New Life. New Love.
8 Jogos e Risos.
Notas iniciais
Então... Nesse capítulo está explicado o porque de o Hee Chul odiar tanto o grupinho do Sung Min e, principalmente, o Si Won. Não me matem... Okay?
Então, vamos parar de blá, blá, blá e ir logo para o capítulo. Espero que gostem. Boa leitura. ♥
POV Kyu Hyun:
Meu celular treme ao lado do meu travesseiro. Eu emito algo entre um resmungo e um gemido e desativo o despertador. Pelo menos não interrompeu meus sonhos dessa vez, penso. Essa noite não houve sonhos, ainda que a memória do meu... Hã, beijo com o Sung Min me assalte com bastante frequência.
Olho o visor e vejo que são 5:50 da manhã. Eu já deveria saber, porque programei assim, mas estou com sono e meu cérebro não trabalha direito. Na verdade, acho que tenho um cérebro deficiente, ou preguiçoso, ou sensível demais: ele sempre trava! – se estou com sono, nervoso, envergonhado, enraivecido. Só que em 99,99% das horas do meu dia eu estou em algum desses estados. Ou seja, meu cérebro basicamente não funciona direito. Nunca.
Me arrasto em direção ao banheiro, para tomar meu banho matinal e acordar o conjunto de neurônios idiotas que chamo de cérebro. Eu pensei que, depois de seis dias nessa rotina, eu já estaria acostumado. Mas, não. Estou me sentindo um zumbi.
Quando saio, já devidamente vestido, dou de cara com Ryeo Wook, que também já está com o uniforme. Mais uma vez ele se trocou do lado de fora, com todos no quarto. Acho que é impossível para ele esperar que o banheiro fique vago.
— Bom-dia, Ryeo Wook. — digo. Ele se vira para mim, porque estava de costas, admirando sua cama bem-feita.
— Bom-dia, guri. — ele responde, com um sorriso. Fico contente, porque, se ele está aqui, significa que estou me arrumando mais rápido. Durante toda a semana passada, quando saía do banheiro, não via nem sombra dele. E Ryeo Wook é bastante metódico. Então, se ele não se atrasa, estou entrando no ritmo. Para confirmar, olho meu celular e vejo 6:09. Que decepcionante! Só estou adiantado um mísero minuto?!
— Vamos tomar o café da manhã? Está tarde. — ele diz, já caminhando até a porta. Ao que tudo indica, ele não é tão metódico quanto pensei. — Hoje eu me atrasei um pouco... — Reparo que seu olhar se direciona ao andar de cima e, quando olho, vejo Ye Sung no topo das escadas. É só coincidência, ou o atraso dele tem algo a ver com esse veterano insuportável?
— Bom-dia, Ryeo Wook. — o veterano diz. Impressão minha ou ele tem um brilho diferente nos olhos, algo entre feliz e gentil, além de um esboço de sorriso nos lábios? O que está acontecendo entre esses dois que eu não estou sabendo?
— Ah, bom-dia, Yeye... Sung. — Ryeo Wook responde, com um sorriso acanhado. Até acho que suas bochechas estão rosadas. Ele está tão nervoso que acabou gaguejando o nome do Ye Sung ou “Yeye” é tipo um apelido (ridículo) proibido que Ryeo Wook disfarçou dizendo “Sung” depois?
Eles se entreolham alguns segundos antes de Ye Sung se virar para mim e dizer:
— Bom-dia para você também, calouro. — E diz adeus a qualquer tipo de doçura ou gentileza, porque, falando comigo, ele não passa de um veterano escroto e rude. Acho que ele nem mesmo sabe meu nome, para ver como se importa em ser legal comigo.
— Ye Sung, trate-o corretamente. — ouço a voz doce de Sung Min e direciono meu olhar, que se perdeu no espaço, ao segundo andar. Quando focalizo meu ursinho de pelúcia, sinto meu coração acelerar. — Seu nome é Kyu Hyun, e não “calouro”.
— Eu não me importo. — Ye Sung responde, e se põe a descer os degraus.
— Bem, bom-dia para você, veterano. — digo, ironicamente. A resposta dele é um “Humph” mal-humorado. — E bom-dia para você, Sung Min-hyung. — Dirijo o olhar para Sung Min e percebo um sorriso, muito discreto, brincando em seus lábios rosados e macios, tão gostosos de sentir...
— Bom-dia, Kyu hyung. — O brilho divertido em seus olhos me faz pensar que ele não está me chamando por “Kyu Hyun”. Eu reprimo uma risada; não acredito que ele estava falando sério! — E bom-dia, Ryeo Wook.
— Bom-dia. Nós, hã, podemos ir juntos para o refeitório? — Ryeo Wook pergunta, com os olhos fixos em Ye Sung, que, assim como Sung Min, já está no pé da escada.
O veterano balança a cabeça e, enquanto anda em direção à porta, responde:
— Acho que não há problema. A propósito, quero mesmo conversar com você sobre aquele assunto de História da Música. Eu andei pesquisando e... — Ele sai do quarto, seguido por um Ryeo Wook muito interessado. Troco olhares com Sung Min e, depois de alguns segundos, pergunto:
— Sabe o que está havendo entre esses dois?
Ele dá de ombros e, sorrindo, responde:
— Acho que o mesmo que entre nós. — E atravessa o portal.
— Sério? — pergunto, incrédulo. Ye Sung é capaz de gostar de alguém a esse ponto?
— É, só que um pouco diferente. Acho que eles disfarçam menos do que nós dois.
Caminho ao seu lado em direção ao elevador. Ryeo Wook e Ye Sung estão, no mínimo, cinco metros à frente, conversando empolgados.
— Isso significa que podemos disfarçar menos? — pergunto. Ele parece pensar sobre aquilo.
— Talvez. — ele responde, com um tom risonho.
Não tento esconder o sorriso satisfeito que se forma em meu rosto; estamos em pleno corredor, agindo como amigos! Isso é incrível! Logo, logo poderemos assumir nossa relação completamente!
Olho para o lado, distraído, e vejo um número familiar: 876. Será que o Chul já saiu? A porta se abre e minha pergunta é respondida quando cabelos vermelhos muito peculiares aparecem. Meu sorriso se alarga e paro de andar.
— Bom-dia, Chul! — digo, antes mesmo de ele ter posto os dois pés para fora do quarto. Pelo canto dos olhos, noto que Sung Min também pára de andar.
— Olá, pequeno Kyu. — ele responde, com um sorriso bonito, como se eu fosse uma boa surpresa. O que, claro, eu sou. — Bom-dia.
Hee Chul fecha a porta atrás de si e, quando repara em Sung Min, endurece. Isso sempre acontece quando ele avista um dos membros do grupo. E eu ainda não sei o que houve entre eles.
Ele olha para mim enraivecido.
