Nightingale.
45 Don't be afraid.
Notas iniciais
"Open up to me, it's all you gotta do, give me all your heart, swap it mine out with you"
Hampshire me fazia bem, afinal.
Eu consegui esquecer todos os acontecimentos de Califórnia em uma semana. Os treinos com Ally eram mais rigorosos que o normal, os assuntos na escola eram muitos e nem tinha tempo de ir ao bar do Ares.
– Já sei! – Silena deu palminhas
Era um típico domingo frio e abafado em Hampshire. Estávamos comendo pizza às dez da manhã, eu vestia meias quentinhas e uma blusa enorme que vinha até a metade de minhas coxas, meus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo apertado. Revirei os olhos, dando uma mordida na minha pizza de calabresa.
– O quê? – Thalia resmungou
– O tema do baile! Que tal... Show Us Who You Are?
– Longo demais. – resmunguei
– SUWYA.
– Nome de moto japonesa. – Thalia contradisse
– É, eu gostei. – concordei
– Ótimo. SUWYA. S-U-W-Y-A. – Silena soletrou – Por que vocês estão tão cabisbaixas?
– É a terceira vez que você nos pergunta isso. Hoje. – minha prima resmungou
– É, eu sei. Desde que vocês chegaram da Califórnia, vocês perderam o espírito da Califórnia.
– Irônico, não? – joguei a fatia de pizza na caixa, levantando-me e enxugando as mãos no meu pijama – Sabe quando sua mãe vai chegar?
– Hm, não, ela está em Cancún. Não faço ideia.
Thalia me encarou e repuxou as pontas dos lábios.
– E então, você finalmente arranjou o nome do próximo baile. O que vai fazer agora?
– Qual música você escolheu para a apresentação?
– Work Bitch. – murmurei
– Ótima escolha. – Thalia comemorou
– É, eu sei! – dei pulinhos, feliz comigo mesma
– E então, hoje é domingo. – Silena comentou, encarando as unhas
– Sim? – Thalia levantou-se pegando a caixa da pizza consigo
– Tem festa de boas vindas no bar do Ares. Estão afins?
A campainha tocou. Me apressei em ignorá-las e abri a porta, escorando-me na soleira. Nico estava ali, trajando moletons e uma camiseta dos Beatles. Ele sorriu para mim, abraçando minha cintura. Atrás dele, Percy e Rachel estavam juntos.
É, se eu não comentei juntos, eles voltaram – ou o que quer que seja aquilo. Quero dizer, sempre que eu o via no refeitório, ele estava com uma garota nova. Outro dia, eu o vi pegando Calipso na clareira, o que definitivamente foi muito nojento. E ele pegou Katie. Ela é das líderes de torcida, e tudo bem que ninguém sabia tudo o que tinha acontecido na Califórnia, mas ela sabia que houve algo, que nós ficamos juntos e rolou algo maior que uns beijinhos, todos sabiam disso e... Controlei minha respiração e o ignorei, como vinha aprendendo a fazer desde que chegamos ao continente europeu.
– E então, cunhada preferida, o que temos para o café da manhã?
– Bem, aqui não é café da manhã de motel, portanto... – direcionei um olhar por cima do ombro, mas eles não pareceram ligar
– Qual é, Annie, vamos ser felizes.
– Irônico você dizer isso, hein. – forcei um sorriso e virei-me para o casalzinho feliz com as mãos na cintura – Olha aqui, vocês estão, definitivamente, proibidos de entrar na minha casa, então...
– Você está nos expulsando?
Percy sorria de lado.
– Estou realmente ouvindo isso, Annabeth? – perguntou com aquele sotaque inglês que voltava a me irritar
– Sim! – respondi como se fosse óbvio — Você não precisa ficar muito surpreso com isso, querido Percy.
