Nightingale.
33 Get Blurry.
Notas iniciais
"So what, my heart'll light a fire in this bitch and blow it"
Eu dançava tango.
Era estranho já que eu nunca havia feito alguma aula nem nada parecido, porém meus pés sabiam cada passo, cada descida de perna e cada galope complicado. Eu tentei ficar surpresa, encarando a abertura do vestido vermelho sangue, mas nada me fazia tirar a expressão neutra que refletia nos vidros ao meu redor. Meus cabelos foram puxados com tamanha força para trás em um coque de tranças e fios vermelhos desconhecidos à mim.
Meu companheiro me girou. Três giros até que ele segurou minha cintura, forçou-me a descer minha perna e nossos rostos ficaram próximos o suficiente para que nossas respirações fossem uma. Seus olhos verdes estavam a pouco centímetros de mim...
Sua mão deslizou por meu corpo até encontrar a curva de meu joelho, e então nosso corpo se debruçavam pelo lado oposto. Prendi a respiração ao ver que todo o cenário cheio de espelhos havia mudado.
Estávamos no meio de um parque. Com uma cova aberta.
Minha roupa havia mudado para um vestido preto longo. Tentei tocar no meu coque, mas ele estava em um rabo de cavalo longo demais para ser meu. Do outro lado da cova, minha mãe chorava, escondendo os olhos por trás de óculos de sol caríssimos e enxugando as gotículas que caiam em sua bochecha com uma elegância fora do normal. Procurei Percy ao meu lado, mas ele parecia tão sem emoção quanto antes.
Eu não conseguia ver quem estava sendo enterrado. Mas, ele era, aparentemente, bastante amado.
E então, tudo mudou, eu corria em direção aos braços de... Thomas? Ele usava sua típica roupa quando estávamos em Hampshire: blusas sociais e jeans. No entanto, eu vestia roupas negras... De tango. Thomas me pegou pela cintura, girando-me, fazendo passos difíceis para eu acompanhar, uma sincronia estranha... Na verdade, não existia sincronia. Estava sentindo falta dos braços de Percy ao meu redor, movendo-me da maneira certa, no passo certo em nossa música silenciosa.
O corpo de Thomas tremeluziu e desapareceu.
Eu estava sozinha. Sozinha.
Eu me sentia sufocada e presa.
Sentei-me em minha cama, prendendo meus dedos em volta do meu pescoço, afundando minhas unhas em minha pele até sentir que eu estava de volta. Encarei o espaço ao meu redor.
Três semanas haviam se passado, restava-me uma semana até que eu voltasse para Hampshire.
Eu estava em uma dúvida infinita. Quero dizer, nessas três semanas nada além de algumas visitas básicas à Alex – que eu ainda não simpatizava -, e ao meu avô. Saí até com minha mãe, e nesses dias, estávamos nos divertindo tanto que eu nem queria sonhar com a volta para Inglaterra.
Contudo, minhas consultas com Thomas haviam diminuído consideravelmente, eu nunca mais havia o visto com Jack e eu não tinha nem ideia alguma porque aquele velho ainda nos perseguia ou o porquê dos meninos odiarem que saíssemos sozinhas. Provavelmente, ele havia desistido. Era isso que eu esperava.
Deitei-me e encarei o teto. Iríamos à praia. Um programa bem californiano, na verdade. Sorri.
***
– Ah, ok, Annabeth, diz logo! – Thalia resmungou, levantando os óculos de sol
Repeti seu movimento com meus óculos e suspirei. Ela usava um biquíni azul marinho, o meu era um rosa e estávamos estiradas em espreguiçadeiras na areia da praia. Os meninos estavam surfando há um tempão enquanto eu dava indiretas pra Thalia.
– Certo. – sentei-me, apoiando meus cotovelos no joelho – É o seguinte: eu sou uma louca. – ela deu de ombros, procurando alguma coisa em sua bolsa – E daí, você sabe, às vezes, eu sou muito possessiva.
