Notas iniciais
Capítulo super dedicado pra linda e maravilhosa e minha da Arya por motivos da recomendação dela tipo

"When the night's so long 'cause there is no guarantee that this life is easy"

Existem duas formas de acordar. Uma em que seu corpo está tão saturado do sono que você é forçada a abrir os olhos e encarar a realidade. A segunda é quando algo (mais precisamente o sol) decide focar em seu rosto, grudando em sua pele. Isso aconteceu comigo.

Tenho certeza de que se dependesse do meu corpo, eu nunca acordaria, continuaria em um estado vegetativo tão profundo que o máximo que eu poderia fazer seria respirar.

Assim que me dei conta de que aquele sol importuno não deixaria de me perturbar, abri os olhos, colocando meu braço, de imediato, por cima dos mesmos.

Puxei lufadas de ar com força, como se estivesse em algum lugar rarefeito e rapidamente, mãos me ajudavam a me sentar, me equilibravam em cima de uma superfície macia. Meus músculos não colaboravam com os comandos que meu cérebro implorava para que fossem realizados.

Com mais uma lufada de ar para dentro do meu corpo, consegui estabilizar os tremores que eletrizavam cada parte dos meus músculos e eu nem ao menos estava sentindo.

Segundos seguintes, eu estava sendo deitadas por aquelas mãos fortes novamente contra o colchão. O sol já não afetava meu rosto e pude fechar os olhos com calma, esperando que o sono corroesse minhas entranhas, levando-me para o único lugar que me daria paz.

Não demorou muito para que os acontecimentos do dia anterior voltassem a me atacar.

Dor.

Demorou a que eu me desse conta de que tudo aquilo estava em meu corpo. Fazia parte de mim.

Meus olhos se abriram, surpreendo-me com um teto pintado a óleo marfim. A claridade fora abafada pelas cortinas fechadas na janela. Embora meus olhos ainda estivessem grudados no teto, eu podia notar que tudo que havia ocorrido ontem era verdade.

O sequestro.

Suspirei, tentando controlar os enjoos que preenchiam meu corpo.

Virei o rosto para o garoto ao meu lado.

Seu rosto estava mais pálido que o normal, seus lábios presos em uma linha fina assustadora e seus olhos estavam vermelhos com bolsas arroxeadas em baixo, seu semblante era pensativo enquanto encarava o teto com um dos braços abaixo de sua nuca e o outro em torno em torno de meus ombros.

Aninhei-me ao seu peito, encostando minhas mãos no mesmo, beijando sua pele desnuda.

Seus olhos foram desviados para mim tremeluzindo de confusão, encolhi-me.

– Vocês já conseguiram?

– Nós vamos conseguir. — a firmeza de sua voz não me fez sentir segura, como de praxe

Seus olhos eram pura e simplesmente confusão, misturando com o sentimento de medo que crescia em seu semblante.

– Nada?

– Nada. — suspirou, voltando os olhos para o teto coberto de um óleo viscoso — Nakamura ligou para os caras de lá e até para alguns de Alex. Não sabemos se foi o Jack. — finalizou, com a voz longe demais

– Foi o Jack! — elevei o tom, procurando seus olhos: vários tons de verdes coloriam suas íris, elas não estavam focadas em mim, entretanto

– Annie, a família Olympus tem vários inimigos... Pode... Pode ser que algum deles tenha se dado conta agora que estávamos aqui. As quatro semanas estão acabando, eles tiveram tempo o suficiente para organizar e... Levá-los.

– Como pode pensar que é alguém a não ser o Jack? Ele é o único que, por algum motivo, não nos quer ver vivas.

– Não sabemos! Você não pode acusa-lo enquanto ele está muito tempo sem dar sinais.

– E por que você está defendendo-o?

Ele fechou os olhos com força, passando as mãos pelo rosto, irritado.

– Eu não estou defendo-o, amor, só estou falando que ele não é nossa primeira suspeita.

– Ele é a minha primeira suspeita! — gritei, sentando-me em um pulo

Percebi que meu corpo ainda estava descoberto pelo banho constrangedor do dia anterior. Não liguei para seu olhar assustado, ou seu tronco meio erguido na cama, o corpo apoiado pelos cotovelos enquanto eu tirava shorts e blusas, vestindo-me rapidamente.

– Para onde você está indo? — perguntou

– Vou te provar que ele sequestrou a Thalia.

– Tá, Annabeth — ele cruzou as pernas, sentando-se em cima da cama com uma expressão duvidosa -, vamos supor que ele realmente tenha feito isso. Que provas você tem?

– Você está me acusando? — minha voz saiu trêmula e seu semblante antes repleto de raiva pareceu falhar quando hesitei em formular uma frase coerente

Rapidamente, seus olhos voltaram a mesma indignação, raiva e medo de antes.

