Neo Omega - A Dualidade das Almas
2 Capítulo I - A sombra e os olhos azuis
Um homem de ombros largos e quase dois metros estava à frente dos três. Zeon, Senj e Nuntia tinham praticamente a mesma altura, uns bons quinze ou vinte centímetros a menos que o instrutor. A tensão pairava no ar úmido da densa floresta.
– A última missão do Teste Especial de Graduação Nº 13 está para começar. Estão preparados?
– Depois de todo o resto, você realmente precisa perguntar, Duxen?
Um pouco de arrogância estava presente em seus olhos.
– Só porque vocês passaram dos outros testes não significa que este será fácil, Zeon. Você pode ser Rei na Academia, mas, aqui fora, você não é nada. Lembre-se disso.
Um sorriso irritado formou-se no rosto do jovem de cabelos e olhos castanhos. A garota de cabelos loiros e olhos verdes cobriu a boca para não deixar a risada muito evidente e o garoto de cabelos e olhos pretos deixou um sorrisinho escapar. Duxen respondeu a isso com uma voz dura.
– Continuando... A missão de vocês é sobreviver nesta floresta por quarenta e oito horas.
Um silêncio de alguns segundos assolou o grupo.
– Não vão dizer nada? Que é fácil ou algo do tipo?
Nuntia rolou os olhos.
– Estamos justamente esperando pela parte difícil.
Inesperado. Depois de alguns segundos processando o que ela havia dito e o modo como o havia feito, ele sorriu do mesmo modo que Zeon.
– A parte difícil é a quem vocês devem sobreviver. Vocês devem conhecê-la; ela se formou dois anos atrás e é a maior estrela do Esquadrão.
Os olhos se arregalaram. Duxen só podia estar falando de uma pessoa.
– Você realmente chamou a Anima pra essa missão?!
O sorriso em seu rosto aumentou.
– Eu não a chamei. Ela por acaso estava na cidade e decidiu participar.
– E por que diabos permitiriam que a melhor Agente de Zyxun participasse de uma graduação especial? Os níveis são completamente diferentes!
– Acalmem-se. Ela não vai usar as habilidades ao máximo. Ela só quer... testá-los.
Ele seguiu o caminho contrário à floresta em direção a seu carro e acrescentou um dado antes de abrir a porta.
– Lembrem-se de que ninguém nunca sobreviveu a um Teste Especial.
Ligou o carro, ativando o sistema básico de antigravidade que todos os veículos do Continente possuíam, e seguiu em direção à Academia. Uma luz vermelha brilhou em seus olhos e ele pareceu dizer algumas palavras.
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– Onde vocês acham que deveríamos ficar? No centro da floresta ou no limite?
– Bom... É mais difícil de sermos encontrados no centro, mas também é mais difícil de ir embora assim que a hora chegar.
– Ir embora é o de menos, Senj. Sobreviver à Anima é nosso problema principal.
– E ela não é nosso único problema por aqui.
– O que você quer dizer, Nuntia?
– Olha pra cima.
Senj lentamente levantou sua cabeça. Acima dele, entre as folhas de uma enorme árvore, estava uma aranha gigante lançando aos três um aterrorizante olhar. “Merda!” Com a voz rouca, ele estendeu seu braço até a bainha que estava presa horizontalmente à parte de trás de sua cintura. Zeon segurou seu cotovelo antes que pudesse empunhar a espada.
– Esse negócio tá quieto. Esses olhos são sempre assim. Deixe-o em paz.
– Se é pra deixar essa merda enorme em paz, por que me avisaram que ela tava lá?!
– Pra você se tocar de que precisa ficar atento, seu gênio. – Num sussurro irritado, ela completou. – E não grita!
Ele suspirou e passou a mão no rosto.
– É, desculpa, desculpa. Só tô...
– Ansioso?
– Na falta de uma palavra melhor...
Continuaram andando por pelo menos uma hora pela densa folhagem. Encontraram uma ou outra clareira, mas estavam longe demais do centro. Pelo menos, não foram alvo de nada. Nem ninguém.
– Qual o tamanho dessa droga?
– Você não lembra? Já fizemos umas missões aqui.
– Tivemos que ir até o centro?
– Não que eu lembre.
– Então cala a boca, Zeon.
– TPM?
– Cala a boca você também, Senj!
Os dois começaram a gargalhar entre si, deixando a garota ainda mais irritada.
– Eu já falei pra não fazerem barulho!
