Neon Lights

16 Capítulo 16 - Luzes de Neon - Parte 2


Notas iniciais
E então, aqui estou eu. Eu disse que o intervalo ia ser minimo, e não é que realmente foi ? Bem, eu lhes apresento, a ligação entre a história e o título. É o começo de uma fase diferente da história, e espero realmente que gostem. Agora, indo ao que interessa, MUITO OBRIGADA A RECOMENDAÇÃO MEI FULLBUSTER *---------------------* FOI LINDA, DIVA, PERFEITA, TE AMO, MORRO POR TI T.T Muito obrigada mesmo, fiquei super feliz ! Bem, vamos ao capítulo, sim ? Peço desculpas, de novo, pelo tamanho gigantesco mesmo dessa vez. É que eu não queria fazer parte 3, achei que ia ser estraga prazeres, dai não me aguentei e postei tudo junto. Mal mesmo, pessoal ... AVISO SUPER IMPORTANTE PRA LEITURA DO CAPÍTULO : O pessoal que for clicar nos links, pra ver as imagens, e não estiver no celular, pelo amor de DEUS, não cliquem direto, porque não consegui fazer sá' merda abrir na outra aba. Então vocês vão ter que clicar com o botão direito, e abrir na nova guia, ok ? SEGUNDO AVISO : O povo que leu os dois capítulos, pelo amor dos deuses, comentem os dois, ok ? É super trabalhoso de escrever, corrigir, procurar imagem, músicas, tudo pra deixar o mais perfeito possível, especialmente pra vocês. Então não custa nada, não é mesmo ?

O jantar correra, por mais estranho que isso fosse, de forma calma. Eu estava sentada na mesa redonda, entre Gajeel e Jellal, apreciando o pudim de leite de sobremesa, enquanto admirava as pessoas e ornamentação do local.

No salão onde eram realizadas as refeições, o que não faltava eram lustres de cristal, arranjos de flores próximos as janelas, e cortinas longas e pesadas, de cores como caramelo, para compensarem o fato do tecido ser grosso e não carregarem o ambiente. Era belo e chique, acima de tudo.

E os hóspedes não estavam muito atrás, todos muito bem arrumados somente para jantar, inclusive o nosso grupo, o que era quase um milagre. Erza, Lucy, Lisanna e até mesmo Levy estavam de salto-alto e vestidos floridos ou estampados, e tinha de admitir que estavam lindas.

No meu caso, pela primeira vez, não havia ficado muito atrás. Havia trazido uma sapatilha azul simples, mas , felizmente, Lucy em seu surto de amizade me emprestara um vestido branco com uma renda florida por cima, delicado e bem feito ao extremo. Que, por mais incrível que parecesse, havia ficado bom em mim.

Até Jellal teve de me elogiar, verdadeiramente, e era quase um milagre.

–Esse doce de leite está uma delícia — comentou Levy, servindo-se de um pouco mais da sobremesa, ao pegar do prato de Gajeel que limitou-se a resmungar qualquer reclamação — Sinceramente !

–A sobremesa é a melhor parte mesmo — concordou Erza, com olhos apenas para seu bolo de morango.

Um violinista passou a tocar uma música lenta e melodiosa, e quase senti meus olhos pesarem, apesar de apreciar bastante a música. Eram covers de músicas atuais, e a que tocava nesse momento era "Timber", da Kesha feat Pitbull, versão clássica, no caso. Se é que aquilo era possível.

–Me concederia essa dança ? — perguntou uma voz extremamente rouca, e carregada no sotaque para Lisanna. Olhamos na direção do desconhecido, que logo reconheci. Era o entregador de pizza daquele dia, o loiro gato ao extremo.

As garotas da mesa ficaram boquiabertas.

–Ahn ... — ela engoliu em seco, nervosa — Eu te conheço ?

–O entregador — lembrou-a, sorrindo maroto — Eu sei, "entregadores viajam" ? Sim, temos dinheiro para se alimentar, e ,inclusive, viajar. Mas enfim, sou inesquecível.

–Não creio que seja tanto assim — comentou ela, ironicamente. O loiro riu, concordando com a cabeça — É ...

–Sting — respondeu, permanecendo com a mão estendida — E então, quer dançar ...?

–Lisanna — lembrou ela, rindo sem jeito — Eu não acho que seria ...

–Eu acho ! — interrompi-a, rápido demais. A mesa voltou-se em minha direção, todos assustados — Quero dizer ... Bem, seria divertido, Lisanna.

–Seu namorado está aqui, por acaso ? — perguntou o loiro, com uma expressão de "não dou a mínima de qualquer forma". Sting praticamente jorrava hormônios pela mesa, e podia sentir de longe a inveja exalando das garotas, e até mesmo dos garotos. Ele era um Apolo, sejamos sensatos.

Ela olhou na direção de Natsu, que apenas observava o loiro com curiosidade. Seus olhares se encontraram e ele deu de ombros, recostando-se na cadeira, num visível descaso para com a situação.

A vontade de dar um soco na cara do rosado era tanta, que tive de cerrar os punhos com força em cima da mesa. Ergui os olhos na direção de Lisanna, com receio da reação dela, e acabei encontrando Gray exatamente na mesma postura que eu, e me olhando atentamente. Nos entreolhamos durante meio minuto, e tentei ao máximo imaginar o que ele queria dizer.

Lisanna respondeu em alto e bom som :

–Não, ele não está. Vou adorar dançar com você ,Sting.

O garoto sorriu maroto e puxou a cadeira dela com uma força desnecessária. Lisanna riu, levantando-se desajeitada e segurando a mão dele.

Os dois partiram para a pista de dança, e Levy e Gajeel fizeram o mesmo logo depois. Sendo seguidos por Erza e Jellal, mas não antes que o azulado viesse ao pé do meu ouvido, sussurrando :

–Gray está te olhando desde que começou o jantar.

Engoli em seco e olhei na direção de Gray, que conversava animadamente com os dois melhores amigos.

–Não está agora — resmunguei, de má vontade. Jellal riu seco.

–Aposto minha mesada que se levantar pra pegar sobremesa, ele vai atrás puxar assunto — profetizou ele, e sorri de canto debochada — Não está acreditando ? Homens são iguais, e acredite, eu sei bem disso.

Acabei suspirando cansada, levantando com o prato, na intenção de pegar mais pudim apenas. Que Gray fosse para o raio que o partisse naquele momento. Açúcar era a única coisa que importava, e já estava farta de toda aquela situação de casais, triângulos, beijos roubados e caminhadas na praia. Alheias.

Me aproximei sorrateiramente da mesa de sobremesas, desviando do garçom que estava encarando minha gula de perto, e fitei o pudim, num conflito interno de pegar muito uma vez só, ou vir aqui pela terceira vez para repetir.