– Só vou acreditar em você quando parar de me esconder o que quer que esteja me escondendo.

Tentei parecer firme, embora não tivesse ideia do que ele queria estar dizendo. Arqueei as sobrancelhas, confusa e abaixei a blusa em um puxão, cruzando os braços rentes aos meus seios.

– Não sei do que está falando. — minha voz saiu mais firme do que eu esperava, mais confiante

– Ah, é? — seus olhos se estreitaram em minha direção — E por que tem tanta certeza que é o Jack? Se fosse ele, tenha certeza que eu, Luke e Nakamura saberíamos e concordaríamos com você. Agora, me diga, se você tem tanta certeza, o que você está me escondendo?

– Nada que você não saiba, aliás... Vocês são “o cabeça”, certo?

Seus olhos se estreitaram novamente, me desafiando entre o momento que eu organizava meus pensamentos para fugir de seus olhos habilidosos.

– Vamos, me diga. — ponderou, levantando-se da cama, seus passos precisos foram o necessário para que nossos corpos estivessem a três passos de distância — E nem pense em dizer que não sabe o que estou dizendo.

– Eu não sei! Não... Eu... — seus olhos verdes me pressionaram por um tempo indeterminado

Novamente, os olhos castanhos e melosos de Jack pareciam cravados em minha mente. Meus dentes acariciaram meu lábio inferior até perceber o que Percy estava me perguntando.

E agora, eu tinha quase certeza que ele podia ler minha alma.

– O... Jack... Bem, ele é... Paciente. — fiz uma careta de culpa ao perceber os tons verdes se curvarem em um olhar magoado, ele inclinou a cabeça para o lado, em um claro aviso para que eu continuasse, respirei fundo — Do meu psiquiatra, o Thomas. Mas eu acho que ele só está... Perto dele para nos vigiar. É o meio mais seguro, não acha?

Ele tentou falar, mas balancei a cabeça, pedindo para que se calasse.

– E... No dia da racha, em que ficamos mais tempo do que esperado... Não sei se tem algo a ver, mas acho melhor me contar antes que me sinta culpada... — ele não sorriu, como eu esperava — Nós ouvimos dois homens comentando sobre a droga... Eles se referiam ao chefe como J.J. Isso tem algo a ver? Poderia ser o Jack, certo?

– Primeiro: quando pensou que ia me contar isso do seu psiquiatra? — seu tom de voz fora recoberto por ironia e raiva, assim como seus olhos — Temos inúmeras chances de que ele possa ser médico mesmo, ou esteja ajudando o Jack com informações... Ou... Não sei, Annabeth! Isso foi irresponsabilidade da sua parte, somos uma equipe!

– Eu... Eu sei, me perdoe.

– Te perdoar?! Você acha que perdoar vai resolver algo? Acha? — balancei a cabeça em negação, seu rosto estava vermelho, gesticulando enquanto andava de um lado para o outro — Você está se colocando em perigo só de se consultar com esse cara! Eu nunca me perdoaria se você tivesse sido sequestrada.

– Então quer dizer... Que a culpa foi minha? — resmunguei por baixo de seus gritos
– Uma parcela, provavelmente! Sabe, eu finalmente achei que você pudesse ter colocado... Droga! — ele socou a parede, tentando controlar a respiração enquanto me encolhia

– Não estou entendendo porque está tão irritado. — me atrevi a falar — O Thomas nunca faria nada.

– Ah, e você confia nele? — os três passos que nos afastavam já não existiam mais depois do que falou, sua mão atacou minha nuca com força e podia sentir o ar novamente rarefeito — Confia nele, Annabeth? Porque eu acho que quem está arriscando a vida sou eu e não ele.

– Não... Não era isso que eu...

– Eu vou descer. — decretou, seus olhos procurando qualquer vestígio que eu pudesse estar enganada — Vou descer para não fazer o estrago que eu queria fazer por ser tão... Burra.

– Afinal, era isso que queria dizer desde o começo, não é? Desde que vem me tratando com carinho, certo?

Aproximei nossos rostos, até podia sentir a áurea de raiva e indignação que exalava de seus poros me contagiar.

– Pense como quiser. Agora, você continua sendo uma garota burra por não confiar em quem merece e isso só me mostra que eu estava absolutamente certo em relação a sua participação nisso tudo.

Com o final de seu discurso, ele bateu a porta com baque surdo, fazendo meu corpo se encolher. Engoli em seco, sentindo as malditas lágrimas voltarem aos meus olhos. O que uma simples frase poderia fazer, não? Sequei-as rapidamente com as costas das mãos. Certamente, eu não deveria estar chorando que nem uma idiota enquanto minha melhor amiga poderia estar sofrendo o quer que fosse às mãos de um lunático.

