Neon Lights
11 Capítulo 11 - Crises de Pânico
Notas iniciais
No capítulo anterior de Neon Lights ...
–Então é aqui que aquele babaca treina ? — murmurou, mais para si mesmo. Algo me dizia que essa pessoa, fosse quem fosse, dava nos nervos de Gray. O tal Capitão da Lamia.
Olhei-o por alguns instantes, até que a piscina pareceu chamar mais minha atenção. Senti quase como se a mesma gritasse por mim.
"Juvia, entre logo"
Um sorriso debochado formou-se no canto dos meus lábios, e quando Gray virou-se para dizer algo, corri na direção da borda da mesma, saltando para dentro com rapidez.
A água envolveu meu corpo, e fechei os olhos, afundando lentamente enquanto deixava meus três finitos minutos durarem.
Senti uma mão firme puxar meu tornozelo com força total, e fui simplesmente forçada a retornar a superficie, com os olhos arregalados. Gray me encarava incrédulo, segurando-me com firmeza.
Franzi o cenho em sua direção.
–O que -
–Como foi que ... ? — ele engoliu em seco, desmanchando a máscara de indiferença habitual — Pensei que tivesse se afogado ...
–Eu ... consigo prender a respiração por bastante tempo — contei a ele, mexendo os braços levemente para permanecer com a cabeça e parte dos ombros pra fora da água — Por isso é tão difícil pra mim respirar durante os treinos.
–Qual seu recorde ? — perguntou ele, apoiando os dois braços na borda e sentando na mesma após dar impulso.
–Três minutos — murmurei, fazendo-o engasgar com a própria saliva.
–Está ... de ... brincadeira — ele mantinha os olhos arregalados — Três minutos inteiros ?
–Aham — sorri de lado, mergulhando para ajeitar o cabelo e depois fixando meu olhar na borda. Eu queria me juntar a ele, mas sabia que meu modo de subir ali seria bem menos elegante que o dele.
Se bem que já passei tanta vergonha, que mais uma não vai fazer diferença.
Me aproximei da beirada, agarrando na pedra com as duas mãos e colocando apenas um perna pra fora, usando-a de apoio. Tentei dar o impulso, mas , provavelmente graças aos biscoitos, continuei no mesmo lugar.
Se eu tivesse o vocabulário de Jellal, esse momento certamente mereceria um belo " Puta que pariu".
Sem mais opções, rolei o corpo pra fora feito um leão-marinho encalhado, até tirar a outra perna da água e ,finalmente, sentar próxima dele.
Senti seu olhar pesado sobre mim, e , ao espiar pelo canto dos olhos, vi que ele fazia uma careta do tipo " que droga foi essa ?!".
–Eu nunca ... fui boa em sair longe da escada — expliquei coçando a nuca constrangida. Ele soltou uma risada pelo nariz, rolando os olhos.
–Não é uma habilidade pra qualquer um, sabe — forçou o tom irônico — Vou ter que acrescentar isso nos seus treinos ?
–Espero realmente que não.
Abracei meus próprios joelhos, enquanto Gray esticava suas pernas para dentro da água, batendo-as levemente. Voltou os olhos para o interior do local, ornamentado com estátuas de golfinhos, e azulejos de estampas marinhas. Tinha uma aparência elegante , e , acima de tudo, cara.
Desde os armários metalizados que percorriam diversos corredores, até a parede de vidro onde os troféus e quadros de fotos permaneciam em exposição. Sendo, em maioria, pertencentes a Sherry Blendy. Ou, pelo menos, foi o máximo que consegui ver. Haviam outros nadadores premiados, mas os troféus estavam mais empoeirados.
–Ela sempre foi muito orgulhosa — murmurou o Fullbuster, ao meu lado. Engoli em seco o comentário. Ele estava ... elogiando a ex ? Na minha cara ? — Chegava atrasada nas competições, e esperava seu nome ser chamado exatamente três vezes pra dar sua entrada triunfal. Depois de um tempo, ficou batido. Mas, ela tem moral pra isso. Sem duvidas.
Mordi o lábio inferior, ponderando se devia ou não perguntar. Acabei dando de ombros, perguntando :
–Se critica tanto ela, por que namoraram ?
