Notas iniciais
Então, depois de anos a gente aparece com um novo capítulo e... E... Ele está maior que o anterior. '-' To achando que uma hora o Nyah vai proibir a gente de postar, porque tá grande demais. Desta vez foram 26 páginas no Word.
Pois bem, não vou ficar me desculpando infinitas vezes por demorar mais uma vez, até porque isso já deve ter irritado a todos. D: Mas espero que nossos leitores amados apareçam. >_
Quero dedicar esse capítulo para uma pessoa especial, já que hoje a gente faz dois meses. Nychi, sua besta sem igual, eu te amo e espero ficar para sempre com você. Eu te amo! Feliz dois meses. ♥
Agora chega disso, bora pra fic. Boa leitura. n_n

POV Kyu Hyun:

Finalmente, é meu aniversário. Eu acordei animado, mas a sensação passou logo que me lembrei de que passaria o dia todo com o desgraçado do Ki Bum: pela manhã, ensaiaríamos a coreografia e, de tarde, iríamos ao Shopping escolher roupas.

Eu tentei me concentrar na parte boa das coisas: nosso primeiro ensaio de dança foi surpreendente, e a maioria conseguiu pegar os passos com facilidade – Si Won e Ye Sung foram os que tiveram mais problemas com a coreografia. Infelizmente, Ki Bum não dança mal e eu não pude reclamar com ele durante o ensaio. Inclusive, o maldito dança melhor do que eu, e isso não me deixou nem um pouco satisfeito.

De qualquer forma, eu fiquei agradecido porque não houve muita troca de carícias entre o Monstro das Neves e o meu ursinho apertável, pois os dois estavam levando o ensaio bastante a sério. Ainda assim, eles ficaram juntos durante todos os intervalos de descanso e isso afetou consideravelmente meu humor. Minha única válvula de escape foi o Chul, que ficou ao meu lado durante toda a manhã e, por mais puto que eu estivesse, ele sempre conseguia arrancar um sorriso meu.

Agora, estou sentado à mesa com os outros onze membros do grupo, esperando Sung Min, Ye Sung e Ryeo Wook acabarem de comer. Minnie, porque é um lerdo, mesmo; e os outros dois, porque sempre se atrasam para o almoço. De alguma maneira, eles conseguem se esgueirar para longe do grupo sem que ninguém perceba, e só aparecem no refeitório por volta de quinze minutos depois de nós. Quando toquei no assunto, Eun Hyuk me respondeu que eles aproveitam esse tempo para “fazer barulho” – o que, vindo de Hyuk Jae, só pode significar putaria – mas eu me esforço de verdade para não pensar que, durante todo o tempo que os dois ficam sumidos, eles estão fazendo sexo em algum lugar. É mais confortável pensar que eles sempre têm alguma pesquisa para fazer e passam esse tempo na Biblioteca.

— Então... Estão animados para o passeio da tarde? — Lee Teuk pergunta. Acho que, de todos, ele é o mais entusiasmado com a idéia de sair do colégio. Provavelmente porque ele quer tudo perfeito para a nossa apresentação, e deve considerar o figurino essencial.

A pergunta dele me deixa tenso, em meio a uma batalha interna. Não sei se fico feliz por sair e ter a chance de passear, ou se fico chateado por ter de fazer compras no meu aniversário. Eu odeio fazer compras! Queria passar meu aniversário no fliperama ou no cinema, já que não posso passar com a minha família. Mas roupas? Não tem coisa mais chata do que comprar roupas.

Ainda assim, eu decido ficar contente. Não vou deixar isso estragar meu dia. Se eu consegui aguentar Sung Min e Ki Bum juntos durante o ensaio, posso aguentar algumas horas de compras, certo? Pelo menos, Sung Min vai ficar comigo. Como está agora, segurando minha mão. Eu sou a prioridade dele, não sou? É claro que ele vai escolher ficar ao meu lado, e não ao lado do Monstrinho de Gelo... Certo?

— Claro! — eu respondo à pergunta do Líder, um pouco atrasado. Me perder em pensamentos é um problema sério...

— Ótimo! — Lee Teuk continua, depois de ouvir uma resposta positiva de todos. — Então, relembrando, o combinado foi 2:30 em frente à entrada do Prédio III. Espero que ninguém se atrase. — ele diz, sorrindo, tranquilo como sempre. Ao contrário do namorado:

— Ou vão levar uma porrada. — Kang In complementa, com um tom de seriedade assustador.

— Kang In! — Lee Teuk repreende, dando uma risada e o rechonchudo logo se junta a ele.

— Estou só brincando. — Kang In diz, sorrindo largamente, e todos ao redor da mesa riem. A não ser por Ki Bum, mas acho que ele não ri nunca.

— Babo — o Líder murmura carinhosamente, enquanto acerta um tapa leve no braço de Kang In. Depois se vira para nós e, observando que os três atrasados já terminaram de almoçar, diz: — Então, agora que todos acabamos de comer, vamos para os nossos dormitórios, porque já são 1:45.

Com isso, o Líder faz menção de levantar e todos o seguem. Eu fico de pé antes de Sung Min e o ajudo a se erguer, puxando-o pela mão. Ficamos muito próximos quando ele fica de pé, e isso me deixa um tanto desconcertado.

— Obrigado — ele diz, olhando-me intensamente. Minnie também parece estar um pouco afetado pela nossa proximidade. Eu me esforço para responder algo.

— Não precisa agradecer — consigo balbuciar. Sung Min sorri e ficamos presos em um contato visual hipnotizante. Eu não consigo desviar o olhar; ele tem os olhos tão penetrantes... Como pérolas negras. Eu me perco neles.

E provavelmente ficaria perdido para sempre se alguém não interrompesse o nosso momento. Mas eu preferiria que fosse outra pessoa, e não o babaca do Ki Bum chamando por Sung Min.

— Min-ah — ele diz. Ambos dirigimos o olhar ao filho da puta. Ele estende a mão e fala: — Venha.

Eu faço uma careta de desprezo misturada com incredulidade; esse escroto acha mesmo que é só chamar que o Minnie vai? Como uma espécie de cachorrinho? Rá! Até parece! É óbvio que o Sung Min prefere ficar comigo e...

— Com licença, Kyunnie — Minnie beija minha bochecha, larga minha mão e vai saltitante até Ki Bum. Meu interior explode em raiva, tristeza, indignação, desgosto, descrença e mais uma porrada de emoções que, no final, me deixam puto da vida. Como assim ele decide me largar para ficar com o Ki Bum?! Eu nunca faria...!

Uma memória me cala. No primeiro Domingo do grupo, quando vimos as apresentações do MJ, no mesmo dia do meu estranho beijo com o Chul, enquanto caminhávamos até a Sala de Vídeo, eu e Sung Min estávamos conversando, não me lembro direito sobre o quê. Então o Chul me chamou e eu nem mesmo hesitei em ir para o seu lado. Eu disse “Desculpe, tenho de ir” e me afastei correndo. Eu fiz a mesma coisa que Sung Min acaba de fazer.

Quero dizer, quase a mesma coisa, porque o Chul não surgiu do nada querendo ser meu amigo! O Chul se tornou meu amigo antes do Minnie! Por isso ele é minha prioridade. Mas eu sou amigo de Sung Min há muito mais tempo que Ki Bum, e ele me troca assim?!

Eu respiro fundo e fecho os olhos, tentando me controlar. Meu interior arde em fúria. Eu quero dizer um monte de coisas a Sung Min, mas meu orgulho me impede de falar qualquer coisa que vá denunciar todo o ciúme que estou sentindo.

— Está tentando furar a mão com as próprias unhas? — me assusto com uma voz próxima ao meu ouvido. Viro para ver quem é e me deparo com o macaquinho do grupo.

— Do que está falando? — pergunto, sem entender. E, por um momento, eu me esqueço de toda a minha raiva.

Eun Hyuk segura minha mão direita – porque a outra continua engessada – e me mostra minha palma.

— Disso — ele responde, enquanto indica marcas de unhas na minha mão. Eu fiz isso? Sem nem mesmo perceber? Maldito ciúme!

Liberto minha mão e a fecho, na tentativa de esconder os pequenos machucados que eu mesmo fiz.

— Isso não é nada — murmuro. Ele dá de ombros.

— Que seja. Mas me diga, então: já disse ao Sung Min que é afim dele? — Hyuk muda de assunto. Eu ficaria agradecido se a nova questão não fosse ainda pior que a anterior.

— O quê? — retruco, surpreso pela pergunta.

— Certo, não quer falar disso também... — Eun Hyuk diz, pensativo. Me sinto aliviado por ele não ser insistente. Mas, se eu soubesse o que ele diria depois, teria escolhido me ater ao outro assunto.

— E quanto à bunda dele? Você já a apertou, né? Do jeito que estavam se pegando lá no beco, já deve ter até rolado oral entre vocês dois.

Eu começo a tossir feito um louco. Ele realmente falou de sexo oral?! Puta que pariu! Como ele fala dessas coisas tão naturalmente?!

— Pequeno Kyu? Está tudo bem? — escuto a voz levemente preocupada do Chul. Aparentemente, minha tosse escandalosa chamou sua atenção.

Dirijo meu olhar a ele e balanço a cabeça em sentindo afirmativo, tentando sorrir.

— Eu só... Engasguei, Chul. Estou... Bem. — respondo, ainda que eu não esteja nada bem. Estou nervoso e um pouco assustado com o que Hyuk acabou de dizer, mas, ao mesmo tempo, estou bastante interessado. Quão incrível deve ser o sexo oral com Sung Min?

Espere, que porra eu estou pensando?! É melhor eu me ater ao nervosismo e não pensar nessas coisas; estou em público, ao lado de Hyuk Jae, e uma ereção não seria nem um pouco bem-vinda agora.

Afundo em pensamentos de novo e mal percebo quando Chul assente e sorri para mim, antes de voltar sua atenção Lee Teuk, com quem estava conversando antes do meu ataque; mas Eun Hyuk me faz acordar.

— Perdão — ele murmura.

Eu balanço a cabeça, dizendo que não tem problema; afinal, essa é a sua personalidade e não creio que Hyuk Jae vá mudar algum dia. De qualquer jeito, mesmo que eu queira matá-lo de vez em quando, ele é um cara legal, então não há motivo para eu ser rude ou qualquer coisa parecida.

Um segundo se passa e ele volta a falar:

— Desculpe, mas eu estou realmente curioso: você apertou a bunda gostosa do Sung Min ou não teve coragem para isso também?

— Eun Hyuk, por favor! — eu tento parecer ofendido com a pergunta, como se eu nunca fosse fazer algo desse tipo; mesmo já tendo feito. Mais de uma vez.

Ele gesticula inocentemente.

— O quê? — ele pergunta, na defensiva. Mas não me dá a chance de falar qualquer coisa e começa a tagarelar: — Pelo amor de Deus, Kyu Hyun! É possível que mesmo depois daquilo tudo você ainda não tenha se aproveitado da situação?! Por favor! Qual é o seu problema? Você é retardado ou algo do tipo?

— Ya! — eu reclamo, fingindo estar envergonhado, mesmo querendo lhe dar uma porrada por me chamar de retardado indiretamente.

Sinto uma leve vontade de abrir o jogo e dizer que eu já apertei, sim, o traseiro de Sung Min. Mas não confio nele o suficiente para fazer uma revelação desse tipo. Nem mesmo Chul sabe de todos os nossos momentos de pegação...

De qualquer forma, acho que estou começando a conseguir atuar, graças a Sung Min, porque ele põe o braço por cima dos meus ombros e junta nossas cabeças, me fazendo olhar para nossos sapatos.

— Me escute, maknae. — ele diz. E sua voz soa tão sábia que eu realmente presto atenção ao que ele fala. — Mão na bunda é sinônimo de posse! Dê só uma olhada em YeWook, por exemplo.

Eu varro os olhos pelo refeitório até encontrar os dois mencionados por Hyuk Jae.

— Eles sempre andam lado a lado, o que não é surpresa nenhuma, já que eles são um casal. Mas repare na mão de Ye Sung: apoiada na bunda do namorado.

Meu queixo cai quando vejo que a mão de Ye Sung realmente está em uma das nádegas de Ryeo Wook. Que porra?!

— Isso, além de posse, significa confiança — Eun Hyuk continua com a sua explicação, alheio a toda minha descrença. Ainda não consigo acreditar que a mão de Ye Sung está de fato ali. — É um contato muito íntimo, então precisa confiar no outro para deixar acontecer.

Eu penso nisso por um instante. Quer dizer que Sung Min confia em mim, porque eu já apertei aquele monumento – que ele chama de traseiro – algumas vezes. Essa idéia faz um sorriso surgir em meus lábios. Mas eu também não posso deixar de atiçar meu próprio ciúme, pensando em Sung Min e Ki Bum. Olho para os dois, mas, para minha felicidade, estão apenas lado a lado, sem nenhum contato físico. Ainda assim, minha consciência faz questão de foder minha alegria, me lembrando de que, em público, nós também não temos muito contato corporal.

— Observe e aprenda — Eun Hyuk atrai minha atenção novamente, me dando tapinhas no ombro. Eu agradeço interiormente por ele me desviar de surtos paranoicos envolvendo meu ursinho apertável e o babaca escroto.

Hyuk se afasta, em direção a Dong Hae, e eu sei que vem alguma coisa ruim pela frente. Mas me surpreendo mesmo assim quando o macaco do grupo acerta um senhor tapa na bunda do parceiro. O barulho é bastante alto, sem contar o gemido – erótico, se perguntarem minha opinião – de Dong Hae.

