Nightingale.
17 Come Over Here.
Notas iniciais
"Let me kiss you"
Pulei mais uma vez, fazendo um mortal perfeito e caindo em cima do colchão.
Senti o suor descendo pela minha nuca, embaixo das minhas axilas e em qualquer poro descoberto do meu corpo. Eu ofegava, e pequenos e curtos pingos de suor desciam ao redor do meu corpo, afirmando o quanto eu estava cansada, suada e extremamente exausta, mas Ally não achava suficiente termos treinado por três horas desde que as aulas acabaram.
Claro que não, porque não era ela que pulava de um trampolim, de andar quinze minutos na ponta dos pés com uma sapatilha meia pata nada confortável, e simular cinquenta flexões na barra desde que cheguei.
Claro, nada mal.
Até porque Ally só comia, gritava nos incentivando e aplaudindo falando o quanto estávamos lindas, claro, porque não era ela.
Assim que bati meus pés, futuramente cheio de calos, no colchão azul, despenquei, ainda ofegante.
– Está bem, Annie? – Ally tocou no topo da minha cabeça, evitando tocar nos fios molhados pelo suor que desciam para meu rosto
– Dez minutos de descanso. – gritei – Depois, vamos para a coreografia.
– Não, mas vocês tem que treinar mais acrobacias! Vocês vão...
– Ally, dá um tempo. – Thalia reclamou, tirando as sapatilhas com os pés e jogando água no rosto – Você deveria deixar essa sua TPM de lado e ir procurar alguém, como o Hedge, que tal?
Todas rimos e aceitei a água que Katie me deu antes de passar para o vestiário, tão suada quanto todas nós.
– Estou tão cansada. – reclamei, enfiando as mãos nos cabelos e desarrumando todo
– É, eu sei... Por onde esteve no final de semana? – desviei o olhar de minha prima e comecei a beber a água
– Podemos esquecer isso? É o que eu estou tentando fazer.
– Você não pode esquecer que tem... Isso.
– Tá vendo? – virei-me para ela, acusadoramente – Você já está tratando isso como se fosse uma aberração e eu sei que é!
– Não é. Muitas pessoas tem amnésia aqui, Annie, é algo completamente normal depois do que você sofreu.
– Cala a boca, tá? Não fala disso na escola, as pessoas não precisam me olhar com pena e saber que eu sofro de algum distúrbio louco.
– Ninguém vai te olhar com pena, Chase, volta aqui!
– Dez minutos, meninas!
– Annabeth Chase! Me escute, você não vai me deixar falando sozinha. – Thalia agarrou o meu braço, obrigando-me a encarar seus olhos – Você pode estar chateada com tudo que tá acontecendo, com essa amnésia e tudo mais. Não sabia que a minha prima preferida era medrosa e não sabia encarar seus medos.
– Esse é o problema, eu nem sei que medo eu ‘tô enfrentando. – dei um sorriso falso – Porque, se você não lembra, eu tenho amnésia histérica ou emocional.
– Annabeth. – ela revirou os olhos e apertou ainda mais sua mão em meu braço – Você pode evitar isso por quanto tempo quiser, mas saiba que há uma coisa bem pior e que todo mundo sabe... E tenho certeza que você não esqueceu.
Arqueei as sobrancelhas, confusa.
Atrás de Thalia, as meninas saiam do vestiário com toalhas ao redor do pescoço e garrafas de água, os cabelos arrumados novamente e conversando normalmente. Observei Silena deixar de falar com Clarisse e seguir em nossa direção.
– Como assim? – refiz meu rabo de cavalo escutando os gritos de Hedge atrás de nós
– Todo mundo sabe que você estava com Percy.
– Ahn... Quem disse à eles...?
– Vocês deveriam ser mais discretos na hora de chegar. – Silena chegou ao nosso lado, olhando a algum ponto atrás de nós – Sabe, retiro o que eu disse sobre você e Percy, vocês são um casal extremamente lindo. Embora, receio dizer, que ele esteja namorando e você devesse realmente parar de ter esses encontros fofos e juntos.
