Neon Lights
15 Capítulo 15 - Luzes de Neon - Parte 1
Notas iniciais
–Será que podia ir mais depressa ?! — pediu Erza, empurrando minhas costas com uma força desnecessária. Ela girou a chave na fechadura, e praticamente fui lançada dentro do quarto de hotel.
E eu não podia reclamar disso.
As paredes decoradas com quadros de praia e pequenas pranchas de madeira, o papel de parede estampado com coqueiros. Uma cortina leve cor de areia, em perfeita harmonia com as camas com uma madeira semelhante a bambu. Meus olhos cintilaram diante da visão.
Era bom demais pra ser verdade.
–Não acredito nisso ... — disse Lucy, jogando-se em cima da cama. Olhei-a pelo canto dos olhos, já assumindo a expressão de irritação que sempre usava em sua presença. Infelizmente, Lucy e Erza haviam sido escolhidas como minhas companheiras de quarto. Nada contra Erza, mas a rival do amor seria insuportável de aturar.
Ainda mais ultimamente, que Lisanna vinha falando mais mal dela do que devia. Pra variar.
–É lindo — comentou Erza, aparecendo já com o vestido-saída de praia, e o biquíni. Olhei-a incrédula, mas fora Lucy a primeira a questionar :
–Como trocou de roupa tão rápido ?!
–Eu preciso me arrumar bem hoje — explicou ela, observando-nos com impaciência — O que estão esperando, afinal ?!
–Eu só ia apreciar o quarto ! — rebateu Lucy, e sorri de canto. Desfazendo o sorriso logo em seguida. Nada de ser simpática com o inimigo, Juvia !
–Bem, andem logo ! — ordenou a ruiva, batendo o pé contra o chão de madeira brilhante — Os garotos já devem estar na praia, numa hora dessas.
–Já estou indo — afirmei, enquanto levava a mochila para dentro do banheiro, recostando a porta para me trocar em paz. Mesmo que os gritos e discussões de Lucy e Erza fossem audíveis lá de dentro.
Vesti o biquíni cintura alta cuja parte de baixo era estampada, com a parte de cima simples negra, e olhei-me no espelho, insegura. Detestava idas a praia, o que era quase irônico, se tratando de alguém que fazia natação. Mas não podia evitar. Era vergonhoso ficar semi-nua na frente dos outros. Principalmente na frente de Gray.
Gray. Nem queria pensar nisso, nele, nada. Ser rejeitada era muito pior quando ainda acabava sendo ignorada, de brinde. Fora a pior declaração dupla da história da humilhação. Mas podia ter sido pior. Ele podia ter dito na lata que estava afim dessa tal de Meredy.
E isso sim partiria meu coração em milhares de pedacinhos.
Suspirei cansada, e abri a porta, saindo do quarto arrastando a mochila. Joguei-a em qualquer canto, e olhei na direção das meninas, que permaneciam rindo de algo. Lucy já estava com a roupa de banho, sem nada por cima. Franzi o cenho, perguntando :
–Lucy, não vai ... colocar nada por cima ?
Ela negou com a cabeça, dando de ombros.
–Não vejo motivo. Só seria mais uma coisa pra carregar, além dos chinelos e do cartão para consumo ... melhor não arranjarmos mais tralhas, né ?
Assenti. Nesse ponto, era verdade. Mas não fazia muito o meu tipo. Sair pelos corredores com esse tipo de ... indecência. Acabei por pegar um camisetão de banda GG preto, da vovó quando virou fã de Pink Floyd, e vesti-o sobre o biquíni, colocando meus chinelos. Finalizei o "look" prendendo os cabelos num coque despojado, com alguns fios caindo, e a franja solta.
Uma droga despojada, como sempre.
Enquanto Lucy e Erza exalavam um ar sensual incrível. Os corpos pálidos num exibicionismo de curvas incrível. Lindas como de habitual, é claro. Não lhes tirava esse mérito.
Descemos de elevador, só com a companhia de um outro hóspede, que olhava os seios de Lucy com uma expressão que simplesmente não era de Deus.
Assim que a porta se abriu, e revelou um Jellal apenas de bermuda com estampa militar, o corpo todo de Erza pareceu tremer, e ela chocou-se contra a parede do elevador, assustada.
Pigarreei baixo, após alguns instantes.
–Erza ... temos que ir.
–Eu sei.
Ela engoliu em seco, cruzando os braços enquanto andava lentamente para o saguão do hotel. O Fernandes virou-se, e engoliu em seco, imediatamente.
–Yo ... — murmurou, e recebeu um abraço apertado de mim em resposta — Argh, Juvia, sai daqui !
–Você está sem camisa — murmurei, rindo em seguida — E é muito branco.
–E você parece uma pervertida — observou, afastando-me pelos ombros — Mas está sexy. Parece que saiu de uma noite selvagem com o namorado gordo, e vestiu a camisa dele.
