Neon Lights
18 Capítulo 18 - Problemas do passado
Notas iniciais
Estava organizando as caixas na cozinha, quando ouvi o chamado de Yui-san, vindo da frente da loja.
–Algum problema ?! — perguntei alto, franzindo o cenho.
–Tem uma cliente querendo embrulhar uns doces aqui — explicou de volta, parecendo apressada — É que tenho que fazer as entregas, sabe.
–Ahn, claro, já pode ir — garanti, recolocando o avental. Amarrei o cabelo superficialmente, e deixei o almoxarifado, fechando a porta em seguida. Corri a loja com os olhos, encontrando uma menina alta de longos cabelos cor-de-rosa, encarando o local onde os pães doces estavam a amostra.
Meu coração parou, e senti meus movimentos travarem.
Mesmo tendo-a visto apenas duas vezes, e a distância, jamais esqueceria daquele fisionomia. Meredy.
–Será que pode me atender ? — perguntou ela, num tom educado. Assenti, caminhando em sua direção, sentindo seus olhos pesados sobre mim. Me analisando com atenção. Mas ela não me conhecia. Não era possível que conhecesse.
Peguei um pote descartável lilás, especifico para embrulhos, e virei-me para ela, que me observava atentamente. Engoli em seco.
–Não é muito nova para trabalhar aqui ? — perguntou-me, diretamente.
–É um meio período — respondi, sem muita animação — Muitos jovens trabalham pra ganhar um dinheiro extra.
–É por necessidade ?
–Na verdade não. Mais por ... experiência no mercado.
–Ah, pretende ser padeira ? — ela riu da própria piada. Até teria rido por educação, se não estivesse com tanta raiva.
–Algo contra a profissão ? — perguntei, intolerante. Meredy negou com a cabeça, imediatamente.
–De forma alguma — garantiu ela, um tanto sem jeito. Olhou-me pelo canto dos olhos, aproximando-se das prateleiras de doces — Não é muito divertida, não é ?
–Depende do momento. O que vai querer ?
–Ah, esqueci de perguntar ! — ela sorriu, animada por ter se recordado de algo — Você estuda e trabalha, não é mesmo ? Porque fiquei na duvida se só trabalhava .... sabe, se fosse por necessidade.
–Eu estudo — disse curta. Ela assentiu.
–Onde ? É particular ?
Deuses, o que ela queria com todos aqueles assuntos ?! Estava prestes a jogar o pote na cara dela, quando respirei fundo, contentando-me em respondê-la cordialmente:
–Fairy Tail.
–Oh, não acredito nisso! — sorriu abertamente, de orelha a orelha, e segurou minhas mãos com as suas, de forma íntima demais, para um primeiro contato. Franzi o cenho, sem compreendê-la — Tenho um grande amigo de infância que estuda lá!
Ah, não. Não, não, não, não e não.
–Gray Fullbuster, o conhece ?! — continuava sustentando o sorriso. Suspirei cansada, sacudindo a cabeça em concordância — Sério mesmo ?!
–É.
–Qual o seu nome ?!
Olhei para o chão, totalmente sem jeito. Que tipo de peça era aquela que o destino estava me pregando ?!
–Juvia Lockser.
O silêncio fez-se presente, pela primeira vez desde que ela começara a falar. Soube, naquele exato momento, que havia algo de errado. Ergui os olhos para a rosada, que me fitava com uma expressão de puro interesse. E irritação.
–Me conhece ... ? — deduziu, incerta. Assenti, de má vontade.
–Meredy.
–Sim, sim — ela sorriu, dessa vez de forma mais forçada — Gray já falou de você. Colega da natação, né ? Ele disse que admira seu desempenho na piscina, durante as competições.
Colega da natação. E ela usara o tom mais debochado possível.
Pelo visto, nosso sentimento uma pela outra era recíproco. Se bem que, atualmente , não duvido que Gray realmente me citasse apenas como a colega da natação. Isso porque já é surpreendente ele ter, se quer, lembrando da minha existência.
