Neon Lights
17 Capítulo 17 - A tempestade que chega
Notas iniciais
Gostaria realmente de dizer que acordei com um sorriso estampado no rosto e uma felicidade tão intensa que tornou meu hálito de menta, mesmo durante a manhã. Mas isso só seria parcialmente verdade.
O sorriso podia até estar ali, mas em momento nenhum meus olhos haviam se fechado. Dormir não tinha sentido algum quando já se estava sonhando. Ah, e quanto ao hálito ... realmente passava bem longe de ser de menta.
–Juvia, já estamos -
–Bom dia — cumprimentei Erza, abrindo-lhe um sorriso de orelha a orelha — que mais ou menos já estava ali antes dela falar comigo -, enquanto saltava do colchão com uma animação sobrenatural, se comparada a dela.
–Ahn ... — a ruiva ergueu uma sobrancelha, desconfiada — Está tudo bem ?
–Perfeito — garanti, rindo sozinha — Melhor impossível.
–Lucy ainda está no banheiro, mas assim que ela sair, pode tomar banho.
–Sim, sim.
Joguei-me em qualquer cama de costas, abrindo braços e pernas feito uma estrela do mar, e espreguiçando-me ao máximo. Escutei a porta bater duas vezes, e praticamente lancei-me pra fora do colchão, abrindo-a num baque alto e desesperado.
Gajeel ergueu uma sobrancelha, assustado. Ele e Levy me olhavam atônitos. Sorri a eles, divertida.
–Bom-dia, Gajeel-kun, Levy-chan — sorri ainda mais. Levy franziu o cenho, analisando-me de cima a baixo.
–O que deu em você, Juvia ? — perguntou o moreno, cruzando os braços — Não bebeu escondido de manhã, né ? Porque não tô afim de carregar ninguém de ressaca.
–Eu estou bem, Gajeel — murmurei, rolando os olhos — Não seja estraga prazeres. Vamos tomar café !
Dei um passo pra fora do quarto, e Erza me puxou pela gola do camisetão.
–Esqueceu que está de pijama, Juvia ? — perguntou ela, num tom repreendedor.
–Ah, é verdade — desatei a rir, histericamente, abraçando Levy com força em seguida, que arregalou os olhos , sem entender absolutamente nada.
–Juvia-chan ... — ela engoliu em seco — Por que tanta felicidade ?
–A vida, Levy — sussurrei, jogando-me na cama de novo, e fechando os olhos de forma sonhadora — É linda. Um mar de luzes, e ... amor. O mais puro e verdadeiro amor.
Todos se entreolharam, desconfiados.
–Eu não quero preocupar ninguém ... — comentou Gajeel, coçando a nuca — Mas é melhor ligar pro Jellal.
–Rápido — acrescentou Levy. A Titânia concordou com a cabeça, pegando seu celular.
[...]
–Hey, diminui ai, idiota — Jellal puxou meu braço, evitando que a hóspede levasse o esbarrão do ano. O Fernandes bufou, rolando os olhos — Eu sei que deve estar enxergando até os átomos da cadeira nesse momento, Juvia, mas esfria esse rabo. Ele não vai fugir da mesa do café assim, ok ?
Mordi o interior da bochecha, apreensiva. Não era como se as coisas fossem tão simples assim. Eu queria ver Gray, conversar com ele. Segurá-lo antes que ele fugisse por entre meus dedos.
–Ainda temos que resolver o problema da Lisanna — comentou, de má vontade — Detesto ser conselheiro amoroso de vocês, e nunca escondi isso, mas parece que quanto mais o tempo passa, mais assumo essa porra de posto.
–Pode pedir demissão — comentei, com ironia. Jellal fuzilou-me pelo canto dos olhos.
–Pode calar a boca — rebateu, frio como sempre. Dei de ombros.
–Lisanna não precisa da nossa ajuda. Ela resolveu tudo ontem, e agora é só questão de tempo até tudo melhorar.
–Você fala como se não a conhecesse — ele riu seco — Vai ser uma novela mexicana de dois meses, no mínimo. Mas pelo menos ela arranjou aquele ser recém-solto da cadeia de ontem.