–Nunca fiz papel de vela tantas vezes num único dia — comentou Gray, atrás de mim. Quase saltei de susto, com a faca do pudim em mãos. Voltei a cortá-lo, sem dar muita atenção ao comentário, e coloquei o pedaço mediano em meu prato, de forma mecânica.

–Já sabia que ia ser uma viagem romântica, ao menos para Jellal e Erza — afirmei, pegando uma colher limpa. Ele assentiu.

–Gajeel e Levy também. Eles se assumiram de verdade ... — acrescentou, observando o casal dançar na "Pista" do amor, onde vários casais haviam se juntado. Até mesmo Natsu e Lucy, que dançavam desajeitados, rindo e conversando ao mesmo tempo. Observei-os, dando uma colherada no pudim, em pé ali mesmo, e apreciando o sabor em seguida — Bem ... toquei nesse assunto porque ... -

Por um momento, o pudim não tinha a mínima importância. Ergui os olhos para o moreno, em estado de puro choque, ainda de boca aberta. A colher na metade do caminho, em direção a meus lábios. Ele ia ... Não ! Mas ... oh, não creio nisso.

–Queria conversar sobre Lisanna. E Natsu — terminou de falar, enfiando as mãos nos bolsos do sobretudo negro.

Uma criança segurando um balão novinho, que teve de encher o saco dos pais até a alma para ganhar. Até que o mesmo estoura, do nada, sem razão alguma aparente para ter acontecido.

Foi exatamente assim que me senti. Expectativas despencando de mil, até zero. Uma montanha russa que só ia pra baixo.

–Lisanna e Natsu — repeti, sacudindo a cabeça para recuperar a consciência. Acabei com a colher de pudim, mastigando-o enquanto recordava da cena de mais cedo. Gray parecia tão desconfortável com a situação do "casal" quanto eu.

–Eu sei que é melhor amiga da Strauss — explicou, fitando as mesas distraidamente — E não espero que -

–Quer saber — coloquei o prato de pudim — ainda com pudim — em cima da mesa de sobremesas — o que era uma tremenda falta de educação, mas como falar com o garçom que me achava gulosa seria demais, deixei ali mesmo — , virando-me pra ele com uma expressão irritada. Todo aquele assunto estava me deixando farta — Detesto o que Natsu-san está fazendo com a Lisanna, e detesto mais ainda a Lucy não afastar-se dele toda vez que agem de forma muito íntima na cara da namorada dele. Porque eu sei que deve ser difícil para eles esconder essa paixão arrebatadora, mas com licença, por que ele não age de forma madura e diz isso a Lisanna de uma vez ?! Entende o quão horrível é pra ela ter de aturar todo aquele amor, e aquela indiferença ?! Ele está tratando ela mal , Gray ! E isso eu não consigo engolir. Estou tentando ... não detestar a Lucy tanto assim ... mas toda vez que os vejo juntos, desisto !

–Lucy é uma garota incrível — defendeu ele, olhando-me diretamente — Ela não entende que a intimidade que ela e o Natsu tem pode afetar Lisanna.

–Não entende, ou prefere fingir que não entende ? — perguntei, sugestivamente.

–Você não ... — ele bufou, rolando os olhos — Natsu está apaixonado pela Lucy, mas ... Lisanna diz a ele todos os dias que o ama, e que não viveria sem ele. Ele se sente preso a ela o tempo todo, e tem medo de magoá-la.

–Eu não vou discutir com você, Gray — afirmei, desviando minha atenção para os casais novamente — Não hoje, e não por esse motivo. Mas eu realmente espero que os dois acabem com esse relacionamento fracassado o quanto ant -

Minha boca encheu-se de ar, e esvaziou-se de palavras. Jellal e Erza estavam simplesmente no meio de um amasso. Na pista de dança. Arregalei os olhos, e enquanto Gray tagarelava algo aleatório, puxei sua manga comprida, fazendo-o seguir meu olhar até o mais recente/vai-não-vai casal do Fairy Tail.

–Ela vai dar um soco nele quando acabar — murmurou o moreno, igualmente incrédulo. Concordei com a cabeça, rindo em seguida. Inacreditável.

–Daqueles bem sobrenaturais — acrescentei, e foi a vez dele de concordar.

Levei meus olhos a entrada do Salão quando subitamente algumas luzes se apagaram, e dois outros músicos passaram pela porta. Um deles posicionou-se no teclado escondido bem ao canto da sala, e a outra, uma menina não muito mais velha que eu, sentou-se num banquinho ao lado do que já tocava violino, com uma guitarra em mãos.

–Boa noite — cumprimentou ela, ao microfone, sorrindo de forma meiga — Que tal deixarmos as coisas só um pouquinho menos românticas, pessoal ? Continuem em pares, porque somos jovens, e a noite mal começou !

Uma onda de gritos adolescentes animados se seguiu, e outros casais mais tímidos foram para a pista, juntar-se aos outros que já estavam pra lá de entorpecidos com beijos e carinhos públicos.

Suspirei cansada, dando um passo na direção da mesa, quando senti a barra do meu vestido ser segurada. Virei o rosto na direção de Gray, que tinha as bochechas levemente ruborizadas. Ele não me olhou nos olhos, mas conhecia-o bem o bastante pra entender quando estava num conflito interno. Seu lado frio, contra seu próprio emocional. E por mais que eu não quisesse me dar ao luxo de criar novas expectativas ... aquilo era um grande passo na vida dele.

–Quer dançar comigo ? — perguntei, soando de forma casual. Ele encarou-me de frente, endireitando a postura e dando de ombros, aliviando a expressão tensa. Quase ri da situação, que se não fosse tão estranha, seria hilária. Gray era tão ... idiota. Ou melhor, imaturo.

A música Get Lucky se iniciou com a garota cantando, e logo em seguida o violino e a guitarra. Era um cover , no mínimo, muito agradável. Segurei a mão de Gray mais ou menos na metade do caminho até a pista, e dei graças aos deuses do tipo de música ser menos romântico, ou cairia desmaiada ali mesmo.

O moreno sorriu de lado, e iniciamos uma dança pra lá de esquisita, alternando mãos e giros aleatórios vez ou outra.

–Eu sou uma droga dançando — afirmou ele, rindo em seguida. Ergui uma sobrancelha, desafiadora.

–Vou ter que adicionar isso aos seus treinos, Capitão ? — perguntei, com ironia, assim como ele fazia comigo durante alguns treinos infernais. O Fullbuster gargalhou, levando sua mão a minha cintura num movimento tão inesperado que senti meu rosto esquentar como nunca. Nos aproximamos incondicionalmente, mas sem nada que pudesse ser considerado "climático" ali. E era isso o que mais me irritava.

