New Perspective
7 Macaé - Clarice Falcão
Notas iniciais
— Se não for importante, juro que mato você. — Arthur gritou.
Well sabia que ele dormia durante a tarde pra conseguir se manter acordado nos cursos noturnos e nas aulas do dia seguinte, mas ainda assim o chamou.
No caminho para a casa do amigo, pensou consigo mesmo o que seria tão importante, mas não conseguia pensar em nada que fosse tão urgente. A única coisa que sabia era que se a notícia não fosse indispensável, iria estrangular Well.
— Cala a boca e me deixa falar. — O outro começou enquanto ele se espreguiçava mais uma vez. — Primeiro que hoje já é quarta-feira.
— Well, eu acho que posso ver o calendário sozinho. Passe pra a parte interessante.
— Eu tô tentando! Olha, como eu disse isso é só o primeiro ponto então fica calmo. — O garoto respirou fundo, como se estivesse se preparando para discursar. — Primeiro que hoje é quarta-feira e como a festa é na sexta, vamos começar a arrumar a escola a partir de amanhã.
Lay tinha falado com as freiras sobre usar a escola como espaço para a festa, mas Arthur não conseguia se lembrar de ela ter confirmado o local.
— Com tão pouco tempo, — Well seguiu falando. — decidi chamar a Mari, já que ela é a melhor pra arrumação e tal. Se bem que, pensando bem, ela é boa com praticamente tudo.
— Me chamou só pra isso?
— Não, chamei pra dizer que vou de Drácula.
Arthur sentiu uma vontade crescente de socar o colega. Depois de alguns segundos olhando pra a cara despreocupada de Well, passou de soco para jogá-lo da janela.
— Não, mentira, não era só isso, calma. — Riu. — A Jess vai ser minha Verona.
— Agora eu tenho um ponto pra você: quem diabos é Verona?
— Verona é a esposa do Drácula.
Arthur pensou em dizer que isso era só uma possibilidade. Pensou em perguntar por que ele não ia de Frankenstein. Chegou a pensar em comentar sobre Jess. Mas só pensou mesmo.
Imaginou Well criando uma enorme tempestade sobre qualquer uma das respostas e decidiu que era melhor encerrar aquele assunto e o melhor jeito seria iniciando outro assunto.
— Vou chamar a Mari.
— Porra cara, não! — Well levantou de uma vez.
— Que isso Well, tá louco? Queria ir com ela também?
— Arthur, você não entende absolutamente nada.
E ele admitia não estar entendendo nada naquele momento. Ficou calado, mas quando o amigo também se calou, a encará-lo, quebrou o silêncio.
— Eu não tô afim dela.
— Exatamente.
— Cara, eu não tô entendendo mais é nada. — Sacudiu a cabeça. — Você acha que é errado chamar pra ir naquela festa porque eu não pretendo agarrar ela?
— Ela acha que a sua intenção é agarrar ela.
Arthur fez uma careta, levantou e saiu. Well permaneceu em silêncio enquanto ele descia as escadas, furioso. Será que era obrigação dele ficar com Mari? Será que era obrigação dela? Alguém já parou pra perguntar?
Já estava do outro lado da rua quando Well parou em sua frente, impedindo a passagem.
— Well, saia da frente. — Arthur disse sem olhá-lo nos olhos.
— Não, você tá certo, eu não devia ter me metido. Desculpa.
Por essa ele não esperava.
***
Luan estava a alguns metros de casa quando a garota o chamou. Era uma menina alta, de cabelos escuros e roupas muito justas, mas ele reconheceu o sorriso que ela lhe lançou.
— Luan! — Ela correu até ele, rindo. — Não acredito que você também mora por aqui.
— Pois é, parece que somos vizinhos. — Ele se encolheu. — Desculpa, ainda estou tentando decorar o nome de todo mundo...
— Sem problemas. Me chame de Jess.
— Jess. Eu moro bem ali. — Ele apontou.
— Lu, quer dizer, tudo bem se eu te chamar de Lu? — Jess não esperou resposta. — Você mora exatamente do lado da Lay.
— Lay é uma loira baixinha?
— Não, essa é a Ju. Eu estava indo encontrar a Lay agora, quer ir?
Luan fez que sim com a cabeça. Sentia uma falta imensa dos antigos amigos, mas era ali que estava agora, deveria se acostumar com aquelas pessoas.
Jess o pegou pelo braço e o rebocou pelo caminho, conversando sobre qualquer coisa. Na verdade, ela estava sendo até muito simpática com ele, tentando incluí-lo nos assuntos.
Quando estavam perto de uma praça, mandou uma mensagem para a mãe avisando que ia atrasar e seguiu com a nova amiga até um banco de madeira, onde uma garota estava esticada.
— Lay, trouxe o Luan, tem problema? — Jess começou.
— Nenhum... — A garota abriu um sorriso enorme. — Oi Luan.
Ele sorriu de volta, ainda um pouco acanhado. Lay deu tapinhas no banco para que os dois fossem e sentar ao lado dela.
— Luan vai pra a festa? — Ela começou.
— Acho que não... É uma festa em casais e eu praticamente não conheço ninguém.
— Se não tivesse marcado com o João, juro que iria contigo. — Se virou para a amiga. — Já tem par, gata?
— Well me chamou...
Enquanto elas conversavam, a mente de Luan foi parar em outra dimensão. Mas isso só durou alguns segundos, até as garotas o trazerem de volta à realidade. Sem saber sobre o que elas estavam falando, resolveu mudar de assunto.
— Adorei sua redação...
— É, o Renato até copiou. — Jess ergueu as sobrancelhas sugestivamente.
As bochechas de Lay bem podiam ter sido dois tomates. Ela virou o rosto sem dizer nada por alguns segundos, até que Luan tocou seu ombro.
— É só que eu devia resolver meus próprios problemas, mas parece que só consigo ajudar as outras pessoas...
— Isso é meio paradoxal. — Ele começou, surpreendendo até a si mesmo. — Sabe, você só ajuda quem não pode se ajudar, então não ajuda a si mesma porque pode se ajudar, então não pode se ajudar e daí pra sempre.
— Paradoxos são muito complicados. E muito solitários também.
— Isso é porque todos eles são diferentes, mas todos também são iguais em uma coisa, vão se repetir pra sempre. E é nesse ponto que os paradoxos se unem.
— Está dizendo que em algum lugar tem alguém tão complicado quanto eu.
— Talvez esse alguém esteja do seu lado. — Jess sorriu.
Lay ficou calada por alguns instantes antes de se virar pra Luan.
— Acho que devia ir pra a festa. Vamos achar um personagem solteiro pra você.
Ele sorriu. Poderia se acostumar com aquilo.
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