Quando os dois abriram os olhos para olhar para Nuntia, o tempo pareceu congelar e o ar pareceu esfriar. Atrás dela, saindo do meio das árvores, estava um enorme besouro, preparado para fechar violentamente suas pinças no tórax da garota. Sem nem notar a confusão da amiga ao ver a reação deles, Zeon arrancou a espada de Senj da bainha. Ele não tinha tempo para pensar se aquilo daria certo, se daria tempo, se alguém ia morrer ou não, ele só podia agir. Correu na direção daquela aberração da natureza, cada passo parecendo demorar horas, segurou a pinça por baixo e a cortou com a espada. O impacto lançou seu braço para trás e deslocou seu ombro. A outra pinça acertou Nuntia e a jogou sobre Zeon, fazendo ambos voarem por cerca de um metro. Um rastro de sangue se formou entre o lugar onde estavam e o em que caíram.
O tempo voltou ao normal para Senj. Ele correu até onde os outros dois estavam e pegou a espada de volta. Não tinha tempo para garantir a sobrevivência deles, precisava garantir a morte daquela coisa antes. Para não correr riscos, tirou do cinto uma faca, o mesmo tipo de faca que todos da Academia tinham. Foi ao encontro daquele inseto gigantesco sabendo que, quanto mais demorasse, mais seus amigos caminhariam para a morte. Se um voo de alguns segundos deixou tanto sangue no chão, os momentos deles deviam estar contados.
Ele moveu a espada da esquerda para a direita, por baixo de seu braço esquerdo, e cortou a pinça ainda inteira por fora. Se tentasse fazê-lo por dentro, o impacto provavelmente quebraria a lâmina; ela não era própria para combate. Ele pulou sobre a cabeça do besouro e a furou com a faca que tinha na mão esquerda. Pôde ouvir um agudo grito vindo da criatura, e então a furou com a espada. Puxou-a para seu corpo, cortando a cabeça do inseto em duas e finalmente matando-o. Uma gosma verde, equivalente a sangue, atingiu seu rosto.
– Não sabia que insetos gritavam. E espero que isso não chame mais deles.
Apressou-se ao encontro dos outros dois. Nuntia estava desmaiada e Zeon, mesmo só com um braço funcional, tentava estancar o sangramento dela. O tempo desacelerou novamente.
– Isso é... um corte bem fundo... O que vamos fazer...?
– Parar o sangramento não parece uma boa ideia?!
– Mas... vai ser o suficiente...? Quero dizer...
– Cala a boca, porra! Me ajuda a fazer ela parar de sangrar!
Senj voltou a parte de seus sentidos. Arrancou a camisa do corpo e a cortou com a faca. Desse modo, poderia dar uma volta e meia na garota, tapando o sangramento com uma camada dupla de tecido.
– Só isso não basta!
– Mas é tudo que eu posso fazer!
– Você não pode usar Alquimia pra fechar o corte?!
– Eu não tenho poder pra mexer com seres vivos, só...
– Bom, se você não tentar agora, ela vai deixar de ser um ser vivo! Assim você tem poder?!
– Eu... Eu...
– Mas que merda, Senj! A garota que você ama tá morrendo na sua frente e você não vai fazer nada?! É por coisas assim que ela caga pra você e se joga nos meus braços!
O processo inverso ao anterior aconteceu. O ar aqueceu e o tempo acelerou.
– Cala essa puta dessa boca!
Senj socou o rosto de Zeon, derrubando-o completamente sobre o chão. Então, colocou as mãos sobre a parte da camisa que ficava mais suja de sangue a cada segundo e uma clara luz branca envolveu toda a área.
Zeon levantou a cabeça e, com a mão sobre a boca que agora sangrava, começou a gritar.
– Mas que merda foi essa?! O que você tá...
– Fazendo?! Algo que você não consegue, senhor topo da Academia! Não sei se vou conseguir, mas... talvez eu possa acelerar o processo de regeneração dela! Eu... Eu não posso deixar que ela morra na minha frente!
Pouco depois de meio minuto, o nariz de Senj começou a sangrar. Aquela era uma técnica que ele não dominava e gastava uma quantidade assustadora de energia, mas ele não podia parar. Ele era o único que podia fazer algo, então tinha que fazer tudo que estivesse ao seu alcance.
– Deu... certo?
– Eu acho que sim... O curativo não tá ficando mais sujo. Não acho que seja bom tirar pra olhar, então temos que acreditar que sim.
Surpreendentemente, funcionou. Ele usou Alquimia em um ser vivo. Se podia fazer isso, provavelmente não existiam limites para as habilidades dele. Isso, porém, não era algo com que podiam se preocupar no momento.
– Precisamos sair daqui. Toda essa gritaria vai atrair uns bichos. Consegue andar?
– Acho que sim... Mas... como vamos tirar a Nuntia daqui? Com seu braço assim...
– A gente se preocupa comigo depois. Por ora, é mais importante sairmos daqui. Você consegue colocar ela nas minhas costas?
– Sim...