–H-Hentai ! — gritei, dando-lhe um soco na lateral do braço. Ele riu, rolando os olhos — Você é um escroto, Jellal !
–Nunca escondi isso de ninguém — argumentou, sem tirar os olhos da figura da Titânia, que nos observava a certa distância — Erza.
Ela ergueu os olhos, já ruborizada.
–Natsu, Gray e Gajeel foram para a praia, jogar vôlei — avisou, dando de ombros — Eu ... e Juvia, íamos beber algo no bar. Nos encontramos depois ?
Meus olhos se arregalaram. "Eu e JUVIA?". Era só o que me faltava ! Virar a falsa rival do amor da Erza, e ser morta durante a madrugada. Pelo menos seria num local bonito.
–Melhores amigos são pra isso, não é mesmo ? Fugir de esportes juntos ... — Lucy riu, fazendo um gesto de descaso. Olhei-a incrédula, com os olhos levemente arregalados.
Lucy Heartfilia havia acabado de me ajudar a não ser odiada por Erza.
E isso era horrível. Como eu poderia odiá-la com igual intensidade depois disso ?!
Erza olhou-nos por alguns instantes, e acabou dando de ombros.
–Eu tinha de ir com Gray na recepção de qualquer forma, já que Mavis-sense' nos pediu semana retrasada. Encontro vocês depois, então ... -
A ruiva fitou o chão, e Jellal engoliu em seco. Ela deu dois passos para se afastar, mas — felizmente — ele segurou seu braço, de leve, fazendo-a virar-se.
O olhar que eles trocaram podia ter feito meu coração disparar, de tão intenso.
–Eu ... quero te ver de noite — anunciou, simples. Eu e Lucy nos entreolhamos, e sorrimos.
–H-Hai — e então, a Titânia corou. C-O-R-O-U.
–O-Ok — Jellal engoliu em seco de novo, dando um puxão na minha camiseta que me fizera tropeçar na tapeçaria cara do saguão, caindo sentada em meio aos hóspedes cujo óculos de sol devia valer minha casa. Com o carro de brinde.
–Muito obrigada, Jellal — agradeci ironicamente, levantando em seguida — Foi bom passar vergonha na cara dos ricos.
–Não foi nada.
E então, fui rapidamente arrastada pra longe de Erza Scarlet. Tipo, o mais longe possível.
[...]
–Mais um drink, moço — disse, com a voz arrastada, enquanto terminava com uma virada de copo o restante do líquido rosa em meu copo. Jellal rolou os olhos.
–Sejamos sensatos, Juvia — murmurou, com "leve" irritação — Primeiro, o nome desse homem, no expediente de trabalho, é garçom. Segundo, dois copos de batida de morango feitas só de sorvete, e morango, não vão te deixar bêbada.
–O quê ? — ri forçadamente — Quem disse que eu quero ficar -
–Sua voz forçada de bêbada, e essa sua cara de não dormi hoje.
–Você é praticamente um velho ranzinza e insuportável, Jelly — comentei, rolando os olhos enquanto fitava a piscina ao ar livre mais a frente, cercada por uma pequena grade metálica. Possuía algumas cadeiras cujas costas eram reguláveis, e uma espécie de palquinho montado pouco mais a frente da borda.
Aproximando-se dela, uma espécie de legião de velhinhos — alguns até mesmo de bengalas e muletas — aproximava-se numa velocidade incrivelmente lenta.
Jellal seguiu meu olhar, e franziu o cenho, curioso.
–Deve ser aula de hidroginástica — expliquei, ao mesmo tempo em que o garçom servia meu terceiro copo. Dei um gole pequeno, olhando os toboáguas e piscinas ao redor.
Esse era o bom de se estar com Jellal, eu acho. Éramos pessoas diferentes, mas com os mesmos interesses. Para nós nada era mais divertido que assistir as coisas em volta, como se o tempo tivesse parado. Sentados num barzinho, bebendo algo gelado. Sendo confortavelmente invisíveis.
–Você foi um fofo com ela ... — comentei, baixinho. Ele deu de ombros, bebendo um gole do seu drink sem álcool.
–Estou cansado de pensar que meu caso esteja perdido — explicou, não tão baixo quanto eu esperava. Sorri de lado ao vê-lo determinado. Quando seus olhos se cerravam, e as sobrancelhas franziam-se diante do contexto. Era meigo, talvez até adorável.
Sem pensar direito, abracei-o com força, na lateral do corpo. A distância entre os dois banquinhos de bambu, decorados com arranjos de flores — semelhantes a aquelas havaianas — era bem pouca, então realizar o movimento fora a parte mais fácil.