— O que ele está fazendo aqui? — pergunta. Seu tom é até bastante controlado, mas se o Chul pudesse matar com os olhos, Sung Min estaria morto. Eu não quero deixá-lo mais irritado, então omito alguns fatos.
— Bem, hoje, coincidentemente, nós quatro acordamos ao mesmo tempo. Então estamos indo para o refeitório juntos.
— E por que Ryeo Wook está lá — Ele olha para Ryeo Wook e Ye Sung parados em frente ao elevador. — Enquanto ele está aqui com você?
Hee Chul estreita os olhos, desconfiado, acusando-me silenciosamente de estar fazendo amizade com o Sung Min – o que de fato estou fazendo.
— Ryeo Wook está resolvendo assuntos da aula de História da Música com o veterano. — respondo. — Nós dois fomos excluídos da conversa, por isso ficamos para trás.
Chul franze as sobrancelhas, refletindo se deve ou não acreditar no que eu digo, e estuda minha expressão. Por fim, ele inspira demoradamente e expira com força.
— Tanto faz. — ele diz, dando de ombros. Hee Chul se esforça para parecer indiferente, mas está claro na sua expressão o quanto está insatisfeito. Dou uma risadinha, porque ele é muito ciumento e eu meio que gosto disso. Ele me olha de cara feia e eu abro um sorriso sincero.
— Venha com a gente. — convido. Ele me olha como se eu fosse louco.
— Não vou a lugar nenhum com essas pessoas! — Chul responde, não tão controlado quanto poderia. Quero que ele e Sung Min comecem a se suportar – não que o Minnie tenha problemas com o Chul –, então seguro sua mão, tentando acalmá-lo.
— Então venha comigo. — digo. — Me faça companhia.
Ele parece ficar balançado. Na minha visão periférica, vejo Sung Min olhando para o teto, de braços cruzados, batendo o pé impacientemente. Também vejo os dois conversando, ainda em frente ao elevador. Eu me pergunto de onde eles tiram tanto assunto.
Hee Chul solta um suspiro e afaga as costas da minha mão com o polegar.
— Pequeno Kyu... Eu... — Ele olha para o Sung Min e faz uma careta. Depois volta a olhar nos meus olhos. Sua expressão se torna suave e ele suspira novamente. — O que eu não faço por você, meu pequeno Kyu? — Hee Chul finaliza, com um sorriso de canto, enquanto acaricia meus cabelos. Abro um sorriso tão grande quanto o possível
— Então vamos! — digo, puxando-o em direção ao elevador, porque as portas acabaram de se abrir.
— Ya! — ele reclama, mas depois ri e corre comigo. Depois de entrarmos, percebo que Sung Min ainda está do lado de fora.
— Sung Min! — chamo, segurando a porta, mesmo que ele já esteja vindo. Ele me olha e vira o rosto, emburrado. O que deu nele?
— Obrigado. — ele resmunga, quando entra no elevador. Essas mudanças de humor fazem minha cabeça girar. Por que o Minnie é tão complicado?
— Não há de quê... — respondo, um pouco confuso. Ele passa entre Ye Sung e Ryeo Wook e se encosta à parede do elevador. Enquanto descemos os oito andares, tento achar alguma explicação para o comportamento do Sung Min. Eu não fiz nada, fiz? Quero perguntar a ele o motivo disso tudo, o porquê dele estar chateado; mas acho que agora não é uma boa hora. Vou esperar um momento mais oportuno, quando estivermos mais isolados, porque falar com ele na frente dos outros pode deixá-lo ainda mais irritado.
Chegamos ao térreo e sou o primeiro a saltar do elevador, seguido por Hee Chul, que está de mãos dadas comigo. Caminho até o refeitório com o Chul, um pouco afastado dos outros, e durante o percurso conversamos sobre assuntos distrativos. Ele comenta que acha que sonhou comigo, algo como nós cantando um dueto e tocando piano, mas não lembra muito bem. Digo que podemos fazer isso um dia e ele ri.
Mais alguns poucos minutos e estamos no refeitório. Quando olho o relógio de parede, vejo que são 6:25. Tenho que me apressar! Só tenho 35 minutos para o desjejum e chegar à minha sala no Prédio I.
Pego minha bandeja e começo a escolher o que quero para o café da manhã, mas, como de costume, é o Hee Chul quem escolhe o que vou comer. Ele está realmente empenhado em me fazer seguir uma dieta saudável.
— Com licença — escuto alguém dizer, quanto estamos pegando nossas bebidas – iogurte para o Chul e vitamina de banana para mim. A voz é grave e forte; aparentemente, Hee Chul a reconhece porque, assim que a ouve, seus músculos enrijecem. É um deles, penso e, quando olho para ver, não me surpreendo: Si Won.
— Hee Chul, você poderia pegar uma caixa de leite para mim, por favor? — ele pede. Não sei por que, mas a educação dele parece forjada, um tanto quanto cínica. Não me admira que Hee Chul tenha respondido agressivamente
— Pegue você mesmo. — Chul retruca, ríspido, e faz um sinal com a cabeça para seguirmos em frente.
— Ya, não seja grosseiro comigo. —Si Won diz, antes que eu possa completar o segundo passo. Olho para trás e vejo que ele segura o braço do Chul. Seu tom não é agressivo, na verdade, é até bastante tranquilo, mas cerro os punhos, pronto para lutar.
Hee Chul balança o braço, tentando se desvencilhar da mão de Si Won, mas não consegue.
— Me solte! — ele ordena. Eu mordo o lábio inferior, tentando me controlar. A vontade que tenho é acertar um belo de um soco cruzado no maxilar desse idiota do Si Won. Mas o Chul não gosta quando me meto nessas coisas. Ainda assim, continuo de punhos cerrados, pronto para defender o Hee Chul a qualquer momento.
— Por que você me trata tão mal? — Si Won retruca. — Eu já pedi perdão! O que tenho de fazer para que você aceite minhas desculpas? Pedir em chinês?
Isso parece afetar o Chul, porque ele congela. Si Won se inclina para frente e, encarando os olhos do Hee Chul, diz:
— “Perdoe-me”, wo ai ni.
Eu reconheço as últimas palavras; “wo ai ni” significa “eu te amo”. Sei disso porque o Zhou Mi, meu ex-melhor amigo chinês, me disse “wo ai ni” quando se declarou para mim. Isso é quase um choque. Si Won disse que ama o Chul?! Como assim?! Esse cara, todo corpulento, é gay?!... Não sei por que eu ainda me surpreendo. Surpresa vai ser quando eu encontrar alguém heterossexual nessa porcaria de instituição.
Vejo que lágrimas surgem nos olhos do Chul e uma raiva tão grande me invade que se eu pudesse disparar laser com os olhos Si Won viraria pó. Quem esse estúpido acha que é para fazer o Chul chorar?!
