Notas iniciais
Olá pessoal! Mais um capítulo! Atrasado, mas tá aí! Boa leitura! ^^

Midorima’s POV on

Depois de muito tempo trancado, eis que então a porta se abre com um estrondo infernal trazendo ajuda para nos tirar desse pesadelo cruel e sanguinolento. Tá! Acho que exagerei um pouco, mas não foi nada bom ficar trancado numa sala cheia de velharias que chamam de mesas de jogos, mas eu chamo especialmente de bugigangas.

— Seu cretino, por que nos deixou aqui trancados por tanto tempo? — perguntei da forma mais furiosa que consegui.

— Eu? Foi o pestinha quem fez isso. — Takao respondeu desconsertado levando uma de suas mãos à cabeça coçando o cabelo.

— Não se faça de sonso, ouvi os risinhos dos cinco do lado de fora. Acham que somos idiotas para não perceber que tudo não se tratou de uma armação?

— Não sei do que você está falando, Shin-chan. — falou da forma mais cínica que conseguiu.

— E você Kiyoshi?! — Makoto interveio. — Ficou rindo aí fora e por que não nos ajudou a sair daqui antes?

— Então, Makoto... É que eu... Eu... Não tinha as chaves por perto e está tudo muito escuro. — respondeu sem jeito.

— Escuro? Acho que as lanternas em suas mãos são o bastante para iluminar essa casa inteira. — questionei.

— Mas... Midocchi não temos nada com isso foi o Seiji quem trancou vocês ai e fugiu para a casa dos pais dele. — Kise justificou, mas tanto o Makoto quanto eu não aceitamos essa resposta furada.

— Nossa! Fiquei preso aqui e nem pude preparar o jantar. Ficaremos com fome ou os bonitões farão uma comida bem deliciosa para comermos enquanto eu e o Midorima relaxamos. — Makoto retrucou de forma ainda mais cínica do que os outros. Esses estavam aparentemente tensos, quer dizer, muito nervosos para dar qualquer resposta boa ou ruim.

— Você está falando sério Makoto? — Akashi falou surpreso. — Ninguém aqui tem ideia de como cozinha, ainda mais à noite e sem energia.

— Inúteis. — Makoto tomou a lanterna da mão do Kiyoshi e saiu com certa pressa do salão. Seu namorado, ainda tenso, correu atrás dele.

— Takao, precisamos conversar. — fui andando em direção à escada. — Vamos ao meu quarto. — pude ouvir alguns risinhos dos outros garotos, mas ele me obedeceu e subiu comigo.

***

— Shin-chan, eu posso explicar tudo. Pensamos em prender vocês no salão de jogos para ver se iriam ficar bem novamente. Tudo foi pensado para o bem de vocês e hora nenhuma quisemos prejudicar um ou outro. — falou de forma tão rápida e tensa que nem consegui entender direito. Takao se mostrava muito nervoso, parecia que estava caminhando rumo à guilhotina e eu era o carrasco.

— Você ouviu a nossa conversa? — perguntei ignorando o que havia sido falado. — Vocês ficaram expiando pela porta ou algo do tipo?

— Só consegui ouvir uma ou outra conversa. Ficamos por perto para caso acontecesse alguma coisa com vocês. — respondeu quando estávamos chegando ao quarto.

— Você conseguiu o que queria. Meus parabéns armaram tudo direitinho e finalmente seu plano deu certo.

— Você está bravo comigo, Shin-chan? Eu não queria te irritar. Só quis aproximar vocês para reestabelecer à paz da nossa família. Porque somos uma família, passamos muitas coisas juntos e por isso já me sinto em casa com vocês.

—Não faço parte da sua família, nem se eu fosse um jumento faria. Nem de sangue e nem ideologicamente sou seu parente. Cruzes. — exclamei e ele riu.

— Seu humor é ótimo. Eu morrendo de tanto nervoso e você brincando. — falou corado e risonho.

— Não brinquei, falei sério. Não gostei nem um pouco da sua atitude, mas depois conversamos mais sobre isso e você algum dia me pagará.

— Não seja cruel comigo, por favor. Seu jeito de falar me assusta.

— Te trouxe aqui para te falar que eu... — um grito nos interrompeu.

— Incêndio! — pude ouvir a voz do Kise e descemos a escada correndo para ver o que havia acontecido.

— O que está acontecendo aqui? — Takao perguntou assustado.

— Akashicchi encostou o pano de prato no fogão e ele pegou fogo. — Kise falou com a maior naturalidade.

— Esse escândalo todo por causa de um pano de prato idiota? — perguntei.

— Idiota foi o Akashi que encostou o pano no fogo. — Makoto disse. — Nem sei por que o Kise arrumou esse berreiro.

— Cadê o Akashi? Ele machucou? — Takao perguntou apontando a lanterna para todos os lados da cozinha.

— Ele saiu correndo com o pano de prato na mão. Deve ter queimado alguma coisa, mas nada de muito importante para nós...

— Cale a boca Makoto, estou invicto após uma emocionante corrida de panos de pratos com fogo. Saúdem o campeão! — o tampinha ruiva deve estar tomando algum remédio tarja preta por aí, empinou o pano como se fosse um toureiro e isso me preocupa. Fico com medo de conviver com um louco desses.

— Tá bom Kise, quais drogas o seu namorado está usando? — perguntei para o loiro.

— Acho que nenhuma Midocchi. O Akashcchi não precisa de drogas para ficar aéreo desse jeito. Gente! Cadê o Kiyocchi? — pergunta pertinente, não o vi em lugar nenhum enquanto corri pela casa.

