Neon Lights

19 Capítulo 19 - Virando o jogo


Notas iniciais
Agradeço os comentários e apoio de todo mundo. Ok, sem preconceitos agora, tá ? Nada de tirar conclusões precipitadas sobre o nível de babaquice do Gray. KKKKK' Enfim, boa leitura ! Ahhhhhh, e MUITO OBRIGADA A RECOMENDAÇÃO DA LEITORA : CarolHust

Meia hora depois do inicio da aula, o professor Ichiya, que tinha potencial pra ser o velho mais escroto e tarado da face de Terra, tagarelava sobre perfumes e suas fragrâncias, em plena aula de Geografia. Como acabava fazendo em quase todas as aulas.

E enquanto ele falava, passei a rabiscar a folha de trás do meu próprio caderno, entediada. O trabalho e os treinos vinham me deixando mais cansada do que de costume. Quase não tinha tempo para fazer os deveres, e conversar com a obaasan, devido a rotina corrida.

Mas, no geral, ambas as atividades tinham seus pontos altos. Meu tempo de voltas estava diminuindo gradativamente durante os treinos mais recentes. Já no trabalho, a padaria estava recebendo cada vez mais clientes e encomendas, movimentando bem o local. A namorada da vovó estava lucrando como nunca.

Sem falar em Lyon. Estávamos cada vez mais próximos, e tinha de admitir que sua companhia me agradava, e muito, durante as tardes. Era o tipo de pessoa que me lembrava o Jellal. Irônico ao extremo, debochado, e de bom coração.

Fui retirada de meus devaneios com três batidas a porta da sala, que interromperam o discurso/blá blá blá de Ichiya-sensei. O velho olhou pela janelinha da porta, e assentiu pra quem quer que fosse.

Gray Fullbuster puxou a porta lentamente, colocando apenas metade do corpo para dentro da sala. Meu coração automaticamente se apertou ao vê-lo. A expressão exausta, e deprimida. Nem parecia mais o mesmo garoto determinado e inabalável.

–Ichiya-sensei, eu ... estou meio atrasado, mas posso assistir o restante da aula ?

–Só são permitidos, no máximo, quinze minutos de atraso, Senhor Fullbuster — afirmou o professor, olhando-o em reprovação — E creio que tenha se passado o dobro disso.

–Sim, eu sei, mas estava na enfermaria — garantiu o moreno, entrando totalmente com o corpo. A voz bem mais rouca que o habitual. Ichiya ergueu uma sobrancelha — Eu te entrego um atestado médico de lá, no intervalo. Juro que estou falando a -

–Certo, Senhor. Pode sentar-se — rolou os olhos, retornando ao tablado de onde havia saído, em frente ao quadro branco — Sem mais interrupções, não é ? Como eu estava dizendo, no campo, os aromas mais naturais são sempre ...

Observei Gray durante todo o seu trajeto até sua mesa. A forma como ele escorou-se na cadeira, até quando seus ombros relaxaram, e tombou a cabeça para trás, derrotado. Tudo exalava uma atmosfera diferente da normal. Ele estava doente. Não de forma física, suponho. Nem mesmo seus olhares estavam tão cortantes quando deveriam. E isso era mal. Muito, muito, mal.

Mesmo estando magoada com os antigos acontecimentos, aquela situação me deixava extremamente preocupada. E não só a mim, já que Natsu virara de costas assim que o moreno se sentara, questionando-o sobre qualquer coisa, que eu tinha certeza de ser sobre seu estado naquela manhã.

Logo as aulas cessaram-se durante alguns minutos, e fomos liberados para o intervalo, onde me juntei a Jellal e Lisanna, na árvore habitual.

–Ohayo, Jelly — cumprimentei-o, sentando ao seu lado na raiz da cerejeira. O azulado contentou-se em rolar os olhos, mordendo um pedaço do seu biscoito recheado — Tá de mal humor essa hora ?

–Se eu for educado ao ponto de te responder bom-dia, vou ter que oferecer meu lanche — explicou-se dando de ombros — E isso eu não vou fazer.

