Nightingale.
7 Death for me.
Notas iniciais
"This love isn't finished yet"
Sexta feira e as portas estavam abertas! Era como se estivéssemos em uma escola normal nos Estados Unidos e todo mundo pudesse pegar um táxi, seus motoristas particulares e irem para suas casas. Bem, eu só saia por aquela saída para sentir um pouco de liberdade, sentar em um daqueles bancos de pedras e esperar pacientemente Thalia e Silena, em seguida, minha tia Dite nos levar para nossa casa fora da escola.
Dessa vez, Thalia se atrasou porque esqueceu alguma coisa que não podia, Nico brincou dizendo que iria largá-la para ficar comigo, claro que ele recebeu um soco dela.
Nico me abraçou pela cintura enquanto ríamos e ele me contava sobre alguns lances que aconteceram na fogueira, o moreno segurou minha cintura, me jogando de um lado para o outro na grama enquanto ríamos sobre mais uma de suas piadas retardadas. Paramos quando vimos uma conversível prata, um moreno com óculos de aviadores, jaqueta, jeans surrados... Totalmente de tirar o fôlego, dei um sorriso.
Bem, até ver Percy correndo e gritando com o cara que reconheci como Tritão.
– O que houve? — sussurrei para Nico
– Deixa, isso é entre eles.
Percy empurrou seu peito e Tritão soltou um sorrisinho esnobe, me viu e acenou lentamente com um sorriso largo, sorri de volta.
– Eu posso ir falar com ele, certo?
Ahn? Eu tô pedindo permissão para Nico? Virei tão amiga dele assim?
– Hm, é melhor não, Annie.
– Ugh, qual é, só um beijinho, um abracinho e pronto. Ok?
Nico revirou os olhos enquanto eu o puxava para o lugar onde Percy e Tritão gritavam entre si.
– Olá, meninos.
O moreno de olhos verdes, que era o único que gritava, virou-se para mim com chamas nos olhos. Literalmente.
– O que quer aqui, agora? Dá o fora! — gritou pausadamente
– Uau. Relaxa, cara. — dei batidas camaradas em seu peito — Como vai, querido Tritão? — dei um beijinho em sua bochecha e voltei a agarrar o braço de Nico
– Lady, eu vim te buscar para tomarmos um chá ou um café, o que acha?
– Hm... — intercalei o olhar entre Nico, Thalia que vinha atrás deles correndo e balançando os braços acima da cabeça, e claro, Percy que queria me matar — Por que não, huh?
– Annie... — Nico apertou a mão em minha cintura
– Eu volto cedo, prometo! Diga a tia Dite que saí com um amigo.
– Annabeth, na boa, qual é o seu problema?
Já disse o quanto o sotaque de Percy junto com sua irritação me irrita mais ainda? Bem, eu estou declarando isso agora.
– Qual seu problema, gentleman? Estou saindo com seu amiguinho aqui, beleza? Me larga. — tentei puxar meu braço de sua mão, mas ele não soltou
– Sério, quanto mais eu tento entender, mais atitudes idiotas você toma!
– Como se algum dia em sua vida você perdesse seu tempo, tentando me entender, não é?
– Tritão, o que... — claro que a ruiva nojenta tinha que aparecer
– Olha, a ruiva nojenta chegou para quebrar suas frustrações porque... O que você disse antes, querido Percy? Dá o fora, não é? Estou dando! — cuspi em sua cara e pulei dentro do conversível vendo a expressão irritada de Percy, a frustração de Thalia por ter chegado depois que o circo apagou e o meio sorriso de Nico.
Sem olhar para trás, soltei meus cabelos presos em um rabo de cavalo alto deixando o vento frio de Hampshire lavar todas as malditas coisas que tinham acontecido naquela semana, levantei os braços e soltei um suspiro alto. Tritão me olhou pelo canto do olho, aumentando o som e uma música daquela bandinha feminina londrina começar a cantar.
– O que você é do Percy? É a segunda vez que eu os vejo brigar feio.
