Neon Lights

10 Capítulo 10 - Treino Extra


Notas iniciais
Arbusto é , sem sombra de duvidas, a pior palavra do mundo. Primeiro, porque até cinco minutos atrás - quando revisei o capítulo - eu achava que tinha um "r" entre o "t" e o "o". Segundo, porque pelo menos pra mim, soaria melhor se tivesse. Maaas , como o português sabe ser traiçoeiro, cá estamos nós, com uma palavra feia dessas embutida no meu capítulo ¬¬ Fazer o que né, é a vida. Agradeço comentários, que estou indo responder os passados agora, graças a maldita falta de tempo e inicio das aulas, e acima de tudo, agradeço todos continuarem acompanhando ! Eu amo vocês cara, muito obrigada T.T ~ Le eu se emocionando facilmente quando come chocolate ~ Enfim, boa leitura !

–Eu acho que ... as coisas ficaram bem piores desde aquele discurso de quinta do Jellal — explicou ela, segurando com força a beirada de minha mesa, enquanto permanecia sentada em cima da mesma.

–Não liga pra isso, Lis — sorri, revirando os olhos — Jelly é um idoso disfarçado. Ele consegue ser pior que a obaa-san quando briga com a Mai-san. Mas por que acha isso ? Aconteceu algo ?

–Ontem. Estávamos lá em casa, vendo um filme de comédia qualquer ... e eu fui beijar ele. Sabe, geralmente quando fazemos isso ... as coisas chegam — arregalei os olhos, e ela riu, tentando explicar melhor em seguida — Não desse jeito, pervertida !

Nós rimos, e ela suspirou cansada, voltando a narração.

–No começo ele estava correspondendo, mas ai ... eu disse que o amava.

Engoli em seco, olhando-a com curiosidade.

–E o que ele te disse ?

Ela fez uma careta, olhando o rosado rir loucamente com Lucy, mais afastados.

–Ele não disse nada. Levantou ... e saiu. Nem disse um tchau, ou sei lá o que. Foi frustrantemente horrível.

–Lisanna ... — mordi o lábio inferior, apreensiva — Não acha que ...

–Devíamos terminar ? — completou ela. Assenti, hesitante — É que ... eu gosto tanto dele, Juvia. Não há nada pior que amores unilaterais !

Concordei com a cabeça, olhando de relance para uma certa cadeira, que , como desconfiei, estava vazia.

Devia ter algo a ver com o que aconteceu ontem, quando saímos.

–O que foi ? — ela perguntou, franzindo o cenho.

–Acho que Gray teve algum problema — expliquei, suspirando cansada em seguida — Ontem, encontrei ele quando estava voltando pra casa. Tivemos uma espécie de diálogo ... e fomos comer juntos.

–Vocês saíram e você nem me contou ?! — ela rosnou, irritada, enquanto ajoelhava-se mais próxima de mim — Conte tudo ! Primeiro pra mim, e não pro idiota do Jelly.

–"Saímos" entre aspas — garanti, bufando enquanto escondia a cara na mesa — Foi a maior decepção que já tive em toda a minha vida. Ele me chamou pra comer alguma coisa, e íamos num café que eu costumava ir, quando comecei a morar com a minha avó. Ele até abriu a porta pra mim, mas quando entrei dentro do lugar, uma musiquinha irritante tocou. Ele olhou o celular, e a expressão se transformou. Eu saquei que algo tinha acontecido, mas ele nem se deu ao trabalho de explicar ! Disse ...

–Eu ... sinto muito, Lockser — murmurou, olhando-me nos olhos de modo distante. O tom escuro habitual estava opaco, sem brilho algum — Tenho que ir.

–Ai ele simplesmente foi — completei, bufando contra madeira — Um trágico desastre.

–Nossa ... — ela nem sabia o que dizer — Mas ... deve ter sido algo grave, né.

–Não sei não. Geralmente, se fosse algo de família, teriam telefonado. Não mandado uma mensagem... parece coisa de adolescente.

