New Perspective
15 Águas de Março - Tom Jobim
Notas iniciais
O único problema da sexta feira eram os dois últimos horários, Wil pensava enquanto ouvia a freira explicar a importância da Matemática em suas vidas pela quarta ou quinta vez aquele ano.
Em outros tempos, na escola antiga, ele até gostou de Matemática, mas quando a professora é uma freira sorridente com voz arrastada fica meio difícil...
Ele sorriu levemente quando a professora pediu que abrissem os cadernos.
Vasculhou a última matéria, passando os olhos pelos textos aleatórios que tinha escrito em aulas mais insignificantes até finalmente encontrar uma folha em branco e começar a rabiscar, esquecendo completamente da aula.
As férias de julho tinham lotado seu caderno quase completamente, mas ele sempre conseguia achar algum espaço.
Seu passatempo preferido durante as aulas chatas de matemática era, ironicamente, a própria matemática! As contas que a freira ditava no quadro eram fichinha perto dos esquemas que tinha no fundo daquele caderno surrado.
Desde os 7 anos sabia que trabalharia com máquinas. Já tinha 3 certificados de cursos de mecânica antes de começar o Ensino Médio e ainda assim arranjara um jeito de perder um ano.
Encarou a folha vazia, voltando à realidade. Precisava de um novo projeto para o fim de semana, mas não tinha a menor ideia do que fazer.
Enquanto flutuava pelas ideias, sua mente foi direto pra ela.
Já a conhecia à algum tempo. Debora, terceiro ano, aluna preferida da Freira de Línguas, porque falava 5 e jurava que tinha aprendido ouvindo música.
A garota tinha cabelo e olhos escuros, mas na festa da semana anterior, onde tinha servido como DJ, estava com uma peruca rosa e longa, um vestido de penas brancas e lantejoulas cor-de-rosa.
Parecia mais um papagaio albino do que um cupido, mas era o papagaio albino mais lindo que ele já tinha visto.
Depois das quatro da manhã as únicas pessoas restantes no salão da festa eram umas 8 pessoas do segundo ano e as duas DJ’s, Debs e Rakel, que colocaram uma playlist automática e se ofereceram pra arrumar o lugar.
Maria distribuiu vassouras e eles dançaram enquanto limpavam o chão.
Todos estavam meio bêbados mas se conheciam, então não importava. Começaram a contar segredos, história engraçadas e desejos que nunca teriam dito sem nenhum gole de álcool no sangue.
Se lembrava de alguém ter dito que era virgem e um garoto rindo enquanto dizia que tinha roubado o livro de Matemática da freira, com todas as respostas. Will adoraria se lembrar quem tinha sido.
Lembrou também de ouvir Debs dizer que o sonho dela era ser um cupido de verdade, com harpa e tudo.
Voltou a encarar o caderno, agora sabendo o que faria.
Quando pontuou a frase final, o último sinal soou e todos saíram da sala. Ele rasgou a folha e correu até o pátio, onde Debora se despedia das amigas. Esperou que ela se afastasse da escola e foi em sua direção.
—Debs! — Chamou.
—Oi Will. — Ela parou de andar.
—Fiz isso pra você.
A garota sorriu, mas franziu a testa assim que abriu o papel e começou a ler.
—É um projeto antigo meu, só que melhorado. — Ele explicou. — Funciona como um teclado, tem notas ordenadas e tudo, mas eu refiz ele com esse formato semicírculo, tá vendo? — Apontou para um canto do papel. — Se encontrar alguém que solde canos e fizer desse jeito, vai parecer uma harpa. E dá pra achar todos os materiais desmontando um computador simples e uma caixa de som.
—E essas contas aqui?
—Ah, ignora isso, foi de outro projeto, mas a folha tinha acabado e terminei aí mesmo.
Ela parecia perplexa.
—Por favor, me diz que não está no segundo ano.
—Devia estar no terceiro, mas reprovei ano passado...
—Como?
Will riu. Ele próprio ainda estranhava dizer que tinha reprovado.
—Me envolvi demais com um projeto e esqueci completamente que havia outras matérias além de Matemática. Espanhol é meu carma.
Os dois sorriram sem se encarar por um tempo, até que ela voltou a caminhar.
—Vai fazer o que no fim de semana? — Perguntou.
—Construir a harpa, provavelmente...
—Te ayudaré.
—Eu já disse que Espanhol é o meu carma?
—Passa lá em casa! — Debs acenou para ele e começou a correr.
Passo sim, Will pensou. Com certeza.
***
—Pai? — Renato chamou enquanto entrava em casa.
—Saiu com a namorada. — Alguém gritou.
Largou a mochila no chão e sacudiu os ombros, agradecendo a Deus pelo fim de semana. Naquele último ano, parecia que os livros pesavam meia tonelada e sua coluna doía só de pensar nos cadernos.
Foi até a cozinha e encontrou sua mãe sentada bancada, com uma torta de limão pela metade do lado.
—Quer torta? — Ela perguntou.
O garoto voltou a sacudir os ombros e se encostou na bancada, enchendo uma colher.
A mãe era dona de uma rede de confeitarias e estava sempre comendo torta de limão quando se encontravam, o que geralmente costumava acontecer só no Natal. Não tinha entendido a visita fora de época, mas também não pretendia perguntar.
— Onde passou a noite? — ela quebrou o silêncio.
—Casa da Lay.
—É sua namorada?
—Não. — Renato respondeu imediatamente e então franziu a testa. — Quer dizer, a gente tá ficando, eu acho, mas não é pra ser sério. Somos amigos.
Levou alguns segundos pra se dar conta do que tinha acabado de dizer. Era tão estranho falar com ela e ao mesmo tempo tão fácil... Uma completa desconhecida e ao mesmo tempo tão familiar.
Era por isso que odiava conversar com ela.
—Estão ficando. — Ela experimentou a frase, com se nunca tivesse ouvido antes.
—A gente se beijou ontem. — O garoto esclareceu.
—Então se beijaram e passou a noite na casa dela...
Ele continuou comendo, até notar o sorriso de sua mãe e a sobrancelha erguida levemente. A encarou por alguns instantes até, finalmente, entender aquela expressão.
—Por Deus, não! — Gritou, corando. — Nós dormimos!
—E como essas olheiras foram parar aí? — Ela riu.
—O pai dela estava em casa, passamos a noite vendo séries, por favor, muda de assunto!
Os dois riram por um tempo, até que o constrangimento passou e Renato encheu a colher com a torta. Tinha gosto de perfeição.
Sua mãe comeu em silêncio, balançando as pernas e então segurou o rosto dele, onde a marca da briga com John ainda estava evidente. O garoto se encolheu com o toque, com o maxilar pinicando.
—A briga foi por causa dela? — Perguntou suavemente.
—Não. Um idiota apostou que sairia com uma amiga minha.
—Seu pai vai me odiar se souber que eu disse isso, mas espero que tenha quebrado a cara dele.
Ele sorriu antes de perguntar:
—Foi por isso que voltou antes do Natal?
Ela pensou por um segundo, parecendo refletir sobre a pergunta. Renato esperava que dissesse sim, mas ela balançou os ombros e respondeu, olhando para o teto.
—Uma das confeitarias fechou e eu não tinha ideia de onde abrir outra, então resolvi passar m tempo aqui.
—Pensando em abrir uma loja de bolos nessa cidade?
—Não, pensando em abrir uma confeitaria onde você decidir fazer faculdade.
—Tá dizendo que vai atrás de mim?
Os dois se calaram, pensativos e então ela suspirou.
—É.
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