O moreno não se abalou nem um pouco com a pergunta, escorregando o corpo até deitar no chão áspero, com as pernas dentro d'água.
–Se me perguntasse isso na época, eu diria que era porque a achava a pessoa mais incrível que já conheci — admitiu. Quase senti meu coração falhar — Sherry sempre foi bonita, e tinha convicção. Além disso, sempre tive uma queda por recordistas.
Sorri de lado.
Gelo Seco até certo ponto, não é ? Mas isso é realmente uma boa informação. Posso usá-la a meu favor.
–E a vencedora da prova é : — o homem estendeu o papel, e uma chuva de papéis metalizados caiu do céu — JUVIA LOCKSER !
–Ah, Juvia não acredita ! — tapei a boca, sendo segurada no colo por Gray imediatamente.
–Vamos para a Igreja, Juvia — afirmou ele, sorrindo de modo galante — Mal posso esperar para tirar a roupa.
–Gray ! — minhas bochechas coraram, e ele beijou-as de modo afetuoso — Não diga coisas constrangedoras ...
–Eu quero que o mundo saiba que eu te amo, Juvia ! — ele me lançou no ar, rindo animadamente — Meu amor, minha paixão , minha luz , meu destino —
–Lockser- ouvi o estalar de dedos em frente ao meu rosto — Está tudo bem ?
Sorri amarelo.
–C-Claro — garanti, coçando a nuca. Minhas bochechas coraram ao levar os olhos ao abdômen de Gray, deitado ao meu lado. A vontade de deitar ao seu lado era tanta, que apoiei os braços na lateral e meu corpo, descendo lentamente até que -
–Quem está aí ?! — a voz grave ecoara pelo local. Grave, e altamente familiar. Era como ter uma peça faltando num quebra-cabeça.
–Não saia daí — sussurrou Gray, me jogando dentro d'água e afundando minha cabeça na mesma. Nadei em direção a escada, agarrando-me nos degraus submersos enquanto permanecia calma.
Ou tentava.
Gray não mergulhara, então, deduzi que os murmúrios ao longe seriam a conversa dos dois.
E agora que tinha tempo de refletir, era visível que algo me escapava. Como a voz era masculina, e familiar como a de mais cedo, esse certamente era o Capitão da Lamia Scale.
Mas quem poderia ser ?
Se bem que eu não conheço nem uma alma de fora do Fairy Tail. É quase impossível que eu já o conheça.
É quase impossível eu conhecer alguém, na verdade. Ou pelo menos é o que Jellal vive dizendo.
Enfim, só tenho que me concentrar e permanecer calma, como a água.
60, 59 , 58, 57 , 56 ...
33, 32 , 31, 30 , 29 ...
60, 59, 58 , 57 , 56 ...
45 , 43 , 42 ...
–Gray ! — não aguentei esperar, tomando impulso e saindo rapidamente da piscina. Por sorte, ou não, as luzes simplesmente apagaram-se, e eu estava sozinha — Gray! Ai meu Kami-sama ... GRAY !
Sai correndo pelo corredor principal, tropeçando num esfregão e num balde, que me fizeram cair arrastando o joelho no piso áspero.
–Okaa-san, espere a Juvia ! — gritei, batendo na porta do carro diversas vezes. Aquarius nem se quer levantava o olhar. Apenas girou a chave, ajeitando seus cabelos azulados, e olhando-se no retrovisor de relance — Okaa-san , onegai ! Juvia não gosta de ficar sozinha aqui ! Está escuro, kaa-san !
–Eu não vou demorar, Juvia — avisou ela, num fio de voz. Deu partida com a careta habitual, arrancando com o carro, enquanto eu o perseguia inutilmente.
Conforme o veículo se afastava, restavam apenas as luzes dos postes ao longe, e da varanda da casa. Mas toda a mata que cercava o local, permanecia escura e sombria. E os sons ambiente das cigarras não ajudavam nem um pouco na caracterização do local.
Engoli em seco, sentindo as gotas quentes escorrerem por minha bochecha. As sombras pareciam ganhar vida, e quando dei por mim, já corria para dentro de casa, como se algo de monstruoso corresse das sombras em minha direção.
Algo que me queria morta.