Repeti seu movimento ao abrir a porta, descendo as escadas em forma de cilindro e me deparando com a sala de estar dos Castellan's totalmente mudada.

Em cima do centro cor de tabaco, onde deveria estar os jarros de flores de May, repousava vários notebooks direcionados para um ruivo com fone de ouvido e uma agenda em seu colo. Em um das poltronas, do lado oposto, armas de portes pequenos estavam repousadas, prontas para o uso, enquanto ao lado de Ethan, Luke se aproximava, oferecendo-o uma caneca de café ou o que quer que fosse aquilo.

Ethan sorriu, mas desapareceu logo em seguida, arrancando uma página da agenda e voltando a digitar.

– Tão perdido?

O ruivo balançou a cabeça e pela primeira vez, seus olhos se direcionaram a mim.

– Depois do que a loirinha disse, não estamos tão cegos. Jack acaba sendo nossa única opção, afinal.

– Todos estão contra mim, então? — falei, aproximando-me das costas dele e avaliando os mapas abertos no Google Maps em alguns notebooks com um sinal verde e vermelho piscando irritantemente na tela e em outros, programas cheios de palavras que eu não conseguia decifrar

– Basicamente. — Luke ergueu os ombros com naturalidade, embora seu rosto denunciasse que não havia dormido — Tem café pronto e bolo. Pode se servir.

– Conseguiram alguma pista?

Ethan balançou a cabeça, parecendo derrotado.

O corredor que me levava para a cozinha ficava ao lado da porta principal. Ignorei os olhares vidrados do computador, dirigindo-me ao único lugar que não receberia esses supostos olhares.

Mas claro que não aconteceria isso.

Percy estava a minha frente, tentando cruzar o corredor assim que eu estava a poucos passos da cozinha.

Em uma das mãos, trazia uma caneca enorme do que presumi ser café e na outra, despejava pedaços de bolo em sua boca.

Ele não me dirigiu o olhar, ignorando quando passou ao meu lado, deixando o rastro de seu cheiro amadeirado ainda impregnado em seu tronco nu. Respirei fundo, tentando espairecer, andando com passos firmes até a cozinha.

Estava do mesmo jeito que eu me lembrava. A mesa de madeira parecida com a minha ao canto enquanto uma bancada de mármore se erguia em frente a bancada da pia/fogão/geladeira. A típica cozinha que May adorava de Sr. e Sra. Smith.

A cafeteira estava cheia, como era de se esperar. Açúcar, creme e leite estavam dispostos sobre o balcão enquanto eu enchia a minha própria xícara com tudo que eu tinha direito, menos creme. Eu estava enjoada de creme, lembrava-me Thomas e nesse momento, era o que eu mais queria esquecer.

Refiz o caminho para a sala, debatendo-me com os notebooks em volta do centro enquanto Percy estava debruçada sobre a mesa de centro esperando que Luke prestasse atenção. Aproximei-me deles, contudo nenhum olhar foi lançado a mim.

– Entendeu? — todos assentiram e ele apontou para a segunda folha — Plano B: ir atrás do psiquiatra e tirarmos o máximo de informação que pudermos. Talvez não ajude muito, mas é melhor que o plano C.

– Qual é o plano C? E por que falar com o Thomas?

Nenhum deles me respondeu.

– Plano C. — Percy declarou, nos encarando de cima, seus olhos não se atreviam a direcionar a mim — Zeus.

– Não, não, não. — Luke negou, levantando-se — Nós vamos fazer o primeiro plano.

– É melhor mesmo. — Ethan concordou e suspirou — Certo. Quando começamos?

– Agora mesmo. Você já pode ir, Nakamura?

– Claro, cara, só vou tomar um banho e falar com o segurança do Jack. Vou tentar falar com a Alex aqui e aciono os pontos.

– Certo, vou procurá-los. — Luke disse, pulando e indo em direção a escada

Por fim, eu e Percy ficamos sozinhos mais uma vez.

– Qual é o plano A? — perguntei enquanto ele recolhia os papéis com calma — Hein?! Por que está me ignorando?

– Porque você nem vai chegar perto disso.

– Minha prima que está lá!

– Por isso mesmo. — seus olhos se ergueram calmos

– Percy. — respirei fundo e massageei minhas têmporas, fechando os olhos — Eu já disse que vou participar disso e você não é ninguém pra dizer o que devo ou não deixar de fazer.

– Você tem ideia do que pode encontrar lá?

– Não! — gritei em sua direção, enquanto ele se levantava e depositava os papéis amassados em sua bermuda — Não tenho ideia, mas eu vou!

– Não. — respondeu e me encarou, com as mãos enfiadas nos bolsos quadriculados — Não importa o quanto você grite, reclame... Eu não ligo. Você vai ficar aqui o tempo todo.

Deixei o espaço que nos separava para trás e segurei seu rosto entre meus dedos, embora seu rosto continuasse calmo.