— O Kise mesmo entrega o ouro. Então quer dizer que vocês já são namorados? — Makoto ironizou.

— Não, não. Dormimos juntos, mas não é nada sério ainda. — falou bobagem.

— Cale a boca, Kise. Você não deve ficar falando essas coisas para eles. — Akashi interveio dando um tapa na cabeça do loiro.

— Cheguei! — Kiyoshi entrou na cozinha com a sua lanterna e várias rosas na mão. — Hoje vamos jantar a luz de velas e sentindo o cheiro das belas rosas brancas que eu colhi no jardim.

— Meus Deus! Está todo mundo usando drogas nesta casa? — perguntei. — Não são rosas Kiyoshi e, sim, cravos. C.R.A.V.O.S. Aqueles que colocamos ao lado dos mortos durante o velório. Acho que sou o único lúcido nesta casa, não é possível.

— Pela primeira vez na vida concordo com o Midorima. Kiyoshi, você sai de casa para colher flores para o jantar? Ah! E ainda volta com cravos na mão pensando que são rosas? Senhor, me leva!

— É, acho que deu para ver que eu não entendo muito bem de flores. — Kiyoshi falou corado, levando a mão à cabeça.

— Eu entendo. — Takao falou. — Vamos lá que eu te mostro onde estão as roseiras. Eu vi uma muito bonita perto da porta da sala.

— Será que a energia não vai voltar nunca? Está quente demais e não vai dar para ficar aqui dentro sem ventilador. — falei.

— Podemos jantar no quintal. É bem mais fresco e vai ser divertido, pois podemos conversar. — Kise falou. — Aproveitamos que o Makoto não fez nada direito mesmo para o jantar e fazemos um churrasco perto da piscina.

— Boa ideia, Kise. Finalmente você resolveu pensar. — Akashi ironizou.

— Por mim tudo bem, só precisamos iluminar lá fora para começar a arrumar as coisas. — Makoto falou. — O arroz está pronto, podemos fazer um vinagrete e comer com carne.

— Voltamos. — Takao falou voltando com várias rosas na mão.

— Mudança de planos, vamos fazer um churrasco à luz da lua hoje. — Makoto falou se dirigindo para fora da cozinha.

— Mas e as rosas? — Kiyoshi perguntou desolado. — O que eu faço com elas?

— Podemos usá-las para enfeitar a casa depois. Arrumamos uns jarros legais e depois os distribuímos pelos cômodos. — sugeri.

— Gente! Vocês vão ficar conversando ou virão aqui me ajuda a arrumar o churrasco? — gritou o corrimão falante, acabei de criar esse apelido carinhoso para o Makoto.

Atendemos ao chamado e fomos lá fora arrumar tudo. Juntamos duas mesas de jardim e colocamos uma grande toalha azul claro sobre elas. Levamos os copos e enquanto isso o Kiyoshi acendia a churrasqueira. Makoto temperava e descongelava as carnes. Kise e eu picávamos as coisas para fazer o vinagrete e Takao e Akashi acendiam as velas e posicionavam as lanternas para iluminar toda área de lazer da casa. Kise, antes de vir me ajudar, colocou algumas velas em cima de tampinhas de refrigerante e as soltou dentro da piscina, ficou realmente muito bonita a arrumação que fizemos para nossa confraternização, sem motivo, repentina.

— A lua está linda, Midocchi! É uma pena que ela se esconda de nós lá na cidade. Eu sempre achei que a luz fosse um vagalume gigante que voava tranquilamente no céu. Minha avó dizia que ele tinha medo de escuro e por isso iluminava as noites de todo mundo.

— É uma bela teoria, Kise. Minha avó me contava que a lua era uma anjinha gordinha e brilhante que nos protegia durante a noite. A luz dela clareia o mundo para afastar a escuridão e os maus sonhos.

— Eu era uma criança boba e acreditava em todos os contos que minha avó contava.

— Somos dois bobos, Kise. Eu sonhava em me transformar em um astronauta quando criança só para observar a lua de perto. — refleti e pude perceber que fui uma criança bem feliz.

— Shin-chan! Veja se ficou legal desse jeito. — Takao gritou mostrando a iluminação.

— Nossa... — ficou incrível. Foi uma excelente ideia fazer esse churrasco, pois ainda que de última hora tudo ficou perfeito. — Sim, ficou muito legal.

— Se você gostou então eu também gostei. Precisa de ajuda para picar a cebola? Sou especialista nisso. — Takao falou se aproximando de mim.

— É sério ou você está debochando de mim? — desconfiei.

— Não, mas vou fazer isso para as suas mãos não ficarem fedendo a cebola. — pegou uma faca e começou a picar. — Sabe Shin-chan... Eu fico muito emotivo enquanto pico cebolas. Choro todas às vezes.

— Todos ficam emotivos quando picamos cebolas. Até o meu ursinho fica. — o loiro falou passando a mão no rosto do Pikachu.

— Cebolas deixam os meus olhos vermelhos e ardendo, mas sou forte e não choro. Quer dizer, quase não choro. — falei tentando me mostrar forte.

— Sabemos disso Shin-chan, você é um homem forte, bem forte mesmo.

— Kiyoshi, cadê o seu rádio de pilhas? — Akashi perguntou. — Vamos colocar música para animar a festa.

— Qual festa? — perguntei.

— Nossa festa, churrasco, de inauguração para casa nova. Merecemos uma comemoração por termos saídos ilesos ao incêndio. — Akashi falou quase cantando.

— Isso mesmo, merecemos comemorar muito, principalmente agora que recuperaram meu amiguinho de pelúcia.