–Gray ! — gritei o mais alto possível, levantando-me com uma ardência no joelho, e correndo como se minha vida dependesse de achá-lo ali — Gray, não me deixe sozinha aqui ! Me espera !
As lágrimas escorriam como nunca, e senti um medo incondicional se apossar da minha alma. Era como morrer, e ter apenas a escuridão me aguardando.
De súbito, uma voz ecoou pelo corredor, mas a adrenalina era tanto que só parei com um baque em alguma coisa. Rolei em direção ao chão, sentindo algo abaixo de mim.
–Lockser ! — a voz agora era grave o bastante para me fazer piscar os olhos, focalizando minha visão que já começava a se acostumar com a falta de luz no moreno, deitado debaixo de mim — Shh, olha pra mim, sou eu...
Assenti, respirando fundo entre um soluço e outro. Só agora conseguia notar o quão desesperada eu estava. Meus cabelos estavam desgrenhados, molhados, e as lágrimas caiam como numa cachoeira.
–Eu estou aqui, O.k ? — afirmou, envolvendo meus braços com delicadeza — Shh, fica calma.
–Gray ... — mordi o lábio com força, sentindo o gosto de ferro e fechando os olhos rapidamente em seguida — Eu achei que tinha me deixado aqui ...
–Shhh — pediu de novo, num tom mais calmo — Não entre em pânico, tá bem ? Você tem medo do escuro, Lockser ?
–Uhum — murmurei, apertando o antebraço dele com força, como se aquilo fosse me ajudar. E , na verdade, ajudava bastante — Desde criança.
–Entendi — ele suspirou alto, retirando as mãos de mim e observando-me cautelosamente. Seus olhos subitamente se arregalaram — O que houve com seu joelho ?
No mesmo instante em que ele disse isso, observei o sangue que rodeava a área — bastante extensa — que havia sido ferida.
Na correria, havia até mesmo me esquecido do ferimento.
Só o odor do sangue, e a escuridão em que nos encontrávamos, fazia o medo tomar conta de mim novamente. Eram muitas lembranças ao mesmo tempo.
Lembranças ruins.
– Que tal agente tentar uma coisa ? Você fica de olhos fechados, e sai de cima de mim, enquanto conta até 30, de trás pra frente.
–De trás pra frente ? — repeti, ainda tremendo. Levantei-me devagar, sendo amparada por ele em alguns movimentos, até ficar de pé, sentindo sua mão segurar meu pulso firmemente — 30, 29 , 28 , 27 , 26 , 25 ...
–Muito bem — afirmou, passando a guiar-me pelos corredores — Estamos quase lá.
–19, 18 , 17 , 16 , — continuei, engolindo em seco um soluço — Hm ... Gra-
–15, 14 — lembrou-me, apertando o pulso para me lembrar de sua presença — Continua, estamos quase saindo daqui.
–13, 12 , 11 , 10 , 9 , 8 , 7 , 6 , 5 , 4, 3 , 2 , ... 1 — finalizei, abrindo os olhos.
Já estávamos no gramado, do lado de fora do ginásio. E mesmo sendo de noite, a escuridão não era tanta, graças as luzes dos postes do interior do colégio. Espiei Gray pelo canto dos olhos, constatando que estava bem, e que me observava também de relance.
–Tem essas crises de pânico com frequência ? — perguntou, de súbito.
Neguei com a cabeça, cabisbaixa. Agora ele sabia que eu era problemática mentalmente também.
Que ótimo.
–Só ... quando algumas lembranças ruins retornam — respondi, envergonhada. Ele deu de ombros, parecendo algo normal — Como sabe que são crises ?
–Eu tenho de vez em quando, pra ser sincero — admitiu, coçando a nuca — Minha mãe morreu fazem quase três anos, e sempre que chego perto de hospitais, ou o som do telefone tocando ... as vezes, dependendo do meu estado, perco o controle totalmente.
Aquele foi o primeiro segredo que trocamos.
E o último, dentro de um mês de convivência. Naquela noite, eu e Gray fomos para a estação juntos, mas ele não voltou comigo.
O telefone havia tocado, e , dessa vez, tive tempo de ler o nome do contato.