– Você não pode fazer isso.

Percy segurou meu pulso, afastando minha pele da sua e segurando minha nuca com a mesma força que fizera quando estávamos no quarto.

– Quietinha para eu não estragar sua pele de porcelana. – piscou, assustadoramente ameaçador

Medo. Foi apenas isso que eu senti quando seus olhos frios se afastaram dos meus, com caminhadas e um som oco feito pelo seu pé contra o carpete da sala. Segurei meu pescoço, tentando controlar os tremores de medo que manchavam meu corpo a cada lufada de ar que me fazia continuar ali.

Thalia.

Nico.

E eu havia me dado conta, apenas nesse momento que Percy estava sentindo a mesma dor que eu. Era seu melhor amigo. Seu primo que havia sido levado. Senti-me suja, hipócrita por estar tão afundada em minha própria dor que mal pude dar-me conta da dor que Percy estava sentindo.

Seu choro, portanto, não fora um meio de me amparar, mas um modo de se livrar daquela maldita emoção cravada em nossos peitos.

Era isso. E eu estava sendo a namorada egoísta que não dava vez para ouvi-lo.
A água do meu corpo pareceu, enfim, ter secado e nada além de uma garganta cheia de dor expressava o máximo que eu estava sentindo.

Percebi que minhas mãos ainda estavam envolta da caneca morna. Beberiquei o café, tentando fazer com que aquela dor fosse esquecida, mesmo que por minutos.

– Annie? — Luke tocou meu ombro — Tudo bem?

– Posso ajudar em algo? — perguntei, assim que meus lábios se afastaram da caneca de porcelana

– Ajuda? — meu primo franziu o cenho deixando dezenas de fios cair por cima do tapete grosso — Que tipo de ajuda você espera nos dar?

Dei de ombros, ajoelhando-me ao seu lado enquanto ele desfazia os nós com atenção.

– Qualquer coisa. — confirmei, ajudando-o rapidamente — Posso cozinhar, posso aprender a mexer nesses programas... Tanto faz.

Seus olhos azuis cintilantes me analisaram com calma, no momento em que os dedos habilidosos continuavam a desfazer, como se tivessem feito isso por muito tempo.

– O que o Percy te disse dessa vez?

Estreitei os olhos, com calma e suspirei, vendo seu sorriso triste perambular pelos seus lábios.

– Nada. — dei de ombros — Só estou oferecendo minha ajuda. E... — ergui meu indicador para a poltrona perto de nós — quando vai tirar essas armas dali?

– Vai demorar um pouco. E eu tenho certeza que o Percy te disse algo.

Suspirei, derrotada e analisei todos os fios prontos, vendo meu primo conectar cada um deles aos notebooks.

– Annie, eu conheço você toda a minha vida. E bem, Percy já foi meu melhor amigo. Antes de... Bem, esquecer tudo, vocês não tinham as brigas mais legais do mundo.

– Não me lembro de nenhuma briga. — murmurei, tentando rir, mas saiu como um início de um choro

– Não eram boas. — fez uma careta e voltou a me encarar — Vamos, o que aconteceu?

– Você acha justo minha prima estar lá e eu não ajudar em nada?

– Sim.

– Luke!

– Qual é, estou sendo sincero. Você nunca participou de nada disso. Nem tem ideia de como funciona.

– Eu posso aprender!

– Odeio concordar, mas o Percy está certo. Você nos omitiu algo. Isso é suficiente para que não confiemos cem por cento em você.

– Não achei que era tão importante.

– Mas era. — a voz conhecida da pessoa que estávamos falando sobre pareceu aumentada por potentes auto falantes — Acho melhor fazer qualquer coisa, ao invés de nos atrapalhar.

– Luke... — choraminguei

Meu primo baixou o olhar, segurando na palma da mão, três pequenos pontos.
– Vai. — pediu

Lancei um olhar cheio de mágoa para Percy, mas a única coisa que recebi de volta foi seu semblante sério e braços cruzados sobre o peito coberto pela regata azul.

***

Desde pequena, eu sempre tive o apreço por pegar nas panelas e tentar fazer algo que não fosse macarrão pastoso. Infelizmente, minha força de vontade não perdurou por muito tempo.

Cheguei a ver Ethan pronto, com Luke ajudando-o a esconder os pontos pelos cantos do corpo. O ruivo até conectou todos esses pontos, como na van no dia em que invadimos a festa. Com olhares sutis, aqueles pares de olhos masculinos repletos de desconfiança me expulsaram do recinto e mesmo depois de mil gritos, apenas proferidos por mim, Luke me deu a grande bênção de ir cozinhar enquanto conseguia um carro para o Ethan em menos de uma hora.

Claro que isso não ia ser problema. Estar na cozinha, sim, isso era um problema.

