Neon Lights
14 Capítulo 14 - Contos de Fadas
Notas iniciais
A noite terminou como deveria. Todos foram pra casa, no caso, eu acompanhada de Gray, sendo que não trocamos nenhuma palavra durante o trajeto. Lyon havia encontrado Sherry no caminho, e , como moravam perto, ele achou convenientemente educado levá-la em casa.
Diferente, é claro, de Gray. Praticamente andou a dez metros de mim, sem dar a mínima para a segurança de coisas como minha inocência, e os bons modos. Típico dele, lógico. Sempre arrumando formas de estragar toda e qualquer expectativa.
O que não o tornava nem um pouco menos atraente.
Ele subia a estrada da Serra com tamanha velocidade que me perguntei se não cairia deitada morta no meio do caminho. Mas, ignorando todos os instintos, continuei seguindo-o, firme, e sem reclamar.
–Gray ! — chamei após um tempo, entre suspiros exaustos — Será que pode, por favor, me esperar ?!
Ele me ignorou solenemente, e bufei irritada, correndo com minhas últimas forças até alcançar seu sobretudo negro, que puxei com força. O moreno se virou, encarando-me de cima.
–O que é ? — perguntou com hostilidade.
Cerrei o olhar em sua direção.
–Eu estou te pedindo pra me esperar, só isso — expliquei, tentando amenizar sua irritação.
O que não funcionou.
–Por que não pediu pro Lyon te acompanhar ? — rebateu com outra pergunta. Dessa vez ele havia conseguido me irritar. Cerrei os punhos, determinada a desbancá-lo.
–Será que pode falar num tom menos rude ? Lyon foi levar Sherry em casa, porque está tarde, e as ruas são perigosas. Diferente do que você está fazendo comigo !
–Acha que é minha obrigação te levar em casa ? Sinto em te dizer, Lockser, mas não é mais uma criança. Tudo é perigoso, e quanto antes aprender, melhor. A vida não é uma casa de bonecas, e você não é de porcelana.
–Eu, bem melhor do que você, garanto, sei muito bem o que a vida é, Gray — garanti a ele, colocando o dedo indicador na altura de seu peito, furiosa. Nossos olhos fuzilavam-se como numa batalha naval — Não sou uma boneca, e nunca acreditei em contos de fadas.
–Que bom saber disso, Lockser, imagino como deve ter sido duro ser você ! — ralhou, limpando a garganta com uma risada de puro deboche. Encolheu os ombros, rolando os olhos em seguida — A delicada Juvia Lockser, que vive numa casa grande e bonita, com a avó louca, e a família perfeita. Imagino o quão horrível deve ter sido.
–Você não sabe nada sobre mim, Gray ! — afirmei, com os olhos cheios d'água — Você não sabe o que é sofrer !
Nos encaramos durante o que pareceram minutos, até ele dizer no seu tom mais amargo :
–Eu passei o ano passado inteiro dormindo noites e mais noites num leito de hospital, aguardando a morte levar minha mãe, Ur, aos poucos. Cada dia ela ficava mais doente, e mais ausente na minha vida. Meu padrasto havia sido preso, e o filho dele simplesmente deu o fora. Lyon abandonou Ur, assim como minha irmã mais velha, Ultear. Todos me deixaram vê-la morrer. Toda semana novos remédios, novas consultas ... novos diagnósticos. Até que ela se foi, depois de um longo e maldito ano numa cama, presa.
Engoli em seco, arregalando os olhos. Então era por isso que eles se detestavam tanto, Gray e Lyon. Um dia, haviam sido algo como meio-irmãos.
Senti as lágrimas descerem por minhas bochechas, e mordi o lábio inferior, magoada. Não era como se eu fosse algum tipo de modelo adolescente.
