New Perspective
16 How To Be A Heartbreaker - Marina And The Diamonds
Notas iniciais
Rakel sabia que era Errado.
Deveria está se perguntando se essa mania de colocar coisas com letras maiúsculas teria que parar ao invés de ficar olhando Well jogar os cabelos para todos os lados possíveis. Quando ela, sem querer, era pega observando ele, dava algumas desculpas esfarrapadas que qualquer pessoa acreditaria.
Inclusive ele.
A questão de ser Errado gostar de seu irmão sempre foi um carma na vida dela. Não que eles tivessem nascido do mesmo útero, é claro. Quando seus pais se casaram, os dois tinham idade o suficiente para entender as coisas de um jeito claro e descomplicado. A mãe de Well e o pai de Rakel sempre fizeram um casal bonito, bem no estilo amor reinando. Por mais que todos esses filmes deixassem claro que geralmente os filhos não aceitavam o casamento de seus pais com outras pessoas, era bem fácil se conviver com a mãe de Well.
Eram a família perfeita. Sorrisos, cabelos lisos e andares leves, como se não tivessem nenhuma preocupação pra usar como um peso invisível, uma capa, em seus ombros para que andassem curvados. Kel nunca diria em voz alta como adorava aquilo, mas era uma das coisas as quais ela mais amava no mundo.
O que estragava isso tudo era ela. Well sempre foi a ovelha negra da família, sempre conseguia fazer alguma coisa que deixasse seus pais preocupados, ou esperando ele chegar as 5 da manhã do dia seguinte, depois de uma festa com alguns amigos. Kel o conhecia bem o suficiente para que, quando esses dias chegavam, com ele entrando em casa de fininho e reclamações de sua mãe, reconhecer que ele estava mentindo. Sempre se perguntava o que ele fazia quando chegava aquela hora, e com quem fazia o que quer que seja.
Mas isso só vinha acontecendo depois da última festa na escola. Esqueceu como perdeu Well depois de ter comido alguns bolinhos que Maria havia trago, mas não se importou tanto com isso. Soubera que devia ter se importado quando Mari ligou no dia seguinte gritando várias coisas ao mesmo tempo.
No dia em que soube da confusão, ela não teve coragem de encarar o seu irmão. Mas encarou um pote de sorvete de chocolate com cobertura de morango que comprara no mercadinho da esquina. Com ele, uma maratona de alguns filmes que faziam ela chorar bastante.
Por isso que era Errado com E maiúsculo. Depois de tantos anos convivendo sob o mesmo teto que Well, não podia ter deixado aquilo acontecer, mesmo que ela gostasse de Artur, não podia sentir nada por Well. Era tão irreal que ela tinha vontade de socar a própria cara, mas isso não era possível. Então, nos últimos 2 anos, ela tinha engolido tudo e sobrevivido a cada noite que ele não contava a verdade.
Ela sabia que se conhecesse o motivo dele sair todas aquelas noites, sofreria mais. Estava bem, na medida do possível.
— Acho que deveríamos brincar. — Debs disse ao seu lado. Estavam todos ali, até mesmo Will, sentado do outro lado de Debs.
Eles estavam no Parque Municipal. As flores haviam caído, dando lugar as árvores com várias tonalidades de laranja, amarelo e marrom, graças a chegada do outono. Kel adorava ir ao Parque quando chegava a estação, pois o estalo que as folhar faziam todas as vezes que pisava nelas com Julia eram maravilhosos.
Um piquenique havia sido montado e havia tanta comida que Rakel não aguentava mais olhar para nada que envolvesse doce, mas continuava a tomar refrigerante. Anna e Julia estavam conversando sobre a expressão "paia" com Renato enquanto Mari, Lay e Luan davam comida a alguns pombos que tinham ali. Well, Artur e João conversavam sobre filmes de terror enquanto Will desenhava Debs e Rakel tirava algumas fotos do lugar, sentada. Só havia parado para ver a mania incrível que Well tinha de bagunçar os cabelos. Jess e Maria estavam rindo da tentativa de Mari alimentar um pombo.
— DE QUE? — Ju gritou na mesma hora em que todos se viraram e se sentaram. Lay tinha um sorriso tão malicioso no rosto, que Rakel sentiu a ponta dos seus dedos ficarem frias quando ela olhou para Debs, vendo o mesmo sorriso se abrir no rosto de sua amiga.
— Jogo da Garrafa. — Artur tossiu e Maria soltou uma risada tão alta que os pássaros saíram de perto.
— Estou disposta. Diga as regras, amiga. — Anna disse, endireitando as costas e sorrindo. Desde que o irmão de Julia havia chegado, Anna estava sempre se arriscando. Rakel apenas tinha medo de que ela se perdesse.
— É o seguinte: não pode negar, não pode trocar, só vale de língua, também só saímos da brincadeira até que ninguém mais queira brincar. São simples. Quem não quiser, fale agora ou cale-se para sempre. — alguns soltaram uma risada nervosa. Kel viu os olhos de Mari se direcionarem para Artur, que olhava para o chão. Ele não queria, mas não seria o primeiro a desistir.
— Tranquilo. Me dê essa garrafa, Well. — Julia disse, apontando para a garrafa de cerveja que Well tinha em mãos. Estava pela metade, mas mesmo assim ele a entregou e, sem piscar, ela jogou tudo fora.
Jess já havia aberto um lugar no cobertor quadriculado para a garrafa rodar quando Kel se perguntou o que mais incomodava.
— Vale beijo com todo mundo? — Debs sorriu encantadora e brilhantemente para ela quando sua pergunta já havia sido respondida.