Hee Chul larga a bandeja em cima da bancada e, com um movimento extremamente ágil, acerta uma bofetada bem dada na cara do Si Won. Acho que todos que veem a cena ficam embasbacados. Mas, comigo, isso só dura alguns segundos; eu vibro interiormente, porque o Chul acaba de fazer o que eu estava morrendo de vontade de fazer. Tudo bem que eu queria dar-lhe um soco tão potente a ponto de deslocar o maxilar ou algo do tipo, e o Chul deu só um tapa, mas foi o suficiente. Acho que eu nem tenho tanta força, mesmo.
Por sorte, Si Won fica surpreso demais para reagir – se é que ele teria coragem de machucar o Chul – e, aproveitando o momento, Hee Chul consegue livrar seu braço da mão de Si Won.
— Como você ousa...?! — ele rosna. Tristeza e ódio embargam sua voz. Suas mãos tremem e lágrimas escapam pelos cantos dos olhos. Incapaz de se controlar, ele não vê outra saída além de se afastar apressadamente em direção às portas do refeitório. A única coisa que me vem à cabeça é segui-lo. Mas não sem antes esbarrar propositalmente em Si Won, só para acalmar um pouquinho o meu interior.
Ando o mais depressa possível, mas é meio complicado andar na contramão da fila do desjejum. Eu queria poder simplesmente sair da fila, mas não dá, porque há faixas demarcando o caminho. E, como se não fosse suficiente uma faixa, na altura do umbigo, há outras duas: uma na altura do meio da coxa e outra na do joelho. Ou seja, é impossível passar por entre elas, pelo menos com as pessoas atrás de mim.
Meus três companheiros de quarto me olham confusos quando passo por eles. Ryeo Wook me lança um olhar comprido, como se quisesse ler meus pensamentos; não sei o que Ye Sung está fazendo, porque não me dou o trabalho de olhar para ele; e Sung Min me olha preocupado, provavelmente porque notou o Chul chorando, ainda que continue com um quê de irritado. Eu queria resolver logo as coisas com o Minnie... Mas o Hee Chul simplesmente não pode esperar.
Sigo pedindo licença e atravessando a distância que me separa do Chul. Estou a uns cinco metros dele quando me seguram pelo punho.
— Ei, maknae, o que está acontecendo? — Dong Hae pergunta. Olho para o lado por um segundo e o vejo ao lado de Kang In, além dos outros dois calouros: Dong Hee e Ki Bum, acho. Como não quero perder tempo, me livro de sua mão e respondo, já voltando a andar:
— Desculpe, hyung, te explico depois.
— Ya, Kyu Hyun! — ele reclama, quando me apresso e sigo em frente. Ele que me desculpe, mas explicações são a coisa menos importante agora.
Alcanço as portas do refeitório um pouco depois do Hee Chul, mas, quando as atravesso, ele já sumiu. Penso que, como ele está chorando, deve ir direto para o quarto, porque não gosta de ser visto nesse estado. Então corro como um louco em direção ao elevador. Em vão, porque quando o avisto, as portas acabam de se fechar.
— Merda! — grito, frustrado. Aperto o botão inutilmente uma porção de vezes. — Volta, volta, volta! — Mas não adianta nada. Merda! Agora vou ter de esperar milênios para entrar no elevador!
— Ei, calouro. — escuto alguém dizer, poucos metros atrás de mim. Sua voz suave e graciosa ecoa pelo corredor. Eu sei exatamente quem é.
Me viro para ver Sung Min e reparo que ele segura um iogurte de frutas vermelhas e um recipiente que contém a mistura nojenta preferida do Chul: banana, mel, aveia e linhaça. O que... Como ele...?!
— Acho que seu amiguinho precisa comer alguma coisa. — ele diz, estendendo o que tem nas mãos para mim. Eu seguro e começo uma pergunta:
— Como você...? — mas não consigo completá-la. Por sorte, não preciso.
— Peguei da bandeja dele. — Sung Min responde, com um sorriso fraco. Me lembro de que ele estava chateado e acho que essa é uma hora adequada, já que somos só nós dois, o elevador ainda vai demorar consideravelmente, porque ainda está no quinto andar – subindo! –, e Sung Min acaba de ser muito fofo, o que torna nossa reconciliação mais provável.
— Ei, Minnie, sobre hoje mais cedo, desculpe pelo que quer que eu tenha feito que te deixou chateado. — digo, sinceramente.
Ele sorri.
— Tudo bem, Kyu. — ele responde. Seu sorriso se alarga, mas ele parece envergonhado. — É só que... Eu me lembrei de algo desagradável, e isso acabou por estragar meu humor. Desculpe descontar em você. Eu não consigo me controlar muito bem.
Eu sorrio, aliviado; foi só um mal-entendido. Eu não fiz nada de errado. E já está tudo normal entre a gente.
— Ei, que tal um abraço? — pergunto, abrindo os braços. Seus olhos cintilam e ele aceita meu convite, me envolvendo com entusiasmo e delicadeza. Aproveito novamente a sensação boa de ter seu corpo sob meus braços, ainda que eu não possa abraçá-lo direito, porque estou segurando o café da manhã do Chul.
Ficamos assim até o elevador chegar. Beijo sua bochecha e digo:
— Tenho de ir, Minnie. Nos vemos depois?
— Claro, idiota! — ele responde, bem-humorado. Que alívio ele estar agindo normalmente! — Estamos na mesma sala. Falando nisso, vou separar algo para você comer e guardar na minha mochila.
— Isso seria ótimo. — comento, sorrindo, enquanto aperto o botão do oitavo andar.
— Tente não se atrasar. — ele diz. — Você tem dez minutos.
— Pode deixar. — E trocamos sorrisos antes das portas fecharem.
Amaldiçoo a lerdeza do elevador até chegar lá em cima. Corro até o quarto 876 e não me preocupo em bater na porta; a cama do Chul fica no “segundo andar”, então não vou ouvir se ele responder alguma coisa. Rezo para que a porta não esteja trancada e rodo a maçaneta. Felizmente, a porta se abre.
O quarto é basicamente igual ao meu, a não ser pelos objetos pessoais dos membros, e estaria completamente silencioso se não fosse pelo barulho do Hee Chul soluçando. Subo as escadas depressa e, quando chego ao andar de cima, vejo o Chul deitado de bruços, com o rosto afundado no travesseiro. Seu corpo treme, por causa dos soluços. Eu me aproximo devagar.
— Chul. — chamo. Os soluços cessam abruptamente. Hee Chul levanta a cabeça, com o rosto virado para o outro lado, e enxuga as lágrimas com uma das mãos. Ele funga algumas vezes e olha para mim.
— Kyu. — ele diz. Seus olhos estão vermelhos e inchados. Ele quer mesmo que eu acredite que ele não estava chorando? Ouvi seus soluços, vi suas lágrimas. Eu sei muito bem o que estava acontecendo nesse quarto. — O que está fazendo aqui?
Me aproximo mais e ajoelho ao seu lado, deixando seu café da manhã no chão.