O difícil mesmo fora sustentá-lo. Era estranho manter contato físico com as pessoas, de forma tão espontânea. Mas eu queria isso. Queria abraçá-lo. Estar tão perto de Jellal que nossos corpos tornassem-se sem importância alguma fisicamente falando. Quase um abraço de almas ? Termo estranho, mas algo como isso.
–Pelo amor dos deuses, Juvia ... — sussurrou ele, contra meu cabelo — Se me fizer chorar, vou te afogar na piscina mais perto.
Ri baixo, com a cabeça apoiada em seu ombro.
–Eu te amo — sussurrei, contra seu ombro. Respirei fundo antes de olhá-lo nos olhos, mas o fiz poucos instantes depois. Jellal fitava a piscina, com o canto dos olhos marejados.
–Eu também te amo, sua idiota — resmungou, apertando-me com firmeza.
Abri um sorriso de orelha a orelha, fechando os olhos por alguns momentos, até sentir as primeiras lágrimas descerem por minhas bochechas. Era tão bom ouvir isso. Ouvir um "eu te amo" sincero, que demonstrasse exatamente o que significava. Ouvi-lo de alguém que não fosse minha avó. De alguém que eu podia considerar minha família de um núcleo de pessoas diferente.
Deixei que minhas pálpebras se abrissem devagar, e quando olhei para o rosto de Jellal novamente, meus olhos se arregalaram. Ele também estava chorando. Uma risada mista a um soluço escapou de meus lábios, enquanto observava as lágrimas escorrerem pelo rosto pálido e extremamente sério do azulado.
–Eu prefiro ... acreditar que estamos chorando pelos problemas do nosso passado — murmurou ele, amargo, sacudindo a cabeça em negativa. Sorri de lado, afagando-lhe os cabelos.
–Sejamos sensatos, Jellal — imitei sua voz, e ele riu seco, olhando-me de relance.
As lágrimas permaneciam descendo, e ouvi um soluço extremamente alto e sôfrego, que definitivamente não havia sido meu. Franzi o cenho, olhando para Jellal, mas ele mantinha a mesma expressão desconfiada que a minha.
Soltei-o, e viramos o corpo para trás, na direção do balcão, ao mesmo tempo, encontrando o garçom aos prantos com uma câmera de celular virada para nós.
–Isso foi ... tão kawaii ! — afirmou ele, entre soluços e lágrimas. Dei uma gargalhada alta, mas Jellal parecia furioso. Acho que o pior para ele, não era nem ter sido filmado pelo homem, e sim eu ter uma testemunha do afeto dele pela minha pessoa.
O azulado puxou-me pelo pulso, e num movimento rápido, virou meu copo no balcão, derramando grande parte do líquido.
–Limpa isso ai antes que eu te dê um soco, falô ? — olhou-o com uma expressão assassina, e tive certeza de que não queria estar no lugar daquele garçom.
Rolei os olhos ao constatar que a capacidade do Fernandes de estragar momentos fofos era simplesmente infalível.
–Que cara mais ...
–Gay ? — sugeri, rindo em seguida. Ele rosnou qualquer coisa.
–Viado — corrigiu-me irritado — Gay é uma palavra meiga para descrever o que ele é. Mas não só isso, fofoqueiro infernal. Alguém chamou ele na conversa ?! Qual é, ninguém merece ser filmado em pleno feria-
–Ai estão vocês ! — a mulher de cabelos curtos e loiros segurou-nos pelos ombros, puxando com força para fora do bar, em direção a piscina dos velhinhos — Não sabia que esse tipo de empresa tinha funcionários substitutos, mas fico muito grata que tenham chegado tão rápido, ou seria o fim da primeira aula estreante da atração !
–Substitutos ?
–Atração ?
Perguntamos ao mesmo tempo. Nos entreolhamos desconfiados, até ouvir uma gargalhada não muito distante, que eu jamais deixaria de reconhecer. Lisanna.
Fuzilamos a albina ao mesmo tempo, que encontrava-se sentada no bar, e ergueu o copo, num brinde mudo e debochado.
"Presente pra vocês " sibilou, e só ouvi o "filha da mãe" vindo de Jellal, ao meu lado.
–Sim, a aula de hidroginástica é novidade no Parque, que agora tornou-se Hotel — explicou ela, sem dar muita importância a nossa cara feia — Achávamos inútil atrações pacatas, mas o gerente apostou nisso para atrair novos tipos de público, e não é que deu certo ?! Bem, a turma de vocês parece bem animada !
Olhamos na direção da piscina, observando o grupo de velhinhos parado, olhando pra qualquer ponto — que não fosse onde nós estávamos — enquanto resmungavam alguma reclamação sobre a temperatura da água. Um deles, mais lento, ainda estava descendo a escada.
–Posso socar a cara dela ? — perguntou Jellal, casualmente. Continuei a observar o velhinho-tartaruga, admirando-o por alguns instantes.