Ri seco, e foi a minha vez de rolar os olhos. Jellal sempre seria Jellal, no fim das contas. Com explicações mais que obvias — em sua cabeça — para seu comportamento deplorável.

–Pessoal ... — Lisanna nos chamou, engolindo em seco. Olhei-a com atenção, franzindo o cenho.

–Está tudo bem ?

–Não. Na verdade, está tudo péssimo — deixou-se cair na grama, afundando a cara nos joelhos — Natsu me chamou pra conversar, tipo, daqui a uns dois minutos. Ele me abordou na cantina, disse que queria conversar em cinco minutos, e nem me deixou responder nada. Mas ... eu não quero ... fazer isso.

–Por que não ? — fora Jellal quem perguntara. Por mais estranho que isso fosse.

–Tenho medo do que ele vai dizer — explicou ela, ainda sem mostrar o rosto. O tom de voz abalado — E de acreditar nele.

–Você nem sabe se ele vai se justificar pelo que fez — o azulado argumentou, dando de ombros — Acho mais provável que ele apenas peça desculpas, pra tentar melhorar o clima do grupo, coisa e tal.

–A gente nem anda mais com o grupo — eu disse, suspirando cansada — Mas talvez você realmente devesse ouvi-lo, Lisanna. Afinal, vocês são, acima de ex-namorados, amigos de infância. É algo bem mais intenso do que ... bem, enfim, acho mesmo que devia ir.

–Tive uma ideia ! — a albina sorriu de orelha a orelha, erguendo a cabeça — Juvia, você vai comigo !

–Nani ?! — eu e Jellal perguntamos, em uníssono.

–Assim ele não vai me manipular com ... qualquer tipo de discurso pré-aquecido de microondas.

–Vou anotar essa — comentou Jellal, rolando os olhos — Mas concordo com a ideia.

–Ah, você concorda ? — ri, sem humor algum — Isso é ridículo, pessoal. Sem chances de eu ser útil.

–É, tem toda razão. Por isso mesmo que deve ir — o azulado sorriu de canto, sarcástico.

–Vá a merda.

–Já estou nela.

[...]

Lisanna estava incrivelmente nervosa. Movia os dedos, batendo-os um no outro, enquanto fitava a porta da sala com ansiedade.

–Ele já deve estar chegando — disse, tentando acalmá-la. A albina me fuzilou com os olhos, cruzando e descruzando as pernas. Ela estava sentada em cima da mesa de uma das primeiras carteiras, e eu de pé, apenas aguardando a chegada do rosado.

E o pior era saber que o maldito do Jellal devia estar gargalhando em algum lugar por ai, enquanto lia seus livros psicóticos, e planejava o fim da humanidade como conhecemos. Uma vez, ele chegou a me dizer qual era o seu real objetivo. Reconstituir o mundo de indivíduos mecânicos e sem vida, onde ele fosse uma espécie de Imperador Supremo.

É lógico que, depois de argumentar, ele me prometeu um posto digno de melhor amiga, como Boba da Corte do Imperador. Apesar dele afirmar que eu seja realmente sem graça para o papel.

–No que está pensando ? — perguntou-me ela, com seriedade.

–No trabalho — menti, descaradamente. Lisanna assentiu, quando ouvimos a porta ser puxada com força, e um Natsu se colocar, cambaleante, para dentro dela. Com ninguém menos que seu fiel escudeiro dos infernos, Gray Fullbuster, atrás de si.

Engoli em seco, e Gray parecia tão surpreso quanto eu, já que seus olhos se arregalaram ao focalizarem-se em mim.

–Lockser ?

–Gray ?

Desviei o olhar, e ele fez o mesmo. Natsu coçou a nuca, sem jeito perante aquela situação. O rosado pigarreou alto, e Lisanna olhou-o nos olhos, em expectativa.

–Lisanna ... é ... será que ... podíamos conversar ? Em particular — acrescentou, olhando em minha direção — Gray, pode ir.