Depois de infinitas tentativas de fazer macarrão com queijo, ignorei as panelas sujas e me pus a fazer vários sanduíches. Preparei um suco, ajeitando tudo em cima de uma bandeja prateada e voltando meu caminho para a sala.

Luke estava sem camisa, de costas para mim enquanto um ruído de carro ecoava nas pequenas caixas de sons deixadas pelo mesa. Em um dos notebooks, uma imagem se movendo de uma rua paralisada se transfigurava. Franzi o cenho e percebi a outra imagem: um volante com mãos masculinas tamborilando nos mesmos.

Deixei a bandeja repousada com calma ao lado do meu primo, revelando-o minha expressão confusa.

– Pequenas câmeras. — explicou antes que eu pudesse falar

– Você acha que os capangas experientes de Jack não vão descobrir?

– Seu pessimismo me deprime. — resmungou sem erguer os olhos para mim

– Estou sendo realista.

– Não quero que seu realismo se concretize.

– Pode crer, nem eu. — reclamei, levantando-me em seguida.

Luke ergueu os olhos rapidamente para mim, balançando a cabeça e reservando total atenção para as telas chamativas junto com os sanduíches e suco.

Banho. Era disso que eu precisava. E agora, eu só precisava de um bom banho e rezar para que todo esse plano louco de filmes de ação de crianças desse certo.

Infelizmente, tinha que dar.

Atravessei as escadas com o coração mais pesado que o normal. Tive que me deparar duas vezes com a porta fechada do quarto que Percy havia me colocado. Muito tempo sem visitar meu primo e era isso que acontecia.

Toquei o ferro da maçaneta frio, sentindo minha pele quente estremecer com o contato. Assim que abri a porta sem quebrar o silêncio de toda a casa, me deparei com a última pessoa que queria encontrar ali.

Percy estava todo molhado com a toalha pendendo em seus quadris, as entradas tão sexy como sempre foram. Ele teclava com uma fúria incomum, os joelhos rente a cama de casal em que passamos a noite sem se dar conta que eu estava ao seu lado encarando uma das belezas mais puras.

Uma das únicas pessoas que só com o olhar podia me deixar melhor. Segura.

Era difícil admitir para meu lado egoísta, orgulhoso e feminista, mas eu precisava daquele imbecil. Eu precisava dele para qualquer coisa que eu viesse a fazer.

Eu precisava de Percy. Comigo. E eu estava em dúvida de qual sentimento estaria tomando posse de meu corpo. Talvez luxúria, raiva, indignação... A dor continuava lá, entretanto.

Suspirei e então seus olhos verdes vieram em minha direção. Dois diamantes verdes perdidos, confusos me encarando em um misto de surpresa.

Ele deixou o telefone escorregar de seus dedos, passando as mãos pelo rosto com força e repetindo o gesto ao tentar arrancar os fios com a expressão calma.

– O que está fazendo aqui? — perguntou, cruzando os braços

Pisquei os olhos. Uma voz autoritária gritava em minha mente. Você tem que responder. Depois de vários segundos, o semblante raivoso e acusador dele passou para preocupado. Poucos milésimos de segundos até que eu me desse conta de que a voz meio rouca que exalava pelo quarto era minha.

– Eu vim tomar banho.

– Sinta-se a vontade, o banheiro está livre. — anunciou

Assenti. Meus passos, contudo, não se dirigiram a porta leste do quarto e sim para sua frente onde seus olhos verdes eram intimidadores junto com seus braços cruzados.

– O que você está fazendo? — retruque

– Sua burrice chegou a esse ponto?

Revirei os olhos, aproximando meu corpo do seu com passos lentos sob o olhar minucioso e confuso dos diamantes esverdeados.

– Aqui. — apontei para o seu peito e franzi o cenho, inclinando a cabeça para o lado — Eu sei o que você está sentindo. Porque eu também estou. — sussurrei

Debrucei meu corpo sobre o seu sem autorização, seus braços, entretanto, continuavam tensos cruzados sobre o peito. Acariciei sua nuca com as pontas dos dedos. Suas mãos continuaram imobilizadas. Fechei os olhos, suspirando.

– Eu sinto muito. — passei meu nariz pelo seu pescoço, sentindo o cheiro do sabonete leve — Sinto muito mesmo. Eu sei que está preocupado com o Nico tanto quanto eu estou com a minha prima. Sei que é ele que te apoia e tudo mais. — tive força de vontade para escapar de seu cheiro afrodisíaco e encarar seus olhos

– Isso não faz diferença. Você conseguiu estragar tudo. Missão cumprida. — retrucou com aquela mesma arrogância do gentleman que conheci em Hampshire

– Eu preciso de você. Precisamos um do outro para... Para continuarmos termos sanidade o suficiente. Não pode negar isso para si mesmo.