–Há quanto tempo acha que ele está descendo a escada ? — perguntei ao Fernandes, entretida. Ele riu debochado.
–Sabe, três degraus hoje em dia é jogo duro — garantiu-me, e quase pude imaginar o veneno escorrendo do canto de sua boca — Deviam instalar um elevador.
–Bem, deixamos o CD de vocês no canto, é só dar play com o controle nas caixas de som, que está em cima daquela estante — apontou para o objeto mais ao longe — E iniciarem a aula. São quarenta minutos , no mínimo, de duração mas podem prolongar, é claro ! Boa -
–Hey, calma ai ! — Jellal ergueu as mãos, em rendição — Talvez você não tenha notado, mas não somos substitutos de porr- olhei-o em reprovação — de nada, minha senhora. Eu sei que essa menina ao meu lado está meio pobre, mas é só impressão. Somos hóspedes.
Rolei os olhos, e ele prosseguiu.
–Se nos dá licença -
–Ora, qual é ! — ela cerrou os punhos, perdendo a expressão simpática de "sejam bem-vindos ao paraíso !" — Se acha que vai bancar o adolescente de férias comigo, não ferra. Sei muito bem qual é a sua estratégia, seu marginalzinho patético ! Você vai dar essa aula, ou eu mesma te encaminho a saída, com essa sua amiguinha de brinde ! Acha que não conheço o golpe do trabalhador hóspede ?! Você vem aqui, com a malinha repleta de atividades divertidas para idosos, e na hora de trabalhar, dá no pé para a praia, e etc ! Conheço bem esse tipo de jogo, e vou dizer na lata : não cola comigo. Agora tira essa sua bermudinha de marca e bota esse rabo entre as pernas, fui clara ?!
Engolimos em seco, assustados. É o demônio aqui na minha frente mesmo, ou é impressão ?!
–H-Hai ! — fiz uma leve reverência, e Jellal bufou em resposta — Vamos dar o nosso melhor, senhora !
–Eu espero mesmo — murmurou ela, no tom ameaçador que provavelmente devia ser habitual com quem não carregava o cartão de consumo — Tô de olho em vocês, Teletubbies. E vejam se tiram essa tinta esquisita da cabeça, ok ? Parecem uma dupla do circo de horror.
Segurei Jellal a tempo de salvar a vida da mulher, que se afastou feito um dragão cuspindo chamas.
–"TÔ de olho em vocês, Teletubbies " — resmungou Jellal, imitando a voz da mulher — Vadia de circo, isso sim ! Vou aparecer de madrugada no quarto dela e pintar aquele cabelo duro de verde oliva !
–Verde oliva ? — repeti, rindo em seguida — E depois é o tiozinho do bar que é gay.
–Me erra, Juvia.
–Será que podemos acabar logo com isso ? — perguntei a ele, suspirando cansada — A turma vai pegar no sono daqui a pouco.
–Tá de sacanagem que pretende fazer isso, não é ?!
–Você ouviu o Diabo ! Era isso, ou sei lá o que ... ela me assustou de verdade ! Além do mais, não sente pena desses velhinhos ? Eles andaram até aqui ... vestiram uma roupa de banho ... devem ser mais de vinte ! Imagine o quão entusiasmados não deviam estar.
–Num passado distante — argumentou ele, cruzando o braço rente ao peito. Fiz a minha melhor cara de gatinha do Shrek, até que o azulado bufou, irritado ao extremo — Quer saber, vamos logo com isso. Só porque gosto do meu avô, ok ? Não tem nada a ver com essa tua cara feia. E falando nisso, tira essa camiseta, se não eu rasgo.
Corei violentamente, e ele gargalhou, sussurrando um "Puritana" debochado. Enquanto o azulado fitava os velhinhos, ergui a blusa, constrangida, e joguei-a no canto , próximo a estante.
Assim que o azulado voltou os olhos a mim novamente, um sorriso malicioso brotou no canto dos seus olhos.
–Isso me lembra quando nos conhecemos — comentou, e recordei-me perfeitamente da expressão dele na direção do meu sutiã. Semelhante a essa que ele estava usando agora, para o meu biquíni — Devia tirar a roupa mais vezes, Teletubbie.
–Vá a merda — ralhei, rolando os olhos, enquanto ouvia a música ecoar pelas caixas de som. Eu e Jellal olhamos na direção da estante, e Lisanna estava escorada na mesma, com o controle na mão.
–É hora de hidroginástica, pessoal ! — gritou ela, ao microfone — que eu nem sabia que tinha ali-.
Engoli em seco, e subi no palco, com Jellal poucos passos atrás, resmungando vários palavrões e maldições a Strauss, com o tom azedo habitual. A música ainda estava no começo, e não era uma das minhas favoritas da Lady Gaga. Mas ia ter de servir, de qualquer forma.Respirei fundo, antes de gritar um "Bom-Dia" bem alto, e mover os quadris.
