Neverending War
5 Recompensas
Neverending War...
Cap. 5 — Recompensas
(...)
...A mortal chuva continua desabando sobre a grande república de Autonoe, em Pasiphaë, o mundo de Julian e Elliot. Sobre a cidade, a única coisa que pode ser vista são as nuvens negras sendo trespassadas pelos relâmpagos, seguidos de estrondosos trovões, já há alguns dias.
A população mostrava-se preocupada. Já estava mais do que claro que aquele não era um fenômeno normal... Dezenas de máquinas e trabalhadores equipados com mechas especializados na drenagem de água tentam ajudar a desalagar as ruas da cidade, mas com pouco sucesso.
Em um dos lugares mais altos da cidade, uma das torres do palácio do governo de Autonoe...
“...” A garota Anna, filha do falecido presidente Luchenko, observava a chuva cair, escorada na belíssima sacada da torre, enquanto os pensamentos voavam. “Já faz cinco dias que Subaru partiu do palácio...”
Ela se afasta lentamente do parapeito da sacada ao sentir uma brisa leve, porém muito gelada, passar pelo seu corpo. Após fechar as grandes vidraças ela suspira visualmente entediada, e se joga sobre um par de grandes almofadas, bastante macias, próximas a sua cama. Dali, ela continua observando a chuva...
“Talvez... Eles realmente estivessem tramando algo contra mim. Sim, só pode ser isso... Eu devia estar certa! Subaru deve estar tentando o plano diabólico deles!” Pensa consigo mesma, enquanto as imagens vão se formando em sua cabeça. Dimitri e os demais com cara de demônios ao redor da pobre Subaru. “Hum... E a Subaru é muito forte, mas aqueles cientistas deviam saber como pará-la. Principalmente aquele tal Dimitri... Grrr!! Que raiva que eu tenho dele!”
Apertando os dentes e os punhos, a garota salta das almofadas e coloca-se de pé. Logo, porém, desfaz o semblante de ódio e começa a se lembrar de algo que soube há alguns dias atrás...
“Hum... Fiquei sabendo que algumas pessoas estão espalhando boatos de que viram luzes incandescentes no centro da cidade, há alguns dias atrás. Bem perto de onde aconteceu o acidente com o Alurium...” Relembra rapidamente daquele dia fatídico, no instituto. “... E, no mesmo dia que Subaru partiu, os radares do centro de defesa de Autonoe detectaram uma energia monstruosamente forte na cidade. Estranho... Muito estranho. Será que tem algo haver com o sumiço dela?”
Anda de um lado para o outro dentro do quarto. Do lado de fora, os relâmpagos explodem nos céus, iluminando momentaneamente o breu que sobrevoava a cidade.
“Mas, o que estou falando?” Fala para si mesma, erguendo os olhos. Um minúsculo sorriso começa a crescer em seus lábios. “Subaru é o de menos agora! Até porque, tenho uma nação para reinar!”
Ela se dirige para a janela e fecha as grandes cortinas brancas. Em seguida, apaga a luz do aposento e sai do mesmo, ansiosa.
(...)
Meio longe dali, em uma casa do subúrbio de Autonoe.
“... Mas que chuva, não é?”
“Hum.”
Alexis se encontrava próxima a uma das janelas do laboratório científico, observando a chuva cair juntamente com os relâmpagos luminosos no céu escuro. Ela se mantém com os braços cruzados e um semblante de preocupação enquanto no centro do aposento, sentado em frente a uma mesa cheia de aparatos elétricos e eletrônicos, Keinzer examinava uma pequena peça de algum estranho aparelho. Ele trocava os fios coloridos de posição e colocava e recolocava um grande óculos de proteção enquanto fundia o metal aos fios com a ajuda de um pequenino aparelho semelhante a um sensor...
Em frente ao aparelho, como por mágica, os fios mais danificados iam sendo constantemente recriados a partir do nada, como por mágica! Efeito do fantástico trabalho das nano máquinas presentes ali...
Um vento gelado entrava pelas frestas da janela e da porta causando calafrios a Alexis. Esta se esfregava como podia e tentava esquentar as mãos assoprando-as. Keinzer não se mostrava nem um pouco incomodado... Apenas concentrado com o trabalho.
“Eu fico pensando... Será que Julian está bem?”
“...” Keinzer nada responde. Apenas continua mexendo na pequena peça elétrica e trocando os fios de lugar, tentando encontrar a posição ideal. Vez ou outra, movia os olhos em direção a cientista, mas não dizia nada.
“Julian está fazendo o seu trabalho, minha jovem.” Diz uma voz masculina, vinda em direção à porta.
Alexis dá alguns passos até a porta de entrada, onde vê o dono da voz: Dimitri. O cientista trajava uma grande capa de chuva, um tanto berrante, completamente encharcada. Estava segurando um guarda chuva com as hastes metálicas tortas, também molhado.
“Poxa, finalmente chegou.” Comenta Keinzer, sem desviar o olhar atento da peça. Ele liga o maçarico enquanto fala. “Aonde você foi? Ficou um bom tempo fora.”
“Ah meu amigo, você sabe como eu sou.” Diz Dimitri, fechando o guarda chuva e pendurando-o em um varal improvisado, para que secasse. “Gosto de dar estas voltas “bem longas”.”
“Mas nós não vimos você no enterro de Luchenko.” Continua Alexis. “Você chegou a ir até lá?”
“Sim...” Sorrindo, retira a capa de chuva, pendurando-a. “... Mas eu havia ido mais cedo... Precisava fazer algumas coisas importantes quanto a isso.”
“Hum...” A cientista volta a se aproximar da janela, observando a chuva bater e escorrer pelo vidro.
“Mas, me digam. Tudo ocorreu direito com Julian e o seu amigo, no centro da cidade?” Indaga Dimitri, com seu eterno ar misterioso.
“Acho que quem pode lhe dizer isso é Keinzer, já que foi ele quem os levou.” Responde, sem retirar os olhos da chuva.
Dimitri caminha até Keinzer e este, ainda compenetrado com o que fazia, finge não perceber quando Dimitri coloca a mão sobre o seu ombro.
“... Sim.” Fala Keinzer, seco. “Subaru também entrou no portal, alguns segundos depois deles.”
“Ora, então saiu tudo melhor do que planejávamos, não é mesmo?”
“O que você quer dizer com “tudo melhor”?...” A Cientista fita novamente Dimitri, ainda com os braços cruzados e agora com uma expressão de dúvida. “Mesmo que ela tenha uma boa índole, como sabemos, ela obedece totalmente às ordens de Anna. Com certeza ela mandou Subaru fazer algo contra aqueles garotos. Se ela resolver atacá-los eles não vão ter nenhuma chance, você sabe disso!”
O cientista apenas sorri de maneira enigmática, o que deixava Alexis um tanto irritada.
“Subaru pode acabar se tornando uma peça importante nisso tudo.” Ele continua. “Mas Julian e seu amigo são ainda mais importantes. Como eu já disse antes, Julian está fazendo a sua parte. Nós três deveríamos estar nos preparando, por hora, ao que vai acontecer por aqui, em Pasiphae, Autonoe.”
“Mas...”
“Hum?”
Dimitri continuava sorrindo, como sempre. Alexis sentia suas forças diminuírem ao ver tamanha calma e decide, desta vez, desistir de tentar fazer alguma outra pergunta...
“Diga-me uma coisa meu amigo.” Keinzer acendia um cigarro com um isqueiro, dando uma pequena pausa em seu trabalho, enquanto Dimitri fala novamente. “O que você disse para convencer o garoto de que precisava tomar o Limiar em mãos?”
“... A chuva.” Responde, depois de uma tragada, apontando para a janela.
“Ah claro... A história da chuva ácida. Muito bem pensado... Você deve ter alarmado-o muito, hahaha!” Conclui Dimitri, calmamente, dando uma leve risada.
Keinzer resolve não responder. Apenas desvia o olhar lentamente para Dimitri e dá outra tragada no cigarro, jogando a fumaça para cima. Em seguida, apóia o objeto em um pequeno cinzeiro próximo dali e volta a mexer na pequena peça elétrica.
“... Vamos ter muitos problemas por aqui.” Comenta, tomando o maçarico em mãos novamente.
“Quase nenhum se comparado ao que aqueles garotos terão...” Responde Dimitri. “Mas teremos...”
*Ding-Dong!*
Neste exato momento a campainha da entrada pode ser ouvida em meio ao pesado som da chuva lá fora.
“A começar por agora...”
Ele vai até a porta de entrada e a abre. Do lado de fora, em frente ao portão da casa, estava a mãe de Julian.
O cientista e a mulher ficam se fitando por alguns momentos... Ele com seu imutável semblante calmo e ela com as lágrimas misturando-se a chuva...