–Pelo menos ela te amava — murmurei, sem pensar direito. Fitava meus próprios pés, sentindo as primeiras gotas de chuva caírem por sobre nós dois. "Gota, gota, gota" — Minha mãe está , atualmente, internada em estado grave num sanatório, tomando remédios tarja preta. Quer saber mesmo como consegui ficar três minutos debaixo d'água, Gray ? Ela forçava minha cabeça num lago, todos os dias. Cada dia o tempo aumentava mais. E aprendi a me adaptar a isso. Mas ela também fazia isso na banheira, e, quando estava frio, ela a colocava do lado de fora, pra testar minha resistência térmica. Eu tremia durante duas horas seguidas, sem poder usar um casaco ou cobertor. Ela nunca me contou sobre algo como pai, e me ensinou a falar em terceira pessoa. Porque eu só convivia com ela. Nunca fui a uma escola normal, nem tive amigos. Morávamos no interior, numa fazendo desabitada e escura. Aquarius me obrigava a dormir no quarto mais longe do dela, naquela maldita casa enorme e vazia. Imagina o quão ruim foi passar noites ouvindo sons estranhos, sem poder dormir na cama com alguém que te protegesse do medo ? Ela me odiava. Nem se quer me olhava nos olhos.
Não olhei-o de novo. Mas seus pés permaneciam ali, fixos no chão a minha frente. Sem que dissesse uma palavra.
Não havia o que dizer.
Sem pensar direito, me aproximei dele, apoiando a cabeça contra seu ombro, em silêncio. Deixei que meus braços envolvessem seu tórax, e ele não me retribuiu. Talvez estivesse com raiva. Ou se sentindo culpado. No entanto, sustentei o movimento por alguns minutos, somente respirando contra sua camiseta branca.
O som de sua respiração próxima ao meu ouvido.
Senti suas mãos tocarem próximo as minhas orelhas, e um beijo leve, porém sonoro, ser depositado no topo de minha cabeça.
Ergui o queixo para olhá-lo melhor, e nossos olhares se encontraram, enquanto eu observava um sorriso sincero e pequeno formar-se no canto dos seus lábios. Ele alisou minha bochecha molhada pela chuva, com ternura.
–Você parece uma boneca russa — cogitou, distraído. Corei violentamente, sorrindo sem jeito.
–Arigatou.
Ele retirou suas mãos de mim, tomando uma curta — e segura — distância entre nós dois. Seus olhos fixos num ponto qualquer atrás de mim.
–Quer que eu te leve em casa, Lockser ? — perguntou, num tom irônico. Deixei uma risada escapar, um tanto seca, enquanto socava de leve seu braço.
–Se ainda resta alguma educação nesse poço de grosseria em que você vive — murmurei, forçado um tom irritado. Ele sorriu maroto, passando a andar ao meu lado.
Não nos falamos muito, apenas comentando, vez ou outra, quando um bendito ônibus passava, deixando-nos ainda mais encharcados ao jogarem água com precisão na nossa direção.
–E o vendedor tinha dito que era impermeável — comentou ele, entre dentes, com relação ao seu sobretudo. Tive de rir da situação, sacudindo a cabeça em negativa.
–Vendedores são seres traiçoeiros — acrescentei, e ele assentiu.
Dentro de poucos minutos, havíamos chegado a cerca da minha casa, onde parei em frente ao portãozinho. Gray fez o mesmo, virando o corpo em minha direção.
Ele murmurou um "Ja Nee" desanimado, enquanto eu abria o trinco, colocando o corpo para dentro do gramado, e fechando o portão novamente. O Fullbuster estava prestes a se virar quando chamei-o, alto, em meio a chuva forte.
Gray olhou-me por debaixo da franja, esboçando interesse.
–Sobre o que eu disse mais cedo ... — iniciei, vendo-o franzir o cenho — Eu gosto de você. Mesmo, e ... amorosamente falando. Não quero que se tornem palavras esquecidas ... nem insignificantes.
Ele engoliu em seco, bestificado diante da declaração. Ou melhor, da redeclaração. E me arrependi de tê-la feito de novo assim que as palavras deixaram minha boca.
Mas eu não podia evitar. Queria ouvir dele uma resposta decente. Mesmo que essa fosse negativa.
–Sinto muito — disse ele, sem expressar nada no rosto — Mas não posso retribuir esse tipo de sentimento.