–O que está fazendo ?! — perguntou Jellal, incrédulo — Ah, quer saber. Palmas, palmas, direita, esquerda. Palma no alto, repete a sequência.
–Onde aprendeu isso ?! — perguntei, incrédula. O azulado rolou os olhos, dando de ombros.
–Eu já fui cover dos Backstreet Boys, quando era mais novo.
–Não acredito nisso ...
–Cala essa boca, idiota ! — cortou-me, a face verdadeiramente corada — 5, 6 , 7 e 8 !
[*¨*¨*¨*]
Gray P.O.V
Estava pegando duas bebidas, quando ouvi o grito de Lisanna ecoar pelas caixas de som.
–É hora de hidroginástica, pessoal !
Franzi o cenho, procurando-a com os olhos, e ouvi Erza me chamar alto. Segui a voz para fora do barzinho estilo havaiano, encontrando a ruiva mordendo a própria mão, tentando conter o riso.
–Você tem que ver isso ! — afirmou ela, puxando-me com força. Ela nos guiou até a grade de uma das piscinas, e com irritação, olhei na mesma direção que ela. Arregalando os olhos em seguida.
Em primeiro lugar, Jellal Fernandes e Juvia Lockser estavam em cima de um palco. Dançando sincronizadamente, movendo quadris e braços, tipo, realmente dançando. Jellal. E Juvia. Dançando.
Lockser estava de biquíni, e cara, eu tinha de admitir que ela tinha belas curvas.
Sacudi a cabeça em negativa, fitando a cena incrédulo. O refrão era, de longe, a parte mais hilária. Os dois batiam palmas, para os dois lados, movendo os quadris, e trocavam de lugar no palco, entre risadas.
Juvia ria histericamente da situação, com os cabelos bagunçados e o corpo movendo-se casualmente, indicando que se divertia com a situação. Observei-a sorrir para Jellal, exibindo os dentes certinhos e brancos, e senti meu rosto esquentar levemente. Ela era bonita quando sorria, e gostava de como seus cabelos iam somente até mais ou menos dois dedos abaixo dos ombros. Não tão longos quanto os da maioria das garotas.
Ela torceu-os superficialmente, colocando-os de lado, enquanto continuava a dancinha incentivadora. Até Jellal parecia empolgado, e vez ou outra eles gritavam com os velhinhos, fazendo-os se sacudirem com mais vontade. Era engraçado, de verdade, mas também ...
–Ela gosta muito de você — comentou Erza, sem tirar os olhos da cena. Um sorriso de canto adornando seus lábios. Olhei-a de relance, dando de ombros sem parecer interessado — Digo, não como amiga, Gray.
–Eu sei disso, Erza — garanti a ela, fitando a azulada aproximar-se da borda, ensinando direito a sequência a um dos velhinhos — Ela já me disse duas vezes.
–E eu tenho certeza de que não disse nada em resposta — murmurou, relativamente amarga. Bufei impaciente.
–Eu não a vejo dessa forma, o que esperava que eu fizesse ? Dissesse a ela que correspondo, sem ser verdade ?
–Você não sabe o que é gostar de alguém, Gray. E sempre que está prestes a descobrir, se fecha nessa indiferença gélida ! Seja homem o suficiente pra encarar sua situação. Não só com a Juvia, na verdade. Sei muito bem que voltou a falar com Meredy por mensagens. Lembra o que aconteceu vez passada ?
Fitei o chão, irritado.
–Mas dessa vez é diferente — afirmei, sem olhá-la — O pai dela morreu, Erza. Eu sei como ela se sente ... e não posso abandoná-la agora.
–Melhor tomar cuidado com isso — avisou-me, afastando-se da grade — Todos temos a terrível mania de se aproveitar da sensibilidade alheia, para sermos privilegiados de atenção. E Meredy sempre quis sua atenção.
Olhei para Juvia uma última vez, mordendo o interior da bochecha apreensivo. Não, sem chance. Nunca daria certo.
[*¨*¨*¨*¨*¨*¨]
Quando finalmente a aula havia acabado, os aplausos dos velhinhos — e dos familiares dos mesmos, que ficaram nos assistindo do lado de fora da piscina — foram simplesmente compensadores. Era uma boa ação, e divertida, no fim das contas.
Mas é claro que Lisanna só conseguia rir, e Jellal me xingar. E nem sei porque eu fui a escolhida da raiva dele, só sei que fui e ponto final. Andamos os três até outro bar — porque Jellal não voltaria no garçom-gay de modo algum — e bebemos um refrigerante, para depois nos prepararmos para enfrentar Natsu e seu maldito entusiasmo.
É claro, nada pessoal, só estava cansada demais para ouvi-lo, e ouvir Lisanna comentando qualquer coisa sobre seu relacionamento catastrófico. E Jellal não parecia muito melhor que eu.