“Posso ajudá-la?”
“... Onde está meu filho!?” Ela indaga, enquanto relâmpagos cortam o céu.
(...)
... Muito longe dali, em Solaria...
“Esse corredor é maior do que parecia! Puxa já estamos correndo há mais de dois minutos!”
Julian, Elliot e Spike continuam correndo e avançando no templo de Rehzuma, em Solaria. Após uma dura batalha travada por Rannik e seus homens, do lado de fora, os rapazes conseguiram passar pelo grande grupo de criaturas que guardava o templo, principalmente por Fujin, o poderoso Elemental do Ar que protegia Solaria... também sobre a influência negativa do Limiar.
Enquanto os garotos corriam pelo corredor, diversas tochas presas ao longo das paredes iam se acendendo instantaneamente. As chamas das tochas eram púrpuras e brilhantes... Obviamente um tipo de fogo místico.
Ao longo do corredor, no chão, encontravam-se muitos e muitos restos de esqueletos, como crânios, fêmures, etc.
“Seja como for, aquela coisa já sabe que estamos aqui.” Diz Spike, olhando para as tochas púrpuras enquanto corre logo atrás.
“E estes devem ter sido os aventureiros que entraram aqui da última vez.” Comenta Elliot, se referindo aos esqueletos.
“Se sabe que estamos aqui acho que está nos recepcionando bem...” Completa Julian.
Após correrem muito, os três finalmente acabam chegando ao fim do corredor onde havia uma pequena câmara. Assim que entram, param momentaneamente para tomar algum fôlego, enquanto as tochas da sala também se acendem magicamente.
A frente dos três havia duas passagens para dois novos corredores: Esquerda ou Direita...
“Spike... Por onde devemos ir agora?” Indaga Julian, após se recuperar do cansaço rapidamente.
“Hum...” O rapaz segura o bordão firmemente enquanto dá alguns passos a frente do grupo. Ele olha atentamente para dentro das duas passagens. Pensa por um momento enquanto coça o queixo... “Pela direita. Vamos!” Ele conclui. Julian e Elliot o seguem.
“Ei Julian...!” Cochicha Elliot, enquanto vai logo atrás de Julian.
“O que foi?”
“Eu tenho um pequeno pressentimento de que esse cara não sabe nada sobre esse lugar. Acho até que ele escolheu esse caminho na sorte heim...”
“Er...”
“EU OUVI ISSO!!” Berra Spike, lá da frente, sem parar de correr.
O grupo vai seguindo o caminho de Spike enquanto salta por cima dos vários esqueletos que havia por ali. Naquele corredor, mais do que o anterior, havia pilhas e pilhas de ossos, o que fazia com que Elliot tremesse enquanto corria. As tochas iam revelando, não só o caminho a seguir, mas também os restos mortais daqueles que tentaram violar o templo.
Spike, mais a frente, não parecia dar qualquer importância para aquilo e simplesmente saltava sobre as pilhas de ossos, chutando alguns crânios para longe. Tinha seus olhos fixos no fim do corredor, que não estava longe. Um sorriso começava a surgir em seu rosto enquanto se aproximava.
Julian mantinha um semblante sério. Os esqueletos pouco o afetavam. Estava mais preocupado com o que estava acontecendo com Rannik e os outros que os ajudaram, do lado de fora. Sabia que quanto mais cedo conseguissem livrar Solaria daquele mal terrível, mais chances teriam de sobreviver ante a fúria maligna das criaturas do deserto.
Não demora nem meio minuto para que logo cheguem até o fim daquele corredor. Os três se deparam com uma espécie de ‘beco sem saída’, com a parede à frente revelando um grande símbolo entalhado no mármore do templo. Um enorme sol, que iluminava outras figuras abaixo dele, provavelmente, pelo modo como eram feitas, simbolizavam pessoas. Havia várias outras runas ao redor.
“Está aqui, em algum lugar...” Diz Spike, tateando a parede. “Mas onde... Hum...”
“Mas o que você está procurando?” Pergunta Julian, sem entender.
“O que procuramos está atrás desta parede. Tenho certeza!”
“Hum...” Elliot se aproxima, arrumando os óculos e observa uma linha das muitas runas que havia ali. “Hum... Entendo... Hum...”
“Espera aí, você sabe ler isso?” Pergunta Julian, surpreso.
“Mais ou menos...” Acompanhava as linhas com o dedo enquanto falava. “Aprendi um pouco dessa linguagem antiga de símbolos lá na biblioteca. Pouco mesmo... Mas acho que consigo entender o que diz aqui.”
“E o que diz?!” Pergunta Spike, ansioso.
“Você vive aqui, deveria saber mais do que eu, não?”
“Argh!” Spike rosna baixo enquanto esfrega os dentes, com certa raiva. “E-Eu entendo muito bem toda a língua do grande Rehzuma seu moleque! Acontece que algumas runas eu não consigo me lembrar exatamente o que são... Você deu sorte de estudar exatamente as que estão aí! Acha fácil decorar 1950 tipos de símbolos diferentes!?”
“Bem na verdade acho...” Elliot, então, dá uma última olhada nos símbolos. “Aqui diz que é um tipo de porta secreta. Mas, droga, não diz como que abre!”
“Então vamos entrar do modo tradicional!”
Spike levanta uma das mangas e levanta o bordão, pronto para atacar a parede. Elliot faz sinal para que ele pare.
“Calma aí! Aqui tá dizendo mais coisas...”
“O que?”
“Bom... Parece que aqui é a sala onde o espírito do deus Rehzuma está trancafiado e não deveria ser violada.”
“...” Julian fica quieto por alguns instantes e logo se vira para Spike. “Tem certeza que esse é o caminho certo?... *gota*...”
“Claro! Eu nunca erro!”
“Er...”
Spike dá um pequeno toque com o bordão na parede e pequenos fragmentos dela caem no chão, formando uma minúscula rachadura.
“É melhor não fazermos nada que possamos nos arrepender depois...” Alerta Elliot... Ao mesmo tempo em que Spike golpeia com toda a força a parede, abrindo um enorme buraco! Julian e Elliot apenas observam... Atônitos “... *gota*...”
“Vão ficar parados aí?” Fala Spike, colocando o pescoço para fora da sala, chamando-os.
Os garotos rapidamente entram na sala e diversas outras tochas acendem-se ao redor, como anteriormente, revelando o interior. Esta, muito maior que a anterior, possuía um grande altar em seu centro, envolto em vários braseiros, com o mesmo fogo púrpura das tochas das paredes, e um grande sarcófago atrás deste. Sobre o altar, estava uma brilhante espada embainhada.
“Aí está você querida... Finalmente te achei! Hehehe!!”
“Puxa, então essa é a tal Zenite que Rannik havia dito antes?” Pergunta Julian, ao ver Spike esfregando as mãos e jogando o bordão de madeira no chão. “Nossa... Ela não é uma lenda afinal!”
“Sim! E agora é finalmente minha! Minha!! Bwahaha!!”
“Você está me assustando...” Comenta Elliot.
“E Rannik dizia que ela não existia! Muitos diziam que ela não existia! Aí está! O espírito do todo poderoso Rehzuma! Eu sabia que eu estava certo o tempo todo! Hahaha!!” Ele continua, enquanto se aproxima do altar, sentindo os dedos da mão coçarem.
“...” Julian olha para todos os lados, um tanto apreensivo. “É, mas nem sinal do Limiar...”
Spike ajoelha-se diante do altar e do sarcófago e faz uma rápida reverência, levantando-se a seguir. Aproxima, então, a mão aberta da bela espada...
“Espere!!” Grita Elliot, aproximando-se.
“ARGH!! O QUE FOI DESSA VEZ!?!?” Grita Spike, cuspindo, ao ver o garoto ajoelhado e observando atentamente a base do altar.
“Têm mais runas nesse altar, olha só.” Ele diz, apontando para a base do mesmo. Realmente havia muitas inscrições. “Vejamos... Aqui diz: “o único que pode portar a ZENITE é um guerreiro poderoso e digno de suas habilidades, para destruir as trevas e proteger a tudo que lhes é de muito valor.”...”
“Bem, este sou eu! Sou poderoso e digno de minhas habilidades! Irei destruir não só as trevas como qualquer um que ficar no meu caminho para proteger o que me é de maior valor, ou seja, EU!”
“...” Elliot levanta-se e olha para Spike de cima abaixo. “Xiiii...”
“Ei...! O QUE VOCÊ QUER DIZER COM ESTE ‘XII!?’...” Ele grita, babando Elliot.
“Bom... Você deve ter razão... Provavelmente você é o tal guerreiro.” O garoto de óculos sai dali calmamente e se protege atrás de Julian, como se já esperasse por alguma coisa.
