Nightingale.
46 Fight for Nothing.
Notas iniciais
"Oh hold me, like you mean it, like you miss me, 'cause I know that you do"
– Work Bitch! — gritei, batendo as mãos acima de minha cabeça – Isso, um, dois... Balança cabelo, dois passos pro lado. Uma mão pra cima, isso!
Ally nos encarava, alegre. Bateu palmas quando caímos no chão, de quatro, mexendo o pescoço, jogando os cabelos para todos os lados.
– Done! – nossa treinadora gritou
Ri, ficando de joelhos no gramado.
– Ótimo, garotas! Nos vemos amanhã. – bati palmas, enquanto pegava minha toalha, enrolando-a em meu pescoço e meu vaso de água
Esperei Thalia se levantar e vir falar comigo, sua toalha em seu ombro.
– E então? – ela perguntou, ao meu lado
– O quê? – resmunguei, jogando água em meu rosto
Ela deu de ombros.
– Está tudo bem? Sabe, entre você e o... Percy?
– Legal. – concordei com a cabeça – É segunda, qual é? Não posso estar sorrindo. – brinquei, beliscando sua barriga
Ela assentiu, forçando um sorriso.
Revirei os olhos, adentrando o vestiário.
Todos os chuveiros estavam ocupados, encostei-me em um dos armários personalizados roxos, procurei meu celular em minha mochila.
– Annie? – Kate apareceu em minha frente, com as mãos em seu quadril
– Hm? – levantei o rosto do meu celular
Ela tossiu, desconfortável.
– Tem um... Ai, tem um policial te chamando aí fora.
Mais um policial. Até quando eles continuariam me perseguindo?
Depois do quase-estupro, tudo pareceu ter se acalmado. Quero dizer, logo depois que Margareth me entregou uma toalha rosa e uma bandeja cheia de cookies de framboesa quentinhos com leite quente em sua sala de jantar, com seus filhos de cinco e sete anos dormindo em seus pequenos quartos. Ela era fofa, sua casa era pequena e confortável, o suficiente para tomar conta de seus pequenos filhos e de seu marido carinhoso.
Eu sei, nenhuma mulher ia querer dez policiais com armas em seus quadris, uma garota calada, outra garota punk com seus cabelos espichados e suas roupas amassadas, um garoto que sabia usar uma arma e que conhecia todos os policias, finalizando por um garoto gótico que estalava os dedos seguidamente.
Ninguém ia querer.
Eu não consegui expressar uma palavra. Minhas mãos tremiam a cada segundo que a caneca branca cheia de leite quente encostava em meus lábios, Thalia teve que me ajudar a beber todo o conteúdo da caneca. Percy e Nico tentavam de tudo para me fazer falar. Eu parecia uma idiota, sussurrando “negros, negros, negros” a todo momento. Minha prima me disse que a única coisa além disso foi “artificial”, o que fazia total sentido.
Mas não para os malditos policiais.
Lambi meu lábio inferior quando fiquei de frente com dois grandalhões.
Um deles, eu sabia o nome, ele tinha ido a minha casa ao domingo às três e meia da tarde levando leite quente e cookies de framboesa. O que me irritou, então eu o expulsei de casa.
Dessa vez, ele trazia dois copos térmicos do Starbucks.
– Annabeth. Prazer reencontrá-la.
Assenti, séria. Lambi o lábio inferior, batendo minha sapatilha contra o piso frio.
– Queríamos conversar com a senhorita, mas...
– Eu acabei de sair do treino, então eu acho que os senhores terão que esperar mais um pouco, sinto muito.
– Que tal um café? – John inclinou-se com um sorriso amigável
– Não, obrigada. – resmunguei, voltando para o vestiário
– Eram eles? – Thalia perguntou, seu cabelo estava molhado, assim como seu suéter azul escuro, sua calça de couro caía perfeitamente em suas pernas
– São. Eles não podem simplesmente me dar uma folga? Eu tenho escola, eu tenho treino e eu tenho... Essa coisa. – grunhi, o nojo voltando a fechar minha garganta
– Tudo bem, eu cuido deles, te esperamos no refeitório, tudo bem?