Todos param o que estão fazendo e voltam sua atenção ao casal. Hyuk Jae exibe seu maior sorriso, mostrando sua gengiva rosada; enquanto Dong Hae cobre o rosto com ambas as mãos, provavelmente encabulado pelo som que acabou por soltar.

Hee Chul dá uma risadinha e faz o primeiro comentário:

— O que é isso, Hyuk Jae... Guarde essas coisas para a noite.

Eun Hyuk ri e as orelhas de Dong Hae parecem pegar fogo.

— Eu não resisto ao meu peixinho — Hyuk comenta, abraçando “seu peixinho” por trás.

As expressões se suavizam um pouco, deixando o choque de lado. O som alto assustou todo mundo, mas, depois de descobrirem que foi só putaria do Hyuk, o espanto passou.

Mas eu sou pego de surpresa outra vez quando algo toca na minha mão, e reajo de maneira exagerada, como costumava fazer no começo do ano: recuo a mão automaticamente, dando um saltinho e girando para ver o que encostou em mim.

— Nostalgia, Kyu Hyun? — é a voz risonha de Ryeo Wook.

— Ai, que medo de homens — Dong Hae complementa a piadinha, fazendo uma voz aguda que em nada se parece com a minha. Meus amigos são tão engraçadinhos...! Tudo bem que eu reagia mesmo assim antes, mas...

— Acalme-se, maknae, eu não vou te matar. — a voz próxima a mim chama minha atenção. Eu estava achando que era Sung Min, o que seria aceitável, mas essa não é a voz do meu ursinho. Então... Quem é? Focalizo a pessoa à minha frente e me surpreendo: o que diabos Lee Teuk quer com a minha mão?

Ele parece notar que fico confuso com sua atitude; afinal, não é normal o líder do seu grupo, com o qual você não tem grande intimidade, chegar tocando sua mão.

Lee Teuk me dirige um sorriso delicado, se desculpando.

— Eu só reparei que há pequenos machucados na palma da sua mão. Você estava cravando as unhas nela? — ele me pergunta, com um tom de preocupação. Meu sangue gela; como eu explico isso? Puta que me pariu... É possível que as coisas só piorem para mim?

— Hã... Eu... — tento achar uma desculpa, ao mesmo tempo em que fecho a mão para esconder os machucados. Antes que eu possa bolar algo, Eun Hyuk se pronuncia:

— Isso é obra do ciúme, Líder. Conhece?

Eu começo a suar frio. Por que esse maldito macaco disse isso tão alto?!

— Ciúme? — Eu me viro na direção da voz e encontro Sung Min de braços cruzados. — Ciúme de quem?

Não faço idéia de como responder a essa pergunta. Digo a verdade? Ou... Merda! O que eu posso dizer além da verdade?!

— Está com ciúme também? — Eun Hyuk ataca. Ô cara para ser impiedoso; não deixa passar nada!

Sung Min responde sem hesitar:

— Estou! — E eu engasgo pela segunda vez em poucos minutos. O que ele está dizendo?! Sung Min está assumindo que está com ciúme de mim, na frente de todos os outros?! Aliás, sorte nossa que o refeitório já está vazio. Somos os únicos aqui.

— Ele é meu amigo, e fica aí, com ciúmes de outro?! — meu ursinho complementa, parecendo magoado. Isso me deixa furioso. Ele fica sentido por eu estar com ciúme de outro – supostamente, porque na verdade é dele que estou com ciúme – e ele me troca para ficar com o escrotinho do Ki Bum?!

Eu decido que é a gota d’água e que é hora de reagir. Mas é a pior coisa que eu poderia fazer, porque, assim que começo a verbalizar meus pensamentos, noto que Sung Min abre um sorriso. Ele estava brincando. Mas é tarde demais para frear minha língua.

— E você, que não desgruda do Ki Bum?! — eu replico, alterado. Me arrependo assim que ouço o que disse. Meu tom é bastante rude e Sung Min encolhe os ombros, enquanto todos os outros param para assistir.

— Ki Bummie é meu amigo... — Minnie começa, sem jeito, piorando as coisas com esse apelido carinhoso. Sinto meu sangue ferver novamente e tento me acalmar; eu não quero perder o controle. Não posso deixar o ciúme me vencer.

Mas antes que eu me dê conta a merda já está feita:

— Eu também sou! — praticamente grito de volta. Isso choca a todos. Até a mim mesmo. Em todas as nossas outras discussões, eu nunca gritei com ele desse jeito. Não com tanta raiva, mágoa, e muito menos todo esse ciúme estúpido! Eu sempre consegui manter o tom razoavelmente controlado. Mas agora... Eu me descontrolei completamente. E isso me faz sentir mal, como se eu tivesse acabado de machucar um filhotinho.

E esse sentimento piora quando eu noto que pequenas lágrimas começam a brotar nos olhos de Sung Min; eu o fiz chorar. Por que eu sou um idiota tão grande?

— Eu sei que você é... — Sung Min diz, choroso, e sinto um aperto enorme no peito. É impossível descrever a culpa e o remorso que pesam sobre mim agora. — E... Eu te considero muito, Kyunnie. Eu não... — ele não consegue continuar. As lágrimas não deixam.

Eu dou dois passos na direção dele, completamente arrependido, pronto para me desculpar mil vezes; mas Ki Bum o abraça primeiro. Não posso deixar de amaldiçoar a distância que me separa dele, porque, se eu estivesse mais próximo, quem estaria consolando meu ursinho apertável agora seria eu! E não aquele babaca...

— Está satisfeito? — escuto a voz firme e furiosa do Monstro das Neves. Como ele se atreve...?!

O encaro com ódio, a um passo de avançar em seu pescoço. Ele me olha com desprezo e raiva.

— Olhe o que você fez. — ele diz, indicando Sung Min em seus braços. Eu tomo fôlego para verbalizar tudo o que estou sentindo, mas o babaca é mais rápido: — É por isso que ele prefere a mim: porque eu não o faço chorar.

Isso é como um soco no estômago. Dói. Muito. Rapidamente minha raiva se transforma em tristeza, mas eu ainda consigo usá-la antes que desapareça por completo.

— Então foda-se! — digo, irritado, me esforçando ao máximo para soar desinteressado, como se aquilo não me afetasse nem um pouco. Mas meu coração dói muito e, sem dizer mais nada, eu saio andando apressado para fora do refeitório, deixando para trás todos os outros membros abismados.

Enquanto me afasto, posso sentir um par de olhos grandes e intensos acompanhando todos os meus passos, mas não tenho coragem de me voltar para encará-los. Ainda assim, rezo silenciosamente para que o dono deles venha me reconfortar. Porque Hee Chul é o único que poderia me fazer sentir melhor agora. Além de Sung Min, claro, mas sei que ele não faria isso. Porque aquele demônio não deixaria.

Atravesso as portas como um relâmpago, e corro em direção às escadas. Quero me manter em movimento, me ocupar com algo. E, quem sabe, conseguir aliviar um pouco a dor em meu peito com a exaustão de subir 160 degraus.

Durante todo o percurso cansativo, eu penso em Sung Min. Eu o magoei e estou me odiando por isso. Mas aquele filho da puta me tira do sério completamente! Ele é tão arrogante, ridículo e irritante! Por que o meu ursinho gosta daquele babaca?! Por que ele deixou que aquele idiota me dissesse tudo aquilo? Será que ele concorda? Será que Sung Min realmente prefere aquele imbecil, porque eu o faço sofrer? Mas eu o amo! Ele não percebe? Sung Min nem ao menos me deu a chance de pedir desculpas por ter gritado com ele... Quero dizer, Ki Bum não me deixou falar nada. Aquele miserável! Agora eu e Sung Min estamos de certo modo brigados, por causa da sua estupidez! Eu preciso me desculpar... E tenho de aproveitar o momento de Sung Min sozinho, longe de Ki Bum – maldito! – porque parece que não vou conseguir falar com ele enquanto estiver na presença daquele verme desprezível.

Avisto a porta do oitavo andar e finalmente me dou conta de que estou esgotado. A tarefa não foi nem de longe tão simples quanto eu achava que seria. Minhas pernas doem, meu fôlego sumiu. E ainda preciso caminhar até meu quarto.

Sigo praticamente me arrastando pelo corredor até chegar à porta 892. Fico feliz pelo meu plano ter funcionado e o cansaço realmente ter suavizado minha angústia. Respiro fundo e giro a maçaneta, me concentrando em fazer as pazes com Sung Min e não me deixando acovardar pelo fato de não estar nem um pouco afim de ver Ye Sung e Ryeo Wook. Queria que eu e Sung Min pudéssemos conversar sozinhos... Mas duvido que eles não estejam aqui. Afinal, ainda são 2:10... 2:10?! Porra! Só tenho dez minutos para me vestir!

Entro no quarto sem muita cerimônia, depois de perceber que estou atrasado. Me surpreendo com o silêncio, até ouvir duas pessoas conversando no andar de cima. Desejo interiormente para que seja Ye Sung e Ryeo Wook ou Ye Sung e Sung Min, ou até Sung Min e Ryeo Wook. Qualquer coisa que não seja aquele maldito miserável e o meu ursinho...

— Como está a minha aparência? Parece que eu chorei muito? Não quero que...

— Você está lindo, Min-ah. — Meu corpo trava ao ouvir a voz de Ki Bum. É ele. É realmente ele! Como Sung Min pôde trazê-lo para o nosso quarto?! — Como sempre.

Ouço uma risada fraca e a resposta de Sung Min em seguida:

— Pare de ser bobo, Ki Bummie! A maquiagem está disfarçando bem minha cara de choro?

— Sim, está, hyung. — ele responde, com um tom divertido que eu nunca ouvi antes. A dor em meu peito volta ainda mais forte do que antes. Ki Bum está aqui; meu ursinho o trouxe aqui. Eles estão cheios de carinho na mesma cama onde eu e ele tivemos tantos momentos bons! Onde tiramos nossa primeira foto juntos! Como ele pôde?! Se ele soubesse como isso me machuca...

— Sua aparência está recuperada — Ki Bum continua dizendo. — Queria que seu coração estivesse também.

Apoio a testa na porta do meu armário, derrotado e deprimido, enquanto continuo prestando atenção à conversa no andar de cima.

— Ele não fez nada de errado, Ki Bummie, você sabe — Sung Min diz.

— Desta vez, talvez não. Mas e nas outras? — Ki Bum o interrompe, alterado. Eu sei que estão falando de mim e me pergunto o que fiz de tão mal para Sung Min para esse babaca me odiar tanto. — Quantas vezes aquele idiota já não vacilou contigo, Min-ah?

— Ki Bummie, pare. Eu não quero falar sobre isso.

Três segundos de silêncio.

— OK, me desculpe. Venha cá. Desculpe.

Sung Min ri fraco e depois ouço um som que parece ser de alguém caindo na cama, seguido de uma reclamação risonha:

— Ki Bummie! Vai desarrumar meu cabelo!

Escuto Ki Bum gargalhando. Minha tristeza é tanta que nem mesmo a minha costumeira raiva por ele consegue emergir.

— Vamos, pare com isso! Já brincamos demais. É melhor irmos logo antes que nos atrasemos. — a voz de meu ursinho chega aos meus ouvidos novamente. Eu penso em me esconder no banheiro, mas não consigo me mover. Estou me sentindo péssimo.

— Certo, você tem razão. Não queremos levar uma porrada do Kang In-hyung, não é?

Eu me pergunto insistentemente de onde saiu todo esse bom-humor de Ki Bum. Ele não era um babaca escroto e sem expressão? Por que está tão divertido e brincalhão agora?

— De jeito nenhum! — Sung Min responde, depois de uma gargalhada. — Como está meu cabelo?

— Desgrenhado com estilo. — é a resposta alegre de Ki Bum. Minnie dá outra risada e diz:

— Perfeito!

Escuto o barulho dos dois descendo e tento parecer ocupado procurando algo no interior do meu guarda-roupa.

— Ah, oi, Kyunnie — Sung Min diz, um pouco encabulado. Eu o olho por cima do ombro, sem muita coragem para encarar sua expressão contente ao lado de Ki Bum.

— E aí? — eu tento parecer descontraído, mas minha voz soa muito estranha e trêmula. O que há de errado comigo?

— Kyu... — Sung Min toca meu ombro. Eu me viro para olhá-lo e, assim que ele vê meu rosto, Minnie fica pasmo. — Você está chorando?

A pergunta dele me pega completamente de surpresa e eu franzo a testa. Chorando, eu? É claro que não! Eu não sou tão fraco a ponto de chorar por causa de Sung Min... Sou?

Toco meu rosto e sinto minhas bochechas molhadas. Eu estou chorando. Sou um fracote sensível. Maldição! Por que estou chorando?!

Desvio o rosto, encarando o interior do meu armário. Eu quero me desculpar por ter gritado, quero que façamos as pazes agora, mas as palavras não saem. Eu sou incapaz de falar qualquer coisa, como se meus lábios estivessem selados.

— Kyunnie... Eu...

— Sung Min-ah, estamos atrasados. Só temos cinco minutos. — Ki Bum o corta.

— Mas...

— Acho que ele quer ficar sozinho — ele o interrompe novamente. Faz-se um segundo de silêncio, como se Sung Min esperasse uma resposta minha. Eu luto com todas as minhas forças para dizer algo, mas, mesmo abrindo a boca, minha voz não sai. Eu me amaldiçoo por ser tão estúpido.

— Estão está bem. Nos vemos lá embaixo. — Sung Min diz, tristonho. Porra, Kyu Hyun, diga alguma coisa, imprestável!, eu penso. Mas a porta se fecha e eu não digo nada, mesmo assim. E então, quando percebo que estou sozinho, começo a chorar feito um bebê. É ridículo e eu me odeio por isso, mas simplesmente não consigo controlar as lágrimas. Meu coração está doendo. Muito. E dói ainda mais quando minha mente estúpida inventa a hipótese de que Sung Min gosta mais de Ki Bum do que de mim e que em poucos dias os dois serão o próximo casal do nosso grupo.