– Você não tem ideia do tamanho da burrice que você fez, não é? — estreitou os olhos

Balancei a cabeça, negando.

– Isso não é uma brincadeira. Um deslize e tchau. — seus olhos me encararam com aquela típica superioridade que me fazia estremecer

Meus músculos se retesaram, porém continuei no mesmo lugar, acariciando os poucos fios úmidos de sua nuca.

– Tudo isso é uma máscara. — acusei com a voz baixa — Você quer resgatá-los, mas na verdade, só está morrendo de medo de que nada dê certo.

– E...

– Não. — o interrompi, procurando qualquer vestígio de que ele poderia ter fracassado com aquele olhar, mas continuava a mesma coisa — Eu sei. Porque eu estou sentindo o mesmo. São nossos melhores amigos lá. Nossos primos. As únicas pessoas que confiamos. Sei o que está sentindo. E preciso de você. Preciso de você para que isso passe.

Seus olhos piscaram, atônicos. E antes que eu me desse conta, suas mãos caminhavam em uma lentidão tortuosa até minha cintura, os dedos apertando cada pele coberta com carinho. Seus olhos, antes inibidos pela raiva, estavam recheados de dor.

Antes que eu pudesse me dar conta de que ele realmente estava aceitando o que eu estava falando, que ele finalmente me entendia, lágrimas solitárias caiam dos seus olhos. Lágrimas tremeluziam por aquele rosto que desde o primeiro momento me passou segurança... Terra firme. O mesmo rosto que eu conseguia encarar e sorrir sem motivo aparente, estava desmoronando. A minha frente. Totalmente diferente do jeito de ontem. Eu estava frágil e mal conseguia ver aquelas gotículas escapando do mar esverdeado, agora... Estava claro a sua dor estampada em cada canto do seu rosto. Seus dedos afundando em minha blusa não era pura urgência de me ter... Era puro desespero.

Puro e simples desespero.

E então, eu conseguia entendê-lo. Conseguia ler sua mente, assim como ele conseguia ler minha alma calmamente. Ele estava sozinho. Eu já não era o mistério da equação, ter uma amnésia histérica já não era nada perto da solidão que ele sentia. Perto daqueles olhos verdes preenchidos de dor, preenchidos de sofrimento. Ter uma família desestabilizada e um lunático querendo acabar com sua linhagem era apenas um pequeno ponto esquecido naquele mar a minha frente.

Ele era tudo. Tudo naquele momento.

Aliás, o que era pior que a solidão? O que seria pior do que sua mãe ter te abandonado? Saber que ela estava ali, em algum lugar, mas nunca ter falado com ela? Além de estar em um estado que só lhe trazia má recordação com uma garota que havia partido seu coração? E infinitos mistérios que provavelmente eu tinha descoberto aos meus catorze anos e agora... Agora não era nada mais que lembranças trancafiadas em algum lugar misterioso de minha mente.

Meus dedos foram até suas bochechas úmidas, tentando limpar aqueles rastros que manchavam sua pele corada.

– Tudo vai ficar bem... — aninhei-o com minhas palavras, tentando soar calmo e não desesperada , tremendo como todo meu corpo estava — Eu... Eu prometo.

Percy fungou, fechando os olhos e deixando-me limpar todo seu rosto que a cada momento era sucumbido pelas lágrimas teimosas que insistiam em deixá-lo naquele estado

– Só me faz esquecer. — pediu, abrindo os olhos — Me faz esquecer essa dor, Annie. Eu não aguento. — implorou, a voz embargada e mais rouca que o normal — Eu... Estou insano. Totalmente insano. Eu não sei o que fazer e...

– Calma. — dedilhei seus lábios trêmulos com o polegar — Eu estou aqui, não estou? Tudo vai ficar bem enquanto estivermos juntos, certo?

– Não, não vai ficar. Só vai piorar a cada momento. Você não vê? Tudo está dando errado desde... Desde que decidimos dar continuidade a isso.

– Por favor, não diz isso. — pedi, sentindo meus olhos lacrimejarem — Vai dar tudo certo. Tem que dar tudo certo.

– Não é tão fácil. Só... — ele respirou fundo e por um momento, as lágrimas dele pareceram deixar de existir, sendo substituída por uma dor ainda maior, uma dor que que eu queria arrancar com todas minhas unhas e incrustá-la em mim: o velho clichê de sempre — Me faz esquecer. Me faz esquecer essa dor. — suas unhas afundaram sobre minha pele coberta — Me faz esquecer que esse mundo existe.

Meus olhos piscaram diante do segundo pedido.

Como poderia fazê-lo esquecer daquela dor enorme armazenada por tanto tempo? Uma dor que eu sentia, mas... Não tinha nem ideia de como expulsá-la de meu corpo?

Suspirei, inclinando meu corpo sobre o seu, apertando sua nuca entre meus dedos enquanto nossos lábios se encostavam.

