New Perspective
10 Come & Get It - Selena Gomez
Notas iniciais
Mari não sabia se ria ou chorava enquanto se olhava no espelho.
Estava espetacular, para dizer a verdade. Não se achava que poderia conseguir ficar parecida com Julieta que Shakespeare descreveu, mas depois que sua mãe a obrigou a ir para a casa de Julia para se arrumar, por que, segundo a ela, Julia seria uma boa pessoa para ajudá-la a tomar vergonha na cara e se arrumar direito. E Mari estava surpreendida agora com o que sua amiga conseguira fazer.
Seus cabelos castanhos arruivados estavam presos em uma trança embutida que caia das suas costas até sua cintura; os fios soltos estavam espalhados pela trança e alguns caíam irritantemente em seu rosto. Não estava muito maquiada, até por que não gostava de gastar seu tempo se preocupando com batons, mas Ju a obrigara a usa até mesmo um blush. Segundo a amiga, estava parecendo uma defunta com olhos abertos.
Sua mãe conseguira se superar no vestido. Ela a ajudara a comprar, já que no mesmo dia que ela ia experimentar pela última vez, Well resolveu chamar Julia de puta e o circo foi lindamente armado.
Seu vestido era simplesmente mágico e fazia parecer que estava brilhando na luz do quarto azul de Ju. Por toda a sua extensão havia vermelho, desde as mangas até a calda. Os pequenos detalhes do corpete, que estava apertado até sua alma, marcando sua cintura e fazendo seus peitos parecerem enormes, eram dourados. As rendas e flores desenhadas a costura da calda eram todos dourados, e havia o que parecia ser gliter nele. As mangas iam do seu ombro até seu pulso, finas demais, fazendo com que talvez ela estivesse com frio, mas só talvez.
Não que está no sítio da família de Ju, que no momento parecia assustadoramente tranquilizante e arrepiante, ajudasse muito em relação ao frio e ao seu medo de fazer com que as coisas darem certo com Artur naquela noite.
Mari estava se sentindo um bolo de aniversário dourado e vermelho com uns milhões de cubos de gelo no recheio.
— VOCÊ ESTÁ TÃOOOOO LINDA — Ju gritou enquanto entrava em seu quarto, com um sorriso marcado pelo batom vermelho e os olhos castanhos brilhantes com a maquiagem preta, deixando-os menores ainda.
Seu conjunto preto de 1001 Noites era completamente diferente da roupa descente de Mari, por isso ela não evitou em sorrir quando viu a amiga pronta. Julia usava um top preto tomara-que-caia, e sua costura era formada em flores elegantes quase imperceptíveis. Sua barriga lisa estava amostra e a saia longa demais pra sua amiga pequena arrastava enquanto ela andava pelo quarto.
A parte de baixo, também preta, só tinha seu fecho de cor dourada. Seu tecido era transparente quando chegava ao meio das coxas e descia até os pés em suaves ondas. Ela obviamente estava usando um short de lycra por baixo da saia fina, porém o tecido da saia balançava enquanto ela andava para todos os lados colocando suas joias que conseguira comprar de última hora.
— O que você fez nesse cabelo, Ju?
— Passei sabão de coco. — Ju disse com um sorrisinho sacana no rosto e Mari riu. Os cabelos dela estavam soltos, tão grandes que chegavam na altura do fecho dourado da saia. Os cachos se espalhavam pelo ombro dela e a tiara/coroa que estava em sua cabeça a fazia parecer uma princesa indiana falsa.
— Você está parecendo uma princesa indiana atirada para os sheiks enquanto seu pai negocia seu casamento. — Mari não resistiu.
— E você uma Julieta muito descarada e certinha pra sua fama de noviça rebelde. É por isso que eu odeio os Montecchio.
— Você sabe que a Julieta era uma Capuleto, não é?
— Eu sei que a Julieta é minha e ela pode ser quem eu quiser. — Sua amiga virou e colocou as mãos na cintura, olhando-a nos olhos. Mari sentiu o frio na barriga novamente. As palmas de sua mão estavam suando. Irritante. — Senhorita Marianaaaaa, a senhora está muito calma pra quem vai pro baile com Artur....