– Bem, eu deveria ficar, querida Annabeth. – ele tirou as mãos da cintura de Rachel que parecia feliz com aquele sorriso ridículo e segurou minha cintura, minha respiração desacelerou – Ainda não superou? – ele sussurrou contra meu ouvido e afagou o topo de minha cabeça – Pois bem, deveria.
– Olha aqui... – levantei o dedo para ele
No entanto, o moreno já havia sumido da minha frente, carregando sua ruiva nojenta. Nico estava com uma careta ao meu lado.
– Posso dizer uma coisa?
Bufei.
– Não. – resmunguei e fechei a porta com força
Andei com passos fundos até a sala, Percy estava sentado no tapete com a caixa de pizza em seu colo, acabando com a pizza de três queijos.
– Por que vocês ainda o deixam entrar aqui?
– Porque ele é meu primo. – Silena respondeu calma
– E essa também é minha casa.
– Ah, Annie, não surte. – Thalia passou o braço pelos meus ombros e sorriu – Sem ofensas.
Eu queria gritar e chorar ao mesmo tempo, mas o fato de minha prima brincar com minha doença me fez rir. Acabei gargalhando e bati em seu braço.
– O que vocês estavam fazendo? – Nico saiu da cozinha com um sutiã no dedo – Algum tipo de festa do pijama?
– Deveriam ter nos chamado.
– É?
Silena havia puxado Rachel, tagarelando coisas sobre o novo baile, suas ideias e coisas que eu realmente não estava interessada.
Coloquei uma perna em cada lado do seu corpo, seus olhos verdes se prolongaram em minhas pernas; Percy ajeitou-se no tapete até conseguir encarar meu rosto elevado.
– Por que deveríamos? Quero dizer, você está tão gay que...
– Gay? Você sabe muito bem que isso é mentira.
– Sei? Bem, não me lembro...
– Essa conversa está indo longe demais, não é? – Nico segurou minha cintura e me jogou pro lado – Vão pro pub do Ares hoje?
– Estamos pensando em ir... – Thalia começou
– Eu vou. – confirmei
– Vai ter uma banda indie lá. Dizem que é legal. – ele comentou
– Nós vamos. – Thalia disse, abraçando sua cintura – E então, o que pretendeu quando trouxe... Essa aí?
Percy olhou por cima do ombro, observando Silena e Rachel conversando baixo.
– Ah, nada, ela dormiu lá em casa. – deu de ombros, mordendo sua pizza
– Isso é falta de respeito! Eu não sou obrigada a aturar essa garota na minha casa! – gritei contra minha prima
– E eu não sou obrigada a ouvir seus gritos a essa hora da manhã. – Percy resmungou, coçando o ouvido
Abri a boca várias vezes, ouvindo os risinhos do casal. Percy sorriu sem mostrar os dentes e voltou a mastigar sua pizza, inclinei-me sobre ele, encostando meus lábios em seu ouvido.
– Se eu não fosse covarde, teria atirado a arma na sua cabeça no momento que eu tive a grande sorte. – levantei-me e abaixei minha camiseta – Pena que eu sou covarde, certo? – resmunguei
– O que... – ele começou a se levantar
– Ah, não precisa se levantar. Eu saio. – reclamei e subi as escadas, raivosa
E então, era isso.
Hampshire me trouxe paz, sim, mas minha vida virou uma roda gigante, literalmente. Onde o garoto que me protegia em Califórnia se transformou nesse cara? Definitivamente, Percy era bipolar. E aquilo me estressava mais que tudo. As imagens de Califórnia eram repletas de névoa. Desde que chegamos, eu não tinha tido mais nenhum surto, o que era uma grande alegria, na verdade... E estranho ao mesmo tempo. Eu ainda queria respostas. O que tinha acontecido entre Cronos e o Jack? Como estaria Luke ficando no mesmo lugar? Será que ele voltou a usar drogas? E como estaria minha mãe?
Bufei, deveria ser a centésima vez que eu me fazia as mesmas perguntas.