– Sim... – pediu que eu continuasse com um balançar de dedos
– Daí... – fechei os olhos e disse tudo de uma vez – Eu me livrei de meus anticoncepcionais.
– Ok. – Thalia respondeu simples e ergueu os olhos assustados – Calma, você quer dizer que você e o Percy transaram e você... Ai. Meu. Deus.
– É!
– Eu não estou acreditando que eu estou ouvindo isso. Tomara que sua mãe te mate.
– Ela vai me matar! – concordei
Thalia revirou os olhos e recolocou os óculos de sol, deitando-se enquanto bebia um refrigerante.
– Ei, estou falando sério.
Ela me ignorou.
– Eu juro que estou falando sério.
– Porra, Annabeth, você não tem juízo?! – ela gritou e abaixou o tom de voz ao ver que alguns californianos muito gatos nos encaravam – Você só tem dezessete anos, tudo bem que você é rica, etc, mas, olá, vida!
– Não fale como a Silena. E outra, ele é meu! Elas têm que saber disso!
– Annie, isso foi a maior idiotice que você já disse em sua vida. Até porque ele é filho de pais separados. O que acontece que ninguém é de ninguém.
– Thals... – choraminguei
Um peso extraordinário e molhado se jogou contra meu corpo, espremendo-o entre a espreguiçadeira. Dei um gemido de dor, batendo nas costas firmes à minha frente.
– Percy, sai! – gritei – Você tá me matando!
Ele riu e ficou em cima de mim, encaixando as pernas ao redor do meu quadril. Seus cabelos estavam molhados grudados em sua testa, seu abdômen malhado quase me deixando babar e aquele probleminha insuportável que estava em minha cabeça desapareceu quando meus olhos se encontraram com os seus. Dei um sorriso e senti seus lábios tocarem os meus com aquele gosto salgado do oceano. Seu cheiro de maresia parecia estar fundido em seus poros.
– Você ainda está me molhando.
Ele riu de modo extrovertido e deu um selinho em meus lábios, deitando-se ao meu lado. Um de seus braços voaram em torno do meu ombro enquanto eu erguia seu óculos de sol. Recebi mais um selinho na bochecha de agradecimento.
– Cara, nós temos que arranjar umas garotas. – Ethan resmungou, sentando-se na areia – Olha, só a gente segurando vela.
– Também acho. Bora se amar?
O ruivo arqueou a sobrancelha, encarando o sorriso gay de Luke e balançou a cabeça, assustado.
– Não, eu estou com fome. – minha prima choramingou com Nico agarrado em sua cintura – Vamos comer, vamos! Por favor.
– Você só pensa em comer, fala sério. – reclamei
– Vocês tem algum problema? – Ethan disse e levantou-se em um pulo – Tem um restaurante muito bacana perto daqui. Dá pra a gente ir a pé.
– Will’s? – Luke perguntou, e o ruivo assentiu – Ah, é, bem legal. Melhor do que ver eles se agarrando.
– Vamos à pé? – Percy perguntou, bocejando, apoiando-se em um dos cotovelos para encarar os outros – Não é... Hm, perigoso?
– Perigoso? Fala sério, isso é Los Angeles, meu caro. – brinquei, empurrando seu ombro, recebendo olhares de repreensão – Ah, qual é!
– Temos duas opções. – Luke levantou os dois dedos, encarando-os – Podemos ir à casa da Annabeth pegar meu carro ou podemos ir comer e ir direto pra casa da Annie. O que acham?
– Comer. – eu e Thalia dissemos juntas – Não é como se fossemos nos matar na próxima esquina. Já deveriam ter feito isso, certo? Quero dizer, estávamos aqui, sozinhas, à deriva e não aconteceu nada. Talvez, Jack esteja cansado demais para se lembrar que duas pirralhas existem. – minha prima falou
Aqueles olhos castanhos que encontrei no chá com Thomas ainda me perseguiam e apareceu com um flash diante de meus olhos. Felizmente ou não, aqueles olhos e aquela sensação aterrorizante tinha ficado apenas comigo, desisti de tentar compartilhar mais preocupação com qualquer um daqueles que estivessem ali. Aninhei-me ao peito de Percy, recebendo um sorriso confuso e ri.
