New Perspective
20 Tell Her You Love Her - Echosmith
Notas iniciais
Anna estava a certa de meia-hora com a cabeça encostada na bancada de mármore da cozinha do seu pai. Não estava assimilando muitas coisas das quais sua mãe falava. Ela estava dizendo algo sobre sua avó e o curso de argila que ela estava fazendo. Se deixou cair na bancada gelada quando sua mãe começou a dizer que iria visitar sua avó na primavera.
— Então ela disse pro professor que seus dedos não eram tão esguios pra fazer o Cristo Redentor, por isso ele acabou ficando parecido com uma estátua de Iemanjá... — parou de Anna sentiu o seu olhar pesar sobre ela. Suspirou pois já sabia o que viria a seguir. — O que está acontecendo, filha?
Com mais um suspiro, levantou a cabeça e fitou sua mãe. Seu rosto estava metade gelado e ela sentiu falta do frio da bancada. Como explicaria? "Ah, mãe, não é nada, é só a minha melhor amiga que saiu por aí brigando com nossa outra amiga porque as duas ouviram coisas que não queriam ouvir.". Não era tão difícil na teoria quanto era na prática.
— Estou ensaiando pra uma peça. Tudo o que terei que fazer é deitar e morrer. Essa peça se chamará "Vida e morte de Anna". O que acha? — as sobrancelhas bem feitas de sua mãe estavam arqueadas como se não tivesse acreditado em uma palavra que a filha havia dito. — Não está acontecendo nada.
— Você quer eu diga que tudo bem e que acredito em você porque você é a filha que eu mais confio, que irei esperar até você estar pronta pra falar sobre isso...
— Eu sou única filha que você tem.
—.... Ou quer que eu continue a perguntar e a pressionar pra você contar?
— Primeira opção, claramente.
— Isso é tão decepcionante. Eu esperava mais de você, única filha que eu tenho. — disse isso com um meio sorriso no rosto, mas estava bem claro que ela não ia pressionar Anna a contar que suas amigas caíram no pau por causar dela. — Vou comprar sorvete enquanto você fica se martirizando sobre sua vida.
— Obrigada, única mãe que eu tenho. Estarei aqui na mesma posição de 5 minutos atrás. — encostando a bochecha na superfície fria de novo, fechou os olhos e pensou nas opções que tinha.
Sabia que o pior de toda aquela situação era que Julia a ajudava sempre a tomar decisões difíceis e resolver problemas que geralmente iam complicando cada vez mais a sua cabeça. Agora, quando o problema era sua melhor amiga (mais especificamente o irmão dela), não havia como pedi-la para ajudar.
Tentar achar respostas para aquela bola de neve que arranjaram era a mesma coisa que tentar achar uma agulha em um palheiro. Anna tinha certeza que poderia piorar, mas pensar dessa forma em um momento tão delicado só iria fazer com que as coisas parecessem piores.
Chegou a conclusão de que o que a restava fazer era enumerar as opções tristes que ela tinha. Não eram muitas. Cianureto estava fora de questão até que chegasse a faculdade de medicina. O que restava era ligar para Julia e falar a verdade de um jeito mais delicado que Jess.
Querendo Ju ou não, tudo o que saíra da boca de Jess era real. Julia sempre teve facilidade de lidar com verdades. A mentira para a menina era uma das coisas mais imperdoáveis que havia, mas antes da mentira vinha a traição. Então era realmente difícil para aceitar que as duas coisas haviam acontecido com sua melhor amiga e quem havia feito foi seu próprio irmão.
Jess também merecia algumas verdades que Julia não havia tido coragem de dizer, porque, afinal, era Julia. A menina não conseguia falar coisas grosseiras para as pessoas sem ficar nervosa e começar a tremer. O que havia nela era a falta de coragem e o excesso de compaixão.
Não sabia se compaixão era a palavra certa.
Seu telefone começou a tomar Don't You (Forget About Me), de Clube dos 5 e ela suspirou. Não iria atender se não fosse o nome na tela. Ariel não tinha nada a ver com a situação, então ela levantou a cabeça e atendeu.
— Se for para reclamar de outra morte em Game Of Thrones, estou ocupada demais com a cara na bancada para estar com você na alegria e na tristeza.
— Você fez uma promessa no nosso casamento. Não acredito que casei com uma mulher que eu não posso confiar. — a voz de Ariel dizia que ele provavelmente acabara de sair de casa. Era possível ouvir as pessoas e o barulho de carro.
— Nunca te disseram pra não confiar em mulheres que se casam em Las Vegas? Mas foi lindo o Elvis como padre.
— Disso eu não posso discordar. Convenhamos que aquelas havaianas entrando com as alianças no final foi a melhor parte.