–Só diz isso porque o Sting lembra você — alfinetei, rindo em seguida — O jeito "eu digo o que eu quero, porque eu sou mais eu".
–Posso citar três coisas em mim que ele nem em sonhos vai ter.
–Prossiga — ergui uma sobrancelha. Continuamos a andar pelos corredores, já bem próximos da entrada do Salão de Refeições.
–Bom gosto pra mulheres — debochou, e olhei-o em repreensão — E multiuso.
–Primeiro, o que é multiuso ?
–Mais de uma mulher por noite.
–Não vi você com ninguém além da Erza ontem.
Jellal sorriu maroto, aproximando-se do meu ouvido até que seus lábios tocassem minha pele, e sussurrou :
–Você estava dormindo, boneca. Mas gritou por mim como nenhuma outra.
Dei-lhe um soco fraco na lateral do corpo, e ele gargalhou, bagunçando meus cabelos de forma fraterna. O azulado estava prestes a entrar no Salão, quando segurei seu braço, curiosa.
–Jellal — chamei-o, erguendo uma sobrancelha — Qual era a terceira coisa ?
–Ah, — ele riu, ao mesmo tempo em que uma certa ruiva parava ao seu lado. Ela olhou-nos em questionamento, pelo fato de estarmos parados no meio do caminho, e ele roubou-lhe um beijo demorado, envolvendo sua cintura ao término. Jellal sorriu de lado, puxando-a para dentro do recinto, e virando o rosto em minha direção, sibilando "Erza".
Foi a minha vez de sorrir boba, orgulhosa de Jelly. Tudo estava correndo de forma incrivelmente romântica, para todos os participantes da viagem. Até mesmo Natsu, Lucy e Lisanna. Finalmente teriam o recomeço de que precisavam.
Com isso em mente, cerrei os punhos determinada, dando o primeiro passo para dentro do Salão, e observando de longe a mesa onde o grupo sentava-se aos poucos. Estavam sendo servidos pelos garçons com diversos sucos, xícaras de café e outras bebidas quentes.
Assim que encontrei o lugar a nossa mesa — onde certa pessoa deveria estar sentada — surpreendi-me ao notar que a cadeira estava vazia.
E ele não apareceu para tomar café.
Nem foi a praia, onde eu estava. Só o vi de novo no ônibus, mas o moreno estava dormindo, com o celular em mãos.
O maldito celular.
–Melhor deixá-lo sozinho — murmurou Jellal, sentando-se ao meu lado na poltrona — Eu sei que deve estar ansiosa, mas não esqueça de quem se trata, certo ? Tudo no tempo certo.
–Quero saber o que houve com ele — rebati, inquieta. O azulado afagou meus cabelos, durante alguns instantes.
–Erza disse que alguma coisa aconteceu com um parente dele, ou algo assim — afirmou, com seriedade. Num aviso mudo de "controle-se". Mordi o lábio inferior, assentindo em seguida, e recostando a cabeça no vidro da janela, pensativa.
O céu estava nublado do lado de fora, e a sensação de que vinha tempestade me deixava ainda mais afoita.
[...]
Haviam se passado cinco dias desde nosso beijo. Cinco longos dias, em que Gray mal olhava na minha cara. E não era algo específico, como estar sendo evitada. Ele estava realmente ausente, com todos.
–Pode não ser nada demais — garantiu Lisanna, folheando o livro de Jellal, enquanto o azulado não voltava da cantina. O Fernandes estava tão preocupado com minha aparente tristeza, que havia até levantado do nosso local habitual de lanche — debaixo de uma árvore de cerejeiras — e ido comprar pra mim alguma coisa com açúcar — Ele pode estar realmente com problemas pessoais. Sabemos o quanto Gray é fechado.
–Não seria o caso de nos preocuparmos ? — deduzi, ironicamente. Lisanna suspirou.
–Não vejo por que. Todos estão agindo normalmente, e se ele estivesse realmente mal, nem se quer teria vindo as aulas, o que ele fez durante esse tempo. Além disso, aquela pessoa não ficou sabendo de nada.