–Lisanna, você quer que eu — ergui uma sobrancelha quando senti a mão de Gray em meu braço, puxando-me em direção a saída — O que você -

–Vamos deixá-los fazerem isso sozinhos — murmurou, rolando os olhos e fechando a porta novamente, conosco do lado de fora. O moreno escorou-se na parede, batendo com a cabeça na mesma, duas vezes consecutivas. Os olhos fechados em repouso.

Analisei-o durante alguns instantes, num dilema interno. Ir embora o quanto antes, ou ficar e tentar, de alguma forma, ajudá-lo. Éramos colegas acima de tudo, não é ? Então o que custaria ser , ao menos, cordial ?

–Você está bem ? — perguntei, casualmente. O Fullbuster permaneceu em silêncio, e, subitamente, escorregou o corpo pela parede, até o chão, sentando-se acabado. Abriu os olhos, e nos entreolhamos pelo que pareceram minutos.

–Não é um dos meus melhores dias — comentou, sarcasticamente.

Seja sensata. Não emocional. Racional, Juvia. Seja racional.

Aproximei-me dele aos poucos, sentando ao seu lado, abraçada aos meus próprios joelhos, com uma distância de mais ou menos um metro entre nós dois. Mantive meus ouvidos atentos a conversa que se seguia dentro da sala, sem conseguir ouvir absolutamente nada.

–Por que ainda estou aqui ... ? — perguntei, mais para mim mesma, num sussurro.

–Acho que pra impedir que alguém interrompa — respondeu Gray, num tom monótono. Olhei-o pelo canto dos olhos, constatando que o moreno estava com o rosto virado em minha direção. Permaneci reta, sem contato visual direto. Aquilo não daria certo.

–É — concordei, dedilhando a barra da meia longa, distraidamente.

–Acho que eles vão se sair bem — ele disse, baixo, porém de forma audível. Espiei de novo, e , infelizmente, ele permanecia com o rosto na minha direção.

–Eles ? Natsu, você quer dizer. Ele não pretende se justificar, não é ?

–Não acha que ele tem esse direito ?

Trinquei os dentes, virando o rosto em sua direção, e encarando-o de frente. Seus olhos negros fixos nos meus de forma intensa.

–Ele tem o direito, e o dever, de se desculpar — garanti, de forma direta — Não de se justificar. Lisanna nem devia ter vindo até aqui, pra começo de conversa.

–É, mas ela veio — o moreno rebateu, igualmente rude — E não é nem da sua, nem da minha conta, se ele vai ou não se justificar, ou se desculpar. Acho engraçado você ter essa ... teimosia de detestar o Natsu.

–Eu não o detesto — resmunguei, a contra gosto — Só acho que ele está errado em quase todas as situações. Além disso, ele não precisava revirar esse passado quando ... Lisanna pode muito bem arranjar outra pessoa. E ela estava prestes a fazer isso.

–Ah, você está falando do garoto do Parque, o loiro — ele riu seco, erguendo as sobrancelhas — Sting Euclife, da Sabertooth. Sinto muito em te dizer, mas ele é o maior babaca de Magnólia. Pega cinco garotas por noite, em dia de semana. Se a Lisanna quer entrar pra lista, e você vai ajudá-la, melhor pensar bem antes. Seu senso pra pessoas é horrível, Juvia.

Juvia. Ele me chamou de Juvia. Pelo primeiro nome.

Argh ! Foco, Juvia. Foco.

–Ah, o meu senso de pessoas é horrível, Gray ? — franzi o cenho, desafiadora — Porque não me diz um exemplo, sem ser você, é claro.

–Sem ser eu ... ? — ele olhou-me, em questionamento, engolindo em seco em seguida. A expressão de espanto dele, diante da indireta cruel, fora tão mais tão incrédula, que tive de tapar a boca pra conter — bem mal — a gargalhada. Mas era impossível. Quase podia ver o ponto de interrogação em sua testa.