Mas então minha situação traz à tona outra memória daquele Domingo conturbado em que Hee Chul me beijou: Sung Min chorando. Depois de ver meu beijo com o Chul, Minnie saiu chorando, magoado e triste. Ele me disse que chorou porque pensou que eu não confiava nele, mas, mesmo sabendo que aquilo não era tudo, eu nunca imaginei que seria por ciúme. Mas ele chorou pelo mesmo motivo que eu estou chorando agora: ciúme de ser trocado. E não é no sentindo de amigo.

Será que Sung Min me ama, assim como eu o amo? É uma coisa bastante óbvia, já que ele reage da mesma forma que eu quando temos lapsos e nos agarramos por aí; mas... Será? É possível que as palavras que ele me disse em Japonês, assim como as minhas em Chinês, signifiquem “Eu te amo”?

Escuto a porta abrir. Esse seria o momento certo para parar de chorar, mas eu estou longe de conseguir me controlar. Ouço o som de passos apressados e em pouco tempo braços delicados estão me envolvendo. Braços magricelas que só podem pertencer a uma pessoa.

Sinto seu perfume gostoso e, como se fosse um analgésico, a dor em meu peito diminui. A presença dele é um consolo imenso.

— Pequeno Kyu... — ouço a voz rouca e tranquilizadora de Hee Chul próxima ao meu ouvido. — Venha. Venha comigo.

Ele força levemente meu corpo na sua direção, num pedido. Eu me deixo ir e Chul me guia até minha cama.

— Sente-se. — ele solicita, e nós dois sentamos em meu colchão. Hee Chul sustenta meu queixo, me impedindo de abaixar a cabeça, e olha fundo em meus olhos. — Escute-me: não precisa chorar por causa de Sung Min e Ki Bum.

Eu faço uma careta confusa em meio ao choro; como ele sabe que o motivo da minha tristeza é esse? Ele sorri de lado, se divertindo com a confusão. A mão em meu queixo migra para minha bochecha e enxuga as minhas lágrimas.

— Você já deveria saber que eu te conheço como a palma da minha mão, meu pequeno Kyu — Chul me diz, acariciando meu rosto. Eu me sinto meio idiota, porque ele tem razão. Aliás, Hee Chul sempre tem razão.

O ruivo se ajeita na cama, aproximando-se mais, e suas mãos delicadas passeiam por meus cabelos enquanto ele começa a falar:

— Eu vi o que aconteceu lá no refeitório. Só um bobo não perceberia que você estava com ciúmes de Sung Min com Ki Bum. Mas não precisa se preocupar com isso. Eles dois não têm nada além de uma ligação especial de amizade; é só isso.

Seu tom é calmo e relaxante e eu sinto minhas lágrimas se esvaindo. Mas um brilho maroto cruza seus olhos e ele completa:

— Inclusive, o próprio Sung Min já te disse a quem pertence seu coração.

Ao ouvir isso, eu rapidamente tento repassar todas as conversas que tivemos, mas não me lembro de nenhuma que Minnie tenha me dito algo parecido. Fico encucado com a questão por alguns instantes, procurando uma resposta. Mas não encontro nada e decido perguntar:

— O que quer dizer?

Ele sorri e dá de ombros, e eu sei que ele não me dirá nada. Suspiro internamente; ele e essa mania de que eu tenho de descobrir as coisas sozinho! Custa dar uma mãozinha?

Chul arruma meus cabelos e, por um instante, fica apenas me olhando com aqueles olhos grandes e castanhos. Seu olhar é tranquilizante e parece espantar todos os sentimentos ruins que me atormentavam. Bastam alguns momentos olhando em seus olhos bonitos e minha tristeza se dissipa. Eu me sinto renovado.

— Está melhor? — Chul pergunta, reparando que as lágrimas cessaram. Eu balanço a cabeça algumas vezes.

— Estou ótimo. — respondo, conseguindo sorrir. Ele retribui com um sorriso exuberante.

— Então, chega de moleza — Chul diz, levantando-se graciosamente da cama. E, batendo palmas para me apressar, completa: — Vá se aprontar! Já estamos atrasados.

Eu levanto num salto; esqueci completamente que vamos ao Shopping hoje.

— Maldição! Ainda tenho de escolher minha roupa! — digo, com uma pontinha de desespero, rezando para que Kang In esteja realmente só brincando sobre dar uma porrada nos atrasados. Ele pode facilmente me quebrar em pedaços.

Vou apressado até meu armário e começo a vasculhar seu interior a procura de uma boa combinação, mas meu desespero cresce à medida que os segundos passam e eu não tenho a mínima idéia do que usar.

Então um tapa na minha bunda corta todos os meus pensamentos – tecnicamente, são dois, porque Hee Chul me bate em ambos os lados.

— Ei, desesperado, que tal deixar que eu cuide disso para você? — ele pergunta, mantendo as duas mãos em meu traseiro e apoiando o queixo em meu ombro. Que porra...?!

“Mão na bunda é sinal de confiança”, a voz de Eun Hyuk ecoa em minha cabeça. E, para dizer a verdade, ele tem razão. O fato de Chul estar com as mãos na minha bunda não me incomoda nem um pouco. Os tapas me assustaram um pouco, porque eu não estava esperando algo do tipo, mas a intimidade entre nós dois é tão grande que essa atitude não parece estranha. Inclusive, parece completamente natural.

Tão natural que eu solto uma risada e retribuo o gesto apoiando a mão em sua nádega direita.

— Quer cuidar disso para mim? — pergunto, risonho.

— Eu com certeza farei melhor que você. — ele responde, me fazendo rir novamente.

— Fique à vontade, então.

Dou um passo para o lado, deixando o armário livre para Hee Chul fazer o trabalho dele. Observo enquanto ele olha o conteúdo do meu guarda-roupa e leva as peças escolhidas para a cama, arrumando-as como ficarão quando vestidas. Não se passam nem dois minutos e ele já escolheu perfeitamente o que vou vestir.

— Voilá — ele diz, satisfeito, sentando-se ao lado da sua “criação”. Eu devo admitir que é uma boa escolha: camiseta num tom de azul-claro escrita em preto, calças jeans escuras e tênis brancos. Algo básico e, ao mesmo tempo, estiloso para um passeio no Shopping em uma tarde quente de inverno.

Hee Chul, por outro lado, decidiu optar por algo mais ousado; o que já era de se esperar, tendo em vista a cor de seu cabelo. Ele veste camiseta branca com detalhes em preto e calça xadrez vermelha. Ainda assim, a peça mais chamativa está nos pés: tênis All Star amarelo de cadarços verdes. Uma escolha bastante peculiar para alguém excêntrico como o Chul.

— Obrigado, Chul. Está realmente bonito — eu digo, voltando a prestar atenção nas minhas roupas e deixando de lado a beleza estranha das roupas de Hee Chul.

Ele sorri de canto.

— É claro que está. — retruca. — Agora, se vista.

— Sim, senhor — respondo rindo, mesmo que não tenha soado como uma ordem.

Começo a me despir, sem me importar com a presença do ruivo, tirando os sapatos, a camisa e, por último, as calças. Depois que termino, ele comenta:

— Até que você dá para o gasto, hein, maknae?

Volto a olhá-lo, pois antes estava fitando as roupas que vou vestir, tentando decidir se começava pela camisa ou pela calça. Seus olhos cintilam com um brilho divertido e um sorrisinho sacana brinca em seus lábios. Para todos os outros sua expressão pareceria maliciosa, mas eu sei perfeitamente que isso não passa de uma brincadeira.

Reprimo uma risada, para não acabar com a graça, e monto uma expressão sedutora – ou algo parecido.

— Ainda não viu nada, hyung — respondo, usando minha voz rouca; aquela que sempre faz Sung Min estremecer. Para minha surpresa, Chul também estremece e eu começo a achar que sou realmente bom na arte da sedução.

Caminho lentamente até a cama, me esforçando para parecer provocante, dando a impressão que estou indo ao encontro dele. Mas, na verdade, quero pegar os jeans estendidos ao seu lado. São apenas três passos de distância, e nosso contato visual é intenso, como se um quisesse seduzir o outro apenas com o olhar. Ele tem olhos muito bonitos, já comentei? E é muito atraente também...

Assim que acabo de cruzar a pequena distância que nos separava, me inclino ligeiramente para frente, praticamente encima dele, sem nunca desviar os olhos, enquanto estendo a mão para pegar minhas calças.

Mas então Chul arma o contra-ataque. É claro que ele não deixaria barato assim.

Uma de suas mãos suaves toca minha barriga, seus dedos percorrendo meu abdômen devagar, para cima e para baixo. Isso me deixa arrepiado e eu estremeço de leve quando seu indicador alcança a altura do meu umbigo.

— Então me mostre — sua voz não passa de um sussurro provocante e a frase soa muito real. Real demais. Por um momento, eu fico nervoso, em dúvida se isso é mesmo só uma brincadeira ou não.

Em seguida, sua mão delicada contorna minha cintura, descansando em minhas costas, e, antes que eu possa prever, Chul me puxa em sua direção.

Ele deita na cama, me levando consigo, e eu amorteço a queda com a mão direita e o cotovelo esquerdo. Nossos corpos se encontram com um ruído mínimo e nossos rostos ficam muito próximos, a ponto de sentirmos a respiração um do outro.

Para qualquer pessoa de fora, a imagem seria de dois caras que se gostam prestes a se entregar um ao outro num beijo apaixonado. Mas nós apenas nos entreolhamos por um segundo, sentindo o clima intenso que criamos, e depois caímos na gargalhada. A risada agradável e escandalosa do ruivo me faz sentir ainda melhor, espantando os últimos vestígios da minha tristeza.

— Agora chega de brincadeiras, Kyu — ele diz, sério, depois de alguns momentos de riso. — Se apronte logo, que não temos mais tempo a perder.

Eu concordo com um gesto de cabeça e me visto rapidamente. Caminho até o espelho para checar a aparência, aproveitando para ajeitar meu cabelo, e fico muito satisfeito com o que vejo. Eu não quero me gabar, mas estou simplesmente lindo com essa roupa! O único problema é o meu rosto. Mesmo depois das gargalhadas, eu continuo com cara de quem chorou. E isso é uma merda.

Acho que só tenho uma alternativa.

— Chul-sshi — eu chamo, usando um pouco de formalidade, o que significa que estou prestes a pedir um favor. Quando é ao contrário, ele me chama de “Kyu dongsaeng”. É uma dica pessoal.

— Diga — ele responde. Eu desvio meu olhar de meu reflexo para encará-lo.

— Preciso de uma maquiagem — digo, derrotado. Há tempos que Hee Chul tenta me convencer a usar maquiagem, mas eu sempre recuso. A idéia ainda não me agrada muito, mas não vejo outra saída para disfarçar meus olhos inchados.

Com um sorriso enorme e transbordando de satisfação, Chul estende a mão para mim e me leva até seu quarto. Subimos as escadas depressa e em pouco tempo ele está com seu kit de maquiagem em mãos, enquanto eu estou sentado em sua bancada, em frente ao seu espelho grande e retangular.

— Olhe para mim — ele diz, e não hesito em obedecer. Reparo que ele está segurando algo e lhe lanço um olhar inquisitivo, perguntando silenciosamente o que diabo é isso que ele tem em mãos.

Chul balança a embalagem e responde:

— Corretivo.

Depois de aplicar o produto em meu rosto, pega outro, que identifica como base, e espalha o gel em minha pele.

— Abra os olhos e olhe para cima — ele pede. Atendo prontamente. Então ele pinta meus olhos com lápis, delineador e máscara para cílios. Volta e meia Hee Chul reclama comigo, exigindo que eu pare de piscar os olhos, mas o processo é realmente incômodo e eu não consigo evitar, mesmo me esforçando ao máximo.

— Pronto! — ele avisa, quando termina com o rímel, guardando os produtos em seus estojos. Me viro para olhar meu reflexo no espelho e me surpreendo com o que vejo. Eu estou lindo! Quero dizer, ainda mais lindo do que antes. É incrível como o preto realça meus olhos.

— Nossa, Chul — digo, um pouco embasbacado pelo resultado. — Muito obrigado, de verdade.

Ele sorri, feliz por eu ter gostado, e provavelmente ainda mais feliz com a possibilidade de finalmente conseguir me arrastar para esse lado.

— Disponha — ele responde. — Agora, vamos. Já estamos sete minutos atrasados.

— O quê?! — eu praticamente grito.

— É melhor nós nos apressarmos — ele ri, travesso, ciente de que estamos com problemas.

Compartilho de seu riso nervoso e nos apressamos em direção à entrada principal do Prédio III, onde provavelmente todos já estão à nossa espera. Corremos como duas crianças alegres até o elevador, de mãos dadas, brincando e rindo.

Aperto o botão e, para nossa sorte, a máquina de metal está no nosso andar e as portas se abrem automaticamente. Entramos no elevador de imediato e dessa vez é ele quem pressiona o botão do Térreo. A caixa metálica – lerda para porra – começa a descer. Estamos acelerados por causa da corrida e a demora parece ainda maior do que o normal.

Durante todo o trajeto, permanecemos de mãos dadas, em silêncio, esperando ansiosamente as portas se abrirem. Quando o apito soa e elas finalmente se abrem, voltamos a correr como moleques.