— Vim cuidar do meu melhor amigo.
Ele funga mais uma vez e franze a testa.
— Não preciso de cuidados! — ele reclama. Mas está claro em seu tom todo o seu sofrimento. Ele me ajudou quando eu estava me desfazendo em lágrimas; eu não vou embora antes de colocar um sorriso em seu rosto.
— Não me importo. — digo, acariciando seus cabelos. — Quero cuidar de você.
Ele pousa a cabeça no travesseiro e fecha os olhos. Quando penso que ele está relaxando, vejo que seus olhos estão fechados com força, apertados, suas sobrancelhas estão franzidas e ele morde o lábio inferior. Hee Chul está tentando se controlar, mas está longe disso.
— Chul — começo, no tom de voz mais tranquilizador que consigo. Sigo receoso, porque não sei como ele vai reagir à minha pergunta. — Por que estava chorando?
Ele aperta os olhos com mais força e grita:
— Eu não estava chorando! — E eu vejo uma lágrima rolando em direção a sua orelha. Enxugo-a com o polegar e digo:
— É verdade, não estava. Está.
Mais lágrimas escapam e vê-lo chorando me deixa péssimo. Quero dizer que vai ficar tudo bem, que ele não precisa chorar e que eu vou resolver o que quer que represente o motivo dessas lágrimas. Mas não faço idéia do que está acontecendo ou do por que dele estar chorando e não quero fazer promessas que não serei capaz de cumprir.
Ele volta a soluçar e sinto o coração apertado no peito.
— Chul, por favor. — peço. — Me diga por que está chorando. Eu quero te ajudar.
Hee Chul tenta se controlar para me contar o que está acontecendo. Não obtém muito resultado, mas começa a falar mesmo assim.
— E-Eu e o Ha-Han-Han — ele começa a chorar mais, perdendo o pouco controle que conseguiu. Sei que ele se refere ao Han Geng, mas acho que é muito doloroso para o Chul dizer o nome dele, então digo:
— Sim, o que houve?
— Nós estávamos tão... Tão felizes juntos. — ele diz, entre os soluços. — Nosso relacionamento era... Perfeito... Mas aquele... Idiota estragou... Tudo.
— O Si Won? — pergunto. Ele faz uma careta de desprezo e sei que a resposta é sim, antes mesmo dele confirmar. Eu nunca mesmo fui com a cara dele. Idiota desprezível! O que foi que ele fez?!
— E-Ele fez o Han Kyung... Acreditar que eu não o amava... Porque um cara estúpido me agarrou! — ele explica. Fico confuso quando ele diz “Han Kyung”, mas deduzo que é só outro nome para o Han Geng, tipo Eun Hyuk e Hyuk Jae, como o Dong Hae me disse certa vez.
Chul respira fundo e começa a me contar a história, bem mais controlado do que antes:
— Eu estava sentado no chafariz... E, do nada, um cara chegou conversando comigo. Eu achei estranho, porque eu nunca tinha falado com ele. Então eu me levantei e comecei a me afastar, mas ele não deixou! Ele me segurou pelo punho e me puxou para trás com tanta força que achei que arrancaria meu braço fora. E então ele me beijou com aqueles lábios nojentos! Eu levei por volta de trinta segundos para me separar dele, porque ele era três vezes mais musculoso e duas vezes mais alto do que eu. Mas isso foi o suficiente para o Si Won tirar uma foto e mostrar para o Han Kyung, dizendo que eu o estava traindo e todos os meus sentimentos por ele não passavam de mentiras! E, como se isso não bastasse, Si Won o convenceu de que ele deveria voltar para a China por um tempo, para não sofrer mais!
“Quando eu finalmente achei meu grupo, o que levou cerca de uma hora, porque era Domingo, Han Kyung já tinha partido. Ele se foi, sem nem ao menos me dar a chance de explicar, e nenhum deles o impediu! Nenhum deles pensou no meu lado! Simplesmente acharam que eu era um filho da puta insensível. Pensei que fôssemos amigos, mas claramente eu me enganei. Eu fui traído pelas únicas pessoas em que confiava e perdi a pessoa que mais amo.”
— Eles tiraram o Han Kyung de mim! — ele conclui, passando de triste para irritado. Insanamente irritado. — Se você alguma vez já se perguntou por que eu os odeio, esse é o motivo: eles traíram minha amizade e arrancaram de mim meu único amor! — Seu ódio vacila e ele volta a ficar desolado. — Eu o amo tanto! — ele chora. — Tudo o que eu mais quero é tê-lo de volta... Mas eu não posso nem ao menos falar com ele...
Quando escuto sua última frase, não penso duas vezes antes de dizer:
— Eu posso conseguir o telefone atual dele. — Mesmo que não tenha nenhuma idéia em mente para fazer com que o Minnie me dê o telefone do Han Geng. Mas, cara, somos amigos, certo? Ele poderia descolar o número para me ajudar, não é?
Hee Chul me olha com os olhos cheios de lágrimas, mesmo que seu choro tenha diminuído consideravelmente ao ouvir minha frase.
— Você faria isso? — ele pergunta, cheio de esperança. Eu abro um sorriso sincero.
— Claro, Chul. — digo. E então reproduzo o que ele me disse mais cedo: — O que eu não faço por você?
A expressão dele se suaviza e Chul dá uma risada fraca. Vê-lo rir é um alívio tão grande que parece que tiraram cinquenta toneladas do meu peito.
— Você é tão bobo... — ele diz, com um sorriso de canto que me faz sentir ainda melhor e eu sorrio mais. Então ele fica sério e continua: — Muito obrigado, Kyu Hyun. Você não faz idéia do quanto isso significa para mim.
Eu também fico mais sério, mas não deixo de sorrir. Eu imagino que isso deve significar muito; tipo, uma chance de acertar tudo! E está bem claro que isso é algo que ele daria a vida para conseguir.
— Disponha, Chul. — digo. — Você pode sempre contar comigo.
Hee Chul sorri mais com os olhos do que com os lábios em si quando me responde:
— E você, comigo, pequeno Kyu.
Nos abraçamos e sinto seu perfume gostoso – 212 Men, Carolina Herrera, ele me disse. O abraço do Chul é mais suave e macio que o do Sung Min, mas não me provoca as sensações que Minnie provoca. É gostoso e reconfortante, mas de um jeito diferente.
— Agora acho melhor nos apressarmos, Chul. — digo, depois de uns instantes. — São... — Olho meu relógio de punho e quase morro do coração: — Caralho, são 6:58! Chul, nós só temos dois minutos para chegar à sala de aula!
Nós dois nos levantamos num salto e, enquanto o Chul vai lavar o rosto e passar o básico de maquiagem – base e lápis de olho –, eu visto uma camisa de uniforme dele, porque Chul achou que minha camisa estava muito molhada.
Quando ele sai do banheiro, entrego-lhe seu café da manhã. Ele estranha e franze a testa.