– Não vai acontecer nada. – garanti – Ele está cansado demais. – confirmei e levantei – Vamos? Posso desmaiar se não comer um x-burger.
A rua do Will’s na verdade eram duas quadras depois da praia. Percy carregava minha bolsa roxa em seu ombro. Estávamos afastados do grupo, seu braço por cima do meu ombro e os óculos de sol escondendo seus olhos verdes.
Ele estava maravilhosamente sexy e eu não conseguia parar de encarar seu perfil enquanto o abraçava, andando um pé após o outro.
– O que é? – ele virou o rosto para mim, roubando um selinho – Não cansa de me ficar me olhando?
– Claro que canso. Mas, não cansei ainda. – empinei meu corpo para aprofundar seu beijo e senti sua mão na base de minhas costas
Gemi de frustração ao sentir o músculo de minha coxa pulsar.
– O que foi? – ele perguntou, ajeitando meus cabelos esvoaçantes para trás da orelha
– Você. – resmunguei – Você não cansa de me deixar dolorida?
– É uma das melhores coisas de se ver. – ele beijou minha testa e segurou meus ombros contra seu peito – O que tá achando de ter um dia normal californiano?
– Do jeito que eu achei. Sem o ruivo ali. E claro, sem você me abraçando desse jeito.
– Não quer que eu te abrace desse jeito? – ele arqueou a sobrancelha, encarando a nossa frente
– Você é tão idiota. Estou falando que eu nunca imaginei que estaríamos tendo isso.
– Isso? O que é isso pra você?
– Ah, sei lá. Esse relacionamento. Enfim, como foi se despedir da Kaya?
Percy sorriu, como se estivesse orgulhoso de si mesmo e balançou os ombros para trás e pra frente, respirando fundo.
– Ela chorou. E ela mandou beijos, esqueci de dizer. Ela adorou dormir com você, aliás. Vocês fizeram festa do pijama, foi? – assenti, contente – É, ela disse que adorou ter você como namorada do irmão.
Ri e soquei seu ombro.
– Eu vou ser uma ótima cunhada e nora, porque, cá entre nós, sua mãe me ama, seu pai me ama... Todos me amam.
– Ninguém te ama, eles só te aturam. – Percy retrucou com um sorriso
– Ah, é? – afastei-me de seu ombro e revirei os olhos – É melhor n...
Um grito me interrompeu de brigar com ele.
Meus olhos pousarem em Luke chutando um cara na barriga enquanto outro carregava Thalia no ombro, ela se debatia e eu não conseguia me mexer. Percy correu até eles, deixando minha bolsa jogada no caminho, tentei mover minhas pernas, mas eu estava congelada, enterrada naquele lugar.
– Thalia, Thalia... – gritei, mas a voz desesperada e esganiçada não parecia ser minha
Andei. Passo após passo até estar no meio da briga, tentando alcançar a porta aberta onde Thalia jazia com um cara adicionando uma injeção em seu braço. Seus cílios tremeluziram, ela abriu a boca, tentando dizer algo enquanto eu segurava a porta com as minhas mãos. Nico entrava do outro lado do carro, socando a nuca do cara com a injeção.
E o carro sumiu.
Assim, em segundos.
Meu coração pareceu parar de bater por minutos.
– Porra! – Luke socou a parede
Seus olhos azuis marinhos estavam cintilantes, depois de socos seguidos, ele apoiou a cabeça na pintura descascada de alguma casa.
– Eu sabia que ele estava quieto demais. Quieto... Porra! Como não percebemos isso antes? Você não viu nada disso por lá, Nakamura?