–Natsu e Gray disseram que iam pegar pranchas de stand-up amanhã bem cedo — comentou a albina, rindo sozinha — Vai ser divertido, eu acho. Se bem que Gray sabe surfar, então não vai ser tão ruim quanto imaginava.
–Ele surfa ? — perguntei, interessada. Lisanna assentiu, e passou a me contar a história de quando haviam ido de manhã bem cedo a praia, e o moreno fora de ônibus, com uma prancha enorme, e uma bolsa de sanduíches naturais, duas horas mais cedo. Ainda era noite quando o Fullbuster chegava a praia, e ninguém entendia o porque.
–Deve ser algo bem bonito — murmurei, pensando alto. Jellal deu de ombros.
–Talvez alguma tradição de família, algo assim.
–É, quem sabe.
[...]
–Toma essa ! — berrou Natsu, atirando a milésima bola contra Gray. O moreno rebateu-a de prontidão, e mesmo que eu amasse assistir seus músculos se contraírem, tive de tombar a cabeça pro lado, no ombro de Levy, que permanecia lendo "Precisamos falar sobre o Kevin", sem dar a mínima atenção ao jogo / jogos mortais de vôlei que acontecia na quadra de areia ao nosso lado.
A leste tínhamos o jogo, e a oste a praia, e estávamos as duas sentadas debaixo de um guarda-sol, na canga de estampada tie-dye de Lucy. Eu com quilos e mais quilos de protetor, assim como ela.
–Não aguento mais assistir aquilo — murmurei, olhando Jellal e Erza se afastarem , com as mãos quase se tocando, conforme andavam pela praia — Nem casais românticos.
–Está sendo pessimista, Juvia — afirmou ela, virando uma página — Ainda estão todos jogando ?
–Sim — bufei cansada — Devia ter ficado de vela com Jellal e Erza.
–Duvido muito que fosse ser mais divertido que ficarmos aqui, fazendo nada — ela sorriu de canto — Quer jogar algum jogo ?
–Por exemplo ... ? — olhei-a com curiosidade, já interessada.
–Adivinhação Metafísica — disse ela, fechando o livro entusiasmada. Franzi o cenho — Também conhecido como o que é o que é ...
Assenti, finalmente entendendo.
–Ok, eu começo — pediu, tocando o próprio queixo com o indicador, de forma pensativa — O que é o que é, que tem o pé na cabeça ?
Ergui uma sobrancelha, fitando o mar enquanto pensava. Pé na cabeça ...
–VAMOS PRA ÁGUA, POVO ! — gritou Natsu, tão mais tão alto, que os turistas mais próximos saíram correndo. Dei um salto da canga, mas Levy permaneceu calmamente sentada.
–É o costume — explicou-me, dando de ombros e pegando o livro de novo, ciente de que não teríamos mais paz alguma — Daqui a pouco vem a fome, e ai sim teremos um problema. Reze para que a água os faça esquecer dela.
Observei o grupo correr para dentro d'água numa velocidade incrível. Natsu e Gray, como sempre, apostando corrida. Os dois lançaram-se contra as ondas com seriedade, parecendo realmente entretidos com a pequena competição, e apoiei o queixo no punho, entediada, apenas fitando-os distraidamente.
Lucy permanecia molhando os pés na beirada, e Lisanna veio até nós, murmurando algo como "Definitivamente detesto vôlei, e o Gajeel", terminando de vez com a garrafinha de água mineral da Levy.
Gajeel aproximou-se logo depois, sentando-se todo suado entre mim e Levy, o que a fizera parar a leitura de novo, dessa vez para trocar alfinetadas com o moreno, que roubou-lhe um beijo no meio da fala, fazendo-a corar violentamente.
Rolei os olhos, afundando a cara nos joelhos. Tédio, solidão, seca. Deprimente, no mínimo.
Lisanna aproximou-se da água logo em seguida, parando próxima a Lucy, na beirinha, e as duas trocaram algumas palavras, cordialmente. Mas Natsu, enquanto subia na corcunda de Gray, acenava para as duas com tal animação, que a empolgação delas logo cresceu, fazendo-as apostarem uma corrida incondicional na direção do rosado.
Poucos segundos depois, Lucy gritou bem alto, e olhei-os com mais atenção, reparando na loira e na albina, que permaneciam apontando para a água, saindo correndo para fora do mar em seguida, desesperadas.
–Águas-vivas ! — gritou Lisanna, a mim, enquanto corria na nossa direção — Muitas mesmo ! O mar está repleto delas !
–Deve ser uma corrente de água quente ! — afirmou Lucy, aproximando-se logo em seguida. As duas pararam, ofegantes, e ainda assustadas. Olhei-as com curiosidade. Acho que nunca havia visto uma água viva em toda a minha vida, mesmo morando ao lado do mar, literalmente.
