New Perspective
19 Bate a poeira - Karol Conka
Notas iniciais
— Pra quê? — Well gritou.
Renato revirou os olhos e forçou um sorriso em escárnio, mas Artur já esperava esse tipo de reação e tinha assumido o risco.
Depois de descobrir que a culpa pelo incidente na festa à fantasia não era inteiramente de John, não conseguiu se conter e teve de chamá-lo para o encontro do “quase clube” deles.
Primeiro o garoto hesitou, sem entender o convite, mas depois de alguns minutos de insistência e olhos cheios de culpa, finalmente aceitou participar por um dia. Esse teria sido o fim perfeito pra Artur, mas claro, tinha que dar conta de outros dois caras insatisfeitos.
— Vocês querem o que? — Perguntou. — Ficar olhando feio enquanto o cara segue a vida?
— Você fala “segue a vida” como se tivesse esquecido que ele foi atrás da Ju ontem. — Renato ergueu as mãos. — Pra mim está ótimo ele seguir a vida, desde que bem longe dela.
— Ela controlou a situação.
— Porque Maria obrigou.
— Maria estava certa.
Os colegas se inclinaram pra trás e o encararam de sobrancelhas erguidas.
— Mas será que todo mundo enlouqueceu? — Well sacudiu a cabeça.
— Enlouqueci ou você não quer admitir que a menina pode se defender sozinha, porque aí perderia a utilidade na vida dela.
Pra falar a verdade, Artur só se deu conta do que disse poucos segundos depois, quando Renato o encarou sorrindo com as sobrancelhas mais erguidas do que antes.
Era bem verdade que estava farto de Well e seu complexo de macho alfa, mas tinha a leve impressão de que ter dito aquilo não ajudaria muito na sua causa.
Depois de alguns segundos, Renato começou a se afastar, indo em direção à porta do quarto.
— Perdoar parece bom pra mim, afinal eles já se entenderam, né? Pra quê mágoa quando se pode ter boas recordações e tudo mais...
Os dois garotos ainda estavam de pé se encarando, ambos incrédulos com a conversa que acabaram de ter.
— O que quer que eu faça? — Artur perguntou?
— Cale a droga da boca. Eu não tô nem aí pra a Julia.
— Não? E o que eu vi na estufa?
Well ficou vermelho e se calou. Teve vontade de jogar as mãos pro alto e pedir desculpas, mas sabia que se fizesse, teria que carregar o sentimento de que podia ter feito algo.
Ainda se sentia culpado por saber a verdade sobre a aposta. E pior, sentia culpa por Jess. Ela que devia estar procurando um jeito de acalmar os ânimos, não ele, mas a garota parecia ligar muito pouco ou quase nada pra John sendo odiado por causa de uma aposta que ela podia ter parado.
— Eu não estou nem aí pra ela. — O garoto repetiu, exatamente como ele sabia que faria.
Conteve um sorriso vitorioso antes de usar o argumento final.
— Então por que odeia tanto John?
***
John estava sentado na cadeira giratória do quarto de Artur, que estava sentado na cama com Well ao lado, sacudindo a cabeça de vez em quando parecendo revoltado.
João, por sua vez, estava sentado no chão, fingindo não notar o silêncio. O próprio Renato, deitado em um banco no canto do quarto, tentava não olhar muito pra nenhum dos garotos ali.
— Essa é a situação mais estranha de todas. — John quebrou o silêncio.
— Acha mesmo? — João sorriu. — Devia ter visto depois que a Julia voltou da conversa de vocês.
— Minha mãe odeia meu pai, mas é quase melhor amiga da namorada dele. — Renato reclamou. — Isso parece normal pra vocês?
— Pelo menos nunca pegou nenhum deles se agarrando.
— Esse assunto me lembrou de algo que eu preferia esquecer. — Artur fez uma careta pra Well, que deu o menor dos sorrisos.
Aquela miniatura de sorriso foi o que bastou pra animar todos eles. Pra não perder a chance, Renato agarrou um travesseiro e jogou pra João.
— Um pedido?
— Freiras mais jovens. — Ele respondeu.
— E pra que você ia usar isso?
Os cinco riram até o garoto jogar o travesseiro de volta.