— O que é isso? Por que trouxe meu iogurte e minha mistura de banana? — ele pergunta.
— Bem, não fui exatamente eu quem pensou nisso. Mas foi uma boa idéia. — respondo. — Então trate de comer e vamos logo. — digo, já descendo os degraus. Hee Chul vem logo depois de mim.
— Se não foi sua, de quem foi essa idéia? — ele indaga. Já estamos no primeiro andar e caminhamos em direção à porta.
— Ahn... Alguém. — digo. Depois de tudo, não quero chateá-lo com assuntos sobre o Sung Min. Com o tempo, vou fazer com que ele veja que o Minnie não é uma pessoa ruim.
Ele suspira e diz:
— Foi ele, não é?
Sei que ele se refere ao Minnie. Merda! Eu nunca vou conseguir enganá-lo, é isso mesmo?
— É, foi. — respondo. Ele bufa e, enquanto fecha a porta, diz:
— Isso não faz com que eu goste dele. — Então faz uma pausa para depois completar: — Ainda assim, diga-lhe que agradeço.
Eu sorrio; isso! Acho que vai ser mais fácil do que eu pensei. Em pouco tempo os dois serão amigos, eu espero.
Aperto o botão do elevador. Ele está no nosso andar mesmo, então as portas se abrem automaticamente. Quando entramos, Chul começa a comer a mistura nojenta e me olha, esperando que eu também comece a comer algo. Mas não tenho nada para comer.
— Não vai comer? — ele pergunta. Eu sorrio.
— Não, não tenho o que comer. — respondo. Ele fica pasmo.
— Como não? Aquele idiota não trouxe nada para você? — ele reclama.
— Não, ele provavelmente achou que demoraria menos, sei lá. Mas eu mesmo também não teria pensado em mim. Você é mais importante.
Ele sorri de canto mais uma vez.
— Babo. — ele diz. Então estende o iogurte para mim. — Coma.
Eu seguro o iogurte e brinco um pouco.
— Sabe que isso é uma bebida, certo? É impossível comer iogurte. — digo, com uma risada.
— Idiota. — ele ri. Eu abro o frasco e, enquanto levo à boca, digo:
— Obrigado, Chul.
Quando chegamos ao térreo, ambos já terminamos o pequeno desjejum. Enquanto caminhamos até a sala, no Prédio I, jogamos as embalagens no lixo. Em cinco minutos, alcançamos nosso destino – claro, tivemos que correr. E, ainda assim, estamos sete minutos atrasados. Eu me preparo para bater na porta, mas Chul é mais rápido: ele simplesmente gira a maçaneta e abre a porta.
O professor mal pára a explicação, mas nos dirige um olhar duro enquanto caminhamos até os nossos lugares. Chul não parece se importar, mas eu fico um pouco intimidado. É só a segunda semana de aula e já estou na lista negra do professor de História da Música. Que beleza.
Antes mesmo que eu me sente, Dong Hae atira:
— O que diabos aconteceu no café da manhã, Kyu Hyun?!
— É, nós ficamos preocupados com você e o Hee Chul-sshi. — Ryeo Wook completa. Eu procuro algo para dizer, mas Chul me salva.
— Não houve nada importante, por favor não se preocupem. — ele diz. — E, por favor, não toquem no assunto.
Os dois assentem e se viram para frente. Pois é, o Chul sabe como ser educado e grosso ao mesmo tempo. É incrível.
Abro meu livro na página anunciada na lousa. Olho para o lado e vejo Sung Min, na fileira à minha direita, uma carteira à minha frente. Batalha naval – posição E7, penso. Adoro esse jogo. Bem, na verdade, eu sou meio que viciado em jogos. Inclusive, tive um amigo de infância – cujo nome eu não me lembro, só sei que seu sobrenome era Lee – que me chamava de Game Kyu, porque sou um gamer de carteirinha. Pois é, todo mundo tem um vício, certo?
Minnie me olha e seus olhos sorriem. Eu lhe respondo com um sorriso discreto, mesmo que discrição não seja minha melhor qualidade. Ele aponta para sua mochila e gesticula algo com os lábios, mas não entendo merda nenhuma, porque ele é péssimo nisso. Tanto em gesticular quanto em entender.
Eu assinto, porque deduzo que ele se refere ao meu café da manhã, mas sei lá o que ele quis me dizer. Sorrio e gesticulo um agradecimento com os lábios. Sung Min faz uma careta e sei que ele não entendeu o que eu disse.
— O-bri-ga-do. — gesticulo, pausadamente, e ele entende. Sung Min sorri e assente de maneira discreta. Nós dois voltamos a olhar para o professor, então. Seguro meu lápis para fazer anotações no meu caderno, mas, sem querer, acabo derrubando minha borracha.
— Merda. — murmuro, me inclinando para o lado, procurando pela borracha. Vejo que ela está embaixo da mesa, bem no centro, de forma que não consigo pegá-la por nenhum dos lados. — Ah, que ótimo! Borracha filha da puta. — continuo murmurando, enquanto chego a cadeira para trás e me inclino para frente, enfiando a cabeça embaixo da cadeira. Agarro a borracha e me levanto, mas calculo errado o tamanho da mesa e acabo dando uma cabeçada nela. — Pfff — Eu perco o ar com a pancada. Puta que pariu, que dor! Essa mesa é feita de quê? Madeira maciça? Caralho.
Levo a mão à parte de trás da cabeça e me levanto gemendo e resmungando. Maldita borracha! Sinto a mão do Chul tocar a minha e fico um pouco menos puto.
— Kyu Hyun, o que aconteceu? — ele pergunta, preocupado. Eu solto mais um gemido e respondo:
— Nada, não, Chul. Só dei uma cabeçada nessa mesa estúpida!
Como sou um idiota de mão cheia e meu cérebro me odeia, para mostrar minha irritação resolvo dar uma porrada na mesa com o meu livro. O ápice da inteligência, com certeza. Eu simplesmente faço um barulho estrondoso e chamo a atenção de todo mundo. Inclusive a do professor. Que já não vai com a minha cara. Ah, que aula maravilhosa!
— Algum problema, Cho Kyu Hyun? — o professor pergunta. Eu congelo; de insanamente puto, passo para extremamente nervoso.
— Não, senhor. — respondo, rezando para que ele deixe isso de lado. Como vou explicar que dei uma livrada na mesa só porque fiz a idiotice de dar uma cabeçada nela antes?
— Então pode me explicar o motivo desse barulho?
Engulo em seco; ele perguntou exatamente o que não posso responder. Que merda! Tento formular algo, mas, como estou mais nervoso que sei lá o quê, é claro que meu cérebro não me ajuda.
— Eu...
— O calo deu com o livro na mesa. — alguém responde por mim. “Calo”. Acho que só tem uma pessoa que fala assim. Olho na direção da voz e não me surpreendo: Eun Hyuk. O que esse idiota está pensando?! Agora é que eu estou definitivamente ferrado.