– Não percebeu, lady? Somos irmãos por parte de pai.
Ergui uma das sobrancelhas, confusa e me calei. Apenas para me deixar levar para qualquer lugar que Tritão quisesse me levar.
Vesti a camiseta de antes, bocejando. Eu estava cansada, claro que Tritão tinha uma grande participação nisso, mas agora nós estávamos descendo, apressados porque o moreno tinha uma reunião de família com o pai e alguém mais que não perguntei por que ele resmungou o nome. Não conversamos muito na passagem, porque eu tinha tombado para o lado morrendo de sono. Quando chegamos ao meu prédio, Tritão me balançou de leve, com um sorriso pequeno.
– Lady, chegamos.
– Ah, sim... Obrigado pelo dia, cara. — me inclinei sobre ele, dando um selinho em seus lábios
– Podemos nos ver depois, o que acha?
Fiz uma careta.
– Acho que não, gentleman. — ajeitei uma gola com um sorriso falso e pulei para fora do carro — Nos vemos por aí.
Tritão acenou e saiu da minha visão enquanto eu continuava a bocejar.
Cumprimentei o porteiro que sorriu enquanto eu continuava a encostar-me à parede do elevador, quase dormindo.
O elevador se abriu no meu andar. O corredor estava vazio o que era de se esperar, enfiei minha mão na bolsa da escola que nem estava pesando tanto e abri a porta com um pontapé.
Na sala, só estava minha tia deitada com os pés para cima, passava os canais preguiçosamente.
– Boa tarde, tia. — murmurei, pulando nos degraus da escada, louca para subir o mais rápido que eu pudesse e deitar na cama
– As meninas estão com uma galera lá no mini-cinema.
– Galera? E desde quando temos um mini-cinema?
Minha tia sorriu e apontou para o final do corredor no andar de cima.
– Vai dar uma olhada.
Acho que me animei o suficiente para passar no meu quarto e trocar a roupa pesada por um short de cintura alta e top escrito LUCKY. Eu já me sentia bem animada enquanto pulava com um copo cheio de suco de uva, feliz da vida por as meninas terem feito um mini-cinema.
Abri a porta com força, tão animada que nem me liguei que poderia ter tirado atenção de todos, que felizmente, eu não fiz. Eu... Meio que só fiz todo mundo olhar pra minha cara.
E não tinha nenhuma "galera". Eu me senti fora do aquário quando entrei na sala com meu copo cheio de suco de uva, e meu sorriso enorme que começou a se desfazer quando vi quem estava lá. Mexi em meu cabelo, desconfortável e dei uma tosse feia.
– Hm, desculpa, eu achei...
Eu não achei, eu não sabia quem seria a "galera". Sei lá, quando alguém falava galera em Califórnia, eu me animava rapidamente, era Luke, seus amigos idiotas e alguns gatos da escola, sempre com Thalia e umas garotas que eu não fazia questão de conhecer. E só, mas mesmo não conhecendo quase ninguém, eles me faziam felizes de um modo estranho.
Agora, bem, eu estava odiando aquele lugar. Muito.
Primeiro, a ruiva nojenta estava ali! A ruiva nojenta! Como elas podiam ser tão baixas? A ruiva usava uma vestido longo e bem, nela ficava legal porque ela bem alta, quase dois dedos abaixo de Percy e eu era uma anã, acho que se um dia eu tentasse usar algo longo demais, eu ia parecer uma idiota. Mas, não, ela estava lá, linda e perfeita com aquele cabelo liso e brilhoso descendo pelos ombros que estavam encostados no peito de seu namorado, o maldito namorado moreno de olhos verdes idiota, que acariciava seus fios ruivos mesmo sabendo que eu estava bem ali em pé! Feito uma idiota retardada. Ok, pra terminar ele tava de camisas de botões, e esses botões estavam tipo abertos... Tipo, mega sexy! Posso chorar?