– Cara, eu... – Ethan arqueou as sobrancelhas, porém parecia surpreso demais com todos os acontecimentos – Eu juro que não sei de nada disso. Eles não estão me deixando a parte das coisas mais caras. Eu só estou verificando carga, nem falo direito com o Jack. Me desculpe, eu...
– Foda-se, vamos atrás dela agora! Vamos invadir aquela casa e...
– Invadir? Você está louco? – Percy gritou – Temos que ter um plano, não vamos entrar lá pra ser pegos também.
– Minha prima foi sequestrada! O que você acha que eu devo fazer? Ir pra casa e cruzar os braços.
– É a única coisa que vamos fazer. – Percy encerrou
– Não. – sussurrei, dando passos hesitantes para trás – Vamos atrás dela. Nós precisamos salvar a Thalia, mas... Precisamos de um plano... Eu...
– Calma, ok? – o moreno segurou meu rosto e beijou meus lábios – Vamos pra casa dela e... Vamos ficar na sua casa, Luke. Atena está por lá e não vai ser legal organizar tudo isso com ela por perto.
Eu segurava minha mochila roxa com os nós dos dedos brancos, tentando parecer calma e não morrendo de medo, como estava. Meus joelhos, aos poucos, se transformavam em gelatina enquanto Nakamura e Luke roubavam algumas coisas importantes que deveria ter no porão de minha casa. Algo que nenhum dos dois quiseram me dizer.
Percy estava ao meu lado, apertando minhas mãos entre seus dedos com força. Eu buscava apoio em seu corpo, porém nem mesmo seus dedos ásperos e sua pele quente podia me deixar segura.
A nossa frente, minha mãe inclinava sobre as pernas, tentando pintar as unhas, despreocupada.
– Ah... E ela está por lá mesmo?
– É, Sra. Chase. Você sabe, ela não ficou muito tempo com o Sr. Grace, então eles estão tentando trazer o tempo de volta. – Percy falava com a voz firme e a expressão calma.
– E para onde vocês vão? – Atena inclinou a cabeça, faiscando os olhos acinzentados em nossa direção
– Nós... Bem, nós vamos passear... Você sabe, falta uma semana para voltarmos para Hampshire e a Annie nem se divertiu tanto. – ele deu de ombros com um sorriso
– Annie?
– Oi. – respondi, em modo automático
– Você não parece tão empolgada. – comentou casualmente, deixando o esmalte de lado
– Ela está. – Percy exibiu um sorriso de todos seus dentes perfeitamente brancos, o melhor sorriso convencido – Não é, meu amor?
Puxei o ar para meus pulmões pela boca, meus olhos se encheram de lágrimas rápidas que eu estava evitando desde que chegamos a casa. Senti espasmos de medo percorrendo meu corpo. O que eles estariam fazendo com minha prima? Minhas mãos apertaram a de Percy com uma força extraordinária, puxei lufadas de ar com força e tentei controlar minha respiração, tentei fazer com que minhas lágrimas não caíssem e encarei as íris esverdeadas, buscando por apoio. Ele continuou dando aquele sorriso calmo e afagou minha cabeça. Seus olhos estavam recheados de carinho.
– Pegou tudo, não foi?
– Bem, se não tiver problema nenhum, Atena, nós vamos lá pra frente. E vamos dormir na casa de Luke, tem algum problema?
– Não... – ela nos encarou desconfiada – Mas... Por que não ficam aqui? Vocês sempre ficam aqui.
– Mãe. – minha voz saiu trêmula, pisquei os olhos seguidas vezes e pigarreei, esperando que minha voz saísse melhor – Dá um tempo. Vamos assistir um filme e... Só.
– É, tia. – Nakamura chegou com um pulo, segurando uma bolsa plástica e um sorriso no rosto retorcido – Vamos?
Percy balançou a cabeça, segurando seu sorriso de genro-perfeito enquanto eu virava as costas. A porta foi aberta por Luke antes que eu chegasse ao ferro da maçaneta, andei com passos rápidos para a caminhonete deixada de um modo torto no jardim bem feito da minha casa. Adentrei no banco de trás, tentando parecer confortável e forte, embora uma sensação de enjoo preenchesse meu estômago.