Eles andaram com passos apressados pela densa folhagem. Senj tinha a visão turva e cambaleava a cada três ou quatro passos. Zeon tinha que conciliar a dor de seu ombro, de sua mão e de carregar uma garota de dezessete anos nas costas sem deixá-la cair.
Rapidamente acharam uma clareira, mas ainda era próxima demais de onde tudo havia acontecido. Usaram-na só para descansar um pouco e seguiram procurando. Andaram por mais quinhentos ou seiscentos metros e encontraram outra. Era perfeita. Não era muito grande, não era muito pequena e a folhagem que a cobria era mais densa que o normal. Zeon gentilmente deitou Nuntia no chão. Senj fez um curativo na mão do amigo e conseguiu colocar seu ombro no lugar. Os dois, então, sentaram ao lado de Nuntia.
– Pra um cara tímido, você consegue fazer umas coisas incríveis, sabe?
– É... Eu gosto de ser útil de vez em quando...
Ele cuspiu um pouco de sangue. Zeon tentou fazer alguma coisa, mas o outro o cortou.
– Não é nada de mais.
...
– Desculpa... pelo que eu disse antes.
Senj suspirou.
– Calor do momento... Eu entendo.
– Sério, eu não tenho o direito de me enfiar nisso...
– Zeon... Não se preocupa. Eu... só preciso saber de uma coisa.
– Precisa... saber? O que é?
– Você... pretende fazer algo a respeito?
– A respeito do quê?
– A respeito da Nuntia... sabe, o que você disse naquela hora.
– Sobre...
– Ela cagar pra mim e se jogar nos seus braços.
– Ah, isso. Sinceramente... não.
...
– Por que não?
...
– Por dois motivos. Primeiro, eu não vou quebrar as pernas do meu melhor amigo. Segundo... Eu realmente não sinto nada por ela.
– Por quê?
– Por que você sente o que sente por ela?
– Eu não sei. Simplesmente... sinto.
Zeon riu.
– Comigo é a mesma coisa. Eu simplesmente... não sinto.
– Eu... acho que entendo.
...
– Viver na sua sombra é uma desgraça, sabia?
– O quê?
– O Rei da Academia, o cara pelo qual as garotas, que deveriam querer te matar, caem de joelhos, o cara apto a requisitar um Teste Especial e levar dois amigos junto... Você é assim incrível, Zeon, e de vez em quando parece não perceber. Enquanto isso, eu... sou só o idiota que te segue. Não importa quanto eu faça, você sempre vai fazer mais. Não importa quanto eu corra atrás da Nuntia, ela sempre vai correr atrás de você.
– Você acha que eu deveria me afastar de vocês? Deixar o caminho livre pra vocês ficarem juntos?
– Não é isso que eu tô falando, Zeon... Eu só...
Ele foi interrompido por um gemido de Nuntia. Ela estava começando a acordar.
– Continuamos essa conversa depois, Senj.
– O que aconteceu...? Onde estamos...?
– Numa clareira aleatória. Ainda tem... umas quarenta e cinco horas faltando.
– Sério...?
Ela tentou se levantar, mas a dor em suas costelas a parou.
– Quieta aí. Você não tá em condições de se mexer.
– Mas... e se a Anima aparecer?
– Nós dois cuidamos dela. Você é uma estrategista, não uma guerreira, afinal. Não faria tanta diferença assim.
– Não sei se fico lisonjeada pelo “estrategista” ou se fico ofendida por você falar que minha presença não faz diferença...
Zeon sorriu e passou a mão no pescoço.
– Você entendeu o que eu quis dizer.
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Naquela noite, Senj e Zeon ficaram de guarda enquanto Nuntia descansava, mas nem predadores nem Agentes apareceram.
O Sol raiou por volta das seis da manhã, forçando alguns raios de luz pela copa das árvores até os olhos dos três. Estavam cansados, mas psicologicamente melhores do que antes do anoitecer. Mesmo assim, ainda restavam cerca de trinta horas para se verem livres daquela floresta.
Durante a madrugada, os dois garotos discutiram sobre a necessidade de continuar naquela clareira até o fim. Chegaram à conclusão de que seria absolutamente impossível ficarem carregando uma garota com uma ou mais costelas quebradas e um corte enorme de um lado pro outro.
Foram obrigados a conversar durante a tarde toda. Não que não quisessem conversar, mas uma hora o assunto acaba. Alguém chegou a comentar, brincando, que queria um pouco de ação por ali. Horas depois, ao cair da noite, esse desejo foi concedido.
Ouviram o movimentar de folhas seguido por um baque seco na grama. Uma mão moveu os galhos de uma das árvores que marcavam o limite da clareira e um vulto surgiu. Dois olhos azuis refletiam a luzes misturadas do que restara do Sol e do que começara a aparecer da Lua. Palavras frias escaparam de dois lábios suaves.
– Encontrei vocês.
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