Em um flash, nosso primeiro beijo no pub do meu tio passou diante de meus olhos. Havia tensão no ar, eu fui esnobada pelas suas cortadas e queria sair por cima enquanto... Agora, eu só queria vê-lo bem.

Arranhei sua nuca, sentindo-o ofegar e então, nossos lábios enfrentavam uma batalha antiga. Seus dedos estavam fundos em minha pele. Rastejei as palmas de minhas mãos pelos seus ombros molhados, arranhando suas costas enquanto suas mãos desciam de minha cintura até meus glúteos, apertando-os. Desci meus dedos trêmulos até sua toalha, empurrando-a com urgência.

Percy voltava ao comando.

Nossos lábios se desgrudaram, a medida que eu ofegava pelas suas mordidas em meu pescoço, seu nariz deslizando calmamente pela minha pele arrepiada e a umidade de seus lábios mordendo o lóbulo de minha orelha. Suas mãos, agora, estavam dedilhando meus seios sem sutiã. Apenas gemidos trêmulos escapavam de minha boca e eu já não sabia de como fazê-lo esquecer... Ele estava fazendo-me esquecer.

Com uma troca de olhares rápida, seus dedos rasgaram minha blusa de uma ponta a outra, sem piedade. Seus lábios, então, tinham uma tarefa mais importante que meus lábios: brincar com meus seios.

Percy me empurrou com os dedos até que eu estivesse sentada na beira da cama e seu corpo estivesse ajoelhado entre minhas pernas, enquanto seus lábios faziam o favor de lamber, morder e uma de suas mãos apertavam meu outro seio. O ar escapou de meus pulmões quando seus dedos apertaram minha intimidade coberto pelo jeans, seus dedos agora tinham outro objetivo: retirar aquele empecilho chamado de shorts o mais rápido possível.

Desabotoei com urgência, sentindo suas mãos massageando meus seios juntos enquanto sua língua quente perambulava entre eles. Tentei erguer meu corpo, porém suas mãos desceram inesperadamente colocando meus quadris de volta no lugar.

Respirei fundo, buscando a urgência que ele estava sentindo. E não consegui encontrar nada, além de duas íris totalmente verdes me encarando de volta.

Inclinei-me sobre ele, depositando um selinho, aprofundando em um beijo calmo e lento. Sua mão em minha nuca ditava o movimento e a velocidade que aquele beijo teria enquanto seus outros dedos tratavam de massagear meus seios. Mordi seu lábio inferior, descendo minha mão pela sua barriga até alcançar seu membro, tentando estimulá-lo.

O que levei em troca foi minha mão sendo jogada para o lado, um empurrão em meus ombros e seu corpo me beijando da forma mais urgente e arrebatadora possível, enquanto eu tentava acompanhar seu ritmo, suas mãos passeavam pelo meu corpo sem restrição. Arfei ao sentir seus dedos empurrando meus shorts e em segundos, um dos seus dedos apertavam meu ponto de prazer, brincando com minha intimidade.

– Isso n... — tentei resmungar

Ele deu um sorriso de lado, uma mistura de malícia surpreendente, então outro dedo estava me penetrando e foi impossível conter o gemido prolongado que escapou dos meus lábios.

Deixei meu corpo desabar entre os lençóis de seda quando seus dedos brincavam entre apertar aquele ponto e aumentar a velocidade dentro de mim, buscando reconhecer qualquer ponto quente e úmido.

À medida que meus gemidos aumentavam, ele diminuía a velocidade, voltando a beijar meus seios eretos. Era uma tortura que só me fazia querer mais dele.

Reuni força o suficiente para me inclinar sobre ele e agarrar seus ombros, implorando por um beijo, logo correspondido. Apertei seu membro, no primeiro deslize dele, ouvindo seu gemido abafado em meu ouvido, excitando-me ainda mais. Comecei a fazer movimentos rápidos de vai e vem, sentindo seu corpo grudado ao meu, suas mãos enrolando-se nos emaranhados lençóis. Empurrei seu corpo para o lado, deslizando pelo seu corpo até meu rosto estar na altura de seu membro. Lambi toda sua extensão com calma, sugando sua glande ao ver seus olhos cravados em mim. Seus dedos puxaram meus cabelos com força antes que eu pudesse continuar; Percy me afundava em mais um dos seus beijos que me tiravam o ar e me deixavam de pernas bambas, inclinei a cabeça buscando por ar sentindo seus lábios quentes beijando cada ponta do meu ombro até meus seios. Seu indicador voltou a me estimular, com movimentos lentos que me faziam morder os lábios, inibindo os gemidos sôfregos. Seus dedos, em seguida, subiram pelo meu corpo até dois dedos acariciarem meus lábios.

