Neverending War
4 Fúria Sangüinária
Neverending War...
Cap. 4 — Fúria Sanguinária
(...)
“... Argh!”
Afastando os arbustos, Julian depara-se com uma grande clareira em meio às dezenas de palmeiras que havia no local. Exatamente no centro, um pequeno lago (na verdade, poça) lamacento servia de palco para uma furiosa batalha: um jovem rapaz, com cabelos curtos e espetados, segurava um grande bordão de madeira com o qual tentava contra-atacar um enorme lagarto do deserto, muito maior que qualquer outro que Julian tivesse visto. A criatura tentava morder a cabeça do rapaz com as poderosas mandíbulas, enquanto este afastava a boca para longe de si com a ajuda do bordão. Ambos estavam cobertos de lama que, com o furor da luta, era jogada para todos os lados.
“... *Graurr!!!*...”
“Há! Você acha mesmo que vai conseguir me engolir sua lagartixa gigante!? Pois pode esquecer! Háááá!!!”
O rapaz golpeia a barriga da criatura com o bordão fazendo-a recuar, rugindo e rosnando, sentindo a dor da pancada. Logo, ela investe novamente contra o jovem, derrubando-o na lama mais uma vez ao tentar morder o seu rosto. Uma saliva viscosa escorria pelo meio das mandíbulas.
“Ei, pode me ouvir?!” Pergunta Julian, saindo de trás dos arbustos.
“...?” O rapaz limpa a lama do rosto e olha para Julian, surpreso, enquanto tentava afastar a criatura com a mão que segurava a arma.
“Não se preocupe, vou dar um jeito de ajudar você!”
“Ei! Espere aí! Eu... *Sblosh!*” A criatura enterra a cara do rapaz na lama antes que ele termine de falar.
Julian vasculha rapidamente a areia e os arbustos... Até que encontra, próximo a uma das palmeiras, um pequeno coco, que mira na grande criatura sem pensar duas vezes. Juntando todas as suas forças, ele arremessa a fruta contra o animal!
“... *KBOOM!!*...”
“... *GRAURR!!!*...”
Um som muito alto, semelhante ao de um avião quebrando a barreira do som, é ouvido alguns instantes depois do coco ter sido arremessado, até que este atinge com uma força estrondosa a cabeça do lagarto, fazendo-o voar vários metros longe, colidindo contra uma das muitas palmeiras ao redor. A criatura desaba imóvel no chão.
“...” O rapaz levanta-se da lama e observa, com os olhos arregalados, a criatura morta ao longe. Vira a cabeça lentamente na direção de Julian e fita o garoto.
“Er...” Julian olha para as próprias mãos, incrédulo. “O-O que foi isso...?”
“Muito bem!! Cadê!?” O rapaz da lama anda até Julian, segurando firmemente o bordão de madeira, com uma das palmas das mãos estendidas.
“Er... Cadê o que?”
“A arma que você usou para matar o lagarto-rei que EU iria matar!”
“A-arma?”
“É, pare de ser cínico e me entregue logo ela!! Anda!!”
“Mas... Eu não tenho nenhuma arma!”
“Ou me dá ela ou enfio isto na sua goela!” O rapaz balança vigorosamente o bordão no ar, visivelmente irritado.
“Ei, pára com isso! Eu já disse que não tenho arma! Também não entendi o que aconteceu!”
“Hum... Tudo bem, vai continuar fingindo! Que seja! Mas não interfira mais no meu treinamento! Eu estava tão perto... TÃO PERTO!!! E aí aparece você, completamente do nada, e mata a criatura que demorei dias para encontrar!?”
“Pensei que precisasse de...”
“Não pensou nada! Seu... Seu... Moleque tonto!” Ele vira de costas e toma em mãos um pequeno cantil em sua cintura, coberto de lama. Logo após dar alguns goles, continua. “Aliás, o que está fazendo por aqui?! Está perdido?!”
“Bem... Eu vim de Anacrópolis e fui mandado até aqui para levá-lo de volta, e...”
O rapaz se engasga com a água do cantil, cuspindo-a depois de tossir várias vezes.
“O que?!”
“Ahn... Falei algo errado?”
Imediatamente, sons semelhantes a rosnados e rugidos são ouvidos ao redor da clareira. As folhagens ao redor dos dois jovens começam a se mover...
“O q-que é isso!?”
“Droga...” O rapaz enlameado pega em mãos o bordão e fica em posição de batalha. “Veja o que fez. Por causa do barulho da arma, os outros nos acharam!”
“Os ‘outros’...?”
Através das folhagens surgem diversos pares de olhos vermelhos, ameaçadores... Outros lagartos furiosos vão se aproximando dos garotos por todos os lados e, assim que observam o corpo do grande lagarto-rei, emitem rosnados ainda mais ferozes enquanto balançam vigorosamente as longas caudas e põem as afiadas garras amostra. Julian fica de costas para o rapaz, em uma posição de ataque improvisada.
“Mas... São muitos!! Não vamos nem ter chance!” Exclama.
“Deixe de ser medroso!! Atire neles com sua arma! Na cabeça, para que morram de uma vez! E pode deixar que eu cuido dos que vêm deste lado, hehehe...” O rapaz sorri animado com a batalha que viria, enquanto um de seus dentes brilha.
Agora mais de trinta ou mais criaturas cercavam os dois jovens... Sem demora, os répteis decidem investir contra os dois, mostrando os dentes afiados.
O rapaz com o bordão mostra grande agilidade, saltando por cima das criaturas e atacando-as facilmente.
“... *GRAURR!*...”
“Há! É só isso que sabem fazer!? O seu rei era o único desafio à altura!! Há!!” Ele golpeia um lagarto e o lança para longe.
“Aaaaargh!!!!!!”
Julian não possuía tamanhas habilidades em combate e fazia a única coisa na qual conseguia pensar enquanto mais de dez criaturas o perseguiam pela clareira: correr!!
“Vamos, deixe de brincar e mate-os logo!”
“Como quer que eu faça issooooooooo!!!??”Grita, correndo desesperadamente em círculos pela clareira.