–Natsu ? — ergui uma sobrancelha. Ela assentiu, de cara feia.
–É, isso. Ele já teria feito algum escândalo.
–Sim, mas Gray não é do tipo que conta tudo a todos. Acho que a única pessoa a quem ele contaria, seria Erza, e Jellal não está sabendo de nada. Estou começando a achar que tem -
–Não diga Meredy, se não vou vomitar — o azulado lançou o pacote de tubos de açúcar em meu colo, escorando-se no tronco da árvore em seguida — Sei que está insegura com tudo o que houve, mas não perca o juízo, Juvia. Não é nada demais. Para com essa paranoia, e essa obsessão por ele, e só espere. Hoje tem treino, não tem ?
–É, vão recomeçar — concordei, enquanto abria o pacote.
–Ele é Capitão. É obvio que vai estar lá, não acha ?
–Talvez vocês tenham razão ... — cedi, assoprando a franja.
O resto da aula se seguiu exatamente como nos últimos dias. Gray passava o tempo todo trocando mensagens com um alguém "qualquer", que pra mim já tinha identificação.
O céu estava cada vez mais nublado, e só me restou afundar a cara no livro de história, impaciente.
A aula se seguiu no ritmo mais lento possível, e , ao fim dela, Gray simplesmente desaparecera em alta velocidade. Franzi o cenho, e Lisanna acenou em despedida, retirando-se do local. Não voltávamos juntos nos dias da semana em que havia Clube. No caso, hoje eu participaria da natação, e Jellal do vôlei. Como os horários eram bem diferentes, não podíamos se quer esperar um ao outro.
Empilhei os livros, pondo-os na mochila, quando ouvi um pigarro discreto. Ergui os olhos, e Lucy Heartfilia engoliu em seco, encarando-me de volta.
–Y-Yo, Juvia — cumprimentou-me, e tratei de levantar de forma lenta, jogando a mochila num dos ombros — Você vai ao treino hoje, não vai ?
–Eu pretendia — comentei, erguendo uma sobrancelha — Por que ?
–Bem, pensei que ... podíamos comer algo juntas. Antes de começar o treino, sabe.
Olhei-a com atenção. Para Lucy e Natsu as coisas haviam ficado bem difíceis. O rosado parecia ter vergonha de relacionar-se com a loira da mesma forma que antes, e ela recebia olhares zombeteiros das outras garotas. Um grupo da outra sala chegou a escrever "vadia" em sua mesa consecutivas vezes, durante a mesma manhã.
–Ora, se não são a ladra de namorados, e a stalker — debochou uma das meninas, que passava ao nosso lado, dando um esbarrão em meu ombro propositalmente. Evergreen. Laxus riu alto, olhando-nos com pura diversão.
–E então, Esquisitona, o pessoal das outras salas está comentando sobre a sua paixão por Gray Fullbuster. Vazou que ele te deu um bolo na viagem. É uma pena que eu não tenha visto de perto — o loiro sorriu malicioso — Imagino como deve ter sido hilário. Não achou mesmo que ele teria algo com você, né ?
–Cala essa boca, Laxus — Lucy interrompeu-o, furiosa. A loira o empurrou, de forma bruta — Por que não desaparece ?! Ninguém te chamou aqui.
–Quê foi, Lucy ? — Evergreen puxou Laxus pelo braço, afastando-se — Ele não está namorando ainda não. Mas quando estiver, peço pra avisarem. Ai você pode vir com tudo.
Trinquei os dentes, respirando fundo antes de perder o controle. Não era hora pra isso.
Durante esses cinco dias, boatos estavam correndo com relação ao meu nome também. Uma das ex-ficantes de Gray começou a espalhar rumores sobre uma rejeição de Gray com relação a meus sentimentos, na viagem ao Parque Aquático.
Não me preocupei em saber quem os havia espalhado, muito menos em negá-los.
Não era do meu interesse me defender de afirmações que, de certa forma, chegavam a ser verdade.