“Hunf! Pode dizer o que quiser nanico!”
Spike, agora seriamente, fala algumas rápidas palavras no idioma antigo de Solaria... E toma a espada em mãos, retirando-a do altar. Imediatamente o brilho a volta da bainha parece sumir lentamente...
Ele fecha os olhos e fica imóvel por alguns instantes... Esperando pelo pior, como algum tipo de armadilha... Mas nada acontece.
“Ahá!! Eu sabia que nada iria acontecer! Isso prova que eu sou o escolhido! Hahaha!!” Ele vira-se para os dois, com a espada em mãos.
Atrás de Spike, o sarcófago começa, lentamente, a se abrir... Os dois garotos ficam momentaneamente de cabelo em pé, apontando para as suas costas, gaguejando algumas coisas.
“O que!? Qual o problema de vocês dois!?”
De dentro do mesmo surge, envolta em uma grande cortina de névoa escarlate, e com os olhos da mesma cor, uma grande múmia! As bandagens que envolviam o corpo mostravam diversas falhas e cortes que revelavam o cadáver decadente em seu interior. Ela logo ergue os braços e começa a se dirigir lentamente na direção deles.
“P-Porque você n-não pergunta pra ele s-se ele acha que você é o escolhido!?” Diz Elliot, apontando para trás de Spike.
“Mas o que...?” O rapaz se vira e dá de cara com o morto — vivo, imediatamente antes de o mesmo atacá-lo com os punhos, com tanta força, que o lança diretamente contra uma das paredes da sala. “Argh!!”
“... *aaahhh...*...” A múmia agora se vira para os outros dois garotos, abrindo e fechando as mãos, enquanto seus olhos brilhavam. Seu gemido de dor causava um arrepio na espinha dos dois.
Enquanto ela se aproxima, Julian observa mais atentamente a névoa que a envolvia... E seus olhos negros... Que emitiam faíscas vermelhas características...
“Essa não! Essa múmia também está sendo controlada pelo Limiar!” Avisa, ao lado de Elliot. “Dá pra sentir a energia emanada dela... É igual à de um Limiar.”
“Ugh... Há! Sendo ou não controlada por algum Limiar ela não vai ser párea para o poder da Zenite!” Spike levanta-se do impacto com a parede rapidamente. Ele ergue a espada no ar e puxa a sua bainha...
“...”
“O que você está esperando!? Use logo essa espada!” Diz Elliot, ao ver a espada, ainda embainhada, nas mãos do rapaz.
“... Mas que maldição... Argh!!” Spike puxa a bainha com todas as suas forças, mas ela sequer se move um milímetro. A espada continuava enterrada dentro de sua bainha.
“...”
“Ah, mas que droga!” Julian e Elliot se afastam dali e se aproximam de Spike. A múmia, lentamente, se dirige até os três, gemendo, com os braços levantados.
Elliot e Julian seguram a bainha enquanto Spike puxa pelo cabo. Os três fazem o que podem, mas nada acontece. A bainha continua ali, sem mesmo ter afrouxado!
“... *aaahhh...*...”
“Argh, mas que maldição! Que maldição!!” Spike toma a espada em mãos, do mesmo jeito. “Mesmo embainhada essa espada vai servir para alguma coisa!!”
O rapaz investe contra o morto — vivo, erguendo a espada, ainda com a bainha. A múmia ergue o braço e ataca o rapaz. A arma e o membro da criatura colidem, porém, depois de um grande estrondo causado pelo choque dos ataques, o braço da criatura é arrancado, caindo a alguns metros dali!
“... *aarrhhhh...!*...”
“Cale-se essa boca maldito! *Tchac!* ” Spike, já atrás do morto — vivo, ataca com força a sua nuca, arrancando, com um único golpe, a cabeça do monstro. Esta rola até parar aos pés de Julian e Elliot, que se afastam assustados.
O corpo inteiro começa a se desfazer rapidamente, transformando-se em nada mais do que uma pilha de ossos e poeira! Julian observa os olhos da múmia se apagarem por completo, enquanto uma massa de energia negativa, saída do corpo da criatura, se dissipa no ar...
“Puxa... Ainda bem...” Elliot respira aliviado se aproximando do sarcófago, enquanto Spike observava a Zenite com um semblante de desapontamento. Julian ainda olhava para a cabeça da criatura e pensava.
“Pode haver mais dessas criaturas por aqui. É melhor acharmos o Limiar logo para o nosso próprio bem.”
“É...” Spike coloca a espada nas costas, pensando em tentar novamente mais tarde, o que lhe abre uma pequena esperança sobre o poder da Zenite. Logo seus pensamentos são invadidos por outros. Lembra-se de que seu irmão estava passando por dificuldades naquele momento... Precisavam ser rápidos! “Bem, então vamos voltar para a primeira sala, onde pegaremos a passagem da esquerda e...”
“Se me permitem...!” Interrompe Elliot. “Achei uma outra passagem atrás desse sarcófago, vejam!”
Ele empurra o grande caixão e este desliza para o lado, revelando uma nova passagem, bastante escura, diga-se de passagem... Uma nuvem de poeira levanta com o movimento do sarcófago, o que faz Elliot tossir um pouco.
“Mas... Onde isso vai dar?” Pergunta Julian.
“Hum... Deve ser uma das passagens de emergência do templo. Os antigos utilizavam estas entradas para despistar invasores do templo. Se formos por aqui talvez chegaremos até Ammuskan, a Sala de Rituais.” Comenta Spike, olhando para o interior do corredor. “Talvez o tal Limiar se encontre lá.”
Enquanto Spike falava, Julian sente uma estranha energia o “chamando” por aquele caminho...
Precisava ir por aquele lugar...
Não sabia por que, mas precisava... Sentia uma estranha sensação... Um misto de curiosidade e medo...
“... Vamos então...”
Julian vai à frente, enquanto Elliot e Spike o seguem logo atrás.
Ainda na sala da múmia, um braço jogado no chão começa a mover alguns dedos lentamente...
(...)
Enquanto isso, do lado de fora do templo, Rannik surgia correndo veloz e habilmente sobre as areias escaldantes do deserto. Com a capa que possuía, aos pedaços, e várias outras partes da roupa rasgadas, ele salta sobre várias grandes rochas que havia por perto. Imediatamente após tocar com o pé em uma das rochas, ele salta para a próxima, escapando por alguns milímetros de um poderoso tufão de areia que atinge a pedra, destruindo-a em milhares de pedaços!
Uma fumaça espessa levanta enquanto as pedras são destruídas uma a uma e Rannik salta, esquivando dos tornados de areia cortante.
“Ugh... *cof, cof!*... Ele não desiste nunca!” Diz Rannik, saltando para longe das rochas, agora correndo para outro lado, tentando despistar Fujin, o elemental do ar. Logo, ele se esconde atrás de uma outra rocha. “Droga... Eu preciso detê-lo de alguma forma, ou ele vai ir atrás de Julian e dos outros!”
“... *TCHAC! CRAC!!!*...”
“Argh!”
A pedra que escondia Rannik se despedaça rapidamente, atingida por um dos seus mortais tufões. O guerreiro é lançado a alguns metros longe dali, mas logo se recompõe, agora brandindo uma cimitarra da cintura e observando a grande criatura se aproximar, girando rapidamente, levantando uma nuvem de areia cegante.
“... Maldito... Preciso fazer algo...” Enquanto segura a espada ele olha para os lados, pensando rapidamente. Observa as rochas ainda inteiras ao redor do “campo de batalha” e então começa a correr novamente, escapando das violentas rajadas de areia lançadas por Fujin.
Ele salta novamente de pedra em pedra, tão rápido que agora mal se pode vê-lo. Até mesmo a criatura parece não conseguir acompanhá-lo!
Até que, após dar uma volta inteira saltando sobre as pedras, ele se joga contra o corpo turbilhante do Elemental, erguendo a espada. O corpo da criatura lança diversas rajadas de areia mortal contra Rannik que, com enorme agilidade, desvia em pleno ar... Porém, o elemental o atinge em cheio, com sua lâmina apenas a alguns centímetros do "centro" da entidade.
“Aaaarrrgh!!”
Rannik é jogado para longe dali novamente pelo forte vento cortante de Fujin, sendo soterrado por uma grande quantidade de areia...
Os ventos do corpo de Fujin pareciam girar mais rápidos do que nunca, vitoriosos! Logo, o som é tão forte que pode ser ouvido a grande distância...
Ao mesmo tempo, uma grande massa de energia negativa começa a cobri-lo novamente, assim como as areias do deserto...
Ao “comando” de Fujin, diversos lagartos, besouros, e outras criaturas de Solaria começam a surgir debaixo das areias escaldantes... Todos possuíam uma pequena parte da massa negativa criada pelo Limiar. Seus olhos exibiam uma coloração negra profunda e faíscas vermelhas...