Sentia que meu café da manhã poderia sair da minha boca a qualquer momento.
– E então, conseguiram? – Percy perguntou assim que todo mundo já estava dentro do carro
O automóvel começou a andar. E eu sentia que algo começava a mexer no pé do meu estômago.
– Comida. – Ethan exibiu um sorriso ao levantar a bolsa repleta de refrigerante e biscoito – Na casa do Luke não tem nada.
– Vocês me deixaram preso com Atena só pra pegar comida?! – Percy elevou o tom de voz
Meu primo revirou os olhos, com raiva, aumentando a velocidade enquanto atravessava a cidade.
– É, cara, não podíamos passar fome. Aliás, sem o Nico aqui, que é a cabeça e que trabalha comigo, eu não sei como fazer isso. E eu preciso comer.
– Ethan, seu idiota, tem um mercado ao lado da casa do Luke!
– Percy, seu otário, cala a boca!
Luke aumentou a velocidade. Talvez, achando que quanto mais rápido chegasse em casa, mais rápido estaria longe daqueles gritos que estavam me dando náuseas. Apoiei minhas mãos em minha boca, tentando ignorar aquele gosto da bile que estava entalado em minha garganta. Deixei minha outra mão apoiar no banco da frente. O movimento rápido e contínuo do carro não ajudava em nada.
– Você tem alguma ideia de como podemos começar? – Luke perguntou
– Seu pai poderia nos ajudar. – Ethan comentou, assim que meu primo parou em frente a casa dele
– Ele não vai. – Percy afirmou
– Podemos tentar. Zeus... Talvez...
– Ele não vai gostar de saber que a filha dele foi sequestrada, tenho certeza. – Luke completou
A parada repentina fez meu corpo se apoiar no banco a frente. A discussão não pareceu ter vez para minha saúde que parecia bem precária. As lágrimas me atacaram rapidamente quando percebi que estava sozinha com três homens que não tinham ideia do que se passava comigo e que não sabiam entender uma mulher, muito menos tinham ideia do que fazer para recuperar minha melhor amiga. Tentei respirar pela boca novamente já que meu nariz não pareciam gostar do oxigênio, e antes que eu tentasse voltar a minha posição anterior, meu café da manhã se expulsava de meu corpo.
Minha garganta ardia enquanto aquele líquido nojento escapulia de meu corpo. As lágrimas se misturavam e caiam pelo meu queixo em meio aos espasmos contínuos que meu corpo passava, segurei minha garganta com força, sentindo meus cabelos serem puxados para trás com delicadeza.
Meu vômito parou. E eu agradeci por aquele enjoo ter ido embora, finalmente. Tentei respirar fundo, mas meu choro incontrolado não deixava que o oxigênio penetrasse meus orifícios. Dei um grito esganiçado ao perceber que realmente estava sozinha. Sem minha prima, sem minha melhor amiga... Sem minha irmã.
– Annie... – Percy me chamou, aninhando meu corpo em seu peito
Bati em seu corpo, tentando afastar toda aquela dor que me consumia por dentro, uma dor que queimava cada espaço do meu corpo. Debati-me em meio aos dois braços fortes que tentavam me prender ao seu peito musculoso, sentindo nojo de mim mesma, sentindo nojo de ser eu.
A culpa era minha, afinal de contas. Por que eu não esqueci isso de comer fora? Por que eu tinha que insistir em sair? Ela era tudo para mim e eu não podia deixar minha prima escapar de mim desse jeito. O que ele faria com ela? Por que não me levaram? Por que me deixaram para sofrer gradativamente? Deixei meus punhos baterem contra os braços que insistiam em me segurar.
– Está tudo bem, meu amor, está tudo bem.