Onde estavam os visgos quando se precisava deles ?

A música ganhava um ritmo mais animado, e do além ele simplesmente me girou, e tive de rir em meio ao passo, retornando numa colisão forte contra ele, que gemeu de dor.

–Péssima ideia — comentou, massageando o possível pâncreas dolorido.

–Foi mal — me desculpei, constrangida. Nós dois rimos, e ele balançou a cabeça em negativa — Devia ter ficado com meu pudim.

–Eu ia pegar mais também, mas aquele garçom estava me encarando estranho ...

–Ele também estava me encarando — admiti, observando o funcionário suspeito ainda recostado próximo a mesa de sobremesas — E não sai dali !

–Quer saber — ele me soltou, lançando um olhar determinado na direção do homem — Vamos pegar um pedaço enorme de pudim, bem na cara dele, e levar tudo pra varanda. O que acha ?

Sorri a ele, concordando com a cabeça. O moreno me puxou pelo pulso na direção da mesa, e observei sua mão contra minha pele durante alguns instantes. Era engraçado o que o amor nos fazia. Antes de conhecer Gray, sentia como se todos os meus dias estivessem nublados. Ausentes do sol, e até mesmo durante a noite, as estrelas já não tinham o mesmo brilho. Durante toda a minha vida, eu buscava nos meninos — e até em algumas meninas, devido a influência da minha avó — algo que me fizesse me sentir viva. Determinada. E quando o vi sendo ele mesmo pela primeira vez, soube que o queria. De todas as formas possíveis.

Mesmo que a forma fosse apenas como uma amiga da natação, com quem ele gritava nos treinos, e convivia casualmente fora deles. Já era o bastante pra me deixar feliz.

[...]

–Eu acho que trocaria minha casa por esse pudim — comentou Gray, comendo mais um pedaço do doce. Sorri, rolando os olhos.

–Talvez não fosse uma boa troca — disse, fitando o balançar das árvores mais ao longe — Mas por um mês desse pudim, daria a casa e o carro da obaasan.

Estávamos os dois sentados no muro da varanda do Salão de Refeições. O local não era muito bem iluminado, mas o som ao longe da "banda" deixava mais agradável e acolhedor. Embora a brisa fria em certos momentos chegasse a ser desconfortável.

A vista, em si, era linda. Dava para ver as piscinas mais ao longe, além da praia e do bosque, onde era localizada a trilha que levava do hotel até a praia.

Coloquei uma mecha do cabelo atrás da orelha, balançando as pernas em pleno ar. Se Gray não estivesse do meu lado, provavelmente jamais sentaria numa sacada dessa forma. Era tão desajeitada que a queda seria praticamente inevitável.

–Gray ... — chamei-o, lembrando-me do que Lisanna havia me contado mais cedo. Sobre o surf, e ele ir duas horas mais cedo a praia — O que você faz na praia antes do sol nascer ?

Ele pareceu curioso com a pergunta.

–Quem te contou ... ?

–Lisanna.

–Ah, sim — coçou a nuca, parecendo pensativo, arrastando os dedos por sobre a mureta — É um segredo de família — sussurrou, sorrindo de forma incondicional em seguida, no canto da boca, como sempre — Minha mãe surfava também, e, um dia, ela me contou uma história incrível sobre um pescador, e uma galáxia da qual só ele conhecia a existência.

Olhei-o interessada, e o moreno riu, observando minha expressão.

–Vai me contar ? — perguntei, ansiosa. O Fullbuster assentiu, fitando o céu distraidamente.

–Há muitos anos atrás, numa vila litorânea pouco habitada e pobre, vivia um pescador bem velhinho, e seus dois netos. Os dois estavam acostumados a irem pescar com o avô durante o dia, e achavam tudo aquilo muito chato. Até que um dia o velho os chamou pra fazerem a mesma coisa poucas horas antes do nascer do sol, quando ainda estivesse escuro, e somente as estrelas fossem capazes de guia-los. Os meninos não queriam ir, mas o velho garantiu que durante a noites, eles seriam capazes de ver dois céus diferentes. E um deles, era temporário, e ainda mais bonito. E só os homens mais corajosos e inteligentes seriam capazes de vê-lo.

–Ai ele levou os netos ... — deduzi, olhando-o apreensiva — E eles conseguiram ver ?

–Não — respondeu, sorrindo de lado — Estavam olhando o céu errado.

Ficamos em silêncio durante alguns minutos. E era esse o final ?! Eles ... ok, que confuso.

Preferi não insistir numa resposta concreta, uma vez que se houvesse uma, ele teria me contado. Aquele era o final, e ponto final. Mas ainda assim, havia me deixado intrigada ao extremo. O que seria o céu errado, afinal ?

–Algum dia eu queria entender de verdade essa história — sussurrei, mais para mim mesma.

Tremi levemente ao sentir o vento bater mais forte em meu corpo, e o Fullbuster me olhou de relance, levantando da mureta, e passando a retirar seu sobretudo negro logo depois. Arregalei os olhos, também ficando de pé, e me apressando em impedi-lo :

–Não precisa, Gray, eu estou -

–Com frio — me interrompeu, rolando os olhos enquanto me entregava o agasalho — Eu gosto de frio. Pode ficar, Lockser.

Alternei o olhar dele, para seu casaco, suspirando cansada em seguida. Provavelmente me acharia chata se não o aceitasse, então simplesmente vesti o sobretudo, sentindo logo em seguida o cheiro convidativo da roupa. Era o cheiro dele. Algo entre ... menta e alguma outra coisa que não soube identificar.

–Quer saber, foi mal ... por aquela hora, defendi o Natsu, quando na verdade minha atenção era justamente criticá-lo — fitava o mar com aparente interesse, debruçando-se na sacada — Sei que o que ele está fazendo é errado. E ali na mesa, nossa, como quis dar um soco naquela cara.

–Ele podia ter fingido que se importou — concordei, rolando os olhos, enquanto debruçava ao seu lado, também observando a vista — Foi praticamente "tanto faz, cara, pode levar ela pra onde quiser. Essa daí eu passo".

Gray riu, assentindo.

–Foi péssimo mesmo — coçou a nuca, distraído — Tudo bem que ele não sente ciúmes nem nada, e também acho isso perda de tempo, mas ... cara, quem não teria ciúmes daquela situação. O cara era uma pintura.

–Está dizendo que achou ele bonito ? — perguntei, sem conseguir prender o riso. Gray fuzilou-me pelo canto dos olhos.

–Não disse isso — rebateu, cruzando os braços irritado — Ele era ... de uma aparência de atores famosos, entende ?