– Não tivemos nenhum encontro fofo e junto. Nós... Ele só me tirou daquele lugar. E pronto. E eu já decidi que nós não combinamos e podemos ser amigos, precisa combinar para isso também?
– Eu já disse que retiro o que disse. – Silena levantou as mãos, em modo de rendição, fechando os olhos de modo indiferente
– Minhas palavras ainda estão de pé. Ele não te merece. – Thalia finalizou
– Não era o contrário?
– Tanto faz. Uma hora ou outra, você vai se lembrar de tudo mesmo. – deu de ombros, com raiva
– Ei, o que você quer dizer sobre eu lembrar de tudo?
Thalia percebeu a merda que tinha feito e sorriu, pulando para longe de mim.
– Além de amnésia, tem problemas de audição? Vamos, meninas! Parem de ser molengas. – e então, foi começar a aquecer-se do outro lado dos colchões
Ally voltou também, dessa vez, trazendo um som alto e potente consigo.
– O que ela quis dizer com aquilo? – aproximei-me de Silena, confusa
– Sei lá. – deu de ombros – Já sabe como será a próxima coreografia?
– Tenho algumas ideias. Falei com Ally e ‘tô pensando em Chasing The Sun, o que acha?
– Break? Hm, vai ser legal.
E voltou a conversar com Clarisse quando ela passou por nós.
Segui até Ally, ajudando-a a colocar o som em um bom lugar de onde estávamos.
– Vou precisar de três meninos, A.
– Por quê?
– Porque sim? – revirei os olhos e enfiei o pen-drive esperando pela primeira música que seria a escolhida – Vou chama-los.
– Duvido que Hedge libere.
– Não se preocupe, eu me viro com ele.
Sorri e saltitei até a beira de divisão da nossa base de treinamento para onde os meninos corriam com suas regatinhas e pingavam de suor.
– Hey, Hedge! – gritei, abanando os braços
O treinador veio do outro lado, esquivando-se de alguns jogadores e parando ao meu lado. Dei meu melhor sorriso e joguei o rabo de cavalo para o lado.
– Hm, o que você acha de me liberar três jogadores?
– Não escolhe o Nico! – Thalia gritou atrás de mim
– Quais, querida?
Encarei os jogadores a minha frente, poucos estavam parando e vindo em direção do treinador. Nico, Percy, Beckendorf e Seth.
Encarei os quatro conversando, o que parecia ser algo bem sério. Mesmo que eu quisesse, Hedge não liberaria Percy de jeito e maneira nenhuma, então sobraria Nico, Beckendorf e Seth.
Não seria tão ruim assim.
– Eles. – apontei, excluindo Percy
– Treinador. – Beckendorf chamou – Estávamos pensando em fazer algumas estimativas de jogo, o senhor poderia nos acompanhar?
Nico piscou para mim, assim que chegou perto, embora nenhum dos outros tenha se dado conta da minha presença.
– Creio que não, Beckendorf. Essa senhorita aqui está precisando de a ajuda de vocês.
Dei meu melhor sorriso, abraçando o treinador de lado com uma carinha de anjo.
– Eu? – Seth perguntou, surpreso
– Claro, babaca, vamos logo porque eu estou louca para cair na cama. – resmunguei, puxando a mão de Nico
– Ele não vai poder ir. – Percy informou, me encarando com um sorriso de troll
– Por que não? – bati o pé, parecendo uma criancinha mimada
– A faixa de defesa está treinando. Sinto muito, mas Seth não poderá participar.
– Droga.
Seth deu de ombros e beijou o topo da minha cabeça, dando um sorriso safado logo em seguida e saindo, conversando com Hedge que me mandou um sorriso.
– Pode arranjar outro garoto? Por favor, Jackson?