–É bonita ? — perguntei, e as duas arregalaram os olhos.
–Ficou doida ?! — exclamaram ao mesmo tempo — São assustadoras !
Natsu e Gray vieram correndo logo em seguida, com Natsu se tremendo de medo.
–Acho que uma delas me encarou — afirmou o rosado, abraçando a si mesmo. Lisanna riu, apertando a bochecha do rosado, que nem se quer olhou-a. Estavam num clima cada vez pior.
Lucy riu, negando com a cabeça.
–Oe, Natsu ! Águas-vivas nem se quer enxergam ! — ela repreendeu-o, e o Dragneel fizera um biquinho contrariado, levando um cascudo em seguida. Afetuoso, é claro.
Em seguida, os três voltaram ao campo de vôlei, e Gajeel acompanhou-os de prontidão. Devia haver algo de muito divertido naquele jogo, no entanto, talvez não para o Fullbuster.
Gray permanecia parado, com uma expressão indignada, na metade do caminho entre a canga onde eu e Levy estávamos, e a quadra. Olhava para o grupo, e em seguida para o mar, dividido.
–Pessoal, tá muito calor — argumentou, coçando a nuca. Eles resmungaram coisas como "águas-vivas, Gray!" , e o moreno defendeu-se — Elas não queimam, eu já disse, Natsu. A maioria está morta, e a que não está, não tem tentáculos. Sério, vamos -
–Sem chance, Gray — garantiu Lucy, olhando-o com seriedade. O Fullbuster bufou, irritado, e rolou os olhos, voltando o corpo em direção ao mar. Observava-o abraçada a meus joelhos, e sentindo meus cabelos voarem, sem rumo certo em meio ao vento. Coloquei uma mecha para trás da orelha, assoprando a franja.
Foi quando nossos olhares se encontraram.
Os olhos negros deles focalizados nos meus, durante curtos instantes, até que ele fizesse um sinal de "vamos lá", com a cabeça, virando-a na direção da água. Senti minhas bochechas corarem, e tive de rever o momento mentalmente cerca de cinco vezes até assimilar que estava acontecendo.
–Vai lá — sussurrou Levy, empurrando minhas costas de leve. Levantei-me em seguida, um tanto desajeitada, abraçando meus próprios braços, andando em sua direção. Parei a poucos passos dele, e Gray não esboçou se quer um sorriso de canto.
–Tá afim de entrar na água ? — perguntou-me, num tom casual. Olhei as ondas durante alguns instantes, relaxando a postura e deixando os braços caírem ao lado do corpo.
–Na verdade, eu queria ver as águas-vivas — disse a ele, rindo em seguida — Ok, parece meio idiota, mas nunca vi uma de perto.
–Tá — ele deu de ombros, deixando-me ali enquanto ia na direção da canga. Observei-o com curiosidade, enquanto o moreno voltava carregando o balde vermelho e uma pá pequena azul, daqueles de brinquedos — que, a propósito, eram de Gajeel, que afirmou que só se molhava no mar se fosse de baldinho -.
–Pra quê ... — deixei a frase morrer, sem saber o que dizer ao certo. Andamos até a beira do mar, e deixei meus pés tocarem a água fria, que vinha e ia num ritmo lento e desinteressante. Apesar disso, Gray parecia altamente entusiasmado toda vez que sentia as ondas em seus pés.
–Eu coloco algumas aqui dentro — explicou, entregando-me o balde — Mas só se não fizer escândalo, ok ?
Olhei-o apreensiva, e ele acrescentou :
–Não vão te queimar.
Caminhamos mar a dentro aos poucos, até que a altura da água estivesse em minha cintura, onde Gray me pediu pra esperar, e mergulhou, demorando cerca de pouco mais de meio minuto antes de voltar a superfície. E em suas mãos, dentro da pazinha, haviam duas das criaturas esquisitas.
Ele depositou-as no balde, e sorri incondicionalmente, sentindo os olhos do moreno sobre mim. Eram seres estranhos, acima de tudo. Meio transparentes, mas em meio a "gelatina", havia algo como órgãos, ou quase isso.
–Pega — incentivou, olhando-me. Ergui os olhos, assustada com a sugestão — Não vão te queimar.
–Mas ... — engoli em seco, fitando-as com interesse — Certeza, né ?
–Deixa de ser medrosa, Lockser — debochou, e senti meu rosto queimar de raiva, enfiando a mão dentro de balde, e pegando uma das águas-vivas com delicadeza, tomando cuidado por precaução. Era mole, e apenas isso. O mais estranho era meu próprio medo, que causava sensações diversas. Balancei-a com interesse, e depois a coloquei no mar de novo, sentindo pena.
–Estraga prazeres — resmungou Gray, colocando mais cinco delas no balde — Eu ia colecionar.