Hoje eu não estou bem. Não a ponto de ficar conversando, rindo, essas coisas. Mas com Hee Chul é diferente. Ele me faz bem como ninguém. Só a presença dele já me deixa contente. É como se Deus o tivesse feito especialmente para mim, como um Anjo da Guarda ou algo parecido.

Kim Hee Chul é a minha bênção.

— Vamos mais devagar — Chul diz, ofegante. Automaticamente, diminuímos o passo. — Eu não quero aparecer lá com os cabelos em pé, o rosto vermelho e a respiração descontrolada, como se eu tivesse corrido o caminho inteiro!

— Mas nós corremos o caminho inteiro! — eu replico, tentando regularizar a respiração.

— Eu sei! — ele responde, ajeitando os cabelos com a mão direita, porque a esquerda ainda está entrelaçada com a minha. — Mas eles não precisam saber.

Eu dou uma risada e concordo:

— Tem razão.

Ele arruma suas roupas e as minhas, e também ajeita meu cabelo. Nossas respirações voltam ao normal e chegamos ao ponto de encontro em perfeito estado, dentro de alguns minutos.

— 2:45! — Kang In grita, assim que nos avista.

— Estamos ferrados — choramingo baixinho para Hee Chul ao meu lado. Ele aperta minha mão de leve.

— Deixe comigo — ele responde.

Quando nos juntamos ao grupo, nosso amigo rechonchudo cruza os braços e nos lança um olhar duro.

— Em qual dos dois eu bato primeiro? — ele pergunta, a voz forte e irritada. Eu encolho os ombros, mas Hee Chul não demonstra nenhuma reação.

— Kang In, por favor, pare com isso — intervém Lee Teuk, tocando os ombros do namorado. O maior se contorce, livrando-se das mãos do Líder.

— “Pare com isso” o cacete! São quinze minutos! Se fossem dois ou três, tudo bem! — Kang In retruca, visivelmente alterado.

— Ei, Kang In, olhe para mim — Lee Teuk continua tentando acalmá-lo, puxando seu braço para conseguir sua atenção. — Olhe para mim.

— O que foi?! — o outro finalmente cede, virando-se para olhar o mais velho. Lee Teuk abre um sorriso angelical, mostrando sua covinha, e diz:

— Eu te amo.

O efeito é imediato. Como se ele tivesse dito algum tipo de encantamento, a raiva de Kang In some. De uma hora para a outra, o ogro está dócil como um cãozinho.

— Eu também te amo, meu Anjo — ele responde, sorrindo. Lee Teuk sorri ainda mais.

— Ótimo — o Líder diz. — Agora, vá ficar com o Eun Hyuk enquanto eu cuido disso, OK?

Kang In hesita por um momento, mas acaba por concordar e segue para o lado de Eun Hyuk. Depois que ele se afasta, Lee Teuk se vira para nós dois.

— O que aconteceu com vocês dois? — pergunta. Mas antes de esperar por uma resposta, sai falando: — Eu estou muito desapontado. Esperava que vocês fossem mais responsáveis.

— Desculpe, Lee Teuk-sshi — digo, fazendo uma reverência. Tomo fôlego para dizer que a culpa é minha, que estava com problemas pessoais e Hee Chul me ajudou, quando ouço o ruivo dizer:

— Por favor, Jung Su. Até parece que nos atrasamos uma hora. Que exagero!

— Um quarto de hora é bastante tempo, Kim Hee Chul — Lee Teuk rebate. — O que vocês dois estavam fazendo para demorarem tanto?

Mais uma vez eu me preparo para responder, mas Hee Chul é mais rápido.

— Eu tive uma crise, merda! — ele responde, alterado, com um quê de tristeza na voz. Todos ficam surpresos. — Hoje vamos fazer um programa especial, todos juntos, e Han Kyung não está aqui...

A atmosfera parece ficar mais tensa. O silêncio pesa sobre nós. Eu me sinto um estúpido, porque Hee Chul não está mentindo. Eu sei que ele não está mentindo. Ele realmente teve uma recaída por causa do Han Geng e chorou sozinho. Me sinto mal por não ter pensando nessa hipótese; fiquei tão ocupado em sofrer por ciúmes que nem sequer imaginei que meu melhor amigo poderia estar sofrendo de saudades.

— Hee Chul... — Lee Teuk diz, consolador, tomando o ruivo em seus braços. — Não fique assim. Han Kyung já está voltando e, quando ele chegar, nós com certeza faremos um programa especial para comemorar sua volta. Não chore...

Hee Chul dá tapinhas nas costas de Lee Teuk.

— Obrigado pelo ombro amigo, Jung Su, mas minha crise já passou — ele diz. — Eu não estou chorando.

Lee Teuk se separa para olhá-lo, segurando-o pelos ombros.

— Você está mesmo bem? — pergunta, apreensivo. Chul balança a cabeça.

— Sim, estou. Obrigado. — ele responde. O Líder assente e sorri, e Hee Chul retribui o sorriso. Em seguida, Lee Teuk se vira para o resto do grupo.

— Então... Acho que já está na hora de irmos, sim? — pergunta, com um grande sorriso. A resposta é um coro:

— Sim!

O sorriso do Líder se alarga.

— Sendo assim, vamos andando. O Shopping não fica muito longe daqui, são oito minutos de caminhada.

Todos assentem e ele guia o grupo em direção aos portões da Instituição Tech, caminhando ao lado de Kang In. Eu me aproximo de Hee Chul e seguro sua mão novamente.

— Desculpe — eu digo, me referindo ao fato de não ter percebido que ele estava mal. Ele sorri para mim.

— Tudo bem. Eu apliquei tanta maquiagem que você não poderia nem suspeitar. — ele ri, e eu dou uma risada. Percorremos o resto do caminho até os portões em silêncio.

Assim que ponho os pés fora da instituição, tenho uma sensação estranha. Faz mais de duas semanas que eu não saio desse lugar. Bate uma vontade louca de pegar um táxi, metrô, ônibus, tanto faz. Simplesmente bate uma vontade louca de ir para casa. Rever minha família, matar a saudade do meu pai, da minha mãe, da minha irmã... Eu queria poder passar meu aniversário com eles. Por que eles têm de estar viajando? Eles deveriam se preocupar em passar meu aniversário comigo!

A caminhada até o Shopping é mais rápida do que eu esperava. Vim conversando com Hee Chul o caminho inteiro, tentando ignorar Sung Min e Ki Bum andando lado a lado, e mal vi o tempo passar. Quero dizer, a distância passar. Em poucos minutos, nós estamos em frente ao Shopping, uma grande construção azul – e quando digo azul quero dizer azul safira.

Não tardamos a entrar, e logo estamos passeando pelo térreo, analisando as vitrines das lojas de roupas. Quero dizer, Hee Chul e Lee Teuk fazem isso, e Sung Min dá um palpite vez ou outra, mas está sempre atento ao que eles dizem.

Depois de uns quinze minutos no Shopping, passamos por uma loja que chama a atenção de Eun Hyuk. E é claro que tinha que ser um Sex Shop.

— Nem pense nisso, Hyuk Jae — Lee Teuk diz quando o loiro pára em frente à vitrine e fica praticamente babando pela loja. Eun Hyuk se vira para o Líder com uma expressão extremamente pidona e pergunta:

— Por que não? Só um pouquinho... Eu juro que não demoro!

— Não — Lee Teuk responde, firme, mas sempre doce. Parece até uma mãe falando com o filho. — Você não vai entrar em um Sex Shop.

— Por que não, Teukie? Deixe o menino se divertir — Kang In intervém a favor de Eun Hyuk, como se fosse o pai que quer incentivar o filho a fazer sexo.

— Nada disso, Kang In. Ele não vai e ponto final — Lee Teuk põe um fim no assunto, voltando a andar, em busca da loja certa. Até agora, ele e Hee Chul não encontraram nada satisfatório.

Kang In se aproxima de Eun Hyuk e sussurra algo em seu ouvido, mas eu não me esforço para entender. Estou ocupado com outra coisa: Sung Min e Ki Bum grudados. Que merda! Será que eles não conseguem ficar afastados um do outro nem por um minuto?! Parece até que vão se unir!

Era assim também com você e Hee Chul. Às vezes, ainda é. E isso te incomoda?, escuto minha consciência. A grande diferença, consciência estúpida, é que o Chul foi meu primeiro amigo. Ele é meu melhor amigo. Enquanto aquele babaquinha surgiu do nada, e Sung Min o trata como se fosse seu amigo há milênios!

Sem falar que Hee Chul sempre deixou mais que claro que só tinha olhos para o seu Chinês, enquanto Ki Bum parece ser completamente apaixonado por Sung Min!

— Por que não vai falar com ele? — a voz rouca de Hee Chul interrompe meus pensamentos. Eu me assusto de leve e ele dá uma risadinha.

— Não vou falar com ele enquanto estiver ao lado de Ki Bum — respondo, firme. Hee Chul revira os olhos e diz:

— Quanta criancice, Kyu Hyun.

Eu solto um muxoxo indignado, sem acreditar que ele está me chamando de criança. Eu tenho dois ótimos motivos para não ir falar com ele na presença de Ki Bum! Um: porque aquele escrotinho com certeza vai se intrometer e tentar me impedir de falar com o Sung Min. E dois: porque eu definitivamente odeio aquele cara e não quero me aproximar dele.

Certo, eu só tenho um bom motivo, mas não importa. Estou prestes a dizer meu argumento, mas Lee Teuk chama Hee Chul para comentar de uma loja e eu perco a minha chance. Enquanto Chul se afasta, eu olho para Sung Min, que coincidentemente está olhando para mim.

Minnie fica um pouco constrangido por ter sido pego, e desvia os olhos para o chão por um breve momento. Mas logo volta a fazer contato visual comigo, que continuo observando-o, e me dirige um sorriso acanhado, como se ele estivesse incerto se deveria fazer isso ou não.

Eu me preparo para sorrir de volta e acenar discretamente, aproveitando que Ki Bum não está vendo, mas, antes que eu responda, reparo que seus olhos estão avermelhados e seu rosto está um pouco mais inchado que o normal. Isso me trava. Ele chorou mais? Eu fiz meu ursinho apertável chorar ainda mais? É mesmo possível que eu seja tão burro a esse ponto?

Sim, é possível. Inclusive, é possível que eu seja ainda mais burro, porque Ki Bum volta a falar com Sung Min, chamando-o para seguirem em frente, e Minnie quebra nosso contato visual. E eu perco uma ótima oportunidade para mostrar que não estou chateado com o meu ursinho. Pelo contrário! Fiz parecer como se eu nem quisesse falar com ele! Argh! Os Céus me odeiam! Por que eu sou tão imbecil?

Suspiro derrotado e sigo o grupo. Continuamos a caminhada. Dez minutos depois, na vigésima terceira vitrine, Hee Chul começa a ficar impaciente.

— Puta merda! Será que não tem nenhuma porra de loja que venda roupas masculinas descentes nesse maldito Shopping?! Cacete! — ele reclama, soltando a típica enxurrada de palavrões de quando está embravecido com algo.

— Hee Chul! Olhe esse palavreado! — Lee Teuk repreende. Chul não dá a mínima.

— Vá se foder, Jung Su! A boca é minha, eu digo o que eu quiser. Agora me ajude a achar alguma loja aceitável, por favor.

Passam-se mais vários minutos e várias vitrines, sem nenhum resultado. Então nos damos conta que já vimos todas as lojas de roupas do térreo.

— Talvez tenhamos mais sorte no segundo piso — Lee Teuk diz, tentando animar o grupo. A maioria concorda, soando compreensiva, mesmo que estejam cansados. Mas eu já estou realmente de saco cheio! Daqui a pouco, meus pés vão estar doendo!

Subimos de escadas rolantes – graças a Deus! – e chamamos a atenção de todos. Não é para menos, tendo em vista que somos doze pessoas. Ou seja, gente para caralho. Parece até uma gangue. Então é natural que as pessoas fiquem abismadas com a quantidade de caras andando em grupo. Não é muito normal você ver uma dúzia de rapazes juntos andando pelo Shopping.

No andar de cima, mais um monte de lojas. Felizmente, a maioria delas não é de roupas masculinas, senão seria um inferno. Continuamos andando, chamando a atenção de todo mundo, e cada nova vitrine é uma nova decepção. Parece que é impossível encontrarmos algo que sirva para nossos propósitos.

— Eu desisto! — Hee Chul esbraveja, após a décima loja de roupas masculinas. — Pro inferno com essa porra de figurino! Eu estou pouco me fodendo!

— Hee Chul, acalme-se, por favor — Lee Teuk pede. Então sussurra, censurando-o: — E eu agradeceria se você não dissesse essas coisas feias tão alto!

Hee Chul se limita a bufar e cruzar os braços.

— Tanto faz! — ele reclama. — Mas eu não vou procurar mais merda nenhuma nesse Shopping!

Lee Teuk afaga seu braço e assente.

— Tudo bem, eu concordo. — o Líder diz. — Também já estou cansado de procurar. Acho que todos estão.

Nós concordamos rapidamente. Eu não aguento mais essa porra, sério.

Lee Teuk ri da agilidade com que concordamos.

— Então, vamos parar por aqui. Eu vou pensar em algo que não envolva sair para caçar nosso figurino — ele diz.

Sung Min levanta a mão timidamente. Depois que Lee Teuk lhe concede a permissão para falar, ele diz:

— A minha avó é costureira. Acho que possui máquinas e tecidos suficientes para fazer roupas para todos nós.

O rosto do Líder se ilumina.

— Verdade? — ele indaga, animado.

— É — Minnie responde. — Se vocês me derem suas medidas, e Hee Chul-sshi me explicar como quer que seja o figurino, posso mandar uma carta para ela. Tenho certeza de que ficará feliz em nos ajudar.