–Como assim ... ? Está dizendo que acha que ... algum amigo dele teve um problema, ou sei lá o que. Juvia, não precisa usar o ciúmes como desculpa, sabe. Ás vezes algo -

–Eu senti algo estranho, Lisanna — interrompi, impaciente — Quase como se ... tudo fosse ficar mais difícil, de repente. Eu sei que parece loucura, mas é o que eu acho. Além disso, contando com o dia que pedi pra ele me levar em casa, depois de ter salvado ele na competição da Phantom, esse vai ser meu segundo fora.

–É desanimador — afirmamos, em uníssono.

o0O

Os treinos, com o passar daquele longo — e infernal — mês, vinham se tornando definitivamente piores. Conforme Gray exigia mais velocidade, menos eu respirava. E conforme ele exigia perfeição, meus mergulhos ficaram mais ... tensos.

Ele sabia como estragar a graça de alguma coisa.

–Lockser, o que deu em você ?! Acha que isso aqui é o jardim de infância ?! Levanta essa cabeça e engole esse ar, se for preciso !

A maioria da Equipe, ciente de que meu sofrimento era considerável, vinha me dizer coisas incentivadoras, como Lucy havia feito anti ontem, enquanto tomávamos banho no vestiário:

–Sabe, ele só fica nervoso assim porque faltam algumas semanas para a sua primeira competição. É que se vencermos com muitos pontos, podemos ultrapassar diversos colégios. Estávamos na metade do campeonato, e se vencermos a próxima, somos escalados para a final diretamente com a Lamia Scale.

O que não me relaxara nem um pouco, de verdade.

E pra piorar toda a situação, Gray-sama vinha recebendo diversas mensagens. Ele as respondia, sempre, sem atraso de nenhum segundo se quer. Era quase como se tivesse se tornado automático.

Vez ou outra, reparei em Erza e Natsu perguntando do que se tratava.

E ele disse :

"Um amigo meu está passando por coisas ruins, ultimamente."

Certamente deve ser paranoia, mas tenho quase certeza que o amigo é "A" amiga. Com a maiúsculo.

Como sei disso ?

Meu sensor de rival amorosa não apitou. De acordo com Jelly, isso é bastante significativo.

–Se esse seu maldito sensor de gente normal e sem risco nenhum a seus relacionamentos apita, é porque a pessoa é tudo, MENOS, sua rival amorosa. Agora dá um tempo, estou no volume 3 dessa saga.

–Saga ? — repetiu Lisanna, rindo debochada em seguida — Livros de auto-ajuda escritos por gente problemática não podem ser considerados saga !

–Certo, vamos fazer o seguinte — ele bufou, bagunçando os cabelos enquanto tentava esfriar a cabeça — Você faz uma única volta, sem cronometrarmos. Demore o quanto quiser, mas lembre-se de respirar a cada três braçadas, que tal ?

Suspirei, dando de ombros.

–Pode ser — concordei.

–Mas primeiro, — ele me puxou pelo pulso, colocando-se atrás de mim enquanto suas mãos subiam até uns poucos centímetros acima de minha cintura.

Senti meu rosto queimar.

–Quando for dar o mergulho , — iniciou, subindo a mão direita para a região da minha coluna, onde me curvou para frente, fazendo pressão — tem que curvar o máximo que puder, como se fosse tocar seus dedos do pé, O.k. ?

Assenti, com o rosto altamente vermelho, vendo pelo canto dos olhos a Equipe realizando o revezamento.

–Não faça um salto muito extenso — aconselhou, curvando-me mais um pouco — Porque diminui o tempo em que se pega velocidade. Você tem que mergulhar a mais ou menos um metro e meio da borda.

–Sabe, Gray ... — ele pigarreou, e corrigi rapidamente — Capitão ...

–Hm ? — aproximou-se um pouco, para ouvir.

–Eu queria te perguntar sobre ... -

–Hey, Gray, temos novidades ! — afirmou Freed, correndo em nossa direção — É sobre a Lamia Scale.

–Se é o fato dela estar em primeiro, eu já sei — garantiu o moreno, afastando-se de mim rapidamente — Aquele idiota está vencendo todas ... e a Sherry dando um banho nas Equipes Femininas. Era tudo o que ele precisava ! Teme ...

Gray assumiu uma carranca verdadeiramente contrariada. Me perguntei a que "ele" ele estava se referindo, mas achei melhor não interromper.