–Me desculpe — murmurei, entre risadas altas, e histéricas. Gray observava-me assustado, e , depois de refletir um pouco, ele riu também, um pouco menos escandalosamente — Não quis ... soar rancorosa.

–Conseguiu me fazer me sentir um lixo — afirmou, rindo seco.

–É sério, não pense que eu ... estou depressiva pelas coisas que me disse na minha casa, aquele dia ... — engoli em seco, sem jeito. Gray me olhava atentamente, o que só tornou a situação ainda mais estranha — Digo, eu fiquei mal na hora, mas ... entendo seus motivos. Realmente não ligo mais pra isso.

–Ah, você não liga — não soara exatamente como um comentário. Quase parecia que o moreno estava me perguntando. Olhei-o com curiosidade, e ele fitava um ponto qualquer na parede oposta, indiferente — Você ... trabalha com o Lyon, né ? No meio período.

–Sim — respondi, erguendo uma sobrancelha. Que atitude mais estranha.

–E vocês ... estão se dando bem ?

–Sempre nos demos.

O Fullbuster engoliu em seco.

–Foi ele quem te fez não ligar mais ? — perguntou, virando o rosto em minha direção, e encontrando meus olhos. Pela primeira vez, vi sua máscara de indiferença completamente exposta. Ele estava chateado. Cada traço de seu rosto evidenciava isso.

–Gray ... — olhei-o com atenção, mordendo o interior da bochecha, hesitante — Não ... -

O que eu devia dizer a ele ?! Oh, merda.

O sinal tocou alto pelos corredores, e o moreno levantou-se depois de uns segundos, deixando-me ali. Caminhou pelo corredor, desaparecendo em meio a multidão de alunos, sem a minha resposta.

[...]

Decidi que não apareceria no treino de hoje por dois motivos. O primeiro, eu estava exausta. Completamente acabada. O segundo ... bem, eu realmente não queria ter que ouvir Freed dando as ordens no lugar de Gray, já que o moreno — mesmo sendo o Capitão — estava cada vez mais ausente no Clube.

–Onde está indo ? — perguntou-me Lisanna, constatando que eu caminhava com ela em direção ao Portão Principal — Não tem treino hoje ?

–Resolvi matar — contei, dando de ombros — E você precisa me contar com detalhes sua conversa com -

–Somos dois — afirmou Jellal, parando ao nosso lado — E ai, perdi alguma coisa ?

–Perdeu — garantiu a albina, enquanto andávamos pela calçada, já do lado de fora do Fairy Tail — Natsu disse que me ama.

Nós dois arregalamos os olhos, virando na direção dela.

–Ele o quê ?!

–Disse que me ama. Que sentia muito por tudo, mas que estava magoado com o que eu havia feito, de ter ido pro exterior sem avisar ele ... e depois, Igneel, aquele velho maldito ! Ele pediu pro Natsu ficar com a Lucy, e começou a colocar pressão no Natsu. Disse que ele gosta muito mesmo da Lucy, e que tem por ela um sentimento diferente do que tem por mim. Algo como ... uma friendzone meio bizarra.

–Ele disse isso ? — Jellal ergueu uma sobrancelha.

–Eu traduzi isso, porque ele estava falando meio enrolado — explicou ela, suspirando cansada — Falou também que nunca me traiu, e que eu podia perguntar isso a qualquer um. Ai eu disse que a traição dele tinha sido de confiança, e ele concordou. Pediu desculpas por ter sido um idiota, e disse que me amava, de novo.

–E o que você disse ? — perguntei, assustada.

–Que também amava muito ele — respondeu, calma. Pigarreei alto, mas ela ignorou o protesto — E eu realmente o amo, Ok ? Sei que posso estar soando idiota. Mas eu sou mesmo. Idiotamente apaixonada por ele.

–Mas ... — cerrei os punhos, irritada — Você não pode ter perdoado ele ! Isso quer dizer que vocês voltaram, simplesmente ? Passou uma borracha em tudo o que ele disse ?! E quanto ao que ele fez ?! E quanto ao Sting?!