— Diga o que queres, ó grande amor da minha vida.
— Bem, se lembra que meu pai decidiu que eu seria dependente do dinheiro dele, mas moraria sozinho porque eu já tenho 17 anos e tenho que aprender a viver como um homem? — o tom de sarcasmo em sua voz era aparente.
— Claro. Acho inclusive que você tem que comprar uma casa no campo e contratar uma família falsa para treinar ser pai.
— Engraçadinha. Vou estudar na sua escola. O que é esse passeio de outono que está no calendário? Sua escola acha que somos do sétimo ano de novo?
— Há quanto tempo você sabe que vai estudar lá? Não brinque com os meus sentimentos, marido! — gritou sozinha. A única possibilidade de alegrar seu dia estava se tornando realidade.
— Há alguns dias. Finalmente vou conhecer Julia. — sua alegria repentina se esvaiu. Teria que ficar feliz por Ariel outro dia, já que esse era o seu da bad. — Sinto sua tristeza pelo telefone, Anna. O que aconteceu?
— Não é nada.
— Um nada que é tudo. Sorveteria Amores em 15 minutos. — disse com a voz decidida e desligou na sua cara. Sabia que ela iria, por isso desligou.
O mais estranho de tudo era que ela não tinha pensado em quem poderia ajudá-la. Esqueceu da resposta que estava sempre a sua frente. Ariel era a versão masculina de Julia, e isso era a coisa mais perfeita que ela necessitava do momento. Ele claramente tinha as respostas.
***
Julia usava meias até o joelho para esconder as áreas roxas. Se seus pais vissem, provavelmente a encheriam de perguntas e ela teria que inventar mentiras que só seu pai conseguiria distinguir.
Naquele domingo, tudo o que ela queria fazer era ir para o seu quarto, deitar e chorar. Mas estava escondida pelos casacos pesados dos convidados ricos que estavam na festa. O cheiro de vários perfumes diferentes fazia seu nariz arder.
Ela estava na cidade. Restou para ela isso. Seus pais haviam ligado na noite anterior, enquanto Julia encarava o teto de seu quarto questionando a sua vida, suas crenças e sua relação com o irmão. Disseram que iriam abrir mais uma companhia e para celebrar, fariam uma festa no apartamento gigantesco que tinham na cidade.
O corredor que ela estava não era estreito, era largo e se abria direto na sala de estar, aonde todos os convidados vagavam conversando, bebendo e sorrindo. Julia nunca gostara daquele lugar. Era frio e perfeito demais para morarem ali.
As pessoas que estavam ali também tinham apartamentos frios e calculistas, por isso eram amigos de seus pais. Pais que estavam perdidos naquele mar de gente rica, socializando e rindo de histórias sem graças que detestavam.
Ela odiava tudo naquele lugar. Queria tanto que Mari, Lay, ou Anna estivessem ali para amenizar a situação. Entretanto, com tudo o que acontecia, ela preferia ficar sozinha a ter que receber enxurradas de perguntas de suas melhores amigas. Graças a faculdade, Gabriel teve que ficar em casa estudando e isso foi um alívio.
Caso fosse verdade.
Seu relógio de pulso dizia que era meia-noite e a cada segundo que passava ela sentia a vontade de levantar do meio que estava (o espaço pequeno perfeito que tinha entre uma cômoda e o cabideiro) e ir para festa se ir, e a vontade de ir para o seu quarto gelado aumentar.
O vinho que havia furtado da cozinha estava ao seu lado e a taça com o que sobrava do que ela havia colocado no copo ficava dançando em seus dedos pequenos. Ela havia bebido tanto que até havia pensado em ficar com algum dos riquinhos da sua idade que estavam ali tentando fazer média com os pais, mas todos eles lembravam os seus meninos. E as meninas... bem, estavam ocupas demais tentando recolher informações sobre Gabriel para conversar.
Quando seu telefone tocou, ela se embolou um pouco tentando equilibrar a taça e o telefone. A esperança de ser Anna se foi e a única coisa que restou foi a desesperança de que sua amiga nunca mais olharia na sua cara.
O número era privado, então, provavelmente era alguém inconveniente da operadora.
— Alô. — sua voz rouca e arrastada pareceu fazer barulho demais no corredor vazio.
— O chão está confortável? — ela olhou em volta quando ouviu a voz que fez sua nuca arrepiar. De pé, do outro lado do corredor, Well olhava para ela com a boca avermelhada em um sorriso sacana, os olhos mel brilhando e o cabelo castanho claro estranhamente arrumado.
— Mais confortável que o seu colo. — estava bêbada demais para formular uma resposta mais inteligente. Ele abriu ainda mais o sorriso, e esse foi bastante maldoso. O suficiente para ela devolver.