— E você também não, ou a coisa com Lay acabou?
— Tem nada com ela. — Tentou falar como se não desse muita importância. — A gente tá ficando, ela ainda não abriu pro pessoal não sei se por insegurança, pra mim também foda-se, tem que esperar o tempo da menina. Porque mesmo que a gente se goste, a escolha é dela, entende?
Os garotos o encararam em silêncio. John sorria concordando, mas os outros três arquearam as sobrancelhas o mais alto que conseguiram.
Ele próprio mal podia acreditar no que tinha dito. Tentou se lembrar de ter escrito isso em algum lugar ou repassado o texto na mente em frente ao espelho até se dar conta de que realmente tinha pensado aquilo naquela hora.
Nunca tinha acontecido de pensar em alguma coisa perfeita pra uma ocasião até agora.
— Falou como um verdadeiro cara compromissado! — Artur aplaudiu.
Renato murmurou um “ah, tá” e atirou o travesseiro pra Well.
— Fala alguma coisa.
— Isso não foi uma pergunta. — Ele grunhiu.
— Tá, então... Sei lá... Uma data?
— 31 de outubro.
— Pelo Halloween ou pela viagem da turma?
— Uma pergunta por vez.
Well olhou em volta, mordendo a parte interna da bochecha e Renato teve vontade de cobrir os olhos. Sabia perfeitamente onde o travesseiro ia parar.
Todos eles sabiam. Só não esperavam que a força do lançamento fosse fazer a cadeira deslizar pra trás, caindo com John e tudo. Pelo salto que deu, pareceu que Well também não esperava aquilo.
— Meu Deus, se machucou? — Ele perguntou quase ao mesmo tempo dos outros.
— Não. — John riu. — Mas acabou de perder sua pergunta.
Eles riram enquanto voltavam pra seus lugares, mas Renato estendeu a mão pra John, que hesitou alguns segundos antes de aceitar. Quando seus olhos se encontraram, suspirou e comentou, se rendendo:
— Mandou bem.
O outro garoto sorriu, vitorioso, mas certamente não mais do que Artur estaria sorrindo naquele momento.
Talvez, pensou, isso dê certo.
***
— A vida é assim. Quando você pensa que está na sarjeta, vem um furacão e derruba sua casa. — Anna disse e Julia riu.
João não tinha prestado atenção no que elas estavam falando, mas sorriu também.
Depois de passar uma tarde estranhamente calma na casa de Artur, não conseguiu negar a saída com as garotas. Só não esperava que Gabriel viesse junto.
Não que tivesse algo contra ele, afinal era o irmão de sua melhor amiga e sempre agia como um cara bacana, fora o fato de ser incrivelmente lindo. O problema mesmo era a situação em si.
Ele e Anna namoraram por duas semanas no ano anterior, mas quando ele voltou pra a faculdade, tudo que ela teve foi silêncio.
O cara não teve a decência de ligar pra ela terminando, simplesmente parou de respondê-la. Julia teve que perguntar a ele o que estava acontecendo pra que, finalmente, Anna pudesse ouvir que estava acabado.
Nas primeiras semanas ela ficou arrasada, nos meses seguintes fingiu não ligar e agora parecia que tudo tinha sido substituído por raiva.
Agora o garoto caminhava um pouco atrás deles, parecendo pouco interessado na conversa.
Os 4 caminharam em silêncio por alguns instantes até que avistaram Jess deitada em um dos bancos do parque.
— Jess! — João a chamou. — Tá fazendo o que aí?
— Esperando Well. — Ela comentou, se levantando e completou quando viu Julia — Mas acho que ele já foi pra casa.
Eles se calaram por um instante, mas Ju tentou desfazer o clima de constrangimento.
— Jess — Ela comentou — lembra do Gabe?
— A gente não se conheceu ainda... — A garota parecia aliviada pela mudança de assunto.
— Então Gabe, essa é Jess, uma amiga e Jess, esse é meu irmão.
— Oi, irmão da Ju.
Ele sorriu.
— Oi, garota bonita.
João encarou Anna, prendendo a respiração por alguns segundos e ficou aliviado ao ver que ela parecia estar lidando bem com aquilo.