Fujin começa a se locomover novamente... Dessa vez, as criaturas saídas de dentro da areia o seguiam, como uma enorme horda.
... Segundos depois de se distanciarem, juntamente com o elemental, Rannik surge repentinamente debaixo da areia da qual havia sido soterrado. Ele se levanta lentamente, tossindo, enquanto a areia caía de seu corpo ferido.
Seu olhar se torna pesado ao ver a enorme quantidade de criaturas marchando... Provavelmente em direção a Anacrópolis! Nunca tinha visto tantos!
E, desta vez, com aquele número de monstros, não conseguiriam pará-los...
“Ack...” Rannik sente uma dor aguda no braço esquerdo e se assusta ao ver que não conseguia move-lo. Ele levanta uma das mangas do uniforme da Guilda Malva e nota um corte profundo próximo ao ombro, ensangüentado. “Droga, mesmo desse jeito eu devo avisar a todos na cidade antes que seja tarde demais!”
Ele corre o mais rápido possível pelo campo de batalha, apertando o braço, porém, pára ao ouvir alguns sons...
“... Hã?”
“... S-Senhor Ran... n...”
Rannik se aproxima de um grupo de homens que havia ali. Percebia que alguns tentavam se mover... Estavam vivos! Muito feridos... Mas ainda vivos...
“Amigos! É bom ver que alguns de vocês conseguiram sobreviver!” Exclama, estendendo o braço direito para os homens se levantarem. Alguns estavam quase totalmente soterrados pela areia e tentavam balbuciar um pedido de ajuda.
“É bom ver que está vivo também, senhor Rannik...” Diz um homem, levantando-se, com o uniforme destruído e alguns ferimentos leves pelo corpo e rosto. Ele, então, ajuda o seu superior, tentando procurar outros sobreviventes... Mas não deixa de notar o seu sofrimento. “Senhor... Está tudo bem? Parece muito ferido... Talvez devesse...”
“Não se preocupe comigo! Há vários que estão em pior situação do que eu! Vamos! Levantem-se homens! Rápido!”
Cerca de meio minuto depois, os homens são socorridos como podem. Apenas quinze destes agora estavam de pé... Os demais ou estavam mortos ou agonizando sob a areia do deserto. Uma lástima...
“Senhor! Há diversas criaturas...”
“Sim, eu já vi, soldado.” Ainda olhava para o campo de batalha, onde vários de seus homens estavam caídos... “Nós não poderemos deter uma força tão vasta assim... Mesmo com a ajuda dos que estão em Anacrópolis...” Suspira, antes de continuar. “Agora só depende do garoto Julian, do seu amigo... E de Spike...”
“M-Mas e nós!? O que vamos fazer senhor!?” Pergunta um dos soldados, desesperado.
“Nós tentaremos voltar para a cidade o mais rápido possível, para alertar a todos sobre este ataque... Um de vocês irá até lá com aquele animal que sobreviveu. Eu e os demais iremos a pé... e tentaremos atacá-los de surpresa para ajudar vocês...”
Os quinze soldados sobreviventes olham-se entre si... Estava mais do que claro que aquilo dificilmente daria certo. Eram inimigos demais!
Apesar disso... Sentiam honra em combater ao lado de alguém como Rannik... E, no momento, não pareciam ter alguma outra escolha.
“Estaremos ao seu lado sempre senhor.” Fala orgulhosamente um dos homens ali. Os demais concordam e Rannik se mostra feliz em ver que, apesar de tudo aquilo, não havia perdido a fidelidade de seus companheiros. Logo um dos homens se habilita a ir avisar a cidade e ele toma o camelo, se adiantando.
“Agora devemos esperar um milagre...” Rannik se dirige à horda de criaturas, com sua incessante marcha, juntamente com os demais mercenários da Guilda Malva...
(...)
Julian, Elliot e Spike corriam por mais um dos muitos corredores do grande templo de Rehzuma. Como antes, as tochas nas laterais vão se acendendo magicamente à medida que eles avançam. Os corredores eram feitos de grandes blocos de pedra, com muitas runas e hieróglifos inscritos por toda parte.
... Algumas lembravam caveiras e cadáveres... Feitos juntamente com outras figuras que lembravam um sarcófago. Elliot sentia um arrepio na espinha ao ver aquelas imagens... Somando-se a isso o fato do corredor parecer interminável... E repleto de crânios e outros ossos empoeirados, espalhados pelo chão...
“Esse templo não parecia ser tão grande do lado de fora!” Reclama Elliot, já cansado de tanto correr.
“E não é!” Completa Spike, logo atrás. “Já vim muitas vezes da minha vida neste lugar e nunca houve corredores tão longos assim.”
“É o Limiar...” Comenta Julian, mais a frente, com o olhar distante, fitando sempre o caminho a seguir... Enquanto corria sem parar. “Ele provavelmente está fazendo isso de propósito para nos fazer desistir...!”
“Quer dizer que se aquela coisa quiser nós nunca vamos encontrá-la aqui dentro!?” Pergunta Elliot.
“Espere... Nós já estamos bem perto...Eu posso sentir isso!”
Enquanto corriam, eles saltavam sobre outras diversas pilhas de esqueletos, espalhados pelo solo do templo. Naquele corredor havia tantos, ou até mais, do que nos caminhos anteriores.
“Vejam!! Ali em frente!”
Julian chama a atenção para algo a alguns metros logo em frente. Após muito andarem, finalmente chegam ao fim do grande corredor, iluminado pelas tochas púrpuras. Havia uma porta de pedra dupla, muito semelhante à primeira... Com a exceção, é claro, de que não estava aberta. Pelas frestas da pesada porta, uma luz muito forte era emanada.
“...” Julian observava a porta de pedra... E sentia sua mente “voar”. Sua cabeça estava leve, assim como o resto do corpo.
“Julian...?” Elliot olha para o amigo, pensando se estaria tudo bem.
“Hã?” Ele volta a si logo depois.
“Está tudo bem com você? Parece estar tão cansado ou... Sei lá...”
“Er, não é nada. Acho que é só cansaço mesmo por causa do que passamos.” Explica, enquanto Spike, atrás deles, puxava a “maldita” bainha da Zenite, sem sucesso. “Mas não é só isso... Eu consigo sentir a força de um Limiar, muito próximo a nós. Com certeza está depois dessa porta!”
“Então o que estamos esperando aqui!? Sai da frente!!” Spike toma a espada embainhada em mãos e se coloca em posição de ataque, pronto para derrubar a grande porta dupla. “Vou derrubá-la com um golpe, como fiz com a outra!”
“Espere!!” Grita Elliot, se colocando em sua frente, observando os detalhes na pedra.
“Ora, mas o que foi dessa vez!? Mais runas!?”
“É, veja...” Ele aponta para o alto da porta, onde estavam inscritas, na própria pedra, diversos pequenos símbolos. “... Mas não são runas comuns. Aqui diz: “Aquele que violar este lugar sagrado, terá uma dolorosa morte...”. E estes dois últimos símbolos aqui significam que há alguma armadilha que protege a entrada da sala.” Conclui.
“Obviamente vai se ativar se abrirmos ela, não é?” Pergunta Julian.
“Provavelmente.”
“Mas que tipo de armadilha é?”
“Eu não tenho certeza... Mas deve ser algum encantamento muito antigo deixado pelos sacerdotes do templo para proteger o lugar... Ou seja, pode ser qualquer coisa...”
“Hunf...” Spike olha para trás, de onde haviam vindo, e volta a falar. “De todo modo é melhor encontrarmos um jeito de entrar, pois nós temos companhia...”
“Heim!?”
Imediatamente, os ossos e esqueletos caídos no chão do corredor começam a se reerguer! Os garotos percebem uma aura energética em volta dos ossos, que agora se viravam em direção aos garotos e começavam a se aproximar, com os braços estendidos... Vários deles possuíam lanças, espadas e outras armas... Todas enferrujadas ou muito velhas...
... Mas era o suficiente para matar algum deles caso eles acertassem!
“Esse Limiar desgraçado está tentando nos matar!” Diz Elliot, olhando a porta de cima a baixo.
“Agora que percebeu?” Spike ergue a Zenite, embainhada, com um sorriso no rosto ao ver os ‘frágeis’ mortos vivos se aproximando. “De qualquer modo esse Limiar vai ter que ser mais criativo se quiser me matar! Hááá!!!”
Spike avança sobre as criaturas violentamente destruindo uma delas com um único e poderoso golpe. O esqueleto se despedaça completamente, causando um grande barulho quando os ossos caem no chão.