Lucy e eu caminhamos para fora da sala, e tratei de não ser grossa com ela em momento algum, afinal, desde o inicio nunca se tratou de fazê-la sofrer. Apenas de acabar com o sofrimento de Lisanna.
Comemos um salgado na cantina, com refrigerantes e direito a um chocolate de sobremesa. A Heartfilia contava sobre uma possível ida ao cinema com o grupo, quando resolvi finalmente questioná-la :
–Como você está, com relação a Natsu e Lisanna ?
Ela engoliu em seco, um tanto sem jeito, enquanto descruzava as pernas.
–Mal. Digo, péssima.
–Sinto muito pelos rumores.
–Imagino que sim. Sabe, ... — suspirou cansada, fitando os adolescentes que se empurravam mais ao canto, rindo freneticamente de algo — O pior é que deixamos um clima horrível no grupo. Todos parecem tão distantes ... e Natsu está acabado. Mal consegue me olhar nos olhos.... e estou me sentindo horrível por tudo. Principalmente por ter acabado com o que eles -
–Não é por isso que você deve se sentir mal, Lucy — garanti a ela, friamente — Lisanna está melhor sem Natsu, e me pergunto se você também não estaria ... mas, enfim, só queria te dizer que não precisava ficar tão sem graça com todos. A maioria só está com raiva de Natsu. Afinal, era ele quem estava namorando, e não você.
–Lisanna me odeia, não é ?
–Está com raiva — admiti — Mas no fundo ela só tem inveja.
–I-Inveja ?
–Do que você e Natsu tem. Acho que todos temos, no final. Vocês são como um sonho de consumo, romântico, sabe. São fofos, se adoram, e interagem com tanta naturalidade. Eu mal consigo ficar no mesmo lugar que Gray, quanto mais falar direito com ele. São raros os momentos ...
–Eu sinceramente espero mesmo que vocês deem certo. Ele merece uma garota como você.
Fomos para o vestiário minutos depois, e vesti o maiô o mais rápido possível, colocando os chinelos e deixando o local, em direção a piscina.
Mas ele não estava lá, e Freed Justine digitava no próprio celular, distraído.
–Freed-san ? — chamei-o, me aproximando. O Justine ergueu os olhos, observando-me.
–Sim, Juvia ?
–Onde está Gray ?
–Ele acabou de me mandar uma mensagem. Não vem hoje.
Engoli em seco. De alguma forma, eu já sabia disso. E era o que mais me preocupava.
O dia seguinte fora, no mínimo, uma merda. Uma merda no geral. Primeiro, porque os boatos ficaram cada vez piores. Até mesmo a briga do triângulo amoroso envolvendo Natsu, Lisanna e Lucy havia sido esquecida. Tudo girava em torno do fora de Gray, na minha pessoa.
E o moreno estava cada vez mais distante. Freed e ele conversaram sobre o treino, e ele alegou que apenas "não tinha tido tempo". O que era muito, muito, mal sinal. Além de tudo, meu presságio de que tempestade estava por vir, havia se concretizado.
O céu estava cinza escuro, e já estava chovendo.
–Estão me escutando ?! — perguntou ele, irritado — Olha, não pensem que gosto de ficar aqui, pagando de palhaço ...
E se iniciou mais um dos discursos insuportáveis de como acabar com uma aula nos últimos minutos, da forma mais tediosa possível. Passei grande parte do tempo apenas observando o Fullbuster , que durante seis longos dias, não olhou na minha direção.
Diálogos ? Inexistentes.
Aquilo estava acabando comigo. Toda aquela agonia. Será que ele mesmo havia espalhado os rumores do fora ? Porque, sinceramente, naquele momento até faria sentido. Nunca me senti tão ignorada, e insegura , em toda a minha vida.
Eu queria ouvi-lo me dizer o que tudo aquilo durante a maldita viagem havia significado. E estava decidida a fazê-lo dizer na saída, de qualquer forma. Mesmo que tivesse de gritar com ele na frente de todos.
Estava disposta a tudo.