Gritei mais uma vez, parecia ser o único jeito de expulsar aquela dor. O único jeito de expulsar todas aquelas coisas ruins que me perseguiam. O grito arranhou minha garganta, parecendo aliviar um pingo de tudo que sentia. Expressar aquilo parecia bem mais difícil do que esperado.
– Me deixa! – verbalizei metade de minha raiva, encarando-o – Me larga. – soquei seus braços, tentando me afastar
Alguém segurou meus braços com força enquanto Percy me encarava assustado e apavorado, um misto de confusão preenchia seu rosto enquanto eu me debatia em meio a outros braços que prendiam os meus para trás e me carregavam para dentro da casa.
Fechei meus olhos, soltando gritos irreconhecíveis, tentando afastar quem quer que fosse com minhas pernas.
Uma água gelada tentava me fazer voltar para a vida real. Pareceu não funcionar até me sentarem com o mesmo cuidado em um banco confortável.
Deixei as lágrimas correrem pelas minhas bochechas, apoiando meus cotovelos em meus joelhos, tentando controlar aquelas emoções que me tomavam posse do meu corpo, que me faziam sentir a vontade de me mexer e não de continuar parada, tentando controlar meu queixo e fazer aquelas lágrimas pararem de cair.
A água tentava levar toda aquela impureza que me contaminava, tentava levar as lágrimas que insistiam em se manter comigo e infelizmente, não levava a dor para o ralo junto com o vômito.
Enfiei meu rosto em minhas mãos, arranhando o topo de minha testa, afundando minhas unhas em qualquer lugar que fizesse aquela dor escapar.
– Meu amor, Annie, linda...
Era Percy. Suas mãos aninharam minhas bochechas e levantei os olhos para verificar como estaria aqueles faróis verdes procurando por mim. Engoli em seco, puxando seus ombros contra meu corpo. Eu precisava dele comigo. Precisava de seu abraço, de seu cheiro amadeirado com aquela mistura exótica.
– Eu não sei o que fazer, Percy...
– Eu estou com você. Vai dar tudo certo. Se acalme, ok? Eu estou aqui.
Respirei fundo por baixo da água, sentindo todo meu corpo congelar e tremer. Tentei parecer confiante quando ele começou a retirar minhas roupas com cuidado. Primeiro a blusa passou por cima de minha cabeça, depois ele afundou as mãos ásperas em minhas coxas, retirando os shorts com certa dificuldade, afundando as unhas curtas vez ou outra em minha pele. Por fim, retirou minhas peças intimas jogando-as em algum lugar do banheiro que eu ainda não reconhecia.
Suas mãos ensaboadas por algum sabão líquido de lavanda percorreu meu corpo com suavidade, deixando-as levar até que se desse como satisfeito. Seu toque continuou me provocando aqueles choques calmos. Meus olhos, de um jeito estranho, não conseguiam encarar os seus, talvez de pura vergonha de estar ali, em um momento tão frágil quanto aquele.
Mais lágrimas invadiram meus olhos, caindo sem minha permissão pela minha bochecha.
– Shi, vai dar tudo certo, meu amor.
– Obrigada, obrigada... – sussurrei
– Estou aqui, calma...
Ele segurou meu queixo, afundando seus lábios contra os meus em um selinho demorado repleto de carinho até o último segundo.
Fechei os olhos, inclinando a cabeça para o lado e deixando a água afundar em meu corpo com mais liberdade. Em segundos, ela foi desligada e deixei-me de afundar no meu mundo escuro para me deparar com os iluminados olhos verdes preocupados. Ele segurou minha cabeça com cuidado entre suas mãos. Minhas lágrimas embaçavam o mínimo que era possível ver de seu rosto. Meu peito subia e descia, buscando pelo ar rarefeito presente no local. Percy me encarou, os olhos pareciam brilhar mesmo com a pouca luz do banheiro, seus lábios se aproximaram, encostando-se aos meus com a mesma doçura de antes. O beijo não durou muito, eu não conseguia, meu rosto era coberto de lágrimas como se chuveiro não houvesse sido desligado.
