Neon Lights
2 Capítulo 2 - Dando uma de heroína
Notas iniciais
Eu estava prestes a ter um colapso.
Não havia se quer uma roupa que parecesse servir em mim no armário, e faltavam exatos cinquenta minutos para o início da Competição, que seria realizada na piscina aberta e térmica enorme do Colégio Phantom Lord.
Rodei o armário inteiro atrás de algo útil, até que, por fim, coloquei uma jaqueta azul-marinho por cima de uma regata branca, e um jeans qualquer, com sapatilhas pretas. Olhei-me no espelho, ponderando antes de sair do quarto. Pior que do que estava, obviamente não havia como ficar.
Revirei os olhos, colocando o celular primitivo e um prendedor de cabelo na bolsa, junto com a carteira.
– Juvia, estou saindo! – avisou minha avó do andar de baixo. – Quer carona até a estação de trem?
– Sim, vó! – respondi, colocando a bolsa no ombro e descendo as escadas apressada. – Ou então vou perder o primeiro … o nome daquilo é round, quando na natação?
– Deve ser algo assim, partida, algo do tipo. – concordou, dando de ombros enquanto trancava a porta de entrada da casa. – E então, resolveu tomar vergonha na cara e entrar pro Clube da escola, foi?
– Não, não é nada disso! – neguei com a cabeça, entrando no carro em seguida. – Eu não gosto muito de Clubes, me dão uma impressão de compromisso, e fazem as atividades perderem um pouco do objetivo.
– É algo divertido, Juvia. Acho um bom ponto de partida para novas amizades, se quer saber – garantiu ela, dando partida e retirando o carro da vaga. O motor do Cadillac vermelho roncou alto. – E você é ótima nadadora, além de tudo. Lembra-se de como ficava durante três minutos embaixo d'água tranquilamente?! Era um mito de criança! Sem falar naquela vez em que salvou seu avô durante o passeio para as cachoeiras.
Sorri com as memórias. Sempre estive ligada à água, de alguma maneira. E já havia considerado diversas vezes me inscrever para o Clube do Fairy Tail. Sendo que Gray Fullbuster era o Capitão do Time da escola, e ele levava tudo muito a sério. Me perguntava se, caso eu não vencesse, ou fosse não boa o bastante, ele me odiaria. Sem falar em usar maiô na frente de todo mundo, que era algo realmente assustador.
– Está pensando no fato de ter que usar maiô? – adivinhou ela, rolando os olhos. – Quanta infantilidade, Juvia. Me admiro você pensando desse jeito bobo. Simplesmente vista aquilo e vá nadar. Estar semi nu não impediu ninguém de buscar seus sonhos até hoje.
– Exceto você durante aquela entrevista de emprego – lembrei casualmente. Ela gargalhou, buzinando para um homem que passeava com o cachorro, e quase havia sido atropelado ao passar no sinal vermelho.
– É, isso foi um caso em especial. Nunca beba muito antes de ir falar com seu futuro chefe. Porque ele pode ser bonito, e pode te deixar mais animada do que deveria.
– Você é horrível, vó – cobri o rosto envergonhada, rindo em seguida. Ela estacionou o carro bem próximo do bicicletário da estação, que estava bem vazia àquela hora. – Obrigada pela carona.
– Não há de quê. – ela sorriu brevemente. – Quer que eu vá te buscar lá quando acabar?
– Não, tudo bem. Posso voltar sozinha – fechei a porta, acenando para ela. – Estou com o celular ligado, então não tem problema.
– Volte antes das oito! – ordenou, sumindo em meio às ruas ao acelerar. Dava para ouvir as buzinadas mesmo a distância. Minha avó era um tanto quanto perigosa ao volante. E nunca fez questão de mudar isso.
Voltei a andar, esbarrando levemente em alguém no meu caminho.
– Me desculpe – pedi, ouvindo apenas um "wow" estridente enquanto via de relance cabelos grisalhos. O garoto parecia ter a mesma idade que eu, ainda que tivesse o cabelo daquela cor. Ainda assim, dei as costas e continuei andando. Tinha prioridades.
– Hey, espera ai! Garota…
– Já pedi desculpas! – garanti, correndo em direção a estação. Só o que me faltava era um adolescente me barrando enquanto Gray-sama estava prestes a aparecer de sunga por ai. Na frente de outras garotas que o queriam tanto quanto eu. O pensamento me dava náuseas.
Quando finalmente o trem chegou, sentei-me numa cabine com duas garotas mais ou menos da minha idade, que foram conversando o tempo todo sobre o namorado de uma delas viver comprando presentes e chocolates. A outra ria descontroladamente das histórias, e elas pareciam interagir com uma naturalidade invejável.
Sempre que passava um tempo observando adolescentes, me sentia meio deprimida. Era algo horrível estar sozinha bem no Ensino Médio. Durante o Fundamental, foi exatamente a mesma coisa. Mas, por alguma razão, quanto mais velha eu ficava, mais necessidade de conviver eu tinha. De ter amigas para quem eu pudesse apresentar minha avó, minha casa. Contatos que faziam volume no celular, mesmo que eu não falasse com todos eles.