“Atire neles, droga!!”
“Argh! Mas eu já disse que não tenho nenhuma arma!!” O garoto salta e agarra-se em uma palmeira, livrando, por pouco, uma de suas pernas de ser abocanhada por uma criatura “Ack! Ufa...”
O outro rapaz atacava e defendia habilmente, vencendo todos com facilidade. Sabia exatamente onde golpear, fazendo com que ficassem atordoadas e fora de combate. Em pouco tempo, ao seu redor, muitas dos répteis estavam caídos uns sobre os outros.
“Menos um! Vejamos quantos faltam!” Observa os vários lagartos que o cercavam e mostra uma expressão de desagrado, seguida por satisfação. “Hum... São muitos! Mas acho que posso acabar com todos sozinho! E então vou poder esfregar isto na cara dele! Bwahaha!”
“Ahn?” Julian escutava sem entender, de cima da palmeira. Esticando uma das mãos, pega um coco de cima dos galhos, outra vez fazendo mira “Como foi mesmo? Ahn... Toma!” A fruta é arremessada contra as criaturas abaixo, mas cai na areia, inofensiva. Os répteis observam a fruta e então fitam o garoto, furiosos. “Droga... Esses monstros vão acabar me alcançando!”
“... Já basta! Acabem com todos eles homens!”
Uma voz diferente das dos dois jovens invade o local, seguida por diversos sons agudos e altos, semelhantes a... Tiros!
*Pá! Pá! Pá!*
“.... Mas o que...?” O jovem lutador dá alguns passos para trás, afastando-se dos tiros que crivavam os lagartos por todos os lados. As criaturas rugiam tentando escapar mas poucas realmente conseguem se embrenhar na floresta de coqueiros mais uma vez. Um a um os lagartos vão sendo abatidos.
“... *GRAURR!!!*...”
Surpreso — e um tanto assustado – Julian observa as criaturas sendo mortas rapidamente lá embaixo. Ele olha para os lados tentando ver de onde havia vindo todos aqueles tiros ou ainda a voz misteriosa, mas em vão.
Em alguns segundos, cerca de vinte homens surgem através dos arbustos, portando armas que, lembravam rifles, e trajando uniformes parecidos com as da guarda de Anacrópolis, diferenciando-se por uma faixa lilás que trespassava o peito. Uma figura montada em um belo camelo entrava pelo mesmo lugar onde Julian havia entrado antes, destacando-se dos demais. Usava um grande manto lilás, amarrado como um turbante que cobria principalmente o rosto, e uma semi-armadura, que lhe cobria apenas os ombros e a parte inferior do corpo. Vinha acompanhado pelo homem que havia trazido Julian até o Oásis...
“...”
“... Parece que tive de salvá-lo de novo, não é mesmo Spike?” Diz o primeiro, assim que os tiros cessam.
“Sem essa de ‘ter que salvá-lo de novo’...!!” Berra o rapaz com o bordão. “Quem pediu para você vir aqui!? Eu podia ter acabado com todos eles sozinhos!”
“... *gota*...” Julian vai descendo lentamente da palmeira, enquanto se pergunta quem seriam aquelas pessoas.
“É mesmo? Não é o que parecia quando estava lutando contra o lagarto-rei.” O homem sobre o camelo falava sem perder a calma, diferentemente do rapaz, agora intitulado ‘Spike’. Ele dá algum comando e cinco dos homens armados começam a recolher os corpos das criaturas mortas e jogá-los para longe dali. A seguir ele olha na direção de Julian, próximo a palmeira que subira. “Quanto a você garoto, aproxime-se.”
“Ahn!? Ah, sim...”
Julian aproxima-se do homem montado sobre o camelo, um tanto acanhado... Para dar ordens a tantas pessoas, ele deveria ser alguém realmente importante.
“Meus homens me disseram que um garoto tinha interesse em falar comigo. Este seria você, estou certo?”
“R-Rannik?”
“Eu mesmo.” Fala o homem, domando o camelo. “Enfim, acho que você fez por merecer uma “pequena audiência” com a nossa Guilda. Mesmo sendo muito jovem, pôde ajudar Spike numa hora de dificuldade. Isto é o mínimo que posso fazer como agradecimento.”
“P-puxa, obrigado...!”
“Espere aí seu...!!” Spike fica entre Julian e Rannik, com o dedo indicador no nariz do primeiro. “Eu sabia que este cara havia sido mandado por você! Mas que idéia é essa!? Pensei que eu deveria fazer minha missão especial SOZINHO!”
“... *gota*...” Julian tentava entender o que ele queria dizer com “missão especial”.
“Como você estava com muitas dificuldades achamos melhor mandá-lo até aqui para ver se você estava se saindo bem. Em vez de reclamar deveria agradecê-lo por ter salvado a sua vida.”
“Grrr...! Sem essa!”
Spike sai dali, pisando fundo e irritado. Ele passa pelos homens armados e sai pelo mesmo local por onde Rannik havia chegado sem dizer mais nenhuma palavra.
“Olha, senhor Rannik... Ele tem toda razão. Eu não fiz nada para ajudar e...”
“Bobagem garoto!” Interrompe o homem que o acompanhara até o oásis, ao lado de Rannik. “Você tem mais força do que aparenta, e sabemos bem disso. Estávamos observando-o já há algum tempo e vimos como derrubou aquele lagarto-rei.”
“Ele tem razão garoto.” Continua Rannik. “Não é qualquer um que consegue matar um daqueles em um único golpe, ainda mais *risadinha discreta* com um coco! Falaremos sobre isso também, mas, por hora, é melhor voltarmos para Anacrópolis, pois está quase anoitecendo. Vamos homens! Para a sede!”
Rannik dá meia volta com sua montaria e se dirige para a saída da ‘Floresta dos Lagartos’. O homem que acompanhara Julian anteriormente traz o seu camelo e o rapaz, agora montado, segue de volta para a cidade, ao lado de Rannik. Todos os demais colocam os rifles nas costas e os seguem.
Durante a viagem de volta, Julian observava Rannik e em seguida Spike, mais à frente, resmungando.