–É, estive pensando sobre isso, e eu e Jet tivemos uma ideia — explicou-se, sorrindo de lado de modo orgulhoso — Podíamos usar ... marketing.

–Quer divulgar nosso Clube ?! — Kana aproximou-se, rindo seco — Ah, qual é, Freed, já teve ideias melhores !

–Não é divulgar no nosso colégio, e nem divulgar nosso Clube — garantiu, olhando-me de relance — A Lamia está vencendo porque tem lá sua fama. Mas ... se espalhássemos algo interessante o bastante pra desviar a atenção deles, poderíamos nos igualar em termos de -

–Não estou entendendo nada ! — cortou a Alberona — Explique direito !

–Ele quer divulgar uma arma secreta — explicou Gray, dando de ombros com as pálpebras fechadas, meditando sobre a ideia — É bom, isso.

–Que arma secreta, a Lucy ?! — ela riu, sem humor — Isso é patético ! A Sherry não vai se abalar. Nós já nos conhecemos de outros dias, e ela sabe que não temos cara de assustadoras, e muito menos de recordistas.

–É porque vocês já se viram — concordou o moreno, abrindo os olhos novamente, e virando o corpo em minha direção — Mas temos rostos novos.

Todos engoliram em seco, e meus olhos se arregalaram.

–Não pode ... estar falando sério — neguei com a cabeça, automaticamente.

–Você tem o tempo de volta idêntico ao dela, já cronometramos — garantiu ele, mantendo a postura ereta e séria — Não é como se fossemos inventar alguma mentira.

–Quanto mais divulgarmos nossa vantagem, mais eles vão se sentir pressionados — reforçou Freed, sorrindo orgulhoso — Vai dar certo.

–Eu não posso aceitar isso — afirmei, nervosa — J-Juvia ... n-não é tão boa assim !

Gray ergueu uma sobrancelha.

–Quer saber — ele suspirou, cansado — Me espere depois do treino, nas arquibancadas. Tem trabalho hoje ?

–Não, hoje é turno de outras funcionárias ... — franzi o cenho — O que ... vamos fazer ?

–Vai ver mais tarde.

Senti o chão faltar por alguns instantes. Isso não ia dar certo.

Mas, pelo menos, eu poderia perguntar sobre ontem.

–Ah, e Juvia — ele me chamou, antes de voltar ao seu próprio treino normal — Não tira ... o maiô.

–Não tirar ... o ... maiô ...

Quase cai de joelhos, em decepção. O que deu em mim pra pensar que teríamos algum tipo de encontro ?

Ele está querendo me matar com treino extra.

o0O

Sentei num dos bancos da primeira fileira, retirando os pés do chinelo e arrastando-os no chão áspero. O treino dos garotos durava um pouco mais, então , provavelmente Gray demoraria um pouco mais se arrumando.

Senti a mochila vibrar, e abri-a rapidamente, catando meu celular dentro da mesma.

"Está no trabalho ?"

Era Jelly. Sorri internamente, respondendo rápido.

"Não, hoje não trabalho. Mas já tenho compromisso. Por que, algo errado ?"

"Quando foi que teve algo certo na minha existência? ¬¬ "

"Erza ?"

"Não! Claro que — "

"Tá, quando chegar em casa te ligo. Mas ... qual a gravidade da situação ?"

"Numa escala de 0 a 10, 8. "

"Wow o.0"

"Né ? :P Agora, se me dá licença, vou fazer meu lanche da tarde u.u"

Quando entendi o duplo sentido da frase, senti minhas orelhas esquentarem, e fechei rapidamente o celular, guardando-o de novo.

Passei a fitar as grades mais ao longe, onde Mirajane e Elfman conversavam, com Lisanna entre eles. Ás vezes os três ficavam mais tempo, já que as duas ajudavam Elfman com a aula de educação física. Um dos diversos empregos de Elfman, era de professor do Fairy Tail.

Eram uma família muito bonita, na verdade. Todos de cabelos grisalhos, e autênticos. Apesar de serem órfãos, como Lisanna havia me contado, souberam lidar com a perda. Principalmente Elfman e Mirajane, que praticamente tiveram de ser pais de Lisanna.