Certo, Thalia e Nico brigavam para escolher qual era o filme que iria ser colocado enquanto Beckendorf e Silena davam aqueles risinhos ridículos de apaixonados.
Depois que eu falei, todos estavam olhando para mim.
– Tudo bem, Annie, pode entrar, íamos ver Se Beber Não Case. — minha prima disse com um sorriso em seus olhos elétricos
Linda, como sempre, em uma saia longa preta e uma blusa branca curta.
– Quê? Quem concordou com isso? Íamos assistir Ataque Zumbi.
– Isso é tão idiota, Nicolas. — Thalia resmungou tirando o DVD da mão do garoto — Vem logo, Annie, antes que eu mate esse garoto.
– Hm, eu, bem, acho que não. Só vim ver como você estava mesmo e... Eu estou cansada! Eu sei que vocês vão chorar, mas é a vida, meus amores.
– Oi, Annabeth. Por que não fica? — a ruiva nojenta perguntou, antes que eu falasse, o namorado de Silena falou e eu agradeci por poder ignorá-la e não começar uma briga sem motivo
– Vai ser legal, Annie. — Beckendorf chamou com um sorriso
– Querido, eu preciso de um bom sono. — mandei um beijo no ar e sorri
– Podemos conversar depois, Annie? — Si perguntou
– Não, Si. — mandei um sorriso e acenei para os outros, tentando evitar olhar para Percy — Vejo vocês na hora da comida. Vocês me chamam, não é?
– Não, porque vamos estar mortos de tanto chorar. — Nico ironizou
– Idiota. Ok, estou indo, tchau. — fechei a porta e voltei a bebericar meu suco de uva
Eles queriam o quê? Que eu segurasse vela? Não, por favor.
Então, só andei com força até o meu quarto vendo minha tia dando um sorrisinho irônico, fiquei tentada a levantar meu dedo médio, mas apenas lhe mandei língua e continuei meu trajeto até estar deitada na minha cama confortável e dormir. Dormir muito.
O fato era que quando você está na Inglaterra, especificamente em Hampshire, o sol nunca parecia sair totalmente, sabe? O sol deixava uma claridade quase imperceptível, o suficiente para sabermos que era dia, no entanto, hoje o sol parecia mais forte, queimava minhas pernas desnudas e resmunguei alguma coisa enquanto me revirava nos lençóis que traziam o meu cheiro.
Bufei, vendo que depois do sol morno e o frio que adentrava meu quarto, eu não iria dormir mais. Sentei na cama bocejando, cruzando as pernas.
Eu estava entediada. Maldita hora que Tritão tinha que ter um almoço em família. Tantos dias e logo nesse maldito final de semana? E logo depois que eu tinha enjoado da cara dele? Quero dizer, eu estava adorando ser amiga do Percy, mesmo que ele me tratasse como uma bola de papel amassada. Aquilo me irritava, mesmo assim... Soltei um grunhido enraivado e levantei em um pulo quando a porta do meu quarto se abriu.
Era ele. Percy. Abria os botões da calça rapidamente, franzi as sobrancelhas confusa, recuando.
– Droga, aqui não...
– Aqui. — apontei para o banheiro do meu quarto onde ele saiu com passos rápidos e velozes
Oh oh, Rachel, a primeira lei de quando tem um namorado lindo e gostoso sendo que tem uma loira muito gostosa atrás dele é: nunca o deixe sozinho, mesmo que confie tanto nele.
Dei sorrisinhos de felicidade e tranquei a porta, colocando a chave no meu bolso de trás, inocentemente saltitei até minha cama, ficando de bruços e fingindo mandar mensagens intermináveis até o som da tranca da porta do banheiro soar.
– Obrigada. — disse atrás de mim
Olhei por cima do ombro e mandei um sorriso.
– Sempre que quiser.
O moreno pareceu estranhar minha quietude por algum tempo, deixando de lado logo em seguida. Seus passos nus sobre o piso eram audíveis até tentar abrir a porta. Uma, duas... Cinco vezes, até bufar frustrado, socando a porta.
