Nightingale.
40 Being alone.
Notas iniciais
"We're inseparable, all I have to do, I did next to you"
Passar dois dias inteiros trancada em um hospital não era o jeito que eu planejava terminar minhas férias.
Dois inteiros aturando enfermeiras sem graça, visitas de psicólogos explicando sobre a perda da minha gravidez inusitada e imatura e sobre as consequências que eu levaria para o resto da minha vida, sem falar que eu ficava dopada a maior parte do tempo.
Eu não conseguia chorar e me descabelar pela perda da gravidez, vai parecer idiota, sim, eu sei que vai, mas eu sentia que era, sim, uma coisa imatura. Eu só estava sendo egoísta ao deixar de tomar os remédios, eu queria o Percy só para mim e eu nem tinha ideia de que ele já era meu. O psicólogo disse que seria normal e passageiro uma depressão agora, no entanto, eu não estava depressiva, eu só queria sair dali.
Eu estava com raiva. Estava me sentindo culpada. E tinha que tirar esse peso das minhas costas.
O pior de tudo é que foram dois longos dias sem ver Percy.
No carro de minha mãe, o rádio estava desligado e passamos rapidamente pelo hotel de Thomas.
Engoli em seco.
Tudo parecia se encaixar agora. Jack tinha deixado uma pista, talvez inconsciente, que me fez entender o que faltava. Tudo bem, faltava muita coisa, entretanto, o que mais me preocupava sobre Jack saber tanto sobre nós finalmente fechou.
Fechei os olhos, lágrimas desceram pelas minhas bochechas.
Eu não deveria sentir dor, Mackenzie me deu vários comprimidos antes de ir embora e ainda me deu o número dela em um cartão branco com letras douradas, contudo aqui estava eu, chorando silenciosamente, minha garganta fechada impedia que eu soltasse soluços que fossem alarmar minha mãe.
Assim que os portões tão conhecidos se abriram, pude ver Sam debruçado de modo relaxado sobre a SUV preta recém-lavada, ele não me viu, mas sorriu ao ver o carro que entrava.
Minha mãe deixou o carro estacionado de modo desleixado enquanto eu limpava meu rosto com as costas das mãos.
Atena sorriu ao tirar minha pequena mochila e passar o braço pelos meus ombros, tentei erguer meu corpo, parecer curada, mas tudo estava detonado. Estava quebrado e facilmente arruinado.
Com uma simples carta, Jack conseguiu me fazer perder uma gravidez e todas as esperanças que eu tinha de poder, finalmente, derrota-lo.
Na verdade, ele era bem mais poderoso do que eu esperava.
– Bem vinda, Annie. – minha mãe sussurrou abrindo a porta
Até ela tomou um susto ao ver a destruição que estava sua sala de entrada.
Thalia estava debruçada sobre um centro, um mapa cheio de anotações e círculos de cores diferentes estava à sua frente, ela segurava uma caneta roxa entre os lábios e uma tiara prendendo os cabelos negros. Ela nem ao menos levantou o rosto, apenas riscou alguma coisa no topo da página de um metro e meio caindo no chão.
Nico chegava à sala com duas canecas cheias de algo bem frio, ele trazia rolos de papéis em um dos braços e um fone de ouvido falando com alguém, parecia importante já que ele falava pouco e assentia a todo o momento, resmungando um “entendo”. Sua namorada sorriu ao receber a caneca e apontou para algum ponto do mapa, ele concordou e voltou a sair sem se dar conta de que havíamos acabado de chegar.
Luke estava sentado no sofá, ele tinha uma agenda na mão, anotando coisas e falando ao telefone, parecia furioso enquanto apenas riscava na agenda – sempre uma linha reta.
– O que está acontecendo aqui? – minha mãe murmurou
Imediatamente, Thalia se afastou de seu mapa, fazendo com que ele se dobrasse em um rolo novamente, Luke desligou o telefone com um sorriso amarelo, jogando a agenda de lado e levantando-se.
– Estamos... Fazendo... – Luke começou, engolindo em seco
– Um trabalho. Para o vovô. Sobre marketing. Marketing sobre a venda de seu novo produto em... Nosso bairro.
– Ah! – bati contra minha testa – Como pude me esquecer? Vocês já resolveram aqueles problemas de entrega? Eu posso ajudar. — menti
– Não precisa. – Luke falou rápido – Você deve estar cansada, não é?