"Meredy".
o0O
–Você devia se confessar — afirmou Jellal, enquanto colocava dois pacotes de cereais açucarados no carrinho. Retirei um, revirando os olhos, enquanto ele continuava a socar porcarias em meio as compras — Sabe, garotas fazem esse tipo de coisa todo tempo. Inclusive com ele. Não acho que tenha nada a perder.
–Mas ele não gosta de mim — afirmei, pegando uma embalagem de manteiga já salgada — Ninguém tem duvidas disso.
Ele bufou, retirando os legumes selecionados do carrinho e tacando-os na prateleira oposta.
Arregalei os olhos.
–Jellal ! — o repreendi, tapando a boca — Você é maluco ?!
–O quê ? — deu de ombros — Eu que pago o salário dessa gente.
Suspirei cansada, deixando pra lá. Afinal, não seria hoje, com mais um discurso de horas, que eu conseguiria mudar o porco interior dele.
–Sem sermão ? — perguntou, de modo debochado — A coisa tá feia. Olha, você podia contar a ele por telefone também. Pede a Lisanna pra pedir ao Natsu, e depois liga do celular dela.
–Acha isso uma boa ? — ergui uma sobrancelha — Ele vai me achar uma stalker...
–Ou vai descobrir que você é — sorriu amarelo — Ok, sem piadinhas. Enfim, o importante é jogar tudo na cara dele o quanto antes. Assim ele vai sacar que você não tá afim de bancar a atleta de merda da friendzone, sacou ? Querendo ou não, ele vai pensar em você. E , nesse momento, com essa tal de Meredy mostrando as garras , melhor prevenir do que remediar.
–Eu pensei em contar depois da competição — contei a ele, distraída com os produtos — Sabão em pasta ?
–O que é isso ? — perguntou, apoiando-se no carrinho desleixadamente — Tanto faz, nem lavo louça.
–Eu não achei que lavasse ... — murmurei, rolando os olhos — Melhor detergente ... Prefere com perfume de flores, ou aroma campestre ?
–Alergia em tubinho, ou cheiro de merda de vaca ? — traduziu, ironicamente — Dispenso os dois. Tem algo como ... fumaça de industria? Faz mais o meu estilo.
–Vou colocar nas sugestões para melhoria do mercado — afirmei, igualmente debochada — Prefiro o campestre.
–Não me diga — empurrou o carrinho na direção oposta do corredor. Estávamos na sessão de biscoitos, e Jellal estava fazendo a festa. Claro que, como não era meu dinheiro, não fazia diferença. Mas os biscoitos eram tão caros que doíam no meu bolso.
Ele lançou dois pacotes de biscoitos de milho, industrializados, e peguei-os em pleno ar, irritada.
–Isso aqui não — neguei, colocando de volta na prateleira. Ele cruzou os braços, erguendo uma sobrancelha.
–Por que não ? — perguntou, impaciente.
–Isso aqui sim é fumaça de industria. É mais fácil beber óleo de navio no café, morre na mesma velocidade.
–Está me desafiando ? — perguntou, erguendo a outra sobrancelha — Porque se estiver, quero entrar no jogo.
–Não estou te desafiando, estou mandando em você — rebati, igualmente séria — Vem pra cima se tu é homem.
Nos fuzilamos com o olhar, até que uma gargalhada escapou dos lábios do azulado. Ele me deu um pescotapa, pegando os biscoitos rapidamente e jogando-os no carrinho, enquanto corria pelo corredor.
–Jellal ! — o chamei, passando a correr atrás dele — Como você é infantil !
–Eu, infantil ? — repetiu, com ironia — Imagina. ME PEGUE SE PUDER !
O persegui por alguns corredores, até que ele simplesmente parou.
–Desistiu ? — perguntei ofegante, olhando-o incrédula — Não faz o seu -
Foi quando vi a figura de cabelos róseos no caixa, empacotando alguns produtos para o idoso, enquanto dava o troco.
E como se minha mente lê-se a de Jellal, eu disse :
–Nem pense nisso.
Mas o sorriso maquiavélico nos lábios dele diziam que ele já havia pensado, e repensado.
–Quando o destino vem bater na sua porta, não dá pra não atender, Juvia — afirmou, erguendo a manga do casaco enquanto preparava-se — Vamos entrar na fila.