Percy deu de ombros e começou a seguir em minha frente. Nico e Beckendorf o acompanharam, me deixando sozinha e pasma com aquela atitude. Respirei fundo e voltei a segui-los.
– Certo, meninas! – gritei, batendo palmas para chamar a atenção delas
Thalia resmungava enquanto Nico começava a fazer cócegas nela, ou tentava beijá-la de qualquer maneira.
– Ei! Atenção. Beckendorf lá atrás com Silena, isso, sim. Nico e Thalia, sem gracinhas, fundo também. Percy no meio, um pouco na frente, aí, ótimo. Meninas, vamos fazer aqueles passos que treinamos antes do jogo. Um, dois... – e a música começou a tocar – Certo, baixo, em cima, rebola. Sexy! Isso, garotas! Continuem fazendo isso.
Caminhei até o fundo, ficando em frente das meninas.
– Vai ser um rodízio. – expliquei e ouvi os resmungos das meninas – Vai ser fácil. Meninos, peguem na cintura delas, assim.
Eu estava a ponto de assinar minha carta de perda de juízo. Não que algum dia eu o tivesse.
Segurei as mãos grandes de Percy com firmeza e as coloquei na minha cintura. Se já achavam que ele estava traindo a namorada, bem, agora iam pensar alguma merda bem maior.
– Agora, vocês vão dar um impulso. – olhei por cima do ombro de Percy que parecia concentrado com sua tarefa – Será que vocês conseguem coloca-la em seus ombros, assim em pé?
Os três se entreolharam e riram.
– Vamos ver o que podemos fazer, lady. – Beckendorf disse
No mesmo segundo, ele segurou a cintura de Silena, fazendo-a gritar e jogou-a poucos centímetros para cima, fazendo-a se equilibrar em suas mãos, como uma marionete. Em seguida, colocou os pés dela em seus ombros.
Revirei os olhos.
– Não, muito arriscado. O que achou, Si?
– É legal, mas os dançarinos precisariam de muito treino. Eles já estão acostumados. – deu de ombros, sentada nos ombros dele, agora
– É. – Thalia concordou – Poderíamos fazer do jeito tradicional e daí quando fizéssemos o mortal para sair, a menina em seguida, pulava e quando chegassem nossa vez, novamente, os três se juntavam e jogavam você para cima, fazendo aquela pirâmide.
– É, ficaria muito bom! – a ruiva concordou
– Não, acho que eu deveria ficar no centro das atenções de novo. Clarisse seria ótima no meu lugar.
– Nah, vamos treiná-la para que seja sua substituta, mas você precisa ficar no topo. – Silena falou e quando acabamos a pequena discussão, as meninas tinham encerrado
Concordei e sorri para os meninos.
– Certo, obrigada por fazerem esse pequeno teste. Meninas, dispensadas.
Ninguém deu um grito de felicidade, apenas saíram exaustas para o vestiário, resmungando e xingando.
– Não fizemos nada. – Nico resmungou, batendo em meu braço
– Ei, não me bata, idiota.
– Você é culpada.
– Infantil!
– Nico. – Percy o repreendeu – Estão dispensados também. Vamos. – e seguiu para o outro lado do campo sem dar um “oi” ou “o final de semana foi bom”, embora a última opção seria muito falsa
Eu e as meninas voltamos para o vestiário, a maioria das outras estavam se trocando e correndo para fora dali e era o que eu faria se eu não tivesse uma consulta idiota com meu psiquiatra.
Por sorte, nenhuma das minhas primas me obrigaram a sair mais rápido do banheiro ou algo do tipo, e quando saí, apenas Thalia estava colocando seu tênis. Pus um vestido preto florido e pegando meu casaco pesado.
– Quer companhia até sua consulta?
– Não, obrigada. Você pode esquecer... O final de semana? Até eu quero fazer isso.
– Não sei o que aconteceu lá, mas você tem que me prometer que vai me contar tudo depois, Annie.