– Achei que ele deixaria isso para Afrodite resolver... – minha mãe comentou, cruzando os braços
– Ela estava muito ocupada... – Luke disse
– Esqueceu algumas coisas no SPA. E ah, tia, May chegou de viagem, não foi, Luke?
– Sim! Ela, bem... – Luke mudou o peso do corpo, desconfortável, como se não quisesse falar aquilo
Thalia revirou os olhos e cruzou os braços.
– Ela pediu que a visitasse o quanto antes. E Mary quer saber o que fará de jantar hoje, tia... Ela está te chamando há algum tempo.
Atena franziu o cenho, estreitou os olhos e deixou minha mochila ao lado da porta.
– Tudo bem, depois eu quero ver os resultados dessa pesquisa de marketing.
– Ah, você verá. – Luke respondeu, assim que ela desapareceu pelo corredor da esquerda – Logo, logo. – resmungou
– Annabeth de volta em ação!
– Você realmente está bem? – Luke argumentou, abraçando minha cintura enquanto eu ia em direção a Thalia
– Claro que eu estou.
– Não precisa descansar? – perguntou de novo
Revirei os olhos e me afastei de suas mãos.
– Você, definitivamente, não é meu cunhado preferido. Onde está o Nico?
– Procurando mapas e mais mapas ao redor da casa de... – minha prima abaixou o tom de voz – Você sabe quem. Ele está tentando... Como ele disse?
– Possuir? Reivindicar? Tomar posse?
– É, uma dessas coisas da câmera da prefeitura. Então, ele pode ter visão completa da casa dele.
– Eu estou aberta a tudo. – comentei, ajoelhando-me ao lado de minha prima
Minhas pernas doíam por ter passado tanto tempo apenas deitada, com poucas visitas – apenas minha mãe – e então, estar de volta a busca da morte daquele velho fazia com que eu me sentisse bem melhor.
– Ok. – Thalia sorriu para mim, encorajando-me – Bem, o Luke está procurando pessoas que possam nos ajudar, ou seja, servir de isca. A única que concordou até agora foi a Alex, é, eu sei, eu também a odeio. – comentou quando eu fingi que ia vomitar – O Nico tá mexendo com os computadores enquanto ainda não temos sinal do Ethan.
– Rumores afirmam que ele mudou de lado de novo. – Luke resmungou
– Tudo isso aconteceu em dois dias?
– Ainda não terminei. – Thalia continuou – Bem, neste mapa, temos homens da Alex vigiando. Eles não vão se meter com ele, isso é meio óbvio, eles só vão abrir passagem. Então...
– Crianças! – Atena voltou a aparecer, sorrindo – Vou visitar sua mãe, Luke, vocês querem que eu traga alguma coisa?
– Sabe o que seria maravilhoso? – apoiei meu cotovelo na mesinha de centro com um sorriso – Aquela torta de chocolate que fica do outro lado de Los Angeles, sabe? Aquela maravilhosa?
– Ah, sim. – Atena sorriu – Irei trazê-la, não vou demorar muito, prometo.
Sorri e assenti, vendo-a sair.
– Não deveria enxotar sua mãe assim. – Luke comentou, encarando a agenda, discando outro número
– Ah, porque ela pode descobrir tudo isso e etc, certo?
Meu primo deu de ombros e continuou a discar em seu celular.
– Ok. – Thalia suspirou, parecendo nervosa – O Plano A diz que vamos invadir a mansão do Jack, bem, da mesma forma que vocês invadiram da primeira vez.
– A casa dele é cercada de seguranças.
– Sabemos disso, mas – Luke sorriu, como se tivesse criado o plano – Alex vai ter uma carga nesse mesmo dia, portanto, 90% dos homens que trabalham lá nesse dia vai estar com Alex e assim, venceremos essa primeira etapa.
– Mas ainda vai ter homens lá. – Thalia completou – Por isso, vamos nos... Fantasiar.
Luke bufou.
– Alex providenciou para que os apenas homens experientes fossem mandados já que vai ser uma carga grande e pode haver... Confusões. Portanto, os mais novos ficaram na ala do Jack.
– E assim, nós podemos entrar falando que queremos uma audiência com Jack sobre aumentar fronteiras, como... Levar essa droga para outros lugares.
– Entendi. – balbuciei sorrindo – Isso vai ser ótimo, mas...
– A audiência foi marcada, hoje pela manhã. Vai ser no sábado às dez horas.
– Certo. – assenti as palavras de minha prima – E depois?