–Eu vou querer sonhos — murmurou, sem retirar os olhos de mim — De doce de leite, e morango. Um de cada sabor.
–Hai ...
Coloquei os dois doces no pote, de forma mecânica, virando-me para ela novamente.
–Um de creme de confeitaria, também.
Peguei-o com o pegador especifico, pondo-o ao lado dos outros, organizadamente. Meredy fitava a porta, parecendo distraída, e continuei o atendimento normalmente, tentando soar o mais neutra possível. Não podia deixar que a raiva me consumisse. Seria infantil e imaturo, e estava decidida a abandonar essa antiga fase.
–Mais algum -
–Quer saber, pensando bem, desisto dos sonhos. Eles engordam muito, não acha ?
Não a respondi, apenas rolando os olhos e recolocando-os em seus devidos lugares na estante. Paciência, Juvia. É a chave de todos os problemas, certo ?
–O que vai querer, afinal ? — perguntei, respirando fundo para me acalmar. A rosada riu, ironicamente.
–Uma resposta — respondeu, erguendo uma sobrancelha — Não acha que os sonhos engordam muito, Juvia-chan ?
–Acho gostosos — murmurei apenas. Meredy sorriu de lado.
–Não foi essa a pergunta.
–Sim, eles devem engordar um pouco.
–Você os come com frequência ?
–Quando me dá vontade.
Ela olhou-me com atenção,e senti meus músculos contraírem-se. Aquela situação era, no mínimo, bem desconfortável. E irritante ao extremo. Ela estava ... me testando. Ou querendo chegar a algum ponto, e eu realmente temia qual seria.
–Sempre come quando tem vontade ?
–Como as pessoas normais.
–Ah, é ... — Meredy riu baixinho, analisando-me de cima a baixo — Não gosta de cuidar muito da sua aparência , né ?
–Por que acha isso ? — perguntei, erguendo uma sobrancelha.
–Nada demais, Juvia-chan. É que você parece uma daquelas meninas bem corajosas, que não vivem de aparência — admitiu, num tom de elogio. Aparentemente.
–Arigatou.
–Mas, para uma admiradora do Gray, acho que devia cuidar melhor disso, não concorda ? Nada contra, é claro ! Acho até bem audacioso da sua parte ! Mas já viu Sherry Blendy, a ex dele ? Os cabelos dela são bem longos. Por que não deixa o seu crescer ?
Ignorei todo o seu discurso, praticamente, enquanto digeria o fato dela chamá-lo apenas pelo primeiro nome. Ok, sem crises. Eles eram amigos de infância, afinal. Não havia nada mais comum do que esse tipo de intimidade.
–Não acho que cabelos mais longos fossem fazê-lo se apaixonar por mim — murmurei apenas, dando de ombros. Ela sorriu de lado.
–Ele me contou sobre sua declaração — contou-me, num tom mais baixo. Analisei-a em hesitação. Aquele assunto seria, definitivamente, uma zona de convergência — Não fique chateada, Juvia-chan. Gray é um tanto ... difícil, com relação a sentimentos. Além disso, ser negada ... vez ou outra, é normal. Não concorda, Juvia-chan ?
–Não me chame dessa forma — cortei-a, baixo , e de forma desafiadora.
–O quê disse ? — tombou a cabeça para o lado, de forma debochadamente curiosa — Pode repetir, por favor ? Ah, falando nisso, por que está demorando tanto a me servir ? Meus horários não me permi-
–Meredy — a voz grave fez-se presente no local, de forma unicamente ameaçadora — "Servir" é um termo forte, não acha ? Digo, é coisa dos tempos feudais. Se não antes deles ... É algo muito fútil pra se dizer a outra pessoa.
Virei-me para Lyon, eternamente grata por cada palavra dita pelo grisalho. Ele olhava-a com puro desdém.
–Se bem que fútil descreve você — comentou, sem ironia alguma. Só havia seriedade — e nojo — em sua expressão. Senti-me num freezer, prestes a congelar. Tal como Gray, os olhares de Lyon eram gélidos, e cortantes — Desde criança, não é mesmo ? Fútil e mimada. Já aprendeu a perder, ou ainda corre atrás do Gray como uma cadela ?
