Neurodoxo
2 Vamos a Grécia
Notas iniciais
Trabalhar com viagem no tempo se tornou o sonho de qualquer cidadão do Brasil em 2149 desde que Alberto Silva, famoso físico brasileiro, criou uma máquina que segundo ele poderia transferir toda e qualquer matéria através do tempo. É claro que ainda não era possível dar grandes saltos nas linhas temporais e, principalmente, não era possível ir ao futuro, mas mesmo com essas limitações a viagem já era considerada um dos maiores feitos no ramo científico em todo o mundo.
Acontece que Alberto tinha um segredo. A máquina dele ela era sim capaz de mandar pessoas a eras atrás, mas, por medo do que esse equipamento iria causar em mãos erradas, o cientista resolveu controlar de perto as viagens. Com a ajuda de seus filhos Marcio e Aline, criaram uma agência secreta que transportaria pessoas para anos atrás a fim de amenizar grandes desastres e observar os fatos históricos com o objetivo de comprovar se tudo o que vemos nos livros é verdade. Essa agência secreta era chamada de Neurodoxo.
Kálita era uma das novas recrutas da agência e como qualquer novata estava perdida. Já havia viajado no tempo várias vezes, mas sempre com uma pessoa que a conduzia e ajudava. Desta vez estaria em um trabalho de verdade e, ainda pior, carregava também uma missão pessoal que poderia destitui-la de seu cargo. Não se importava muito com esse fato contanto que o trouxesse de volta.
Entrou no gabinete de operações com um olhar confiante apesar do nervosismo. Seus cabelos loiros caíam por sobre os ombros, suas sardas no rosto atraíam o olhar de Marcio, seu chefe. Kalita morde o lábio de leve enquanto o encara de volta com seus profundos olhos castanhos.
No centro do gabinete uma mesa metálica piscava luzes azuis em várias ordens diferentes, sobre ela um holograma se projetava mostrando uma grande construção grega. Quatro pessoas se sentavam ao redor da projeção apontando para pontos aleatórios e comentando baixo sobre a história de como aquilo havia sido construído. Na ponta estava Marcio, um monitor fora posicionado na sua frente e por meio de pequenos toques ele era capaz de mudar a projeção mostrada no centro.
— Sua primeira missão, correto? Espero que já saiba dos protocolos. — Marcio falava enquanto desviava os olhos de Kálita para a tela na sua frente.
— Não se pode voltar para um dia em que eu já tenha voltado, não se pode alterar o rumo da história e blá blá blá, correto? — Abriu um pequeno sorriso nervoso e tomou seu assento em volta da mesa holográfica.
Seu chefe resolve ignorar o comentário e passa a mexer no monitor à sua frente.
— O objetivo de vocês é observar a população de Atenas na Grécia, devem me trazer um relatório de como é o dia a dia desse povo, quero que me digam o alimento que eles consomem, como funciona sua sociedade, ou seja, tudo que conseguirem observar. Mas lembrem-se, nunca mexam com a linha temporal. O contato com os antigos será restrito, só é permitido em caso de grande necessidade. Caso alguém desconfie do que estão fazendo não hesitem em abortar a missão.
Um homem se levanta do seu assento e diz:
— Todos estão falando do problema com os paradoxos que estão acontecendo no passado. A agência não devia estar fazendo algo para impedi-los?
— Homens, por acaso já ouviram falar que a chave para o futuro é conhecer nosso passado? Essa é a função dos historiadores, descobrir o que nossos antepassados faziam, o que comiam, seus grandes feitos e por meio disso teremos nossa própria inspiração para construir nosso futuro. É isso o que farão, conhecerão o passado e mudarão o futuro.
— Senhor, iremos viajar para a época antes do paradoxo ou depois? — Kálita pergunta logo em seguida, ignorando todo o discurso de Marcio.
— Não sou conhecido por mandar novatos em missões perigosas ao ponto de serem quase suicidas. A missão será simples, vocês deverão cumprir com facilidade se seguirem tudo o que foi ensinado no treinamento. Alguém tem mais alguma pergunta? — Olha em volta e ao ver que todos permaneceram quietos, continua — Ótimo, estejam aqui amanhã às sete da manhã em ponto. Todos se levantam e caminham na direção da saída.
— Kálita, você fica, quero falar com você! — Ela morde o lábio inferior de leve, já imaginando o que iria acontecer. Estava estranhando o fato dele não ter feito isso antes. Marcio esperou ficarem sozinhos para começar.