“Há! São ainda mais fáceis que aquela mumiazinha da outra sala! Só não possuem bandagens! Háá!!!” Completa, arrancando a cabeça de um dos esqueletos com mais um golpe. A criatura desaba no chão, inofensivamente, formando mais uma pilha de ossos... Porém os demais continuavam avançando.
“Mesmo que Spike consiga destruí-los, não vai vencer! São muitos! Muitos mesmo!” Avisa Julian, observando haver tantas criaturas que o corredor inteiro estava cheio delas! “Elliot, não há mesmo um jeito de entrar sem ativar a armadilha!? Não podemos desarmá-la?!”
“Eu vou fazer o possível... Mas me dêem um tempo, sim?!”
Elliot continuava estudando a porta pacientemente enquanto Julian pegava pequenos fragmentos de rochas e ossos no chão e atirava-os contra os esqueletos, mas sem causar um dano “real” contra eles. Tinha a esperança de que acontecesse o mesmo que aconteceu no Oásis... Mas em vão.
Apesar de Spike já ter vencido vários deles, alguns conseguem atingir o rapaz com suas garras esqueléticas, espadas e lanças... Ele recua alguns passos, após uma ponta de lança raspar o seu rosto, fazendo um pequeno corte abaixo do seu olho. Um filete de sangue escorre até o queixo.
“Há!! Isso não é nada!! Ugh...” Recua, atacando e destruindo mais um esqueleto. A criatura literalmente se parte em dois pedaços, ambos desabando no solo de mármore. “Tome!!”
“...”
“Elliot?”
“...!”
“Elliot e então!?” Indaga Julian, já preocupado.
“Ah esquece!!” O garoto arruma os óculos e procura algo no chão. Ele toma em mãos um crânio que havia rolado para perto dele há alguns segundos. “Ei Spike!! Dá um jeito de desviar!!”
“O que!?”
“O que você disse!?”
Elliot atira o crânio na porta e rapidamente se joga para o lado, abaixando-se juntamente com Julian. Da porta, uma luz azulada surge e Spike apenas tem tempo de dar um salto mortal no ar, por reflexo, desviando de um perigoso relâmpago que, por pouco, não o atinge! A energia elétrica destrói os esqueletos que atacavam Spike com um grande clarão e estrondo semelhantes a um trovão.
“... *ZAAPP!!!*...”
A energia continua avançando pelo corredor, destruindo-os em fila! Das criaturas, apenas podia se ouvir um gemido gélido e macabro, assim que caíam.
Assim que Spike cai de volta ao solo, ofegante, o relâmpago se desfaz em uma explosão de luz ao chegar no final do corredor. O rapaz olha lentamente na direção de Elliot e Julian, que iam se levantando, também devagar, cobertos por pó de osso.
“... Er...” Julian encara Spike e os esqueletos destruídos, surpreso. Não sabia o que dizer... Elliot exibia uma cara de alívio, retirando os óculos e enxugando a testa.
“... Bem...” Spike se ergue novamente, limpando o pó sobre a roupa. “... Você tentou me matar para tomar de mim a poderosa Zenite e então herdar o poder de Solaria. Que vergonha.” Acusa, calmamente, enquanto se limpa.
“Hahaha! Donde você tirou essa idéia?!” Defende-se, Elliot.
“VOCÊ DISSE QUE NÃO SABIA QUE ARMADILHA ERA, MALDITO!!!” Berra o rapaz, cuspindo sobre o garoto
“...” Julian olha para Elliot, com os olhos arregalados, em sinal afirmativo.
“Eu não sabia mesmo. Foi só um palpite... Felizmente acertei. Hehehe...”
Enquanto Spike xingava Elliot de todas as maneiras possíveis por quase tê-lo matado, Julian nota as runas desaparecerem da porta... E, antes que os outros dois parassem de discutir, ele abre a grande passagem...
Com um rangido muito alto, a porta vai revelando lentamente um aposento enorme! Havia várias tochas nas paredes, porém, todas apagadas. Como na sala anterior, havia um grande pedestal no seu centro e, sobre ele, um minúsculo objeto que emanava uma luz muito forte, iluminando a sala inteira. A luz era cinzenta e pálida, e contrastava com as fagulhas avermelhadas...
No chão, havia dúzias e dúzias de esqueletos, todos, caídos e com os braços e crânios apontando para o pedestal, como se antes estivessem tentando alcançar o pequeno objeto cristalizado.
Julian e Elliot exibem uma expressão de alívio ao verem o objeto que tanto procuravam.
“Então, é essa coisinha que está causando todos estes problemas em Solaria?” Indaga Spike, olhando com desprezo o pequeno Limiar.
“É...” Responde Elliot enquanto observa a energia fluir em volta do Limiar. Vários choques rápidos de energia circundam o objeto, como flashes de luz. Era como se aquele mundo, Solaria, estivesse tentando rejeitar aquele corpo estranho... “... Mas essa “coisinha” tem uma força muito grande concentrada dentro dela. Isso nós já comprovamos em Autonoe.”
“...” Julian fica em silêncio, apenas observando os choques psicodélicos de energia em volta do Limiar e de toda a sala.
“Julian...”
“Sim...”
Elliot coloca a mão sobre o ombro do amigo e este suspira, fitando a pequena peça cristalina. Ele começa a se dirigir lentamente até o poderoso Limiar, pensando, por alguns momentos, como havia sido da última vez.
Já há poucos centímetros da pequena peça ele respira fundo e levanta a mão, aproximando-a do pequeno globo de energia...
“...?”
... Mas pára por alguns instantes ao sentir algo apertando levemente a sua canela. Ele olha para a perna e nota que uma das muitas “mãos” que havia em meio aos cadáveres no chão o segurava... Porém, não se tratava de nenhum dos esqueletos.
“Ack! O que é isso!?” Julian sacode a perna, tentando se livrar do membro.
Um segundo antes de Spike e Elliot pensarem em ir até o garoto para ajudar, uma forte ventania começa a correr por dentro da sala. Os ossos dos corpos começam se espalhar, ainda mais, pela sala!
“Acho que ele não vai se entregar tão fácil Julian!” Fala Elliot, segurando os óculos que quase voaram com o vento.
Elliot e Spike tentam proteger o rosto do vento e de pedaços afiados de rocha e ossos que voavam ao redor da sala como navalhas afiadas. Os três são inevitavelmente atingidos por alguns pedaços de crânios e pedras, principalmente Julian, que tem sua bochecha cortada por uma ponta óssea. O filete de sangue escorre pelo rosto do garoto, apesar do ferimento não ter sido tão grave.
“Argh! O que essa coisa está fazendo!?”
O Limiar expulsa uma grande massa de energia negativa que se junta ao vento, causando vários flashes de luz pela sala, causados pelo choque das energias que transitavam ali.
Julian sente a mão que segurava sua perna o soltar e ser levada pelo vento... Por alguns instantes percebe ser a mesma mão da múmia que haviam derrotado na sala anterior!
O vento se concentra em um único ponto da sala, formando um pequeno tornado de ossos e fragmentos de rocha e pedras. Com o vento parado e, agora com o rosto sangrando, Julian se vira rapidamente para o Limiar, espantado, um segundo antes de ser arremessado para longe dali por uma força invisível, batendo contra uma parede.
“... *ZAP!!*...”
“Argh!!”
“Você está bem?” Diz Elliot, ajudando-o a levantar, agora ao seu lado. Spike empunha novamente a espada embainhada e fica à frente dos garotos, enquanto observa o tornado de ossos parar lentamente...
Assim que o vento cessa, surge, do meio do tornado, uma grande criatura formada por todos os ossos, crânios e outros restos mortais da sala!.. A criatura bizarra possuía dois crânios maiores no topo, agindo como as “cabeças”, enquanto que, por todo o corpo, outros crânios e membros ficavam expostos.
A criatura exalava energia negativa pelas frestas do corpo formado inteiramente de ossos.
“Há!” Spike sorri, animado. “Agora sim acho que teremos um desafio de verdade!”
Os outros dois garotos se levantam e encaram a criatura... Elliot parecia um tanto aterrorizado ao ver a grotesca entidade, enquanto Julian o observava seriamente...
(...)
“... Capitão! Capitão!!”
“Maldição, o que é soldado!? Porque este alarde todo!?”
Pelo portão de entrada de Anacrópolis, sobre o seu camelo, o soldado que partira ao comando de Rannik chega, apressado. Os guardas das torres de vigília são os primeiros a perceber sua chegada e alertam ao superior presente.
“Ah! Um dos nossos soldados!” Diz o capitão, se aproximando do portão ao vê-lo chegar.
“C-Capitão!”
“Acalme-se soldado, diga o que aconteceu. Onde está o exército? E onde está o comandante Rannik?”