Mas mesmo que seja feita de apenas dois membros, família é família, e nada se compara.

Senti um calafrio percorrer minha nuca quando o vento frio passou, agravado ainda mais pelo fato de meu cabelo estar bem úmido.

O sol já começava a baixar, e o céu assumia uma coloração alaranjada.

–Está esfriando — afirmou Gray, de trás de mim. Virei o rosto levemente em sua direção, vendo-o se aproximar — Logo o pessoal não vai querer nadar, já que a piscina não é aquecida.

–Mas ... só faltam três finais de semana, não é ? — deduzi, olhando-o parar em frente a mim, fitando o restante dos bancos da arquibancada, mais acima de nós.

–Dois , se conseguirmos que você vença nesse — afirmou, a voz distante. Algo o preocupava.

Engoli em seco, abaixando a cabeça levemente. Era esse o principal motivo de eu nunca ter me inscrito no Clube. Muita pressão, e só piorava quando ele era o Capitão.

Mas isso já não importava mais. Agora, vencer Sherry era questão de obrigação, e não opção.

–Nós vamos — garanti, sorrindo de lado. Ele deu de ombros, suspirando cansado em seguida.

–É, tomara. Agora vamos logo, já deu tempo ... — Gray alongou os braços, passando a andar na direção da saída da piscina.

O segui, com as mãos entrelaçadas em frente ao corpo, andando ao lado do moreno. Mas, quase incondicionalmente, sempre que andávamos próximos, ele acelerava, me fazendo ficar um pouco mais para trás.

Por fim, desisti de alcançá-lo, e passei a fazer o de sempre. Observá-lo de longe.

O moreno mantinha os olhos nas coisas, observando cada uma com curiosidade. Ás vezes, o olhar se perdia, assim como seus passos diminuíam, enquanto pensava em algo indeterminado. Raramente, olhava uma ou outra garota, não parecendo realmente interessado.

Só as olhava, porque o estavam encarando.

E, consequentemente, eu as fuzilava com o olhar.

–Olha aquela garota — murmurou uma das meninas, rindo em seguida. Apesar da intenção ser de cochichar, podia ouvi-la perfeitamente — Está stalkeando o outro ?!

–Kami-sama ! — a amiga riu, olhando-me atentamente — Ela parece ... um fantasma.

–Medonho ! — comentaram , em uníssono.

Senti minhas bochechas corarem, assumindo aquele tom de "não queria existir".

Focalizei meus olhos em frente, notando que Gray me observava de relance. Agora sim eu estava corada.

Será que ele ouviu ?

De repente, o moreno diminuiu o passo, e passei a acompanhá-lo com facilidade, lado a lado. Quase abri um sorriso de orelha a orelha. Eu entendia perfeitamente. Gray era o tipo de pessoa que jamais me diria algo confortante tão abertamente, devido a sua própria personalidade. Até porque, para ele, todos deveriam ser fortes o suficiente para não se abalarem com esse tipo de situação.

Mas mesmo que pensasse dessa forma, isso não mudaria sua natureza de se importar com os outros.

E, nesse momento, notei que ele realmente se importava comigo.

–Medonho era o cabelo dela — murmurou ele, fazendo-me arregalar os olhos.

Ele ... acaba de ... dizer algo ... fofo ?

Uma risada alta — tipo, muito alta — saiu de meus lábios, e tapei a boca em seguida, constrangida pelo ato inesperado.

Gray sorriu de lado, colocando a mão nos bolsos do jeans enquanto continuava a caminhada.

Continuamos em silêncio, mas não de forma incomodante. Estranhamente, o silêncio entre nós parecia realmente agradável enquanto andávamos.

Quando notei, já estávamos em frente a estação de trem, aguardando um trem que nos levaria a direção oposta de onde fica minha casa.

O pensamento me lembrou que ainda não havia avisado a obaa-san.

–Estamos indo longe, Gray ? — perguntei, segurando a alça da mochila. Ele negou com a cabeça.

–No próximo bairro. Só seria longe se fossemos andando ...

–Não, tudo bem — garanti, abrindo a bolsa e pegando o celular. Disquei o número de casa, e ouvi um berro logo na primeira chamada.