— Julia, bem que você poderia fazer o favor de calar a sua boquinha vermelhinha. Se não, daqui a pouco ela vai é ficar vermelha de outra coisa e te garanto que não irá ser um batom. — Mari controlou a vontade de mexer no cabelo e, imitando Julia, colocou as mãos na cintura.
— Mari, você está muito violenta. Se controle-se porque daqui a pouco mozão chega e você está com essa carinha de bunda.
—Não vou nem falar nada da senhora. Só vai com John Snow pra Well ficar com raiva. Suja falando da má lavada.
— Vou te dar uma voadora. — O rosto de Julia ficou levemente corado e ela parecia que queria sorrir, mas continuou mantendo a carranca. — Eu nem sabia que o Senhor Bipolaríssimo estava com raivinha por causa disso. Estou pouco me importando.
— Quem sabe se você falar isso vezes o suficiente, você acabe acreditando nisto. — Disse.
Ju rolou os olhos e parou em frente ao espelho, já pronta. Sua rasteirinha era gladiadora, indo até a altura do joelho. Mari nunca vira ela tão bonita. Estava fabulosamente fabulosa, com todas as joias e sendo totalmente oposta de Mari (como sempre). Já Mari usava uma sapatilha bem simples, que estava completamente coberta pelas camadas de vestido.
As pulseiras diferentes, brilhantes e irritantes de Julia faziam barulho todas as vezes que ela levantava o braço para ajeitar a coroa. Julia usava umas quinhentas pulseiras, milhares de anéis e um brinco dourado que batia em seu ombro todas as vezes que mexia a cabeça.
— Está pronta? — Perguntou Julia, enquanto digitava alguma coisa no celular.
— Mais impossível.
Mari sorriu mais uma vez. Talvez o fato de ir com Artur a deixava tão nervosa que ela tentava pensar em tudo sem sentir aquele frio na barriga. Tudo estaria perfeitamente pronto no salão, como elas deixaram. O dia estava sendo tão perfeito que Mari tinha medo do que poderia acontecer depois de tantas coisas boas.
Ela pensara sempre no pior lado das coisas, para evitar decepções, mas quando ouviu a buzina do lado de fora, o frio em sua barriga cresceu, mas a sensação de esperança que tudo sairia bem naquela noite não a deixou.
***
Quando Jess chegou na festa, não sabia exatamente o que pensar, o que sentir, como agir, com quem falar e se largava seu par em algum canto e ia dançar. Seu vestido medieval era ligeiramente curto na frente e longo atrás, no melhor estilo sereia e a parte curta indo do meio das coxas e se alongando até o chão.
Seus cabelos castanhos estavam presos em um rabo-de-cavalo no alto de sua cabeça, e ela tinha vontade de tirar todos aqueles 600 grampos que estavam prendendo tudo no lugar.
Well estava tão bonito de Drácula que seus cabelos castanhos claros chegavam a brilhar nas luzes dos postes do pátio, graças ao gel, enquanto andavam em direção a festa. A capa preta e a camisa branca de botões, dramaticamente suja de sangue de mentira dele faziam-no parecer um vampiro muito gostoso.
— Eu deveria ter colocado lentes vermelhas. — Refletiu, enquanto andavam e ele passava seus braços pelo ombro dela. Jess sentiu o cheiro tentador do perfume de bala de menta e sabonete de baunilha que vinha dele.
Ela tinha medo disso. Tudo em Well dizia para ela se aproximar porque nada demais iria acontecer; ela não ia se machucar, eles seriam felizes, teriam 2 filhos e comeriam pizza no jantar durante todos os anos de suas vidas.
Sem falar que ela tinha sérias suspeitas em relação a ele e Ju. Imagine se ela ficasse com o garoto que sua amiga gosta? Isso nunca aconteceria. Porém ela aceitara ir com Well no baile das Vadias. O que isso significara para ele? Provavelmente aquela noite só seria mais uma qualquer na vida dele, entretanto Jess tinha esperanças de que esta fosse uma daquelas noites que valiam a pena serem lembradas.
— Está me ouvindo? — Ele perguntou.
— Claro.