Quando finalmente o sinal tocou, ergui-me num salto, socando livros e cadernos na mochila, e observando o moreno sumir feito um raio porta a fora.
A multidão de alunos animados inundava o corredor, e tive de esbarrar em cerca de cinquenta até chegar aos armários indicados para a troca de sapatos. Assim que parei em frente ao meu, com Levy e Gajeel conversando entretidos ao meu lado, retirei os sapatos da escola, calçando os casuais e guardando o outro par de volta.
–Juvia, onde vo-
–Ja nee — murmurei, enfiando-me entre o mar de adolescentes e acelerando na direção dos portões de saída. Recebia uns nada amigáveis "Olha por onde anda! " e "tá fazendo o quê, garota ?" mas tratei de ignorá-los, apenas.
Chovia fraco naquela altura do dia, mesmo que grandes poças já houvessem se formado. Felizmente, a água sempre fora o menor dos meus problemas. Principalmente em momentos como esse.
Quando finalmente cheguei a calçada, do lado de fora do Fairy Tail, uma onda de risadas e olhares debochados — ou de pena — foram direcionados a mim, e ergui uma sobrancelha, desconfiada. Laxus estava a minha frente, e assim que avisaram sobre minha presença, virou-se e riu loucamente, antes de dizer no seu melhor tom sacana :
–Parece que foi mandada de volta pro final da fila, Esquisitona.
Onde só haviam alunos, abriu-se um vão para a rua. Mais especificamente para o outro lado dela, onde um casal abraçava-se calorosamente.
Uma das pessoas ali era Gray. Assim que separaram-se, ele retirou o casaco da escola, colocando-o por sobre os ombros da garota de longos cabelos cor-de-rosa. Num primeiro momento, julguei ser Sherry. Mas a lembrança de tê-los visto certa vez, quando sai do trabalho, me fez corrigir o pensamento.
Aquela era a famosa Meredy.
Senti as primeiras lágrimas escorrerem através de minhas bochechas.
–Awn, olhem isso ! — uma das meninas apontou em minha direção, entre risadas — Ela está chorando de tristeza.
Ela estava errada. Não eram lágrimas de tristeza.
Tudo se resumia a mais pura frustração. Me sentia tão idiota, por tudo. Principalmente por ter acreditado que dessa vez seria diferente. Que ele estava apaixonado por mim.
–Mas que grande idiota ! — ralhei, furiosa, ouvindo as gargalhadas e comentários grotescos a meu respeito.
–Saiam daqui, seu bando de babacas ! — a voz grave de Jellal fez-se presente, mais atrás — Qual é a de vocês ? Perderam alguma coisa ?
A maioria era segundo ano. Os que estavam cientes dos boatos. Não que isso tivesse qualquer importância.
Dei alguns passos para frente, sem vontade de ouvir o consolo — ou piadas — de qualquer um, quando, de repente, a chuva apertou.
E as gotas tornaram-se ,em seguida, mais fortes e intensas. Meus olhos vidrados no "casal" que conversava do outro lado,e agora olhava para o alto, com curiosidade. Provavelmente comentando que, devido a chuva, teriam de ir para um lugar mais reservado.
Meus punhos se cerraram com força.
–Juvia, vamos sair daqui — pediu Jellal, segurando-me pelos ombros — Já chega disso tudo.
–Me deixa, Jellal — pedi, empurrando-o levemente e seguindo pela calçada, ainda com as fofocas e risadas as minhas costas.
De súbito, um ônibus, que vinha muito na lateral da rua, simplesmente atirou metade da poça d'água próxima do meio-fio em minha direção, deixando-me ensopada dos pés a cabeça.
Ouvi Laxus gritar ao longe, mas nada mais importava. Só a minha grande idiotice, e minhas expectativas idiotas.
–Juvia ! — ouvi chamarem-me ao longe, reconhecendo a voz de primeira. Era Gray.
Mas vê-lo era a última coisa que eu queria naquele momento, então apenas corri. Em direção a minha casa, onde podia chorar em paz. Sem que todos rissem da minha cara patética.