— Como você sabe se nunca sentou? — se sentia em um livro New Adult que sua mãe lia.
— Assim que você desligar eu ligo para a Jessica e pergunto como é. — o sorriso sumiu e ele desligou, se aproximando. Enquanto andava, Julia percebeu como ele fica sexy com uma roupa social. Mas não iria recorrer a descrições de livros New Adult para definir.
Parou na sua frente e ela fez uma analise rápida de qual era seu estado. Os cachos loiros perfeitos que demorou meia hora para modelar estavam espalhados em seu ombro, seu vestido preto marcado na cintura estava meio amarrotado, seus saltos estavam ao seu lado e suas meias 7/8 pretas estavam normais.
— O quanto disso você bebeu? — suas sobrancelhas estavam franzidas e ele se sentou ao seu lado, espremendo um pouco ela, mas o cheiro de menta era tão gostoso que ela estremeceu. Ele estava estranhamente quente.
— O suficiente para que conseguisse dar aquela resposta épica. O que está fazendo aqui? — foi sua vez de franzir a sua sobrancelhas. Não foi ela quem chamou. Não se lembrava de ter visto ninguém da escola e nem Rakel na festa.
— Minha mãe tem apartamento gelado e um pouco de dinheiro. Deve ser por isso que ela me trouxe, por causa de você.
— Você tem que parar de arrumar causas para me ver quando você faz por vontade própria. Sabe, sua mãe não tem culpa se você estar viciado na minha maravilhosidade. — ela não fazia ideia se essa palavra existia ou não, apenas falava o que estava em mente. Well estava ao seu lado, e não atrás de Jessica.
— Você me pegou. — ele levantou as mãos, como se estivesse se rendendo. — Chega disso pra você. — pegando a taça meio vazia dela e a garrafa em seu colo, terminou de encher o copo e bebeu um gole grande o suficiente para deixá-la bêbada por uma semana.
— Agora que você pode culpar ao álcool por suas ações, vamos ás perguntas.
— Já que você quer brincar assim, eu tenho uma objeção a fazer. — e lá estava: a sombra de um meio sorriso que sempre estava por trás das piores decisões que ela tomava. Mas, bem, ela também poderia culpar o álcool, certo?
— Contando que não seja eu tirar a roupa.
— Se você se recusar a responder as minhas perguntas, vai ter que provar por você mesma a nossa pequena discussão da ligação.
— Meu velho amigo, o que está acontecendo com você? Tão descarado essa noite. — disse. Na maior parte do tempo ela mesma ficava empurrando tudo o que vinha acontecendo ultimamente com Well para o fundo de sua mente, proibindo-se de pensar nele. Entretanto, depois da briga, tudo tinha vindo a tona tão rápido que estava cagando para o que as pessoas iriam pensar.
— Cansei de lutar uma batalha que já perdi. — apontou com a taça para ela e os olhos se entregavam.
— Compreendo. Vamos precisar de mais um gole. Meus neurônios não irão aguentar ficar muito tempo perto de você se não estiver alcoolizada. — pegou a taça da sua mão e bebeu o maior gole que pôde. Sentiu o vinho descendo e sua barriga esquentando. Quando entregou a taça vazia, ele estava sorrindo. — Sacana.
— Primeira pergunta é minha. Por que se alterou tanto quando Jess falou aquelas coisas?
— É difícil aceitar que meu irmão fez as duas coisas que eu mais odeio com a minha melhor amiga. Mentira e traição. Certas coisas sempre estarão na sua frente, mas você sempre vai ignorar aquelas que mais machucam, porque são as mais difíceis de aceitar. — ele encarou-a com um olhar solidário. — Nos poupe da sua pena desnecessária. Algum comentário?
— Vou deixar pro final.
— Minha vez. Por que ao invés de ajudar Jessica, foi me segurar? — uma brisa fria passou e ela estremeceu. Apartamento gelado e torturante.
— Só um segundo. — tirando o paletó, passou pelos ombros dela e o cheiro de bala era maravilhoso. — Ah, sim. Bom, você é menor, então achei que ela iria te cobrir...
— Ah, Well, por favor. Seja realista.
— Vou dizer a verdade só para você porque até para mim eu estou mentindo. Bom, meu primeiro pensamento foi: "ela realmente não pode ficar fora de problemas por um dia?"...
— A maioria dos problemas quem arruma pra mim é você.
— Então eu vi você indo para cima dela furiosa, e depois pensei "alguém tem que tirar ela dali, se não ela vai matar a Jess". E foi isso. Instinto protetor e pragas para que meninas quebrem meu coração sempre me guiam pelos caminhos mais seguros para te proteger.