–Jellal, primeiro que ali é o caixa preferencial, segundo, isso não vai prestar — afirmei, segurando-o pelo braço — Tem tantos caixas mais vazios, vamos neles logo, por fa-
–Shh, você fala demais — bufou, empurrando o carrinho para de trás da senhora com apenas uma cesta.
Ela virou-se lentamente, lançando-nos um olhar mortal.
–É pra pequenos volumes — avisou, num tom irritante. Ergui uma sobrancelha, mas Jellal se adiantou.
–Ninguém pediu sua opinião, minha senhora — rebateu firme, com a mesma expressão ameaçadora de sempre — Caso não tenha notado, somos os únicos nessa porra de fila, e estamos atrás de você, não é verdade ? Já que está na nossa frente, e obviamente não trabalha aqui, não precisa lembrar quantas coisas eu coloco na merda do meu carrinho.
–Moleque arrogante — murmurou, virando-se ofendida. Abri um sorriso de lado, me entreolhando de modo sacana com o Fernandes.
–Velha rabugenta — acrescentei, fitando minhas unhas. Jellal deixou uma risada escapar pelo nariz, e a mulher passou a bater o pé direito consecutivas vezes, em impaciência — Jellal, eu sei que o Natsu ser o caixa pode parecer muito ... interessante, mas será que pode agir normalmente ? Tipo, só uma vez na vida não debochar da cara dele.
–Por que acha que eu faria isso, Juvia ? — sorriu travesso — Eu nunca faria nada para magoar alguém como aquele idiota. Chutar cachorro morto é demais, mesmo pra mim.
–Por que será que não acredito em nada disso ... — revirei os olhos — Controle-se, O.K. ? Nada de barraco aqui também. Você é mestre em provocações ...
–Não, hoje estou de bom humor — garantiu ele, forçando uma careta séria — Eu juro pra você.
–Uhum ...
–Próximo ! — avisou Natsu, e a velha — que carregava apenas um shampoo e uma pasta de dentes — embalou as compras, entregando os yens previamente contados na mão do rosado. Dentro de segundos, ele murmurou um outro "Próximo" desanimado, e no momento em que seus olhos encontraram os nossos, Jellal abriu seu melhor/pior sorriso.
Ou pelo menos, o mais diabólico.
–J-Jellal — Natsu coçou a nuca, um tanto sem graça — Fala, Juvia.
–Konichiwa — o cumprimentei, colocando as compras na esteira. Mas Jellal se adiantou, retirando minha mão do carrinho, e empurrando-me pelo corredorzinho que formava-se entre um caixa e outro — O que -
–Espere ali — pediu o azulado, fingindo um tom educado — Já me ajudou demais. Deixa que esse trabalho pesado, é masculino. E então, Natsu, trabalha aqui há muito tempo ?
–Na verdade não — o rosado bateu o primeiro produto, que ia se acumulando aos outros e seus preços no visor do caixa — Cerca de quatro dias.
–Só isso ? — Jellal alargou ainda mais o sorriso — Foi demitido de novo ?
–É, você sabe como é — riu levemente, distraído. Tão distraído que nem notava a expressão assassina do Fernandes.
–Sei sim, tipo daquela vez, quando vocês foram no boliche, e eu estava trabalhando num meio-período , lembra ? — o azulado fuzilou-o com o olhar — Quando me mandaram pegar mil números de sapatos diferentes, pra dar os errados pra Lucy. E no final, me fizeram perder o emprego.
–HAHAHAHAHA — Natsu quase caiu da cadeira, recordando-se da cena — Foi hilário ! Tinha que ver a sua cara quando -
–Ah, perdoe-me — sacudiu os cabelos, "Parecendo" preocupado — Esqueci que não queria levar maçã selecionada ...
O rosado olhou o produto, bem no inicio da lista. Ainda era novato, portanto, o cancelamento de compras era sempre o mais difícil.
–Ahn ... — o rosado assentiu, usando o telefone ao lado da máquina de cartão de crédito — Eu preciso de ajuda aqui, num cancelamento. Caixa 9.
"Já vai" respondeu a pessoa, no viva-voz.
Engoli em seco.