–Se está me chamando de cadela, Vastia, saiba que -
–Por que não dá meia volta e sai daqui, Meredy-chan ? — perguntei, cruzando os braços.
–Por que não se coloca no seu devido lugar, Juvia-chan ? — rebateu, rindo seco — Sabe, eu podia ligar pro dono disso aqui, e dizer a ele cada baixaria que você me disse desde que começou a me atender, e eu garanto que -
–Dá o fora daqui, Meredy — Lyon ralhou, impaciente — O dono disso aqui, é a tia dela. Vê se encontra outro idiota pra menosprezar. Aqui não tem lugar pra você. Nem aqui nem em nenhum outro lugar, na verdade. Aceita que dói menos.
–Falou o que mais a aceita a situação em que vive, né ? — Meredy fuzilou-o com olhar. Lyon ergueu uma sobrancelha, em questionamento, e ela não demorou em esclarecer a duvida — Ora, não foi você que deu uma passadinha na delegacia do meu pai , no final do ano passado? Aceita que dói menos, Lyon. Seu pai é um ladrão, e ainda por cima um assassin-
–Retire o que disse ! — o grisalho urrou, lançando-se na direção dela com uma fúria descontrolada. Segurei-o pelos braços, assustada, tentando afastá-lo da rosada, que recuou cerca de dez passos, morta de medo — Eu vou te fazer engolir cada palavra, sua vagabunda ! O meu pai pode ser tudo, mas assassino ele não é ! Ur morreu porque tinha uma doença ! Desde sempre ! Não é culpa dele !
–Ele matou ela de desgosto, por ser um bandido — sussurrou, antes de correr para fora da loja. Lyon debatia-se de ódio, e num último surto, deu-me um soco no estômago, que me fizera cambalear no chão, batendo a cabeça forte numa das prateleiras.
O grisalho estava fora de si, e olhei-o incrédula. Nunca imaginei ver Lyon descontrolado dessa forma. A forma como ele falara com ela, e perdera a cabeça de uma hora para a outra ... fora simplesmente assustadora.
–Lyon ! — gritei alto, fazendo-o se virar. Os punhos cerrados com força total. Ele ergueu os olhos, encontrando os meus, e sua expressão, após alguns segundos, suavizou-se, tornando-se apenas de pura culpa.
–Juvia ... — ele murmurou, engolindo em seco, enquanto ajoelhava-se a minha frente, completamente sem jeito. Mordeu o lábio inferior, puxando os próprios cabelos com força — Eu sou um babaca ... um grande babaca ... — olhou-me novamente, alternando o olhar de meus olhos, para o sangue que escorria do meu nariz — Me desculpe, de verdade. Não queria ... eu sinto -
–Está tudo bem, Vastia — garanti, rindo baixinho, e fraco. A dor na nuca era o pior, e massageei-a com a mão, sentindo uma pontada forte.
Mas não estava tudo bem. O grisalho provavelmente sentia-se bem culpado naquele momento, e eu o compreendia perfeitamente. Entretanto, ainda me sentia bem insegura com relação ao comportamento instável dele. Fora como um choque térmico.
Ainda assim, algo dentro de mim aliviou-se. Era o tipo da situação que eu esperava, cedo ou tarde. Pessoas normais, e humanas, tinham dois lados. Um deles, racional, e , o outro, não. E pensar que Lyon fosse apenas racional, me fazia questionar sua verdadeira natureza.
No entanto, agora, as coisas pareciam mais transparentes entre nós.
–Belo soco — comentei, com ironia. Mas ele não riu.
–Será que pode não fazer piada disso ?
–Não — respondi , olhando-o nos olhos — Eu estou bem, e não foi culpa sua. Bem, talvez a parte do soco sim, ... — ri novamente, e ele me fuzilou com os olhos negros — Ok, seriedade.
–Você é sem noção — murmurou, balançando a cabeça em negativa — Não tem jeito.
