Nephilim: A Profecia Do Céu
6 Capítulo 5
A água morna do chuveiro caía no rosto de Aislynn e ela se permitiu, naquele momento, absorver todos os sentimentos que estavam espalhados em seu corpo. Assim que Enid e Trevis a liberou, eles a mandaram tomar um banho e descansar, já que ainda estava se recuperando e não demoraria muito para seus poderes voltarem, o que iria lhe causar uma série de desconforto. Não quis nem imaginar o que queriam dizer com "uma série de desconforto". Assim que saíram da ala hospitalar onde Aislynn se encontrava quando acordou, ela quis saber mais sobre os nefilim, mas, Travis sendo rabugento, respondeu que iriam conversar mais sobre aquilo depois.
O banheiro onde tomava banho era como os de seu colégio, só que um pouco menos higiênico e nem lhe dava nenhum tipo de privacidade, mas pelo menos estava completamente vazio naquele momento.
Ela prendeu a respiração por um segundo, doía saber que a sua vida custou a da mãe, pior ainda era saber que sua tia Jane nunca havia lhe contado a verdade. Foi para sua proteção, Enid tinha dito. Mas ainda assim, algo dentro dela, fazia acreditar que aquilo não passava de uma desculpa mal contada. Aislynn ainda não sabia se devia confiar naquela gente, e de repente, percebeu que também se referia assim a Enid, sua melhor amiga de anos. Pensar naquilo fez seu coração partir em mil pedaços. De uma hora para outra, as únicas pessoas em quem confiava se transformaram em completos estranhos. Embora ela desconfiasse de todos a sua volta, de algum modo, sabia de qual lado pertencia. Não convinha a ideia de que os anjos queriam ajudar a humanidade, sendo que, eles haviam matado um. Para ser mais exato, matado sua mãe.
Era bizarro pensar em anjos e demônios, Aislynn nem ao menos era religiosa o bastante pra ter uma noção básica sobre aquilo.
Um arrepio percorreu pelo seu corpo ao lembrar que seu pai ainda estava vivo. Não conseguia decidir como se sentia em relação aquilo... Há um tempo atrás daria qualquer coisa pra ter conhecido pelo menos um dos seus pais, e agora, lá estava a oportunidade! Ele era um demônio e aquilo sem sombra de dúvidas a assustava. Aislynn sabia que — tecnicamente — era metade de uma criatura maligna também, aquilo a fazia temer a si mesma.
— Dia louco, não é mesmo? — Aislynn escutou a voz de Enid murmurar.
Se virando, a alguns metros de distância, viu a amiga que estava sentada em um banco ao lado dos armários do banheiro compartilhado. Aislynn desligou o chuveiro e se enrolou na toalha, abrindo o box de madeira que tampava seu corpo nu.
Respirou fundo.
— Sim — ela caminhou até uma pilha de roupas que estava no mesmo banco.
Enid avaliava Aislynn em silêncio, mas ela ignorou seu olhar. Não queria ter que lidar com o fato de que Enid havia a enganado por anos, a situação já estava complicada demais. Não queria culpá-la, sabia que a amiga só queria protege-la, mas ainda assim, aquele sentimento de magoa não se afastava.
— Aislynn, eu sei que você esta zangada comigo, mas, — hesitou — eu não podia te contar.
Ela fechou os olhos, tentando reprimir a vontade de chorar.
— Seu pai veio me pedir pra cuidar de você e eu achei que só seria mais um acordo estúpido das banshees. Mas, você se tornou minha melhor amiga, Aislynn.
Quando abriu os olhos novamente, percebeu que Enid também lutava contra as lágrimas enquanto a encarava.
— Meu pai te pediu pra cuidar de mim? — Perguntou em um sussurro.
Enid assentiu, mordendo os lábios.
— Afinal de contas, o que é uma banshee? — Aislynn engoliu seco.
Percebeu que ela hesitou antes de começar a explicar:
— As banshee provêm da família das fadas, — Enid corou ao falar aquilo, fazendo Aislynn lembrar se do anjo no beco, a chamando de "fadinha". — Só que elas são a forma mais obscura dela. Somos seres que preveem a morte, resumidamente: somos mensageiras da morte.
Ela estremeceu ao ouvir aquilo. Se Enid podia prever a morte, então aquilo significava que se caso a morte de Aislynn aproximasse, ela iria saber. Por isso seu pai havia lhe pedido para cuidar dela. Aos poucos as coisas pareciam fazer sentido.
Enid continuou:
— Somos originadas da Irlanda, então tradicionalmente, quando uma mulher da aldeia irlandesa morria, — explicou — uma banshee é designada pra chorar no funeral. Mas, nós só podemos lamentar apenas as mortes das cinco maiores famílias irlandesas, que são: os O'Neill, os O'Briens, os O'Connors, os O'Gradys e os Ferraz, no caso, cada uma de nós somos responsável por cada família.
Aislynn ficou boquiaberta.
— Eu sou uma O'Briens. — Sussurrou, estupefata.
Enid assentiu quando ela disse aquilo.
— Sou designada pela sua família, Aislynn. Não tinha como eu rejeitar o pedido de seu pai.
