New Perspective
9 Garotos - Leoni
Notas iniciais
A noite dos garotos era quase um hábito. Um sábado por mês eles reuniam o que João costumava chamar de “Clube do Bolinha” pra assistir filmes e jogar conversa fora. Um programa que parecia típico de garotas, mas que acabou virando uma espécie de ritual pra eles.
Desta vez a reunião foi na casa do Well.
Quando João chegou, Arthur já estava lá, deitado na cama, conversando com Well sobre alguma banda que os dois estavam ouvindo. Renato não demoraria muito a chegar, então sentou na cama e ouviu a conversa, comentando qualquer coisa de vez em quando.
O último garoto chegou encharcado e respirando rápido.
— Se vissem a chuva que acabei de pegar...
— Mas estava tudo seco quando eu cheguei. — João balançou a cabeça sem entender.
— Exatamente! Qual o problema do tempo com esse lugar? — Ele riu junto com os amigos, mas então ficou sério. — E olha que não é só o tempo que está mudando mais que deveria... O que foi aquilo com a Ju? Depois que a Lay chamou ela saiu correndo como se estivesse mais furiosa que um urso...
Well suspirou profundamente revirando os olhos. João olhou pra Arthur, esperando encontrar aquele olhar de reprovação que ele dava sempre que Well suspirava, mas só encontrou um par de olhos brilhantes de curiosidade. Não pôde evitar sorrir.
— O caso é que sempre que eu tento conversar com ela, ela surta! — Disse, jogando as mãos pro alto.
— O que exatamente você disse a ela? — Arthur tentava conter o sorriso.
— Ela disse que tinha uma reputação a zelar e eu disse que a única reputação dela era de puta e ela...
— Pode parar aí mesmo, chamou ela de puta?
— É.
Todos ficaram em silêncio observando Well, que parecia não ter entendido a pausa. Tudo o que João queria dizer era “meu Deus, que anta”. Na verdade, era só nisso que conseguia pensar.
— Cara. Você manda muito mal. — Arthur disse, com o sorriso desaparecendo. — Não acredito que chamou ela de puta.
— Mas eu estava zoando com ela! — Ele gritou, jogando as mãos pro alto.
— Do mesmo jeito que eu estava zoando com a Mari quando disse que queria que ela fosse minha Julieta.
— Do mesmo jeito que eu estava tentando acalmar a Lay quando ela terminou com aquele babaca — Renato disse, com a voz abafada pela camisa molhada que ele lutava pra tirar. — O caso é que nenhuma delas nunca vai entender esse nosso lado.
— Então é isso? — Well estreitou os olhos. — Não tem jeito? Todas as mulheres são malucas e o melhor a fazer é ficar longe delas?
Novamente todos se calaram, dessa vez encarando João, que refletia silenciosamente sobre o que fazer com Well a seguir. Não tinha falado com Ju depois do que aconteceu, porque ela simplesmente disse que estava tudo bem, era só um babaca sendo um babaca.
Mas se nem o próprio babaca estava bem, imagina como ela estaria se sentindo. Por um breve segundo, desejou virar Well do avesso, colocar num vaso de plantas com uma fitinha cor-de-rosa e dar pra ela de presente.
Ergueu a cabeça alguns centímetros e encontrou 3 pares de olhos em sua direção.
— Tão olhando pra mim por que?
—Queremos uma opinião de quem entende melhor do assunto. — Arthur incentivou.
— Não é porque ando com elas que entendo elas. Garotas não são meu forte, se é que me entendem.
— Acho que eu devia colocar minha camisa de volta. — Renato fingiu uma careta de constrangimento.
— Devia mesmo, porque se fizer outro comentário como esse, vou fazer você engolir ela. — Socou o ombro do outro, com a cara fechada. — Mas se isso serve de consolo, acho que nem mesmo elas se entendem, quer dizer, Ju saindo com John não me parece muito a cara dela.
— Aposto que logo, logo ele vai acabar entrando pro clube.
— Nem pensar! — Well aumentou o tom de voz. — Quando ela disse que ia ao baile com aquele...
— Por favor, não diga baile. — Arthur parecia enjoado. — Parece que a gente tá num filme das Vadias Americanas.
— Quem são as Vadias Americanas?
— Sei lá. Mas diz se não parece filme de loiras peitudas buscando roupas pra bailes? É nesse tipo de filme que se fala “baile”.
Todos concordaram com um aceno de cabeça. Com toda certeza, “baile” não era a palavra apropriada.
— Tá, baile parece meio americanizado. — Well admitiu. — Mas gostei da coisa das Vadias Americanas.
— Meu Deus... — João cobriu o rosto com as mãos, rindo.
— Não é sério, a gente podia fazer um filme real com isso.
— Tá Well, as filmagens começam semana que vem. — Arthur suspirou, rindo. — Madonna perguntou se podia fazer parte da trilha sonora.
— Mas é sério gente. Nós podíamos ficar ricos!
— Well, não viaja. — João pediu.
O garoto correu até ele, abraçando-o, falando mais rápido que João julgara possível, comentando sobre detalhes do filme e enredo e personagens e como isso enlouqueceria as freiras.
Renato estava rolando de rir no chão e Arthur parecia estar em algum ponto entre diversão e falta de paciência, enquanto Well girava, pulava, falava e sacudia João, tudo ao mesmo tempo.
— Apenas quero que diga que pode funcionar. — Gritava. — Pode, não pode? Temos chance, certo?
— Sim! Sim, você tem chance, Well! — João ergueu os braços. — Agora pare, bandeiras brancas!
— Bandeiras brancas, sim! Será o lema de Diana!
— Quem é Diana?
— É a capitã do time brasileiro.
— Time brasileiro do quê?
— Das Vadias Americanas.
Renato abriu a boca, mas depois a fechou, balançando a cabeça, como se achasse melhor ficar calado. Talvez fosse mesmo. João esfregava o topo do nariz sorrindo, quando percebeu que Well estava realmente falando sério.
Se levantou, agarrou Renato pela mão e o rebocou até a porta.
— Tchau, Well. — Disse por fim, descendo as escadas rindo, antes que ele os alcançasse.
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