E então virou-se, deixando-me ali, parada na porta de casa, e na chuva. Sem saber se chorava, ou apenas seguia a vida.
Talvez tivesse sido menos doloroso não ter uma resposta.
[...]
A aula de história estava especialmente chata naquela manhã. No entanto, faltando dez minutos para a mesma, aquele milagroso momento em que qualquer pessoa entra na sala, pedindo a atenção da turma para um comunicado, aconteceu. E eu não podia estar mais grata por ver Mirajane entrando pela porta, com um papel oficial do Fairy Tail em mãos.
–Ohayo — cumprimentou ela, sorrindo de forma simpática — Eu gostaria de tomar um pouco da aula de vocês para anunciar que nosso colégio nos fará uma grande surpresa daqui a quatro semanas. Uma viagem, que será bancada com a verba do extinto clube de dança, além de uma certa contribuição generosa dos alunos interessados. O destino é o famoso Parque Aquático novo da cidade de Fiore. Os interessados, inscrevam-
A onda de gritos comemorativos impediu o término do comunicado. Lisanna virou-se numa velocidade incrível que, ao meu ver, faria todas as costelas , de qualquer pessoa comum, quebrarem-se ao meio.
–Ouviu ? Par-que A-quá-ti-co ! — ditou, entre risadas e gritinhos — Temos que ir, mesmo que você fuja de casa ! E Jellal também ! Pagaria pra ver ele de sunguinha vermelha, HAHA !
–Sem essa — cortei-a, rolando os olhos — Ele vai usar uma calça jeans preta, se conheço bem.
Nós duas rimos, enquanto voltávamos a dar atenção a Mirajane.
–Os interessados, por favor, inscrevam-se na Contabilidade, e vão receber o prazo de até três semanas para pagar a tarifa do ônibus, e da hospedagem. Devido ao dinheiro disponibilizado pelo próprio Fairy Tail, estou certa de que não custará mais que ... -
O restante do dia se seguiu calmo, e monótono. Jellal, eu e Lisanna comemos salgadinhos fritos de presunto, enquanto o azulado contava sobre sua saída patética com Erza, onde quando estava prestes a beijá-la, as luzes do cinema acenderam.
Aproveitei o momento trágico para contar de minha declaração ultra vergonhosa, e Jellal me aconselhou a me suicidar depois da aula.
O que eu quase havia feito, se não tivesse que trabalhar.
[...]
–Isso tá uma droga — murmurou Lyon, escorado contra um dos balcões. Fuzilei-o pelo canto dos olhos, enquanto apenas ignorava seu comentário desnecessário, voltando a decorar o maldito cupcake — É sério, não vai enganar -
–Sabe o que você devia fazer, Lyon ? — interrompi-o, irritada ao extremo, enquanto apertava a seringa "doce", que estava usando para fazer as pequenas flores coloridas da cobertura do bolinho, com uma força desnecessária — Jogar a sua opinião no lixo, assim como esse seu emprego. Porque você nem se quer consegue entregar uma maldita caixa de cupcakes sem deixar eles caírem no meio da rua ! E sou eu quem está refazendo eles a mão ?! É melhor parar de reclamar, ou eu mesma ligo para a -
–Ok, ok ! — ele levantou as mãos, em rendição, forçando uma careta — Já entendi o recado.
–Que ótimo.
–Tá com raiva do quê ?
–De você !
–Não, além disso.
–Não é da sua conta.
Achei que tinha encerrado o assunto, enquanto colocava os M&M's em forma de botões, num dos cupcakes temáticos de costura. Os detalhes de um glacê colorido especial e caro, que só vendia no centro da cidade de Crocus. Toda semana, novas entregas chegavam, todos produtos importados de lá, e davam um enorme trabalho para -
–Acha que eu fico bem de óculos ?
–Será que pode parar de falar, Lyon ?! — olhei-o incrédula, apertando o saquinho de glacê com tamanha força, que o mesmo estourou em cima do meu próprio avental — Oh, merda ! Merda, Merda, Merda !