—Não poderei te defender perante a corte caso vá atrás dele, se você ou ele fugirem dos nossos radares, mandaremos agentes especialistas em caçar fugitivos atrás dos dois. — Marcio faz uma pausa e respira fundo — Não quero fazer isso, Ká, você sabe muito bem disso.
Kálita aproxima-se de Marcio, encarando seu rosto moreno.
— E você sabe que não posso deixar de tentar ajudá-lo, ele me ajudou quando eu precisava e agora ele precisa de mim. — Ela passa as mãos suavemente pelo rosto do seu chefe — Não foi totalmente justo o que fizeram com ele. Ele segura sua mão e suspira.
— Espero que mude de ideia, quem sabe ao vê-lo novamente você percebe a burrada que está fazendo.
Ela observa cada detalhe de seu rosto, seus cabelos castanhos sempre bem penteados e seus olhos cor de mel. Aproxima-se e o beija suavemente no rosto — Vai dar tudo certo, confie em mim — Sorri e se distancia dele, indo em direção à porta. Marcio fica ali parado, observando a mulher sair em silêncio.
Kálita, aquele dia, foi direto para casa, tinha que deixar tudo pronto para a viagem, deixar o cachorro com alguém que cuidasse dele, afinal, não confiava muito na empregada eletrônica quando se tratava de cuidar de um ser vivo. Teria também que deixar tudo arrumadinho para quando voltasse para casa, afinal, não sabia o que poderia acontecer nessa aventura que se aproximava. Programou a empregada para uma faxina geral, se jogou no sofá, pegou seu celular e com um toque na tela a parede à sua frente se abriu para o lado revelando um compartimento secreto. Nesse compartimento se encontrava uma TV do tamanho da parede que há pouco estava lá. Com outro toque na tela a TV se ligou, estava passando o novo episódio da 95ª temporada de Supernatural. Nunca havia assistido o começo, afinal, havia sido há muitos episódios. Só tinha assistido o arco dos netos de Dean e Sam, as outras temporadas não importavam muito para o entendimento da história que ali se desenrolava.
Antes do fim do episódio já estava dormindo, acordou somente à meia-noite com o barulho da empregada eletrônica pedindo licença para limpar onde ela estava, não se zangou com o robô, sabia que em sua programação limitada ela nunca saberia diferenciar um humano acordado de um dormindo. Levantou-se e tomou um banho para se refrescar e após isso não tinha mais sono. Resolveu ficar acordada repassando o plano que havia criado semanas atrás.
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Ao amanhecer do dia toda a equipe já está pronta para a viagem. Kálita carregava uma maleta onde se encontrava todo o equipamento necessário para a missão. Todo o equipamento teria que passar pela análise de técnicos. Desde que os contrabandos haviam começado, a agência havia ficado rígida sobre o que poderia ser levado para o passado. Após a análise ela se dirige até a sala onde se encontrava a máquina do tempo.
Seus quatro companheiros já estavam lá esperando-a, todos com suas respectivas maletas. A sala era semicircular e no meio se encontrava um círculo flutuante feito de aço, tinha um pouco mais de 1,60 metros e uma fina camada de luz o envolvia, ao lado havia um pequeno monitor onde a data 421 a.C. piscava em uma luz verde, na frente do portal uma mesa fora posicionada com cinco pingentes, quatro na forma de um pergaminho e um no formato de uma cruz interligada com uma espada. Marcio, ao lado da mesa, observava aos recém-chegados.
—Esses pingentes facilitam a viagem no tempo, eles armazenam a energia da máquina permitindo que vocês deem três grandes saltos nas linhas temporais, após isso ele terá que ser recarregado. Eles serão suas passagens de volta para 2149. Cada pingente também representa sua função na missão: Leo, Felipe, Matheus e Victor, como os historiadores da equipe, o pergaminho é de vocês. Kálita, você representará nossas ideologias e crenças, além de protegê-los dos perigos na viagem, por isso ficará com a espada e a cruz.
Um de cada vez, todos eles pegam seus pingentes e os colocam no pescoço. Marcio faz um gesto com a mão e as luzes brancas que estavam em volta se concentram no meio do círculo e logo se espalham por todo o círculo.
—Kálita, como a guia você será a primeira enviada. — Ela se aproxima do círculo e o observa atentamente, sabia como aquilo funcionava, mas não podia deixar de sentir um pouco de medo do desconhecido, afinal nunca tinha viajado tão longe assim no passado — Estou confiando em você, Ká! — Ela vira, retribui com um pequeno sorriso e entra no portal.
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