Logo que a festa acabou, Aislynn se arrastou para seu quarto. Se sentia sobrecarregada com o título que recebera de um dos cinco nefilim mais poderosos de toda linhagem. Deitando-se na cama, tentou imaginar como seria sua vida a partir dali. Definitivamente não iria mais para uma universidade nos Estado Unidos e muito menos ter um emprego normal, ou uma vida normal. Mas talvez seus dias como nefilim estivessem acabando. Os anjos estavam muito empenhados com a ideia de exterminar sua raça. Bom, de um jeito ou outro, ela tinha que se arriscar.

Lembrou-se da conversa que teve com Travis mais cedo sobre seu pai. A única coisa que à incentivava era sua família, ou melhor, o quê havia restado de sua família. Talvez ele estivesse certo, talvez não iria valer a pena tentar se aproximar de Gadrel, mas ainda assim, ela iria se agarrar nele como sua âncora para manter o controle do demônio.

Na manhã do dia seguinte, Enid bateu em sua porta chamando-a para tomar café. Não rejeitou o convite, a sua alimentação estava precária desde que havia chegado ali por conta de sua pura preocupação. Mas Aislynn chegou ao ponto de que sua fome era maior que seus problemas, se é que aquilo fosse possível. Enquanto elas caminhavam em direção ao elevador, Enid falou:

— Eu sei que a companhia de Travis é insuportável — falou, sem olha-la. — Mas acredite, ele cuidará de você enquanto estiverem lá fora.

Aislynn olhou de soslaio para Enid.

— Não preciso de proteção — sua expressão era dura — e de qualquer forma, duvido disso, ele me odeia.

Bom, ela não tinha certeza se aquilo era realmente era verdade, mas Travis também não se mostrou inteiramente amigável. Parte de si acreditava que seu jeito frio era apenas um de seus defeitos de sua personalidade, mas, em algum momento Aislynn se questionou se Travis apenas não estava — de algum modo -, precavendo-a sobre a verdade de seu pai.

Enid abriu um sorriso enigmático quando ela disse aquilo.

— O quê é? — Perguntou erguendo sua sobrancelha, enquanto entravam no elevador.

Ela mordeu os lábios, como se estivesse se contendo para não dizer uma palavra.

— Nada — respondeu, cheia de humor.

Aislynn revirou os olhos, enquanto a amiga apertava o botão para o andar de cima. Se sentia curiosa para saber o que Enid queria dizer com aquele sorriso estúpido, mas no fundo, se perguntou se realmente queria saber de verdade. Tentando desviar o pensamento sobre aquilo, lhe ocorreu que muito em breve ela teria que lutar contra os anjos para defender sua própria vida. Havia apenas uma arma incrivelmente mortal para os anjos, Enid e Travis já tinham deixado está informação clara. Queria saber mais sobre isso, mas quando as portas do elevador se abriram, Aislynn deixou uma exclamação escapar quando seus olhos pairaram sobre o enorme salão com várias mesas espalhadas. As paredes tinha cor de um cinza metálico, a iluminação do local era perfeita e havia vários garçons servindo as mesas.

O refeitório não estava tão cheio quanto na festa da noite anterior, mas estava particularmente com uma movimentação adequada ao local. Enid tocou seu braço, a guiando para uma mesa afastada onde Travis e Astaroth estavam sentado, eles tomavam café da manhã enquanto conversavam sobre algo. Assim que as garotas puxaram suas cadeiras para se sentarem, finalmente eles perceberam sua presença.

Astaroth abriu um grande sorriso, enquanto Travis tomava um gole de seu café, indiferente.

— Aislynn Obrien's! — Falou seu nome com satisfação, mas ela teve um leve palpite que havia um sarcasmo no fundo se sua voz. — Animada para procurar seus companheiros de equipe pelo mundo a fora?

Ele se referia aos nefilim que Travis e ela tinha o dever de procura-los, Aislynn deu de ombros.

— Os outros nefilim não sabem sobre o extermínio dos anjos?

— Bom, — Astaroth deu uma mordida em seu ovos mexidos — provavelmente sabem, mas por falta de escolha, devem estar se camuflando entre os humanos.

— De qualquer modo, — Enid entrou na conversa — isso não vai durar muito tempo. Quer dizer, eles estão há anos vivendo entre os humanos e só tiveram sorte dos anjos não terem encontrado-os.

Aislynn pensou sobre isso. Sim, era apenas sorte. Assim como ela tivera sorte dos anjos só terem encontrado-a naquela altura de sua existência.

Naquele momento, um garçom chegou a mesa para entregar dois pratos de comida para Enid e Aislynn — mesmo que elas não tivessem pedido nada -, um continha panquecas e outro waffles. Enquanto ele colocava os pratos na mesa, ela não pode deixar de notar seus olhos; estavam completamente brancos e seu rosto não expressava nenhuma emoção. Parecia um ser sem alma, mas ainda assim, era notável que era um humano.

Sem conseguir tirar seus olhos do homem, Aislynn murmurou:

— Ele é...

— Sim, — Travis finalmente falou, abaixando sua xícara com café — ele é um humano.

Houve um longo silêncio, enquanto o homem se afastava, parecia não ter ouvido nada.

— O quê ele está fazendo no Purgatório? — Aislynn não conseguiu conter a pergunta.

Travis passou a mão pelo cabelo, aquilo parecia algum tipo de habito que ele fazia toda vez que tinha que responder perguntas difíceis. Mas com toda paciência, falou:

— Os nefilim tem a capacidade de transformar os humanos em seres párias.

Aislynn piscou ao receber aquela resposta. Ouvir aquilo a fez se sentir mal. Aquele homem era um humano, tinha uma vida normal, tinha uma família, e deu o azar de estar no lugar errado e na hora errada de encontrar com um nefilim que o transformou em um ser sem qualquer emoção.

— Isto não parece justo.

— A vida não é justa, Aislynn — Enid falou — você só tem que se acostumar. — Deu uma grande mordida em seu waffle.

Aquilo era verdade, mas, Aislynn não deixava de achar aquilo igualmente horrendo. Tentando se concentrar em suas panquecas, ela percebeu que havia perdido totalmente sua fome.