–Sexy — traduzi, e Gray ficou vermelho feito um tomate, fazendo-me rir ainda mais — Pode admitir, Capitão. Aquele corpo ... — mordi o lábio inferior, propositalmente — Deuses.

–Estou começando a achar que seja mais pervertida do que parece, Lockser — afirmou ele, de forma maliciosa.

Bati com o quadril no seu, propositalmente, e ele olhou-me assustado, rindo em seguida. O Fullbuster empurrou minha cabeça com a sua, não muito forte, e murmurei um "ai" irritado.

–Vingança, Lockser — murmurou, fazendo-me rir. Ainda sem afastar sua cabeça da minha, deixando que nossas testas se tocassem. Ficamos assim durante alguns segundos, e podia sentir a respiração dele em meu rosto, fazendo cócegas. Inconscientemente, deixei meus olhos se fecharem levemente, ao mesmo tempo em que seu nariz se aproximava do meu. Seus olhos negros vidrados nos meus, e depois descendo até a altura de meus lábios.

–Muito perto — sussurrou, com uma expressão distante.

–Oe, Gray, a gente ia voltar pro ... — Natsu engoliu em seco, nos observando sem graça em frente a porta de vidro — Estou ... interrompendo alguma coisa ?

–N-Não ! — negamos ao mesmo tempo, nos afastando de forma bruta e rápida. Corei violentamente, andando na direção de Natsu, e passando pelo rosado sem cumprimentá-lo, seguindo de volta para o Salão.

Estava com medo. Era essa a definição. E cansada de tudo aquilo. Merda, se ele não nutria nenhum sentimento por mim, então por que tinha que me dar esperanças dessa forma ?! Isso era cruel, até mesmo para um iceberg feito ele !

–Juvia, onde você -

–Pro quarto — respondi amarga, passando direto por Lisanna.

–Hey, por que está com o sobretudo do Gray ? — ela perguntou alto, me fazendo ficar ainda mais vermelha. Olhei para o casaco, bufando em seguida. Que ótimo, agora teria que devolver.

Virei-me na intenção de voltar, quando o vi logo atrás de mim, com uma expressão de poucos amigos.

–Detesto. Correr. Atrás. Das. Pessoas — resmungou pausadamente, rolando os olhos. Retirei o casaco num movimento rápido, jogando-o em seu peito. Gray o pegou de forma desajeitada, erguendo uma sobrancelha em minha direção — O q-

–Eu já ia devolver — garanti impaciente, cruzando os braços em frente ao busto — Não precisava vir até aqui de cara feia.

–Não ia pedir o casaco — rebateu, friamente — É que ... — engoliu em seco, desviando os olhos para qualquer ponto no chão — Bem, já estamos voltando pro quarto. Se estiver afim, passe lá as quatro da manhã, por ai.

–Por qual razão ? — perguntei, arregalando os olhos. O moreno riu seco, rolando os olhos de novo.

–Não é isso ... é só ... você tinha dito que queria entender toda aquela coisa dos dois céus — explicou, enrolando-se. Ele bufou, assoprando a franja negra — Enfim, se estiver afim, eu posso te mostrar.

–Isso seria ...

–Olhos caídos ! — Natsu deu-lhe um tapa nas costas — Estamos indo nessa. Ah, Juvia. Você de novo ? — ele sorriu de forma animada — Erza disse que estava indo pro quarto também. Nos vemos amanhã ?

–Ahn, aham — resmunguei, ainda olhando o moreno com atenção. Ele e Natsu retiraram-se em seguida, conversando sobre qualquer coisa, quando senti meu ombro ser puxado com força máxima.

Fui arrastada até a varanda de novo, quando Lisanna desatou a dar gritinhos histéricos, e logo depois iniciou uma crise de choro sem noção.

Analisei-a assustada.

–Lis ? — a chamei, abraçando-a em seguida — Por que está chorando ... ?

–Sting — disse ela, me abraçando com mais força — Ele é um perfeito convencido, sexy, idiota ... lindo ... Não acredito nisso ! Você viu a cara do Natsu de que não estava nem ai pra mim ?

–Oh, Lis — suspirei, afagando seus cabelos fraternalmente — Eu sinto muito mesmo, mas já sabíamos que isso ... não o afetaria. E acho ótimo que tenha conhecido outra pessoa, de verdade. Já parou pra pensar que pode ser essa a sua chance de recomeçar ?

–Ele pediu meu telefone — contou ela, entre soluços — Mas só consigo pensar na humilhação que foi ... ser totalmente ignorada. Ele nem se quer disse alguma coisa pra mim, ou pro Sting. Isso é tão horrível. E ainda chamou a Lucy pra dançar, na minha cara. Qual o problema dele ?! Onde foram parar todas aquelas declarações, beijos ... lembranças ?! Eu sou tão ruim assim ?! Não estou no nível dele, por acaso ?! O que Lucy Heartfilia tem que eu não tenho ?!

–Eu não gosto de dizer esse tipo de coisa ... — iniciei, olhando-a nos olhos — Mas eu vou dizer, porque você precisa ouvir, e escutar de verdade, Natsu não -

–LUCE ! — o rosado gritou, passando pela enorme porta de vidro da varanda,carregando-a atravessada no ombro, enquanto os dois riam loucamente. A loira se debatia, chutando-o nas costas algumas vezes, até que ele colocou-a no chão, reparando finalmente na nossa presença — Lisannaaaa , Luce não quer devolver meu cachecol ! — choramingou ele, puxando o tecido branco quadriculado com força da mão da Heartfilia, que segurou-o com determinação.

Num momento, Lisanna estava a dez passos dos dois, e, no outro, avançara contra Lucy numa velocidade incrível. Ela puxou o cabelo da loira com força total, e as duas foram ao chão numa batalha confusa, e desesperada. A albina parecia um animal selvagem, com fome de algo do qual eu nunca presenciei de forma tão intensa.

Vingança.

As pessoas de nosso grupo simplesmente brotaram ao redor da briga, mas ninguém tinha coragem de interromper. Não era uma briga da qual alguém pudesse se meter. Era algo que Lisanna tinha de resolver. Levy ia chamar Erza quando Gajeel tapou sua boca, num pedido mudo de respeito.

E era quase irônico considerar aquilo respeitoso, mas era. As coisas precisavam se resolver, e se não seria do jeito fácil, seria do difícil.

Lucy, depois de alguns segundos de choque, passou a revidar, finalmente compreendendo o motivo da agressividade. Era uma disputa por Natsu, e a loira parecia disposta a lutar tanto quanto a rival.

–O que vocês estão fazendo ?! — gritou Natsu, exasperado, tentando infiltrar-se entre as duas, levando apenas tapas e chutes severos. Fitei-o com pura irritação, mas, felizmente, Gray o puxara dali — Me solta, seu idiota ! Elas estão se machucando !