– Abre. — pediu, pressionando o indicador contra meu lábio inferior, aderi ao seu comando com destreza

Sorri em meio a suas carícias superficiais em minha intimidade, sugando seu dedo e enrolando o mesmo em minha língua. Percy deu um sorriso de canto, descendo o dedo úmido até minha barriga.

Empurrei seu peito até que ele estivesse deitado sobre os cotovelos. Ele sentou-se enquanto eu me ajoelhava em cima da cama entre suas pernas, apertou minha bunda com força e sorri.

Em um movimento rápido, eu estava por baixo e ele voltava em pé rente a cama. Minhas pernas foram erguidas ao longo do seu peito e sem aviso prévio, ele me penetrou com estocadas fortes, recebendo meu grito fino em resposta, abafado pelo seu olhar raivoso.

O que antes era água contra seu corpo, transformou-se em uma fina camada de suor entre os dois corpos. Arqueei minhas costas, aproveitando cada minuto de prazer que ele me proporcionava com as estocadas fortes, apertei a seda entre meus dedos, buscando não extravasar todo meu prazer em gemidos sofridos. Percy abriu minhas pernas, ficando por cima de mim, enrolando meus cabelos entre seus dedos, fazendo-me arquear as costas a cada penetração mais profunda que ele estocava em mim.

Meu corpo foi virado, em segundos. Agora, eu estava me apoiando em meus braços, meus cabelos sendo puxados e mantendo meu corpo quase erguido para que eu ficasse mais submissa a cada estocada dele.

Minhas costas foram de encontro ao seu peito, uma de suas mãos massageavam meus seios com força e o outro, apertava meu ponto de prazer, provocando-me espasmos.

– Vem... — ele sussurrou contra minha nuca, seu hálito quente chocando-se em minha pele — Annie...

Joguei minha cabeça contra seu ombro, arranhando seu couro cabeludo. O paraíso para o prazer que eu vinha buscando estava bem mais próximo ao sentir a lufada de ar quente empurrada em minha nuca, provocando-me arrepios saborosamente deliciosos.

Seus dedos agarraram meus seios mais uma vez até eu estar perdida entre os espasmos que controlavam meu corpo. Minha respiração entrecortada parecia nunca ter fim, assim como a dele em minhas costas. Seus dedos tamborilavam sobre minha lombar enquanto seus lábios mordiam meu pescoço e a pele atrás da orelha.

Seus lábios úmidos despejaram selinhos por toda minha pele enquanto aqueles espasmos viciosos tomavam conta dos meus músculos. Todo meu corpo estava mergulhado em cansaço, mas nossos corpos unidos ainda me dava vontade de mais. Mais e mais.

Porque, de fato, eu só precisava esquecer que um mundo cruel me amaldiçoava lá fora.

Virei-me para ele, segurando seu rosto entre minhas mãos, encaixando nossos rostos com suavidade.

– Vem. — chamei, deitando-me entre as almofadas espalhadas na cabeceira da cama

Percy puxou os lençóis, deitando-se na minha barriga. Lufadas de ar escapavam de sua boca, batendo em minha pele. Emaranhei meus dedos em seu cabelo, fazendo um carinho lento enquanto tentava recuperar o máximo de minhas forças.

Seu rosto estava deitado entre meus seios, seus dedos subindo e descendo em uma carícia infinita sobre os mesmos.

– Obrigada. — sussurrou, apoiou o queixo perto de meu seio, dedilhando minha pele

– Isso é tão injusto. — murmurei, bagunçando seus cabelos para frente de sua testa -Nós nem sabemos como eles devem estar e... Estamos aqui... Transando. — resmunguei

Percy franziu o cenho encarando minha pele, parecendo bem mais satisfeito com aquelas vermelhidões do que com o que eu acabara de falar.

– Fazendo amor. — me corrigiu com calma — E não podemos fazer nada além de ficar de braços cruzados.

– Eu estou com medo. — retruquei, passando os dedos ao redor de seu rosto -

– Não fique com medo. — ele beijou minha barriga, subindo nossos rostos até estarem nivelados — Enquanto estivermos juntos, tudo vai estar certo, não é?

Assenti, concordando com um pequeno sorriso.

– É.

Batidas fortes na porta fechada, nos fez virar para o som que nos atrapalhava em um estado de calmaria provisório.

– Desculpa atrapalhar, casal. Mas, o Ethan acabou de ter contato direto com seguranças E Percy, é melhor você descer, cara.

Notas finais
Gente, esse capítulo é super enorme, tipo nem tanto, mas é enorme. Eu gosto dele, mas é do tipo que ele é muito meloso e eu nao sei eu só quero chorar quando eu leio ele entao, bom, espero que todo mundo goste e tal Eu acho que foi o drama pro resto da minha vida eu só consigo nao sei socorro Enfim, espero que tenham gostado!!