– Não precisa querer me proteger toda hora, Thals. Eu consigo me virar.
– Eu sei. – deu um sorriso e socou meu ombro – Vou sair com Nico, talvez eu chegue tarde demais porque me perdi em algum lugar sombrio.
Ri e comemorei.
– Ah, meu Deus! Finalmente, minha velha prima está de volta.
– Vou dar uma desenferrujada por aí. Beijo. – e saiu enquanto eu a seguia
Fora, no corredor, Percy e Nico conversavam. O casalzinho feliz saiu sem nem se darem conta que estavam deixando o possível ataque de fofocas juntos, mais uma vez.
– Quer companhia para a consulta? – ele coçou a nuca e franziu a testa – Você sabe, as salas são...
– Tudo bem. – concordei
Começamos a andar pelo corredor, contornando as esquinas.
– Sabe, eu estava pensando... Que todo mundo sabe que chegamos juntos...
– Você deveria esquecer isso, sabe.
Inconscientemente, pensei na imagem dele fumando no carro. Com as mãos apoiadas no volante e falando enquanto o cigarro se mexia entre seus lábios.
– Certo, vai ser meio difícil esquecer aquela imagem do banheiro... – dei uma risadinha
Percy riu também e passou o braço pelos meus ombros, confortavelmente me guiando.
– Bem, eu sei que é difícil esquecer o quão eu sou gostoso.
– Não, na verdade, eu ia te falar do quão você é... Pequenininho.
O moreno me olhou indignado e afastou-se, fingindo um ataque de raiva.
– Ei, é feio mentir, sabia. – resmungou
– Eu sei, por isso que eu não ia falar algo que você queria ouvir. – afirmei
– Ah, é? – ele se aproximou quando chegamos ao nosso corredor – Sabe, se estivéssemos em um dia de sexta sozinhos na escola e eu estivesse com muita raiva, eu até te provaria que não sou nenhum pouco...
– Pequenininho? Tsc, tsc, você é, admita.
Continuei rindo, vendo-o parado ao meu lado.
– Ei, qual é, vai chorar, gentleman? – cutuquei sua barriga
O vi expressar um meio sorriso nervoso e ajeitar a mochila que caia em suas costas.
Encarei o mesmo ponto que ele e percebi Rachel bem perto de nós.
– Precisamos conversar. – ele disse, primeiro
– É, eu sei. Você precisa me dizer muitas coisas, Perseu.
– É... Eu tenho aula de música agora...
– E quanto tempo mais vai continuar fugindo de mim?
– Não estou...
– Não está? Ah, então você está fazendo a mesma coisa que queria fazer com... – respirou fundo e me encarou, um claro pedido para que eu saísse
– Ahn... Acho que estou indo.
Eu até podia provocar Rachel, falando um “nos vemos depois”, mas fiz algo pior, porque, bem, eu posso estar “mudando”, porém, cara! Eu sou Annabeth Chase. Inclinei-me e beijei sua bochecha, virando-me com um sorriso para Rachel.
– Nos vemos depois. – dei dois toques em sua cintura antes de continuar em direção da sala de Thomas
Atrás de mim, apenas ouvia murmúrios sem sentido algum.
***
– Acho que temos boas notícias.
Puxei uma ponta dupla, feliz por arrancar aquela coisa infeliz do meu cabelo.
Mal ergui o olhar quando respondi.
– Sério? Não, espera, o que é boas notícias para você?
– Quer ter a sessão na cantina?
Neguei com a cabeça, procurando outra ponta dupla.
– Annabeth, preste atenção.
– Hm, estou ouvindo.
– O que quer saber sobre o que aconteceu no passado?
– Nada? – disse, irônica
– Annie...
– Quanto tempo eu perdi? – perguntei, fingindo indiferença
– Ahn?
– Quanto tempo eu perdi... Você sabe, quanto tempo eu não tenho na memória...
– Explique-me de novo seus surtos.
Suspirei e me sentei no divã.