–É culpa sua, Natsu ! — garantiu Gray, prendendo-o numa chave de pescoço firme — Não piore as coisas !

As duas se xingavam diversas vezes, e o nome do rosado fora mencionado em grande parte das ofensas, enquanto elas rolavam, com puxões de cabelos e arranhões nos braços. Mordi o lábio, me contendo para não ajudar Lisanna, mas as lembranças de todo o sofrimento da Strauss me impediam. Ela merecia descarregar toda aquela frustração, e se fosse comigo, teria feito exatamente a mesma coisa.

–Você acha que pode voltar quando quiser, e ele vai estar aqui , te esperando ?! Sua convencida ! — Lucy deu-lhe um soco na lateral do corpo, levando um chute logo depois.

–Você é uma vadia , que mesmo sabendo que ele tem namorada, ignora tudo isso como se fosse normal !

–Gray, me solta ! — Natsu se sacudia, aturdido, enquanto o moreno assistia a cena, com seriedade — Me solta, cassete !

–O que está acontecendo aqui ?! — o grupo rapidamente dispersou-se, diante da voz grave da Titânia, com Jellal logo atrás de si. Nós dois nos entreolhamos, e o azulado bufou, desviando o olhar.

A ruiva meteu-se entre as duas, afastando-as com um único puxão de roupas, e ralhando um sermão imenso e humilhante.

–O que deu em você, Lisanna ?! — a ruiva perguntou, soltando a gola do vestido da albina, que praticamente rosnou em resposta.

–O que deu em mim ?! — repetiu ela, cuspindo as palavras, enquanto apontava na direção de Natsu — O que deu nele, e nela ! Eu estou cansada disso, dessa situação, de ser feita de idiota na frente de vocês todos os dias ! Eu cansei, Natsu — olhou-o nos olhos, com uma expressão unicamente melancólica — Não há nada pior que insistir em algo que, como disse um sábio, nunca existiu. Nós nunca existimos, e não entendo porque não me disse isso quando voltei ! Estou cansada de você e dela ... — a albina enxugou os olhos com as costas da mão, desolada — Na minha frente, todos os dias, se amando. Estou cansada de te amar tanto, e ser tão rejeitada todos os dias. Ser deixada em segundo plano. Ser papel coadjuvante. Eu espero mesmo que vocês sejam muito felizes, e que se fodam ! Vão se foder, os dois ! É, eu disse foder. E vou repetir, fodam-se, os dois. Não quero um final onde qualquer um dos dois venha me dizer que podemos ser amigos, porque não podemos — ela olhou para a loira com ódio, puro, e verdadeiro — Eu odeio você, — andou na direção de Natsu, dando, agora, um verdadeiro tapa, e bem merecido, no rosto pálido e inexpressivo do rosado, que nem se quer tentou se defender — E eu vou guardar rancor de tudo o que você me fez chorar, sofrer, e viver. Mas pode seguir em frente Natsu, disso não vou te impedir de forma alguma. Mas nunca mais ouse me chamar pelo nome de novo, porque você não tem esse direito.

E saiu, deixando o pior clima possível no ar. Engoli em seco, correndo atrás da albina em alta velocidade, empurrando Gajeel para deixar a varanda, passando pelas mesas e esbarrando em alguns hóspedes.

Encontrei-a alguns corredores depois do Salão, próxima da boate — que, no caso, estava sendo aberta agora — sentada no chão, abraçada aos próprios joelhos, escondida atrás de um vaso de plantas. Respirei fundo, agachando em frente a ela, deixando nossos rostos na mesma altura, e murmurei um simplório :

–Você foi incrível, Lisanna.

E, inesperadamente, ela abriu um sorriso, choroso, embora muito sincero. Até mesmo... feliz.

–Nunca me senti tão corajosa — segredou, rindo seco em seguida — E nem tão livre quanto agora.

–Fico realmente feliz em saber disso — afirmei, abraçando-a com força em seguida.

[...]

Gray P.O.V

[...]

Eram cerca de quatro e quinze da manhã quando olhei o celular, com a visão pra lá de turva, e os resmungos de Gajeel sobre haver algum babaca infeliz batendo a porta.

As quatro e quinze da manhã, eu concordava plenamente com a teoria dele. Tinha de ser um babaca infeliz. Coçei os olhos, enquanto Natsu reclamava, virando-se na cama.

–Eu... não ... vou ... abrir — garantia ele, num estado de vegetação. Rolei os olhos, lançando meu travesseiro com força contra Gajeel.

–Nem ferrando que eu levanto — murmurou o metaleiro, cobrindo-se até a raiz dos cabelos com o cobertor. Rosnei um "puta que pariu" enquanto levantava cambaleante, notando que estava, mais uma vez, apenas de cueca box.

Deixei a semi nudez pra lá, dando de ombros, e trepidando até a porta, onde abri num baque com a pior cara feia possível.

–Quem é o babaca que ... — a frase morreu no ar, quando finalmente vi quem estava batendo a porta. A garota arregalou os olhos, olhando-me de cima a baixo, quando a ficha caiu.

–J-Juvia estava te ligando, mas ... você não atendeu e — ela deu um tapa na própria testa, ruborizando até a alma — Deuses, eu sinto muito, me desculpa mesmo, eu não queria te acordar , só pensei que -

–O que está fazendo aqui, Lock- engoli em seco, recordando-me da proposta de mais cedo. Foi a minha vez de bater na própria testa — Oh, merda, merda, merda. Foi mal, eu não-

–J-Já estou indo ! — garantiu ela, constrangida ao extremo, enquanto me dava as costas e acelerava para sumir pelo corredor. Segurei seu braço rapidamente, por reflexo, fazendo-a virar-se assustada. Os olhos vidrados em mim. Cocei a nuca, sem jeito.

–Me dê ... cinco minutos — pedi, soltando-a em seguida — Fico pronto rápido, ok ?

–Você não precisa ... de verdade, eu só ... pode voltar a -

–Não, eu agradeço — a interrompi, bagunçando meus fios distraidamente — Se não tivesse me acordado, ia perder algo de que gosto muito. Espere só um pouco, já volto.

Voltei para dentro do quarto, recostando a porta, e acendi a luz na cara de Gajeel e Natsu, que não se manifestaram, por já estarem no sétimo sono. Ou décimo oitavo, sei lá.

Catei meu short de mergulho pela mochila, junto a bermuda, e entrei no banheiro rapidamente, mijando, jogando água fria na cara e escovando os dentes, trocando de roupa em seguida. Banho não ia rolar, de qualquer forma, e também não seria nem um pouco útil.