Rolei na cama, ficando de bruços e caindo no sono.
***
Meu tio tinha modernizado o pub.
Ele tinha um palco maneiro e longo no centro do pub, ao lado direito, como sempre, estava o enorme balcão com variados tipos de bebidas, o lado esquerdo tinha o jukebox e várias pessoas se espremendo e gritando em direção a banda indie que cantava um dos seus sucessos desconhecidos para mim. As luzes coloridas me atingiam, me cegavam por alguns segundos e então, voltavam a desaparecer.
Mordi o lábio inferior, eu tinha um copo vermelho em minhas mãos repleto de cerveja. Meu corpo estava reclinado sobre uma das paredes escuras e sujas, cobertas por uma tinta escura que me irritava. Bufei, dando grandes goles no conteúdo amarelado.
Nico apareceu ao meu lado, o braço ao redor dos meus ombros.
– Bem vinda de volta! – pegou minha bebida, terminando-a em goles enormes
– Qual é? – empurrei-o, cruzando os braços
– Por que está tão de mau humor? – forcei um sorriso falso, ele fez uma careta – Ok, entendi. Hm, Thals me pediu para te chamar para você conhecer um cara. – meu cunhado continuou me puxando, empurrando algumas pessoas que insistiam em nos abafar
– Que cara? – gritei quando o som era insuportável para meus ouvidos
– O cantor da banda antes dessa. – ele se aproximou do meu ouvido, deixando o copo em cima de uma mesa qualquer – Ele não é legal. Só avisando.
Ri alto.
– Ah, então a Thalia está dando em cima dele.
Nico bufou, apertando-me contra seu braço.
– Não saí de um californiano barato para um inglês metido. – resmungou – Não mesmo.
– Quem sabe. – dei de ombros
Nico segurou minha cintura, empurrando-me quando o espaço de duas pessoas lado a lado já era impossível. Chegamos a alguns metros antes do palco onde podia ver claramente um cara com uma guitarra jogada de lado enquanto cantava uma música desconhecida para mim e as pessoas se mexiam – suadas e fedorentas.
Ele puxou uma cadeira alta para eu sentar, o fiz, sem delongas. Encarando de imediato dois olhos azuis.
Seu cabelo negro caído sobre a testa era totalmente liso, seus olhos de um azul muito claro – a mesma cor de minha prima -, as bochechas eram tomadas por uma cor escarlate e os lábios curvados em um sorriso sedutor.
– Oh, meu Deus! – exclamei – Você é um deus ou o quê?
– Menos, Annabeth, menos. – percebi a presença de Percy ao lado dele logo que ele falou
Revirei os olhos.
– Rob. – ele estendeu a mão para mim com um sorriso
– Annie. – me apresentei
– Annie? – Percy franziu o cenho ao lado dele
Rob sorriu, abaixando e despejando um beijo em meus dedos.
– Ai, meu Deus! – exclamei, sorrindo bobamente com seu ato – Você é um verdadeiro gentleman!
– Hã, bem, posso dizer que sim. – ele riu – Fui criado nas maneiras rígidas da sociedade inglesa.
– E o que está fazendo aqui? Quero dizer, o pub não é o melhor lugar para aspirantes a príncipe William. Sem ofensas.
Percy e Nico riram.
– Ah, não, sem problemas. Eu não sei se você viu, mas eu estava cantando na banda de antes...
– Ela viu, pode apostar que sim. – Thalia trouxe dois copos vermelhos, empurrando um para Rob e sorrindo para mim – Vocês já se conheceram, certo?
– Ah, sim! Ela é tão linda quanto você disse, Thals.
– Thals? – Nico exclamou
– É, eu sei. – Thalia mordeu o lábio inferior, sorrindo para ele – Então, Rob, o que você ia dizer quando eu saí? Ah, ele não te matou nem nada do tipo, certo?