Telefonei para minha avó três quadras depois, implorando para que ela me buscasse na estação.
[...]
–Por que ela não deixou ele ir ?! — perguntei, furiosa, atirando uma pipoca contra a tela — Mas que mulher idiota ! Idiota ! Estúpida ! Burra ! Inútil ! Machista ! Só sabe viver em função desse homem ridículo ! Qual o problema dela ?!
–Deve estar com medo de ficar igual a você ... — resmungou minha avó, bebendo um gole da coca-cola — Nada contra, é claro. Foi por isso que te disse pra arranjar uma mulher.
–Obaasan ! — a repreendi, rindo seco em seguida, enquanto assoava o nariz no lenço de papel — É tudo uma droga. Prefiro mil vezes ser um ser assexuado, e feliz.
–Deuses a livrem disso.
Arregalei os olhos.
–Obaasan !
–É a verdade, criança. Não se vive sem isso.
Afundei no sofá, indignada. Tomei mais uns goles do refrigerante, olhando a tela com desinteresse. Comédias românticas eram um porre. Principalmente em dias como esse.
–Tomara que ela morra — murmurei, ao mesmo tempo em que olhava na direção da varanda. Uma das paredes da sala de estar era um janelão de vidro, de onde podíamos ver todo o quintal, e até o oceano.
O lugar era sempre muito deserto, tanto de noite, quanto de dia.
–Coloca mais pipoca no microondas, Juvia — pediu obaasan, com "gentileza" — Já está acabando, e só fizemos um saco dessa vez.
–Vou botar.
Levantei, alongando os braços e retirando o pote de cima da mesinha, indo calmamente em direção a cozinha, onde os sacos de pipoca permaneciam espalhados em cima do balcão.
Foi quando a campainha tocou.
–Obaasan, atende por favor — pedi, suspirando cansada, enquanto colocava o saco de pipoca sabor manteiga no microondas, ligando-o.
Ouvi os passos da vovó na direção da porta, e concentrei-me nos números que iam diminuindo, no visor do aparelho. Nem o cheiro de pipoca tinha a mesma graça, de tão deprimida. Olhei-me de cima a baixo, em reprovação. Estava usando um short de pijamas de guarda-chuvas, roxo e branco, e um suéter cinza largo e comprido, que descia quase até a altura da barra do short.
–Minha verdadeira natureza — pensei alto, rindo sem humor algum.
–Juvia ! — obaasan chamou, num tom levemente divertido. Ela surgiu na porta da cozinha, recostando-se ali, com os braços cruzados em frente ao busto — Eu realmente não sei se o garoto na nossa porta se chama Jellal, mas se é ele, você está numa fria. Porque aquele garoto não é nem de longe um homossexual enrustido.
Engoli em seco, indo em direção a entrada e avisando-a para ficar de olho na pipoca. Sacudi os cabelos ainda mais, fazendo a pior careta possível, afim de deixar que o Fernandes me zoasse um pouco.
Assim que cheguei a porta entre-aberta, puxei-a mais, na intenção de convidar Jellal para entrar. No entanto, no exato momento em que vi quem realmente era, o convite de entrada perdeu-se. Assim como minhas palavras.
Não era Jellal que estava ali, bem na minha frente. Era Gray Fullbuster.
–G-Gray ?! — engoli em seco, olhando-o incrédula. O moreno ergueu os olhos, visivelmente constrangido, e coçou a nuca.
–É ... Foi mal a hora, sei que está tarde ... — Gray desviou o olhar, sem jeito — Erza me falou que estava meio ... chateada comigo, e vim ver se ... podia me desculpar.
Ergui uma sobrancelha, irritada, enquanto recostava o corpo na porta.
–Ah, então foi a Erza quem pediu para você vir aqui ?
–Não foi isso que eu disse — defendeu-se, engolindo em seco — Ela só ... me avisou.
–Oh, que ótimo, Gray. De verdade — ironizei, rolando os olhos — E veio pedir desculpas pelo que, posso saber ?
–Então está com raiva ?
–Você não notou ainda ?!