– Annabeth, chega! Abra a droga da porta, agora!
– Chega de quê? Ela estava aberta há poucos minutos atrás. – disse, apoiando-me meus cotovelos na cama — Não fui eu! Por que tudo a culpa tem que ser minha? — resmunguei, sentando na beira da cama
Percy socou a porta mais vezes, sua raiva parecia aumentar a cada segundo, e com mais força batia na porta, evitei dar sorrisinhos, já que se o fizesse, eu não iria conseguir parar de rir e ficaria super na cara que eu estava com aquela linda chave. Enfiei uma das mãos no bolso e mexi no contorno da chave prateada, franzi os lábios e fechei os olhos.
– Como se eu quisesse ficar com você, não é?
– Dite! Thals! Alguém?
– Grite mais alto. — pedi
Ele me olhou como se eu fosse a garota mais idiota do mundo e bufou. Andou até mim, jogando-se ao meu lado.
– Eu vou usar o telefone. — tirou o Iphone preto do bolso e começou a digitar furiosamente em alguma coisa
Balancei meus pés longes do chão e o encarei de perfil.
– E ai, como foi o filme?
– Estava na metade. — respondeu, travando a tela e enfiando no bolso novamente — Que droga, você tem certeza que não tem a chave?
– Absoluta. — a palavra saiu firmemente da minha boca, como se fosse a maior verdade que eu já havia dito na minha vida
– Certo.
Ficamos calados por um bom tempo, o moreno só continuava digitando no seu telefone enquanto eu o encarava de perfil.
Decidi não ficar calada. Não estava a fim de ficar calada. Não depois de hoje, não depois de estarmos trancados no meu quarto. Respirei fundo, puxando meus joelhos até que meu queixo estivesse encostado no topo, Percy pareceu perceber meu movimento rápido e precipitado, olhando-me com curiosidade.
– Por que você briga com seu irmão?
– Não te importa. — seu tronco foi jogado contra meu colchão, percebi que seus braços estavam atrás da nuca e de onde eu estava, conseguia ver sua barriga subindo e descendo, quase imperceptível
– Sabe, meu pai costumava dizer que uma briga entre irmãos é como uma briga entre dois universos diferentes. Quando isso acontece, tudo desanda. — ri sem graça e o encarei, confusa
– Você não sabe como é nossa vida. Fica calada.
– É sério. — apoiei minha mão em sua barriga, vendo seus olhos estreitos verdes me encararem por alguns minutos — Irmãos é a espada que defende a família.
– Palavras bonitas não é do seu feitio, Annabeth.
– Você não sabe qual é o meu feitio, Percy.
– Oh, tenha certeza, Annabeth, eu sei. — disse, fechando os olhos, tediosamente enquanto me inclinava ainda mais sobre o seu corpo
– Sabe mesmo, é? — aproximei do seu rosto, beijando seu queixo
– Sei. — segurou minha nuca e puxou para que nossos rostos ficassem na mesma altura — E eu cansei de saber qual é seu feitio.
– Meu feitio é dizer palavras bonitas.- enrolei minhas pernas em sua cintura e apoiei minhas mãos em seu peito, brincando com os botões de sua camisa
– Não, não é.
– Sabe, seu irmão está em uma reunião de família, você também deveria estar lá.
– Eu já disse que é melhor você ficar calada?
– Annie, onde está a chave do quarto?– era minha tia
– Não está comigo! — gritei de volta e relaxei os ombros — Por que a culpa é sempre minha?
– Você faz por onde.
– Até porque a culpa é sempre minha.
– Tentem procurar por aí, enquanto eu arranjo um chaveiro. Vamos procurar a chave reserva por aqui.
– Enquanto isso... — inclinei-me, aproximando nossos rostos
Seus olhos eram ainda mais bonitos de perto. Verdes. Uma imensidão verde, ondas revoltas na costa da Califórnia, um dia chuvoso à noite em que as águas pareciam fazer seu próprio redemoinho, eu até poderia ver as pequenas elevações verdes mexendo-se em seus olhos. Ele me levava para meu lar.