Então era isso que Jellal pretendia.
A mulher veio de patins alguns minutos depois, e a fila já havia se acumulado bastante atrás do Fernandes. Todos com a melhor/pior cara feia que encontraram dentro de si.
–Já te expliquei isso, Natsu — ela reclamou, batendo nas teclas enquanto o rosado observava a tela — Por que nunca aprende ? Se continuar precisando de ajuda assim, vai acabar se dando mal.
–Hai, Hai , Yoko — revirou os olhos, suspirando aliviado quando a mulher saiu — Sinto muito, Jellal, ainda sou ruim nessas -
–Eita ! — o azulado agora colocara as mãos na cabeça, ainda mais forçado — Esqueci de pegar iogurte, espera ai !
E sumiu pelos corredores, voltando com um saco de batatas e um único potinho de iogurte. O homem atrás na fila já bufava bem alto.
–Poxa, eu ouvi a mulher dizendo que tinha que pesar a batata, mas que o caixa sabia fazer — explicou, colocando-as em cima da balança — Tudo bem por você, amigão ?
–Ahn, aham — engoliu em seco, imprimindo uma nota depois da pesagem, e colando um adesivo ao redor do saco plástico — Mas da próxima vez, é melhor ir direto no -
–Putz, Natsu, foi mal mesmo — sorriu amarelo — Eu não encontrei o iogurte de morango, e acabei pegando o de pêssego. O caixa pode ir lá no estoque pegar, não é ? Pelo menos, é o que o gerente diz.
Depois da última frase, a lâmpada se acendeu na cabeça de Natsu.
Ele finalmente havia sacado as intenções de Jellal.
–Jeeeeellaaaal — rosnou, cerrando os punhos — Não vai me fazer de idiota aqui, eu não vou cair -
–CADÊ O GERENTE DISSO AQUI ?!
–Shhh! — Natsu quase infartou ali mesmo — M-Morangos, né ? Já vou pegar...
"Viado" acrescentou num murmurio. O sorriso de Jellal devia ser considerado até mesmo um dos sete pecados naquele instante.
–Jellal — me aproximei, cutucando seu braço — Já chega, tá bom ? O coitado já sofreu bastante por hoje.
–Só mais um comentário — pediu, dando uma risadinha seca — Isso é impagável, Juvia. Impagável.
Quando Natsu finalmente retornou, esbaforido, e com o bendito iogurte de morango, senti meu coração apertar-se ao máximo.
Aquilo ia dar merda.
–Aqui, Jellal — revirou os olhos, batendo o último produto — O total deu -
–Morangos ? — repetiu o azulado, erguendo uma sobrancelha — Achei que tivesse deixado bem claro que queria de pêssego.
–Ora, seu ! — o rosado arregaçou as mangas, com os dentes trincados — Enfie esse maldito morango no seu rabo !
E então, o pote plástico de iogurte simplesmente jorrou em câmera lenta contra a face de Jellal.
E eu teria até tido tempo suficiente de gargalhar, se não fosse pelo fato do de pêssego voar logo em seguida contra Natsu, e esparramar-se não só em minha direção, como também da fila toda, que gritou e iniciou uma pancadaria geral.
Desde o caixa preferencial, até o cobrador do estacionamento.
O caos foi completo, e , obviamente, Natsu foi demitido.
Além disso, depois daquele dia, nunca mais pude fazer compras naquele mercado.
o0O
–São um total de 23 cupcakes de laranja, e 50 de chocolate, sendo 25 de confeitos com M&M's, e 25 com flores de jujubas, lembra ? — confirmei, anotando as alterações no bloco — Uhum .... certo, terça-feira o caminhão pode vir com os folhados. Uhum ... arigatou, Bye -
–O que eu faço com esse bando de gente com cupom de sei lá onde ? — perguntou Lyon, batendo com força no balcão, e com a testa pingando de suor — Não aguento mais isso, ninguém quer pagar nada nessa merd-
Ergui uma sobrancelha, e ele apenas revirou os olhos.
–Qual é a desses cupons afinal ? — perguntou, escorando-se no balcão. Fitei a enorme fila de clientes que se acumulava no caixa, onde havia apenas uma funcionária.