No primeiro dia de aula, desse mesmo ano, jurei pra mim mesma que faria pelo menos um amigo. E quando estava chegando na sala, junto a Levy McGarden, alguns veteranos iam nos pregar uma peça de primeiro dia, e pegaram o fichário da azulada naquela típica brincadeirinha de “Bobinho”, onde um lança ao outro por cima da pessoa.
Como uma das veteranas me fuzilava com o olhar, resolvi não fazer nada para ajudar a garota. E foi exatamente quando tomei essa decisão que ele chegou. Moreno, de olhos escuros e expressão mal-humorada, arrancando o fichário da mão de um dos veteranos e murmurando um audível:
–Se sacanear ela de novo, eu quebro a sua cara.
Me apaixonei no exato momento em que ele disse isso.
E passei a amá-lo e idolatrá-lo quando a convidou para passar o intervalo com ele, que não estava sozinho por conhecer Erza, Natsu e Jellal desde a infância.
Ele a salvou. De maneira superficial, talvez. Mas para mim aquilo foi unicamente heroico.
[…]
– Com licença? – sorri amarelo, enquanto estendia o panfleto da Competição para uma mulher, muito ocupada em arrumar as coisas na tenda recém-montada. Estávamos numa rua larga no centro do bairro, e por algum motivo ela havia escolhido exatamente aquele lugar para vender coisas místicas. Haviam tecidos com diversos bordados de pedras, bolas de cristal, incensos, dentre outros objetos excêntricos. – Poderia me dizer onde fica o Colégio Phantom Lord?
– Ahn, o Phantom — a velhinha piscou os olhos algumas vezes, olhando em volta — Pelo que me recordo, siga a próxima rua à direita até o final, e vai dar numa praça meio retangular. Se olhar para uma das extremidades, vai vê-lo. É como um castelo mal-assombrado. Se me permite perguntar, tem certeza de que quer ir lá?
Ela nem se quer havia olhado para mim ainda. Começou a varrer a calçada freneticamente, ainda que não houvesse sujeiras visíveis por ali. A vassoura possuía diversos símbolos semelhantes à runas antigas no cabo, e imaginei se não era usada em algum tipo de ritual lunar.
– Por que eu não teria? – perguntei, estreitando os olhos em sua direção.
– Os alunos de lá não são muito receptivos, criança – alertou-me com preocupação. O que foi bastante gentil de sua parte. Por um momento achei ter visto a bola de cristal em cima do balcão improvisado da tenda piscando em furta-cor, e me perguntei se ela estava prevendo algo ali. Bobagem, isso não queria dizer nada. – Além do mais, são famosos por suas trapaças e maracutaias.
– Maracutaias – repeti, franzindo o cenho. Palavra mais esquisita – Bem, agradeço mesmo o conselho, mas preciso ir lá de qualquer jeito. Um conhecido meu vai competir, e não posso nem pensar em não aparecer.
– Então está bem – ela sorriu fraco. – Determinada, não? Gostaria de comprar uma pulseira?
Estava demorando para acontecer isso.
– Ah, senhora, eu sinto muito – neguei com a cabeça, um tanto constrangida. Olhei para o relógio de pulso, tentando sair da situação. – Já estou em cima da hora e -
– Criança, não seja tão apressada – ergueu-me uma tornozeleira esquisita, com um pingente de floco de neve. – Simboliza o gelo, sabe?
Não me diga.
– Uhum – sorri de lado, forçando minha educação ao máximo. – Muito obrigada mas -
– Sabe o que é gelo, criança?
Meu Deus! Eu devia ter perguntado pro jornaleiro, e não para a maga caloteira!
– Água congelada? – deduzi, já impaciente. Cruzei os braços rente ao busto, para ver se ela entendia que eu não iria mais perder tempo com aquele papo.
– É água, sim. Mas é uma versão solidificada da água. Toda aquela pureza, numa coisa sólida. É como se congelassem a vida, entende? É como um renascimento da água. O gelo, é a forma mais evoluída da água. Todos os seres primários são como gotas d'água, e quando evoluem, se tornam flocos de neve. Incrível, não? A história do gelo dura -
– Ah, me dá isso logo! – coloquei o dinheiro em cima do balcão dela, fazendo-a sorrir abertamente.
– Já estava na hora – comentou, contando as moedas como se já soubesse que eu cederia. Talvez a história do gelo fosse a melhor estratégia dela, eu não saberia dizer. – Faltam 100 yens.
– Maldição! – murmurei, completando o dinheiro e colocando a bendita pulseira amarrada no tornozelo – Adeus.
Enquanto me virava, pude ouvir um singelo:
– Ela vai te dar sorte, Juvia Lockser. Vai te trazer tudo o que você mais desejou.
Como ela sabe o meu nome?
Achei melhor não descobrir. Segui pelo caminho indicado, e não virei novamente.
[…]
Não sei em qual momento exatamente passei a comer o quinto algodão-doce. Só sei que depois do terceiro, não consegui parar mais.