Meu lar.
Quanto tempo eu já estava distante das minhas ondas altas, suaves e... Confusas.
Minhas mãos estavam espalmadas pelo seu peito dentro da blusa quase transparente, seu rosto vermelho, deveria estar igual ao meu e sua mão, antes no meu quadril, descia para meus glúteos.
Oh, não. Por favor, não.
Percy pareceu perceber que algo bem curvilíneo tomava lugar no meu bolso.
– O que é isso? — murmurou enfiando os dedos no meu bolso
A chave apareceu entre meu rosto e o seu, entre seus dedos.
Ele deu um sorriso, como se achasse graça daquilo tudo. Empurrou-me pro lado, deu um beijo em minha bochecha, ajeitou a blusa e enfiou a chave na fechadura.
Assim que a porta se abriu, eu poderia até entender que a situação era cômica.
Eu deitada apoiada pelos cotovelos tão vermelha quanto um pimentão, meus cabelos bagunçados de um lado só. Ao lado de fora da porta: Rachel, minhas primas e Nico tentavam ver alguma coisa enquanto Beckendorf estava de joelhos como se fosse tentar abrir a porta com uma daquelas presilhas.
– Achamos. — Percy disse por fim — E devo dizer, Annabeth, você é uma excelente garota quando se trata de procurar coisas.
Suspirei e fechei os olhos, tirando meus cotovelos e podendo então, ser jogada contra o colchão.
– Obrigada, Sr. Jackson. — murmurei a contra gosto, tentando parecer normal aos olhos de qualquer um ali fora
Todos se dispersaram, menos Thalia, o que era de se esperar. Ouvi a porta ser fechada com força, e então o colchão ao meu lado estava sendo afundado.
– Pode voltar para sua festinha com seus novos amiguinhos e tudo mais. — resmunguei
– Que tal um Starbucks? — ela perguntou e chutou meu tornozelo — Hein?
– Não, Thals. Pode ir, sério. — abri os olhos e voltei a apoiar-me nos cotovelos — Não estou estressada nem nada.
– Nem um cigarro?
Balancei a cabeça, pulando da cama.
– Acho que vou sair com tia Dite... Talvez, passamos no pub do tio Ares.
– Vamos, eu vou com você.
– Dá um tempo, ok, Thalia? Eu sei que você quer estar lá com eles. — apontei atrás das minhas costas e virei as mesmas para ela, abrindo meu closet com raiva — Sei que queria estar com Nico e seu priminho lindo com... Argh. Eu estou cansada! Eu quero Cali de vola, eu quero aquela maldita vida de volta.
– Annie... — ela segurou meu pulso quando peguei meu sobretudo bege — Eu quero estar com minha prima preferida. Sabe o quanto eu te amo, e não trocaria ninguém por você. Por que parece tão insegura ultimamente?
Respirei fundo e joguei todo meu cabelo para trás com os dedos.
– Essas pessoas me deixam confusa. — encostei-me na parede mais próxima e suspirei — Eu... Bem, eu acho que só me sinto bem com o Tritão, ele é o único que não me julga, nem me olha diferente... Parece que vocês já se conhecem há anos e eu só estou fora da história, porque sei lá.
Thalia puxou meu ombro contra o dela, apertando meu corpo com força. Ficamos alguns minutos, encostadas na parede enquanto meus braços caíam sem vida ao lado do meu corpo e os dela apertavam meus ombros com uma força desconhecida.
Eu realmente queria sair dali. Daquele abraço e pela primeira vez nessa merda de colégio novo e tudo mais, eu pensei em falar com uma das pessoas que eu nunca pensei que realmente queria falar. Que eu fosse implorar pra falar.
– Eu sei que você me ama e toda essa coisa gay. — balancei a mão no ar indiferente e funguei, como se estivesse ameaçando a chorar — Eu vou ao Starbucks, volto e sei lá, pegamos um carro e vamos ao pub, certo? Vai ser ótimo! — soquei o ar e sorri — Annie e Thals como nos velhos tempos, só que bem mais leve.