–Sting ... é só ... um garoto como qualquer outro, Juvia — afirmou Lisanna, impaciente — E não sei se nós voltamos, na verdade, acho até que estamos longe disso. Mas se fosse acontecer, aconteceria, de qualquer forma. O que sinto por ele é mais forte -

–Pare de falar feito uma menina sonhadora, Lisanna ! — interrompi-a, furiosa, enquanto apontava o indicador em sua direção. Aquilo era inaceitável. Quase senti vontade de chorar, de tanto ódio. E nem entendia ao certo a razão de todo aquele drama. A vida era dela, não era ? Então por que eu estava tão chateada ?! — Você está sendo burra !

–Você está sendo infantil, Juvia — Jellal rebateu, friamente — Controle-se, certo ? Não afogue suas mágoas nos outros. As pessoas tem o direito de perdoarem umas as outras, quer seja certo, ou não. E Lisanna ... é bom que pense mais sobre tudo isso, sim ? Nada de reatar um namoro que já era fracassado.

Engoli em seco, e ficamos, durante alguns minutos, num silêncio desconfortável. Até que Lisanna o quebrou, felizmente. Afinal, não estava no clima para ter minha primeira discussão de relação com Jellal. Nem com ela.

–É, pensei bastante sobre isso esses dias e ... sabe, talvez eu tenha desistido fácil demais de lutar por ele. E eu sei que não é culpa da Lucy, e sim dos acontecimentos, mas ... mesmo que não seja culpa dela, e ela tivesse todo o direito de ter o Natsu pra ela, por que eu teria menos direito do que ela ? Por que eu não posso lutar também ? Afinal, mesmo que isso soe mal, ele é um dos meus objetivos. Ou ao menos já foi. E se, ao envés de aceitar direto ir pro exterior, eu tivesse ficado ... ficado por ele, acho que tudo poderia ter sido diferente.

"Por que eu teria menos direito do que ela ?"

Constatei que a frase me soava bem convincente no exato momento em que meus olhos encontraram a praça pela qual estávamos passando, de formato retangular. Mais ao seu canto, acumulavam-se várias flores, num jardim que — mesmo durante o outono — parecia estar em plena primavera.

Uma explosão de cores e belezas naturais. Não contrastando muito bem com o céu, que encontrava-se nublado.

Demorei o olhar naquele canteiro, até avistar, não muito longe dali, uma figura familiar, caminhando. De longos cabelos rosados e pernas compridas, aquela era, mesmo a distância, Meredy.

–Erza está furiosa com Gray — afirmou Jellal, ao meu lado, olhando-me de canto — Ele ia, de novo, se encontrar com Meredy.

–Quando ? — perguntei, sem tirar os olhos da figura feminina ao longe.

–Hoje. Depois da aula. Devem estar se encontrando nesse momento, na verdade — ele deixou as palavras no ar, de forma misteriosa — E você, Juvia ? Não concorda com a Lisanna ?

–Concordo no quê ? — olhei-o finalmente, erguendo uma sobrancelha.

–Por que você teria menos direito do que ela ? — repetiu, num tom de indireta certeiro. O azulado sorriu de lado, e finalmente entendi a razão dele ter me contado sobre Erza, ainda agora.

–E o que eu teria a ver com isso ? — perguntei, forçando um tom indiferente. Lisanna e Jellal me olharam, descrentes.

–Sabe ,Juvia, todos nós sofremos desilusões amorosas — comentou o Fernandes, com seriedade — Porque somos burros o bastante para culparmos as pessoas pelas quais nos apaixonamos, de nos iludirem. Mas somos nós mesmos que nos iludimos. Entende o que eu quero dizer ? Gray não é culpado por de rejeitar, e te beijar depois. A culpa é sua de ter muitas expectativas sobre coisas que são apenas fatos.

–Mas e quanto ... a Meredy ? Acabou de dizer que Erza estava com raiva — fora Lisanna quem o questionara. Preferi permanecer em silêncio, divagando sobre aquilo.