–Argh, seja mais clara, Juvia ! — pediu-me com irritação — É um saco ter que ficar se preocupando ... com algo que nem sei direito o que é.
–Sinto muito se estou sendo fechada, Gray — ri seco, olhando-o nos olhos de forma desafiadora — E sinto mais ainda por ser tão burra.
–Olha, eu vi que você estava indo embora mais cedo por causa ... — ele bufou, furioso, enquanto bagunçava os próprios fios de cabelo — Eu tenho que esclarecer as coisas, eu sei. É isso que estou tentando fazer agora — olhou-me com seriedade, e senti como se meu mundo estivesse a poucos segundos de desmoronar — Meredy precisa de mim. O pai dela faleceu já faz uns meses, e ela não está conseguindo se adaptar ao colégio, e as pessoas. Está morando com parentes distantes. Tudo está uma droga desde que ele morreu, e eu sou a única pessoa com quem ela fala abertamente. Ou melhor, eu sou o único que entende ela. Também perdi minha mãe, e sei bem como é difícil. E é por isso mesmo que não posso deixá-la sozinha num momento como esse.
Nos entreolhamos durante alguns instantes, e refleti sobre tudo aquilo, suspirando cansada em seguida.
–Quanto a ... — o Fullbuster abriu e fechou a boca, sem saber ao certo o que dizer.
–Eu entendo que ela precise de você, Gray — garanti a ele, envolvendo meu próprio corpo, devido ao frio da noite — Mas ... é só que ...
–"Isso" entre nós não pode acontecer de novo, Juvia. Foi um grande erro — cortou-me, de forma mais centrada. E fria. Sem nem se quer olhar em meus olhos — Não vou deixá-la sozinha, e se isso significa abrir mão de algo ...
–De mim — corrigi, empurrando-o no peito num gesto imprevisto por nós dois — Quer saber de uma coisa, Gray ? Você devia ir embora. Não preciso que me diga tudo o que eu já sei. Perdeu seu tempo vindo aqui pra me contar uma verdade que todos já dizem por ai! Que você nunca seria capaz de se apaixonar por uma esquisita como eu! E quer saber, eu concordo plenamente. Sou uma perfeita idiota, sempre fui.
–Você não é uma idiota — garantiu-me, segurando meu pulso — Só está sendo egoísta !
–Egoísta ?! — repeti, sentindo as primeiras lágrimas descerem, inevitavelmente — O único egoísta aqui é você, que ignorou totalmente tudo o que ... Você me deu esperanças desde o inicio daquela maldita viagem, e depois simplesmente ignorou isso.
O moreno olhou-me furioso, puxando meu braço com força. Nos aproximamos tanto que pude sentir sua respiração contra meu rosto, acelerada.
–Não é como se eu pudesse priorizar você, quando Meredy tem problemas muito maiores do que os seus, típicos de garotas românticas incorrigíveis que desconhecem a realidade — afrontou-me, os olhos numa expressão gélida.
As lágrimas teimavam em descer, e, se num momento ele estava dizendo coisas terríveis, no outro, seus olhos expressavam apenas algo estranho, quase como se houvesse esquecido o que havia acabado de dizer. Estávamos muito próximos. Seus lábios aproximaram-se dos meus num movimento incondicional, e fechei minhas pálpebras durante alguns instantes, em expectativa, querendo ignorar tudo o que ele havia acabado de falar.
Expectativas. Era esse o meu grande problema.
–Eu sinto muito por ter sido tão patética — sussurrei apenas, dando dois passos para trás em seguida. Abri os olhos, vendo sua expressão de espanto, que me deixara ainda mais irritada — E sinto mais ainda por você ser esse grande babaca ! Sai da minha casa, e some daqui !
Fechei a porta com tamanha força, que o estrondo deve ter acordado metade da vizinhança. Escorreguei as costas na porta até estar sentada no chão, em meio a soluços e um choro intenso.
–Eu ... acho melhor ligar pro Jellal — murmurou minha avó, indo em direção ao telefone.
–Mande ele trazer bebida alcoólica — pedi, num tom melancólico.
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