Ele observou o balde durante alguns instantes, e, num movimento que não previ, lançou uma das águas-vivas na direção da minha perna, fazendo-me gritar bem alto, assustada.
O moreno gargalhou, gritando "Te peguei!" ou então, "Tinha que ver a sua cara". Bufei irritada, e poucos segundos depois dele parar de rir, lancei todas as águas vivas do balde em sua direção, e foi a vez dele de gritar, devido a surpresa. Não o mesmo tipo de grito fino que o meu, é claro, mas igualmente vergonhoso.
Passei a rir histericamente, enquanto ele me fuzilava com os olhos, rindo em seguida. Foi engraçado afinal. O que não tinha graça era a onda atrás de nós, alta, que só vimos após alguns segundos.
–Ai meu Kami-sama ! — murmurei, arregalando os olhos. Gray gargalhou, puxando-me pelos tornozelos e fazendo com que nós dois submergíssemos. Nossos corpos se chocaram, e segurei o balde com firmeza, com receio de perdê-lo e levar um sermão de Gajeel.
Assim que levantei, notei que a onda havia nos arrastado até bem próximo da areia, e Gray já encontrava-se de pé rindo com as mãos apoiadas nas coxas. Coxas essas cobertas até a metade com seu short negro de mergulho, que não entendi exatamente porque ele usava até mesmo na praia.
–Isso foi ridículo — comentou, e tive de rir, concordando com a cabeça — Até mesmo pra você, Lockser.
–Vá pro inferno, Gray — disse sem pensar, fazendo-o rir ainda mais, olhando-me nos olhos. Não estávamos muito próximos, mas senti como se houvesse centímetros entre nós dois.
–Hãn Hãn — Natsu pigarreou alto, e finalmente notei a presença dele, não muito longe, na areia — Se não for atrapalhar, estávamos indo pro Hotel ... já está ficando tarde.
Gray assentiu e sorriu de lado pra mim, seguindo o rosado para fora da água.
[...]
Fitei o estojo de maquiagens em cima da pia, espiando pela porta ao checar que não havia ninguém no quarto. Aquilo era constrangedor. Não saber nem ao menos se maquiar. Passei os olhos pela sombra, lembrando das inúmeras vezes em que minha avó dissera que maquiagem era coisa de meninas fracas e promíscuas. Nunca, na minha vida, havia chegado a me maquiar verdadeiramente.
Afinal, Aquarius nunca me ensinaria. E obaasan, fazendo o estilão de mulher-macho, também não o faria.
–Quer ajuda ?
Dei um salto, virando para trás assustada, e encontrando Lucy Heartfilia recostada na porta do banheiro, me observando. Já usava sandálias altas e um vestido bem bonito e um tanto justo na parte superior.
Engoli em seco, negando com a cabeça e voltando a me virar para a pia, vendo-a apenas pelo espelho. Mesmo assim, ela permaneceu ali, me analisando de cima a baixo.
–Linda roupa — elogiou a loira, aproximando-se de mim e parando as minhas costas, sem tirar os olhos dos meus, através do espelho — Eu posso passar um lápis, ou quem sabe um batom rosa. Bem de leve, se não quiser nada chamativo.
Mordi o interior da bochecha, pensativa. Lisanna. Natsu. Triângulo Amoroso. Gray. Tudo vinha em minha mente bem rápido, embora, no fundo, ela estivesse realmente sendo legal comigo. E na verdade ela sempre era. O problema era meu ciúmes cego e irrevogável, que atingia a tudo e todos.
–Se não for te incomodar ... — murmurei, e vi o sorriso de canto se formar em sua boca. Ela virou-me levemente, e ficamos uma de frente para a outra, enquanto mexia com agilidade nos potes de cosméticos.
–Feche os olhos — pediu, e desatou a passar algum tipo de pó por sobre minhas pálpebras, esfolheando com os próprios dedos em seguida — Esse é pra iluminar. Vai ser bom, já que seus olhos são chamativos. Quem me ensinou a fazer isso foi Virgo, uma governanta que morava comigo desde criança. Quando minha mãe morreu, só tive ela de mulher na minha vida, para lidar com esse tipo de coisa.
–Minha mãe não gostava de lidar comigo — expliquei a ela, dando de ombros. Lucy escovou a lateral de meus fios azuis, e deixei que ela continuasse, apreciando a sensação de estar sendo cuidada — E minha avó não é lá muito feminina.
–E você também não precisa de maquiagem , né — ela riu, terminando de ajeitar meu cabelo — Acho que já está ótimo.
Sorri pra ela assim que abri os olhos, olhando-me no espelho, e trocando um olhar cúmplice com a Heartfilia.
–Arigatou, Lucy.
–Vou considerar isso um recomeço — afirmou ela, sorrindo simpática.
Fale com o autor