— Que aja fogo! — Kiyoshi jogou um fósforo aceso sobre a churrasqueira e uma grande chama surgiu.

— Estou com trauma de fogo. — refleti. — Acho que fogo só é bom em churrascos e para clarear a casa.

— Fogo também é bom em outras ocasiões. Pessoas fogosas são boas demais. — Takao disparou isso me dando um leve olhar de soslaio.

— Takao, acho melhor você continuar cortando essas cebolas em silêncio. — intervi.

— Concordo com o Takao. — Kiyoshi o defendeu. — Pessoas fogosas são boas, não é Miya-chan?

— A carne já está temperada, falta só colocar para assar agora. — Makoto falou ignorando o que foi dito pelo Kiyoshi. —Mexa-se gente, esse churrasco é pra hoje!

Tudo começou a seguir bem. As carnes já estavam assando e nós ficamos conversando por algum tempo até que algo ficasse pronto para comermos.

— Alguém ai quer carne? — Kiyoshi anunciou com uma tábua com carne picada nas mãos.

— Que delícia! Ficou muito bom o seu tempero Makocchi.

— Valeu, mas eu só usei tempero pronto e orégano. — explicou, esboçando um leve sorriso.

— Mesmo assim ficou muito bom, amigo. — debochei. Ele me retribuiu com um leve sorriso irônico.

— Muito obrigado, amigo. — enfatizou a última palavra. Os outros meninos nos olhavam com certo estranhamento, pois não sabiam se estávamos falando sério ou só debochando.

— Vocês fizeram as pazes? — Kiyoshi perguntou curioso.

— Claro! Somos amigos agora. — afirmei. — Tão amigos que iremos sair juntos, jogar videogame juntos e mais n coisas, logicamente, juntos.

— Vamos fazer selfies e colocar no Facebook para mostrar ao mundo inteiro que somos grandes amigos. — Makoto também comentou.

— Não sei se estão debochando ou falando sério. — Takao falou. — É estranho ver vocês dois conversando.

— Ué! Deixaram-nos presos no salão de jogos para fazermos as pazes e agora dizem que é estranha a nossa amizade? — questionei. — Não entendo vocês.

— Fica estranho. Vocês dois são irônicos demais e nos deixam confusos. — Kise comentou. — Nunca sei quando falam sério ou brincam.

— Estamos falando sério. — Makoto e eu respondemos juntos, até pareceu um coro.

— Mas nem tanto. —complementei. — Ao contrário de vocês, a nossa amizade é preta e branca.

— Mas tem um pouquinho de purpurina. — Makoto ironizou e nós dos rimos enquanto os outros pareciam surpresos com a conversa.

— Vocês dois estão bem? Até parece que os abduziram e os devolveram para nós. — Akashi comentou demonstrando certo deboche e curiosidade.

— Sim! — respondemos em coro novamente e rimos.

— Estamos debochando de vocês, relaxem. — expliquei, pois os meninos estavam realmente confusos.

— Vamos parar com essa conversa fiada e vamos comer antes que esfrie. — falou o meu coleguinha já pegando um prato e retirando arroz da travessa.

Depois de jantarmos, seguimos para um conjunto de cadeiras que ficavam em um dos vértices da piscina e ficamos conversando olhando o céu que, por sinal, estava bem estrelado. A lua continuava se mostrando a nós e portava um brilho magnífico.

— Aquela estrela parece com você, Akacchi. — falou o loiro olhando para seu companheiro.

— Por que uma estrela iria se parecer comigo? — perguntou curioso.

— Pelo tamanho. — o loiro riu. — Miudinha igual a você.

— Ah! Nem sei por que ainda dou atenção para as coisas que você diz Kise. — falou o ruivo revoltado.

— Pior que parece mesmo. — Makoto debochou. — E aquela parece com o Kise. — falou acenando para a estrela que estava ao lado da outra.

— Por quê? — o loiro perguntou curioso.

— Porque estrelas não costumam pensar. — todos riram, inclusive o loiro que só entendeu após um tempo.

— Deixem o loiro em paz. — intervi. — Apesar do vácuo na cabeça dele, o Kise também é gente.

— Até você, Midocchi? Ah! Aquele arbusto até que se parece com você.

— Oh! Me comparando com um arbusto, como se atreve?

—É... — riu. — É porque ele é bonito. — tenho a leve impressão que não era a intenção dele falar aquilo.

— Isso, Kisecchi. Aprendeu direitinho. — pronunciei o apelido dele de uma forma doce, mas não consegui e comecei a rir.

— Midorima, vou confessar uma coisa. — Kiyoshi falou. — Eu ouvi um trecho da conversa de vocês dois no quarto e fiquei muito curioso.

— O que você ouviu? — novamente Makoto e eu perguntamos juntos.

— Não é possível que nem temos mais privacidade nesta casa?! Makoto acho que teremos que fofocar em outro lugar na próxima vez. — falei debochando.

— Vou dar uma vara de pescar para ele! É muito feio ficar pescando a conversa alheia. — Makoto comentou.

— Posso terminar? Vocês deixam? Tá bom então. — ele mesmo se respondeu. — Midorima, você é bi mesmo?

— O quê? — falei cuspindo o refrigerante que eu estava bebendo. — Que pergunta é essa, garoto?

— Eu ouvi vocês falando isso mais cedo e fiquei curioso.

— Mas... Mas... Makoto cale o seu homem, por favor!

— Kiyoshi, cale-se já! — Makoto o repreendeu, mas os meninos me fitavam com os olhos arregalados.

— Acho que estou passando mal. — falei fingindo sentir algo e levantei da cadeira. — Vou ir dormir.