“Fomos vencidos! Eram muitos! Fujin apareceu e nos derrotou facilmente!” Relata o soldado, descendo do animal, enquanto falava com pressa.
“O que!?” O capitão fica em estado de choque. Não acreditava que tantos homens haviam sido derrotados... “Mas não me diga que o comandante...”
“Não! Ele está bem... Ele foi um dos poucos sobreviventes, além de mais quatorze dos nossos e eu.”
“Isso é terrível!... E o que aconteceu com aqueles garotos?”
“... *glub*...” Um terceiro homem trás um cantil contendo água para o soldado. Ele toma um longo gole e em seguida respira fundo. “Conseguimos levá-los até o templo. O comandante diz que agora tudo depende deles...”
“Hum, mas me diga soldado, o que veio fazer aqui? Porque não está com o comandante Rannik?”
“Fui mandado para alertar a todos de uma grande e nova horda que se aproxima de Anacrópolis! E dessa vez são muitos! Muitos mesmo! E, o pior, estão sobre o comando de Fujin! Felizmente consegui chegar aqui antes deles, tomando uma das rotas secretas indicadas pelo comandante.”
O capitão fica pálido ao ouvir a notícia... Ele vai até o portão de entrada e olha para o horizonte, não vendo nada além de uma linha negra se aproximando...
“Soldado!”
“Sim senhor!” Responde um dos homens na torre de vigília.
O soldado toma em mãos o que parecia ser uma pequena luneta. Ele olha de um lado para o outro, até que foca a visão em algo e parece ficar totalmente pálido...
“E então soldado!?”
“C-Capitão! Um enorme número de criaturas está se aproximando! São centenas!”
“... Droga...”
A população mais próxima escuta o diálogo dos guardas e começa a ficar assustada... A própria guarda da cidade já começava a demonstrar sinais de medo...
Enquanto isso, mais à frente...
“Atenção homens!” Fala Rannik, sendo acompanhado pelos outros quatorze guerreiros. “Não conseguiremos alcançá-los a tempo se tentarmos atacá-los pela frente! Teremos de atacar assim que os encontrarmos! Ou seja, pelos flancos! Entendido!?”
Os soldados concordam e o pequeno grupo apressa o passo sobre as areias escaldantes de Solaria... Já podiam ver a horda de criaturas... Rannik se preparava para o pior... Mas estava preparado para fazer o impossível para defender sua cidade...
(...)
“...!” Julian tem um rápido lapso de memória, mostrando um semblante, agora, preocupado. “Rannik...”
“Ahn?” Indaga Spike, ao escutar o nome do irmão. “O que tem o Rannik?”
“Ele está em perigo!” Diz o garoto, indo mais à frente, observando a criatura, apertando os punhos. “Eles todos estão dependendo de nós agora!”
“...” Spike e Elliot pensam como o garoto podia saber de tudo aquilo... Elliot percebe algo de diferente no amigo naquele momento.
Mas o que?...
“... *GRAURRR!!!*... *CRÁS!!*...”
O monstro fita os três rapazes e investe contra os mesmos, atacando com um de seus longos pseudópodes ósseos, semelhantes a colunas vertebrais. Os três se jogam para os lados, escapando do ataque por pouco.
No local do impacto fica apenas uma grande rachadura no solo de marfim.
“... *GRAURRR!!*...”
Separados, os rapazes pensavam em uma maneira de deter a tal criatura. Seria impossível chegar até o Limiar com aquele enorme monstro no caminho!
A entidade gira as duas cabeças esqueléticas na direção de Julian e este fica em uma posição de ataque improvisada. Ele investe contra o garoto, correndo em sua direção, brandindo diversos pseudópodes prontos para atacá-lo. Porém, antes disso, Spike o golpeia com a Zenite fortemente nas costas, destruindo uma pequena parte da carcaça.
“Tome!! Gostou dessa!?”
“... *GRAURR!!*...”
“Ugh!” Spike sente algo agarrar-lhe a perna e, antes que pudesse ver do que se tratava, a criatura o ergue no ar com um dos tentáculos macabros. Facilmente o rapaz é jogado contra um grupo de rochas que havia ali por perto, colidindo com o ombro, fazendo Zenite cair de suas mãos com a dor. “Argh... D-desgraçado...”
A criatura desvia sua atenção para Spike e anda, com passos pesados, até o rapaz caído. Spike estica a mão, ainda no chão, para tentar alcançar a espada. A entidade agarra o seu braço, novamente com um dos pseudópodes e o ergue no ar. O rapaz luta para se soltar, chutando e golpeando com o punho livre o corpo da criatura, mas esta nem sequer reage com os golpes...
“... *GRAUR!!*...”
“Me solta maldito!! Argh!!!”
“Droga! O que podemos fazer?!” Elliot indaga para si mesmo, enquanto observava o monstro de cima abaixo. “Ele deve ter um ponto fraco! Tem que ter!”
A criatura prepara-se para jogar Spike novamente, mas um pedaço de rocha atinge uma de suas cabeças. Ela move o olhar para Julian novamente, que atirava as rochas na criatura, não surtindo muito efeito.
“Vem me pegar! Vem!!”
“... *GRAURR!!!*...” A criatura solta Spike, que cai novamente no chão, bem ao lado de sua espada. Ela agora corre em direção a Julian e este tenta guiar a criatura para longe dos amigos, correndo na direção oposta. Seus pesados passos causavam pequenos tremores a cada centímetro avançado.
“Ei, você ta legal?” Elliot se aproxima de Spike e o ajuda a se levantar.
“Argh... Se “legal” significar “ter seu ombro quase arrancado”, então estou... ugh...!”
“Nós precisamos bolar algo para derrubarmos esse monstro. Não vai adiantar continuar batendo nele desse jeito, não está surtindo efeito algum!”
“E o que suge... *ugh!*... re!?”
“Bom, talvez ele tenha um ponto fraco...”
Spike já pensava em chamar Elliot de alguns dos muitos xingamentos que inventara... Mas por um momento tinha que concordar com ele. E uma criatura daquele tamanho não poderia ser totalmente invulnerável...
Julian, do lado mais afastado da sala, chega até a parede oposta ao que os amigos estavam. Tinha conseguido tirar os dois da atenção do monstro, mas agora ele próprio não tinha saída.
“... *GRAURRR!!!*...”
A criatura se aproximava do garoto, correndo, brandindo os pseudópodes esqueléticos e rugindo alto.
“Droga...!” Julian fita a criatura se aproximar, enquanto fica de costas para a parede. Não vê alternativa se não correr para os lados. Logo que a grande criatura se aproxima, ele corre para a sua esquerda... Porém, as duas grandes mandíbulas do monstro se abrem antes disso... Expelindo um grande cone de energia negativa, atingindo o garoto e causando uma grande explosão. “Arghhh!!!!!!”
“... *GRAURR!! FOUSSHHH!!!*...”
“Essa não! Julian!”
O sopro demoníaco ergue uma cortina de poeira em volta do garoto e da criatura... Elliot e Spike observam, espantados, gritando pelo nome do garoto. Já não se podia ver nenhum dos dois.
Dentro da cortina de poeira, a criatura ergue o garoto por uma das pernas, agarrando-o com um dos pseudópodes. Ela o leva próximo as suas duas cabeças, que abrem e fecham as mandíbulas, rosnando e expelindo o excesso de energia maligna. Julian não conseguia se mover... E sentia dores por todo o corpo queimado... Suas roupas apresentavam diversos buracos e ranhuras, causados pelo ataque anterior...
“... argh...”
“... *GRAURR!!*...”
A criatura começa a concentrar a energia na boca novamente para um segundo sopro... Julian se sente perdido e fecha os olhos, esperando pelo pior. Naquele momento, na escuridão de seus olhos, ele só conseguia pensar em sua mãe... E em Anna, a pessoa que ainda estava em seu coração...
“... *CRÁS!!*...”
“... *GRAURR!!!!!!*...”
Um som alto de pedras quebrando pode ser ouvido atrás do garoto Julian. Da parede do templo, uma figura misteriosa e encapuzada surge, atacando diretamente o monstro!
Ela golpeia a criatura com tamanha força que forma um grande buraco em seu peito esquelético! A seguir, puxa fortemente algo no interior do monstro e o arranca para fora com violência!
O monstro cambaleia e ruge alto, soltando o garoto e disparando o ataque de sopro para longe.
Julian sente seu corpo cair rapidamente em direção ao chão, mas ainda não via nada... Continuava com os olhos fechados...
A sensação muda. Alguém parecia segurá-lo com as duas mãos. Não conseguia ver exatamente quem era, por causa da poeira, mas conseguia sentir longos cabelos em seu peito.
“... Quem...?”
A figura misteriosa o coloca vagarosamente no chão, deitado e a seguir fica de pé em frente ao garoto...