— Como é? — o professor pergunta. Mas não espera uma resposta: — O senhor tem consciência de que isto é uma sala de aula? Se não está interessado em aprender, pode se retirar. — ele diz, apontando para a porta.
— Não é isso, senhor. Eu só... — tento argumentar, porque não quero ser expulso de sala – é só a segunda semana, cara! –, mas o professor me corta:
— Saia. — ele diz, alterado. Eu fico tão surpreso que não consigo me mover. Ele percebe, então repete: — Saia da minha sala de aula agora!
— Mas professor...
— Agora! — E eu percebo que, se não sair logo, só vou piorar as coisas. Então levanto e guardo meu material na mochila. Enquanto jogo o livro e o caderno para dentro, ouço Chul sussurrar meu nome. Levanto os olhos para olhá-lo.
— Ficou louco? — ele pergunta. Lhe dirijo um sorriso fraco e respondo:
— Não, eu já sou louco.
— Isso não é engraçado. — ele me repreende. Dou de ombros e sorrio novamente.
— A gente se vê no almoço, Chul. — digo, fechando o zíper da mochila. Ele me lança um olhar duro, mas soa gentil quando diz:
— Cuide-se. Farei anotações para você.
Afago as costas de sua mão e reprimo a vontade de lhe dar um abraço.
— Você é incrível. — digo, sorrindo. Ele dá um sorriso de canto e retruca:
— Eu sei.
Dirijo sorrisos tranquilizadores a meus outros três amigos, em especial o Ryeo Wook, e sigo em direção à porta. Passo pela mesa do Eun Hyuk e tenho de dar tudo de mim para não acertar com a mochila na sua cabeça acidentalmente (totalmente de propósito). E, quando passo pela do Minnie, também lhe dirijo um sorriso. Ele parece preocupado. O que essas pessoas acham que vai acontecer comigo? Se eu ainda tivesse sido mandado para ter uma conversa com o diretor, tudo bem. Até eu ficaria preocupado. Mas só estou sendo expulso de sala. Vou ficar me distraindo por aí até o horário do almoço. Será que eles abrem uma exceção e me deixam ficar na área de lazer? Não, eu sei que não. Vou ter de arranjar outro passatempo. Posso jogar StarCraft. É, eu adoro StarCraft! É o meu jogo favorito.
Saio da sala e me encaminho para o elevador, mas noto que estou com fome. Ah, droga, eu poderia ter pedido meu café da manhã pro Minnie antes de sair! Não, não podia. Claro que não. O grupo dele estava lá. Como ele iria explicar que tinha guardado comida na mochila dele para mim? Será que o pessoal do refeitório abre uma exceção e me deixa comer alguma coisa? Também sei que a resposta é não; ninguém aqui abre exceções. Que maravilha. Acho que vou montar um estoque ilegal de comida no meu quarto, para ocasiões como essa.
Eu suspiro, frustrado. A verdade é que não quero ir para o quarto agora. O que eu vou fazer lá? Jogar meu jogo preferido, beleza. Mas posso fazer isso depois, não posso? Eu não estou nem um pouco a fim de aguentar a lerdeza do elevador pela quarta vez em menos de duas horas. Sério, deveriam colocar um elevador-bala nos três prédios porque ninguém merece essas lesmas mecânicas.
Caminho até o chafariz, para aproveitar um pouco o ar frio do inverno. Me sento e fecho os olhos, sentindo o sol da manhã esquentar meu rosto. É gostoso. Mas logo perde a graça e eu volto a abri-los.
Varro os olhos pelo pátio, que está totalmente silencioso, salvo pelo barulho das folhas secas rolando com o vento, então começo a cantar uma das músicas que mais gosto. Estou no segundo refrão quando percebo que alguém se senta ao meu lado. Paro de cantar instintivamente e me viro assustado para ver quem é.
— Você canta muito bem. — Sung Min diz. Fico meio confuso; ele não deveria estar na sala? Mas o elogio dele me deixa envergonhado.
— Obrigado. — digo, sentindo as bochechas queimarem. Espero que seja só muito tempo no Sol. — O que está fazendo aqui?
— Fiquei te devendo seu café da manhã. — ele diz, abrindo a mochila.
— Como o professor deixou você sair com a sua mochila? — pergunto. Ele ri.
— Menti dizendo que não estava me sentindo bem. — Sung Min responde.
— Está falando sério? — Como assim ele mentiu só para sair de sala e me ver? E porque isso me deixa tão feliz?
— Estou. — ele ri novamente. — Cursei teatro por três anos, então consigo enganar um professor sem dificuldade.
Eu fico surpreso; ele realmente cursou teatro? Quando dei aquela desculpa para o Eun Hyuk – que, aliás, foi muito surpreendente e até agora não sei como meu cérebro conseguiu funcionar – não achei que fosse verdade.
— Agora, trate de comer. — ele diz, depois de tirar da mochila um pacote de cereais e uma caixa de leite, além de uma banana e alguns morangos embrulhados.
— Ah, nossa! Muito obrigado, Minnie, estou faminto! — digo, comendo um morango. Ele ri e comenta:
— É, dá para ver. Você comeu o morango inteiro com uma mordida só.
— Ei! — protesto, atacando outro morango. — Não como nada desde ontem. — me defendo. Estou mentindo, mas é só para forjar uma justificativa para a minha fome.
— Claro, claro. — ele ironiza. Depois que como os outros três morangos, pergunto:
— Você realmente vai perder a aula inteira só porque veio me trazer comida? Volte lá e diga que tomou um remédio e...
— Eu não quero. — ele diz, firme. — Decidimos que seremos amigos, mas sem ninguém saber. Então acho que essa é a oportunidade perfeita para ficarmos juntos.
Ele tem razão: todos estão em suas salas agora. Não há como sermos pegos.
— Eu também acho. — concordo. Enquanto tomo meu leite, um pensamento me vem à cabeça e resolvo comentar com o Sung Min: — Isso é estranho, não é? Até parece que estamos fazendo algo errado, para ter de manter nossa amizade em segredo. Poxa, nós não estamos fazendo nada do tipo que o Dong Hae e o Eun Hyuk fazem.
— Você também viu? — ele pergunta, chocado.
— Os dois se pegando? Ahã.
Ele se remexe, parecendo desconfortável.
— E você, hã... Você, tipo, gostou? — ele pergunta. Quase cuspo o leite que tenho na boca. Que tipo de pergunta é essa?!
— O quê? — pergunto, depois de engolir. Minha voz sai meio esganiçada, mas eu ignoro.
— Nada! — ele diz, envergonhado. — Desculpe, é que você falou tão naturalmente que achei que você tinha curtido.
— Não! — eu digo. — A cena que eu vi foi muito constrangedora! Até hoje me arrependo de ter sido tão curioso. Por quê? Você gostou do que viu?