O moreno riu, balançando a cabeça enquanto bebia vários goles de sua cerveja.
– Ah, não. De nenhuma maneira. Certo, bem, eu voltei para Hampshire há três dias. Eu sou de Princeton.
– Odeio aquele lugar. – Percy contrabateu
– Você poderia me levar lá. – joguei o cabelo para o lado – Sabe, poderíamos nos conhecer melhor. – pisquei, mordendo o lábio inferior
– Isso foi nojento. – Percy resmungou, puxando o copo da mão dele e engolindo todo conteúdo
Rob acabou rindo, mexendo os ombros de um jeito bem fofo.
– Te levo lá quando quiser, Anne, certo?
– Annie. – corrigiu-o, rindo – Meu Deus, que coisa fofa, eu quero te morder muito!
Ele continuou rindo. Thalia se virou, assentindo, como se aprovasse aquilo.
– Certo, certo. – ele levantou as mãos
– Vou sair daqui. – Percy empurrou o copo vermelho, pulando do banco
– Relaxa, ele só está, bem... – Nico sentou-se no lugar dele meio confuso
– Ciumento. – Rob comentou, as sobrancelhas negras juntas, ele deu de ombros, colocando os cabelos para trás com os dedos – Então, continuando pela milésima vez: — riu baixinho – eu vou estudar na Goode. No internato, o que é um saco. – resmungou
– Não é um saco! – Thalia se adiantou
– Eu estudo lá! – apressei-me a dizer, inclinando-me sobre a mesa, Rob desviou o olhar de Thalia para mim, sorrindo abertamente – Bem, vai ser legal. – comentei, dando de ombros
– Thals? – Nico inclinou-se em direção a sua namorada – Que tal pegarmos mais cerveja?
– Ah, Nico... – reclamou até conectar seus olhares novamente – Ok, certo. – seus olhos azuis elétricos tão parecidos com o de Rob me atingiram – Volto logo, não fuja.
Meneei a cabeça em concordância, bebericando a cerveja que ela tinha deixado pela metade.
– E então, o que veio fazer por aqui?
– Eu? Hm... Eu fui transferido, na verdade. O orfanato em Princeton estava lotado, então como meus tios moram aqui, eles conseguiram minha guarda e blábláblá.
Mordi o lábio inferior.
– Ah, você é adotado? – tentei não parecer preconceituosa
Ele apenas riu.
– É, eu sei, é estranho. Por isso o modo rígido, sabe? – assenti em concordância – Mas bem aqui estou eu.
– Então... – ele bateu os dedos contra a madeira da mesa – Você é muito bonita, sabia?
– Hm, obrigada!
– E aquele cara que estava com ciúmes...
– Meu ex. – expliquei, simples
– Ah, sim. Legal. Ele estava bem estressado quando cheguei.
– Normal. – dei de ombros – Estou acostumada com isso.
– Vocês fazem tipo aquele casal que terminam e continuam amigos?
– Mais ou menos isso. – ri, novamente
– Ei, cara! – um garoto loiro de touca empurrou o ombro de Rob com um sorriso – A carona chegou.
– Certo. Ei, essa é a Annie, Jay.
– Oi, gata. – ele sorriu, lambendo os lábios, sorri de volta – Mas é sério, precisamos ir.
– Tudo bem. Foi um prazer te conhecer, Annie. Nos vemos... – Jay o puxou pelo braço, arrastando-o — Na segunda, certo? – ele começou a gritar em meio as pessoas — Posso esperar...
Apenas ri, acenando.
Estava sozinha, novamente.
Bebi o resto da minha bebida. Pulando do banco alto de madeira, a banda que tocava antes havia sido substituída por um DJ com suas músicas eletrônicas. Respirei fundo, voltando a grande tarefa de empurrar pessoas.
Eles dançavam de um modo grudento, com cerveja caindo por todo lugar, tentei me esquivar o máximo que pude, mas não era tão boa nisso.