Ele se afastou e tentou sorrir, limpando o próprio rosto sutilmente. Percy me deixou sozinha até aparecer com uma toalha grande e fofa enrolando-a em meio ao meu corpo.
Suas mãos me ajudaram a sair do banheiro com cuidado. Ainda assim, minhas pernas pareciam que poderiam se desfalecer a qualquer momento, talvez fosse por isso que Percy havia as agarrado rente ao seu corpo, deixando minha cabeça tombar para seu peito.
Senti meu corpo ser depositado contra lençóis secos e quentes de uma cama de casal desconhecida. À minha frente, sua camiseta branca molhada estava colada ao seu corpo enquanto ele apoiava o cotovelo no colchão e a cabeça na mão. Seus olhos grudados em mim, esperando qualquer reação estranha diante do carinho que seus dedos ásperos faziam em minha bochecha.
Respirei fundo, retribuindo seu olhar que parecia desvendar os mistérios de minha alma com cuidado, revirando cada sentimento escondido. Lendo minha mente com a maior calma do mundo.
– Vai dar tudo certo, meu amor. – sua voz calma e firme me deu um pouco de segurança – Eu prometo. Tudo vai voltar ao normal.
Funguei, tentando fazer com que minhas lágrimas fugissem.
– Não vai. E dói. Dói saber que tudo isso está acontecendo. Que somos... Novos e não podemos fazer nada.
– Podemos fazer tudo. – disse, ele aproximou nossos rostos e procurou uma faísca de esperança em meus olhos – Você confia em mim, não confia?
Assenti, lentamente, ele deu um sorriso mínimo.
– Se você confia, eu posso fazer tudo. E eu prometo que isso vai acabar.
– É uma dor tão familiar. – sussurrei, deleitando-me com o carinho de sua mão em meu rosto, fechando os olhos para aproveitar o pouco de segurança que havia obtido – Parece que... Parece que senti isso antes. – abri os olhos para ver seu sorriso falho e seus olhos voltarem a brilhar
– Por favor, não tenha... Não tenha aquilo com “s”.
– Não sei se tenho forças pra ter.
Ele suspirou e beijou minha testa.
– Dói muito. – finalizei em um murmúrio
– Olha pra mim. – ele pediu, segurando meu queixo com cuidado – Nada é para sempre. Isso vai passar. Tudo isso. Você confia em mim, certo?
– Confio. Confio muito.
Percy sorriu, voltando a acariciar minha bochecha com um carinho que deixava toda minha pele arrepiada. Talvez fosse o frio, talvez fosse o medo... Talvez fosse um pressentimento que tudo fosse dar certo no final.
– Nada dura pra sempre. Nada. – reafirmou, tentando acreditar em sua própria frase
– Eu acredito em você. – confirmei e abracei sua cintura, fazendo com que nossos corpos estivessem juntos, sem nada para nos separar além de suas roupas
Suas mãos, agora, desciam e subiam pela lateral de meu corpo com uma calmaria infinita.
– Você precisa de roupas? De algum remédio ou...? Você está bem?
Balancei a cabeça, confirmando e enxugando meus olhos que ainda insistiam em despejar mais gotículas salgadas.
Ele afastou meu corpo do seu e beijou meus lábios com a mesma calmaria de antes, tentando me passar sua segurança.
– Então dorme, quando menos esperar a Thalia vai estar aqui, tirando uma com a nossa cara.
Eu deveria rir, mas apenas meneei a cabeça, concordando com suas palavras e fechei meus olhos. Esperando que enjoo que voltava a corroer meu corpo fosse embora e que o cansaço da dor preenchesse meu corpo de tal forma que o levasse para o mundo do sono.
Com um suspirar profundo e a aspereza das mãos de Percy em meu corpo, consegui deixar meu corpo relaxar.
O máximo que ele podia relaxar enquanto a dor da perda me preenchia aos poucos.
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