Demorei o máximo que pude no banho.
Ao sair, nenhuma das meninas estavam lá, apenas a faxineira enxugando nossa bagunça. Ela me ignorou, não a julguei por isso, eu realmente não estava com uma das melhores caras, principalmente sem maquiagem e com o cabelo molhado que ficaria uma merda logo que secasse. Enfiei-me em um suéter rosado, colocando minhas calças beges. Peguei minha mochila, jogando-a sobre o ombro, dando uma olhada para meu rosto: grandes olheiras repousavam abaixo dos meus olhos, minhas bochechas estavam avermelhadas, embora meu rosto estivesse completamente pálido.
E é nessas horas que eu me sinto culpada por não trazer meu kit de maquiagem em minha bolsa.
Continuei me xingando enquanto saia do vestiário, me deparando com a última pessoa que eu queria ver, só pra variar.
Decidi ignorar. Isso sempre funcionava, mas não com ele.
Assim que fechei a porta do vestiário, adentrando no corredor vazio, ali estava ele, vestindo seus típicos jeans e um casaco fino com as mangas dobradas até o cotovelo. Ele olhou por cima do ombro, parando imediatamente de andar e virando-se sobre o próprio eixo.
Virei as costas, começando minha caminhada até o refeitório.
– Ei! Annabeth.
Não, não, não, não. Gritei em minha mente, apressando o passo.
– Annabeth, droga. – ele puxou meu braço contra seu corpo
Me encolhi.
Toques fortes costumavam me atrair, agora, me lembravam da idiotice de sair do pub e seguir para a área menos movimentada da cidade. Embora eu soubesse que Percy me segurava com as melhores das intenções (acho), eu não pude evitar de puxar meu braço com força.
– Você está bem?
– Isso é uma pergunta retórica? – zombei, cruzando os braços contra meu corpo
– Esse suéter é seu? – perguntou, franzindo o cenho
– Bem, Jackson, se eu estou usando é porque, sim, é meu. – grunhi
– Ok, ok. É que... Eu nunca vi você usando algo tão... Composto. – sussurrou, estreitando os olhos
– Olha, eu estou morando quase no extremo norte do planeta, portanto eu estou com frio e posso, sim, usar suéter. Posso?
– Tudo bem, tudo bem. – ele riu, desviando o olhar e segurando a alça de sua mochila, de um jeito relaxado – Bem, acho que o Parker e o McCan já foram falar com você. Eu os vi pelos corredores... – balançou a cabeça
– É, eu estava indo conversar com eles mesmo. Agora, se você me der licença.
Ele lambeu o lábio inferior, mordendo-o logo em seguida, como se estivesse nervoso. Suas bochechas coraram.
– Você fica bonita sem maquiagem.
Engoli em seco. Eu odiava o fato de não saber o que ele estava prestes a falar. Ele ia da água pro gelo em segundos; Percy podia muito bem beijar outra garota na minha frente e depois ir me defender de um agressor, ou abrir a boca e dizer que eu era bonita sem maquiagem.
Ri, sem nenhum pingo de graça, apenas raiva exalando daquele som.
– Obrigada por continuar mentindo para mim.
– Eu não estou. E você sabe disso. – seu dedo acariciou minha bochecha quente, empurrei seu dedo sem gentileza nenhuma
– Pare. – pedi, virando-me levemente
– Hm. – ele se inclinou, como se fosse me puxar novamente, caso eu saísse correndo – Eu queria falar com você qualquer dia desses.
Bufei, virando-me completamente para ele.