Primeiro porque estava extremamente nervosa com o fato de Gray-sama estar demorando a nadar. Segundo, porque quando olhava para frente, bem na direção da primeira fileira da arquibancada lotada por colegiais, podia ver todo o grupo de Gray gritando e urrando seu nome diversas vezes. O grupo de Natsu Dragneel havia trazido camisetas personalizadas, bandeirinhas azuis, além de gritos de guerra vibrantes, que pareciam nunca ter fim.
– Os Macacos Encantados não vão parar de gritar não? – perguntou um garoto ao meu lado para seu colega. Obviamente, um aluno do Phantom. – Alguém jogue um cacho de banana pros idiotas lá da frente!
Quase engasguei quando a onda de gritos femininos se iniciou na plateia. Ao olhar lá pra baixo de novo, focalizei os olhos no deus grego que andava ao redor da piscina, desfilando apenas de short de natação negro que batia na altura dos joelhos.
Meus olhos cintilaram como diamantes diante da visão. Gray estava lindo.
O grupo de Natsu gritava e comemorava junto, e de repente a mesma sensação do trem com as duas meninas me atingiu. A sensação de estar sozinho, e não ter com quem compartilhar momentos assim. Até mesmo no trem deviam ter se divertido juntos vindo para cá. Se não vieram de carona no carro de algum deles, quem sabe.
Gray-sama virou-se lentamente, acenando na direção da arquibancada. Incondicionalmente o retribui, mesmo sabendo que jamais aquele aceno seria em minha direção.
Gajeel e Natsu levantaram as blusas, exibindo alguma mensagem que, por estarem de costas, não consegui ler. Mas Gray pareceu ter aprovado, pois riu sem graça assentindo na direção deles.
Tão sortudos.
Enquanto comprava um refrigerante e verificava minhas mensagens no celular – que só poderiam ser da minha avó, caso tivesse realmente alguma –, passei a prestar atenção nas conversas próximas, tentando me distrair.
– Esse imbecil do Fullbuster – a garota à minha frente resmungou, falando com o garoto ao meu lado ao virar o rosto. – É um completo idiota. Bem que gostei da ideia da sabotagem.
O que? O que foi que ela acabou de dizer?
A corneta soou, e Gray saltou de modo perfeitamente cronometrado dentro d'água, deixando-me maravilhada. Ele era tão perfeito que chegava a doer. Seus músculos se contraindo e soltando conforme ele dava as braçadas, rasgando a água como se houvesse sido feito para ela. Seu cabelo preto estava coberto por uma touca roxa, que o destacava dos demais nadadores das outras raias.
O tumulto me permitia ouvir pouco as conversas, já que os grupos da Fairy Tail berravam exatamente como haviam descrito, macacos encantados. De um jeito legal, lógico. Exceto a parte feminina.
Essa ai me dava nos nervos.
– Ele ainda não apagou?! – a garota voltou a perguntar. Dessa vez escutei perfeitamente.
Franzi o cenho na direção dela.
– Espere, Sam – pediu o garoto ao meu lado, igualmente afoito. – Ele já vai cair apagado no fundo. No mínimo vão achar que chapou antes de nadar. Vai ser expulso do Clube na certa.
Gray-sama. Expulso do Clube? Nem pensem nisso.
Me levantei no mesmo instante, empurrando com um chute as costas da garota a minha frente, fazendo-a cambalear por mais três fileiras, caindo no colo de um veterano da Fairy Tale.
– Vadia! – gritei, cerrando os punhos. Toda a arquibancada superior me encarou perplexa.
– Qual é a sua, sua imbecil?!
Os estudantes que se aproximavam eram empurrados.
O garoto ao meu lado havia os avisado que eu havia descoberto o plano. A maioria dos alunos da Phantom tentava me segurar, até que notei que só estava piorando a situação.
A arquibancada inferior e os organizadores do evento mantinham a atenção na confusão, e no final das costas, Gray devia estar desacordado nesse instante.
Por puro instinto protetor, dei uma bolsada no garoto que me segurava e desci as escadas cambaleando numa velocidade que jamais achei ser capaz de atingir. Por algum milagre, consegui não rolar a escadaria inteira.
A grade que dividia a piscina e os bancos era baixa, então saltá-la foi a parte mais fácil.
No caminho, eu havia perdido o prendedor de cabelo e as sapatilhas. Provavelmente a maioria devia pensar que sai diretamente do filme A Ilha, ou O Naufrago.
Respirando fundo antes, ainda em movimento, procurei com os olhos a movimentação da água ao redor de Gray.
As pequenas ondulações indicavam que o corpo estava apenas afundando.
Quem não houvesse observado tanto a água, provavelmente não saberia distinguir através de suas ondulações o tipo de movimento que o corpo estava realizando. Mas essa era uma das poucas coisas que minha mãe fizera questão de me ensinar ao longo dos anos.
Por fim, mergulhei de vez, avançando na direção do moreno que estava a centímetros do fundo da piscina. Piscina essa que era tão funda ao ponto de incomodar meus ouvidos conforme eu descia, com a mudança drástica de pressão.
E num último gesto de insanidade, estiquei os braços, alcançando o tornozelo direito de Gray e puxando-o com todas as minhas forças em direção a superfície.
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