"JUVIA, ONDE VOCÊ ESTÁ ?! "

Fora tão alto, que até Gray recuou um passo, assustado.

–O-Obaasan — sorri amarelo, coçando a nuca enquanto ouvia o sermão.

"SABE QUE HORAS SÃO ?! ESTÁ MEIA HORA ATRASADA ! E NEM ADIANTA ME DIZER QUE ESTAVA NO TRABALHO ! COM QUEM VOCÊ ESTÁ ?! É AQUELE DELINQUENTE FERNANDES ?!"

–N-Não ! — garanti, afastando o telefone do ouvido — baa-san, eu ... -

"NÃO COMEÇE A GAGUEJAR NA MINHA PRESENÇA, MOCINHA ! "

–Juvia está tendo treino extra! — afirmei, nervosa — Juvia jura ! Onegai, baa-san, ... volto pro jantar !

Desliguei na cara dela, apertando o botão vermelho com força.

O trem passou por nós com velocidade, e senti o vento passar por entre minhas pernas, causando-me um arrepio. O inverno estava realmente se aproximando em Magnólia.

–Era ... sua avó ? — Gray olhou-me de lado, desconfiado. Sorri de canto, assentindo.

–Ela é bem temperamental — expliquei, guardando o celular de novo. Entramos no trem, que — graças ao horário — estava vazio, permitindo que nos sentássemos num dos bancos, tranquilamente.

–Percebe-se — comentou, rindo levemente — Até o meu tímpano doeu.

–É, quando passei a morar com ela, Mai-chan disse que o peso da responsabilidade caiu sobre ela — ri com a lembrança — Antes ela só era assim no transito, e com o correio.

–Pobre entregador de cartas — afirmou ele, fazendo-me rir — Mai-chan, é sua irmã ?

–Não, não exatamente — fiz uma careta, pensando numa resposta — Eu acho que ela é tipo ... um avô fêmea.

Ele franziu o cenho, olhando-me incrédulo.

–Avô ... fêmea ? — repetiu, confuso. De repente, suas orbes se arregalaram, em compreensão — Ah , wow !

Ri, sacudindo a cabeça levemente.

–Eu sei, é confuso.

–Muito ! — concordou, fitando a janela ainda em transe — Sua avó ... tem uma namorada ? Isso é ...

–Incomum — completei. Ele assentiu.

–Na verdade, combina com você — Gray quase esboçou um sorriso — daqueles bem abertos-.

Quase perguntei se era uma ofensa ou um elogio, quando anunciaram nos auto-falantes que a próxima estação estava a menos de três minutos. Gray levantou-se, parecendo pensativo, e permanecemos em silêncio, até chegarmos ao local.

o0O

–Shh! — pediu, colocando o indicador frente aos lábios enquanto desabotoava a camisa, lentamente.

Estávamos atrás de um arbusto, onde nos escondemos após saltar o muro da Lamia Scale — ilegalmente, obvio — e rolarmos no mato — sabe-se lá por qual razão, já que não se via uma alma andando por ai -.

Senti minhas bochechas corarem no tom vermelho máximo.

O moreno , após jogar a blusa social na grama, desceu a mão direita até o zíper. Meus olhos se arregalaram, mas os mantive fixos na cena, como uma boa pervertida apaixonada faria. Ele desceu a calça jeans até revelar o short negro de natação, que fizera parte de mim vibrar, e a outra ... murchar.

Seria uma bela visão, em minha defesa.

–Tira a roupa — ordenou, num tom rouco e autoritário — além de , não propositalmente, sexy-. Senti cada pelo do meu corpo arrepiar-se.

–P-Por que ? — perguntei, não querendo realmente dizer aquilo. Quem se importava com a explicação ?!

O restante do meu juízo.

–Porque se precisarmos fazer qualquer tipo de fuga, ou nos esconder, nossas roupas tem que estar num lugar bom para alcançá-las, entende ? — revirou os olhos, como se aquilo fosse obvio.

Minha sobrancelha automaticamente se ergueu.

–Acha ... esse arbusto, longe da piscina, e longe da saída, um lugar estratégico pra quê ?! Só se for a estratégia de ser pego mais cedo !