– Olha, Percy, se isso é uma tentativa idiota de ficar comigo de novo: sem chance. Eu não vou voltar com você. O fato de você ter me deixado quando eu mais precisei foi o estopim. Chega, ok? Chega. Quer a Rachel? Ok, não me importo. Quer pegar todas as garotas da escola? Ok. – respirei fundo antes de continuar e afundar minha unha em seu peito – Eu não me importo. – vociferei, nossos rostos a centímetros de distância
– Eu me importo. – seu hálito quente voou pelo meu rosto, minha pele por baixo do pano pesado e quentinho se arrepiou, engoli em seco, ao sentir seus dedos procurando os meus com voracidade
– É uma pena. – cruzei meus braços, deixando seus dedos em um vácuo ao lado do meu quadril – Porque eu já não me importo mais. Então, pode ir procurando suas outras vadias. – cuspi antes de virar as costas, afundando minhas botas sobre o piso
Não ouvi o som de seus passos atrás de mim, portanto decidi que ele tinha desistido do fato de me “reconquistar”. O fato de ser quase violentada saiu dos meus pensamentos como névoa.
Agora, eu só queria chorar por ter deixado a minha única fonte de proteção naquele internato ir embora. Segurei minhas lágrimas, piscando os olhos repetidas vezes. Acabei parando no corredor principal para chegar ao refeitório. Apoiei-me em uma das paredes, ao lado do bebedouro, apertando meus dedos na tintura marfim. Solucei algumas vezes, sem deixar cair nenhuma lágrima.
Vamos lá, você consegue. Incentivei-me antes de me recompor e empurrar as portas duplas de ferro que me levariam ao enorme refeitório.
Assim que entrei, pude ver minha prima e os dois policiais em silêncio em uma das mesas centrais, um enorme prato cheio de cookies ao meio deles.
Eles viraram os olhos para mim assim que adentrei, desviei de algumas cadeiras fora do lugar até chegar perto deles.
– Oi. – disse, enfiando um dos cookies em minha boca
– Olá. – os policiais disseram em uníssono, ambos pousaram os olhos em Thalia enquanto ela mordiscava mais um cookie
– Qual é? Eu não vou sair daqui.
Eles bufaram.
– Senhorita Grace, nós...
– Ela vai ficar. – retruquei, sentando-me ao seu lado – O que vocês querem dessa vez?
– Queremos mais detalhes da noite que... – John pigarreou – ocorreu o estupro.
– Não ocorreu nenhum estupro. – a voz de minha prima foi cansada ao pronunciar aquilo – Foi apenas uma ten-ta-ti-va. – soletrou, parecendo irritada
– Sabemos disso, Srta. Grace. – o outro policial, que eu suspeitei ser o tal McCan que Percy dissera, resmungou – Senho-Annabeth, — ele se interrompeu, como se falando meu nome estaria mais intimo de mim – Consegue se lembrar de algo sobre o agressor?
Pigarreei. As lembranças cegaram minha mente, tive que me conter para mais lágrimas não invadirem meus olhos, o nojo recomeçou a cobrir a minha pele e eu tive vontade de fazer a mesma coisa que eu fiz quando fiquei sozinha no banheiro: passar sabonete em todo meu corpo até ele ficar avermelhado.
Entretanto, fechei os olhos e contei até dez em francês.
– Eu já disse tudo que tinha a dizer. Ele tinha olhos pretos... Mas não pareciam... Dele. – sussurrei
– A senhorita tem certeza? Não está esquecendo de nada...?
– Por que ela esqueceria? Ela foi a agredida aqui, se não se lembram.
– Srta. Grace, se continuar com suas insinuações sobre nós, teremos que te obrigar a se retirar de nossa conversa.
Minha prima bufou, cruzando os braços e recostando-se na cadeira de ferro.
– Bem... O que ele usava? – John perguntou, inclinando-se sobre mim.
Mordi o lábio inferior. Eu precisava falar isso pra eles.
Eles iriam me ajudar, não é?
Engoli em seco.
– Jeans... Um casaco preto, eu acho e... Botas. Botas pretas. – confirmei
– E o que ele usava para esconder o rosto?
– Um gorro. – disse, prontamente – Parecia um gorro de esquiar com furos nos olhos.