— Midorima! — ouvi e me virei para o Makoto. — Estamos entre amigos e acho que você pode conversar abertamente conosco. — maldito seja, ele já puxou o meu tapete.

— Makoto, eu vou matar você se continuar falando. — que ódio, vou matar esse corrimão de meia tigela. — Não sei o que vocês estão falando e vou para o meu quarto.

— Está tudo escuro lá em cima e, como você deve saber, essa casa é um pouco antiga e alguns amiguinhos podem nos visitar aqui no escuro. — Takao disse.

— Pensando bem, acho que vou ficar aqui mesmo com vocês, mas não vou dizer nada. — realmente aqui deve haver fantasmas. Esse lugar à noite é terrível.

— Se você contar sua história eu também conto a minha, Shin-chan.

— Não e já chega, vamos mudar de assunto que é mais interessante.

— Midocchi, por favor. — Kise afinou e voz e prolongou terrivelmente a última palavra. — Vou te fazer cócegas, eu juro.

— Você que não se atreva a fazer isso. Kise, não sou mais o seu amigo. — afirmei, mas foi inútil. Kise se levantou e correu começou a correr atrás de mim com as mãos esticadas prontas para fazer intermináveis cócegas em minha barriga.— Tá! Eu confesso... — pausa dramática. — Eu já me relacionei com duas pessoas de sexos diferentes.

— Ooh! — soou até musical o som que os meninos fizeram. Menos o Makoto, até porque o cretino já sabe de tudo.

— Eu me relacionei com uma líder de torcida após um jogo do torneio de basquete da minha escola. Ela era muito bonita e deu em cima de mim e não pude recusar, até porque naquela época eu tinha um pouco de curiosidade com essas coisas.

— Vocês dormiram juntos? — Akashi perguntou embasbacado.

— Não, eu sou um menino direito e não durmo com qualquer uma. Sou sério e puro.

— E a outra pessoa? — Kise perguntou. — Quem era?

— Uma freira!

— Ooh! — novamente soou musical.

— Isso é sério, Shin-chan?

— Não. Era um dos seguranças do meu pai. Ele era muito bonito e acabei cedendo porque não sou de ferro. O nome dele era Jasen e ficamos juntos por mais de dois anos. Eu tinha catorze e ele vinte e três. Meu pai saía de casa e o mandava tomar conta de mim e o rapaz sempre tomava, tomava até demais.

— Por que você sempre usa o passado para caracterizar ele? — Kiyoshi perguntou atento.

— Porque ele me deixou. Deixou de verdade. Meu pai descobriu tudo e o despediu e, como se não bastasse, me mandou para a casa da minha tia no interior para ficar ainda mais longe do Jasen. — é triste me lembrar dele, era tão intenso que fiz um esforço tremendo para não soltar minhas lágrimas.

— Ele morreu, Midocchi? — Kise perguntou com receio.

— Morreu em um acidente de carro quando estava indo me visitar na casa da minha tia. Ele perdeu o controle e acabou batendo em uma barricada. Partiu com vinte e três anos e uma vida inteira pela frente. — não consegui e acabei chorando. Takao me entregou um paninho que ele carregava no bolso e me abraçou.

— Não fique assim, Shin-chan. — falou me dando um abraço apertado. — Eu estou aqui com você e pode sempre contar comigo.

— Me desculpe por insisti, Midocchi. Eu não sabia que isso te faria tão mal. — Kise lamentou colocando a mão sobre meu ombro esquerdo.

— É passado. —soltei o abraço e sequei o rosto. — Ele se foi e eu fiquei. É terrível, mas tenho que seguir com isso. — falei tentando me convencer que sou forte e posso seguir a vida.

— É assim que se fala, Midorima. Seguir a vida e ser feliz! — Kiyoshi ergue o copo para o alto tentando formar um blinde. — Pela nossa felicidade!

— Pela nossa felicidade! — falamos todos enquanto erguíamos os copos.

— Pela união! Pela família! Pela paz! — ao final de cada grito abaixávamos os copos e erguíamos novamente para os próximos desejos. — Para o amor!

— Principalmente para o nosso, Shin-chan! — Takao ergueu o copo sozinho e se dirigiu a mim. — Irei lutar por sua mão, meu querido príncipe. — terminou de falar e se ajoelhou me saudando.

— Neste copo só tinha refrigerante, Takao. Você não pode estar bêbado. — brinquei e ele se levantou esboçando um belo sorriso.

—Só você mesmo, Shin-chan. — ergueu o copo novamente e desta vez eu o correspondi e brindei. — Por nós.

— Olhem o Shiro!— Kise gritou apontando para o cachorro.

— Ah! Ele arrumou uma namorada. — Kiyoshi falou após observar que uma cadelinha, que não conhecíamos, estava brincando com o nosso mascotinho.

— Deixem-no namorar. Takao, você disse que me contaria a sua vida se eu te contasse a minha. — o lembrei de contar e ele sorriu levemente.

— Promessa feita é promessa cumprida! — concordou se sentando novamente em sua cadeira. — Eu nasci de parto normal e...

— Acho que você pode pular essa parte. — interrompi e ele assentiu.

— Tá. Eu já namorei com cinco meninas. — cinco? Que garoto saliente. — Mas nenhuma representava aquilo que eu realmente queria.

— E o que você realmente queria? — Kise o interrompeu com certa curiosidade.

— Amor. Elas só queriam farras e não se preocupavam muito comigo, então larguei essa vida e tentei a sorte com outras coisas. Meu sonho sempre foi ser veterinário, mas meu subsonho, se é que isto existe, era ser músico. Sempre quis seguir um desses caminhos, mas o segundo foi fortemente descartado, estrangulado, desovado pelos meus pais que não tinham muita fé nele.