Nos entreolhamos durante alguns instantes, e ele levantou-se.
–Vou pegar algo pra ... esses machucados — explicou-se, indo em direção a cozinha. Só não assenti, porque doeria muito.
Uns dois minutos depois o grisalho retornou, com um kit de primeiros socorros, e limpou o machucado em meu nariz, com delicadeza. Murmurei algumas reclamações — próximas de um choramingo — durante o processo, mas nada que o fizesse parar.
–De onde conhecia Meredy ? — perguntei, assim que ele retornou da segunda ida a cozinha, com um saco de comida congelada.
–Coloca na cabeça — ordenou apenas, sentando-se em frente a mim, no chão. Fiz o ordenado, olhando-o atentamente.
–Lyon ?
–Eu, Gray e ela estudávamos juntos — respondeu. Ergui uma sobrancelha.
–E essa é a história ?
–Obviamente, eu não a suportava — comentou, sarcástico — E, ao que parece, agora isso só se intensificou. Piranha ... — sorriu de lado, sacudindo a cabeça ao notar minha careta — Digo, "atirada" patética. Mas a pergunta quem deve fazer sou eu, Juvia. Ela veio até aqui por que, exatamente ?
–Acho que foi um acaso — garanti, dando de ombros.
–Ela não gosta de você pelo seu atendimento precário ? — ergueu uma sobrancelha. Ri, negando com o indicador — Foi o que pensei. Toda vez que ... Argh ! — bufou furioso, cerrando os punhos com força novamente — Toda vez que Gray te faz passar por esse tipo de coisa ... tenho vontade de ir até a casa dele e chutar aquele traseiro de corno. Quem ele pensa que é pra -
Olhei-o assustada.
–Que tipo de coisa ?
–Acha mesmo que ela te tratou mal pelo acaso ? Meredy é o tipo da vagabunda que vai fazer qualquer coisa pra desbancar as rivais — garantiu, num tom repreendedor — Sabe, normalmente eu detestaria perguntar a alguém em quem estivesse interessado esse tipo de coisa, mas .... bem, você é diferente. O que rolou entre você e Gray, e não precisa me contar, o que quer que seja, pode ter chegado ao conhecimento dela ?
–Rolou um beijo — contei a ele, baixo. O grisalho engoliu em seco, entortando a boca em reprovação — E um fora. Ele veio até a minha casa dizer que precisava ficar com ela nesse momento, porque o pai dela tinha falecido.
Lyon estudou-me atentamente.
–Aquele velho sempre esteve prestes a bater as botas — comentou, dando de ombros. Arregalei os olhos, dando-lhe um tapa na perna — O quê ?! Quer que eu defenda o morto ? Detestava ele e ela, de qualquer forma.
–Foi ele quem ... — engoli em seco, olhando-o apreensiva — Prendeu ... É que ela disse que você foi na delegacia dele e -
–Ele e um outro cara que prenderam meu pai, Deliora — desviou os olhos, fitando um ponto qualquer atrás de mim — Invadiram minha casa de madrugada. Meu pai estava bem estranho no dia passado. Ur entrou no nosso quarto, e falou pra eu e Gray nos escondermos. E taparmos os ouvidos. Mas, bem, eu não gosto muito de ordens. Vi a cena inteira, até o momento dele ser colocado com uma arma na cabeça dentro da viatura.
Abaixei a cabeça, ainda pressionando o gelo. Talvez não tivesse sido uma boa ideia perguntar aquele tipo de coisa muito íntima.
–Sinto muito.
–Não esquenta — o grisalho riu fraco, erguendo meu queixo com delicadeza — Vou tirar o coroa de trás das grades, cedo ou tarde, e nada disso vai ter tido importância alguma.
Nos entreolhamos durante alguns instantes, e sorri, mais a vontade.
–Agora, sem querer ser inconveniente ... — ergueu uma sobrancelha, de forma audaciosa — Como Gray sabe onde você mora ? Porque, cá entre nós, me sinto bem na desvantagem sabendo que ele já bateu na sua porta. No bom sentido ! — corrigiu-se, ficando vermelho feito um tomate — Merda, eu que fui malicioso ... Argh ! — deu um tapa na própria testa.