Depois do que pareceu uma maratona atravessando aqueles corpos, consegui pular para o balcão, inclinando-me em busca de ar e calma.
Paz. Onde ela estava?
– Eu preciso de um cigarro. – pedi para o primeiro barman que passou por mim
– Olha, garota, nós não vendemos...
Inclinei-me o suficiente sobre o balcão para pegá-lo pelo colarinho, aproximando-o de mim.
– Eu quero um cigarro agora, e é melhor arranjar um para mim, discretamente antes que eu arranque... – a ameaça ficou no ar no momento que Ares puxou o garoto de dreads para longe de mim
– Wow, wow... Calminha aí, sobrinha.
– Vai! – apontei para o outro lado
O garoto tropeçou nos próprios pés enquanto desaparecia.
Eu também tinha percebido uma coisa depois da volta de Califórnia: eu tinha triplicado minha agressividade. Eu era boa em ameaças, tinha o orgulho de admitir isso, no entanto, quando você demonstra um pouco de força – o suficiente para pegar um arma e acertar alguns tiros – e deixa isso transparecer, as pessoas tem medo. Provavelmente, esse garoto ficaria pensando algo do tipo.
Meu tio inclinou-se, tocando meu queixo com batidinhas masculinas.
– O que acabou de acontecer aqui?
– Ele não queria me dar uma bebida. – afastei meu queixo do meu tio, revirando os olhos – Ridículo, não é?
– Sua mãe me disse que você estava namorando com... Percy. – cuspiu o nome
– Não estou mais, satisfeito? Ótimo. – resmunguei
– O que é? Por que está tão estressadinha?
– Desde quando você gosta de DJ’s e de pessoas... Nojentas assim? – fiz uma careta
– Desde que isso trouxe dinheiro. Qual é, Annie, o que tá acontecendo?
– Eu já disse que nada! – gritei contra ele
Ares não se encolheu, como Thalia provavelmente faria, apenas continuou me olhando com aqueles olhos escuros e cansados, as bolsas roxas parecendo ser algo que nasceu com ele e não que adquiriu com o tempo. Seu cabelo cortado em estilo militar era familiar e seu típico sorriso esnobe não estava impregnado em seu rosto.
– Eu vou perguntar pela última vez: o que está acontecendo?
– Está acontecendo que eu estou surtando! – gritei
Ares riu, pegando da mão de um dos barmans um drink.
– Sem álcool? – o barman confirmou com a cabeça – Toma, vai te acalmar.
– Sem álcool? – esnobei
– É. Olha, eu sei que você está estressada, sei que deve ser chato sua mãe ter praticamente te abandonado aqui para ter férias em Cancun, mas olha, sobrinha preferida, é a vida. E eu estou aqui e...
– Não. Você não está aqui. – peguei a bebida congelante, dando goles de leve – Porque eu estou indo embora.
– Aonde você vai?
– Ficar empoleirada lá no fundo, esperando calmamente minha priminha decidir ir embora.
Não esperei por sua resposta. Decidi seguir a linha do balcão, enquanto os olhos do meu tio estavam cravados em minhas costas coberta pela jaqueta jeans. Continuei caminhando com calma, deixando a bebida em cima do balcão entre dois garotos. Fui parada por uma mão em meu ombro, virei-me em direção ao balcão onde o mesmo garoto com dreads loiros me encarava.
– Qual é? – resmunguei
– O cigarro. – empurrou-me um maço até estar entre meus dedos
– Obrigada.
Continuei minha jornada até que eu estivesse na parte menos movimentada do pub, aos fundos.
Creio que era a melhor parte. Ou a pior.
Deixei o maço de cigarro descansar em meu bolso dianteiro do vestido negro. Engoli em seco.