— Agora, vamos rodar! Mas antes, se arrumem direito, seus gordos preguiçosos. — quando já estavam pronto, Debs deu mais um sorriso maldoso e Maria e Mari riram.
Os Jogos estavam começando, e a palma da mão de Kel soava e ela sabia que de algum jeito, aquilo não acabaria bem. Mas mesmo com aquela pressão desagradável, foi a única que pegou a garrafa e girou-a.
***
Maria não teve nenhuma reação a não ser soltar um gargalhada quando a garrafa parou de girar. Ao casal mais improvável do planeta, a garrafa estava á favor deles. Ela realmente queria parar de rir, mas mesmo com a cotovelada de Artur ao seu lado, ela não conseguiu.
A garrafa apontava para João e Julia. E Julia não parava de rir, assim como João.
— Vamos logo, amigos! — Mari gritou. Todo o ar pareceu suspenso quando Julia se aproximou, ajoelhada, e João, ajoelhado, um palmo mais alto que ela, também se aproximava.
Aquilo, sim, era um belo jeito de passar o domingo. Maria sempre teve a curiosidade, mesmo sabendo que João era gay, se ele um dia já beijara Julia. Aquele era um momento digno de ser lembrado. Deveria ir para o anuário da escola caso eles tivessem um, é claro.
— Vocês só vão ver isso uma vez na vida, então é melhor ficarem quietos. — Julia disse, logo depois segurando no pescoço de João, o próprio já com as mãos em sua cintura.
— Essa cena não é recomendável para menores de 16 anos. — e ali estava.
João puxou Ju e logo estavam em um beijo que deixou as bochechas de Jess vermelha. As mãos de João seguravam com firmeza a cintura de sua melhor amiga e Ju tinha as unhas em seu pescoço. Maria daria palmas se não tivesse embasbacada demais para fazer alguma coisa. Desviou o olhar da cena por um momento e viu que Well estava tão vermelho que Jess, que estava ao seu lado, colocou os braços em volta da sua cintura.
Maria sabia que aquilo não era só um carinho de amigo, mas sim ela segurando-o. Meu Deus, ela tinha certeza absoluta que não poderia ter escolhido amigos melhores. Well tomou um gole de cerveja e passou um braço pelo ombro de Jess.
— ME PEGA TAMBÉM! — gritou e Ju começou a rir, enterrando o rosto vermelho na curva do pescoço de João. Ele a acompanhou nas risadas, logo, todos estavam rindo, menos Well e Jess, segurando a risada. — Já chega, rodem logo isso e parem de se agarrar. Mais tarde arrumem um quarto. — Jess pareceu muito agradecida por aquilo, ironicamente falando. Os olhos de Well estavam mais escuros, quase castanhos.
— Tudo bem, tudo bem. Liga mais tarde, delícia. — Ju falou e não tiveram como não sorrir.
Ao se sentarem, João pegou a garrafa e rodou e rodou e rodou. Foi parando e Maria finalmente viu como as coisas estavam começando a ficar divertidas. A garrafa apontava para Well e ela. Aquilo estava virando um jogo de gato e rato, mas ela não se incomodava com isso. Havia poucas coisas que ela se importava, e aquela com certeza não era uma delas.
— Isso não vai prestar. — ouviu Mari dizer a uma distância de duas pessoas dela. Maria pegou o seu sorriso mais sacana quando levantou, olhando fixamente para sua amiga.
— Eu não presto, não vejo motivo das coisas que eu faço prestarem. — Mari sorriu e piscou seus olhos castanhos. Maria adorava ela e o fato de que não segurava sua língua era a melhor coisa na menina para ela. — Vamos lá, gatinho. Não temos o dia todo.
— Não me chame de gatinho. — os olhos ainda estavam escuros, mas se fosse para Maria listar as coisas que tinha em comum com Mari, uma delas seria a falta de vergonha na cara ao falar as coisas.
— Me obrigue, gatinho. — Well estava com raiva, e isso era encantador. As bochechas vermelhas pelo vento frio de outono e os olhos escuros. O casaco tinha uma folha seca presa no capuz e, foi quando olhou para o rosto dele, os dois de pé no meio da roda, ela viu que o garoto era tão indefeso quanto um rato de frente a uma cobra. Pelo menos para ela, era o que parecia.
Mas tanto pelo o que tinha ouvido e visto, Maria achava que, na verdade, aquilo era tudo fachada. Era como aquelas rãs que só de você encostar, morre. Ela se lembrou de Rio 2 e começou a rir.
— Você vai ficar aí moscando ou vai me fazer esperar mais tempo?
Maria rolou os olhos, puxou Well pela nuca e o beijou. Apenas um braço dele passando por trás de sua cintura e o que ela sentiu foi... nada. Sentiu que ele nunca pertenceria a ela e que ela nunca quis ele. Não era mais um pra sua estante, mas também não era aqueles casos especiais. Maria poderia contar nos dedos de uma mão os casos especiais.
— Bem, isso não foi nada mau. — quando se soltaram, ela disse.
— O mesmo para você. Pode rodar a garrada.
Quando Maria se sentou, Julia olhava para um montinho de folhas secas e então, o entendimento veio como um soco no estômago. O que estava acontecendo ali não tinha volta, mas Maria via que os dois só estavam andando em círculos; via que precisavam de uma intervenção divina. E essa, sem dúvidas, seria ela.
Conheça a Maria Curadora de Casais Mal Resolvidos. Estava na hora dela responder algumas orações. Começando pela deles.
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