Sai em seguida, procurando a chave que a recepcionista havia me emprestado da cabana de materiais esportivos.

Apaguei as luzes de novo, com o chaveiro da boca, e sai do quarto, fechando a porta com força em seguida. Deixei aberta, imaginando que nenhum terrorista ou estuprador iria primeiro no quarto de dois imbecis como aqueles.

Juvia estava recostada na parede, fitando um ponto qualquer distraída, quando chamei-a:

–Lockser ?

A azulada levantou os olhos, e reparei que já havia retornado a coloração normal. O que era frustrante. Ela ficava bonita com as bochechas vermelhas. Sacudi a cabeça, me livrando do pensamento, enquanto passava a andar pelo corredor, com ela apenas uns passos atrás de mim.

Diminui a velocidade para que ficássemos lado a lado, e percorremos o caminho para fora do hotel em silêncio, felizmente. Detestava conversas desnecessárias, e o silêncio sempre fora um dos meus melhores amigos. Principalmente um silêncio agradável e confortante como esse em que nos encontrávamos. Observei-a de esgueira, notando que vestia um short jeans e um suéter, com a alça de um biquíni preto visível debaixo da roupa.

–Pra quê a chave se não trancou o quarto ? — perguntou ela, alguns minutos mais tarde. Retirei o chaveiro de minha boca, colocando-o no bolso da bermuda, enquanto abria caminho entre as folhas, para atravessarmos a "Trilha Selvagem" que levaria até a praia.

–É a chave da cabana onde guardam os materiais esportivos — expliquei a ela, desinteressado, enquanto continuávamos andando. Apertei o passo, ignorando algum comentário baixo dela, enquanto pensava no quão idiota eu havia sido quando sugeri trazê-la aqui. O que eu tinha na cabeça ?! Ela era apaixonada por mim, e já havia se declarado duas vezes. Seguidas. E tudo bem que eu realmente gostava da companhia dela mas ... Merda, pare de pensar nisso, Gray !

Dei graças aos deuses quando avistei a praia, e parei de andar de repente, enquanto Juvia me olhava com uma interrogação.

–E então ? — perguntou, curiosa. Apontei na direção da cabana, que ficava pouco antes da areia ,retirando o chaveiro do bolso, e balançando-o no ar.

–Vou buscar a prancha ... — respondi, olhando-a com seriedade — E você vai ficar exatamente aqui, de olhos fechados.

–Mas o q-

–Vai perder toda a graça se olhar antes — garanti a ela, vendo-a suspirar e fechar suas pálpebras, conformada — Não saia daqui, ok ? Não vou demorar.

Mesmo que contra a minha vontade, deixei-a sozinha ali, caminhando até a cabana, um tanto nervoso. Era a primeira vez que vinha a praia de noite depois da morte de Ur.

Girei a chave na fechadura, tendo de dar duas batidinhas para que a mesma abrisse direito, e com um tranco, consegui mover a porta, que devido ao tempo, exigia um certo esforço para abri-la. Tateei a parede em busca do interruptor, e acendi-o assim que encontrei, revelando uma montanha de tranqueiras de mergulho, roupas de mergulho, remos de todos os tipos, e diversas pranchas de surf, de todos os tamanhos possíveis.

A prancha especial que eu estava procurando logo chamou atenção, devido ao seu tamanho visivelmente maior. Peguei-a com dificuldade em meio as outras, virando-a até que ficasse na horizontal, e deixei a cabana, esbarrando em alguns objetos ainda em seu interior.

Me direcionei a areia, e Juvia estava a apenas uns dez passos de distância.

–Lockser ? — chamei-a, vendo-a franzir o cenho em resposta — Consegue seguir minha voz ?

–Ahn ... tá bom — ela ergueu as mãos no ar, tateando o nada, enquanto andava na minha direção, parando a alguns passos — Já posso abrir -

–Não. Pode ... tirar a camisa, se quiser — murmurei, constrangido — Já vou entrar na água.

Retirei minha bermuda rapidamente, suspirando cansado ao olhar na direção do mar. Estava, como de habitual, lindo. Era engraçado até pensar no quão poucas pessoas viam aquela cena durante suas vidas.

E eu estava dando o mesmo privilégio que minha mãe me dera, para uma garota.

Olhei-a de relance, corando verdadeiramente em seguida, enquanto assistia ela retirar o suéter cinza, jogando-o na areia. Os seios perfeitamente valorizados naquela parte de cima justa. Engoli em seco, afastando o pensamento, mas sem deixar de olhá-la, enquanto a Lockser retirava os shorts, colocando-os por cima do suéter.

Assim que ela ergueu-se , virei o rosto, tentando recuperar o auto-controle. Mas que grande idiota você é, Gray.

–Vamos agora ? — ela perguntou, meio sem jeito. Felizmente, ainda de olhos fechados. Podia até parabeniza-la por isso, levando em conta que estava de noite, numa praia deserta, e de olhos fechados, sem nem reclamar disso.

Puxei-a pelo braço, carregando a prancha enorme no outro, e arfando vez ou outra, com o esforço. Felizmente, a distância de areia entre nós e a água diminuiu dentro de meio minuto, até que meus pés já estavam molhados. A primeira onda alcançou os dela, e a azulada tremeu.

–Está fria — afirmou Juvia, num tom que sugeria que aquilo não lhe era muito agradável.

–Não gelada — argumentei, rolando os olhos — Não vai dar pra trás agora, né ? Achei que estivesse curiosa pra descobrir o que o velho da história queria dizer ...

–Eu estou curiosa — corrigiu-me, suspirando cansada em seguida — Mas dá um desconto. Estava debaixo do cobertor antes de vir pra cá.

–Que eu saiba foi você quem bateu na minha porta, não ? — lembrei-a, de forma debochada. Ouvi-a rir seco, e andei mais alguns passos, sentindo a água subir até meus joelhos.

As ondas estavam baixas aquela noite, então apenas deitei a prancha na água, virando-me para a azulada, e puxando seu braço na direção da prancha, guiando-a.

–Consegue subir ?

Lockser tateou a borda da prancha, medindo sua largura com os dedos.

–Não tenho outra escolha, não é mesmo ? — e apoiou as mãos na prancha, mais ou menos na metade, quando a corrigi :

–Mais para trás — empurrei a lateral de seu corpo para que acertasse a posição.

Depois de muito esforço, e impulsos fracassados, ela finalmente estava sentada de forma normal, com uma perna de cada lado da prancha.

–Essa prancha é mais larga que o normal né ?

–Também é maior em comprimento — respondi, fitando a frente arredondada, que facilitava o equilíbrio do esportista — É de stand up, e elas variam os bicos, e larguras, dependendo da função. Se for surf, ou só pra dar estabilidade quando se está remando ... Agora aguenta firme que vou tentar subir também.