“Eu espero não ter atrapalhado nada...”
“Não se preocupe, não atrapalhou nada.” Explica Rannik, sem retirar os olhos da trilha. “Spike é muito corajoso, mas inconseqüente. Por mais forte que seja ele, provavelmente, não teria sobrevivido a todos aqueles lagartos se estivesse sozinho.”
“Eu posso perguntar o que é essa “Missão Especial” que ele estava fazendo?”
“Ele é um dos nossos mais novos recrutas. Todos os que querem fazer parte de algum posto na Guilda Malva têm de passar por um rigoroso teste de coragem e força. Ele deveria ter trazido a cabeça daquele lagarto-rei ontem à tarde... Para, só depois, partir para uma missão final em busca de sua recompensa.”
“Recompensa?”
“Sim... Mas isso é uma outra história... Podemos falar disto quando chegarmos.”
“Tudo bem...”
“E, em parte, quero lhe agradecer pessoalmente. Ainda que muito tolo, ele é de minha família.”
“Família?!” Fala Julian, surpreso. “Por acaso vocês são...?”
“Irmãos.” Fala Rannik, calmamente.
“P-puxa... Eu não imaginava...”
Julian não tinha certeza se Spike, a alguns metros em frente, havia escutado ou não. Ele deveria estar irritado demais para isso...
(...)
Pouco mais de duas horas depois de ler diversos livros e tomos antigos na biblioteca da cidade, Elliot levantava-se da cadeira, espreguiçando e bocejando. Havia lido tanto que o tempo havia simplesmente voado.
Olhando para uma das janelas da biblioteca, notava o céu completamente negro salpicado de estrelas, o que o fazia apressar-se ainda mais, colocando os livros de volta em seus lugares para depois sair da local. Na rua, um vento gelado assobiava por entre as casas e as areias do deserto e muitas tochas eram acesas, uma a uma, nas ruas, para iluminar o local.
“Argh! Não imaginava que pudesse fazer tanto frio em um lugar que é tão quente...” Pensava consigo mesmo. “... Hum... Agora, onde era mesmo a tal Guilda Malva?”
Saindo de trás de uma das muitas casas, o garoto acaba voltando até a ‘praça central’, local onde ele e Julian estavam anteriormente. Dessa vez, o lugar se mostrava bastante vazio.
Elliot olhava de um lado para o outro, tentando se lembrar das palavras do sacerdote sobre o lugar em que a Guilda Malva ficava, mas seus pensamentos são bruscamente interrompidos por vários gritos e vozes que vinham do outro lado da praça.
Antes que pudesse esboçar qualquer reação, diversos homens trajados como guardas da cidade passam rapidamente por ele, indo na direção das vozes.
“A próxima onda está se aproximando!! Vamos homens! Temos que detê-los!” Diz o guarda mais à frente, mostrando ser um tipo de comandante.
“Ei esperem! Podem me dizer o que está acontecendo?!” Elliot indaga, abordando um dos guardas.
Apesar da pergunta, nenhum deles o responde e continuam se distanciando. Sem pensar duas vezes, Elliot os segue e, assim que dobra uma minúscula viela, percebe estar próximo à entrada da cidade. Pelo portão aberto, ele percebe os gritos darem lugar a muitos sons de lâminas colidindo. Os guardas investiam contra um grande grupo de criaturas que tentavam invadir a cidade e, apesar de estarem em menor número, os guardas se mostram poderosos lutadores e destruíam as criaturas uma a uma em uma batalha ferrenha. Elliot observava tudo, de longe, escondido atrás da parede de uma das casas da esquina.
Entre as criaturas estavam inúmeros lagartos dos desertos e outras que o garoto nunca havia visto. Estas eram semelhantes a enormes besouros, com duras carapaças nas costas, porém não eram páreas para as espadas dos guardas.
“Nossa...” O garoto mantinha o olhar fixo na batalha, um tanto assustado com a quantidade de criaturas. Percebia também que, próximo ao portão, havia alguns corpos humanos. Provavelmente eram as pessoas que estavam gritando...
O vento assobiava novamente e os lagartos, furiosos, investiam com seus dentes e garras, enquanto os grandes besouros erguiam e jogavam no ar os soldados usando suas enormes mandíbulas.
“... *GRAURR!!*...”
“Agüentem firmes homens! Vamos expulsá-los daqui!!” O comandante do pelotão levava seus homens para frente, atacando as criaturas com afiadas cimitarras.
Elliot via um pequeno grupo de apoio se aproximar do portão, arremessando diversas lanças curtas, azagaias, contra as criaturas. A chuva de lanças mostrava-se mortífera, pois mesmo as resistentes carapaças dos besouros eram rompidas pelas afiadas pontas das armas.
A batalha duraria apenas mais alguns minutos, quando cinco bestas restantes optam por fugir por debaixo da areia do deserto ao invés de enfrentar as azagaias dos soldados.
Com as criaturas, agora, longes os guardas retornam para dentro da cidade, carregando os corpos das pessoas e de alguns guerreiros que acabaram por cair ante a fúria das bestas. Em frente ao portão, restara apenas um tapete de cadáveres de lagartos e grandes insetos... Cadáveres que o vento gelado se encarregaria de cobrir pouco a pouco com a areia...
“Capitão!” Grita um dos soldados. “As criaturas desta onda foram derrotadas.”
“Parece que sim sargento.” Responde, sem esboçar uma expressão positiva. “Uma pena que à custa de cinco de nossos homens...”
“Quais são as ordens?”
“Avise a Guilda Malva sobre esse ataque repentino. Diga-os também que o vento mudou de direção novamente. Ele está bem perto. Precisamos fortalecer as nossas defesas.”
“Entendido senhor!”
O sargento se afasta juntamente com outros dois soldados. Eles passam por Elliot e este, novamente, não pensa muito antes de segui-los.
“Ótimo! Estão indo para a Guilda... Assim vou poupar tempo procurando pelo lugar.” Enquanto segue, ele limpa a areia dos óculos, pensativo. “Mas... A quem será que eles se referiam quando falaram do vento?”