— Perfeito! — Lee Teuk diz, sorridente. — Isso será ótimo! Muito obrigado, Sung Min!

Minnie sorri, encabulado, enquanto recebe um abraço do Líder.

— Não há de quê, Líder. — ele responde, correspondendo ao abraço.

Todos os outros também agradecem e elogiam Sung Min pela idéia, e ele fica um pouco envergonhado com toda a atenção que recebe, mas logo isso passa e ele volta ao normal.

— Então, agora que nossa missão aqui terminou, o que acham de compensarmos o tempo perdido com um filme? — Lee Teuk propõe. Logo todos ficam animados. Eu abro um sorriso largo; um filme, no meu aniversário! Não é bem o que eu queria, mas dá para o gasto.

Depois que todo mundo concorda com a idéia do Líder, ele abre um grande sorriso e diz:

— Vamos comemorar, então!

Acho que estou ficando louco, porque poderia jurar que Lee Teuk piscou para mim. Será que ele sabe de algo? Dou de ombros. O que interessa é que vamos nos divertir um pouco, depois de tanto sofrimento para os nossos pés!

Caminhamos rapidamente até o cinema, no terceiro piso, junto à Praça de Alimentação. Paramos em frente aos filmes em cartaz, para decidir o que assistir. Dos cinco, o único que não quero ver é o infantil, uma coisa idiota chamada “Puff, The Magic Dragon”. Fala sério, que tosco!

Para ser mais justo, de acordo com Lee Teuk, fazemos uma votação. No fim, o filme de terror ganha e, para nossa sorte, tem uma sessão em cinco minutos, às 4:00.

Ryeo Wook, Dong Hae e Sung Min reclamam, com medo. Então meu ursinho tem medo de filmes de terror? Já era de se esperar, já que ele é uma coisinha fofa e infantil. Essa é uma ótima oportunidade para ficar perto dele.

— Não se preocupe, peixinho, eu vou te proteger — Eun Hyuk fala, abraçando o namorado para transmitir-lhe segurança. Dong Hae logo se agarra a Eun Hyuk, e o loiro fica tranquilizando o menor.

— Você também não tem com o que se preocupar, Wookie. Eu estarei do seu lado — Ye Sung também trata de acalmar o namorado, abraçando-o em seguida.

Ryeo Wook sorri e beija o veterano brevemente.

— Eu sei, Yeye — meu amigo magricela diz, enroscando-se nos braços do namorado. Eu sou o único que acha esse apelido ridículo?

De qualquer jeito, não consigo evitar olhar para Sung Min. Quero assegurar-lhe que ele também não tem o que temer, porque eu o protegerei de tudo. Mas... Na frente de todos?

Chul me dá uma cotovelada leve nas costelas, e eu sei que ele quer me encorajar a dizer o que tenho em mente. E eu sei que ele está certo. É a oportunidade perfeita. Tomo fôlego e começo:

— Sung Min-hyung... — Mas a minha voz é abafada pela voz do maldito Ki Bum, que fala ao mesmo tempo:

— Eu vou estar contigo, Min-ah. Não precisa ficar com medo.

Sung Min o abraça e, com um sorriso que me parece bem tristonho, responde:

— Eu sei, Ki Bummie. Obrigado. Você é ótimo.

Eu tenho vontade de pedir ao Chul que me dê uma porrada; eu definitivamente estou precisando de uma. Caralho! Já é a terceira chance que tenho, e a terceira que perco! Puta que me pariu!

— Então está certo, eu vou comprar nossos ingressos. — o Líder avisa, recuperando minha atenção. Eu tiro minha carteira do bolso, pronto para dar-lhe o dinheiro da minha entrada, mas ele recusa:

— Nada disso, maknae! É por minha conta, por ter feito vocês andarem tanto. — ele explica, sorrindo. Estou começando a achar que Lee Teuk é realmente um anjo, como Kang In diz. Fala sério, como alguém consegue ser tão bondoso?

O Líder se vira para o namorado e lhe dá instruções:

— Kang In, enquanto isso, vá com Shin Dong, Si Won, Eun Hyuk e Dong Hae e compre pipoca e refrigerante para todos.

O maior assente.

— Pode deixar — responde, sorrindo. Então se dirige aos outros: — Vamos.

Os seis se afastam; cinco para um lado, e Lee Teuk para o outro. O resto de nós permanece no mesmo lugar. Só depois que eles já estão longe eu me dou conta de que Kang In não perguntou o que a gente quer tomar, tampouco pediu dinheiro também. Será que o anjo da covinha abençoada também vai patrocinar nossos lanches? Meu Deus, ele é muito bonzinho, mesmo.

Mas eu acho que o Shrek deveria ter perguntado nossa opinião, né.

De qualquer jeito, em poucos minutos os outros membros estão de volta e Lee Teuk distribui os ingressos dizendo:

— Os lugares são marcados. Consegui comprar todos enfileirados! Sabem como é, filmes de terror normalmente não enchem, ainda mais os horários da tarde. Se estiverem insatisfeitos com seus lugares, sintam-se à vontade para tentar trocar com alguém.

Depois que todos recebem os pedaços de papel enumerados, Lee Teuk pergunta se algum de nós quer trocar de lugar. Incrivelmente, ninguém quer. Eu principalmente! Não poderia haver lugar melhor para eu me sentar: à minha esquerda, Hee Chul; e à minha direita (que bom que é a direita), Sung Min!

A sequência geral, da direita para a esquerda, é: Kang In, Lee Teuk, Eun Hyuk, Dong Hae, Ryeo Wook, Ye Sung, Shin Dong, Ki Bum, Sung Min, eu, Hee Chul e Si Won. Realmente, todos os casais ficaram juntos, e os amigos também. Uma arrumação perfeita.

Assim sendo, pegamos nossas pipocas e refrigerantes e vamos em direção à sala 04, outra vez chamando a atenção das pessoas em volta. Tomar no cú todo mundo! Nunca viram um grupo de amigos, não? Quer merda! Tentem ser um pouco discretos pelo menos, então. Filhos da puta.

Mas parece que eu sou o único incomodado com isso, porque todos os outros continuam andando em direção aos nossos assentos, alheios ao fato das pessoas estarem nos encarando fixamente.

No exato momento em que acabamos de nos acomodar nos nossos devidos lugares, as luzes apagam. Chegamos bem na hora! Eu estou bastante animado com o filme, e decidido a não deixar que o fato de Sung Min e Ki Bum estarem lado a lado estrague minha diversão. Então ignoro quando Ki Bum pega na mão do meu Minnie e me concentro apenas na minha pipoca e na grande tela à minha frente.

Passam três trailers antes que o filme em si comece. Até onde eu sei, é sobre uma casa abandonada que possui uma maldição. Um homem solitário a compra, despertando assim a maldição e trazendo assombrações para a pequena cidade. Então mortes e mais mortes começam a acontecer. Maldição, espíritos, mortes, os clássicos dos filmes de terror. As cenas iniciais não são lá grande coisa, até porque nenhuma introdução de filme é muito excitante. Mas a partir que ele acorda a maldição, as coisas ficam interessantes. O espírito começa a segui-lo em todos os aposentos. Eu mal consigo piscar os olhos, de tão entretido que estou.

Tomo um longo gole de Coca-Cola e pego uma mão de pipoca enquanto observo a cena. O homem está dentro da banheira, tomando um bom e relaxante banho. De repente, a água se torna vermelha, como se estivesse com sangue. O rosto da mulher-espírito aparece no espelho do banheiro e sua risada alta e aguda ecoa pela sala do cinema.

Escuto um grito abafado à minha direita e Sung Min se agarra ao meu braço, me fazendo derrubar as pipocas que ainda não tinha comido; não porque ele usa muita força, mas porque é totalmente inesperado. Ele não estava de mãos dadas com Ki Bum? O mais lógico seria que ele fosse se agarrar ao amigo, então.

Não que eu esteja reclamando, de jeito nenhum. Mas não posso deixar de agradecer aos céus por ser o braço direito.

Ouço Sung Min fungando e choramingando assustado, e tenho a impressão de que a manga de minha camiseta está ficando molhada. Minnie está chorando, assustado. Isso me deixa com o coração apertado. Afago sua cabeça, sem muita dificuldade porque ele está com o rosto enterrado em meu braço. Ele estremece com o toque e levanta a cabeça. Eu não consigo ver seu rosto muito bem, mas imagino que ele esteja me olhando.

Há um clarão no filme e posso ver claramente o pânico estampado em seus olhos cheios de lágrimas.

— Fique calmo, Minnie. É só um filme — eu tento tranquilizá-lo, alisando seus cabelos.

— Eu estou morrendo de medo, Kyunnie — ele responde, depois fungar mais algumas vezes. Sua voz está trêmula, deixando ainda mais evidente que Minnie está chorando.

— Não precisa ter medo, Minnie. Eu estou aqui para te proteger — prometo, deslizando a mão por seus cabelos e apoiando-a em seu ombro, abraçando-o e trazendo-o para mais perto. Ele não tarda em se acomodar em meu abraço, agarrando-se à minha camiseta.

— Obrigado, Kyunnie — ele murmura contra minha pele, depois de beijar de leve minha bochecha. Mesmo ainda me sentindo um pouco mal por Sung Min estar sofrendo tanto com o filme, consigo sorrir. É tão bom ter meu ursinho assim, perto. E o melhor: sem aquele escroto para estragar nossos momentos juntos.

Ao pensar nele, não posso deixar de dirigir o olhar para Ki Bum. Com as luzes um pouco mais fortes vindo da tela, consigo perceber que o monstrinho não está prestando atenção no filme. Inclusive, ele olha na minha direção.

Arqueio uma sobrancelha; o que diabos ele está fazendo? Tentando separar a gente com os olhos? Mas, ao contrário do que eu pensei, ele nem parece perceber. Ki Bum está olhando para cá, mas não para eu e Sung Min. Isso significa que ele está olhando para além de mim.

Olho para a esquerda, para Hee Chul e Si Won, e vejo que eles estão de mãos dadas e meio que abraçados. Ao que parece, o cavalo está assustado e Chul está reconfortando-o, mas sem deixar de prestar atenção na tela.

Volto a olhar Ki Bum. Ele parece estar com os olhos fixados na cena à minha esquerda. E, a julgar pela sua expressão, não está gostando nada do que vê. Isso me deixa confuso. Esse filho da puta gosta de quem? Do Sung Min, do Chul ou do Si Won? Caralho, se decida, Ki Bum!

E é melhor que escolha o Si Won, porque se você for se engraçar para cima do Chul eu vou partir sua cara!

Um grito alto interrompe meus pensamentos. O grito não parece ter vindo do filme, e com certeza não veio de Sung Min. Todos olham na direção do som, inclusive eu. Assim, posso ver duas figuras se levantando. Um garoto de corpo definido seguido por um loiro magrelo. Dong Hae e Eun Hyuk! O macaco abraça seu peixinho e o guia até a saída. Parece que Dong Hae não conseguiu suportar o filme até o final.

— Kyunnie... — Sung Minnie me chama num cochicho manhoso. Posso perceber no seu tom de voz que ele está cada vez pior – sem falar que seus dedos seguram com mais força a minha camisa.

— O que foi, Minnie? — pergunto, preocupado. Ele responde choramingando:

— Esse filme é horrível!... Eu quero sair daqui.

Minnie soa como uma criancinha com medo do monstro dentro do seu armário. Eu acaricio seu braço para acalmá-lo.

— Já está acabando, meu amor — digo, e arregalo os olhos assim que percebo o que acabei de falar. Puta merda. Cérebro, por que você faz isso comigo?

— O que disse? — ele pergunta, me olhando incrédulo, se esquecendo de todo o seu pânico por um momento. Eu desvio os olhos para a tela para fugir do olhar hipnotizante de Sung Min.

— Já está acabando — repito, rezando para que ele não insista.

— Ah, claro — Minnie responde, voltando a olhar para frente, apoiando a cabeça em meu ombro. E, quando o olho de canto, tenho a impressão de ver um sorriso em seu rosto. Ele ficou feliz por que eu o chamei de “meu amor”? Considerar essa idéia me faz sorrir inconscientemente.

Volto a focalizar a tela. O filme já está no fim. Depois de tudo, eu preciso saber como ele acaba. A cena mostra o homem fechando a porta da casa mal-assombrada e dizendo aliviado “Agora a cidade está livre do perigo”. Em seguida, ele entra no carro e vai embora. Quando todos pensam que o filme já terminou, aparece uma cena extra: o interior da casa, mais precisamente o banheiro. A banheira está cheia, com aquela água vermelha de sangue. A câmera caminha pelo aposento, até se fixar no espelho. Então, quando menos se espera, o rosto da mulher aparece uma última vez.

Sung Min grita ao mesmo tempo em que as luzes se acendem. O problema é que ele ainda estava com a cabeça no meu ombro, então o grito foi bem no meu ouvido. Acho que fiquei surdo.

Por um segundo, eu fico imóvel, me recuperando do berro agudo que alcançou mais decibéis do que deveria. Quando o efeito passa, eu me viro para Sung Min, pronto para acalmá-lo; mas olho para seu assento e ele não está lá. Minnie está de pé, nos braços de Ki Bum, que com certeza aproveitou o meu breve momento de confusão para se jogar em cima do meu ursinho e tirá-lo de perto de mim. Maldito.

—Min-ah, já acabou. Foi só um filme. Acalme-se — o babaquinha diz, alisando os cabelos de Sung Min, que soluça baixinho. Eu sinto um misto de tristeza, raiva e ciúme. Por que o Minnie aceitou o abraço desse escroto?! Eu não tive culpa se fiquei um pouco desconcertado quando ele berrou no meu ouvido! Ele não podia esperar um segundo?

