Neo Omega - A Dualidade das Almas
3 Capítulo II - A beleza de seus olhos
Passos gentis a levaram ao interior da clareira e a mistura de luzes revelou seu lindo rosto. Seus olhos azuis como topázios penetraram fundo nas consciências de Zeon e Senj. Sua presença era calma e magnífica, mas causava profundos medo e inquietação.
As costelas de Nuntia impediam-na de levantar-se. Os dedos de Senj, mais firmes a cada passo que aquela mulher dava, se seguravam à espada e à faca como se fossem sua própria vida. Zeon estava paralisado pela primeira vez em anos. Não por temer a própria morte ou a de seus amigos, mas por aqueles olhos, aquele rosto, aquela aura.
– Você...
O vento, os animais, os insetos, as folhas, tudo pareceu desaparecer. Zeon estava completamente tomado por aqueles hipnotizantes olhos azuis. Ela não podia ver nada, não podia ouvir nada, mas ele se sentia mais completo do que em todos os anos que passou na Academia.
O som de um choque metálico forçou a entrada por seus ouvidos, faíscas voaram diante de seus olhos, a adrenalina finalmente começou a fluir. Ele pôde ouvir seu coração acelerado, sua respiração ofegante, pôde sentir o fluxo intenso de sangue por suas veias. Sua mão esquerda, quebrada e rasgada do dia anterior, voltou a sangrar. Um calafrio cortou sua espinha. A carmesim espada curvada da mulher se encontrava repetidas vezes com a prateada espada reta e a faca de Senj. Ele estava conseguindo se defender, mas não conseguia atacar. Zeon mirou o pescoço da mulher e arremessou sua pequena lâmina, fazendo-a recuar um ou dois metros. Ele não esperava matá-la assim, mas sim criar uma certa distância.
– Ei, olhos azuis. — Ele tirou sua outra faca do cinto. — Tô certo se te chamar de Anima?
– Não reconhece meu rosto, Zeon?
– Só dos cartazes espalhados pela Academia puxando seu saco por seus incríveis sucessos. Ah, e sei seus títulos, Imperatriz.
Ela fechou os olhos por alguns segundos e passou a mão livre pelo rosto e pelos longos cabelos castanhos. Sua feição mudou.
– Não gosto desse título, seu merdinha.
– Cutuquei alguma ferida, vadia?
– Você tem coragem, Zeon. — Ela coçou o pescoço e uma leve risada escapou por seus lábios. — Tenho que admitir. Não me lembro de ninguém que tenha me chamado de vadia sabendo quem eu era.
– Agora você tem uma história legal pra contar. Então se você puder fazer o favor de vazar e deixar essa maldita missão acabar, eu ficaria bem agradecido.
– E por que exatamente eu teria piedade de vocês?
– O que exatamente você ganha nos matando?
– Bom... Uma história legal pra contar!
Anima cobriu a distância entre os dois em um único movimento. Tendo pouco tempo para reagir, tudo que Zeon pôde fazer foi desviar levemente o ataque, que foi completamente bloqueado pela espada de Senj. Ele tentou cortá-la com a faca livre, mas ela recuou novamente. Segundos depois, atacou Zeon novamente e a cena se repetiu algumas vezes.
– Senj! — Zeon bloqueou outro ataque. — Me dá a espada! Eu sou o alvo dela, então eu luto diretamente com ela!
Eles desviaram e, por trás da Agente, trocaram as lâminas. Não era um plano ruim, mas deixava, mesmo que por um segundo, Nuntia desprotegida. Uma chance que Anima soube aproveitar. Zeon cortar sua costela para tentar pará-la foi em vão. Ela pulou sobre a garota que mal podia se mover e mirou a espada em sua cabeça. Os dois, tomados por um momento de desespero, gritaram o nome dela.
A lâmina brilhou diante dos olhos de Nuntia, cada centímetro que se passava a aproximava da morte. Zeon e Senj não poderiam fazer nada. Ela tinha que sobreviver sozinha. Tinha que parar de se esconder. Mas... como?
Ignorando a dor do lado esquerdo de seu corpo, ela violentamente atravessou a espada de Anima com a faca que segurava por segurança. Um buraco, um elemento defensivo implantado para bloquear outras lâminas, foi o alvo de Nuntia. Ela transformou a defesa da inimiga em sua própria. A espada aterrissou do lado de sua cabeça; os rostos das duas ficaram separados por centímetros. Os olhos da Agente estavam perplexos.
– Como você conseguiu acertar isso?