(...)
“Mas porque não pode me deixar ir até o templo??”
“Eu sinto muito Julian, mas não posso permitir que você vá até lá. Aquele lugar é muito perigoso, e é minha responsabilidade manter as pessoas afastadas de lá, caso aproximem-se daquele lugar.”
Estavam agora no interior de um grande aposento, bastante semelhante a um porão com várias mesas, grandes caixas de madeiras empilhadas ao fundo e cadeiras espalhadas. O lugar era iluminado apenas por algumas velas sobre as mesas e tochas presas às paredes. Os membros da Guilda Malva se encontravam espalhados pelo lugar, jogados nas cadeiras, observando a conversa entre Julian e Rannik. O garoto se mantinha sentado, de frente para Rannik, que por sua vez se apoiava em uma das muitas caixas de madeira que havia por perto. Spike escutava tudo em silêncio encostado na parede mais próxima à saída, com os braços cruzados, sem demonstrar muito interesse no que diziam.
“Mas não vai me acontecer nada, eu lhe garanto!” Continuava Julian. “Além disso, eu não irei sozinho. Há um amigo meu em Anacrópolis que também é um grande aventureiro. Temos certeza que teremos bons resultados se pudermos...”
“É melhor esquecer isso garoto.” Diz um dos homens sentados próximo dali, em cima de uma das pilhas de caixas.
“É verdade. Você não sabe o que há naquele lugar, vai apenas para morrer.” Comenta outro, com uma cicatriz abaixo do olho.
“E a responsabilidade será toda nossa, que permitimos sua ida” Lembra um terceiro, deitado sobre uma mesa, com a cabeça apoiada sobre as mãos, mascando alguma coisa.
“...”
“Entende porque não posso deixar você ir, não é mesmo?” Indaga Rannik, cruzando os braços.
“Mas... Você tem que me levar até lá! É muito importante!” Insiste desesperadamente. “Vidas de pessoas estão em jogo! Eu sei que parece difícil acreditar que eu possa ajudá-los, mas eu quero muito tentar, por favor!”
O salão fica em silêncio por alguns instantes... Ouviam um único som, o de passos que lentamente se aproximavam pela grande escada em espiral que dava acesso ao segundo andar.
“... O menino está certo Rannik.”
Todos, até mesmo Spike, imediatamente olham na direção da voz, vinda do velho sacerdote do templo da cidade.
“O Sacerdote!”
“Senhor Hennet...” Observa Rannik. O velho desce as escadas e dirige-se lentamente até ele e Julian. Os demais fazem uma rápida reverência, exceto Spike que, como Rannik, se mostrava pouco surpreso. “... O que faz aqui?”
“Eu vim até aqui porque sabia que você, na sua posição de proteger as pessoas do mal que assola o templo de Rehzuma, e também Solaria, não permitiria que o garoto fosse até aquele local, hoje profanado pelas trevas.”
“Estou apenas fazendo o que acho certo.” Continua Rannik. “Muitas pessoas já perderam suas vidas lá e, se ele for também perderá a sua.”
“Engraçado. Há alguns minutos atrás eu pensava como você. Porém, depois de refletir muito... Cheguei a uma conclusão.”
“E esta seria...?”
“Meu amigo, este jovem, bem como seu companheiro que está na cidade, são a nossa única salvação. Ou melhor... São a única salvação de Solaria.”
“...”
“... O que?!” Rannik pensa por alguns momentos se o sacerdote não estaria ficando maluco. “Bem, me desculpe senhor, mas se trata apenas de um garoto. Como ele pode ser a salvação de Solaria? E porque está dizendo que ele está certo em ir até lá... Por acaso já se conhecem?”
“Encontramos-nos por apenas alguns momentos quando ele e seu amigo foram até o templo de nossa cidade. No início achei que realmente fossem apenas aventureiros de algum lugar longínquo...” O sacerdote fita Julian e coloca a mão sobre um de seus ombros, sorridente. “Mas sabemos que a história verdadeira não é essa, não é mesmo senhor Julian?”
“Er... B-Bem...” Gagueja visivelmente acanhado.
“Sim, isso é verdade... Também percebemos que ele possui um tipo de ‘força’ interior muito grande, a qual não se encontra em qualquer aventureiro por aí. Diga-nos, meu jovem, afinal, quem é você...?”
“E-eu... Eu...” O garoto engasga com as próprias palavras. Não sabia se dizia ou não o que acontecera em Autonoe... Provavelmente não acreditariam em nenhuma palavra...
“Ele não é apenas um aventureiro, tem uma missão muito importante em Solaria.” Completa o sacerdote Hennet. “Estou certo?”
“... S-Sim...”
“Obviamente esta missão tem a ver com o templo de Rehzuma, no deserto.” Rannik se senta, cruzando os braços. “Certo. Se o senhor Hennet, nosso sacerdote, está dizendo disso, então estou tentado a levá-lo até o templo. Porém, antes disso... explique-se.”
O salão silenciosamente pressionava Julian a contar sua história. Todos aguardavam que ele falasse o que tinha ido fazer ali, exatamente.
“É. A-acho que não tenho escolha...” Ele suspira, vencido.
“Não tem mesmo.” Completa Rannik.
“B-Bem, vou tentar explicar. Meu nome é Julian, e vim de... A-Autonoe, terra de Pasiphae...”
(...)
Alguns minutos depois, sua história estava terminada. Explicara rapidamente sobre a terra de Autonoe, os Tecnomages, a chuva que neste exato momento ainda desabava sobre sua cidade, e principalmente sobre o Limiar e o que irá acontecer caso não os recupere a tempo. A inevitável destruição de sua terra...
Todos os integrantes da Guilda Malva escutavam atentamente a cada palavra, mesmo Spike. A parte sobre o Limiar chamara a atenção de todos.
“... E isso é tudo.” Conclui Julian. “Após tudo isso, eu e meu amigo Elliot viemos parar aqui em Solaria... E agora estamos à procura de outro Limiar. Nós temos quase certeza que ele se encontra dentro deste templo, pois se for igual ao que havia em Autonoe, possui poder suficiente para desenterrá-lo... Ao menos... Eu acho.”