Do outro lado, encostado contra a parede escura e suja que eu tanto odiava, Percy segurava a cintura de uma garota desconhecida que sugava a pele de seu pescoço. Seus olhos estavam cravados em mim e isso só me irritou mais ainda. Mordi o lábio inferior com força. Que droga ele estava fazendo? Ele deveria estar namorando com Rachel que também estava na festa, por que ele simplesmente pegava uma garota? E olhando pra mim?
Ele sorriu, as mãos dele subindo para o corpo dela, seus olhos desviando dos meus para os daquela garota.
Eu estava cansada.
Ao meu lado, alguns garotos lerdos demais queimavam fumo de maconha, revirei os olhos, puxando um dos meus cigarros. Ergui-o em frente a eles, rapidamente, um deles acendeu o isqueiro rente ao meu cigarro.
Mordi o lábio inferior, dando um sorriso sexy antes de esgueirar-me até a parede, tragando.
Encarei a parede de volta, o corpo de Percy estava preso na parede enquanto a garota mordia seu pescoço.
Bufei, desviando meus olhos dos dele e empurrando as pessoas até estar abrindo a pesada porta de madeira.
Um jipe acabou de sair assim que me empoleirei na calçada cinza.
Cedo demais.
Ao meu lado esquerdo, a cidade incrível e vintage de Hampshire crescia a cada segundo, brilhante com suas lâmpadas piscando, chamando-me. Do lado direito, a cidade escura e silenciosa preenchia o restante do retrato.
Era óbvio que direção escolhi.
Eu precisava ir para casa, mas não tinha ideia de como chegar lá. Eu tinha que pensar em uma coreografia para o primeiro jogo da estadual, mas nem tinha começado. Eu tinha que estudar para as provas e não estava nem aí.
A única cena que preenchia minha mente era Percy.
O maldito Percy.
Minha garganta estava seca. Eu andei, talvez por meia hora talvez por uma hora. Não fazia noção do tempo, apenas andava, sempre em linha reta.
Passei por alguns pubs, corri quando estava escuro demais e acabei em uma avenida nem um pouco movimentada. Eu esperava encontrar a qualquer momento o tão conhecido Starbucks com suas cadeiras de madeira e fachada esverdeada, comprar um café ou chá qualquer, deitar entre minhas cobertas e fim.
Nada estava certo, entretanto.
Joguei o cigarro no chão, pisando com meu coturno, raivosa. A brisa fria fez minha jaqueta jeans balançar em torno do meu vestido. Resmunguei palavrões, cansada de andar, cansada de correr.
Olhei por cima do ombro. Nada me seguida. Toquei meu bolso, meu celular continuava ali. Vibrando.
Abaixei meus olhos por segundos, vendo o nome Prima Maravilhosa brilhar na tela de retina. Revirei os olhos e fingi aproveitar o tremor que o celular tinha no canto do meu quadril.
Talvez eu não estivesse tão longe do pub e pudesse voltar para lá.
Não seja tão fraca, ralhei comigo mesma.
Você pode enfrentar o velho rabugento, ficar trancafiada na sede da FBI, mas não pode andar sozinha nas ruas da pacata Hampshire?
A cada passo que eu dava, eu repetia mais insultos para mim mesma.
Reprimi um grito do fundo da minha garganta, deixando algumas lágrimas cair sobre minha bochecha. Encarei os dois lados da rua. Meu celular ainda vibrava. Girei em meu próprio eixo me dando conta de que eu estava perdida. Definitivamente.
A minha frente, um homem com o rosto coberto de preto, apenas com os olhos abertos, olhos negros. Engoli em seco, dando um passo para trás.
Pelos seus olhos estreitos, eu poderia chutar que ele estaria sorrindo.
– Gata, você está perdida? – sua voz parecia estar artificialmente rouca
– Eu... Hm, talvez eu esteja. – resmunguei, cruzando os braços, enfiei meus dedos nos bolsos
O celular ainda vibrava. Atendi-o.