— Bummie... Foi horrível! Estou com tanto medo... — a voz de Sung Min soa abafada e trêmula, enquanto ele se afunda ainda mais no peito de Ki Bum.

Me levanto inconscientemente, decidido a interromper o momento dos dois e tomar Sung Min em meus braços. Dizer que ele não precisa ter medo, que eu estarei sempre ao seu lado e o protegerei de tudo. Que nenhum fantasma, espírito, ou sabe-se lá que porra, tocará nele.

Mas alguém me segura pela mão e me puxa na direção contrária. Eu já sei quem é antes mesmo de ouvir sua voz – ninguém possui o toque tão delicado e suave quanto o dele.

— Não é um bom momento para conversar com Sung Min. Ele está muito sensível e assustado, e Ki Bum não vai deixar que você faça o que está pensando em fazer. Espere até chegarmos à instituição, quando vocês estiverem a sós no dormitório. — Sua voz rouca só o denuncia ainda mais. Me viro para olhar o ruivo estranho que é meu melhor amigo, deixando de lado meu ursinho Minnie e seu monstrinho de estimação.

Outra vez seus olhos bonitos afastam meus sentimentos ruins. É estranho, difícil de explicar; mas os olhos de Hee Chul possuem um poder tão grande sobre mim que parece até magia. Ele consegue fazer com que eu esqueça todo o resto e me concentre apenas nele. É bom. Ele me faz tão bem.

Não sinto vontade de dizer nada, então eu somente balanço a cabeça, sem conseguir deixar de sorrir. Hee Chul retribui o sorriso e, também em silêncio, me guia até a saída, ainda me segurando pela mão.

Quando chegamos ao lado de fora, todos os outros já estão lá, inclusive Sung Min e Ki Bum, grudados, mas eu me recuso a ser afetado por isso novamente. Hee Chul está ao meu lado e é só isso que me importa.

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— O que acham de comermos alguma coisa agora? — escuto a voz do nosso líder, dirigindo meu olhar em sua direção automaticamente. O filme foi comprido; 2h40min mais os trailers. São quase sete horas da noite. Estou com fome.

— Você quer dizer jantar, não é? — Chul pergunta. — Eu me recuso a comer no McDonald’s ou outra coisa parecida. Junk food não é nem um pouco saudável.

Eu rio baixinho do comentário dele. Chega a ser engraçado toda a preocupação dele com sua alimentação.

— Sim, claro! Já está na hora da janta. Todos concordam? — Lee Teuk pergunta. Todos assentem. Aparentemente, não sou o único com fome.

Caminhamos até a praça de alimentação do Shopping, analisando as opções. Acabamos optando por um restaurante de comida japonesa. Esperamos do lado de fora enquanto o garçom arruma o espaço interno, geralmente usado para comemorações, para o nosso grupo, devido ao grande número de pessoas.

Acho legal a espécie de tratamento V.I.P. que recebemos, por sermos muitos, mas para usar o “espaço de festas” não precisaria reservar antes? Esses restaurantes caros são tão cheio de burocracias... Será que é porque não há reservas para hoje, e abriram uma exceção porque somos doze?

— Sigam-me, por favor — o garçom diz, chamando minha atenção. Fazemos o que ele pede e em poucos instantes chegamos ao nosso destino. Nos arrumamos ao redor da mesa, seis de cada lado, deixando as cabeceiras vazias. Os casais se sentam lado a lado, assim como os melhores amigos inseparáveis, mas eu não consigo me sentar perto de Sung Min. Sento em frente a ele, com Hee Chul do meu lado esquerdo.

Não posso deixar de pensar que eu e Hee Chul também somos meio que melhores amigos inseparáveis, mas volto a me ater ao fato que nossa amizade não surgiu das sombras como a daqueles dois.

Lee Teuk e Hee Chul estão fazendo os pedidos, que já escolhemos enquanto esperávamos pela nossa mesa. O garçom anota tudo, inclusive nossas bebidas, e sai. Enquanto nossa comida não chega, ficamos conversando sobre banalidades. Nada de ensaio, nada de figurino, nada de coreografia, nada de escola. Nem parece que viemos aqui com o propósito de escolher as roupas da apresentação. Depois da sessão de cinema, a nossa saída ficou com cara de passeio, e parece que estamos no Shopping com o simples intento de nos divertir. E não posso dizer que não estou me divertindo, apesar da presença do Monstro das Neves. Todos os meus companheiros de grupo – exceto o Ki Bum, claro – são muito legais e estou curtindo bastante a companhia deles. Tudo bem que o passeio de hoje não era exatamente o que eu queria para comemorar meu aniversário, mas, longe da minha família, pelo menos eu me distraí com os meus amigos. Mas é claro que teria sido melhor se eu e Sung Min tivéssemos passado mais tempo juntos.

— Finalmente! — ouço a voz animada de Shin Dong e volto a prestar atenção no que está acontecendo. Vejo quatro barcos de sushis e makimonos, mais tempurá de camarão e rolinhos-primavera. Não posso deixar de sorrir, feliz; a comida chegou! Estou morto de fome! Mas então reparo nas bebidas – Soju e Coca-Cola – e fico confuso.

— Quem vai tomar Coca-Cola? — pergunto, incapaz de conceber a idéia de que alguém prefira beber refrigerante ao invés de Soju.

Lee Teuk sorri meio sem-graça, enquanto Chul dá uma risada.

— Você mesmo, pequeno Kyu — ele responde, se divertindo.

— O quê?! — retruco, incrédulo. Como assim, eu vou beber Coca-Cola?!

Chul acaricia meu rosto e sorri.

— Meu pequeno Kyu não pode tomar álcool — ele diz. Eu fico indignado.

— Claro que posso! — rebato. Eu já tenho vinte anos! Não sou mais uma criança!

— Até onde eu sei, álcool é proibido para menores de vinte e um anos, Kyu — Chul replica, achando graça. Eu mal acredito que estou ouvindo o que estou ouvindo.

— Ah, fala sério, Chul! Desde quando você liga para essas coisas? — eu replico, chateado. Não acredito que ele vai mesmo me negar Soju só porque ainda falta um ano para eu ser maior de idade.

Hee Chul ri e beija meu rosto.

— De verdade, eu não dou a mínima para isso — ele diz. — Mas, brincadeiras à parte, você realmente não pode ingerir álcool hoje.

— Por que não?! — pergunto, aborrecido.

Ele sorri de canto e toma fôlego para me responder, mas a resposta vem de outra pessoa.

— Você está com o braço engessado e tomando remédio para dores, Kyunnie — Sung Min diz docemente, me fazendo focalizá-lo. — O álcool anularia o efeito dos analgésicos.

Minha irritação some. Meu ursinho tem razão. Além do mais, fico feliz por ele ter se importado em responder.

Mantemos contato visual por alguns segundos, um sorriso nascendo nos lábios de ambos. Mas a voz do ser indesejável que ele tem como amigo corta – outra vez – nosso momento:

— Todo mundo sabe... — Ki Bum se interrompe quando Sung Min aperta sua mão. O monstrinho bufa, contrariado, mas murmura um pedido de desculpas para o meu ursinho.

— Não se preocupe, maknae — Desvio os olhos na direção da voz e me deparo com Dong Hae. — Eu não bebo. Vou te acompanhar na Coca-Cola — ele diz, sorrindo amigavelmente. Eu devolvo o sorriso, mas interiormente penso que ele é louco por não gostar de bebidas alcóolicas. Aliás, ele namora Eun Hyuk e não bebe? Como isso é possível?

— Eu ainda vou embebedar esse garoto até o fim desse ano, ou não me chamo Lee Hyuk Jae! — o loiro diz, confiante. Todos riem de seu comentário, sem acreditar que ele é capaz de tal proeza. Com Dong Hae? Eu duvido muito.

— Acho Lee Eun Hyuk interessante — Ye Sung comenta, arrancando mais risadas.

— Cale a boca, Tartaruga Lesada! O namorado é meu, eu sei o que fazer — Eun Hyuk retruca, num tom irritado, mas que sabemos que é brincadeira. Eu acho engraçada a forma como eles demonstram afeto uns com os outros. Os apelidos são tão carinhosos que eu fico até com medo.

— Aish, Macaco Retardado... Até quando você vai se iludir achando que é o maioral? — Ye Sung rebate, rindo. Eun Hyuk parece ofendido.

— Mas eu sou! — replica.

— Não é, não.

— Silêncio! — Lee Teuk encerra a pequena discussão, sem nunca abandonar seu tom de voz suave e tranquilo. Todos ficam quietos ao ouvir a voz do Líder. Ele sorri e assente, satisfeito por termos nos calado. — Vamos comer — diz, pegando seus hashis. Todos nós assentimos e fazemos o mesmo.

No começo, é complicado pegar alguma coisa; afinal, são doze mãos avançando. Ninguém sabe o que apanhar primeiro. Mas depois de alguns segundos de alvoroço, todos conseguem se ajeitar e comer com calma.

Vez ou outra Ye Sung dá comida na boca do namorado, o que gera comentários idiotas e engraçados de Eun Hyuk, que acaba fazendo o mesmo por achar fofo. Kang In e Lee Teuk estão grudados, cheios de carícias – acho que o álcool está começando a fazer efeito. Si Won e Shin Dong conversam animados, já que Hee Chul não gosta de falar enquanto come. Mas, na verdade, nada disso é importante.

O importante é Ki Bum e Sung Min trocando olhares. Isso me tira do sério. E fica ainda pior quando aquele babaca ergue seus hashis em direção à boca do Minnie, segurando um sushi. Eu deixo meu makimono cair no prato. Que porra é essa? Aquele bastardo está mesmo alimentando o meu ursinho, como os outros casais estão fazendo? E Sung Min ainda aceita?! Caralho, ele não percebe que isso faz com que eles pareçam um casal também, merda?

Eu sinto vontade de chorar, mas me recuso a derramar mais lágrimas por eles dois. Então converto minha tristeza em raiva e resmungo em voz baixa enquanto pego meu makimono novamente. Coloco-o na boca e mastigo irritado. Por que eu fui sentar logo aqui? É impossível ignorar esses dois pombinhos na minha frente. Maldição!

Depois que acabo de mastigar, sinto a mão suave de Hee Chul apertar de leve minha coxa, perto do joelho, pedindo minha atenção. Eu viro a cabeça para olhá-lo, meio mal-humorado, e me deparo com um sushi quase que grudado na minha cara.

— Abra a boca — ele pede, sorrindo. Eu não acredito que ele está fazendo isso. — Vamos, abra a boca! — Chul repete, com um sorriso ainda maior. Eu não posso deixar de sorrir também. Acho que Hee Chul tem o superpoder de me fazer feliz.

Abro a boca, sorrindo, e ele me dá o sushi. Eu mastigo rindo. É até duvidoso o jeito como meu humor muda completamente quando se trata do ruivo.

Retribuo o gesto dele com um tempurá de camarão. Ele, diferentemente de mim, aceita de imediato. Não tiramos os olhos um do outro enquanto acabamos de processar a comida, nem tampouco depois de engolir.

Hee Chul se aproxima e fecha os olhos, roçando o nariz no meu, ato que correspondo prontamente. A carícia dura apenas poucos segundos e logo nós nos afastamos, dando risada.

O resto do jantar transcorre tranquilo. Eu me atenho ao ruivo do meu lado, desviando a atenção da cena desagradável em frente – eles com certeza estão estragando o meu dia.

Quando já estou satisfeito, ponho os hashis na mesa e me recosto na cadeira. Agora que estou com o estômago cheio, o sono está começando a bater. Chul acaricia meus cabelos e isso soa como um convite, então eu não hesito em repousar minha cabeça em seu ombro, fechando os olhos em seguida. Esse é um dos benefícios de ele ser praticamente do meu tamanho; deitar a cabeça no ombro de Sung Min é um inferno.

— Está cansado, pequeno Kyu? — Chul sussurra próximo ao meu ouvido, me fazendo estremecer. Como resposta, murmuro um “Uhum” arrastado e sonolento. Eu quero dormir.

Chul dá uma risada rouca que me causa arrepios.

— Nós já estamos indo embora, OK? — ele diz, voltando a afagar meus cabelos com uma das mãos. Sinto o peso dos olhares dos outros em nós dois.

Ótimo, penso com ironia, plateia.

— OK — murmuro, percebendo que começo a adormecer. A carícia de Hee Chul é tão gostosa... Eu procuro aproveitá-la ao máximo, mas não posso deixar de pensar em Sung Min. Eu não quero pensar nele hoje, mas é inevitável. Volta e meia ele assalta meus pensamentos e eu não consigo impedir.

Eu gostaria de ficar assim com ele. De ter a cabeça dele apoiada em meu ombro, de alisar seus cabelos, trocar carícias, abraçá-lo. Tudo bem que nós temos muitos momentos desse tipo quando estamos sozinhos, mas, na frente dos outros, nada disso acontece. Em público, quem faz tudo isso é Ki Bum. O que esse idiota tem que eu não tenho?!

Talvez... Coragem? É, coragem para revelar seus sentimentos para Sung Min, enquanto eu sou um covarde que só fica dando dicas, esperando que ele entenda que sou apaixonado por ele.

— Vou pagar a conta — desperto do meu quase cochilo com a voz do Líder, abrindo os olhos num susto. Lee Teuk já está de pé. — Podem me esperar na entrada — ele diz, sorrindo.

Todos seguem o movimento do Líder e logo estão de pé, enquanto Hee Chul tem de praticamente me arrancar da cadeira para que eu me levante. Minha preguiça e sono estão pesando uma tonelada.