“Então você é o único que pode tomar esses tais Limiares em mãos?” Indaga Rannik.
“Bem, pelo que eu sei, sim. D-digo... Ao menos não me aconteceu nada quando toquei na energia pela primeira vez.”
“... E parece que não é só em seu mundo, Julian.” Continua o sacerdote. “Pelo que estou entendendo esses tais Limiares possuem a capacidade de causar danos a qualquer mundo em que estejam alojados. Como estão fazendo a Solaria...”
“Mas tudo que ele fez foi só desenterrar o templo de Rehzuma, não é mesmo?”
“... Antes fosse só isso.” Comenta Rannik, com um olhar preocupado.
Neste momento, sons de batidas vêm da porta da Guilda. Um dos homens, que se levantara para olhar pelo visor, abre a porta para revelar quatro pessoas: três eram homens trajados como a milícia da cidade e o outro...
“Elliot!”
“Ah, achei você finalmente!” Exclama o garoto de óculos, atrás dos três homens. Estes sequer prestam atenção no garoto, adentrando na sede.
“Qual o problema soldados?” Diz Rannik.
“Comandante Rannik, acabamos de derrotar uma grande onda de criaturas que estavam prestes a invadir Anacrópolis. O capitão Wolfgang diz que as defesas devem ser reforçadas, pois as criaturas poderão invadir novamente, juntamente com... Ele.”
“Ele...?” Pensa Julian.
“Muito bem, diga a ele que isso não será necessário, pois vamos acabar com este tormento logo.”
“Mas, comandante...”
“Sem ‘mas’ sargento. Diga isto ao capitão. E ordene a ele que organize uma tropa eficiente até amanhã ao nascer do sol.”
“Sim senhor comandante. Poderia perguntar ao menos aonde iremos?”
“...” Rannik olha para Julian, seriamente. “Ao templo de Rehzuma, no deserto.”
“...” Os três soldados ficam em silêncio e os integrantes da Guilda Malva se levantam, um a um, mostrando-se dispostos a irem também. “Diremos isto ao capitão, senhor. Com sua permissão...” Os três se retiram do lugar. Elliot os observa partir e fica à porta, olhando de um lado para o outro.
“Ei Elliot, entre!”
“Er, não tem problema mesmo?” Ele olha de relance para os homens mal encarados que havia ali.
“Todo amigo do jovem Julian é bem vindo.” Diz Hennet amigavelmente. Elliot, ao reconhecer o velho sacerdote, o cumprimenta e vai até o amigo.
“Então, este é seu amigo? Vocês fizeram muitas coisas para apenas dois garotos, sabiam?” Comenta Rannik.
“C-Como assim...?”
“Ele já sabem de tudo, Elliot.” Explica Julian.
“V-você contou!?”
“Já não há motivo para esconder coisa alguma, meu rapaz.” Continua o sacerdote. “Agora todos estamos juntos nisto, e iremos ajudá-los como pudermos.”
“É isso mesmo.” Concorda Rannik. “Se não nos apressarmos, esta energia maligna vai se apoderar de todas as criaturas de Solaria e não conseguiremos resistir por mais tempo...”
“Mas o que há com as criaturas?” Pergunta Julian. Elliot então puxa uma cadeira, sentando-se ao lado do amigo.
“Bem, as criaturas que habitam Solaria sempre foram pacíficas... Como você deve ter visto em algum momento, vários dos lagartos do deserto foram domesticados por nós e se tornaram dóceis.”
“Ahn... É verdade, o homem que nos trouxe até aqui tinha dois lagartos...”
“... Mas eles não eram exatamente dóceis.” Completa Elliot.
“Agora, por causa dessa energia negativa, as criaturas tornaram-se incrivelmente hostis e atacam tudo o que vêem pela frente... Com uma fúria sanguinária.”
“Muitas pessoas já perderam suas vidas, vítimas das criaturas... A maioria dos ataques havia sido fora da cidade, mas parece que agora pretendem nos caçar aqui dentro.” Completa Rannik.
“Hum. Isso é verdade... Eu estava próximo de onde essa última onda de criaturas atacou... Eram muitas! Felizmente os guardas conseguiram derrotá-las.”
“Não se preocupe.” Julian levanta-se, cerrando o punho. “Nós iremos pegar este Limiar e então tudo estará resolvido, eu prometo!”
“Eu digo o mesmo!” Concorda Elliot.
“Heh... Acho que posso confiar em sua bravura, garotos. Ainda assim irei acompanhá-los dentro do templo, para que não se percam. Além disso, o perigo maior se encontra lá dentro.”
“Espere um pouco!” Spike pronuncia-se depois de muito tempo em silêncio. Ele descruza os braços e se aproxima de Julian, Elliot e os demais. “Você não vai precisar entrar com eles no templo.”
“Oh sim? E posso saber por quê?” Indaga Rannik.
“Porque quem vai fazer isso sou eu.” O rapaz aponta para si mesmo com o polegar.
“...”
“Quem é esse cara Julian?” Pergunta Elliot, cochichando.
“Er... É uma longa história...” ^^’
Rannik aproxima-se do irmão, sem mudar o semblante sério.
“E eu posso saber o porquê dessa sua repentina vontade de ajudar?”
“É simples...” Diz Spike, com um sorriso gigante no rosto. “... As criaturas estão defendendo o templo, como todos aqui sabem. Você terá de ficar do lado de fora para comandar os demais na batalha que, certamente, vai acontecer.”
“Hum...”
Os homens ao redor começam a concordar com Spike. Era mesmo necessário que seu comandante estivesse presente na batalha.
“E então? O que me diz? Eu sei de cor todos os caminhos do templo, exatamente como você.”
“Hum... Está bem, você ganhou Spike.” Rannik, senta sobre uma das caixas, dando de ombros. “Porém não consegue esconder que o seu verdadeiro interesse é encontrar Zenite dentro daquele lugar, agora amaldiçoado pelo Limiar.” Continua sarcástico.