Minha prima riu e socou meu braço.
– Eu vou com você pro Starbucks, só preciso pegar meu sobretudo.
– Eca, Thals, você vai com esse short ridículo? — Sim, eu estava jogando baixo e não, não me orgulho disso
Ela deu de ombros, como se não se importasse, embora eu soubesse que era verdade.
– Não me importo, sweethea...– ela riu sozinha — Viu? Eu nem mesmo consigo imitar o sotaque deles, sabe, eu babo quando o Nico força mais o sotaque.
– Declarações à parte, eu vou pegar um café e ligo pra você, certo?
– Eu desço em dez minutos, só vou pegar dinheiro e arranjar uma desculpa.
Pisquei o olho enquanto ela saía correndo pelo meu closet, suspirei aliviada. Realmente aliviada.
Era muito cedo. Três horas da tarde, provavelmente meu tio Ares estaria bebendo, vendo algum jogo gravado na televisão e com certeza, Thalia ia demorar mais que o esperado. Tirei meu short com toda a pressa do mundo, vesti uma meia calça preta e saí pulando do closet, tentando vestir o short o mais depressa que conseguisse. Assim que saí para o corredor, Thalia estava gritando e Silena ria muito.
– Você está louca! — ela gritava com à ruiva — Sua... Argh! É melhor você controlar sua namoradinha, querido Percy. — minha prima rosnou
Tentei avaliar a situação... E tentei não rir, seu camisetão — que mais parecia um vestido — com a carinha de um gato impressa estava laranja onde deveria estar branco, como o resto da camisa, suas meias que vinham até o joelho estavam dobradas e molhadas. Rachel que estava à frente dela ria, assim como todo mundo que observava à situação e senti raiva que ela tivesse se divertindo. Percy não disse nada, apenas assentiu e beijou Rachel como se a estivesse agradecendo por aquilo.
– Pode tomar banho! — gritei com a cabeça para fora, todos me encararam surpresos — Não vou fugir. — avisei, tranquei a porta atrás de mim antes de ouvir alguma resposta
Peguei às chaves de casa, abri a porta do closet novamente e o fechei, coloquei um coturno florido, amaldiçoando minha altura enquanto me esticava para alcançar as minhas caixas que comprei em Nova York. Recusando-me a pegar o banquinho, agradeci quando sentir as caixas de metal deslizarem sobre meus dedos trêmulos, elas caíram no meu colo e abri, trêmula, desesperada e chorosa para que estivesse onde eu esperava que estivesse.
Debaixo de um caderno velho com folhas que cheiravam à... Coisa velha, encontrei meu maço de cigarros. Eu quase poderia respirar aliviada porque não havia trazido o que arranjara na Goode. Varri meus olhos pelo quarto, puxei uma bolsa da mesma cor do meu sobretudo e enfiei um dinheiro que estava na outra caixa menor, pulando para guardar a caixa e sair dali.
– Celular... Ok. — enfiei-o na minha bolsa — Aquilo. Ok. — mordi o lábio enquanto saía apressada do quarto, trancando a porta
– Para onde vai?
Fechei os olhos com força, trazendo aquele velho mantra de “respira que vai ficar tudo bem”.
Não conseguia entender se aquela voz me irritava ou me relaxava de modo que eu poderia voltar pro meu quarto e ser enterrada lá, o que é mais depressivo do que qualquer coisa.
– Não te interessa. — dei um sorriso, batendo em seu peito — Boa tarde, gentleman.
– Acho que sua tia vai querer saber onde você vai.
– Disse certo, cara. — sorri no início da escada — Minha tia.
Lhe mandei uma piscadela e desci as escadas correndo.