–Ele acha que ficar com ela é a forma de ajudar — respondeu ele, cruzando os braços — É burrice. Mas eu sempre soube que eles eram idiotas. Mas que porra ! Será que podem me fazer menos conselheiro desse caralho ?! Juvia ?

Olhei-o com atenção.

–Ele deve estar nessa praça, então corre, e tenta achar ele antes dela logo, cassete — afirmou, o olhar cerrado em determinação — Não perca tempo, Ok ? E não faça nada que eu não faria ! O que vai ser bem difícil. Me dá aqui essa merda dessa mochila — lancei o objeto pra ele,

–Arigatou, Jellal — sorri a ele, recebendo um afago nos cabelos. Instantes depois, já avançava em alta velocidade pelas escadarias, descendo até onde encontrava-se o parquinho. As crianças olharam-me atônitas, e tratei de apenas ignorá-las, continuando a corrida através da praça.

O próximo local era a academia ao ar livre, para idosos, mais especificamente. E, novamente, todos os presentes me encararam em choque. Devia ser uma situação estranha afinal.

Árvores e cerquinhas passavam ao meu lado, enquanto seguia correndo pela trilha de terra, saltando cachorros e outros mascotes de dondocas. A maioria murmurava xingamentos quando levava esbarrões, e meus olhos apenas buscavam uma pessoa em especial. Haviam dois jardins naquela praça; um com flores azuis, e, o outro, com flores rosas. Era um hábito dos moradores daquele bairro, de plantarem plantas do mesmo tipo em duas áreas diferentes, para tornar o colorido mais intenso.

Nesse momento, eu estava em frente ao azul, o exato oposto do rosa, onde havia visto Meredy caminhando, anteriormente.

Foi quando o vi. As mangas do casaco da escola, azul marinho, dobradas até os cotovelos, com os três primeiros botões da camisa social branca abertos. Os cabelos negros ao vento da tarde. Gray estava lindo, como sempre, mas naquele momento, algo dentro de mim sentiu-se ainda mais animado e vivo. Toda aquela paixão, havia subitamente retornado. Eu o queria pra mim.

E com isso em mente, usei o restante do meu fôlego pra acelerar o ritmo da corrida. Desci dois degraus largos que levavam até o jardim, num plano mais baixo, e me aproximei dele tão rápido, que o moreno mal notou quando fora subitamente atacado por uma colegial obcecada.

A força do impacto fora tanta que só restara ao Fullbuster a opção : cair dentro do canteiro de flores. Comigo de brinde, é claro. Cai sentada em sua barriga, com as mãos em seu ombro, pressionando-o contra a terra — e algumas flores esmagadas por nosso corpos.

–J-Juvia ?! — ele engoliu em seco, olhando-me assustado — Você enlouqueceu de vez ?!

–Eu tinha que te dar a sua resposta, Gray — afirmei, olhando-o determinada — Eu ligo, e muito, pra você, e para o que aconteceu entre nós. E Lyon não tem nada a ver com isso. Eu sei que já disse, mas vou repetir mesmo assim. É por você que sou apaixonada. E provavelmente você não tá nem ai pra isso, mas , eu não quero que você fique com a Meredy. Ela só te faz mal, e mesmo que você faça bem a ela, é com você que eu me importo, Ok ? — meus olhos já estavam pra lá de marejados. Maldito sentimentalismo — Eu não quero que você sofr-

Ele tapou minha boca de repente, levando o indicador aos próprios lábios, e fazendo um sinal de silêncio. Corei violentamente, desviando os olhos, imaginando o quão idiota o Fullbuster devia estar me achando.

–Gray ?! — a voz melodiosamente feminina fez-se presente, chamando-o. Nos entreolhamos e ele me puxou para si, fazendo com que eu me deitasse sobre ele, e as flores ocultassem nossa presença ali. Minha cabeça estava contra seu peito, e podia ouvir perfeitamente seus batimentos cardíacos acelerados, devido a queda.