“N-NÃO TEM NADA A VER! TÁ ME CHAMANDO DE INTERESSEIRO, SEU, SEU...!” Responde Spike, se babando.
“Er... Mas o que é a Zenite?” Indaga Julian, pensando se realmente seria uma boa idéia ir até lá com Spike.
“É uma arma legendária. Pertenceu ao nosso antigo Deus-Rei, Rehzuma. Dizem que foi guardada juntamente com o corpo do deus, em seu templo... Mas isso é apenas uma lenda. Nada confirmado.”
“Puxa. Essa arma deve ser bem forte, não é?” Comenta Elliot. “Afinal, foi usada por um Deus...”
“Sim, mas como eu disse, é apenas uma lenda. Se ela existiu mesmo, talvez tenha se perdido nas areias de Solaria quando o templo foi soterrado.” Continua Rannik. “Se Spike tivesse completado todas as missões, ele teria uma chance de procurar por ela. Mas parece que ele vai fazer isso tendo, ou não, sido bem sucedido...”
“Pode dizer o que quiser!! Você vai ver!! Vou encontrar Zenite e destruir essa... Essa... COISA que está arruinando Solaria!! Vou provar que posso ser melhor que você!! Bwahahaha!!!”
“... feh.” Julian e Elliot se encolhiam de medo, enquanto Rannik praticamente bocejava.
“Bem, agora que já está tudo resolvido, é melhor todos descansarem um pouco, pois partirão dentro de algumas horas.” Avisa o sacerdote Hennet. “Julian e Elliot podem ficar na Guilda esta noite e ao amanhecer serão levados até o templo.”
“Certo, obrigado senhor. E obrigado a todos vocês, senhores, por nos ajudarem.” Agradece Julian se levantando.
“Isso mesmo, obrigado por tudo.” Completa Elliot.
“Garoto Elliot, tem certeza de que é seguro ir junto com seu amigo? Ele é o único que pode tocar no tal Limiar... Você não estaria correndo algum risco se...”
“N-não! Eu vou porque o Julian precisa de um apoio moral! Eu sou uma parte importante do time!”
“... *gota*...”
“Bem, se você diz... De todo modo não estarão seguros, afinal Spike vai estar com vocês...”
“O QUE QUER DIZER COM ISSO SEU...!?!?!”
(...)
Duas horas depois, a luz do sol de Solaria havia desaparecido completamente. O céu mantinha-se negro, apenas algumas estrelas brilhavam no véu da noite.
Em meio ao grande deserto de areias gélidas estava o grande templo de Rehzuma. Uma edificação assombrosamente grande, esculpida em marfim, prata e detalhes dourados. Na entrada, após uma larga escadaria já consumida pelo tempo, estava uma enorme porta de pedra, com símbolos sagrados de sóis... O símbolo do deus Rehzuma.
Exatamente em frente ao portão, havia uma pessoa. Estática, imóvel, observando atenciosamente os símbolos entalhados na pedra. Era impossível ver sua face ou corpo, pois estavam cobertos por um grande manto.
Há alguns metros dali, aproximavam-se lentamente da figura, duas criaturas insetóides, besouros imensos, que brandiam as mandíbulas, salivando uma espécie de líquido esverdeado pelo orifício bucal. Os seis olhos brilhavam em um tom vermelho, mostrando estarem sobre efeito de algum tipo de fúria, provavelmente não natural.
Assim que se aproximam o suficiente, as criaturas levantam as afiadas mandíbulas e saltam sobre o ser misterioso, tentando devorá-lo!
“... *FOUSHH!!!!*...”
Uma poderosa aura luminosa e flamejante surgira instantaneamente em volta da figura, atingindo as criaturas. Seus pedaços carbonizados caíam sobre a areia do deserto, exalando uma fumaça cinza e espessa.
A figura ergue um dos braços e fecha o punho, golpeando o portão de pedra e derrubando-o com apenas um soco! As grossas pedras se esmigalham, abrindo caminho para o templo. No interior, bem ao fundo, uma luz multicolorida, em um tom quase hipnótico, chama a atenção...
A pessoa encapuzada dá meia volta e salta, chegando em instantes na parte de cima do grande templo de pedra. Ela volta a ficar parada e observa o horizonte ao longe, mais precisamente a cidade de Anacrópolis...
(...)
O sol já começava a raiar, quando uma grande gama de soldados atravessava a cidade de Anacrópolis. Diversos guardas, mercenários e a elite da Guilda Malva, alguns montados em camelos, faziam parte do pequeno exército criado para levar Julian, Elliot e Spike até o templo do deserto. Excetuando os garotos, todos portavam algum tipo de arma. Os homens das linhas de trás traziam seus fiéis rifles e azagaias, enquanto que os de linha de frente se muniam de cimitarras, escudos, alabardas e outras armas.
Julian e Elliot estavam mais a frente, montados em camelos, juntamente com Rannik e Spike.
“Nossa...” Eliot exclama, impressionado. “Pelo número de pessoas, não vai ser uma batalha fácil.”
“Provavelmente.” Diz Rannik, mais a frente. “Ainda mais se ‘ele’ aparecer...”
“... O que?” Rannik falara a última frase em um tom baixo demais e Elliot não conseguira entender.
“Esqueça. Vamos, temos muita areia para percorrer e quanto menos tempo demorarmos, melhor.”
As pessoas observavam curiosas e apreensivas toda aquela grande movimentação da milícia da cidade e da Guilda Malva. Sabiam que, para que fosse formado um grupo de combate tão grande, era por algum motivo muito especial.
Logo, finalmente estavam andando pelas areias e dunas do deserto de Solaria... Do portão da cidade, o sacerdote Hennet os abençoava, desejando sucesso na empreitada.
“E que Rehzuma os proteja...” Ele diz, vendo todos se distanciarem.
(...)
Uma hora depois, o sol parece castigar os soldados e os garotos. Mesmo aqueles com turbantes sentiam o calor escaldante que fazia. Tentando se distrair, Julian se lembra sobre a biblioteca e fala com Elliot.