–Isso não vai dar certo ! — afirmou ela, sacudindo os braços em protesto — Gray, não faz isso !

–Shh ! — ri seco, rolando os olhos — Deixa de ser medrosa. Tá com medo de se afogar, Lockser ?

–Quer que eu te mande ir pro inferno duas vezes hoje, Gray ? — perguntou, ironicamente. Sorri de lado, colocando as mãos na prancha, e dando impulso.

Felizmente, ela apenas tremeu um pouco, desestabilizando durante poucos instantes, e fui capaz de sentar, com o corpo na posição contrária da normal, virado de frente para Juvia.

Lockser ergueu uma sobrancelha.

–Achei que soubesse surfar — comentou, rindo baixo em seguida — Não está a contrário na prancha ?

–É proposital — garanti a ela, fitando a água — Consegue remar um pouco ?

A azulada deu de ombros, remando para frente, enquanto eu fazia o movimento contrário, mas nos guiando na mesma direção. Para mais afastados da areia e do raso.

Quando já estávamos mais ou menos onde as ondas — que eram minúsculas — começavam a se formar, onde já devia ser fundo, parei as braçadas, erguendo o corpo, e pedindo que ela fizesse o mesmo. Ela parou, e ergueu as costas, em expectativa.

Respirei fundo, recordando de cada palavra que Ur havia me dito. Podia repetir a lembrança diversas vezes em minha mente, e jamais esqueceria de nada que ela havia me dito. E dito a Lyon.

Só pensar no nome do Vastia me dava náuseas, e pensar que ele e Juvia eram amigos, me deixava ainda mais irritado.

Respirei fundo, olhando-a com atenção.

–Só olhe pra mim, ok ? — pedi, ciente de que ela o faria. A azulada assentiu — Pode abrir os olhos.

E ela fez exatamente isso, vidrada apenas em meus olhos. Os cabelos azuis revoltos ao vento frio que nos atingia. Os olhos azuis escuros, feito o próprio mar, brilhando de curiosidade.

–Os seres humanos comuns tem mania de olhar pra cima — iniciei, erguendo a cabeça para o céu, e fitando-o pensativo — Porque tudo em nossas vidas tem um certo complexo de superioridade. Queremos sempre estar mais acima, cada vez mais altos em todos os aspectos. Talvez pela crença de que os deuses, seres divinos e infinitas vezes superiores a nós, vivam num plano superior, mais altos em relação a nós. Mas o que todos esquecem, é que lá de cima, no ponto máximo desse "pedestal" invisível, o único lugar para o qual eles olham, é para nós. Para baixo — desci os olhos até ela, que fitava o céu e as estrelas de forma encantada e entorpecida.

–E o que eles veem ? — perguntou ela, encarando-me interessada.

–O reflexo do infinito — murmurei. As palavras que Ur me dissera, no mesmo dia em que me mostrara o que eu mostraria a Juvia nesse momento — O infinito não tem fim, então, mesmo que olhassem o mais baixo possível, só o que veriam, seria o reflexo de si mesmos. Uma segunda galáxia.

E então, baixei os olhos, dessa vez para a água, vendo pela segunda vez, desde a morte de minha mãe, aquela explosão de azul fluorescente, espalhado feito num céu estrelado pela água.

Literalmente dentro d'água.

–Não acredito nisso ... — sussurrou, ela, num tom unicamente maravilhado. Um sorriso de orelha a orelha estampou seu rosto, conforme ela observava o show de luzes e brilho que nos rodeava — Gray, o que é ... ?

–É um efeito dos fitoplânctons na água, quando ficam estressados — expliquei, divagando — Quase como se diversas estrelas tivessem caído aqui.

–Vão até a beirada da areia ! — disse ela, apontando naquela direção. E realmente iam. O raso era todo preenchido, e até partes do fundo, por aquele efeito sobrenatural que o próprio oceano e suas criaturas estranhas produziam naturalmente — O oceano ... isso é incrível. É lindo.

–Se chama bioluminescência.

–Parecem Luzes de Neon– descreveu, enquanto eu observava cada traço e reação sua. Me arrependendo profundamente de ter me arrependido de trazê-la. Não havia ninguém mais merecedora de ver algo como isso. Toda sua história, tudo o que ela era. Era incrivelmente especial.

Juvia sorria cada vez que reparava num novo detalhe, e quando um grupo de águas-vivas passou por debaixo de nós, ela nem se deu ao luxo de retirar as pernas de dentro d'água, apenas apreciando os animais como se não existisse algo chamado medo.

–É perfeito demais ... — murmurou, mais para si mesma.

Analisava-a com puro interesse, e não evitei o sorriso de canto de brotar em meus lábios. Ela era linda, em todos os aspectos.

Arrastei-me levemente pra frente, fazendo com que nossos joelhos se tocassem, em busca de maior proximidade.

–Ur, isso é a coisa mais bonita que eu já vi em toda a minha vida ! — afirmou Lyon, rindo de forma infantil, e sacudindo as mãos dentro d´água, no intuito de fazê-la brilhar mais. Ur sorriu entretida, virando-se em seguida na minha direção.

–E quanto a você, Gray ? — perguntou-me, erguendo as sobrancelhas — O que acha ?

–Que parecem Luzes de Neon– respondi apenas, segurando a borda da prancha, e descendo o corpo até encarar a água o mais próximo possível. Mergulhei em seguida, largando a prancha e tudo para trás, enquanto sentia algo em meu interior ser completamente preenchido.

Juvia enfiou as mãos na água, girando-as ali, divertindo-se com os efeitos luminosos que os movimentos causavam. Fiz o mesmo, igualmente entretido, e depois levantei o olhar, observando-a novamente. Sentia minha franja incomodar os olhos, devido ao vento, mas tratei de ignorar, me concentrando apenas em seus sorrisos maravilhados com a visão.

Foi quando ela ergueu o rosto, e nossos olhos se encontraram. Não soube dizer o que senti no momento, apenas que foi intenso. Eu realmente gostava de estar com ela.

Com isso em mente, aproximei meu rosto do seu lentamente, deixando-a sem reação. Os lábios rosados entre-abertos estavam convidativos demais ...

Nossos narizes se tocaram, e ignorei algo dentro de mim que dizia para pensar bem antes de fazer qualquer coisa. Mas foi ela quem cobriu o resto da distância, unindo nossos lábios num selinho desajeitado, e simples.

Embora eu suspeitasse que aquilo seria suficiente para ela, não podia dizer o mesmo de mim, e acabei por aprofundar o toque, sugando seu lábio inferior e ouvindo-a arfar.