Ele franze a testa, como se eu tivesse dito um insulto.
— Claro que não! — ele atira. Depois solta o ar pesadamente e diz: — Vamos mudar de assunto?
— Por favor.
Começamos a conversar sobre coisas banais, tipo músicas favoritas e o que gostamos de fazer. Depois, quando acabo de comer, decidimos ir para o quarto. Caminhamos sem pressa, conversando durante todo o caminho. Falamos das aulas, das músicas que gostamos de tocar no piano, do que gostaríamos de fazer se a instituição não fosse integral, e vamos falando até chegarmos ao quarto. E, entrar no nosso quarto me faz lembrar um assunto:
— Ei, Minnie — chamo. — Soube alguma coisa sobre o Ryeo Wook e o Ye Sung?
— Não. — ele responde, subindo as escadas. — Parece que estão apenas fazendo amizade, como eu e você.
Eu penso naquilo novamente. Eu e Sung Min estamos nos tornando amigos; eu gosto disso, gosto dele e de tê-lo por perto. Aliás, eu quase pirei quando ele me disse que queria se afastar. Mas, ainda assim, não posso deixar de me sentir mal. Parece que estou traindo o Chul, desvalorizando seus sentimentos. O que estou fazendo parece errado, muito errado. Mas, ao mesmo tempo, parece tão certo quanto devolver a um sem-teto o bilhete premiado da loteria.
— Você não vem, calouro? — escuto Sung Min dizer. Ele diz a última palavra de um jeito divertido, mas sua voz doce pronunciando essas sílabas faz um arrepio percorrer minha espinha. Eu queria poder negar, mas simplesmente acho Sung Min me chamando de “calouro” extremamente sedutor.
— Vamos ficar aí em cima? — pergunto. — Sabe que o Ye Sung vai ter um ataque se me pegar na tão querida área dos veteranos, não é?
Ele ri e estende a mão para mim. Me pergunto por que ele faz isso, já que mais de três metros nos separam. Ele acha mesmo que vou segurá-la?
— Dane-se o Ye Sung. Venha ficar comigo.
Seu sorriso é tão bonito que bloqueia meus pensamentos por um instante, mas me apresso em subir as escadas. Ele mantém a mão estendida até eu alcançá-lo. Seguro-a e ele me guia em direção à sua cama.
— Nós só temos duas vantagens aqui em cima: a banheira — ele diz, apontando para o banheiro. Filhos da puta! Eles têm uma banheira! Enquanto nós só temos um chuveirinho! Que injustiça! Eu pago o mesmo preço de mensalidade! Por que os veteranos têm mais benefícios? — E o colchão. — ele completa, me jogando na cama com um colchão super-macio de molas. O movimento dele é totalmente inesperado e a surpresa leva embora a minha indignação sobre o assunto da banheira. Estamos os dois na cama, e Sung Min fica por cima dessa vez.
— Esse colchão é mil vezes melhor que o nosso. — comento, tentando parecer casual, ainda que meu interior esteja completamente revirado por estarmos nessa posição de novo.
Ele dá uma risada gostosa e rola para o lado, deitando na cama.
— Por isso dormimos em cima. — ele diz. — E vocês, lá embaixo, calouro. — ele implica, se apoiando em um cotovelo e debruçando o tronco sobre meu corpo. Faço força para me concentrar em seus olhos e não em seus lábios atraentes.
— E o que eu tenho de fazer para usufruir das vantagens dos veteranos? — uso meu tom provocante e pareço estar insinuando algo. Estou querendo insinuar alguma coisa?
Ele entra no meu jogo outra vez:
— Talvez dormir com um.
— Eu poderia dormir com você. — respondo. Estamos tão sérios que até parece verdade... Mas espere um pouco; eu não sei atuar. Na verdade, acho que sou o pior ator do mundo. Se está parecendo real é por que...
— Chega de brincadeiras. — ele ri, se levantando. — Temos uma manhã inteira para ficarmos juntos. Como vamos passar o tempo?
— Hmmm — eu faço, fingindo estar pensando. — Se os veteranos fossem realmente fodões e tivessem um Nintendo Wii no quarto...
— Babo! — ele brinca, mostrando a língua para mim. E, bem, eu não perco oportunidades.
— Não me mostre a língua, Sung Min. — digo, dando tudo de mim para parecer sério. — Ou eu não respondo por mim.
Ele parece nervoso. Assustado. Hahaha, um ponto para o Mestre dos Jogos.
— Como assim? O que vai fazer? — ele pergunta. Dou de ombros, como se dissesse pague para ver. É exatamente o que ele faz: põe a língua para fora por poucos segundos. Mas é o suficiente para servir de provocação.
Derrubo Sung Min de costas na cama, assumindo novamente a posição de cima. Aproximo meu rosto do seu devagar, com os olhos fixos nos dele, sentindo sua respiração descontrolar.
— Foi você quem pediu. — sussurro, a cinco centímetros de sua boca. E se eu... Não! Concentre-se, Kyu Hyun. Não é isso que você quer...
Fecho os olhos e avanço para quatro centímetros, enquanto minha mão desce para seu abdômen. Três centímetros, e ponho as mãos por dentro da sua camisa. Dois, e preciso dar tudo de mim para seguir com o plano original: começo a lhe fazer cócegas.
Sung Min perde o ar quando percebe o que faço e começa a se contorcer, rindo. Rolamos na cama juntos enquanto ele tenta se livrar das minhas mãos. Em meio às risadas, penso no que poderia ter acontecido. Se eu beijasse Sung Min de novo, eu tiraria sua camisa? Ele tiraria a minha? Ficaríamos de cuecas, apenas? Será que ele usa boxers, como eu? Ele deve ficar tão...
— Pare com... — Sung Min ri. Volto a prestar atenção ao que realmente está acontecendo e rio ao ver o rosto vermelho do Minnie. — Pare, Kyu Hyun!
Decido que ele já riu demais e sua barriga já deve estar doendo, então recolho as mãos. Me endireito na cama e espero ele se recompor.
— Seu idiota! — ele diz, sem fôlego, exausto de tanto rir. E, para completar, acerta um chute no meu braço. — Quase morri sem ar!
Deito na cama ao seu lado e beijo sua bochecha molhada de lágrimas risonhas.
— Desculpe, Minnie. Mas foi você quem pediu. — repito.
— Eu não esperava cócegas! — ele reclama. — Isso é golpe baixo!
Eu rio e brinco um pouco:
— É golpe baixo, maknae? Sinto muito.
Ele dá uma risada.
— Você é um hyung muito malvado.
— Sim, eu sou. — digo. — Sou um garoto mal.
Ele se remexe na cama, virando para me olhar melhor.
— Certo, chega de brincadeirinhas. O que vamos fazer agora?
— Não vai tentar uma revanche? — provoco, com um sorriso de canto. Ele sorri para mim e responde:
— Agora, não. Não tem graça. Ainda vou te pegar desprevenido.