Não aguentei a risada, olhando-o incrédula.
–Você é ... — abri a fechei a boca, sem saber ao certo o que dizer, sem acabar dando falsas esperanças. A parte ruim de saber que Lyon nutria sentimentos por mim, era essa. Vivia me preocupando em não dar-lhe falsas esperanças, e acabava me retesando demais — Digo, você. Err ... divertido.
–Considerei uma cantada — afirmou, dançando as sobrancelhas. Tapei a boca, abafando o som da gargalhada, e o grisalho sorriu, satisfeito — Certo, minha vez de parar com as piadas.
–Melhor.
Nós rimos, e ele desculpou-se de novo pelo soco, altamente constrangido.
[...]
–Três voltas, Lucy — determinou Gray, os braços cruzados rente ao peito. Lucy assentiu, mergulhando em seguida.
Alonguei meus braços, observando o Fullbuster durante alguns instantes. O moreno mantinha olheiras horríveis abaixo dos olhos, e uma expressão de puro cansaço. Mordi o interior da bochecha, controlando-me, enquanto voltava a atenção novamente para a piscina.
–O que vai fazer depois do treino ? — perguntou-me Cana, aproximando-se — Eu e Freed íamos beber depois, pra afogar as mágoas. Está todo mundo num astral terrível esses dias.
–Cana ! — Gray chamou-a alto — Raia 5, duas voltas !
–Hai, Sir — rolou os olhos, alongando-se enquanto andava na direção da raia determinada. Toquei a ponta dos pés com os dedos, curvando a coluna ao máximo, e ignorando a vontade de sair correndo dali.
O clima não podia ser mais desconfortável.
–Gray, eu tenho que sair mais cedo hoje ... — murmurou Freed, aproximando-se do moreno — Tem algum problema ? Loki ainda vai ficar pro treino, então compensa a falta dos outros -
–Já sei — cortou-o com frieza. Engolindo em seco em seguida. Freed ergueu uma sobrancelha, num questionamento mudo — Foi mal, Freed. Só estou ... meio mal.
–Todo mundo notou, Gray — garantiu o outro, suspirando cansado, e tocando o ombro do mais alto de forma fraterna — Já o vi assim antes, quando ... bem, nem parece que superou todos os seus problemas. Você está bem ?
–Vou ficar — disse apenas, gritando em alto e bom som, num tom monótono — Lockser, Raia 2. Três voltas, reveze.
"Lockser".
Então havíamos retornado ao começo, pelo visto.
[...]
Gray P.O.V
[...]
Ouvi o som do celular vibrando, em cima do móvel, e afundei o corpo ainda mais no sofá, sem a mínima disposição de atendê-lo. Fechei os olhos durante alguns instantes, repousando a mão por cima das pálpebras, e ignorando o mundo ao meu redor.
–Gray ! — ouvi o chamado, do lado de fora da casa, e franzi o cenho. Ainda sem mover um músculo. A campainha tocou diversas vezes, e finalmente reconheci a voz de Natsu.
Levantei devagar, caminhando até a porta, e abrindo-a, a contra-gosto.
–Natsu — cumprimentei-o, rolando os olhos — O que foi ?
–Por que não atendeu o telefone ? — perguntou o rosado, fazendo bico.
–Pensei que fosse a Meredy — contei, dando de ombros. O Dragneel bufou irritado, olhando-me de cima a baixo.
–Você está péssimo.
–Eu sei. Veio aqui só pra dizer isso ?
–Não — respondeu, empurrando a porta para abrir caminho, e entrando, sem nem pedir permissão.
Como sempre.
Ignorei o fato ,e fiz o caminho de volta para o sofá, deitando-me ali de novo.
–Preciso conversar ... com alguém — explicou,coçando a nuca. Estudei-o com atenção — Eu sei, também estou péssimo.
–Sobre o que quer conversar ?
–Lisanna.