— Se quiser, pode dançar quando chegarmos lá. Eu, hm, não sou muito de dançar, mas se você quiser...
Era impressão dela ou ele estava corando? Jess não conseguiu conter o sorriso e segurou a mão dele que estava por cima de seu ombro. Estranhamente quente.
— Eu adoraria. Não pense que vai ficar resolvendo as coisas o tempo todo, até porque o senhorzinho vai está muito ocupado dançando comigo.
Os corredores agora estavam completamente lotados de luzes neons e escuro. Jess não conseguia ver os armários, os panos coloridos se estendiam por todo caminho até a porta do salão tampando todos e eles, e fazendo-a se sentir dentro de uma balada colorida.
Dois refletores destacavam uma palavra amostra na porta. Jess quis acreditar nisso, pois esta seria a primeira festa dela naquele ano e tudo o que ela mais criara foi esperança que fosse exatamente aquilo.
— Seja bem-vinda à melhor noite de sua vida! — Well disse com um sorriso tão grande que as palavras escritas em néon na porta fizeram todo o sentido.
Bem grande e colorido, antes de abrir a porta, podia-se ler “Paraíso”.
***
Ju já havia chegado há uma hora e provavelmente já havia dançado mais do que qualquer formando que estava ali. Ela duvidava muito que alguém tivesse dado algum tipo de droga (sim, em um colégio de freiras você pode arrumar drogas), mas de algum jeito estava hiperativa.
John estava com uma túnica preta de manga, e sua calça branca estava suja logo no começo da festa. Ele estava lindo, não bonito. Isso seria um eufemismo de sua parte se dissesse que estava bonito.
Os cabelos castanhos estavam em uma completa bagunça e os olhos estavam brilhantes. Sua boca avermelhada parecia que estava gritando “ME BEIJE, EU SEI QUE VOCÊ QUER, SEI QUE VOCÊ ESTÁ QUERENDO” todas as vezes que ela se aproximava. Como a vida pode ser tão injusta?
— Quer alguma coisa para beber? — Perguntou, com aquela voz injustamente rouca e aquele cheiro de perfume caro. Well tinha cheiro de baunilha, que era....
Não. Ela se recusaria em pensar em Well naquela noite. Aquela era a sua noite e nada iria estragar aquilo. Nem mesmo o cheiro maravilhoso de sabonete de baunilha que Well tinha.
— Nada com álcool. Não quero ficar vomitando na sua calça limpa quando isso tudo terminar. — Ju disse meio alto, já que Debs e Rakel estavam colocando músicas tão legais e de estourar os tímpanos que Ju não estranharia se tivesse que ir ao médico depois do baile das Vadias.
John gargalhou suavemente, com os dentes brancos a mostra. Como ele conseguia ser tão perfeito?
— Você sabe que a última coisa que a minha calça está é limpa. Mas bem que eu gostaria de ver você vomitando pelo menos uma vez na vida. — Ju riu e olhou para os olhos brilhantes de John.
— Isso foi bem nojento, se você quer saber. É a segunda vez no ano que você faz algo nojento, não seria surpresa se o seu beijo também fosse nojento — Julia tinha um sorriso sapeca no rosto e não se segurou para jogar o verde.
John sorria também. Julia sabia o que viria a seguir e ela adorava o fato de que aquilo estava realmente acontecendo com ela.
— Vem aqui e vamos ver se isso é verdade ou mentira. Mas eu te garanto que ao invés de colocar tudo para fora... — ele se aproximara, colocando as mãos na sua cintura, puxando-a para perto. Ju sentia sua respiração dificultar e sabia que se quisesse o cara comendo na sua mão, teria que fazer o inesperado.
Seus narizes estavam se tocando quando ela interrompeu.
— Ao invés de colocar tudo para fora, eu converso com você quando voltar com a minha bebida. — John riu e soltou. Se virando com as mãos erguidas, ele foi em direção ao bar.
Quando ela pensou que talvez fosse se recuperar do choque, sentiu o maldito cheiro de baunilha atrás de si. Ela se virou com um sorriso sarcástico no rosto, o melhor que ela podia oferecer depois daquela cena e quase sentiu o soco da vida no estomago quanto viu como Well conseguira ficar tão bonito quanto John.