– O primeiro, eu não conseguia identificar bem. Só sentia minha pele arder, como se tivesse queimando, depois como se tivesse no mar e uma mansão pegando fogo.
Forcei minhas sobrancelhas.
– Por que a morte do meu pai nunca foi investigada? – virei-me, confusa – Minha mãe nunca me disse como meu pai morreu.
– Você sabe de quem era aquela casa?
– Não, mas eu não sei como meu pai morreu. Não foi por causas naturais, ele era novo e nunca teve nenhum problema de saúde muito grave.
– Talvez, tenha sido algum acidente... Quando eu perguntei sobre seu pai, você teve esse primeiro surto, talvez tenha algo a ver.
– Não... Fogo e sem investigação? – levantei e dei a volta no divã – Impossível.
– Certo, sente-se novamente, Annie.
Respirei fundo e segui sua ordem, apoiando meus cotovelos no joelho e voltando a pensar.
– O segundo. – pediu com a voz calma e controlada
– Eu chorava... Eu sentia como se fosse alguma coisa parada e observando. Thalia... Meus tios estavam lá... E o pai de Poseidon e Percy também estava lá.
– Ele te conhecia antes?
– Ele disse que não. – Thomas anotou alguma coisa em sua prancheta e voltou-se para mim
– Você não teve mais nenhum, certo...
– Na verdade, eu ia ter. – confessei – Neste final de semana, quando eu estava com Percy. Eu me concentrei, como você pediu. É bem difícil, na verdade, mas eu consegui.
– Ótimo trabalho, garota. Você lembra de alguma coisa com seu pai, qualquer coisa?
– Claro. – revirei os olhos
– Muita coisa?
– Pode me citar o quê?
Assenti e encarei o chão.
– Lembro de quando era pequena e brincávamos em sua casa... Nossa casa, era enorme em Cali. Hm... Lembro de poucas coisas quando tinha uns dez anos, mas lembro de bastante coisas quando meus pais se separaram e eu tive que morar com minha mãe.
– Essa casa... Tente focar nela. Ela é parecida com seu primeiro surto.
– As duas são uma mansão. – falei, forçando minha mente para alguma coisa – Mas, não parecem.
– Uma pintura... A cor da casa.
– Ah, idiota, se você não lembra, a casa está em chamas, não sei qual é a cor, né. – resmunguei, voltando a deitar
– Ah, idiota... – Thomas revirou os olhos – Ah, foda-se. Continue falando, sobre sua infância com seu pai.
– Hm, então, a casa do meu pai era grande e fim. Lembro dele falando conselhos para mim quando tinha uns treze anos ou catorze, depois tudo tá travado. Não, eu lembro que no meu aniversário de catorze, eu passei na casa dele com meus primos. Foi... – dei um sorriso
– E o que acontece? É uma pausa? É como se sua vida prosseguisse do mesmo jeito e depois...?
– Daqui a pouco eu vou ter um surto. – resmunguei e fiz um beicinho – Bem, eu lembro de bastante coisa com meu pai, lembro que estou saindo de Nova York e indo morar com meu pai. E é como se minha vida prosseguisse e eu soubesse que meu pai morreu, sabe? Só não sei como, nem quando, e nem como foi o processo de luto.
– Certo. Podemos acabar por aqui, algum problema?
– Não. – peguei minha bolsa e ajeitei em meu ombro – Quando vai ser a próxima?
– Eu falo com você. – continuou a escrever alguma coisa enquanto eu virava as costas e saía
O corredor, como sempre, estava totalmente vazio. Apressei o passo até a passarela leste.
Podia ver alguns alunos seguindo para o sul enquanto eu só queria me jogar no meu colchão e dormir para que aquela semana passasse logo, as férias de inverno chegassem, os malditos treinos dessem uma pausa e esses malditos jogos dessem um tempo também. E por sorte, iriam dar.