Alternei o olhar do glacê, para Lyon, que ria tanto que teve de se agachar para não cair deitado. Sem pensar direito, peguei a colher de pau em cima da bancada, lançando-a nele. Para minha sorte, acertei em cheio, e ela ainda estava suja de massa de chocolate.
–Você não fez isso ... — ele olhou-me com uma aura assassina em volta de si — Me diga que não fez.
–Eu fiz — ergui uma sobrancelha, em desafio, e ele sorriu debochado.
–Então, se prepare, Juvia Lockser, porque dentro de dois segundos ... — arregalei os olhos ao ver o bolinho arrebentado da viagem trágica que ele havia feito. havíamos guardado-os, apenas para copiar alguns detalhes restantes — e não destruídos. Fitei-o incrédula — Um bolinho macabro vai acertar a sua cara !
E acertou realmente. Bem na ponta do nariz.
Meu rugido fora audível até mesmo na esquina, e até mesmo garfos serviram de arma naquela guerra aérea alimentícia.
Voaram bolos, pães, sonhos, e, principalmente, muito chocolate. Vez ou outra, nós provávamos algo não tão arrasado em nós mesmos, e ríamos da situação idiota e sem noção. Até cairmos, estirados no chão de chantilly e restos de coisas que nos custariam todo o salário — que já era pouco.
–Não acredito nisso — sussurrei, dando um tapa em minha própria testa — Tem noção de como estamos ferrados ?
–Eu realmente não ligo — afirmou ele, virando o rosto em minha direção. Nos entreolhamos por alguns instantes, até que ele corou, e franzi o cenho, sem entender direito a reação. Ás vezes Lyon conseguia agir muito esquisito comigo — Você fica linda com morango na sobrancelha — comentou, passando o polegar próximo aos meus lábios, retirando uma partícula de algo — provavelmente — açucarado.
Dessa vez, fui eu quem corei.
Na loja, que por acaso estava na semana de música, o som de Royals, Lorde, ecoava por todos os cantos, dando ao local um clima pra lá de agradável.
E Lyon permanecia com seus olhos negros fixos nos meus azuis escuros. De forma intensa. Senti meu coração se apertar e me apoiei em meus próprios cotovelos, na intenção de levantar, ou, ao menos, me sentar.
Aquele clima era bem estranho.
–Juvia — ele me chamou, e virei o rosto em sua direção. O grisalho também ergueu-se sobre os cotovelos, e , num movimento que não pude prever, ele roubou-me um beijo.
Um beijo de verdade.
Com selar de lábios, e , depois de alguns segundos, um roçar delicado e singelo. Senti minhas bochechas — se não a cara toda — corarem violentamente, e permaneci de olhos abertos, assistindo suas pálpebras fechadas, a expressão serena.
Era o meu primeiro beijo, e podia sentir um frio intenso na barriga. Algo como, "O QUE ESTOU FAZENDO DE ERRADO?!".
Ele passou a puxar meu lábio inferior com mais força, como se me estimulando a entrar no ato, e segui seus movimentos, deixando, ao menos alguns segundos, que o momento simplesmente acontecesse. Fechei os olhos aos poucos, e sua língua encostou em meus lábios, como se pedindo passagem.
Automaticamente, joguei o corpo para trás com uma voracidade incrível, que fizera minhas costas e cabeça irem com força de encontro a um dos balcões. Massageei minha nuca dolorida, murmurando um "essa doeu" baixinho, enquanto Lyon me encarava, surpreso.
–Foi ruim assim ? — perguntou-me, com o rosto vermelho ao extremo. Sua expressão dizia exatamente toda a insegurança que se passava em sua cabeça. Neguei com a cabeça, igualmente sem graça.
–N-Não tem nada a ver com isso — garanti a ele, erguendo as mãos. Engoli em seco, sem saber ao certo como dizer a ele. Tinha de ser sincera — E-Eu só ... gosto de um meni-
–Eu sei de quem você gosta, Juvia — garantiu ele, levantando-se sem usar as mãos — o que fora incrivelmente habilidoso, para alguém como eu — e adotando a expressão prepotente habitual. Quase como se tivesse acabado de levar um choque de realidade.