– Que bom. – ele se aproximou, seus olhos cravados nos meus
Seus dedos cobertos por uma luva de couro tocou meu rosto, tentei me afastar, mas senti algo duro contra meu quadril. Desci o olhar.
Uma arma estava contra minha pele. Mordi o lábio inferior, subindo meus olhos para seu rosto.
– Você é muito linda, sabia?
– Eu sei e eu realmente não estou afim de transar com você, ok?
Ele riu, nasalmente.
– Eu ouvi dizer que você é uma vadia.
– O quê...?
Ele segurou minhas bochechas com seus dedos, empurrando-me até a parede rosada de uma casa. Senti minha respiração falhar em segundos. O medo consumindo meu corpo a cada segundo que se passava, seu toque gelado me dava vontade de gritar, eu estava torcendo para que meu celular pudesse captar qualquer coisa, principalmente a voz dele.
– Caladinha.
Seus dedos deslizaram de minhas bochechas, tocando meu pescoço, apertando-os em volta da minha pele. Arfei, ouvi o som do seu cinto desafivelando, ele me deu espaço para abaixar o rosto, embora seu corpo estivesse grudado ao meu.
Gritei, buscando por ajuda.
Recebi um tapa no rosto, em troca.
Não pareceu doer tanto quanto a realidade que caiu a minha frente como um baque. Eu ia ser estuprada. Seria esse o fim da picada? Seria esse o motivo de descobrir a morte do meu pai, perder uma pessoa bastante especial que tinha me ajudado embora fosse filho do maldito Jack? Seria esse meu karma?
– Se der mais um grito desse, sua filha da puta, eu vou meter tão forte nessa sua vagina suja que ninguém nunca mais vai te foder.
– Não... – sussurrei, lágrimas desesperadas caindo sobre minha bochecha – Por favor, não, eu te dou o dinheiro que for...
– Dinheiro nenhum paga o fato de te provar, gostosa. – ele sussurrou, sua voz abafada pelo fato da malha contra seu rosto
Meu coração pulou quando senti seu membro ereto contra minha coxa. Gritei mais uma vez. Comecei a dar socos seguidos em seu peito, isso me causou mais um tapa, mais um grito, mais lágrimas.
Ele abaixou minha calcinha com força.
– Não, não...
– Solte-a agora! – uma voz feminina ecoou ao nosso lado
O homem bufou a minha frente, enfiando dois dedos em mim. Comecei a chorar desesperada, sem saber o que fazer com as minhas mãos já que ele não se afastava um milímetro. Tentei dar socos contra seu peito, mas não valiam de nada já que eram socos fracos. A voz feminina ao nosso lado continuou gritando ordens, eu não conseguia ver nada pela minha visão embaçada pelas minhas lágrimas.
– Vadia suja. Você é a filha da puta mais gostosa que eu já comi. Vou te foder tanto. – o tecido grosso roçou contra minha orelha
Chorei mais ainda.
Por que ninguém vinha me ajudar? Essa voz era alucinação?
Seus dedos continuaram dentro de mim, subindo e descendo, como se fosse me excitar de alguma maneira – o que, de fato, não aconteceu.
Suas mãos subiram pelo meu corpo, apertando meus seios.
– Eu te imploro... – sussurrei, tentando visualizar seu rosto – Te imploro. – murmurei
– Quero ouvir você implorar meu pau em você, gostosa.
– Não... – sussurrei, voltando a socar seu peito
Arranhei seu pescoço com força.
– Filha da puta. – ele não me bateu, o que eu esperei que ele fizesse
Em vez disso, senti meus seios sendo folgadas com brutalidade e quando fiz o favor de olhar para baixo, percebi pela visão turva meu vestido rasgado e meus seios livres.
Não.
Seu membro tocou minha intimidade descoberta.
Eu gritei.
Eu estava a ponto de desistir. Era assim, então.