– Quando acontece esse tipo de audiência, — Luke comentou, remexendo-se no sofá, levantando os olhos da agenda – Fica apenas dois homens na sala dele, se estivermos bem preparados, podemos parar os homens e parar Jack.
– Matá-lo, você quer dizer. – Thalia completou, parecendo emburrada
– Não quero que vocês passem por isso.
– Posso te assegurar que essa garota aqui... – apontei para minha prima – E eu passamos por coisas suficientes para ver um velho vomitar sangue.
– Tudo bem, é isso. – Thalia sorriu, orgulhosa
– Vocês tem um Plano B, certo?
Um silêncio se instalou pela sala. Thalia tossiu.
– Bem, Luke...
– Você.
– Tá, eu achei que se tudo desse errado, poderíamos chamar Hermes, já que meu pai fugiu com o Jason...
– É bem provável que ele nos deixe morrer no covil inimigo. – Luke deu de ombros
– Sinto dizer, mas concordo com isso. – meneei a cabeça ao dizer
Thalia suspirou.
– É o que temos.
Mordi o lábio inferior, encarando meu antebraço, onde, na curva do cotovelo, estava cheio de pontinhos vermelhos e pequenos pedaços de band-aid escondendo as vermelhidões mais sérias, que eu, supostamente, estaria com medo de ver.
Uma brilhante ideia surgiu em minha mente.
– Vovô. – sussurrei
– Vovô? – Luke deixou a agenda de lado, inclinando-se – O que você descobriu?
– Eu não descobri nada, mas... Zeus não citou algo sobre ser uma intriga antiga entre Jack e o vovô?
Thalia franziu o cenho.
– É... – Luke concordou comigo – Bem, você não está pensando...
– Pode ser nosso Plano C. Bem, o Plano A parece que vai dar muito certo, o Plano B é incerto, mas eu tenho certeza que se eu e Thalia ligarmos ou...
– Uma mensagem. Uma carta. – ela bateu a mão na própria testa – Uma carta! Podemos fazer uma carta e deixar com alguém que esteja fora disso, mas que saiba...
– Sam. – disse – Ele é ótimo. Ele sabe o suficiente e se algo der errado, acionamos... Sei lá, um botão e ele já vai ter que estar pronto na casa do vovô.
– Mas daqui que ele chegue... – murmurei
– Não! – Luke sorriu – É perfeito. O vovô vai dar uma palestra amanhã de manhã, ele até me ligou e pediu que passássemos lá. Só temos que convencê-lo de ficar pela cidade até...
– Sábado. – Thalia sussurrou
– Perfeito. – sorri – Agora, me expliquem direito isso de entrar na casa do Jack.
Minha prima sorriu, sentando sobre as pernas e reabrindo o mapas.
– Eu, você, Luke e Percy...
E então algo clicou em minha cabeça.
Eu tinha esquecido temporariamente a dor física de ficar deitada por dois dias, da fome antes alimentada de sopa e comidas sem sal e claro, da culpa que o surto me obrigara a lembrar. E eu tinha esquecido da pessoa que eu tanto queria falar.
– Onde está o Percy?
Thalia encarou algo acima do meu ombro, talvez Luke, mas quando virei o rosto para encará-lo, ele estava afundado em uma conversa séria, riscando a agenda distraidamente.
– Onde...
– Na casa da Alex. – deu de ombros, voltando-se para o mapa – Faz dois dias que ele não passa por aqui e o Nico já levou as roupas dele para lá. Luke disse que foi sua mãe... Ela já pediu desculpas, mas ele decidiu ficar por lá.
– Podemos ir passar lá, certo? – encarei-a – Eu preciso falar com ele.
– Não podemos levantar suspeitas, ainda tem homens do Jack por lá.
– Thals, ele é meu namorado. Eu tenho...
Luke se pronunciou, afastando o telefone do ouvido, confuso.
– Desde quando vocês estão namorando? – me interrompeu
– Bem, há três dias. Na manhã que tudo isso ocorreu. – apontou para mim
Luke estreitou os olhos, parecia preocupado com algo quando as rugas apareceram entre suas sobrancelhas. Engoliu em seco, voltando a ficar calado.
– Vamos esquecer namorados por algum tempo, pode ser? – Thalia resmungou, me entregando uma caneta dourada – Essa rua é a da frente da casa de Jack, vamos passar por aqui e vamos evitar essas duas câmeras, — apontou para pontinhos verdes – Por isso, não podemos fazer com que eles nos vejam dentro do carro já que se Jack realmente morrer, não podemos deixar rastros de que algo aconteceu. Certo?