— Você agora é independente, creio que pode ser músico se quiser. — Akashi falou após o Takao terminar de falar.

— Gosto muito de veterinária e gosto demais de música, posso conciliar os dois e ser feliz. —respondeu sorrindo. — O mundo da fama realmente não é pra mim, então prefiro só tocar e cantar de vez em quando.

— Acho que é melhor você só tocar. — falei enxugando as últimas lágrimas que insistiram em permanecer no meu rosto. — Sua voz não é muito legal não.

— Você é gamado na minha voz, só não admite isso. Eu sei qual é a tua, Shin-chan. Você é um daqueles fãs loucos enrustidos que fingem que não gostam, mas quando chegam perto dos seus ídolos se derretem todos e é assim que vossa senhoria se sente quando se aproxima de mim.

— Você não é nem um pouco convencido, né? — questionei. — Nunca te ouvi tocar nada. Não sei se isso é bom ou ruim para os meus ouvidos.

— E você sabe tocar alguma coisa, Midorima? — Kiyoshi perguntou.

— Sim, piano. Fiz aulas durante cinco anos e sei inúmeras músicas de cabeça. — respondi. — Vocês me subestimam demais, fui à sensação do colegial.

— Ui! Cantava também ou só fingia que tocava? — disse Akashi me afrontando.

— Sim. Era o rei do funk e do rap. — debochei.

— Jura? — Kise perguntou.

— Não. É claro que não. Não gosto de cantar e minha voz não é muito boa para essas coisas.

— Algum dia desses vamos fazer o Takao tocar e o Midorima cantar para nós. — falou Kiyoshi com certa alegria desnecessária.

— Kiyoshi, querido. O que estava no seu copo também não era cerveja, então assim como o Takao você não pode estar bêbado. — respondi.

— Querido, ui! Que meigo. — Takao debochou de mim e eu revidei com uma cotovelada.

— Você está implorando né Takao? —perguntei tencionando a voz.

— É brincadeira, Shin-chan. — respondeu, se jogando com a cabeça para cima de mim.

— Você fica mais bonito calado. — continue.

— Assume então que eu sou bonito. E o que mais? — sentou-se em meu lado e apoiou a cabeça na mão querendo mostrar curiosidade.

— Chato também, saliente, bobo, debochado, cretino... Principalmente cretino. — respondi, mas não tudo, pois ficaria o resto do dia descrevendo ele.

— Você é gamado em mim, Shin-chan. Assume logo e nos casamos o quanto antes. —afirmou com certa ironia e deboche. Takao não cansa de me perturbar. Enquanto isso os meninos tiraram as camisas e pularam a piscina, pois o calor estava infernal.

— Vai lá pra piscina. Vai. Você já bateu a cota de perturbação hoje. — o cretino não parou de me fitar mesmo assim.

— Estou disponível nesta noite, se você quiser pode me chamar. — me deu uma piscada de olho, tirou a camisa e pulou na piscina me jogando um pouco de água.

— Vem pra cá, Midocchi! — Kise gritou. — A água está geladinha.

— Prefiro ficar aqui fora. — falei voltando a me sentar.

— Vem logo! — Takao apareceu de repente e me puxou para dentro da piscina com roupa e tudo. Até a cadeira caiu junto comigo.

— Ah. Vou acabar com você! — ameacei tentando me recompor já dentro da água.

— Relaxa e aproveita essa água deliciosa e esse céu maravilhoso. — Takao falou se apoiando na borda da piscina e olhando para o alto.

— É... Você tem toda razão, mas só na parte do céu. —admiti.

— Olha lá aquela estrela. — apontou para uma, mas eu bati e abaixei a mão dele.

— Não faça mais isso, agora vai nascer uma verruga na ponta do seu dedo. — rimos. — O que tem aquela estrela?

— Aquelas estrelas, quer dizer. Elas se parecem com nós dois juntinhos. — desviou o olhar.

— Você está muito saliente hoje, mocinho.

— Salientes são eles ali. — falou apontando para o Kiyoshi e o Makoto que estava se abraçando. — Eu sou apenas romântico.

— Você é um baixinho chato. Nem sei por que estou te aguentando por tanto tempo.

— Porque você gosta de mim, só não confessa porque é bobo demais, mas eu perdoo.

— Morri. — me fingi de morto ouvindo aquilo e isso fez ele rir. — Sou areia demais procê’...

— Estou disposto a aumentar o meu caminhão... — se interrompeu para me dar um beijo. Cretino, eu estava distraído, mas foi bom. Muito bom.

— Uhu! — Makoto gritou. — Mais que beijo foi esse?!

— Que delícia de beijaço! — Akashi falou com malícia. — Que boca! Que ternura! — debocharam de nós e o Takao só ficou rindo. Fiquei mais corado que o pimentão do vinagrete.

— Mandou bem, Takaocchi. Que beijo lindo. — Kise falou.

— Valeu! Valeu! — Takao se gabou. — Eu sei que somos um casal impressionante.

— Parem com isso seus urubus. Foi apenas um beijo de amizade. — tentei conter os elogios.

— Beijo de amizade? Eu enfiei a língua na sua garganta... — interrompi o Takao.

— Cala a boca. — tampei a boca dele.

— Os fatos se explicam Midorima. Você está tão na dele. — Kiyoshi falou me provocando enquanto ria e abraçava Makoto.