“Ei, você não descobriu nada de interessante depois de ler tanto naquela biblioteca?”
“Ah, nada de muito importante... Eu acho. Só algumas runas antigas. Decorei o significado de todas elas, mas não acho que isso vá ser muito útil.”
“... Biblioteca?” Fala Spike, montado em um camelo, ao lado dos garotos. Em suas costas estava preso o bordão de madeira que havia utilizado anteriormente. “Espere aí, como foi que você entrou na biblioteca se é necessária uma autorização para isso?”
“Bem, uma moça muito gentil mostrou a sua autorização para os guardas da entrada, e então me deixou entrar junto dela. É estranho. Depois eu não a encontrei mais...” Lembra o garoto, pensativo, limpando o suor da testa.
“Estranho mesmo.” Concorda Spike, voltando-se novamente para frente, guiando o animal. “Normalmente ninguém faria isso em Anacrópolis. Ainda mais por uma pessoa que nem conhece.”
“Vai ver ela... Goste de ler também.” Arrisca Julian, sentindo-se incomodado com o calor.
“Sei... Pra mim você roubou algum livro ou entrou sem permissão!”
“Ei! Isso não é verdade!” Defende-se Elliot.
“Hum, sei... Bem, deixe os guardas descobrirem isso e você vai ver só. Hehehe.”
Enquanto Elliot e Spike discutiam, Julian olhava para o caminho em frente, embora não visse nem sinal de algum templo. Olhando para trás observava Rannik, quieto, em frente aos demais soldados e guerreiros. Rannik, diferente de todos os outros, parecia tenso...
Assim que Spike e Elliot terminam a discussão sobre os livros e a biblioteca, Julian dirige-se ao primeiro.
“Er... Spike.”
“Hum? O que você quer?”
“Você e Rannik são mesmo irmãos?”
“...”
“D-digo, não quero ofender, mas... Vocês me parecem tão... Ahn...”
“Diferentes um do outro?” Completa Elliot, limpando o suor que havia caído na lente dos óculos.
“Er... I-isso.”
“Porque essa pergunta?” Indaga sério.
“Apenas... Curiosidade.”
“Hum.” Spike volta a olhar para frente, ainda com o semblante sério no rosto. “É claro que somos irmãos. A diferença é que ele é o mais velho de nossa família, e por isso, é o líder da Guilda Malva. Ou seja, ele só teve mais SORTE do que eu!”
“Hehe... Acho que tem razão... *gota*...” Julian resolve não contrariar o rapaz. “Ah sim, me desculpe por antes, não sabia que você estava em uma missão.”
“Esqueça isso. É passado. De todo modo, vou conseguir pegar o que é meu por direito! E então esse maldito miserável vai ver só todo o meu poder!! Bwahahaha!”
“Er... Mas Rannik disse que a Zenith era apenas uma lenda. E se você não a encontrar?”
“Eu VOU encontrá-la! E assim que eu o fizer, vou destruir aquele o maldito Limiar em um único golpe!”
“Mas... É pra pegarmos o Limiar e não destruí-lo...”
“...” Spike coça a nuca. “Tanto faz! O que importa é que logo terei o poder de cem sóis em minhas mãos! Serei invencível!”
“Se você diz...”
“AH! ESTÁ DUVIDANDO TAMBÉM NÃO É!?” Diz Spike, saindo cuspe pela boca.
“N-Não, eu...”
“Estamos chegando!!”
Imediatamente todos os guerreiros olham em frente e notam, no horizonte, o grande templo surgindo. A forte luz do sol distorcia a imagem da edificação bem como a do resto do horizonte, mas já se notava a imponente construção por entre as dunas.
“Agora falta pouco! Logo tudo isto vai estar terminado!” Avisa um dos soldados.
“É melhor não comemorar nada antes do tempo sargento. E preparem suas armas!” Alerta Rannik, olhando na mesma direção do templo.
Imediatamente uma enorme manada de criaturas começa a se aproximar... Pouco a pouco era visível um número incontável de lagartos e grandes besouros que se corriam em carga. Todos com os olhos vermelhos, sedentos de sangue...
“Julian e Elliot, protejam-se! Vocês não vão ajudar muito se morrerem aqui!! Homens!! Ao ataque!!” Rannik desembainha uma grande cimitarra, com a lâmina inscrita com runas, e investe contra a horda de criaturas. O resto dos guerreiros o segue logo atrás, guiados pelo seu comandante.
“Vamos ficar aqui parados?!” Diz Julian.
“Mas o que podemos fazer?”
“Vamos ajudá-los! Mesmo que a gente não possa fazer muito, eu me recuso a ficar parado enquanto eles se matam para que nós possamos passar!”
“É... Acho que você tem razão.” Elliot observa as duas massas se encontrando e iniciando um furioso combate.
Os garotos incitam suas montarias na direção da luta, mas, antes que possam continuar, Spike se coloca na frente deles.
“Esperem aí, aonde vocês acham que vão?!” Indaga, com o bordão em mãos.
“Vamos ajudar oras! O que mais?!”
“Se vocês caírem nessa luta, todo o esforço que o tonto do Rannik e os demais estão fazendo vai ser em vão! Vocês não serão úteis nessa luta, portanto fiquem aí mesmo e aguardem o comando.”
“...”
“Além disso, ele sabe o que faz e essa luta não vai ser difícil...” Continua Spike, observando a batalha. Enquanto Elliot observava o combate, Julian olhava para Spike, surpreso, pela confiança que este demonstrava pelo irmão.
Enquanto os três rapazes assistiam, a linha de guerreiros atacava ferozmente as criaturas. Com as poderosas cimitarras e alabardas, as criaturas eram facilmente derrotadas. Mesmo a carapaça resistente dos besouros não resistia aos golpes certeiros e caíam, vencidos em poucos segundos. Os répteis furiosos saltavam sobre eles tentando morder seus pescoços, mas poucos realmente conseguiam. A força de Anacrópolis mostrava-se realmente eficaz.
“... *GRAURR!!*...”
“Vamos guerreiros! Acabem com os que faltam!!”