–Ah, foi mal por entender menos desse lugar e de estratégias do que você, Lockser — forçou um tom magoado, altamente irônico — Mas se quer saber, aquela piscina lá é só aparência ! Eles treinam ali !

Apontou em direção ao que aparentava ser apenas uma quadra fechada.

–A especialidade da Lamia Scale é a descrição — afirmou, cruzando os braços impaciente — Eles tem treino extra todos os dias ali. Por isso são tão bons. Treinam como almas condenadas. Só que, descobri que hoje, especialmente, é um treino geral, para a competição de sábado.

–Veio aqui para ... espioná-los ? — deduzi, franzindo o cenho. Não parecia coisa dele — Isso não é ... errado ?

–Viemos aqui pra te mostrar o porque da divulgação de uma arma secreta ser importante — garantiu, puxando-me pelo pulso. Praticamente engatinhamos — de roupa de banho — pela grama — mal cortada — em direção a algumas janelinhas laterais da quadra, ocultas somente por árvores baixas.

Mais mato, que grande surpresa!

Gray foi o primeiro a colocar o rosto contra o vidro, puxando-me para bem próximo de si em seguida, para que pudesse ver o mesmo. Podia sentir seus músculos contra minhas costas, mas não era hora de pensamentos indevidos.

Focalizei a visão no vidro, enxergando, aos poucos, as formas e coisas que se movimentavam rapidamente pelo local azulado. Graças ao fato de estar razoavelmente frio, e a piscina ser quente, o vidro permanecia um pouco embaçado.

Por força do hábito, guiei a mão em direção ao mesmo, na intenção de limpá-lo, quando Gray subitamente me deteve.

–Podem notar — explicou-se, soltando minha mão em seguida. Voltei os olhos as cenas, procurando algo em especial. Para mim, tudo parecia desconhecido. Exceto, talvez, pela voz alta e estridente — razoavelmente familiar — que ecoava pelo local, ditando a velocidade e os tipos de nado dos revezamentos que estavam sendo realizados. As primeiras raias eram ocupadas por grupos menores, que nadavam visivelmente mais rápido.

–O que está falando, é o Capitão da Lamia Scale — explicou, parecendo verdadeiramente amargurado — Lyo-

–Será que pode me dizer onde foi parar a plataforma roxa ? — perguntou uma garota de longos cabelos rosas, que ocupava — sozinha — a primeira raia. Franzi o cenho diante da cena.

–Já vou providenciar isso, Sherry-sama ! — garantiu uma menina esguia, correndo para dentro de uma das portas de saída do local. Provavelmente a do vestiário.

–Essa, Lockser, — sua respiração ia de encontro ao meu ouvido, deixando-me desconcertada -É Sherry Blendy. A Sereia Mortífera. Depois conversamos sobre isso, quando tivermos mais tempo.

Assenti, olhando tudo com atenção.

–Os equipamentos são de primeira — comentei, deslumbrada — É ... incrível.

–É terrível — corrigiu-me — O pai da Sherry é rico, e em troca da filha dele ser tratada como estrela, ele financia coisas bem além do orçamento escolar para o Clube. É anti ético, mas ninguém denuncia. Afinal, o dinheiro compra tudo. Até caráter.

–Mas ... -

Ouvimos um apito soar, e Gray me puxou para longe da janela, me empurrando de modo que deitei totalmente na grama, com a barriga virada para o céu.

–Não se mova — ordenou, deitando-se também. Assim a grama — enfatizando novamente, mal cortada — nos omitiria dos outros. De repente, as luzes do local se apagaram, e as vozes subitamente afastaram-se.

–E agora ? — sussurrei, aflita. Ele não respondeu, dando assim minha resposta.

"Agora, nós esperamos."

Oo0

As vozes finalmente tornaram-se nulas, e Gray levantou-se, saindo dos arbustros e deixando-me sozinha. Levantei-me, abraçando meu próprio corpo devido ao frio ar da noite.

–Lockser — ouvi-o me chamar, baixinho. Olhei em volta, encontrando-o próximo da porta de entrada do local. Aproximei-me rápido, porém em silêncio, vendo-o remexer o cadeado com irritação.

–O que ... -

–Está trancada — resmungou, revirando os olhos — Queria entrar ai.