Caminhamos todos juntos para a entrada do restaurante. Chul permanece ao meu lado durante todo o trajeto e seguimos de mãos dadas, com os dedos entrelaçados. Eu não consigo parar de sorrir. É muito bom ficar ao lado dele. Eu chego a pensar que, se não fosse apaixonado por Sung Min, amaria Hee Chul, sem dúvidas. Mas isso seria uma grande tortura, já que o ruivo só tem olhos para o seu chinês. Então eu agradeço por estar amando o Minnie, e não o Chul. Mesmo com aquela praga dos infernos grudada nele 24h por dia.

Quando chegamos ao lado de fora, só precisamos esperar Lee Teuk por dois minutos. Logo que ele chega, Kang In enlaça sua cintura e começamos nosso percurso de volta à instituição. Não vejo a hora de deitar na minha cama. Estou cansado, quero dormir.

Durante o trajeto, fico tentando decidir se meu aniversário foi bom ou ruim. Tento fazer uma lista mental de pontos agradáveis e irritantes. Classifico o filme, principalmente a parte em que fiquei abraçado com Sung Min, o jantar, a boa companhia dos membros e, especialmente, o Hee Chul, como agradáveis; e a caminhada desnecessária pelo Shopping, a presença desagradável de Ki Bum, o fato de Sung Min não ter desgrudado daquele babaca e, acima de tudo, o acontecimento na hora do almoço – quando Sung Min me trocou pelo Ki Bum e nós ainda tivemos uma quase briga – como muito irritantes.

Tecnicamente, daria um empate, eu acho. Mas eu tenho que admitir que os pontos negativos pesam muito mais que os positivos. Eu deveria ser uma pessoa otimista e ficar feliz pelo aniversário que eu tive, mesmo que praticamente ninguém saiba que é meu aniversário; mas eu não sou e, para falar a verdade, só o ocorrido no refeitório já foi suficiente para transformar meu dia numa grande merda.

Em poucos minutos, chegamos ao nosso destino. Eu não posso reprimir um sorriso aliviado quando avisto os grandes portões de ferro da instituição. Finalmente, eu vou poder deitar e dormir e acabar com esse péssimo dia.

Os portões se abrem, nos deixando entrar, e atravessá-los outra vez me traz uma sensação de nostalgia. Eu me lembro do meu primeiro dia aqui. Parece que foi há tanto tempo... Eu estava totalmente perdido, Ryeo Wook veio até mim e nós fomos juntos até o Salão Principal, onde saberíamos o número de nossos quartos – coincidentemente, ficamos juntos. Lá dentro, conheci Hee Chul, Dong Hae e Kang In, que se tornaram meus amigos mais próximos. E, pela primeira vez, senti meu coração bater mais forte, no momento em que meus olhos se fixaram na figura de Sung Min.

Aquele foi realmente um dia estranho. Criei fortes laços com mais pessoas do que jamais pensaria em criar. Me tornei tão íntimo e apegado a um ruivo estranho que às vezes chego a pensar que sou viciado nele. E, ainda por cima, me apaixonei. Por um garoto.

Bem que Zhou Mi me disse: “a vida dá muitas voltas, Qui Xian (porque ele só me chamava pelo meu nome chinês) e, em uma delas, sua filosofia de vida pode mudar drasticamente”, ou algo parecido. Não me lembro de suas palavras exatas. Provavelmente ele disse alguma indireta sobre eu e ele, e meu cérebro preferiu esquecer.

Chegamos ao elevador e o Líder aperta o botão. Não precisamos esperar muito até que ele chegue e logo estamos a caminho do sétimo andar. Por serem muitos alunos, a capacidade máxima do elevador são quinze pessoas. Ele é simplesmente enorme. Mas hoje, praticamente lotado, parece especialmente pequeno.

Após sete longos minutos – se já é uma lesma mecânica só comigo, imagine com doze pessoas –, atingimos o sétimo andar. As portas se abrem e Lee Teuk, Kang In, Eun Hyuk e Dong Hae desembarcam depois de se despedirem dos demais. Mas, antes de as portas se fecharem, Hyuk Jae chama meu nome e os quatro, enfileirados, sorriem para mim. Eu estranho; o que está havendo com esses caras? Deve ser a bebida afetando os neurônios.

— Feliz Aniversário! — dizem em coro.

Eu fico atônito, incapaz de dizer qualquer agradecimento. Eles sabiam? Esse tempo todo eles sabiam que era meu aniversário?

As portas se fecham, e todos me dão tapinhas nas costas e sorriem enquanto subimos para o oitavo andar. Quando as portas se abrem novamente, saio levado pela onda dos outros membros.

— Parabéns, Kyu Hyun! Espero que tenha gostado da nossa surpresinha — Shin Dong me diz, sorrindo. As palavras dele me fazem abrir um sorriso maior do que eu esperava dar. Saber que o filme e o jantar foram realmente dedicados ao meu aniversário me deixa mais feliz do que eu pensava.

— Obrigado, Shin Dong. Foi muito legal da parte de vocês — eu digo sinceramente. — Mas... Como souberam que era meu aniversário? — Olho acusador para o ruivo ao meu lado, que nega veemente com a cabeça.

— Sung Min-sshi nos contou — o gordinho responde, simples. Essa notícia me deixa ainda mais embasbacado. — Agora, boa-noite, maknae. Desculpe não ter te comprado um presente — ele diz, já se preparando para girar a maçaneta da porta do quarto. Eu ainda estou um pouco afetado, então apenas sorrio e respondo com um aceno de cabeça. Shin Dong então entra no quarto e desaparece do meu campo de visão.

— Que Deus te abençoe, Kyu Hyun, e te dê muitos anos de vida — Si Won me diz, com um aperto de mão. — Parabéns pelo dia de hoje.

— Obrigado — respondo, sorrindo grato. Ele sorri e assente, se despede dos outros e entra. Na minha visão periférica, vejo Sung Min e Ki Bum se despedindo com abraços, beijos e sorrisos e meu humor cai de maneira drástica.

Pouco depois, o maldito se aproxima, indo em direção ao seu quarto, mas, ao contrário do que penso, ele não passa direto. Ki Bum pára na minha frente e me encara por alguns minutos, como se quisesse forçar sua boca a verbalizar algo. Então desvia os olhos e murmura:

— Feliz Aniversário.

Eu fico dividido entre a descrença, a surpresa, e a raiva. Esse escrotinho tem a cara-de-pau de me desejar feliz aniversário, sendo que eu sei muito bem que na verdade ele quer que eu morra? Mas, mesmo querendo lhe mandar para o inferno, eu me obrigo a ser educado e digo:

— Obrigado, Ki Bum. Tenha uma boa noite. — Acho que eu não poderia soar mais irônico. Ele percebe perfeitamente meu tom e sorri sarcástico, entrando no jogo.

— Você também. Nos vemos amanhã.

Retribuo seu sorriso e respondo:

— Até.

Trocamos acenos de cabeça e ele entra no quarto. Eu tenho uma crise de infantilidade e não posso evitar mostrar a língua para suas costas.

— Muito maturo — Chul caçoa, rindo. Eu me viro para ele ainda um pouco indignado pela minha conversa com o Monstro das Neves.

— Você não tem noção de quão descarado aquele cara é! — digo, em tom de reclamação. Ele ri.

— Sabe que ele não veio aqui por vontade própria, não é? — Hee Chul pergunta, apontando Sung Min com um manejo de cabeça. Aquilo me surpreende. Sung Min pediu para Ki Bum vir falar comigo? — Agora, se você puder dar um pouco de atenção para o seu melhor amigo — ele diz, enfatizando a última parte. Eu dou uma risada e me viro de frente para ele, dando-lhe toda a minha atenção. — Feliz Aniversário — ele completa, pondo uma caixinha na minha mão. Eu fico estático ao ver o pequeno presente. Não acredito que ele me comprou um presente! E quando foi isso? Hoje no Shopping ficamos juntos o tempo todo!

— Caralho, Chul! Muito obrigado, de verdade! — eu digo, abraçando-o com força. Ele não tarda em retribuir meu gesto. Nos abraçamos por longos minutos e, antes de nos separarmos, faço questão de beijar demoradamente sua bochecha. Nós dois sorrimos feito bobos depois de nos afastarmos.

Ele gesticula para a caixinha em minha mão e eu me dou conta de que ainda não abri seu presente. Sorrio sem jeito, silenciosamente pedindo desculpas, e logo abro a caixa que tenho em mãos. No seu interior, encontro um cordão. O pingente é um joystick de prata. Meu sorriso se alarga ainda mais.

— É lindo! — digo, fascinado.

— Fico feliz que tenha gostado — Chul verbaliza o que já sei. Isso está claro em seu sorriso, como está óbvio no meu que eu simplesmente adorei esse presente. — Espero que o use sempre — completa, fazendo um biquinho fofo. Não posso deixar de rir; Chul fazendo aegyo nunca vai deixar de ser engraçado.

— Eu não vou tirá-lo nunca — respondo, estendendo delicadamente o cordão para ele, num pedido mudo. Ele o segura sem hesitar. Um sorriso brilha em ambos os rostos. É engraçado como de uma hora para outra meu aniversário se tornou tão inesquecível.

Logo fico de costas e ele coloca a corrente ao redor de meu pescoço. Aproveito para admirar um pouco mais o pingente que acabei de ganhar. Só por costume, me viro para ver a parte de trás, esperando encontrar a superfície lisa, comum; mas tenho uma surpresa: atrás está escrito “Não se esqueça de que você é meu e que eu te amo muito”. Dou uma risada e digo:

— Não vou esquecer.

Ele ri, percebendo que vi a mensagem, e me faz virar de frente, porque já acabou de lidar com o fecho.

— É bom mesmo — retruca, sorridente. Então analisa o cordão em meu pescoço. — Ficou perfeito em você.

— Você é inacreditável — digo, soando mais meloso do que pretendia. Ele sorri ainda mais e seus olhos ganham um brilho diferente.

— Eu sei. Mas eu só sou tudo isso por sua causa — ele responde. As palavras dele me tocam lá no fundo e eu sinto uma vontade inexplicável de chorar. É tão comovente todo esse carinho que ele tem por mim... Tudo bem que eu sinto o mesmo, mas é diferente...

Eu o abraço novamente, com toda a força que tenho. Imediatamente, seus braços envolvem minha cintura. Eu fecho os olhos com força, lutando contra as lágrimas, e digo a frase mais gay que poderia dizer, mas a mais sincera também:

— Eu te amo, Chul.

— Eu também te amo, meu pequeno Kyu — ele responde.

— Muito obrigado por tudo — digo. Ele não fala nada, e também não é necessário. Seu silêncio diz mais que suas palavras.

Permanecemos abraçados por um tempo que parece horas. Eu não quero deixá-lo ir. Mas ele interrompe nosso abraço, fungando.

— Certo, agora chega de melação — ele diz, se afastando e enxugando os olhos. Eu também seco as lágrimas que se acumularam nos meus. — Parabéns pelo dia de hoje e obrigado por ter nascido.

— Achei que a melação tinha acabado — faço piada, só para tentar parecer mais macho do que realmente me sinto. Para falar a verdade, eu me sinto um grande maricas agora, mas não dou muita importância para isso.

— Cale a boca — Chul diz, sério, mas sei que está brincando. Abro um sorriso novamente.

— Boa-noite, Chul — digo. Ele sorri seu sorriso mais bonito e responde:

— Boa-noite, pequeno Kyu. Durma bem.

— Você também.

Ele beija minha testa, mesmo sendo menor que eu, e eu beijo seu rosto. Quero abraçá-lo de novo, mas sei que isso só vai atrasar ainda mais nossa despedida, porque não vou querer soltá-lo outra vez. Hee Chul entra no quarto e eu só começo a caminhar em direção ao meu depois que ele fecha a porta completamente. Estou sozinho no corredor; demorei tanto assim?

Cruzo as várias portas até chegar à de número 892. O quarto está silencioso, por isso giro a maçaneta devagar, abrindo a porta com cuidado, pensando que eles já estão dormindo. Mas vejo que as luzes ainda estão acesas e acabo de abrir a porta normalmente.

— Kyu Hyun! — Ryeo Wook praticamente grita meu nome, abrindo um sorriso enorme. Ele está parado ao lado da minha cama, junto à Ye Sung e Sung Min.

Meu amigo magricela corre na minha direção e se joga em cima de mim, me abraçando com toda a força dos seus bracinhos finos. Eu envolvo sua cintura delicadamente.

— Achei que você não fosse voltar mais — ele comenta, se afastando para me olhar.

— Desculpe — digo, sem-graça. Ele sorri para mim e me guia para perto dos outros me puxando pelo punho.

— Aqui! — Ryeo Wook diz, colocando um embrulho em minhas mãos. — É o nosso presente para você — completa, agarrando-se carinhosamente ao braço de Ye Sung, mostrando que o presente é deles dois. Eu fico abismado por ele também ter comprado algo para mim.

— Puxa, Ryeo Wook, não precisava me dar nada — eu digo, me sentindo emocional de novo. Ele balança a cabeça veemente.

— Pare com isso! É claro que eu precisava presentear o maknae do grupo, meu companheiro de quarto, um amigo tão querido — diz, me deixando comovido com todo o afeto dele por mim. Eu o abraço carinhosamente e agradeço outra vez. Ryeo Wook me dá tapinhas nas costas e eu me afasto. Olho interessado para o embrulho; o que será que ele comprou para mim?

Abro o presente e, ao ver o que há dentro, abro um sorriso largo. Eu estava louco atrás disso!

