Nephilim: A Profecia Do Céu
11 Capítulo 10
O resto da noite o tempo se arrastou e aquilo foi uma terrível tortura para Aislynn. Ficar ali, fingindo ser quem não era, tentando se enturmar com todos os demônios e nefilim do Purgatório era um pesadelo. Em alguns momentos ela entrava em ambedo, fixando seu olhar no chão e absorvendo aquele sentimento de transe melancólico onde observava cada detalhe daquele lugar. Gadrel é um demônio. Ele nunca poderá ser o pai que você tanto deseja, Aislynn. A voz de Travis jogando a verdade em sua cara ecoava em sua cabeça. Enid percebeu o seu rosto sem expressão e várias vezes perguntou se ela se sentia bem. E as respostas eram sempre as mesmas, um sim completamente vago.
Não queria demonstrar fraqueza à ninguém mais, nem mesmo para sua melhor amiga. Você é uma nefilim, então haja como uma, foi o que Travis disse. Então ela agiria. Nem mesmo que aquilo a tornasse uma pessoa ruim, faria o que for preciso a partir de ali em diante.
Seria verdade que Gadrel realmente nunca poderia ser o pai que Aislynn sempre desejou? Ela não sabia o que deveria esperar de seu pai, um dos demônios expulsos do paraíso. Mas, a estúpida esperança dentro de seu peito gritava dizendo que ele a amava. Não queria tentar recomeçar um relacionamento feliz de papai e filhinha, apenas... Apenas... Aislynn não sabia ao certo o que queria de Gadrel. Era confuso. Ela só o queria por perto. Aquilo era pedir de mais até mesmo para um demônio?
Amaldiçoou Travis por deixá-la tão deprimida com aqueles malditos comentários. Ele não tinha o direito de se intrometer nas questões familiares de Aislynn, se é que ela podia usar o termo "questões familiares" para definir o que estava acontecendo. Mas assim que se lembrou da incrível capacidade de Travis de poder entrar em sua cabeça e se assustou com a possibilidade dele poder ver o efeito que suas palavras causou nela. Passou a maior parte do tempo tentando não pensar em algo não comprometedor, o que foi extremamente difícil. A vantagem era que ele não se manteve por perto desde que haviam discutido, o que a aliviou — um pouco.
Logo Enid a forçou entrar em uma conversa de demônios que falavam sobre a guerra dos nefilims e anjos. Haviam quatro grandalhões arrogantes, todos continham tatuagens vermelhas sob todo o corpo.
— Devíamos mesmo deixar um trabalho tão complexo e arduo para estes tiranos?! — Praguejou um deles, segurando um grande copo de cerveja.
Aislynn logo entendeu que ele se referia aos nefilim. Havia passado a noite inteira calada, apenas assentindo e mantendo sua expressão o mais indescritível possível. Provavelmente por ter contido seus sentimentos por horas, uma incontrolável irá percorreu seu corpo por aquele bastardo dizer algo tão baixo sobre os nefilim. Logo ela conseguiu entender a relação que sua linhagem tinha com os demônios, havia de fato a aliança, mas não significava que tratariam um ao outro com o mínimo de respeito.
Com frieza nos olhos, Aislynn disse:
— Vocês precisam de nós, não vejo o porquê de querer agir com superioridade.
O circulo ficou em silêncio completo, Enid ao seu lado tentou conter um sorriso.
— E quem você é garotinha? — O demônio perguntou, se levantando da mesa.
A única coisa que Aislynn desejou naquele momento foi para que sua voz não falhasse. Mantendo o olhar duro, ela deu um passo para frente.
— Aislynn O'briens, — ergueu o queixo — acredito que já deva ter ouvido sobre mim. Sou uma das nefilim que pretende dar a vida para acabar com os anjos.
O homem deu um sorriso perverso.
— E qual é o plano para acabar com os anjos, Aislynn Obrien's?
Ela piscou. Bom, certamente ainda não havia um plano. Travis apenas havia dito que eles iriam treinar e depois tentariam encontrar os outros nefilim. Certamente também durante a procura dos outros, iriam sofrer perseguição dos anjos. Aislynn amaldiçoou a hora que resolveu abrir a boca, não devia sair por discutindo com demônios como se estivesse acostumada a lidar com isso desde que nascera.
— O plano ainda não está concluído — ouviu Enid falar atrás dela -, mas lhe garanto que, juntos, os cinco nefilim, serão capazes de derrotá-los.
Agradeceu mentalmente por sua amiga estar ao seu lado naquele momento, mas o ponto de Enid não foi levado em consideração, já que o homem disse:
— Isso me parece um tanto quanto vago. — Ele passou o dedo indicador em seus grossos lábios.
Sem hesitar, Aislynn falou:
— Mas, não é. Só precisamos de algum tempo para colocar as coisas em ordem e lhe garanto um plano sorrateiro e eficaz contra os anjos.
O demônio à examinou com seus olhos negros, ele parecia pensar se podia confiar nas palavras de Aislynn. Por fim, ergueu seu grande copo com cerveja e da um sorriso.
— Você tem coragem, tirana — deu um gole na bebida — me chamo Astaroth — se apresentou.
Aislynn sorriu, sentiu um misto de alívio e orgulho em ouvir aquilo. Precisava ganhar a confiança de todos aqueles seres do Purgatório, precisava sentir que pisava em um solo firme. Aquele foi o primeiro momento que podia dizer que estava confiante desde que chegara ali. Era engraçado como estava se soltando conforme o tempo foi passando, não era como se sentisse completamente confortável com aqueles seres sobrenaturais, mas já era um bom inicio. De longe, um dia diria que aquele lugar era sua casa. Provavelmente nunca conseguiria se sentir a vontade a este ponto.
— Acredito que Aislynn já fez amizade com o príncipe infernal — a voz de Travis disse, chamando a atenção de todos que estavam no circulo da conversa.
Fechando a cara para ele, Aislynn abriu caminho para Travis saudar Astaroth que abria um grande sorriso ao vê-lo.
Como ele podia ser cínico ao ponto de agir naturalmente depois de ter dito coisas tão cruéis para Aislynn? Tentando afastar a vontade de socar seu rosto, ela tentou manter a tática de indiferença que usou a noite toda.
Com um aperto de mão, Travis disse:
— Te considero um campeão por conseguir arrancar um sorriso dela — apontou para Aislynn — ela não se esforça muito para ser simpática.
Astaroth da uma gargalhada. Cerrando os olhos para Travis, Aislynn imaginou se socando-o, bem no rosto, para que ele — mais uma vez — xeretasse sua mente e pudesse ver a cena projetada. Pareceu dar certo, pois lançou um de seus sorrisos debochados, antes de dizer:
— Um brinde a Aislynn Obrien's, a nefilim que irá salvar nossa linhagem.
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