Continuei caminhando, pensando em quantas merdas podiam acabar e eu não estaria nem aí, parando, assim que ouvi o começo de uma briga.
–...eu só tentei te proteger. Eu te ajudei. Enquanto você estava fugindo dela, fugindo de voc...
– Você não pode usar esse joguinho de anjo pra cima de mim. Você foi e é meu anjo, eu amo você, Rach. Por que não acredita em mim?
– Porque suas atitudes não condizem com o que você me diz.
– O que quer que eu faça? Você disse que a melhor forma de perder o medo, é encará-lo, é o que eu estou fazendo. – defendeu-se e reconheci aquela voz de culpa. Percy.
– Você não está encarando medo nenhum, Percy! Eu sou mulher, tanto quanto ela e ambas, ambas –frisou – sabemos que em pouco tempo, você estará caidinho aos pés dela. Apaixonado, de novo.
– E-eu...
– Não minta para si mesmo.
– Rach, eu te amo. L-...
– Não me iluda. Não se iluda. Eu sempre vou te ajudar, Percy, mas não quero começar a sofrer. Um tempo, certo? Um tempo para você pensar e... – suspirou – Colocar tudo no lugar. Eu vou estar te esperando, mesmo depois da decisão idiota que você tomar.
Antes que ela saísse, comecei a caminhar, indiferente, como se não estivesse ouvindo nada.
Sorri para ambos.
– Oi. – acenei – Rach, a Thals já passou por aqui?
A ruiva balançou a cabeça.
– Si? – repetiu o movimento e suspirei – Hey, Percy, como vai? – soquei seu ombro, vendo-o largar um sorriso pequeno
Rachel revirou os olhos e avançou o corredor da ala feminina antes de mim.
– O que deu nela? – fingi de inocente
– Como se fosse ingênua. – Percy resmungou, começando a caminhar para a ala masculina antes que eu segurasse seu braço – O que é, agora?
– Bipolar? Eu tenho que me acostumar com suas mudanças de humor.
Percy puxou seu braço com força e soltou o ar, voltando a uma expressão mais calma.
– Certo... Qual é o problema?
– Achei que éramos amigos e podíamos conversar a todo momento...
– Eu preciso de um tempo. – pediu
Ele fez algo que eu nunca esperaria, segurou meus ombros, apertando-me com força contra seu peito e beijando o topo de sua cabeça.
– Faça isso valer a pena. – seu tom de voz baixo fez todo meu corpo se arrepiar, assim que começou a fazer o carinho usual dele: subir e descer as mãos pelas minhas costas.
– Eu vou. – prometi, apertando suas costas musculosas com mais força
O moreno me separou dele e encarou meus olhos, tentei decifrar o que se passava pela sua mente louca, mas parecia difícil demais, forcei meus braços para mais um abraço, embora ele tenha me impedido.
– Você vai... – deixei a pergunta no ar quando ele negou com cabeça, colocando alguns fios do meu cabelo para trás e ameaçando desfazer o coque folgado
– É melhor você ir pro seu quarto antes que alguém como...
– O quê?! – uma voz histérica de propagou
– Como ela.
Soltei o ar daquele momento extraordinariamente clichê e ridículo que eu estava amando para ver a cara fina e esquelética de Calipso.
– Não acredito no que estou vendo! Não posso acreditar! Você – apontou para Percy – estava namorando Rachel, aquela nerd.
– Calipso, é melhor ficar calada. – ele ameaçou e beijou o topo da minha cabeça – Nos vemos depois. – terminou sério
– É, você acabou de enxotá-lo. – cantarolei e avancei para o corredor do primeiro ano
– Isso não pode estar acontecendo! É meu pesadelo! Você tomou meu lugar como líder d...
Parei de escutar quando atravessei a escada e por sorte, ela não me seguiu.
Como esperado, só tirei meus tênis e me joguei na cama, grata por ter aquele colchão embaixo de mim e deixando todos os pensamentos que deveriam me ocupar por bastante tempo para depois.
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