Ela se jogou no banco de mármore ao lado da amiga, filtrando todas as informações. Aislynn não conseguia esboçar qualquer reação, aquilo tudo era incrível e ao mesmo tempo tão apavorante!
— Como você se transformou nisso? — Perguntou, tentando parecer inutilmente indiferente.
Houve alguns segundos de um intenso silêncio, mas por fim, ela acabou respondendo:
— Sou o espírito de uma mulher assassinada. — Sussurrou.
Aislynn arregalou os olhos ao ouvir aquilo. Desviando seu olhar para o rosto da amiga, viu que ela fitava as próprias mãos sem nenhuma expressão, seu olhar vago a fez lembrar de quando havia se transformado em sua forma de banshee no beco. A sua mágoa era palpável. Sentiu um grande remorso encher seu peito, esse tempo todo Enid só estava tentando ajudá-la e Aislynn havia sido uma completa idiota com a amiga.
O único som que ela conseguia ouvir era do seu próprio coração que batia descompassadamente. Aislynn colocou sua mão em cima da de Enid e apertou levemente.
— Sinto muito.
Enid tirou a mão da de Aislynn e colou uma mecha do seu cabelo preto atrás da orelha.
— Sabe o que é pior? — Aislynn balançou a cabeça em negativo. — É que eu não me lembro de como morri.
Ela só conseguia pensar o quão horrível aquilo devia ser para amiga. Depois das últimas horas, Aislynn sabia como era se sentir impotente em relação a algo. Abraçando Enid, ela repetiu:
— Sinto muito. — Não era muito experiente em como reconfortar a amiga-banshee-morta.
Ficaram por alguns segundos naquele estranho abraço acolhedor. Sempre foi assim, elas eram o suporte uma da outra, não havia nada, nem mesmp criaturas sobrenaturais que podiam destruir o laço que haviam vinculado. Aislynn se sentiu grata por ter Enid ao seu lado naquele momento, seria péssimo que tivesse que passar por tudo aquilo sem sua melhor amiga.
Depois de algum tempo, Enid desfez do abraço apertado e disse:
— Bom, você sabe que não sou muito sentimental, não é mesmo? — Deu um meio sorriso, abanando as lágrimas em seu rosto.
Aislynn sorriu.
— Quer saber de uma curiosidade engraçada? — Perguntou, com o humor se espalhando em seu rosto novamente. Aislynn assentiu. — O nome Enid significa vida, e eu estou morta. Irônico, não? — riu.
Aislynn fez uma careta. Não, ela não achava aquilo nem um pouco engraçado, na verdade, era um tanto quanto assustador. Se levantando e pegando a pilha de roupas, falou:
— Vou me vestir. — E saiu, deixando sua amiga sozinha com seu humor ácido.
Assim que a grande e pesada blusa de frio de moletom deslizou pelo corpo de Aislynn, conseguiu perceber duas coisas: a primeira era que a tal blusa batia acima dos seus joelhos, parecia até um vestido nela. A segunda era que no meio da pilha de roupas, não havia nenhuma calça. Aislynn colocou a cabeça para fora do box do chuveiro onde tomou banho e falou para Enid:
— Não tenho calças.
A amiga desviou o olhar de suas unhas recém pintadas de preto para ela e disse:
— Eu sei, — piscou — ainda não comprei suas roupas.
Aislynn franziu o cenho e caminhou em direção de Enid.
— Como assim comprar roupas? — Questionou. — Por que não vamos simplesmente vamos para minha casa e pegamos as minhas roupas?
Enid mordeu o lábio inferior.
— Tem um pequeno detalhe que eu esqueci de mencionar — ela levantou o dedo indicador.
Aislynn colocou a mão na cintura, cerrando os olhos para a amiga.
— O quê?
— Não estamos mais em Heidelberg, tivemos que sair da cidade.
O que?! Esse tempo todo Aislynn achou que ainda estava na sua cidade, embora o pedido de sua tia Jane foi para que saíssem de Heidelberg. Ela ficou tensa ao pensar que anjos tentaram a matar e que continuariam a caçá-la. Será que aquela mudança de cidades iria resolver algo? Será que eles já sabiam aonde ela estava e prontos na espreita pra atacar? Aislynn tentou acalmar seus pensamentos pra não surtar novamente como quando surtou com Enid.
— Estamos aonde? — Perguntou, desconfiada.
— Hamburgo — fez uma careta.
Aislynn engoliu seco, passando a mão pelo seu rosto. Hamburgo ficava a cinco horas de viagem de Heidelberg, será que era longe o suficiente para os anjos não encontrá-la? Enid pareceu perceber a expressão de desespero dela, pois falou:
— Ei, — pegou em sua mão — Hamburgo pode ser bem divertido.
Ela balançou a cabeça.
— Não é isso, é que... — hesitou — será que eles sabem aonde estou?
Enid pareceu entender a pergunta de Aislynn pois falou:
— Estamos em um lugar seguro, os anjos não podem te encontrar.
— Aonde estamos exatamente? — Sentiu a necessidade de perguntar.
A amiga deu um sorriso ensaiado e se afastou um pouco, fazendo um tipo de reverência:
— Seja bem-vinda ao Purgatório.
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