Me senti mal por ele, naquele momento. E confusa. Muito confusa.
–Então ...
–Só quis te beijar — garantiu, dando de ombros, e escorando-se novamente contra o balcão — Deu vontade.
Senti meu rosto queimar de novo. E, dessa vez, não era de vergonha.
–Não acredito nisso ... — murmurei, cerrando os punhos enquanto andava em sua direção feito um furacão, colocando o indicador em seu peito com força — Não acredito que ... nunca, jamais, me toque de novo , Lyon Vastia ! Eu detesto pessoas que se aproveitam das outras, ok ?!
Não sei se era a sensibilidade da rejeição recente de Gray, ou a menstruação que se aproximava. Talvez até o fato de ter lido "A Culpa é das Estrelas", de John Green, recentemente. Independentemente disso, não evitei que as lágrimas caíssem, e meus dentes se trincassem.
–Eu devia saber que era só mais um dos garotos aproveitadores como qualquer outro ! — ralhei, empurrando-o forte no peito, o que o desestabilizara. Ele segurou meus pulsos, desnorteado.
–Juvia, calma, olha eu não -
–Não me interessa, Lyon ! Detesto garotos que fazem o que querem com idiotas como eu. Posso ser a mais tapada de todas, mas era a droga do meu primeiro beijo ! E nem sei porque ligo pra toda essa merda ! — soquei o ombro dele com força, fazendo-o grunhir de dor.
–Droga, Juvia, me escuta ! — ordenou, segurando-me com força pelos ombros, e me sacudindo. Passei a soluçar, descarregando todas as emoções de uma vez só. Ele ergueu meu queixo, mas virei o rosto com força, determinada a não olhá-lo — Merda, olha, eu sou perdidamente apaixonado por você, falô ? É a única garota que me faz ficar igual a um tomate, e agir feito um completo idiota sensível e patético. Eu só não queria dizer isso, e soar assim, irritantemente rejeitado.
Ergui os olhos assustada, vendo nitidamente, em seus olhos, que era tudo a mais pura verdade. E pensando bem, fazia todo sentido ser. Tudo em Lyon demonstrava interesse por mim, o que, de certa forma, não me era tão irritante.
Enaltecia o ego, de certa forma. E , querendo ou não, ele era uma pessoa legal. De verdade.
–Eu ... — engoli em seco. O que se diz numa hora dessas ?
Será que se eu repetir o que Gray me disse, vai parecer sacanagem ?
É, seria muita.
–Sinto muito — repeti, arrependendo-me em seguida — Digo, sinto muito por tudo isso ... eu só, não queria ter te agredido nem gritado ... achei que tivesse ... enfim, eu agradeço seus sentimentos, Lyon. Principalmente por serem sinceros.
–Mas ? — olhou-me, erguendo uma sobrancelha — Pode falar, Juvia. Não sou nenhum imbecil. Já sei que vai me dizer não, mas quero ouvi-lo da forma certa.
Arregalei os olhos, incrédula. Quanta frieza, Kami-sama. Quem me dera dizer coisas assim como se não doessem.
E o pior era saber que deviam doer. No entanto, seus olhos negros não me davam se quer uma dica. Ele não parecia chateado, o que me assustou um pouco. Mantinha uma expressão calma e tranquila, como se já conhecesse a cena, as falas.
–Não posso correspondê-lo, Lyon. Sinto muito por isso.
Foi quando ele sorriu. De forma bela, e audaciosa. Quase como se eu tivesse caído numa armadilha fatal.
–Isso ... te deixa feliz ? — perguntei, olhando-o com atenção. O Vastia deu de ombros.
–Feliz, não. Determinado a te conquistar, sim. Sabe, geralmente eu não dou a mínima para garotas, mas você atrai minha atenção, Juvia. E eu não vou jogar uma coisa assim fora só porque você é apaixonada por um babaca. Gosto de desafios.
Aquele comentário/ameaça/previsão do tempo me deixara pra lá de arrepiada. Era bem ruim, mas inspirador.
