sorri
– Pra onde?
– Pro jardim. Mary preparou algumas coisas e daí, vamos para Thomas, ok?
Dei de ombros, muito preocupada que tipo de comida Mary tinha preparado. Assim que saí, o sol quente de Califórnia tomava conta de tudo, eu até tinha esquecido como era sentir-se suada a todo o momento, o fuso horário não estava me afetando muito, na verdade, e eu estava adorando isso já que podia aproveitar o máximo.
Não dei muita bola quando percebi que Luke nem Percy nos seguia já que a briga de Thalia e Nico estava bem mais interessante do que aqueles olhares estranhos que eles estavam trocando.
O jardim não era o do fundos. Tinha uma pequena mesa redonda de vidro com cadeiras confortáveis e nossos pés estavam em pleno contato com a grama bem cortada, Mary veio logo em seguida, trazendo aqueles carrinhos de ferro e colocando três potinhos de mousse na mesa, assim como torta de limão e variados.
– Onde está seu outro convidado e o Luke, menina?
– Por aí, Mary. – Thalia disse antes que eu falasse alguma coisa e minha curiosidade brotasse – Por aí.
– Querem que eu traga mais alguma coisa?
– Não, obrigada. – dei um sorriso aberto para aquela senhora-linda
– Vou desarrumar sua bagagem, certo, menina? Não quero nem imaginar o que você trouxe desse lugar, espero que tenha tomado jeito.
– Eu sempre tenho jeito, Mary.
Provavelmente, ela não escutou minha reclamação já que saiu reclamando de algo que nenhum de nós conseguiu entender, ao longe, eu via Sam sentado perto dos portões que eram abertos milimetricamente, mas o suficiente para uma pessoa sair. Inclinei-me, fingindo prestar atenção a conversa que Nico falava, ainda com um tom emburrado e acenei para Sam que sorriu de volta. Pude ver um flash de Percy vermelho sendo seguido por um Luke relaxado, com as mãos na cintura e então desaparecerem pela rua.
– Está me ouvindo, Annabeth? O que você fez foi ridículo. – Nico ralhou
– É, eu sei. Na maioria das vezes, eu sou assim mesmo. Desculpe. – pedi com um sorriso e levantei-me – Eu vou falar com o Sam, licença. – menti
– Pra quê? – Thalia perguntou, encarando-me com uma sobrancelha negra erguida
– Thals. – resmunguei já atravessando o jardim – Não vou fugir, relaxa.
Assim que a mesa parecia apenas um lugar longe demais, cheguei a Sam que estava encostado na parede ao lado do portão e o abracei.
– Quanto tempo, seu velho! – brinquei
– Minha menina, anda a mesma coisa de sempre?
– Não, né, Sam. Estou mais linda, não é?
Ele riu e balançou a cabeça.
– Ei, dois babacas acabaram de sair, certo? – perguntei, a expressão dele virou plena tensão, pensando se me responderia ou não – Vamos, Sam.
– Annie...
– Por favor! Ei, o que de ruim pode acontecer? Eles estavam brigando, certo?
Sam ponderou minhas palavras e assentiu, lentamente.
– Bem, é melhor me dizer em que direção que eles foram antes que ouçamos a ambulância passar.
O motorista balançou a cabeça e me deu as instruções, dizendo que os viu entrar em um beco à esquerda. Era óbvio que era perigoso andar sozinha por Los Angeles, principalmente em becos perdidos em um bairro nobre. Mas, eu já estava acostumada e as pessoas me conheciam, creio eu.
Comecei uma caminhada curta, de poucos metros até achar o tal beco e podia ouvir uma briga clara, não em gritos... Uma briga civilizada.
–...você não sabe da merda que está se metendo! Eu não sou mais aquele garoto inexperiente, Castellan.
– Você acha mesmo que eu ia colocar a vida delas em perigo? Sou idiota, não burro!
– Você é um caralho de burro! Eu não sei em qual tráfico você está metido agora...
– Eu larguei o tráfico há uns dois anos, imbecil!
– Ah, deixar praticamente suas duas primas chapadas...
Cheguei a tempo de ver meu primo lançar seu punho fechado de encontro ao supercílio de Percy, hesitei em me meter naquilo. Primeiro que não entendi nada do que eles estavam dizendo, parecia que se conheciam ou mais algo. E tráfico? Que droga aquilo tinha a ver com tráfico?
Encolhi-me quando percebi que Percy também ia entrar na pancadaria, então tive que me intrometer.