Os passos tornaram-se mais próximos, até, alguns instantes depois, afastarem-se de novo. Meredy devia ter ido procurar ele. Ergui o corpo, na intenção de me levantar, quando as mãos dele vieram desastrosamente me impedir. Desastrosamente, porque acabaram pressionando meu quadril — e com quadril, eu não quero dizer algo como cintura, e sim como bunda — de volta para baixo. Ao notar o que estava fazendo, o moreno ficou vermelho como um tomate — tal como eu — e retirou as mãos de mim.

–F-Foi mal ! — desculpou-se, desviando os olhos, e erguendo as costas de forma desajeitada. O movimento fora tão imprevisto, que acabei por cair sentada em seu colo. Nossos rostos a apenas centímetros de distância, ambos altamente ruborizados. Ele coçou a nuca, olhando-me nos olhos, de forma curiosa — Você é muito sentimental, Juvia.

Só quando ele disse isso, reparei que estava chorando. Tipo, aos prantos, praticamente. As lágrimas escorriam como numa cachoeira do canto dos meus olhos. O moreno riu baixinho, e , num movimento que não tive como prever, abraçou-me com firmeza. Encarei-o com atenção, notando que seus olhos estavam levemente marejados. E , por Deus, como aquilo era fofo em alguém como ele.

–Quando foi que ficou tão determinada ?

Afundei o rosto em seu ombro, envolvendo seu pescoço, sem nem ao menos pensar se aquilo era ou não certo.

–Eu ... sinto muito mesmo, e agradeço sua preocupação comigo — comentou, baixo. Para em seguida acrescentar, — Mas eu não posso te prometer nada agora, Juvia. Meredy ... eu sei que parece que sou só um babaca, e talvez eu realmente o seja, mas não vou deixá-la agora. Quando Ur morreu, foi ela quem me consolou. Minha irmã mais velha simplesmente foi embora de casa, durante a doença, e o imbecil do Lyon só pensava no pai preso. Era Meredy que estava lá, e agora eu quero estar aqui, com ela.

Olhei-o atentamente. E pela primeira vez desde que ele comentara a razão de estar com Meredy, eu o compreendi. Realmente. Era como uma questão de honra, pra si mesmo. Um tipo de dever que ele tinha com ela. Mas ainda assim, era uma mentira. Hipocrisia. Ele estava enganando-a, e mesmo que ela soubesse disso, ainda era errado. Errado com ela, com ele, e comigo. A pessoa a quem ele dava esperanças, como em momentos como esse.

–Já entendi — afastei-me dele aos poucos, deixando-o surpreso — Eu ... tenho que ir.

–Ah, você tem que ir ? — ele riu, rolando os olhos — Depois de me lançar no jardim ?

–É a vida — comentei, sarcástica, enquanto retirava os matinhos e gravetos da saia, já de pé. O Fullbuster levantou-se em seguida, e saímos do canteiro, recebendo olhares assustados das pessoas ao redor.

Estava prestes a deixá-lo, morta de vergonha, quando meu braço foi segurado pelo moreno. Pela segunda vez naquele dia. Virei-me em sua direção, de cenho franzido. Gray já ia se aproximando sorrateiramente, os olhos focados em meus lábios, quando simplesmente meti a mão em sua cara, afastando-o de mim.

–Não — sacudi a cabeça em negativa — Também não te prometi nada.

Ele soltou-me, analisando-me assustado, enquanto eu simplesmente me afastava, com um andar mais cronometrado que o habitual. Algo na minha garganta coçava, da melhor forma possível. Talvez o doce sabor da revanche. Então era assim que era se sentir por cima.

[...]

Jellal gargalhava, batendo na própria coxa.

–Repete a última parte vai, só mais uma vez.

–"Também não te prometi nada" — rebolei o bumbum , pra enfatizar, enquanto o azulado e a albina gargalhavam em conjunto.

–Essa foi a melhor !

–Mas você não rebolou na hora, não é ?