–Pra quê ? — franzi o cenho. Ele olhou-me com irritação.

–Não acha que eu te mandei vir de maiô e tirar as roupas só por preferência, não é ? — revirou os olhos — Achei que ...

Tive uma ideia.

Retirei o grampo de cabelo do meu rabo de cavalo meio solto, deixando os fios azuis caírem por sobre meus ombros.

–Não está tentando fazer igual aos filmes, não é ?

–A minha avó é engenheira mecânica — expliquei, voltando a atenção ao grampo e a fechadura, sem olhá-lo — Talvez tenha sido isso que a influenciou a ser lésbica, mas enfim, o que vem ao caso é : Ela disse que toda fechadura tem uma falha. É algo feito na criação, propositalmente. Tudo tem que ter uma válvula de escape. Até mesmo a vida. Então, se encaixarmos no ponto certo da coisa — fiz exatamente como estava explicando, fazendo uma careta de concentração — E girarmos nesse ponto, e nesse — franzi o cenho, ao notar que ainda não havia dado o "clique" — Com um jeitinho, tudo se -

E então, o "clique".

–Resolve — completei, sorrindo vitoriosa enquanto retirava o cadeado — Além disso, esse cadeado está todo ferrado ... o pai dela devia financiar é um novo disso aqui.

Ele sorriu, sem acreditar.

–Incrível — admitiu, enquanto empurrava a porta de metal — Preparada ? Treino extra rank S, Arma Secreta.

–Ela é a Sereia Mortífera, e eu a Arma Secreta ? — repeti, rindo em seguida — Achei que ia ser algo mais ... marítimo.

–O que você esperava ? — ele revirou os olhos, de novo — Golfinho Mortal ?

–Tubarão Assassino ? — sugeri.

–Foca Macabra ? — rebateu.

–Pinguim Flecha ?

–Pinguim Flecha ? — repetiu, erguendo uma sobrancelha.

–É, péssimo — concordei, suspirando. Ele riu, e focou os olhos na escuridão em que o local se encontrava — Como vamos achar o gerador ?

–Não havia pensado nisso. Nem trouxe ... lanterna — coçou a nuca, impaciente — Podíamos tentar achar no escuro ? Sabe, se for algo padronizado, então pode ser que nem no Fairy Tail. Próximo do vestiário masculino.

–Tá, pode ser.

No primeiro passo que demos, fizemos isso ao mesmo tempo, esbarrando os tornozelos, de modo que, inesperadamente, uma luz se acendeu, forte, vindo de próximo ao meu pé.

Seguimos o olhar até a tornozeleira que comprei no dia da competição na Phantom.

–Essa porcaria ... acende ? — arregalei os olhos, sacudindo a cabeça em negativa — Por isso que foi tão caro ...

–Seja lá o que a porcaria for — ele sorriu de lado — Acaba de nos salvar. Tire ela do pé um pouco.

Fiz o que ele pediu, retirando-a e depois estendendo-a a ele, que fitou os flocos de neve de cristal falso por alguns instantes, parecendo em transe. Estalei os dedos, e ele voltou ao normal , caminhando escuridão a dentro, com a Stalker fiel atrás.

Achamos o gerador bem próximo da piscina, e Gray apertou cerca de dois botões errados — que achei que fossem nos matar — antes de acender todas as luzes.

–Então é aqui que aquele babaca treina ? — murmurou, mais para si mesmo. Algo me dizia que essa pessoa, fosse quem fosse, dava nos nervos de Gray. O tal Capitão da Lamia.

Olhei-o por alguns instantes, até que a piscina pareceu chamar mais minha atenção. Senti quase como se a mesma gritasse por mim.

"Juvia, entre logo"

Um sorriso debochado formou-se no canto dos meus lábios, e quando Gray virou-se para dizer algo, corri na direção da borda da mesma, saltando para dentro com rapidez.

A água envolveu meu corpo, e fechei os olhos, afundando lentamente enquanto deixava meus três finitos minutos durarem.

Notas finais
E então, como vão todos ? Pelo menos dessa vez o final não ficou TÃAAO partido ao meio assim ^^ Mas ainda assim, vai ter continuação da última cena.