As criaturas também faziam suas vítimas... Inevitavelmente alguns soldados caíam para as garras poderosas dos répteis, ou ainda derrotados pelas afiadas mandíbulas dos enormes besouros do deserto. A chuva de azagaias das linhas de trás praticamente dizimava toda a horda inimiga... Répteis e insetos eram trespassados pelas pontas afiadas voadoras.
“Incrível!” Exclama Julian com os cabelos balançando ao vento, observando a batalha. “Rannik e os outros são muito bons! Estão quase vencendo!”
“É verdade! Desse jeito vamos poder passar sem problemas! Porque não ganhamos tempo e nos dirigimos para o templo?!” Indaga Elliot.
“... Porque a batalha de verdade ainda não começou.” Fala Spike, em um tom pesado e sério, levantando a mão. “O vento está forte... Ele já nos achou. Rannik e os outros vão ter de desviar a atenção dele para que possamos passar.”
“Ele...?”
“Eu também queria saber...” Elliot se põe na frente de Spike, com o seu camelo.“... Os soldados, quando lutaram contra as criaturas em Anacrópolis, também falaram em um tal Ele. A quem eles se referiam afinal?”
“... “Fujin”.”
“... Quem?”
De repente, o vento fica ainda mais forte, levantando uma enorme cortina de areia sobre o exército e os garotos. Julian e Elliot protegem o rosto da areia enquanto a batalha, que parecia fácil, tornava-se um desafio. Diversos homens eram literalmente cegados pela areia que passava rasgando seus rostos e, aproveitando-se disto, as criaturas que pareciam já derrotadas agora os destruíam.
Rannik fazia sinal para que as tropas recuassem até certa distância, segundos antes de um gigantesco tufão surgir por baixo das linhas de trás, arremessando inúmeros soldados para longe.
“Argh!!!!!”
“Huaaaa!!!!”
“Defendam-se homens! Afastem-se dos tufões!!” Alerta Rannik, protegendo o rosto da areia, enquanto tentava atacar um enorme besouro.
Mais à frente, logo atrás das criaturas, os ventos pareciam se unir, formando um enorme e violento ciclone, lançando areia para todos os lados. No centro deste, diversas descargas elétricas explodiam, como trovões, conseqüência da energia liberada pela ‘criatura’.
“O que é isso!?” Indaga Julian, tentando ver o que acontecia a frente. A enorme cortina de areia dificultava a visão dos garotos.
“Isso é o tal Fujin?!”
“Sim...” Spike, que também se protegia da areia lançada, não parecia muito surpreso. “Fujin é um elemental do ar, protetor do templo de Rehzuma. Como os lagartos e os besouros do deserto, ele também era pacífico... Mas...”
“Mas parece que ele também caiu sobre a influência do Limiar!” Completa Elliot, um segundo antes de uma grande onda de areia atingi-los com força! Julian cai do camelo assim como os outros dois. Os três levantam-se, tirando a areia do rosto, enquanto notam que os camelos que os carregavam haviam sido arremessados pelo vento... Provavelmente não sobreviveriam.
Dentro da nuvem de areia Rannik e os demais travavam uma batalha ferrenha contra as criaturas que, mesmo em pequeno número, começavam a fazer um enorme estrago nas tropas. Diversos homens caíam vítimas das garras dos répteis ou ainda eram lançados para longe por Fujin, o elemental do ar. Julian e Elliot podiam ver os gritos de todos dentro do combate.
“Precisamos ajudá-los!!” Julian levanta-se, tenso com o que via. “Todos vão morrer desse jeito!”
“Não!!” Fala Spike, segurando seu braço. “Devemos ir para o templo!!”
“E o que estamos esperando então!?”
Do meio do grande combate, Julian e os demais observavam alguém se distanciando, montado em um camelo e acenando para eles.
“Isto.” Spike toma o bordão em mãos e dá alguns passos em frente, fitando os garotos em seguida. “Agora finalmente devemos ir!! Espero que estejam prontos para correr!!”
“Estamos! Vamos depressa!”
Os três rapazes começam a correr rapidamente em direção ao templo... Felizmente não são notados por nenhuma das criaturas do combate...
Após atravessarem a linha de poeira formada por Fujin, os três se deparam com dois grandes lagartos que surgem de baixo das areias próximas às escadarias do templo.
“Saiam da frente!!! Vocês não vão ficar entre eu e meu destino!!! Huaaaa!!!”
Spike golpeia as duas criaturas de uma só vez, nocauteando-as instantaneamente. Julian e Elliot mantém uma certa distância de Spike, por precaução...
Logo os três estão subindo as grandes escadarias do templo e se deparam com um grande portão de pedra... Totalmente destruído.
“... O que é isso?” Indaga Spike para si mesmo. “Alguém já entrou aqui!?”
“...” Julian olha para trás observando os sobreviventes, incluindo Rannik, atacarem as criaturas... Fujin era visivelmente superior a eles... Mesmo assim continuavam lutando. Ao mesmo tempo ele se sentia estranhamente atraído pela luz multicolorida no fundo do corredor escuro da entrada do local. De tempos em tempos... A luz tornava-se dourada. “Não importa! Vamos logo encontrar esse maldito Limiar antes que mais pessoas acabem morrendo! Agora!!”
O garoto adentra correndo pela passagem escura sem hesitar. Elliot dá de ombros e segue o amigo, adentrando pelo portão destruído.
“Ora ora... Agora falou algo inteligente...” Pensa Spike, adentrando na passagem logo atrás...
Enquanto os garotos finalmente entram no misterioso templo de Rehzuma, os soldados de Anacrópolis caem ante a fúria de Fujin... No campo de batalha sobram apenas Rannik, de pé, com vários ferimentos pelo corpo, segurando sua fiel cimitarra, e o todo poderoso elemental do ar, girando velozmente a sua frente, demonstrando toda a fúria negativa concedida pelo Limiar.
“... Confio em vocês garotos...”
Rannik junta suas forças e solta um forte brado de guerra... Partindo para cima de Fujin...
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Continua...
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