Julian abre os olhos antes cerrados. Apenas via uma grande nebulosidade por causa da poeira, e não demora mais que alguns segundos para que aquela figura suma por completo.
“Julian!!”
“Elliot...?”
A poeira cessa e Elliot e Spike se aproximam do garoto. A criatura enorme ainda sentia o impacto que o golpe da figura misteriosa havia feito. Parecia desnorteada, longe dali, próxima ao Limiar.
“Ei garoto, o que foi que fez!?” Pergunta Spike.
“Eu...?”
“É! Seja lá o que foi, fez um grande estrago naquele monstro!”
“Eu não fiz nada... Foi... Outra pessoa...”
“Hum?”
“...” A criatura pára de se mover e logo se restabelece. Ela olha para os rapazes, ameaçadoramente, ainda com o grande buraco no peito. Julian nota algo que se destacava em meio aos ossos, naquele buraco. “Aquela coisa! O que é aquela coisa!?”
“Onde...?”
“Ali, no buraco do peito daquele monstro! Rápido!”
“Hum...” Spike olha rapidamente, enquanto a criatura reunia forças para andar novamente para cima dos garotos. “Ei! É uma... mão?”
“É a mão que havia me segurado quando eu ia pegar o Limiar! E ela está cheia de bandagens... É a mão daquela múmia!”
“É, parece que sim.” Responde Spike, não muito surpreso. “Mas e daí?”
“Tenho um palpite... Tente acertá-la! Talvez aconteça alguma coisa!”
“Hum... Um ponto fraco heim?” Diz Elliot, gostando da idéia. “Não custa nada tentar...”
“Acho que posso destruir aquela mãozinha lá, mas vou precisar chegar lá em cima com a Zenite. Esqueceu que esse monstro é bem alto? E no estado que estou não vou conseguir chegar lá sozinho...” Diz Spike, mostrando o ombro machucado e a Zenite na outra mão.
“Hum... Eu sei um jeito de chegar lá rápido!”
“...?”
“Ei seu monstro fedorento!! Estamos aqui!!!” Grita Elliot. Julian e Spike ficam de olhos arregalados, enquanto o monstro, um pouco mais fraco, se aproxima novamente a passos pesados. “Pronto!”
“O que está pronto!!? Essa coisa vai nos matar!” Alerta Spike, brandindo, com a única mão boa, Zenite embainhada.
“Não se você pedir uma carona!!”
“O que!?”
Elliot dá um leve empurrão em Spike e este dá alguns passos para frente, quase se desequilibrando. A criatura imediatamente agarra spike pela cintura com um dos pseudópodes e o leva até a altura de suas cabeças, rugindo alto.
“...*GRAURR!!!*...”
“Argh!!!! Ora cala essa boca!!”
O rapaz ataca com força o pseudópode da criatura, destruindo-o em vários pedaços. Solto, ele começa a cair em direção ao solo, bastante próximo do corpo do monstro. Assim que passa em frente ao buraco no peito, arranca a mão mumificada dali, com todas as forças.
“Háá!!!”
“...*GRAURRRRR!!!!!!*...”
A entidade maligna começa a tremer e a perder diversas partes do “corpo”. Elliot e Julian sorriem ao ver que o monstro começava a se desfazer!!
Em meio a um grito agudo, a criatura explode em mil pedaços, lançando-os para todos os lados da sala. Os três se protegem como podem, enquanto a energia negativa do corpo se dissipa.
“Boa!!” Diz Julian, sendo levantado por Elliot. “Conseguimos!!”
“Heh... Eu disse que ele iria dar uma carona!”
“... Hunf!” Spike coloca a Zenite nas costas novamente e olha com desprezo para os pedaços de ossos no chão. “Estou enjoado de tantos ossos... Já vi muitos por hoje... Julian, faça logo o que tem que fazer!”
“Er... Sim!”
Enquanto Julian novamente se aproxima do Limiar, Spike vai se limpando e Elliot o observa, sorrindo.
“... E VOCÊ ESTÁ RINDO DE QUE!?!?”
“Hehehe... Nada não...”
Após alguns segundos de respiração profunda, Julian se aproxima novamente do Limiar... Ele pode notar toda a energia negativa do monstro ser drenada para a pequena peça cristalizada...
O garoto respira fundo, uma última vez, e coloca a mão no globo de energia...
... Imediatamente o globo cresce e um vento muito forte começa a correr pela sala, como da primeira vez... Em Autonoe. A sala é invadida por relâmpagos enquanto a mão do garoto se aproxima da peça lentamente, abrindo caminho no globo de energia. Elliot e Spike protegem o rosto do forte vento enquanto Julian era empurrado vagarosamente para trás, numa última tentativa do Limiar de não ser tomado...
“Vamos amigo. Agora falta pouco!” Pensa Elliot...
“... Hum...” Spike apenas observava impressionado a energia que agora era liberada do tal Limiar... “Então é isso que é o tal Limiar...”
Julian toca na peça cristalizada e um clarão toma conta dos olhos dos três...
*KBOOMM!!*
(...)
“Capitão!! Veja!!”
“Mas o que...!?”
“Oooohhh...!!”
Toda a população de Anacrópolis vislumbra o horizonte de Solaria tornar-se negro e ser preenchido por dezenas de relâmpagos vermelhos por alguns instantes... A visão é realmente deslumbrante e impressiona até os mais assustados com a horda de Fujin...
Não muito longe dali... Próximos a horda de criaturas, Rannik e os outros guerreiros param com o início do ataque e também vislumbram a luz no horizonte...
“Comandante o que é isso...!?”
“... É o garoto Julian.” Explica, sorrindo. “Os garotos conseguiram...”
As criaturas da grande horda repentinamente param a trajetória enquanto a aura maléfica ao seu redor desaparece. Seus olhos perdiam, um por um, a cor do Limiar... Lagartos e Besouros olhavam para todos os lados tentando entender o que acontecia, e não demora para que a grande horda se dispersasse rapidamente...
O Grande Elemental do Ar, Fujin, também perde a aura negativa que possuía em seu corpo... Seus velozes ventos começam a se dissipar, e ele logo já não está mais ali, unindo-se com o vento fresco que agora corria pelos desertos...
Em Anacrópolis, a noticia do fim da grande horda chega rapidamente à população e a cidade inteira prontamente comemora aliviada pelo fim de uma terrível ameaça!
As pessoas abraçam umas as outras, felizes, enquanto que os soldados vibram com a vitória dos garotos.
Rannik respira fundo, aliviado...
“Enfim acabou... Bom trabalho Julian, Elliot. Bom trabalho Spike, seu teimoso.”
(...)
Vários minutos depois...
Julian começa a abrir os olhos novamente... Ele se levanta e, assim que se acostuma com os raios de sol de Solaria, observa Elliot e Spike, ambos de pé a sua frente, tão sujos quanto ele.
Ele olha ao redor...
Não estavam mais no templo. Estavam novamente do lado de fora.
“Você perdeu os “fogos”...” Comenta Elliot, dando dois tapinhas nas costas de Julian, sorrindo.
“O-o que?”
“Ora, nada demais. O templo de Rehzuma retornou para as profundezas do deserto. Provavelmente não irá mais sair de lá.” Diz Spike, sentando por ali mesmo, exausto.
Era verdade... Não havia sequer nenhum sinal do templo ao redor...
Julian sente seu punho fechado e o abre. Na palma da mão... O segundo Limiar, agora “adormecido”, exatamente como o primeiro.
“Foi difícil, mas finalmente conseguimos!”
“... É verdade... Finalmente conseguiram rapazes.”
“Rannik!”
Rannik surge nesse momento, juntamente com os outros guerreiros que o acompanhavam.
“Vocês conseguiram libertar Solaria de sua maldição... Nós devemos muito a vocês.” Ele diz, colocando a mão no ombro de Julian.
“Nós é que agradecemos. Sem a sua ajuda e a de Spike não teríamos conseguido...” Julian se lembra da batalha que houvera na entrada do templo. “Mas, e todas aquelas criaturas?”
“Elas se libertaram da influência maligna do Limiar. Todas voltaram ao normal... Nossa cidade está salva agora.”
“... É isso mesmo.”
Após a chegada de Rannik e os seus guerreiros, uma segunda leva de camelos e outros guardas aparecem no local. Entre eles, montado em um dos animais, estava o sacerdote de Anacrópolis.
“Senhor Hennet!”
“É bom vê-los são e salvos, meus jovens!” Felicita o sacerdote. “Agora Solaria poderá finalmente seguir sua ida em paz...”
“É mas...” Julian olha para trás, procurando algum vestígio do templo. Mas tudo o que via era apenas muitas dunas de areia.“... O templo de Rehzuma, que era tão importante para vocês, mergulhou nas areias novamente e...”