Muito obrigada, Vida, por me proporcionar a capacidade de ser otária em menos de 10 minutos. Eu também te amo.
— Você está ótimo. Imagino que metade das garotas daqui já tiveram um ataque só de te ver com esse cabelo emplastado de gel. — Ela colocou o máximo de educação que pôde na voz. Daqui a pouco ele vai embora, calma, pensou.
Ele sorriu aquela droga de sorriso sarcástico e olhou-a maldosamente.
— E você está tão bonita quanto as vadias que rodam bolsinha na minha esquina. — O veneno era tão aparente em sua voz quanto a maldade em seus olhos.
— Me poupe, eu não sou obrigada a aturar isto. — Disse cansada. Estava farta daquela troca de gentilezas, e ele não estragaria a sua noite. Se virou e começou a andar para a pista de dança.
Sentiu a mão absurdamente quente de Well envolver seu pulso, obrigando-a a virar-se para ele. Os olhos de mel estavam confusos e toda aquela maldade estava desaparecida deles. Well era tão estranho.
— Me desculpe. Eu... eu não sei... olhe só o que você faz comigo?! É tão estranho... não consigo explicar. — Ele suspirou pesadamente e ela não entendeu nada. Não tinha tanta importância assim para ela se dar ao trabalho de entender.
Porém compreendeu que ele estava tão confuso em relação as sacanagens que a vida fazia quando ela. Por um momento, odiou compreender tão bem o que Well estava sentindo, odiou o fato de que eles serem tão parecidos a confundir mais ainda e, principalmente, isso de não conseguir odiar ele.
— Você está sendo bem idiota essa semana. Não sei se devo te perdoar.
— Mais idiota que o seu novo namoradinho? Impossível. Culpe a si mesma por isso.
— Não fala assim dele. Ele é legal.
— Legal? Legal, Julia? Sabe quem é legal? EU. EU estou aqui te avisando que esse babaca não vale a pena; EU estou aqui te dando a porra da minha atenção enquanto deixo meu par passeando; EU, merda, que estou aqui quando você precisa; EU, Julia. Você é absurda.
Ele estava com os olhos mel quase castanhos de raiva. A cada eu que ele dizia, mais apertava seu pulso. Ela estava assustada. Não estava entendendo a raiva dele nem o porquê daquilo, mas sentia que tudo o que ele falara fora verdade. Querendo ela ou não, aquilo tudo estava plantado nela.
Então, naquele momento, ela teve a pior ideia de toda a sua vida.
— Eu tenho uma proposta para você, Raiva. — Disse, com a voz neutra.
— Você viu Divertidamente, não foi?
— Isso não importa agora. Vai querer ouvir a proposta ou não? — Foi obrigada a rolar os olhos diante de tamanha lerdice. — Mas antes, preciso saber se você está louco o suficiente para aceitar.
— Espera.
Nesse exato momento, além de ter começado a tocar Hey Mamma, do David Guetta, um garoto vestido de índio passou segurando uma bebida azul. Well tomou da mão dele, ainda sem largar o pulso dela e virou o copo.
— Pode falar agora. — Julia queria rir das bochechas coradas dele, mas focou e olhou nos olhos dele quando disse.
— Você larga seu par e eu largo o meu. Passamos o resto da festa juntos e nunca mais falamos disso e voltamos a agir normalmente amanhã de manhã. — Colocou toda a seriedade que pôde na voz e se segurou para não soltar as risadas que estavam presas na sua garganta.
— Mas... o que todo mundo vai pensar? Amanhã vai está o planeta inteiro falando... preciso de tempo...
— Não temos tempo. Vou resolver isso agora.
Uma menina vestida de Mulan passou rindo e segurando um copo rosa na mão. Como eles passavam no momento exato, Julia não sabia, mas pegou da mão dela e entregou para ele. Novamente, virou. Quando olhou para ela, seus olhos estavam tão divertidos que ela começou a rir.
— Isso é a maior besteira que eu faço na minha vida. E eu digo sim.
Julia nunca achou uma noite mais perfeita para cometer besteiras como aquela.
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