Eu tinha certeza que depois de que isso acontecesse, depois que eu parasse de chorar e gritar por minha vida, eu não seria nada. Seria internado e atestada como louca, porque eu nunca mais falaria.
Eu precisava de alguém que me salvasse. Agora.
Assim que ele apertou meus seios, percebi que estava sem minha jaqueta. Estava sem meu celular e provavelmente, Thalia não tinha ouvido nada.
– Solte-a. – uma voz familiar soou ao meu lado
Eu suspirei em meio ao meu choro infantil.
– Afaste-se antes que eu te mate. – meu agressor sussurrou
– Solte-a agora, antes que eu te mate.
– Por favor... – sussurrei, levantando meus olhos – Me deixe ir.
– Agora. – Percy gritou, dessa vez
O agressor não movimentou um milímetro. Percy avançou. Ele tirou a arma da barra da calça e atirou contra ela, atirou metros à direita. Que tipo de agressor era ele?
Percy avançou novamente, socando seu rosto, me puxando para trás de seu corpo. Ele deixou a jaqueta cair sobre seus ombros, tocando o chão. Peguei-a, cobrindo meu corpo nu.
– Olha, cara, fica na boa. – Percy levantou os braços acima da cabeça, afastando-se dele – Só quero deixa-la bem. A polícia tá vindo. – disse, pausadamente – Não queremos briga. Se você for embora agora, tudo vai ficar bem.
– Polícia? – seu tom se alastrou, mas não parecia desesperado, estreitei meus olhos
Meu corpo ainda tremia, eu não conseguia raciocinar do jeito que queria e não conseguia afastar seus olhos perturbadoramente negros dos meus. Pareciam tão artificiais.
– É, é melhor você ir embora. Sério. – Percy continuou, aproximando-se vagarosamente dele
– Não vou embora. – afirmou, cético
As sirenes começaram a ser ouvidas. Percy sorriu ao perceber que ele tinha falhado, então avançou, dando uma joelhada contra seu estômago, bateu em seu antebraço com um soco. Abaixou-se elegantemente quando ele tentou acertar-lhe um soco, a arma caiu com um choque metálico contra o chão. Ofeguei. Percy a pegou na mão, apontando contra ele.
– Mais um passo e você morre.
Olhei por cima do ombro, as sirenes estavam mais altas e eu tentava controlar meu choro, os tremores que passavam pelo meu corpo.
Percy fez a mesma coisa que eu, encarou por cima do ombro, seus olhos verdes cravados no meu.
– Percy... – sussurrei
Já era tarde.
Ele corria sobre suas botas negras, cruzando a esquina. Percy jogou a arma no chão, caminhando até mim.
– Você está bem?
Mordi o lábio inferior. Eu não queria chorar, no entanto, assim que seus dedos tocaram em minha bochecha, de modo acolhedor, não rude, como ele tinha feito. Deixei as lágrimas caírem. Abrindo meus braços e abraçando seu corpo.
– Ai, meu Deus... Senhor, me desculpe não poder te ajudar. – a voz feminina que antes gritava ordens soou atrás de nós.
– Ela está assustada... A senhora é...?
– Margareth. – sua voz era apressada enquanto voltava a falar – Eu trouxe esta toalha úmida e estou preparando cookies para meus filhos, mas vocês podem entrar e comer, se quiserem. Meu Deus, me perdoe, por favor, garota, eu estava com tanto medo do que ele poderia fazer comigo e meus bebês, eles tem apenas seis anos, me perdoe por não ter te ajudado, eu...
Percy riu rente ao meu ouvido. Suas mãos apertaram contra minhas costas, subindo e descendo em um carinho acolhedor.
– Não se preocupe, minha senhora. Ela está assustada, mas agora que a polícia chegou, tudo vai ficar bem.
Não falei. Não respondi. Eu só apreciava o toque dele em minhas costas enquanto mais vozes apressadas e grosseiras se reuniam ao meu redor.
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