— Shiu, Kiyoshi. — falei pedindo silêncio. — Eu não fico reparando na saliência de vocês dois, então não fique nos reparando.

— Tá bom, Midorima. Vocês podem continuar se engolindo ai que ninguém mais vai se importar com isso. Não vou te socorrer se o Takao tentar te engolir novamente. — Makoto comentou.

— É bem difícil eu engolir um rapaz do tamanho do Midorima. Olha que homão ele é. — brincou Takao, contornando o meu corpo com a mão.

— Vamos voltar a zoar o Kise, vamos. — propus. — É bem mais interessante.

— O Takaocchi tentando te engolir é bem mais interessante que eu, Midocchi. Foi algo inédito e vai ficar marcado para sempre em nossas lembranças.

— Shiu, você também. — pedi. — Vocês estão ficando chatos demais pro meu gosto.

— Shin-chan. — dei atenção. — O que você acha de eu fazer um ensaio sensual só de cueca pra todo mundo ver?

— O que? — o olhei assustado. — O que você está dizendo garoto?

— É brincadeira, mas você iria se corroer de ciúmes, né? Igual àquele dia no shopping quando a menina foi me pedir informação e também no restaurante do hotel.

— Você deve ter inalado fumaça demais desse churrasco. Só pode estar ficando louco em falar essas coisas aqui e agora.

— Eu só estou brincando, Shin-chan. Me reservo apenas para você e mais ninguém. — ele falou e todos os outros riram ouvindo a conversa.

— Cale a boca, você já está falando besteiras demais. Olha lá, está dando mais motivos para eles debocharem de mim.

— Vocês são ótimos mesmo. — Kiyoshi comentou. — Me convido para ser o padrinho de casamento.

— Nós também, né, Akacchi? — Kise falou.

— É claro. — o tampinha respondeu. — Acha que eu perderia uma coisa dessas?

— Vão ficar só na expectativa mesmo. Não irei casar e nem chamaria esses energúmenos para serem os meus padrinhos.

— Esse casal é lindo, meu Deus. — Makoto falou rindo. — Se eu não conhecesse o Midorima pensaria que ele está falando sério, mas bem sei que é tudo fachada. Esse homem é uma donzela por dentro.

— Antes donzela que corrimão de metrô, né? — debochei. — Amigos não costumam falar assim dos outros. Você não merece a minha amizade.

— Ah. Me desculpe meu amigo, nunca mais vou te chamar de donzela novamente. — debochou.

— Tudo bem, amigo. — falei enfatizando a última palavra. — Te perdoo, mas só desta vez. — esbocei um leve sorriso irônico.

— Acho que esta luz não voltará nunca. — Kise observou. —Quantas horas já?

— Quase meia-noite. — Kiyoshi respondeu olhando seu relógio de pulso. — Já está tarde para ficarmos aqui fora.

— Por quê? — perguntei.

— Fantasmas caminham por aqui à noite. — respondeu rindo.

— Palhaço. Fantasmas não existem e você sabe disso.

— É brincadeira. Não podemos ficar aqui na piscina porque dizem que água fria à noite faz mal. — Kiyoshi explicou.

— Nunca ouvi isso. — Kise comentou.

— Ryouta, essa é só mais uma desculpa dele para ir pra cama com o Miya-chan logo. O Teppei adora disfarçar. — Akashi comentou com certa ironia e deboche.

— Fique quieto, Maria. — Makoto falou se debruçando na borda para sair da piscina. — Agora está bem mais fresco.

— Também vou sair, já estou ficando com sono. — Kise afirmou, também deixando a piscina. Depois de alguns segundos todos nós já estávamos fora da piscina e começamos a arrumar as coisas para podermos ir dormir.

— Boa noite, Midocchi. Durma com os anjinhos. — Kise falou me dando um abraço apertado e após se dirigiu a seu quarto. Todos fizeram o mesmo, só não me abraçaram.

— Você tem mais uma lanterna por ai para eu poder iluminar o banheiro enquanto tomo banho? — perguntei.

— Não, mas leve essa. Eu posso usar a luz do meu celular. —disse me emprestando a lanterna. Não demorei muito no banheiro e já me deitei na cama nova que havia chegado há pouco tempo. O Takao insistiu até comprarmos uma de casal para dormirmos nela juntos.

— Vou tomar o meu e já volto para te fazer companhia. — falou pegando a lanterna da minha mão e indo para o banheiro.

Não demorou muito também e logo se deitou ao meu lado.

— Gostou da cama nova?

— Sim, ela é muito boa. — e realmente era. — A cama da minha casa é igual a esta.

— Sério? Então acho que fiz uma excelente escolha. — Takao falou esboçando um leve sorriso. — Espero um dia conhecer sua casa e sua família na capital.

— Algum dia te levo lá. Ah! Meu pai não pode nem sonhar que você anda dando em cima de mim. — avisei um pouco tenso.

— Por que, Shin-chan?

— Ele te mataria se descobrisse. Ou então me mataria. Ele não aceita essas coisas.

— Eu quero correr o risco, Shin-chan. Não tenho medo. Meu lema é não ter medo de nada, por isso sou capaz de enfrentar tudo para ficar contigo.

— Bonito, mas estou falando sério. Meu pai é louco e é capaz de tudo. Odiaria se ele fizesse algo de ruim com você. — expliquei um pouco preocupado.

— Fique tranquilo. Prometo tomar cuidado e ele nunca saberá por ninguém além de nós dois. Shin-chan?

— O que foi? — perguntei já tirando os meus óculos e colocando sobre o criado mudo.

— Você realmente não gosta de mim ou só fala aquelas coisas por brincadeira?