O beijo não se iniciou calmo — como eu não gostaria que acontecesse — , e fiquei realmente grato por isso, levando as mãos até a lateral de seu rosto, enquanto sentia seus braços envolverem meu pescoço, de forma natural.

Em alguns instantes, já estava pedindo passagem com a língua, e ela cedeu rapidamente, me dando mais abertura. Nossas línguas iniciaram o movimento num ritmo lento, girando vez ou outra, em busca de maior contato. Explorei cada canto de sua boca, antes de parar o ato ao morder seu lábio inferior, fazendo-a suspirar.

Desci minhas mãos até sua cintura, onde envolvi com firmeza, e a senti segurar minha nuca. O beijo voltou a acontecer de forma voraz, e tratei de não pensar em nada além do quanto aquilo era bom.

Dentro de mais alguns instantes, tivemos de interromper o ato, devido a falta de ar. Ela olhava-me incrédula, quase como se buscasse algum sinal de que aquilo era realidade, enquanto seu peito subia e descia, rapidamente. Os lábios levemente inchados, e vermelhos.

Engoli em seco, sacudindo a cabeça em negativa enquanto deixava o corpo novamente ereto.

–Foi mal — me desculpei, coçando a nuca. Ela abriu a boca para dizer qualquer coisa, quando seus olhos subitamente se arregalaram, assustados.

–Gray ! — avisou-me, e virei o rosto para o lado no exato momento em que a onda — grande — veio contra a prancha, deixando o objeto que antes estava na horizontal, na vertical. A frente da prancha estava para trás, então eu acabei ficando na direção da areia, enquanto Juvia apenas me olhava, segurando nas bordas em pânico, enquanto éramos erguidos pela água até mais de um metro e meio acima do nível normal.

Ela gargalhou alto, e o sorriso que exibia era tão, mais tão grande, que senti meu coração se acelerar.

[...]

Juvia P.O.V

[...]

Quando o caixote finalmente me deixou respirar, estava praticamente encalhada na areia da praia. E embora a situação, em si, fosse deveras constrangedora, o momento extasiante não me deixava sentir vergonha.

Mergulhei no raso, afundando os cabelos dentro d'água, e voltei a superfície em seguida, encontrando Gray erguendo a prancha e levando-a para fora d'água.

Me aproximei dele um tanto sem jeito, enquanto o Fullbuster a fincava na areia, suspirando cansado em seguida, e alongando os ombros.

Sentei-me na areia, abraçada aos meus próprios joelhos, e apoiei o queixo ali, pensativa. Me sentia tão grata a ele, de todas as formas possíveis, e tão confusa ao mesmo tempo. Ele havia deixado bem claro que não correspondia meus sentimentos.

Então por que o beijo ?

Bem, isso realmente não tinha importância naquele momento. Eu devia ter feito algo certo, afinal.

Gray sentou-se ao meu lado, não tão próximo quanto eu gostaria, alguns segundos depois, com as pernas esticadas, uma por cima da outra, e as mãos atrás do corpo, o alongando. Fitava o céu distraidamente, e sussurrei divertida :

–Está olhando o céu errado.

Ele sorriu de lado, observando-me de canto.

–Estou agradecendo a ela.

–Ela ... ?

Franzi o cenho, ele desfez o sorriso.

–Ur — respondeu, jogando a cabeça para trás — Essa ... foi a primeira vez que vim a praia de noite depois da morte dela. É ... difícil, mas me trás boas lembranças.

Não soube ao certo como reagir a aquela situação. Certamente eu não o abraçaria da mesma forma que havia feito com Jellal. Até porque, pra mim, contato físico era algo evolutivo numa relação entre duas pessoas.

Mas é claro que eu fazia algumas exceções, quando estava diretamente relacionado a um certo alguém. No entanto, um abraço não cabia a aquele momento, e dei-me por satisfeita apenas deitando a cabeça no ombro do moreno, observando o horizonte que já assumia uma tonalidade azul mais clara.

–Melhor voltarmos — murmurou ele, com a voz cansada — Dormir mais um pouco.

–É — concordei, a contra gosto. Não era bem minha primeira opção de atividade — Vamos ...

Nos levantamos em seguida, e apenas peguei minhas roupas, sem vesti-las já que ainda estava molhada, enquanto Gray guardava a prancha de volta na cabana, catando sua bermuda na areia. Torci o cabelo, vendo-o se aproximar, e logo seguimos pela trilha na direção do hotel.

O caminho fora silencioso, e não ousei dizer alguma coisa, um tanto preocupada com o estado mental dele naquele momento. Eu sabia o quão difícil era passar pelos momentos onde recordávamos de algo intenso da infância.

Comigo era assim, toda vez que ficava sozinha, e no escuro. E tive de me controlar verdadeiramente durante aquele momento, antes de entrarmos no mar, onde ele havia me deixado de olhos fechados ainda no inicio da trilha.

Me lembrava as piores partes de minha infância na casa do interior. Com Aquarius.

Chegamos a bifurcação de corredores que separava nosso trajeto até o quarto, e ele coçou a nuca, virando o corpo em minha direção.

–Hm ... — murmurou, bagunçando o próprio cabelo em seguida, sem jeito — Até mais, Juvia.

Franzi o cenho, corando violentamente. "Juvia" ?!

–Me chamou pelo nome — observei, sorrindo divertida. Ele deu de ombros.

–Prefere Lockser ?

–Sem chance.

Ele riu seco, concordando com a cabeça.

–Até mais, Gray.

O Fullbuster fez menção a virar-se, mas logo aproximou-se de súbito, roubando-me um beijo estalado.

Minhas bochechas coraram ainda mais, e ele se afastou, sem dizer nada, sumindo no outro corredor, com o passo mais rápido do que o normal. Mordi o interior da bochecha, pegando a chave nos bolsos do jeans com velocidade, enquanto corria até a porta do quarto, abrindo-o e trancando-o em seguida, em pânico.

Escorei-me na porta, escorregando pela mesma até que meu bumbum desse um baque alto no chão. Bati com a cabeça consecutivas vezes na porta, de forma descontrolada.

–Não acredito nisso ...

Não impedi o sorriso maior que a minha cara de se instalar ali, e lancei-me debaixo da cama de Lucy, catando o primeiro celular que encontrei, e discando o número de Jellal.

Depois de sete vezes chamando, a voz arrastada e furiosa ralhou :

–Quem é o filho da put-

–Cala essa boca, e me escuta, antes que eu vá até ai te obrigar a me ouvir contar tudo em detalhes, ouviu bem ?

Notas finais
Cheguei. Cadê aplausos ? HAHAHAHA' Que se iniciem as recomendações ! ~ le eu se achando ~ Sério, tias e tios, não custa nada comentar esse, né não. Parte 1 e Parte 2, please *---*