Os dias que se seguiram passaram de forma inesperada. Diferente do que imaginei, Lyon não mudara nossos assuntos, nem mesmo nossa interação. Agia de forma comum, e agradável, até. Elogios e cantadas a parte, mas bem poucas.
Na escola, as coisas não eram diferentes. Natsu e Lisanna estavam engatando num relacionamento que beirava o trágico. Não se beijavam, mal se falavam, e permaneciam juntos. Para a felicidade — vai entender — de Lisanna. Ela dizia que não estava preparada para enfrentar a vida sem ele, quando, na verdade, sempre estivera só. De acordo com Jellal, o que era amor juvenil, tornou-se uma obsessão frustrada de possuir um príncipe de cabelos rosas que a protegesse desde a infância.
"Conos de fadas não existem, e os príncipes são gays. Quanto antes ela entender que só existem sapos, melhor. "
Era engraçado o quão voltado aos contos de fadas minha vida estava, durante aquelas semanas.
Todos querem amar, e serem amados, principalmente. E, essas pessoas desesperadas pelo reconhecimento, criam histórias. Histórias com finais felizes, meios emocionantes, e inícios trágicos.
Nos contos de fadas, os ciclos são óbvios, e previsíveis. Haverá retorno para todos. Perdão . Aceitação. Desde de princesas indefesas, com histórias tristes e amigos ratos até príncipes valentes, com espadas que enfrentam dragões e feras. Feras, que transformam-se em príncipes, e matam outras feras. Um infinito conjunto de surrealidades que nos fazem pensar que aquilo pode ser a nossa própria história.
Mas não é. Nada é perfeito, a vida é uma droga, e seu amor nunca corresponde seus sentimentos, mesmo que sejam intensos, puros, e inocentes.
Descobri tudo isso naquela tarde nublada, saindo da padaria. Gray Fullbuster estava de braços dados com uma menina de cabelos cor de rosa, longos, ondulados e perfeitos. Magra feito uma vara. Nenhuma curva exagerada, nenhuma espinha, nenhuma imperfeição.
Era uma modelo adolescente, pra simplificar. Os dois comiam algum tipo de rolinho, trocando toques e sorrisos. Ela comia feito uma pintura, de tão delicada. E ele a observava com uma atenção que jamais esboçou olhando nos meus olhos.
Você reconhece um conto de fadas quando o vê. E, mesmo a distância, era visível que os dois teriam um final feliz.
Meredy e Gray.
Ela era uma princesa, linda e talentosa, e merecia seu príncipe valente. E num mundo de perfeições, não há lugar para criaturas como eu.
Feras.
[...]
Era sexta-feira. O dia havia sido reservado especialmente para nossa viagem, que, no caso, fora dedicada apenas aos dois últimos anos. Estava no penúltimo ano antes da faculdade, então minha avó não se opôs aos meus planos de participar do passeio.
Carregava uma mochila espaçosa de acampamento, enquanto observava a concentração de alunos que se agrupavam por todo o pátio, ao redor dos ônibus. De acordo com o papel que recebi ao pagar a taxa da viagem, eu estava do ônibus três. Felizmente, acompanhada de Jellal.
E mais felizmente ainda, Erza havia ficado no ônibus quatro. Não que eu tivesse algum problema com a presença dela conosco, apenas me roía de ciúmes quase sempre. Jellal e ela viviam um namoro turbulento e esquisito com frequência, mas sempre que era conveniente, ignoravam o mundo e fechavam-se em seus sentimentos intensos.
No caso, sentados juntos no ônibus, seria um ótimo momento pra se "divertirem". Sem mim, lógico.
Ser excluída no único passei escolar que fiz — e farei — durante toda a minha vida não era bem uma realização incrível.
–Juvia ! — ouvi a voz de Lisanna, virando-me a tempo de ser quase sufocada por seu abraço de urso habitual — Eu estou ferrada, não estou no ônibus de vocês !
–Vocês ... — repeti, olhando em volta — Já viu Jellal ?
–Ele disse que vai chegar atrasado, pra variar. Nossa, você está linda.