— Então está pronto para perder em outro jogo? — pergunto, me sentando. Ele faz o mesmo enquanto indaga:
— Outro?
Eu fico de pé e abro um sorriso vitorioso.
— É. Acabou de perder no jogo de cócegas.
Ele se põe de pé num salto.
— Não foi um jogo, foi golpe baixo! Eu não estava preparado! — ele se defende.
— Então agora você vai estar. Aceita?
Ele pensa um pouco, mas por fim concorda.
— Mas não sou o melhor do mundo em jogos, Kyu. — ele avisa.
— Mau para você. — respondo. Ele toma fôlego para reclamar comigo, mas abro um sorriso e falo antes: — Mas não se preocupe. Eu sou o melhor. Posso te ensinar.
— Então me ensine agora. — ele diz, se aproximando. É a vez da frase dele soar insinuativa. Sigo meus instintos e enlaço sua cintura e puxo-o para perto, colando seu corpo no meu. Novamente, cinco centímetros separam nossos lábios. Sua respiração está acelerada e seus olhos, arregalados. Me pergunto por que insinuo tantos beijos com o Sung Min. Eu tenho de parar com isso.
— Vamos precisar de computadores portáteis. — digo.
— Eu tenho um. — ele diz, apressado.
— Então, vá pegá-lo. — respondo, beijando-lhe a bochecha e soltando sua cintura.
— Claro. — E vai até a porta do seu armário, um tanto quanto desconcertado. Enquanto isso, me dirijo às escadas, em direção ao andar de baixo. Sung Min chega alguns segundos depois de mim.
— O que vamos jogar? — ele pergunta, depois de sentarmos na minha cama e ligarmos nossos notebooks.
— O jogo do milênio. — respondo, com uma pausa dramática. — StarCraft.
E então começo a ensiná-lo. Claro que excluo os macetes e técnicas secretas, porque eu suei muito para aprender tudo o que sei. Não vou passar tudo assim, de graça. Por favor!
As horas passam voando e, antes mesmo que a gente perceba, já são 12:30. Logo Ye Sung e Ryeo Wook estão chegando... Que droga! Mas, pelo menos, tive uma manhã extremamente agradável ao lado do meu ursinho de pelúcia. Eu me diverti muito.
— Acho melhor pararmos por aqui. — ele diz.
— É, o almoço começa daqui a pouco. — concordo. Desligamos os notes e Sung Min fica de pé. Ele começa a se alongar e eu perco o ar. Esse corpo... Realmente me deixa fora de mim. Por quê? Por que Sung Min mexe comigo dessa forma? Por que ele me faz pensar, cogitar e o pior, querer tudo o que designei como “extremamente proibido”? Como é que eu fui deixar isso acontecer? Como eu pude deixar um garoto me afetar tanto?... Será isso o que chamam de amor?
— Então vamos? — Sung Min me acorda de meus pensamentos.
— Hã? — pergunto, porque não ouvi bem o que ele disse.
— Vamos, game Kyu? — E essas duas palavras me acertam como uma marretada na cabeça.
— Game... Kyu? — pergunto, desnorteado. Seria ele o tal Lee, que foi meu amigo de infância e fazia aulas de futebol comigo? Aquele garoto doce e angelical que me salvou naquela tarde maldita...
— Desculpe se você não gosta desse apelido. — ele diz, apressado. — Eu só achei que, como você é tão viciado em jogos, combinaria e...
— Tudo bem, Minnie. — digo, risonho. Ele está tão nervoso! É adorável. — Pode me chamar assim. Eu gosto desse apelido.
Um sorriso cativante nasce em seu rosto e não posso deixar de sorri também.
— Então venha logo! — ele diz, fingindo estar impaciente. — Já são 12:35.
— Certo, desculpe. — digo, levantando. — Vamos almoçar.
Seguimos em direção à porta, e me lembro de um assunto extremamente importante – no almoço, eu encontrarei o Chul. Preciso de uma resposta. Positiva.
— Ei, Sung Minnie — chamo. Ele me olha sorrindo.
— O que foi?
— Ahn, você... Bem, teria como você... Quero dizer, você poderia...
— O que você quer, Kyu? — ele vai direto ao ponto. Eu respiro fundo e digo:
— O telefone do Han Geng.
Ele pára, com a mão na maçaneta.
— Para quê você quer o telefone do Chinês? — ele atira, agressivo.
— Bem, é para um amigo meu...
— Aquele ruivo insuportável?
Ah, caralho! Será que eu nunca vou conseguir enganar ninguém?! Que merda!
— Não fale assim do Hee Chul. — reclamo.
— Então é mesmo para ele. — ele diz, com uma careta. Eu assinto. Ele bufa e abre a porta. — Posso tentar conseguir algo, mas eu não conheci o Han Geng. — ele diz, alterado. Lhe assalto com um abraço e ele amolece.
— Obrigado, Minnie. De verdade.
Ele retribui meu abraço e responde:
— Não há de quê. É para isso que servem os amigos.
E descemos juntos para o refeitório – pela quinta vez, tenho de aguentar a lesma mecânica. Também caminhamos juntos pelo corredor. No caminho até as portas do refeitório, digo:
— Obrigado por essa manhã agradável, Minnie. Eu me diverti muito. Realmente gosto da sua companhia.
Ele sorri e responde:
— Eu também adorei nosso tempo juntos. E pode ter certeza de que vamos repetir o que aconteceu hoje muitas vezes. Eu gosto de verdade de você e da sua companhia.
— Bom saber. — digo.
Já estamos na porta do refeitório, então paramos para nos despedir.
— Até mais tarde, Kyu.
— Até, Minnie.
Trocamos sorrisos e ele entra primeiro. Espero um pouco e, quando estou prestes a entrar, ouço uma voz muito familiar.
— Kyu Hyun. — diz Hee Chul. Eu me viro para olhá-lo.
— Oi, Chul. Como foi a aula? — pergunto. Ele entrelaça os dedos com os meus e afaga meus cabelos com a outra mão.
— Nada muito especial. — ele diz. — Senti sua falta.
Abro um sorriso.
— Eu também senti a sua. — digo.
— Aliás, o que ficou fazendo? Se divertiu?
Dou de ombros, tentando parecer casual.
— Joguei StarCraft. — E aproveitei a companhia do meu ursinho de pelúcia numa manhã repleta de jogos e risos.
Notas finais
Ai gente! Eu sei que a história dele com o Chinês é meio triste, mas... Ela vai ficar feliz. *------*
E o Minnie todo fofo no capítulo inteiro. É perfeito. Eu sei, eu sei. /modesta.
Espero que tenham gostado. Quero ver o comentário de vocês ok? Se precisar melhorar algo, pode falar. Se tiverem algum pedido, pode falar. Se quiserem só elogiar, podem falar. *-*
Até o próximo capítulo. Kisses and butterflies. ♥
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