– Tia! — gritei — Vou sair com a Thalia, tô esperando ela lá embaixo... — ela saia da cozinha com um avental florido, fiz uma careta tendo pena dos mortais que ficariam na casa — Hm, então, de lá vamos pro pub do tio Ares, beijo. — beijei sua bochecha, correndo para porta
– Vou ligar pr... — fechei a porta
Fiquei em dúvidas em descontar minha raiva nas escadas ou ficar calmamente esperando o elevador, preferi a segunda opção porque eu sou sedentária e tal.
Lá embaixo, estava frio. E eu agradeci a minha parte consciente por ter colocado a meia calça, o vento açoitava meus cabelos enquanto eu pulava para fora do condomínio, atravessando a rua distraída, chegando então ao Starbucks.
Amado Starbucks.
Lembrava-me um pedacinho do meu lar.
– Vocês estão fazendo bebida gelada ainda?
O adolescente com bastante acne na cara deu um sorriso, como se eu fosse louca.
– Não, senhorita, mas...
– Então, um café com leite e aroma de baunilha, por favor.
Ele assentiu e em poucos minutos, trazia minha bebida. Paguei com alguns euros amassados no meu bolso de trás, dei um sorriso amarelo para o cara e andei até a área de fora. Era uma área pequena com um jardim bem feito e escondido, uma grama verde bem aparada e mesas e cadeiras de ferro alternando entre o branco e o verde.
Sentei na mesa mais afastada da entrada, tirei o maço de cigarro e dei um sorriso ao ver o isqueiro junto com o maço de cigarro. Eles pareciam viver agarrados. Tinha um adesivo azul com imagens abstratas e era lindo.
Fechei os olhos.
– Isso fazia os ursos se afastarem quando eu estava acampando.
Eu ri enquanto meu pai erguia seu isqueiro inseparável. Era pequeno, menor que os isqueiros normais e preto com luas em todos os possíveis formatos. Estávamos no fundo de sua casa, o jardim era bem feito e uma daquelas mesas de mármore com cadeiras que pareciam ser feitas à mão nos esperavam.
Uma bandeja branca com um bule onde uma fumaça leve fazia redemoinhos. Era um chá.
Um chá que eu não conhecia, como sempre.
Eu pulei os potinhos de flores que meu pai havia comprado, pegando minha xícara de porcelana e despejando o chá enquanto sentava como se fosse a rainha da Inglaterra.
– Senhor, por favor, me traga biscoitos com gotas de chocolate.
– Sim, senhorita. — ele desapareceu pela porta de correr de vidro e em poucos segundos, estava inclinado sobre minha frente com um prato cheio de cookies — Aqui está.
Fiz uma cara de esnobe e peguei um dos cookies.
– É. — dei de ombros — Está relativamente bom.
Meu pai riu, sentando-se à minha frente, enquanto se servia de mais chá e mordia um dos cookies.
– E era assim que eu me defendia dos ursos.
– Dando cookies deliciosos?
Ele riu, calorosamente e bebericou seu chá.
– Definitivamente, não, querida. Mas com isqueiros. Eu não sei se é verdade, mas meu professor de acampamento falava que isso os espantava. — ele brincou mais uma vez com o isqueiro
Tirou algo do bolso, girou entre os dedos e jogou para mim.
– Sempre que estiver com medo... — ele me viu fazer o mesmo movimento que ele com os dedos e o isqueiro entre os mesmos — Acenda o isqueiro. Ele vai te afastar dos ursos.
– E posso fazer um chá! — completei, risonha
Ele assentiu, pensando na ideia e jogou mais um cookie na boca, falando com a mesma cheia:
– E fazer cookies deliciosos! Vocês podem conversar sobre o clima.
Eu enfiei o isqueiro no bolso da minha jaqueta verde-oliva de exército, dando um pulo alegre enquanto ele reclamava sobre suas sementes de flores.
O cigarro já estava entre meus lábios e eu abafava o ar para não apagar o fogo que o isqueiro fazia, fechei os olhos, sentindo o vento frio no meu rosto e a sensação do cigarro no meu corpo.