Sorri sem graça. Era lógico que eu não estava linda. Acordei em cima da hora, e só tive tempo de amarrar o cabelo num rabo de cavalo, deixar a franja feito um ninho de ratos em frente aos olhos, e vestir a roupa de praia mais simples da história da pobreza.
Uma camiseta preta de malha e alcinha, e um short jeans claro. Nos pés ? O bom e velho chinelo da vovó.
Enquanto Lisanna — e as outras alunas normais — vestiam vestidinhos floridos, sandálias gladiadoras ou sapatilhas semi-abertas, esbanjando feminilidade e sedução.
Mas é claro que eu tinha que bancar a maria-machão.
–Cheguei na hora ? — perguntou alguém, com uma voz rouca e altamente forçada.
Ninguém menos que Jellal Fernandes estava com uma calça jeans negra, uma blusa branca altamente cavada escrito "Morra Verão" — com detalhes em sangue, é claro — e óculos escuros ray-ban modelo aviador.
Não sabia se babava, ou gargalhava.
–Não acredito nisso — murmurei, olhando-o de cima a baixo — Você ... está entre o incrível e o chocante.
–Chocrível — acrescentou Lisanna, e olhei-a com irritação — O que ?! Gosto de unir palavras !
–E você, Juvia, tá pobrível — afirmou ele, rindo em seguida — Entre o pobre e o horrível.
Nem Lisanna aguentou, e pisei forte no pé dele, como vingança.
–Hey ! Isso dói, estou brincando, tá com aquele visual "vim de bicicleta e reciclo lixo".
–Pra pagar as contas de casa — acrescentou, novamente, Lisanna. Os dois desataram a rir. De novo.
Rolei os olhos, enquanto abria o bolso de fora da minha mochila, pegando um pacote de canudinhos doces de maçã verde. Precisava de açúcar o quanto antes. Quando devorei o segundo, senti a cotovelada de Jellal em minha costela, e levantei os olhos a tempo de ver o que ele queria.
Lucy Heartfilia caminhava num par de saltos altos cor de rosa, usando um top da mesma cor, e uma saia rodada branca. Parecia uma das modelos perfeitas da Victoria's Secret.
–Luce ! — Natsu fora o primeiro a agarrá-la em pleno ar, sacudindo-a enquanto a garota o socava — Você vai sentar comigo, não vai ?! Ficamos no quatro, com a Erza ! Lisanna pode sentar com ela, e eu com você !
Podia jurar que dos olhos de Lisanna saíram chamas. Antes que a situação piorasse, Jellal deu um peteleco na testa da grisalha, avisando que iriamos nos juntar ao nosso grupo. Ela assentiu, e se perdeu em meio a multidão, dizendo que nos encontraria lá.
–Isso foi meio mal educado ... — comentei, olhando-o pelo canto dos olhos — Sério, devíamos ter ... dito algo de útil a ela.
–Não quero saber de dramas adolescentes nesse fim de semana — cortou-me, e mesmo estando de óculos, eu sabia que estava olhando as pernas de cada ser feminino naquele pátio — Só de diversão, pegação, e piração.
–Colocou bem, Jellal — garantiu Gajeel, parando ao nosso lado na concentração de pessoas em frente a entrada para embarque do ônibus. Ele carregava duas mochilas, e pelo fato de Levy estar ao seu lado sem nada, deduzimos ser dela. Genial — Também ficaram no três ?
–Não, estou aqui de enfeite — o azulado rebateu, e eu e Levy rimos — Sim, Gajeel, nós ficamos nele.
–Que sorte — comentou a baixinha, sorrindo simpática para mim — Gray, Natsu, Lucy , Lisanna e Erza ficaram no outro.
–Imagine o inferno que não será aquele lugar.
Nós assentimos, conseguindo perfeitamente prever o caos total.
–E então, prontos para uma viagem inesquecível ?! — perguntou Gajeel, erguendo o punho fechado no ar. Sorri abertamente.
–Pode crer.
Mal sabia eu, que a viagem seria realmente inesquecível. De uma forma que nem em meus melhores sonhos — ou piores pesadelos — poderia ter imaginado.
Continua ...
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