–Imaginei ... — suspirei cansado, mantendo toda a minha atenção — com muito esforço — nele, que ainda estava de pé, no canto da sala — Senta a bunda ai, Natsu.
–Não, prefiro ficar assim. Se não, não levanto mais.
–É, então melhor não sentar mesmo.
–Engraçadinho.
–Anda logo, fala de vez.
–Eu sei que fui um idiota, Ok ? — sentou-se na poltrona, e rolei os olhos — Mas ... eram muitas coisas. Eu estava chateado pela viagem dela pro exterior ... e ela nem tinha me contado nada ! Dai, depois disso, veio a Lucy. E ela era tão incrível. É tão incrível, e ... depois ela voltou, e os sentimentos voltaram. Eu amo a Lisanna, Gray. Você é o único que sabe disso tão bem quanto eu. Desde criança ... sempre foi ela, a pessoa certa. Que sabia lidar com minha -
–Ignorância — completei, sorrindo de lado. Natsu rolou os olhos — Natsu, eu já sei de toda a sua história. O fato é : Você estava ignorando a Lisanna por dois motivos. Primeiro, porque queria que ela se sentisse tão sozinha quanto você se sentiu quando ela se foi, e, segundo, porque Igneel estava botando pressão na sua relação com a Lucy. Mas, cara, teoricamente, e fisicamente, você não chegou a trair ela. Ainda é um namorado fiel. Mas babaca. Principalmente babaca.
–Quer enfatizar mais ? — rosado bufou.
–Babaca — adicionei, sarcasticamente — De qualquer forma, isso só te tornou um babaca maior ainda — ele riu seco — e fez mal a ela. Mas a decisão tem que ser sua. Ignore o Igneel, e todo o resto. De qual das duas você realmente gosta ? Porque sabemos que a Lucy meche com você, apesar desse seu amor pela Lisanna, desde que eram criancinhas insuportáveis e blá blá blá.
–Isso nos leva ao segundo tópico — comentou ele, casualmente — Sua relação estranha com a Meredy. Gray, eu sei que ela precisa de você, e tudo o mais ... mas já deve ter notado que ela ... está te fazendo ... mal, cara. Você está exatamente igual a época em que Ur morreu, e ... isso é muito ruim. De verdade.
–Eu fico ... — engoli em seco, dividido entre ativar a defensiva, ou ser simplesmente sincero — Lembrando ... de tudo. Cada memória ruim. Quando Ur morreu, quando ... culpei Deliora ... quando Lyon veio me acusar de ser o culpado pelo pai dele estar preso ... e , principalmente, quando Ultear foi embora. E me deixou aqui. Eu estava tão sozinho quanto ela ... e por isso mesmo que não vou deixá-la agora.
–É legal ter compaixão Gray — disse o rosado, levantando-se — Mas deve ter compaixão por si mesmo, também. Eu sei que não faz o seu tipo, mas seja um pouco egoísta. O suficiente pra ver o quão mal você está, pra deixá-la bem. Vale mesmo a pena ?
–Você não sabe de nada — ralhei, sem nem olhá-lo.
–Ah, eu sei de muitas coisas. Principalmente do quão babaca meu melhor amigo está sendo com ele mesmo, e com a garota que ele gosta.
Olhei-o surpreso.
–Não me olhe assim, Gray. Juvia é a menina certa ... e você está deixando ela ir. Porque é um babaca, tanto quanto eu. Não faça isso. Algum dia, ela ... alguém vai encontrar nela o que você não está querendo ver, e ai, cara, você vai ter que ralar.
–Como se eu me importasse — rolei os olhos. Natsu riu, sem humor algum.
–Se esconda o quanto quiser atrás das suas ironias, olhos caídos. Não vai funcionar comigo.
Virei de lado no sofá, com o rosto de frente para o encosto, de costas para Natsu.
–Pense no que eu disse sobre a Meredy.
–Vá pro inferno, Dragneel. Eu posso cuidar da minha vida.
–Ah, eu estou vendo ! Muito bem, por sinal.
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