–Hoje é segunda-feira do cupom — afirmei, como se aquilo fosse bem mais que obvio — Outros locais, tipo o mercado, farmácia e etc, fazem um acordo de cupons, em troca de promoções que sejam vantajosas para seus produtos — expliquei, olhando nos olhos dele. O grisalho rapidamente desviou, pela quinta vez essa manhã. Franzi o cenho, já irritada com a atitude — Por que você vive fazendo isso, Lyon ?
–Hm ? — engoliu em seco, encarando-me finalmente — Fazendo o quê ?
–Desviando o olhar — respondi, num tom irritado — É desconfortável quando você faz isso, sabia ? Por que evita contato visual ? E eu já notei que é só comigo, já que você encara as pessoas até que elas desviem, intimidadas.
–É um dom — sorriu sacana, e observei-o com atenção. Esse lado da personalidade dele era visível, mas sempre parecia que ele se continha quando estava próximo de mim.
O que era verdadeiramente irritante. Afinal, eu gostava de Lyon. Ele me lembrava um pouco de Jellal, e até do próprio Gray. Tudo nele me era convidativo, no melhor dos sentidos, é claro.
–É que ... — coçou a nuca, pensando numa resposta. Olhou em volta, e abaixou um tom de voz antes de continuar — Eu tenho vergonha de trabalhar aqui, sabe. Não é nada em especial pelo lugar — defendeu-se, vendo minha cara transformar-se numa careta — É sério. Eu gosto daqui, mas detesto trabalhar, de verdade. E as pessoas com quem eu ando, e até ... o meu "eu" oficial não servem pra esse tipo de situação. Eles não gostariam de ... coisas assim. Não combina.
–Você falou "eles" se referindo até a você mesmo — comentei, olhando-o assustada — Está dizendo que o seu "eu" de agora não tem nada a ver com o seu "eu" oficial ?
Deu de ombros.
–Aham — garantiu, parecendo totalmente indiferente a situação — Menos a parte irônica.
–Isso não explica absolutamente nada, e você mentiu na maior parte desse discurso patético — afirmei, cruzando os braços rente ao peito — Inventa algo mais fácil de engolir, se for possível.
Ele riu, rolando os olhos para mim.
–Certo, quer a verdade ? — olhou-me , dessa vez, de modo frio — O meu "eu" de verdade está muito afim de você, mas só vai poder executar qualquer espécie de jogada quando nos conhecermos fora daqui. Sem que eu tenha que estar submisso a esse maldito emprego, e sem esse maldito avental de tortinhas de morango sorrindo, falô ? Então, se algum dia nos conhecermos fora daqui, eu serei o mais Lyon Vastia possível.
Quando finalmente tudo o que ele disse começou a fazer sentido na minha cabeça, ri bem alto, rolando os olhos para a brincadeira.
Aquilo sim era uma boa desculpa.
–Ahn ... sabe, — cocei a nuca, tentando soar casual — Você poderia me cantar de avental, se quisesse. Homens na cozinha são altamente sexy — pisquei ao fim do discurso, em sua direção.
Acho que saiu menos engraçado do que o -
Os olhos negros do grisalho se focalizaram em mim, e depois de fecharam, ao mesmo tempo em que o estrondo de sua gargalhada ecoou pelo local.
–Eu ... não ... acredito nisso — murmurou, entre risadas — Foi a coisa mais sem noção que já me aconteceu !
–Hey ! — franzi o cenho, fazendo um bico indignado — Não foi uma piada tão ruim assim, O.K. ?
–Piada ? — repetiu, erguendo uma sobrancelha — Piada é você acreditar que eu estivesse brincando.
–Hm ? — engoli em seco, ainda mais confusa — Pera, do que estamos falando ?
O grisalho suspirou, fazendo um sinal de "esquece" com a mão.
–Deixa pra lá, Juvia — aconselhou, alongando os braços — Algum dia vai conhecer o outro Lyon... e ai não vai poder dizer que não avisei.
Ahn ?
O que ele quis dizer com isso ?
Dei de ombros, cansada de tantos enigmas, e fitei de relance o calendário.
Faltavam apenas 2 semanas para a final do campeonato semestral.
E a minha oponente já estava bem mais que definida.
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