— Olha quem fala... — Jess sorriu. — Não sei por que o Well está demorando tanto...
— Não devia ligar pra isso. — Gabriel comentou.
— Acha?
— É. Quem deixa uma garota linda sozinha?
João sentia que algo assim ia acabar acontecendo, podia até dizer que já sabia: coisas acontecem quando garotos bonitos não mantém a boca fechada.
E nesse assunto ele tinha
***
Well estava pingando de suor.
Depois dos 40 minutos na fila pra pagar a bendita conta pra Rakel, tinha até se esquecido de Jess. Nem se lembrava mais por que tinha chamado ela, pra começo de conversa.
Estava de bobeira em casa, até a “quase irmã” entrar no quarto correndo, pedindo pra pagar uma conta de celular e como estava conversando com Jessica, acabou perguntando se ela não iria junto.
Enquanto estava cozinhando na fila do caixa, percebeu que a data de vencimento era dali a dois dias, mas Kel certamente teria um bom motivo pra tirá-lo de casa no domingo a noite.
Voltou sem pressa para o lugar onde tinha deixado Jess, pra descobrir que ela não estava mais lá, mas também não demorou muito pra encontrar.
Primeiro, estranhou a confusão em um canto mais afastado do parque, mas tudo se esclareceu quando a viu. Um pontinho de cabelos cacheados e dourados, se mexendo de um lado pro outro, parecendo furiosa. Julia.
Aquela garota deixa um rastro de destruição por onde passa.
Não estavam mal depois do beijo na estufa. Mas como se tratava deles dois, também não estavam bem.
Chegando mais perto, conseguiu ver o que estava acontecendo. Ver e ouvir.
— Não, porque sabe que ela está errada! — Ju gritou pra Anna.
— Eu não disse nada! — Jess gritou de volta. — Já parou pra pensar que pode ter algo errado com o comportamento do seu irmão e não com o meu?
— Pelo amor de Deus... — João murmurou.
— Ah, então agora você não disse nada? Ele estava te elogiando! E estava bem certo, porque eu também achava que não merecia ficar largada e sozinha naquele banco!
— E eu só respondi, porque deixar uma garota largada e sozinha foi o que ele fez! Será que o ano passado foi apagado da sua memória?
— Acha que não lembro? Ela é minha melhor amiga!
— E eu tive que defender ela? Que tipo de amiga...
Julia a interrompeu com um tapa.
Well, que estava a alguns metros de distância, começou a correr até elas, enquanto Jess pulava em cima de Ju.
As duas rolaram pela grama abaixo, trocando tapas, gritos e arranhões enquanto João tentava separá-las. Anna, que esteve calada durante a discussão, continuou parada onde estava, parecendo perplexa.
Well agarrou Ju e a ergueu. Geralmente, ela era bem leve, mas agora, se debatendo e gritando insultos impronunciáveis, parecia pesar duas toneladas.
Quando conseguiu levá-la a certa distância de Jess, abriu os braços e ouviu a garota bater os joelhos no chão. Checou os próprios braços por alguns segundos, franzindo a testa pra as marcas de unhas que queimavam sua pele e então voltou a atenção pra ela.
— Meus parabéns! — Ju gritou, se levantando, com os cabelos apontando em todas as direções. Jess, sentada no chão com as mãos erguidas, não parecia muito melhor. — Ótima escolha de companhias, Well. — Ela se aproximou dele e sussurrou alto o suficiente pra os outros ouvirem — Espero que ela destrua seu coração.
— Assim como seu irmão fez com a Anna? — Jess gritou o mais alto que pôde.
Julia voltou a andar na direção dela, mas Well segurou seus braços até ela parar de se debater e cair no chão mais uma vez, respirando pesadamente.
No fim da noite, cada um voltou pra sua casa sozinho e em silêncio. Well e João tinham os braços cortados. Julia e Jess (que evitaram contato visual e saíram por caminhos opostos), estavam com os rostos vermelhos. Mas Well percebeu que era Anna a que parecia pior.
Acho que os cortes dela são piores que os meus. Refletiu enquanto saía do parque e a deixava ali, parada na mesma posição de antes, parecendo perplexa.
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