Soprei a fumaça em círculos que aumentavam de tamanho e sorri.
Não me dava uma calma total, mas me proporcionava uma pequena parte dela.
Peguei meu telefone e disquei as chamadas rápidas, com o mesmo entre minha orelha e meu ombro, bebericando o café e balançando o café entre meus dedos na outra mão. Meus olhos verificavam freneticamente a entrada.
– Oi, eu estou ocupada, e...
– Mãe? — minha voz era baixa, tão baixa que eu estava com medo de que aquela voz fosse apenas na minha cabeça.
– Filha... Oh, meu Deus, filha, que saudades! Você não atendia minhas chamadas e não me retornava.
Senti as lágrimas encherem meus olhos.
– Eu estava com saudades, mãe. — sussurrei — Me tira daqui, por favor. Eu não quero mais ficar aqui... É tudo tão longe da minha realidade. Eu estou com saudades.
– Eu sei, filha. Mas falta pouco... Você está no último ano e depois...
– Vou pra Yale. — funguei e limpei minhas bochechas com as costas das mãos do cigarro
– Você está chorando? Sabe que não precisa ir pra Yale se não quiser. Onde está sua tia, querida?
– Ela está em casa, eu estou com Thalia, mas ela está longe. — resumi — Eu queria falar com você porque... Bem, você sempre sabe a coisa certa a se fazer.
Traguei mais uma vez enquanto esperava sua resposta.
– O que quer saber, meu amor?
Teve um ruído no outro lado da linha, então tomei coragem e desabafei.
– Sei lá, mãe. Eu... Só sinto falta. Sinto falta do meu pai, de você, do Luke... Sabe que quando eu estava aí, eu... Tinha a praia, tinha o lugar do meu pai, tinha... Você, de qualquer maneira. Eu não tenho nada aqui, mãe!
– Você tem seus tios e suas primas. Pode parecer pouco, mas é o que você tem por enquanto. Não se poder ter tudo que quer na hora que quer.
– Não era a resposta que queria ouvir.
– Então, me diga a pergunta correta.
– Eu estou com medo. — disse por fim — Tenho medo do que pode acontecer comigo aqui, as pessoas são diferentes... Eu sinto que não é o meu lugar.
– Arranje um garoto. Isso, não um garoto por uma noite. Um garoto pra namorar, um garoto pra assistir um filme nos finais de semanas, um garoto que fique com você como namorado.
Eu ri, chorosa.
– Mãe, é você mesmo?
– Sim! Eu nem acredito que estou falando isso mesmo. — sua risada foi misturada com a minha
– Se for assim, o garoto que deveria estar comigo, está com outra.
– E quem é esse garoto?
– Um tal de Percy, a Thalia disse que já nos conhecemos, mas não consigo lembrar...
– Ah. — ela soltou um sorrisinho, poderia apostar que ela estava balançando a cabeça — Por enquanto, não há nada que eu possa fazer.
– Eu continuo com medo. — admiti, rindo
– Como seu pai dizia mesmo?
– Eu tenho que acender o fogo para afastar o urso.
– Só precisa afastar o urso, querida.
– Você não ajudou muito, mãe. Mas eu continuo com saudades. Te amo.
– Te amo mais, querida. Tenha uma boa tarde?
– Certa, como sempre.
A ligação foi interrompida por mim.
Thalia vinha com um camisetão parecido com o de antes, branco mas agora com uma calça de couro e uma bota. Vinha ajeitando sua bolsa grande de couro no ombro enquanto eu apagava o cigarro com o pé, escondia o isqueiro no bolso dianteiro do meu short, bebendo meu café distraidamente como se estivesse fazendo isso todo o tempo.
– Desculpe o atraso. — sentou-se a minha frente com um ruído irritante — Dite inventou de fazer um bolo, então me obrigou a ver a quantidade de açúcar. Mas então, vamos?
– Só precisamos saber onde tem um táxi, não é?
– Blah, isso é o de menos. — resmungou, puxando meu braço
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