E a melhor maneira corajosa que consegui foi: gritar. Sim, porque gritar sempre ajuda, certo?
Não.
Foi o suficiente para Luke me encarar assustado e arrependido, e Percy vir em minha direção como um cachorrinho sem dono que estava em desvantagem, só que com o olhar aterrorizado e faiscando raiva.
– Tráfico? – murmurei, afastando-me de Percy quando ele tentou tocar meu ombro
Nesta altura, eu já estava dentro do beco, há uma distância considerável de Luke que apertava os punhos ao lado de seu corpo.
Ambos estavam em silêncio, pensando em uma desculpa esfarrapada que eu seria obrigada a acreditar.
– Me digam! Agora! – gritei, tentando passar autoridade
– Não tem nenhum tráfico, volta pra casa. – Luke pediu, fechando os olhos e massageando as têmporas
– Eu ouvi!
– Você não ouviu porra nenhuma. Volta pra casa. – Percy gritou mais ainda, apontando para a rua pouco movimentada, o que já era de se esperar
– Olha como você fala com ela, seu imbecil. – Luke foi rápido, colocando um braço e me obrigando a ficar atrás dele
– Quem é você pra falar sobre cuidado, uh?
– Eu sou o único que pode tomar conta delas!
– Parem. – pedi, ficando entre eles, segurando o braço de Percy, sentindo lágrimas teimosas caírem sobre minhas bochechas
– Era melhor você ter ficado em Hampshire, Jackson.
– É, acho que tive que voltar para acabar com sua raça e seu domínio ridículo de tráfico, Castellan.
– Eu já disse que não estou no tráfico! Quantas vezes vou ter que falar isso para você?
– Parem. – um soluço atrapalhou com que minha voz saísse coerente, não conseguia entender nada do que eles estavam gritando – Por favor. – implorei
– Até eu acreditar em você, ou seja, quando eu estourar seus miolos.
– Ah, vai dar uma de machão agora? Você não tem coragem de matar uma barata, seu otário!
Não sabia em que lado ficar, se deveria proteger Luke com seus movimentos bruscos e palavras nada carinhosas, ou se deveria ficar do lado de Percy que pelo que eu estava entendendo era um baita de um retardado por estar acusando meu primo de coisas totalmente idiotas. Desde quando ele era traficante? Luke não conseguia nem convencer seus próprios pais, imagina um bando de adolescentes ricos e mimados.
Defini em que lado ficar no momento que Percy sacou uma arma da bainha do jeans. Eu não sabia o que fazer.
Esse era o metal frio. A coisa que estava me incomodando. O fato dele estar passando a todo momento as mãos pelo quadril, como se estivesse procurando algo desde que saímos de Hampshire.
Era esse o motivo.
O medo de que algo acontecesse foi tão assustador que não tive outra reação além de ficar na frente de Luke, tentando protege-lo com os braços abertos.
– Sai, Annabeth. – Percy gritou, as bochechas vermelhas e as mãos pareciam levemente tremer, não o suficiente para que Luke percebesse, acho – Sai!
– Vem estourar meus miolos, quero ver se você tem coragem, otário.
Estreitei os olhos. Qualquer fala que eu devesse falar ou qualquer reação parecia precipitada.
Era Percy que estava ali parado com uma arma na mão! Uma arma. Aquilo não parecia apropriado, e eu só queria chorar, murmurando “para” a cada segundo. Aquele momento me parecia familiar e parecia ter ocorrido um milhão de vezes. Como se eu tivesse vivido isso tanto que estava acostumada, quer dizer, eu deveria estar tremendo, as pernas cambaleantes e sem conseguir pensar direito, certo? Mas, eu só chorava, era normal para uma garota que estava em sua confortável casa e agora, estava vendo um dos garotos mais gatos do mundo com uma arma na mão.
O problema é que eu não estava com medo. E isso, definitivamente, me aterrorizava.
– Para... – murmurei mais uma vez, ainda consegui ouvir o som de um tiro e um grunhido do meu primo atrás de mim
Levantei o olhar, tendo uma visão horrível dele com a mão no ombro, tentando estancar o sangue. Podia sentir a raiva crescer dentro de mim, pude ver a imagem de Percy vindo em minha direção e tudo começou a virar um borrão.
Eu comecei a cair.
E eu ouvia ruídos, vozes roucas chamando meu nome, meu corpo começou a tremer e eu parecia cair mais e mais fundo em algum lugar que eu não tinha conhecimento.
Era tarde demais quando me dei conta de que era um surto.
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