–Não, não. Só meti a mão na cara dele, — ri com eles, balançando a cabeça — Me arrependi profundamente depois, mas ... quis tanto ver a cara dele quando recebesse o primeiro não vindo de mim, sabe.

–Isso foi muito bom, Juvia — afirmou Lisanna, sorrindo de forma orgulhosa — Você precisava disso, e ele também.

–Se chama valorizar — concordou Jellal, deitando-se em cima da minha cama, após retirar as botas negras — Nada dá certo sem que haja isso, de ambas as partes.

–Olá, meninas, posso oferecer uns biscoi- obaasan fuzilou Jellal com o olhar — Criatura de gênero masculino.

–É um prazer conhecê-la — debochou Jellal, erguendo uma sobrancelha — Mas pode me chamar só de Jellal.

–Ah, então é você o menino com "aquele" problema, que a minha Juvia estava falando — ela sorriu mais animada — Seja bem-vindo a família onde pode ser você mesmo, Jelly-chan.

–Jelly-chan ? — Lisanna repetiu, tapando a boca para prender a gargalhada.

–Preconceito é a única coisa que não aceito nessa casa, sim ? — obaasan colocou uma bandeja de biscoitos em cima da cômoda — Se por acaso seus pais não te aceitarem, quando descobrirem, sempre haverá um lugar aqui pra você !

Ela deixou o quarto, e, em seguida, fui brutalmente atingida pela bota de Jellal.

–O. Que. Foi. Que. Você. Disse. Para. A. Sua. Avó ?!

A gargalhada de Lisanna foi a última coisa que ouvi, e depois tudo ficou escuro.

[...]

Mais tarde, naquele mesmo dia, poucos minutos antes de apagar as luzes para dormir, meu celular vibrou em cima do criado-mudo.

Caminhei até o mesmo, desbloqueando a tela, quando vi a mensagem que havia acabado de receber.

Lyon.

"Será que podemos nos ver sem ser no trabalho ¬¬ ? NADA DE ENCONTRO, EU JURO O/ "

Ri baixinho, enquanto observava a namorada da vovó passar pelo corredor, em direção ao quarto.

–Ayane-chan ! — a chamei alto. Ela veio até a porta, em seguida, massageando as têmporas — Você está bem ?

–Dor de cabeça — respondeu, indiferente — O que foi ? Algum problema ?

–Ahn ... Ayane-chan, você vai dormir aqui amanhã também ? — perguntei, casualmente.

–Sim, eu pretendia. Por que ?

–Será que pode convencer a vovó a me deixar sair com o Lyon ? Não é um encontro !

Ela riu, recostando-se na porta.

–Depois do Jellal ter sido descoberto hétero, e aquele outro menino te fazendo chorar aqui na porta ... creio que ela não vá aceitar isso — afirmou, coçando a nuca. Fiz um bico contrariado — Mas, caso ele aceite, por que não o chama para jantar conosco ?

–Jantar ... aqui ? — engoli em seco — Seria desastroso !

–Sua avó vai se sentir mais segura assim, e , eu gosto do Lyon-kun. Amanhã a noite. Prometo fazer uma comida digna de fogão, ok ? Nada de microondas !

–Hai, Hai — suspirei cansada, sentando na cama com o celular em mãos. Ela sorriu satisfeita, fechando a porta novamente.

Fitei a tela durante alguns instantes, respirando fundo antes de digitar uma resposta.

" Estou meio que de "castigo", ou seja, ... eu sei que vai parecer vergonhoso, mas quer jantar aqui em casa amanhã ? "

Enviei, nervosa. Que tipo de pessoa chama alguém pra jantar na própria casa ? Adolescentes não fazem esse tipo de coisa ! É fora de cogitação.

" Por mim tudo bem. Hm ... então vou conhecer a sua casa :P "

" Achei que tínhamos combinado NADA DE CANTADAS U.U "

" Eu não faço o tipo que segue ordens, lembra ? .-. "

" Perai, vou responder o Gray na outra conversa, depois falo com você haha "

" Golpe baixo ¬¬ "