—Eu só fico brincando, não tenho nada contra você.

— E a favor? O que você tem a favor de mim?

— Você até que é legal, mas vamos parar com isso. Não estou a fim de ficar respondendo nada há esta hora. Estou com sono e precisamos descansar.

— Tudo bem, mas não vou te deixar dormir agora. — falou me virando para o lado que ele estava. — Você não tem mais para onde fugir.

— Você não sabe o que está fazendo, Takao. — o rapaz me fitava e todo o meu corpo se arrepiou. — Isso o que você quer é muito perigoso.

— Eu assumo o risco. —ah! Falou e logo após mordeu o meu pescoço me deixando sem nenhuma reação. É realmente muito bom e não pude aguentar.

— Pare com isso, Takao. — ele não parou e, mesmo com a minha tentativa de negar aquilo, começou a desabotoar a minha blusa e a puxou fortemente para tirá-la de mim.

— Me deixa... — sussurrou em paralelo as mordidas no meu corpo e não resisti mais...

Me deixei levar...

***

— O café ficará pronto daqui a pouco! — Makoto passou pelo corredor e bateu na porta para me avisar.

Acordei de forma tão abrupta e as cenas que vi foram tão fortes que nem reparei de imediato que a luz já havia voltado. Estávamos sem nossas roupas, porém, um lençol fino nos cobria e, até onde pude ver, meu corpo continha diversas marcas de mordidas e manchas roxas como chupões. Takao ainda dormia profundamente e apresentava diversos arranhões nas costas e no peito...

Que noite... Nem consigo imaginar a besteira que eu fiz, mas sei que não sou de ferro e minha carne é mais fraca do que eu pensava.

— Takao, acorde. — chamei, balançando o ombro dele.

— Que foi? O que está acontecendo? — levantou com um pulo na cama.

— O café está quase pronto. — comentei colocando novamente meu pijama.

— Vamos ficar na cama mais um pouco. — pediu se deitando novamente. — Vamos pro segundo tempo, vamos. Vem cá, vem. — puxou meu braço, mas não mudei de ideia.

— Não. Vá já tomar o seu banho para podermos descer logo. Vá já ou aproveito que seu celular está na minha mão, tiro várias fotos suas e coloco na internet. — o menino se levantou com um pulo e correu para o banheiro sem mesmo hesitar. Tomamos banho e depois descemos para nos juntar aos outros.

— Bom dia garotos! — Kise nos desejou quando chegamos à copa. — Vocês dormiram bem?

— Sim, muito bem. E você? — Takao retribuiu a pergunta.

— Dormi bem até demais. Vocês sabem a que horas a energia voltou? — Kise perguntou.

— Cinco e pouca. — Makoto respondeu após tomar um pouco de café. —A sorte foi que eu acordei e pude ligar o ventilador porque estava tenso o calor.

— Estava mesmo. — comentei. — Acordei todo suado.

— Acordamos suados, Shin-chan. — Takao disse rindo um pouco. — Minha noite foi maravilhosa e não havia como ficar melhor. Nem o escuro nem o calor me incomodaram.

— Por que sua noite foi tão boa assim, Takao? — tremi ao ouvir a pergunta do Kiyoshi, só voltava agora o infeliz dizer o motivo para todo mundo.

— Porque... — se interrompeu e olhou para mim dando um leve sorriso. — Porque foi boa demais, só isso já basta para responder a pergunta.

— Até imagino o que aconteceu. — Makoto comentou sorrindo.

— O que, Makocchi?

— Finalmente o Midorima tirou a calça jeans para dormir. — o infeliz do Akashi respondeu para o Makoto e eles riram.

— Quietos, não falem o que não sabem! — protestei.

— O Shin-chan não dormiu só sem calça jeans, dormiu sem nada mesmo. — o idiota do Takao falou.

— Infeliz, fiquei quieto. — falei dando um leve tapa na cabeça dele.

— Tá bom, Shin-chan. — retrucou dando um leve sorriso irônico enquanto os outros meninos riam de nós.

— Mudando de assunto. Vocês sabem quando as nossas aulas vão voltar? — Akashi perguntou.

— Não sei, Akacchi. A secretária da universidade disse que iria nos ligar para nos informar melhor sobre o retorno às aulas.

— Enquanto isso nós ficamos no ócio aqui. Quero voltar a estudar logo. — reclamei. — Quero o meu diploma o quanto antes.

— Só você, Shin-chan. Eu só quero relaxar, depois me preocupo com diplomas ou estudos.

— Você veio para este fim de mundo para estudar, se fosse para relaxar poderia ter ficado na capital mesmo. — retruquei.

— Na capital não conseguimos ver o céu estrelado do jeito que estava ontem, lá tem muita poluição e barulho. Aqui é bem mais tranquilo e seguro que lá.— Takao retrucou.

— A capital é tudo de bom. — Kise falou. — Shopping, parques, restaurantes bons, praças e um monte de coisas. Eu tenho um pouco de saudade de lá.

— Eu também Kise. Minha casa fica num lugar tranquilo e moro de frente para um grande lago.

— Para quem mora em condomínios de luxo é boa mesmo, mas para as pessoas que não tem condição não é nada legal morar lá. — Makoto falou.

— Lá é uma selva de pedras que as pessoas precisam lutar para sobreviver a cada dia. — Takao filosofou. — É uma imensidão de cinza e preto que invade a nossa alma e nos enche de inseguranças e receios.

— O que é isso, Takao? Acordou como um filósofo hoje? — perguntei.