“É verdade... Mas isso não é o importante agora!” Continua Hennet. “O que importa é que o mal que havia se apoderado daquele local finalmente foi removido. Tenho certeza que o grande Rehzuma está olhando para vocês de algum lugar!”
“Obrigado senhor!” Agradece Elliot.
“E parece que vocês não apenas conseguiram encontrar o Limiar...” Rannik observa Spike próximo dali, tentando retirar de todas as maneiras a bainha da Zenite. “Parece que eu estava certo sobre você ir atrás desta arma, não é Spike?”
“Tudo bem, um pouco!” Ele confessa. “Mas agora serei invencível com esta arma ao meu lado! Bwahahahaha!!!”
“Hehe... Isso quando você conseguir retira-la da bainha sagrada.”
“...” Spike olha para Rannik, e em seguida olha para a espada...para Rannik...e para a espada...Rannik...espada de novo...Rannik, agora já com uma expressão maliciosa...e a espada mais uma vez... “ESPERA AÍ!!! ENTÃO VOCÊ SABIA O TEMPO TODO QUE...!?”
“É claro que sabia...” Ele diz, rindo ironicamente. “Isso fazia parte de seu teste final. Parece que finalmente passou. O símbolo máximo de Solaria é seu, enfim. Agora é hora do próprio espírito do sol testá-lo. A lenda tem uma continuação que diz que você somente conseguirá retirar a bainha quando realmente se mostrar digno disto.”
“Puxa... Acho que não veremos a Zenite desembainhada tão cedo.” Cochicha Elliot.
“ORA SEU...!!!”
Todos começam a dar algumas gargalhadas da situação... E, em seguida, uma nova explosão de luz, rápida como um flash, surge atrás dos garotos. Rannik e os demais afastam-se, cautelosos. Julian e Elliot reconhecem a energia...
Um novo portal começava a se abrir...
“É como em Autonoe... Será que isso significa que nós...?”
“Acho que sim. A hora de partir chegou...” Responde Julian, colocando o Limiar dentro do compartimento de seu corpo, dentro da perna, mas Rannik e os demais não se assustam, já que Julian havia explicado tudo na Guilda durante sua história.
“Mas... Já vão meus jovens?” Pergunta Hennet. “Devem estar exaustos, porque não ficam conosco por, pelo menos, mais um dia?”
“Não podemos...” Fala Julian. “... Não sabemos quanto tempo esse portal vai ficar aberto e...”
“... E você tem pressa para salvar seu mundo, não é mesmo?”
“... Sim.”
“Eu compreendo. É uma pena que não possam ficar para descansar. Vocês têm uma missão muito importante nas costas...”
“Acho que momentos de descanso serão raros a partir de agora senhor Hennet...” Fala Elliot, coçando a cabeça. “Mas nós agradecemos muito por toda a ajuda que nos deram... Muito mesmo!”
“Nós é que agradecemos meu jovem... Vocês são os salvadores aqui. Sinto que no caminho de vocês haverá mais Limiares que estarão causando cataclismas em outras dimensões, e caberá a vocês salvá-los. Nós de Solaria, desejamos uma boa jornada amigos...”
“Obrigado senhor Hennet... Obrigado por tudo.”
Os dois garotos se viram na direção do portal, mas... Para a surpresa dos dois, Spike se coloca entre eles e a passagem dimensional.
“Hunf! Como vocês dois não irão conseguir ir longe sem alguém poderoso como eu, irei com vocês.” Afirma o rapaz.
“O que!?”
Elliot e Julian ficam de olhos arregalados com a decisão de Spike... Rannik se aproxima do rapaz, com um semblante de dúvida.
“Mas o que está falando Spike?! O seu teste agora terminou. Você deve permanecer aqui e...”
“Rannik.” O sacerdote coloca a mão sobre o ombro de Rannik. “O real teste do rapaz irá começar a partir de agora. Ele precisa ir... E encontrar o seu destino.”
“Mas...”
“Nada de, mas irmão. EU já decidi. Irei junto de qualquer maneira. Quero me vingar pelo que esse Limiar dos infernos fez com Solaria!” Ele gira a Zenite no ar, enquanto falava. “E também... Eu quero mostrar que posso ser um homem forte, como o nosso pai foi.”
“...” Rannik vê que não conseguiria convencer o irmão de nenhuma outra forma... Até mesmo Hennet estava do lado dele... “Garoto tolo...”
“...”
Rannik vai até Spike e coloca sua mão sobre seu ombro, apertando-o firmemente. Spike percebe que as dores até mesmo haviam passado.
Naquele instante, as desavenças e diferenças já não importavam... Eram irmãos afinal.
“Boa sorte meu “teimoso” irmão.” Diz Rannik. “Seja o que estiver esperando por você atrás daquela passagem... Seja forte e valente e nunca se esqueça que o grande Rehzuma e... Nosso pai estão olhando você.”
“... Obrigado Rannik...” Spike sorri orgulhoso.
“Mas... O que estamos fazendo? Deveríamos perguntar para os dois jovens aqui se não há uma objeção, não é?” Indaga Hennet, sorrindo como sempre.
“Bem...” Diz Julian, pego de surpresa. “... Nós não sabemos aonde vamos parar. Da última vez, saímos de Autonoe, um mundo bem diferente deste. Ou seja, podemos parar em qualquer lugar. Tem certeza de que quer mesmo ir conosco?”
“Ora você não me conhece, mas vai saber quem eu sou a partir de agora. E agora cale a sua boca e vamos logo atrás dessas malditas “pedras”! Lembre-se que vocês estariam perdidos sem mim!”
“... Ou COM você...” Cochicha Elliot, para si mesmo, enquanto Spike olha babando de raiva para o mesmo.
Os três garotos terminam de se despedir e se dirigem para o luminoso portal, enquanto Spike vai berrando com Elliot. Este último apenas ria, de pirraça.
... Eles desaparecem dentro da passagem...
“... Agora você já pode entrar.” Diz Hennet.
Rannik, ao seu lado, tenta entender o que ele queria dizer com isso e, do meio dos soldados, surge uma pessoa com um grande manto encapuzado. A figura olha para o sacerdote e então se dirige para o portal.
“Quem é aquele?” Indaga Rannik.
A figura retira o manto e o joga ao vento...
... Os longos cabelos negros de Subaru, presos em um rabo-de-cavalo, balançam com o vento mágico do portal. Ela olha seriamente para as pessoas ali e, segundos depois, caminha para dentro da passagem dimensional... Essa começa a se fechar.
“Mas quem...?”
“Você acredita em Anjos da Guarda, Rannik?” Pergunta o sacerdote, com um ar misterioso.
“Hum...?”
O portal desaparece por completo, não deixando qualquer outro vestígio...
Rannik e os demais ficam observando o lugar, em silêncio.
“... Será que um dia voltarão?”
“Mesmo que não voltem... Ficarão bem.” Responde Hennet para Rannik. “Passarão por muitas dificuldades... Mas ficarão bem.”
“...” Rannik retira o turbante do rosto, respirando profundamente.
“Voltemos para Anacrópolis...” O sacerdote coloca a mão sobre o ombro do comandante, amigavelmente. “... Temos muito o que fazer Rannik.”
“Sim, voltemos...”
E o grande grupo parte dali... Deixando para trás os três garotos, agora... Muito longe de Solaria...
(....................)
O portal de energia começa a se abrir novamente... De dentro da explosão de luz dimensional surge Julian, Elliot e Spike...
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Após alguns momentos de ofuscação, os três sentem um grande alívio ao verem os pés novamente em chão firme.
Assim que recobram a consciência aos poucos, começam a abrir os olhos e a perceber o mundo ao redor... Tratava-se do que parecia ser um belo jardim, com muitos canteiros floridos e uma fonte, ou chafariz, bem ao centro, e apesar de não estarem tão perto assim da tal fonte, sentiam-se completamente molhados. Apenas alguns minutos depois, os sentidos começavam a voltar ao normal... O tato, a audição...
Chuva.
Estavam embaixo de chuva...
Enquanto as gotas escorriam pelos seus rostos, seus olhos agora observavam o que havia a frente. Uma grande e bonita casa branca, e, bem à frente, duas pessoas...
... Era uma senhora idosa, em vestes brancas e cabelos completamente grisalhos, presos em um coque e uma menina, aparentando ter cerca de 15 anos ou mais, com cabelos longos e loiros, ao seu lado. A menina segurava um guarda chuva rosa que protegia ela e a senhora da chuva forte.
Os dois grupos ficam se olhando por alguns segundos... Até que a senhora sorri amigavelmente.
“Enfim chegaram...” Ela diz, sorridente.
Continua...
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