New Romantics — Interativa
2 o diário da princesa
Notas iniciais
Para muitas pessoas, domingo é um dia completamente tedioso. O final do fim de semana, véspera da segunda. Mas, para mim, era um dia incrível. O único dia em que uma princesa pode acordar a hora que quiser, o dia em que não preciso me preocupar em vestir o vestido mais pomposo do mundo e o dia em que as criadas não estão atrás de mim perguntando coisas e coisas.
A maioria das garotas gostaria de ser uma princesa, sei disso. Vestidos, joias, príncipes, coroas, todo mundo gosta disso. Na verdade, excluindo a parte dos príncipes, eu também gosto. Confesso que sou meio egoísta e valorizo muito meu conforto. Gosto de tomar banho na banheira comendo morangos e assistindo uma boa série.
Eu sou meio diferente das outras princesas. Não existem muitas herdeiras do trono negras. Só uma, na verdade. Nos países da América Central, as meninas, mesmo primogênitas, ainda não tem o seu direito ao trono. É meio triste, na verdade.
Também existe o fato de eu ser a única princesa que não está, ahn, nem um pouco ligando para os príncipes da realeza. Que eu me lembre, o único garoto que me apaixonei foi o Nate Archibald, de Gossip Girl, mas acho que não sou muito o tipo dele — snif, snif, mas tudo bem, eu posso conviver com isso.
OK, OK, eu estou enrolando. Apesar de que, realmente, eu me casaria com Nate Archibald sem pensar duas vezes. Eu sou assim, enrolo demais, sou nervosa demais, penso demais, me preocupo demais, tenho medo demais.
Eu gosto mesmo é das garotas.
Você pode me chamar de lésbica, mas eu não gosto de me rotular quanto isso. E, antes que comecem os sermões e blá, blá, eu demorei muito para me aceitar e sofri muito para tentar explicar a minha família, aos amigos próximos e a todos os cidadãos do país o que eu sou e como não devemos ter vergonha de ser diferente. Além de que você deve levar em conta que eu sou a princesa. Levante a voz para mim e veja sua vida passar diante dos seus olhos em menos de um minuto. Estou blefando, sou mole demais para mandar matarem alguém.
Enfim, vou parar de falar de mim, além de tagarela, eu sou leonina, desculpa. Minha mãe pediu para eu escrever literalmente tudo da minha vida aqui, e eu sei que ela vai vir espionar demais. Desculpa, mãe, mas a senhora não é muito discreta ao pedir para Evan vir aqui e pegar o diário.
Bem, eu tenho dezenove anos. Eu tenho 1,76 de altura, e quando tinha treze anos me preocupava que eu não encontrasse alguém mais alto que eu na minha seleção. A minha boca é bem cheia, e sempre faz parecer que eu chupei alguma coisa — não leve pro sentido ruim.
Eu amo ler. Meu pai passou essa paixão para mim. Gosto principalmente dos clássicos, mas o meu livro favorito, na verdade é Crepúsculo — que, ao contrário do filme, é fantástico. leia crepúsculo antes de falar algo. —. Eu gosto muito de músicas alternativas, indies, e adoro navegar pelo tumblr. Acredito em aliens, teorias da conspiração do governo, que são geniais, apesar da maioria ser mentiras, e que os brinquedos ganham vida a noite e tentam matar pessoas. Odeio palhaços e histórias de terror.
Minha comida favorita é sorvete de flocos, e eu gosto do dia porque a maior parte das coisas ruins acontecem ou são planejadas a noite. Meu filme favorito é Mean Girls, e eu tenho um twitter secreto para poder falar as coisas que sinto sem me preocupar com as críticas.
Eu tenho dois irmãos: Callie e Evan, ambos mais novos. Callie tem doze, e Evan sete. Eu amo eles e os protejo a qualquer custo, mesmo que não gostem disso.
E agora eu não tenho mais o que falar, hehehe. Acho que vou ir perturbar um pouco minha irmãzinha ou dormir. Não sei como isso vai funcionar, se eu vou começar escrevendo com um "querido diário" e tal. Talvez eu só pare de escrever e pronto. Como agora.
—
Fechei o caderno e pousei a caneta preta — minha cor favorita de caneta — na capa, tamborilando os dedos na bochecha. Eu estava com fome. Com vontade de comer uma panela de cobertura do bolo, na verdade. Calcei minhas pantufas de alien e desci a escadaria, em direção a cozinha, procurando Dorota. Ela trabalhava no palácio mesmo antes de nascer. Apesar de estar quase saindo de seus quarenta anos, me angustiava a ideia de ter que me despedir dela. Talvez, quando fosse rainha, eu a aposentasse e dava uma casa para ela próxima do palácio. Se fosse do seu agrado, claro.
— Dora! — sorri quando a encontrei em meio a panelas, dando uma olhada no que ela estava fazendo. — O que você está fazendo?
Dorota era praticamente minha segunda mãe. Eu tentava a ver todos os dias, pelo menos para dar um oi.
— Testando uma nova receita, Evie. — respondeu, claramente ocupada, mas parando um minuto para me oferecer um sorriso completamente maternal.
— Então não vou te atrapalhar. — subi novamente as escadas, me lembrando que tinha uma reunião marcada com a conselheira Jungwirth para falar sobre detalhes da minha seleção. Dei um pequeno sorrisinho ao perceber que, dos oito conselheiros da minha mãe, apenas três não era mulher. Scarlet Jungwirth era a minha conselheira favorita, era a mais realista.
Fui direto ao gabinete, encontrando Cate Blanchard muito concentrada em algum papel. Scarlet estava ao seu lado, opinando sobre algo, mas parou logo quando me viu sentar naquela cadeirinha de rodinhas.
— Vamos logo ao ponto, Evelyn: a maior dúvida de toda a população é como você vai conseguir reproduzir e dar um novo herdeiro para Illéa. Apesar de eu não achar nem um pouco importante essa pergunta na vida de uma mulher, um dos seus deveres é, infelizmente, procriar. E adoção foi a opção menos cogitada pelo povo em todas as entrevistas, então, acho bom você ter pensado um pouco nisso desde quinta.
Tomei fôlego diante disso. Eu achava ridículo toda a pressão para engravidar, mas eu precisava dar um herdeiro para Illéa, e não abdicaria nunca de meu trono.
— Inseminação artificial, esperma doado em clínicas de fertilidade, foram as únicas alternativas que pensei, Scar. Acho a adoção muito válida por uma série de motivos, mas não acho que precisamos nos preocupar tanto com isso.
Ela revirou os olhos castanhos, claramente não gostando da minha falta de interesse no assunto.
— Claro que precisamos, mocinha. Não podemos sequer pensar nisso. E outra dúvida da população é se essa seleção será noticiada como as outros. Sabe, os beijos, encontros com a princesa, blá, blá, blá, esse tipo de coisa. Não é muito normal em comparação com as outras seleções, mas como ninguém vai se mostrar homofóbico a essa altura do campeonato, podemos deixar isso em aberto.
Suspirei, sabendo que perderia todo o meu domingo, e pousei a cabeça na mesa.
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