– Só nos olhos? – McCan se aproximou, interessado
– Nunca tivemos registros assim. – John comentou, comendo o resto de seu cookie e encarando seu parceiro com um sorriso – Acho que fizemos um progresso aqui, Srta... Annabeth.
Assenti novamente, minhas mãos inquietas em meu colo. Como se toda minha afobação de antes tivesse sumido no momento em que eles tocaram nesse assunto.
– Entraremos em contato logo. Qualquer coisa... Qualquer mínima coisa que venha a se lembrar, entre em contato. – McCan deixou um cartão em letras prateadas a minha frente
Detetives da Área Especial Da Polícia De Hampshire
John Parker
Cameron McCan
Seus respectivos números estavam atrás do pequeno cartão.
– Podemos confiar que nos veremos depois, Annabeth? – McCan inclinou-se com seu cavanhaque bem feito
– Claro. – ameacei um sorriso – Qualquer coisinha – apontei para o cartão -, ligar. Ok, entendido.
Ambos assentiram antes de desaparecer pelas minhas costas.
– Sabe... – minha prima murmurou, esfregando as palmas das mãos em seu rosto, frustrada – Eu os odeio. Eu não consigo imaginar meu pai... – soltou um grunhido – Sendo um deles. Quero dizer, eu soube há poucas semanas que meu pai é um agente da CIA e isso me irrita.
– Aliás, como vai o Jason? – perguntei, brincando com as pontas do cartão
Thalia sorriu sem mostrar os dentes, colocando a mochila em seus ombros ao se levantar. Repeti seu movimento, colocando o cartão em meu bolso antes de seguir seus passos.
Caminhamos para fora do refeitório, atravessando o corredor em direção a passarela que nos levaria para nossos dormitórios.
– Eles ainda estão viajando? – perguntei, mudando o peso do meu corpo
– Acho que sim. Eles me ligaram... Jason parece feliz.
– Espero. – concordei, beliscando as pontas dos meus cabelos
– E sua mãe? Tem falado com ela?
– Depois do... Aquilo. – comentei – Ela ainda não sabe, e conversei com Ares, ele achou melhor assim. Ela está bem assustada sobre as coisas da espionagem e tudo mais.
Thalia assentiu, inclinando-se ao meu lado quando chegamos a ala da esquerda.
– Eles te disseram o que ocorreu com Jack?
Franzi os lábios. Era uma pergunta que temos nos fazendo desde que chegamos a Hampshire.
– Nada. – resmunguei – Luke? Quero dizer, você perguntou à ele?
– Te prometi uma strip e tudo que ele disse foi “não sei”. – minha prima disse, parando em um dos corredores e batendo o coturno no chão
– Sério? – soltei uma risadinha – Uma strip.
– Foi o máximo. – resmungou
Ela riu, voltando a andar comigo.
– Annie? – uma mão ficou em frente ao meu rosto
Levantei meus olhos, minha testa franzida ao encarar os olhos azuis elétricos conhecido, a testa – provavelmente franzida – coberta por uma touca preta muito fofa.
– Rob! – abracei seus ombros, puxando para mim
Thalia imitou meu movimento com um sorriso de alívio.
– Você realmente está aqui! Uou! — comemorei
– Sim. – ele sorriu, parecendo constrangido ao enfiar as mãos nos bolsos dianteiros – Eu vim procurando você, mas ninguém sabe dizer onde você está e uau, isso foi sorte. – resmungou para si mesmo
– É, foi! – sorri, encarando-o
– Bem, eu estou indo na secretária agora. Pegar horário porque eu acabei de chegar e tal. Então...
– Nós estamos indo para os dormitórios. Nos vemos amanhã, o que acha? – propus
Ele sorriu, assentindo, feliz.
– Seria ótimo. Posso realmente te encontrar?
– Claro! Podemos nos ver no refeitório, certo? Vou fazer o esforço de acordar cedo. – pisquei
Rob riu, beijando minha testa, fazendo o mesmo com minha prima. Acenou antes de desaparecer pelas nossas costas.