— Sim. Minha alma suspira de emoção por ter dormido ao seu lado. Por ter ouvido seus suspiros e por ter compartilhado minha alma contigo. — declarou puxando uma rosa do jarro e me entregando.

— Espero que esse seu espírito poeta não dure muito. É tão chato. — falei e ele não conseguiu manter a pose, riu.

— Você não é romântico, Shin-chan.

— Ainda bem. — ri. — Vou deixá-los aqui e vou relaxar um pouco. Estou com um pouco de dor de cabeça e quero dormir mais um pouquinho.

— Quer que eu vá com você, Shin-chan? Pode querer que alguém te faça companhia. — sorriu ironicamente.

— Acho que prefiro ficar sozinho. — falei e sai da copa indo em direção ao meu quarto. Preciso refletir um pouco sobre o que aconteceu nesta noite, foi tudo tão louco e rápido que nem deu tempo de pensar. Preciso colocar as coisas em seus devidos lugares para que eu não perca o controle da situação.

— Shintarou Midorima! — Makoto me gritou enquanto subia a escada correndo. — Eu esqueci de te falar mais cedo, mas seu pai ligou e disse que em breve virá aqui para conversar com você. Me disse que seu telefone estava desligado e por isso me mandou esse recado.

— Obrigado. — falei voltando a andar.

— Você gostou do que aconteceu entre você e o Takao?

— Acho que sim. — me virei novamente. — Ouvi os seus conselhos e gostei, mas estou um pouco confuso perante a isso e preciso pensar um pouco mais, sozinho.

— Tudo bem. Quando o almoço estiver pronto eu te aviso. Bom descanso e boa reflexão. Sei que vai escolher a coisa certa e com certeza ficará muito feliz com ela. — desejou e saiu me deixando sozinho no corredor.

É, realmente essa noite foi muito boa. Boa mesmo. Logo meu pai estará aqui e preciso arrumar um jeito de esconder tudo isso. Não quero que a história se repita.

Continuei andando até que ouvi a campainha e um grito me chamando após o som da porta se abrindo. Desci e fui ver que era e para minha surpresa o meu pai já havia chegado.

— Bom dia. — falou ele esticando uma de suas mãos para me cumprimentar. — Como está?

— Estou bem agora. Nosso apartamento pegou fogos, ficamos hospedados em um hotel e agora estamos aqui na casa dos pais do Kiyoshi. O pior com certeza já passou. — respondi o levando para a sala de estar.

— Vim te ver e aproveitei para depositar dinheiro na sua conta e te trazer algumas cédulas para cobrir os seus gastos mais urgentes. Você não tem ligado muito ultimamente e sua mãe notou o seu abandono.

— Me desculpe pai, mas está tudo acontecendo tão rápido que nem estou tendo muito tempo livre para fazer as coisas. Em breve as aulas irão voltar e meu tempo vai se estreitar ainda mais.

— Se quiser eu posso te arrumar um apartamento próximo à universidade. Isso vai te economizar algumas horas de estrada por dia. — falou ligando o celular para observar a hora e em seguida o guardou novamente em seu bolso.

— Não precisa. Estou gostando daqui, é bem agradável... — fui interrompido com a mão do meu pai que desviou a gola da minha blusa para evidenciar a marca roxa que havia em meu pescoço.

— Um chupão meu filho? As coisas estão realmente boas por aqui. — comentou examinando a marca. — Espero que a história não esteja se repetindo.

— É só um hematoma sem importância. — justifiquei.

— Já fui adolescente igual a você e sei que não é só isso. Sua mãe e eu adoraríamos conhecer a autora dessa marca. Ela estuda com você? — hesitei em responder.

— Ele, pai. Não é uma mulher como pensa. — respondi e ele no mesmo momento fechou a cara e me olhou de um jeito diferente. — Sei o que pensa sobre isso, mas não me importo muito. Não há nada entre nós dois e o senhor não precisa se preocupar com a velha imagem tradicional da nossa família que precisa ser mantida a todo custo. Já até decorei a sua fala para te evitar alguns minutos. — falei de forma cantada para enfatizar a velha ladainha.

— Espero que isso não vaze. Você sabe muito bem que estamos perto das eleições e isso não soa bem para os eleitores.

— Para os eleitores? Eles não estão nem ai pra mim, ninguém tem nada com a minha vida, contudo, tenho que sempre fazer a imagem do bom homem para o senhor garantir sua imagem para os estúpidos eleitores. — ironizei.

— Não estou brincando contigo, Shintarou. Desta vez não farei nada, mas que isso não se espalhe para o seu próprio bem. — ameaçou apontando o dedo para mim.

— Eu sei de tudo isso, pai. Eu não quero discutir com o senhor hoje. Estou cansado demais para isso.

— Ok. Vou embora, mas voltarei em breve para discutirmos e colocarmos as coisas nos seus devidos lugares. Até logo e espero que nunca se esqueça do que eu te disse. — falou se levantando e indo embora sem mesmo eu o acompanhar.

— Pai. — virou-se para mim perto da porta principal da casa. — Não se preocupe com nada. Não sou mais criança.

— Eu sei, Shintarou. É isso que mais me preocupa. — voltou-se novamente para a porta e saiu.

Fiquei parado observando o nada por algum tempo. Tantos problemas juntos e só eu para resolvê-los. Preciso de um ajudante sentimental para dividir esses fardos comigo. Após me sentir um idiota por ficar fazendo nada no meio da sala, subi novamente as escadas e me deitei na cama para poder relaxar pelo menos um pouco antes de ter que encarar os cinco novamente e, se por muito azar, o pestinha do filho do caseiro.

Midorima’s POV off

Notas finais
Obrigada por ler! :D