Assenti, decidida.
***
O elevador tão conhecido me fazia ter tremores. E eu odiava a nova música que eles colocaram.
Eram seis horas da tarde. Eu estava aproveitando o pôr-do-sol dentro da caminhonete velha de Luke enquanto seguíamos caminho para o hotel luxuoso. Usei a desculpa que precisava falar com ele antes que eu morresse.
Não avisei sobre minha visita. Apenas confirmei com a recepcionista simpática se ele estava aqui e ela me respondeu, carinhosa.
Engoli em seco assim que as portas se abriram. Eu queria voltar e me encolher em minha cama, no entanto a pessoa que me abraçaria tinha se mudado definitivamente da minha casa por culpa da minha mãe.
Afastei esse pensamento rapidamente, respirando fundo antes de dar um passo em direção a tremenda briga que eu estava pronta para arranjar.
Ergui a mão, pronta para dar duas batidinhas educadas.
Não fazia sentido, entretanto. Ele não teve educação quando me enganou.
Abri a porta, sabendo que ela estaria aberta e dando de cara com um Thomas atordoado. Ele usava uma calça de moletom, o tronco estava nu – o que me fez ficar cheia de arrepios e sim, eu me culpei eternamente por isso.
Respirei fundo e fechei a porta atrás de mim.
– Annie. – ele suspirou aliviado – Deveria ter me avisado que viria e eu poderia, bem, poderia ter me arrumado.
– Não se preocupe. Não vou demorar muito. – disse
– Hm, certo, quer sentar? – apontou para o lugar ao seu lado, balancei a cabeça, negando – Em que posso te ajudar então?
No meu bolso traseiro, no short azul que eu usava, o papel pardo com letras bem definidas com várias partes cheia de sangue repousava. Eu respirei fundo, me preparando para ver aquele papel com meu sangue. Tirei o papel amassado e dobrado em poucas partes, jogando-o contra seu peito. Permiti-me respirar normalmente assim que aquela coisa imunda estava fora do meu alcance.
Thomas me encarou, surpreso e assustado. Pegou o papel com as pontas dos dedos, intercalando a atenção entre mim e abrir o papel.
Ele revirou os olhos e então, começou a ler.
Foram longos cinco minutos que se passaram vagarosamente enquanto as expressões de meu psiquiatra mudavam tão rapidamente que eu, nem ao menos, poderia identifica-las. Apenas cruzei os braços, esperando me proteger e fazer com que meu corpo ficasse estável.
– E então? – perguntou, levantando-se e vindo em minha direção – Conseguiu ter o surto?
– Acho que isso já não te importa mais, Jones. Quando pretendia me dizer sobre sua família?
– Aonde quer chegar?
Estreitei os olhos.
– Você não acha muito estranho? – perguntei, aproximando nossos rostos – O cara que quer aniquilar minha família tem consultas com você...
– Bem, não é estranho. Considerando que sou o melhor psiquiatra de Londres...
– E da família Jones.
–...e ele é londrino.
– Ah, é? – murmurei, me afastando, esnobe – Pode tentar me enganar de novo, Thomas.
– Annabeth, onde quer chegar?
– Que agora que eu descobri quem você é... Bem, quero deixar claro que você não vai sair ileso disso.
– Ah. – Thomas riu, amassando o papel entre os dedos – Você está me ameaçando, Annabeth?
– Veremos, Thomas Jones. Veremos.
– Não tente fazer isso, garota. – sussurrou, nossos rostos tão próximos que eu poderia contar a quantidade de tons que seus olhos possuíam – Não tente.
– Você é tão parecido com Jack, Jones. O que você é? Primo, sobrinho, neto... Filho? – sugeri, os olhos abertos em pequenas fendas
– Não sou nada. Pare de me acusar de coisas...
– Acusar? Eu nem sabia que estava te ameaçando e você está aí... Morrendo de medo. – sussurrei contra seu rosto – Tenha um bom dia.
Thomas não respondeu. Eu podia ouvir vagamente as portas do elevador se abrindo, abri a porta e a deixei aberta enquanto sorria carismática para o casal que acaba de sair e entrava, sem olhar para trás.
Deixei minha respiração entrecortada se controlar antes de atravessar o hall e me deparar com Luke.
Eu precisava me acalmar.
A partir de agora, era tudo ou nada. Era vida ou morte.
E, honestamente, eu adorava viver.
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