– Ele é gato. – comentei
Thalia suspirou.
– Eu sei. – reclamou – Eu tenho namorado, ok, ok, passou. – bateu em seu próprio rosto antes de voltarmos a rir e seguir nosso próprio caminho
***
Eu penteava meu cabelo em frente ao espelho do banheiro. Minha blusa branca de botões estava aberta, deixando a mostra boa parte do meu sutiã de renda, por cima, meu blazer preto com o escudo da Goode, calcei meu coturnos sobre a calça de couro, jogando minha mochila sobre um ombro.
Antes de abrir a porta, respirei fundo, sussurrando meu mantra de que tudo estaria bem se eu evitasse a única pessoa que me trazia problemas: Percy.
Pelo menos, era isso que eu pensava.
Acabei, dando passos rápidos pelo corredor, tentando não correr, tentando parecer normal aos olhos das veteranas que saiam de seus quartos com olheiras abaixo dos olhos. Forcei a diminuir os passos quando cheguei aos degraus.
Um por um. Respirei fundo, pedindo calma para mim mesma.
O corredor do primeiro e segundo anos estava bem mais calmo.
Calipso saía de seu quarto, porém não parecia se importar comigo e eu adorava aquilo.
Adentrei a passarela; essa, sim, estava lotada. Cada centímetro ocupado por um estudante que queria chegar cedo ao café da manhã.
A minha frente, pude reconhecer Rob com seu caminhar de bad boy, seus ombros eretos e sua mochila caindo pelo ombro. Ele carregava um papel longo que nenhum de nós trazia.
Apressei meu passo até que estivesse do seu lado, e então, cutuquei sua barriga, sorrindo.
– Oi. Bom dia. – disse, a voz rouca e arrastada
Rob sorriu, os lábios repuxados em um sorriso cansado e matinal.
– Annie. – cumprimentou-me com um balançar de cabeça, voltando os olhos para o papel pardo – Você... Hm...
– Salas? – opinei
Ele mordeu o lábio inferior, parecendo envergonhado.
– É, eu...
– Perdido. É, eu sei como é isso. Vem, vamos tomar um bom café da manhã primeiro.
– Isso é tão estranho. – ele grunhiu
Finalmente, chegamos a parte ampla que nos levava ao refeitório, as portas de ferro estavam totalmente abertas, então podíamos ver a pressa dos alunos lá dentro, a fila particularmente grande que se estendia no norte do refeitório pareceu agradável.
Segurei o pulso de Rob, puxando-o até que eu estivesse com uma bandeja cinza com o escudo da Goode impresso em alto relevo. Ele estava atrás de mim enquanto eu colocava minha bandeja em cima do curto corredor de ferro.
– E então, como passou a noite? – perguntei, com um sorriso
– Estranho. – ele comentou, me dando um sorriso, em seguida olhou ao redor – Você é tão popular assim?
Segui seu olhar. Quase ninguém nos olhava, no entanto, os olhares dos jogadores de futebol estavam presos em nós, assim como o de algumas líderes de torcida. Pude ver Seth com um sorriso torto, ele levantou a mão, em um aceno. Sorri de volta.
– Eu posso apresenta-los...
Rob me interrompeu, empurrando-me com o quadril para que avançasse na fila.
– Melhor não. E então, você não respondeu minha pergunta.
Era estranho ver um garoto usando cachecol, ele ficava brilhantemente sexy. O pano azul escuro contornava seu pescoço, o blazer caía perfeitamente em seus ombros e ele não parecia um garotinho nerd.
– Bem, posso dizer que não. Não conheço quase ninguém.
– Esse não é o conceito de popular. – resmungou
Avancei dois passos.
– Tem algum problema com isso?
– Não. Hm, acho que não.
Demos mais três passos e então, uma mulher de cabelos empurrados para uma touca branca e um sorriso grande nos recebeu.
– Bom dia, alunos. O que querem para hoje? Temos panquecas, rabanadas, sabem que não podem comer hambúrgueres. E ah, temos frutas...