Um pouco chocada, começou a pensar na possibilidade de que ele estava... Estava nada. Well não criava sentimentos por meninas como ela. E meninas como ela não criavam sentimentos por Well.
Então por quê fazer tudo aquilo?
— Me desculpe por falar aquilo. E pelos arranhões. Ainda espero que ela quebre o seu coração para você ter um pequeno gosto de como é, mas me desculpa. — rindo, colocou a taça no chão e cobriu o rosto com as mãos. No dedo do meio, usava um anel preto que Julia havia dado para ele de aniversário a alguns meses atrás. Pensando naquele momento, ela percebeu que ele nunca tirava.
— Você está me deixando louco. Em um momento, você está lá, linda e sorridente dançando em cima das folhas no parque, noutro está rolando no chão com a Jessica e se eu desviar os olhos, beijado John. Como eu tenho que lidar com isso? — ela tirou as mãos dele do rosto e sentou-se de frente para ele, segurando suas mãos que cobriam as suas.
— Você está sendo tão egoísta, Well.
— Querer que você só fique aqui, nesse momento, parada, olhando para mim, sendo minha, é egoísmo?
— Completo e irrevogável.
— Sabe, o Artur falou umas coisas ontem e eu acho que ele tinha razão. Então, fiquei pensando no que ele disse o resto da tarde, enquanto ia para casa depois da confusão toda. Por isso, cansei de fugir de você.
— Não tem como você fugir de mim. Eu vou na sua casa todas as quintas pra...
— Você entendeu.
— Sim. Isso não foi uma pergunta, mas vou responder assim mesmo. Todas as vezes que você para na minha frente e me olha cético, como se eu fosse uma falha em sua vida social, eu tenho vontade de te dar um chute no saco.
— Isso iria doer bastante.
— Você nem imagina. Mas tem dias que Lay me cutuca e aponta para eu olhar você. E sabe para onde você está olhando? Para mim. Pois eu não entendo nunca. Você pega a minha cabeça e brinca de ioiô com a minha mente. Ainda tem aqueles dias que você me odeia muito para falar comigo, e aqueles que você decide que eu sou importante o suficiente na sua vida para que fique ao meu lado o dia todo.
— Estou imaginando como seria brincar de ioiô com um cérebro. — deixou um suspiro escapar. Estava começando a ficar com sono e suas pálpebras estavam começando a pesar. — Vamos testar aquele negocio da ligação agora?
— Com todo o prazer. — se embolando um pouco, sentou-se no colo dele e encostou sua cabeça no ombro direito. Ele passou as mãos pela sua cintura e respirou fundo.
— Estou estranhamente, completamente, sufocadamente e inexplicavelmente apaixonado por você, Julia.
— Tudo bem. Eu também estou apaixonada por mim. — ele riu e ela fechou os olhos, ouvindo a risada rouca e baixa dele. — Eu também estou essas palavras bonitas do 5° ano por você.
— O que a gente faz agora? — ela teve uma ideia. Levantou sua cabeça pesada e olhou ele nos olhos cor de mel conscientes.
Meio cambaleante e se apoiando em um Well confuso, se levantou e puxou ele pela mão. Guiando-os pela multidão inconsciente de dois jovens perdidos cortando eles, caminharam apressadamente para o quarto lilás de Julia.
Ela abriu a porta com a chave que estava no bolso de seu vestido e empurrou Well para dentro. Jogou os sapatos em um canto e acendeu a luz apenas para ver o quarto frio e tudo em seu lugar. Well observava tudo quieto, mas suas sobrancelhas estavam erguidas, como se questionasse a sanidade dela.
Trancando a porta e deixando a chave em cima da estante, caminhou lentamente na direção de Well parado no meio do quarto e colocou a mão em seu rosto.
— Um filme pornô. — disse, com um sorriso maldoso. Ela queria rir, mas a reação dele foi arregalar os olhos e começar a tossir.
— OI???
— Estou brincando. To cheia de sono. Mas antes que eu acorde amanhã e me arrependa de tudo o que eu fiz hoje, vem cá.
E ele foi. Segurou em sua cintura e ela ficou na ponta dos pés, passando os braços pelo seu pescoço. Puxando-a mais para cima, como se não pesasse nada, eles se beijaram.
Julia sempre quis escrever. Sempre se imaginou descrevendo a cena de como conheceu seu verdadeiro amor em sua mente e em geral sempre tinha palavras para definir como foi. Mas aquele beijo... suas palavras pareciam não fazer muito jus as coisas que ela sentiu.
— Ser baixinha tem suas vantagens, vamos falar.
Fale com o autor