— Você vivia reclamando que não tinha um fone de computador, com fone embutido, para jogar aquele jogo estranho no notebook — Ryeo Wook se explica desnecessariamente. Eu simplesmente adorei esse presente! Mas claro que eu iria preferir se ele tivesse se referido mais descentemente ao melhor jogo já desenvolvido.

— Muito obrigado, hyung! — digo, sinceramente. Acho que nunca disse tantos agradecimentos em tão pouco tempo.

— Não há de quê, Kyu — ele responde. Então me dirijo ao mais velho:

— E obrigado, Ye Sung. Obrigado mesmo.

O veterano sorri discretamente e me dirige um manejo de cabeça. Eu faço uma reverência em resposta.

— Agora, se você nos dá licença, vamos dormir — Ryeo Wook avisa, segurando a mão de Ye Sung. O quê, eles vão dormir juntos? Como, se Sung Min dorme lá em cima também?

— Boa-noite, maknae — o veterano diz, enlaçando a cintura do menor e se dirigindo às escadas.

— Boa-noite... — respondo, ainda sem entender como diabos os dois vão dormir juntos.

Depois que o casal desaparece no andar de cima, Sung Min se aproxima timidamente.

— Kyunnie — ele sussurra, fitando o chão. Eu desvio meus olhos do segundo piso para seu rosto acanhado. Ele suspende o olhar hesitante e começa a falar, lutando para encontrar as palavras certas: — Eu... Você... Desculpe por... Pelo que aconteceu mais cedo...

Eu fico automaticamente triste ao me lembrar da cena do refeitório, mas me sinto feliz por ele querer esclarecer tudo.

— Eu fiquei muito magoado — digo o que ele provavelmente já percebeu.

Minnie desvia os olhos novamente, sem coragem para me encarar.

— Eu sei. — A voz dele é um sussurro. Ele toma fôlego para continuar e sua voz se torna mais forte à medida que ele fala: — Eu sinto muito. Eu não quis te deixar triste. É só que... O Ki Bummie é muito solitário. Eu sou basicamente seu único amigo. Por isso eu dei preferência a ele hoje, entende? Eu não quero que ele se sinta sozinho. Mas isso não significa que eu goste mais dele do que de você. É só porque você tem outros amigos, enquanto ele só tem a mim.

Eu escuto com atenção o que ele diz e, no final, decido que faz sentido. É uma explicação plausível. Ki Bum não é mesmo o que se pode chamar de sociável. Mas ainda há uma questão que eu não consigo entender...

— Ele disse que você preferia a ele, porque ele não te fazia chorar. É verdade? — pergunto. Ele responde de imediato:

— Não! Eu não prefiro nenhum dos dois. Vocês são diferentes, ocupam posições diferentes. Eu não tenho um preferido entre os dois, como você não tem um preferido entre eu e o Hee Chul. Quero dizer, eu acho que não tem.

— Eu não tenho — concordo. Tenho a impressão de que ele fica mais feliz quando digo isso.

— Então, é só isso. Eu não prefiro ninguém — ele conclui. Mas a minha pergunta interna não foi respondida.

— Então, se não é verdade, por que você deixou que ele falasse aquilo tudo?

Ele hesita por um momento, olhando as próprias mãos.

— Desculpe. Eu deveria tê-lo repreendido naquele instante, mas eu não tive forças para fazê-lo. Você sabe, eu estava muito ocupado chorando... Sinto muito. — Minnie fica em silêncio por um segundo, depois levanta a cabeça e me encara. — Mas eu conversei com ele depois. Disse que não quero que esse tipo de coisa se repita, não quero que ele fale por mim e também não quero que ele fique implicando com você. Ki Bummie me prometeu que vai melhorar.

Eu fico em silêncio, analisando tudo o que ouvi, me sentindo extremamente feliz pela explicação dele. Minnie esclareceu tudo.

— Por favor, Kyunnie, não fique chateado comigo — ele implora, quando não digo nada. Mas eu só fico calado porque estou processando tudo o que ele disse. De jeito nenhum eu ficaria chateado depois de ele ter explicado toda a situação.

Abro um grande sorriso e vejo que seus olhos brilham quando ele percebe minha expressão.

— Não estou nem um pouco chateado, Minnie — digo, sinceramente. — Muito pelo contrário: estou feliz por você ter esclarecido as coisas.

Um sorriso iluminado surge em seu rosto infantil e ele pula em meus braços.

— Ah, Kyunnie! Foi tão ruim passar o dia nesse clima estranho com você! — ele comenta, agarrado ao meu pescoço. Eu solto uma risada e envolvo sua cintura com os braços.

— Eu digo o mesmo.

— Eu fico contente de termos resolvido tudo — ele diz, se afastando para me olhar nos olhos.

— Eu também.

Sorrimos um para o outro por alguns instantes. Em seguida, Sung Min se solta de mim, dizendo que “já demorou muito para me entregar o que é meu”. Eu não entendo muito bem do que ele está falando até ele estender uma caixa na minha direção.

— Feliz Aniversário! — ele exclama alegremente, sorrindo feito uma criança. Eu fico boquiaberto ao ver que ele também me comprou um presente.

— Minnie... Você... — Eu quero dizer algo, mas não consigo formular uma frase descente. Sung Min me comprou um presente! Isso é inacreditável!

— Não precisa dizer nada, Kyunnie. Apenas abra — ele responde, rindo. Meu sorriso enorme volta, assim que a surpresa passa, e eu pego gentilmente o pacote da sua mão. Abro o presente com cuidado e quase tenho um ataque do coração quando olho o que tem no interior da caixa.

— Vai tomar no cú — eu digo, sem acreditar no que vejo.

— O quê?! — Minnie pergunta, soando uma mistura de ofendido e desapontado.

— Um PSP?! — eu quase grito. É até engraçada a expressão confusa e praticamente desesperada dele.

— Você não gostou? — ele pergunta, parecendo prestes a chorar.

— O quê? Eu adorei! — respondo, sorrindo tanto quanto posso. Estou simplesmente radiante!

O alívio de Sung Min é quase palpável.

— Seu idiota! Quase me matou do coração! — ele reclama. — Achei que não tinha gostado.

— Como não gostar de uma porra de um PSP?! Cacete, é muita felicidade para uma pessoa só! — eu digo, sem conseguir controlar os palavrões. Eu deveria andar menos com o Chul.

É impossível tirar o sorriso do rosto. Se antes eu achava que esse aniversário tinha sido horrível, agora penso que foi o melhor da minha vida! E não é só porque ganhei um PlayStation Portátil – embora isso com certeza conte muito.

Abraço Sung Min com força depois de colocar cuidadosamente meu presente precioso na cama, sem palavras para descrever toda a minha gratidão.

— Muito obrigado, Minnie! De coração. Eu nem sei o que dizer.

— De nada, Kyunnie — ele responde, feliz. — Mas ainda não acabou.

— O quê? — pergunto, me separando dele. Como assim? Ele me dá um PSP, que não é barato, e ainda tem mais? — O que eu fiz para merecer tantos presentes? — Não posso deixar de verbalizar a pergunta em minha mente.

Ele sorri e, me entregando outra caixa, dessa vez maior, responde como se fosse óbvio:

— Nasceu.

Um sorriso bobo toma conta de meus lábios enquanto seguro a caixa e a abro com cautela. Fico totalmente deslumbrado ao ver qual é o seu segundo presente.

— Você só pode estar brincando — digo. Ele me olha apreensivo. Acho graça de ele não ter entendido ainda como reajo a presentes excepcionais.

— Você... Gostou?

— São lindas — respondo, praticamente babando pelas roupas que ele fez para mim. É o meu esboço favorito! E ficou ainda mais bonito que no papel. — Minnie, elas são perfeitas! Eu não posso agradecer o suficiente por esse presente tão maravilhoso.

Ele sorri, transbordando de felicidade.

— Não precisa agradecer.

Eu sorrio tanto quanto posso. Queria poder retribuir tudo o que Sung Min está fazendo por mim.

— Obrigado, mesmo assim. — digo, sem encontrar o que mais poderia dizer. Ele balança a cabeça, mostrando que não devo agradecer. Então se balança nos calcanhares e começa a mexer as mãos em sinal de nervosismo.

— Sabe, hm... Não sei se isso pode ser considerado um presente também, mas... — Eu fico estático; mais um presente? — Você me disse que gostou de dormir comigo na Enfermaria, então... Eu pensei em dormir com você hoje. Posso?

Meus olhos brilham. Dormir abraçado com o meu ursinho no dia do meu aniversário? É a melhor coisa que poderia me acontecer.

— É claro que você pode, Minnie — respondo, sentindo meu peito quase explodir de tanta alegria. — Você pode tudo.

Seu sorriso ganha um ar divertido e ele diz:

— Então eu acho que vou me aproveitar disso.

Antes que eu possa perguntar o que ele quer dizer, sinto seus lábios sendo levemente pressionados contra os meus. Meus olhos se arregalam automaticamente, devido à surpresa, mas logo se fecham. Eu me concentro apenas no toque delicado e macio dos lábios de Sung Min.

Ele parece querer se afastar, mas envolvo sua cintura com um dos braços, impedindo que ele se separe de mim. Em seguida, peço passagem com a língua e ele rapidamente entreabre os lábios. Em pouco tempo nosso inocente selar de lábios se transforma em um beijo apaixonado e intenso.

Estamos ao pé da minha cama e eu sinto uma vontade louca de cair nela com Sung Min. Mas isso com certeza acabaria em provocações e não seria nada legal, uma vez que Ye Sung e Ryeo Wook estão no andar de cima.

Nos afastamos quando começamos a sentir falta de oxigênio em nossos pulmões. Deixamos as testas unidas, e posso sentir a respiração alterada de Sung Min se chocando contra meu rosto. Nossos hálitos se misturam e o ar fica impregnado com um leve aroma de hortelã e canela. Uma combinação interessante.

— Kyunnie — ele chama, num sussurro. Murmuro algo, mostrando que ele pode continuar. — Aishiteru — ele completa.

Outra vez essa palavra em Japonês! Algo dentro do meu ser insiste que ela significa “Eu te amo”, mas não tenho certeza. Ainda não tive uma oportunidade para procurar na internet.

Pelo sim ou pelo não, respondo da mesma maneira de antes:

— Wo ai ni.

O sorriso que se abre em seu rosto é simplesmente radiante. Será que ele sabe o significado das palavras que digo em Chinês? Ou então... Ele tem o mesmo palpite que eu! Por que nunca pensei nisso antes? Se eu tive esse raciocínio, é muito provável que ele tenha raciocinado o mesmo.

Nos entreolhamos por alguns instantes, com os olhos cintilando e os lábios esticados em um sorriso que parece permanente. Então ele desliza uma das mãos por meu rosto e pergunta:

— Vamos dormir? Acho que já passou da hora.

Eu concordo com a cabeça e, enquanto Sung Min arruma minha cama para deitarmos, vou até meu armário trocar de roupa. Me visto em questão de segundos, sem me preocupar com a presença do meu ursinho. Até porque acho que ele está tão concentrado com a cama que não repararia em nada. Quando me viro para ele novamente, Minnie já está deitado, mas não dá sinais de que tenha visto alguma coisa. Caminho até o interruptor e desligo as luzes, voltando para a cama no escuro.

Me deito ao lado esquerdo de Sung Min, que rapidamente se vira para fitar meu rosto. Sorrimos um para o outro novamente e sinto uma vontade enorme de beijá-lo novamente. Não a reprimo e acabo com a distância entre nossos lábios pela segunda vez. É um beijo carinhoso, singelo, sem línguas. Eu não quero que o aprofundemos. Quero que seja um beijo inocente.

Me separo dele gentilmente, e trocamos sorrisos de novo. Eu me sinto tão bem ao lado dele, e estou me sentindo tão feliz hoje que acho que vou até dormir sorrindo.

Nos beijamos brevemente mais uma vez e ele se vira de costas para mim, para dormirmos abraçados. Seu corpo encaixa no meu e sua bunda toca exatamente em meu membro, me fazendo soltar um ofego. Sung Min ri baixo e provocativamente, mas eu vou me manter forte. Não vou entrar em seus joguinhos. Pelo menos, não hoje.

Passo o braço engessado por sua cintura e ajeito meu corpo com o dele, aproximando-nos tanto quanto possível. Mas antes que eu perceba já estou pressionando meu quadril contra seu traseiro, arrancando um ofego dele. Merda, eu preciso aprender a me controlar.

Mas sou muito competitivo e quero ganhar sempre. É um problema.

— Boa-noite, Minnie — sussurro, forçando uma voz sedutoramente rouca.

— Boa-noite, Kyunnie — ele responde, sem usar um tom rouco, mas soando igualmente sedutor. Eu me concentro em seu perfume suave e gostoso, uma fragrância mais doce que a de Hee Chul, para ignorar os pensamentos pervertidos e me focar em dormir. Mas na minha terceira respiração já sinto todo o cansaço acumulado ao longo do dia e minhas pálpebras pesam toneladas.

Fecho os olhos, pronto para me entregar ao sono, mas sem não antes pensar no quão maravilhoso foi meu aniversário. Me diverti com meus amigos, recebi presentes – bem mais do que eu poderia imaginar – e ainda estou dormindo ao lado de Sung Min.

Realmente, não poderia haver aniversário melhor do que este.

Notas finais
Ai está, essa coisa enorme que parece mais uma passagem da Bíblia. -qnnnnn
Espero que todos vocês tenham curtido e bem... É isso!
Infelizmente não sei quanto tempo iremos demorar com o próximo capítulo, até porque, a partir daqui, teremos que pensar na fic. Até esse capítulo já tínhamos tudo o que ia acontecer. Então... Até breve.
Kisses and Butterflies. ♥