Não imaginava quantas vezes ela disse a mesma coisa.
– Eu vou querer panquecas, por favor. – pedi
– Boa escolha!
Ela colocou um prato com três panquecas empilhadas.
– Molho de chocolate, morango ou creme? Manteiga, o que acha?
– Chocolate. – respondi, prontamente
Mais dois passos. Rob optou por rabanadas e dois sanduiches.
– Suco de laranja. – disse automaticamente, não reconheci minha voz
E então, minha bandeja estava com um prato de panquecas, um copo repleto de suco de laranja e uma maçã.
Não vi Thalia nem Nico, pude ver Silena, mas ela estava com as líderes de torcida e eu realmente não queria apresentar Rob à elas.
Portanto, ele me seguiu com passos lentos até estarmos sentados em uma das mesas ao fundo, sem nenhum dos olhares para cima de nós.
– E então, qual seu papel aqui? – ele me perguntou, mordiscando uma de suas rabanadas
– Líder de torcida. – coloquei uma grande fatia de panqueca na boca
– Só?
– Só. – confirmei
Foi estranho o modo como engatamos em uma conversa legal. Parecíamos velhos amigos, comentando sobre casos que não poderiam ser esquecidos e rimos assim que ele me disse o que aconteceu em seu quarto: ele entrou no quarto de um cara errado e ele estava com outro cara. Em uma relação intima para o resumo.
Tive o prazer de levar Rob a sua primeira aula: Matemática II. Atravessei outros corredores para chegar a tempo da minha sala de filosofia.
Mas algo tinha que dar errado.
Se não, não seria eu.
Antes que eu pudesse me dar conta, meu corpo estava sendo jogado contra uma das paredes.
Ofeguei, sentindo minhas costelas doerem e lágrimas invadirem meus olhos. Comecei a sussurrar ”não, não, não” seguidamente e as mãos se afastaram dos meus braços.
Forcei-me a abrir os olhos.
Você está segura, idiota. Está na escola. Meus pensamentos ainda estavam atordoados e minha visão, turva. Engoli o soluço que estava prestes a escapar, limpando as lágrimas antes que elas pudessem descer sobre minhas bochechas.
– O que quer? – deixei as palavras em um tom ríspido
– Eu... – Percy pigarreou, enfiando as mãos nos bolsos – Eu queria falar com você.
– Então, fale. – resmunguei, afagando meus braços – Eu estou atrasada para a aula. E você também. Então, por favor, não me faça perder meu tempo.
– Até parece que não foi eu que te salvei.
– Pode esfregar isso na minha cara. – cuspi, me aproximando dele – Isso não tira o fato de você ser a pessoa mais falsa que eu tive o desprazer de me apaixonar e conhecer.
Ele colocou as duas palmas em minhas bochechas, fazendo-me voltar a estar encostada contra a parede. Bati em seus braços, decidi desistir quando percebi que ele não me soltaria.
– Por favor, — sussurrei – me deixe ir.
– O que você estava fazendo com o novato?
– Desde quanto te importa?
– Desde que ele acha que essa é a propriedade dele.
– Eu não sou um objeto. – voltei a bater em seus braços
Os lábios de Percy ainda continuavam quentes. Do jeito que me lembrava. Suas mãos enterradas em meu rosto enquanto sua língua acariciava meu lábio inferior, reprimi um gemido quando a sensação de segurança me invadiu como uma onda fria. Meus dedos trêmulos agarraram seu pulso, impedindo que saísse de perto de mim.
Mas não foi isso que eu disse.
– Desista. – sussurrei, meus olhos ainda estavam fechados quando seu dedo acariciou o local abaixo do meu olho, onde deveria estar as monstruosa olheiras – Desista de mim.
Ouvi um suspiro; baixo e sôfrego.
– Eu não consigo. – sua testa foi encostada a minha, abri os olhos apenas para ver os seus fechados, seus lábios entreabertos, puxando o ar com força – Eu já tentei muitas vezes. Você não tem ideia de quantas.
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