– Não me subestime, sua puta.
A morena violentamente arrancou a espada do chão, e a faca da mão de Nuntia como bônus, e recuou mais uma vez. Sua respiração ficou ofegante e seus olhos, arregalados. O ódio que ela havia recebido naquelas poucas palavras era maior do que qualquer ódio que já havia visto. Sentiu um profundo medo ao ver a garota levantar-se lentamente com sangue manchando a mão que cobria suas costelas quebradas. Ela lançou um olhar congelante e sussurrou palavras frias.
– Não ouse... tocar na minha família!
– Nuntia! Fica parada se você gosta de viver!
– E você acha... — Ela cuspiu um pouco de sangue. — que eu vou viver se ficar deitada? Você não viu o que acabou de acontecer? Você acha que eu posso deixar essa vadia convencida tirar vocês de mim?! — Algumas lágrimas, mistas de dor e de emoção, escorreram por seu rosto. — Vocês me protegeram por tanto tempo... Mesmo que eu morra... eu vou proteger vocês...!
– Zeon... — A voz pesada e preocupada de Senj se moveu alguns passos para trás. — Você pode lutar sozinho?
– Claro que posso. (Não tenho certeza, na verdade, mas também não quero que ela se mate.) Quem você pensa que eu sou? Fiquem quietos, vocês dois.
Ele se aproximou de Anima e a encarou. Algum tipo de sorriso, enigmático e assustador, havia dominado o rosto dela. Olharam-se nos olhos por alguns momentos, esperando a quebra da tensão. Qualquer movimento, qualquer som faria o serviço.
Uma gota de sangue caiu da mão de Zeon.
As duas espadas cortaram o espaço entre os dois. Uma traçou um arco vermelho, acompanhado por pequenas brasas alaranjadas que iluminaram a clareira, e a outra traçou um arco prateado que refletiu a luz da Lua, agora mais imponente que a do Sol. Elas se chocaram e os corpos dos dois ficaram a um palmo um do outro. Fogo voou no rosto de Zeon, luz no de Anima. Os olhos castanhos se encontraram novamente com os azuis.
– O que acha de começarmos a festa?
Zeon a empurrou com a espada e chutou seu estômago, quebrando seu equilíbrio. Mais um arco prateado foi traçado e o pescoço de uma Anima caída e surpresa foi alvejado. Ela ergueu a espada e, apoiando o braço direito com o esquerdo, bloqueou o ataque com a mesma abertura que, momentos antes, atrapalhara-a. Olhos, mais uma vez.
– Me obrigando a isso tendo só um braço livre. Você é um garoto interessante.
– Não quero seus elogios!
Ele atingiu sua própria mão com seu cotovelo, aumentando a força exercida sobre a espada e fazendo-a quebrar a defesa de Anima; a fria lâmina perfurou o canto de seu pescoço. Um agudo e curto gemido cortou o ar. Ela retribuiu o chute e o arremessou para trás; as espadas escaparam de suas mãos, presas uma à outra. Ambos se levantaram, Anima com a mão sobre o corte e com sangue escorrendo por seu lábio inferior, e se encararam mais uma vez.
– Eu não tenho certeza, mas acho que acertei um ponto vital da maior estrela do Império. — Zeon se gabou com a respiração ofegante.
– Se você é tão bom assim, — Ela abriu os braços, deixando-se vulnerável. — me mate. Aqui e agora. Mate a maior estrela do Império quando você só precisava sobreviver. Tome meu lugar. Destrone a Imperatriz, Rei.
Ele sorriu arrogantemente, pegou ambas as espadas e caminhou lentamente. Nuntia e Senj assistiam com olhos arregalados, paralisados pelo medo. Haviam visto inúmeras cenas similares em seus anos na Academia, mas aquela era diferente. Havia uma tensão natural entre aqueles dois, algo que parecia irreal. Zeon levantou a espada de Senj, apontou-a mais uma vez para o pescoço de Anima e, com um movimento violento, atacou-a. Pôde-se ouvir o abafado som de carne sendo perfurada. Nuntia abraçou Senj por trás e mergulhou o rosto em seu ombro. Um choro quase inaudível deixava seus pulmões.
Uma rouca e assustada voz flutuou no ar.
– O que é você...?
A espada não estava atravessada no pescoço de Anima, mas em sua mão esquerda. Chamas brilhavam em seus olhos e o rancor de um demônio emanava de seu corpo. Zeon largou as espadas e deu trêmulos e espaçados passos para trás; tropeçou em si mesmo. Senj inadvertidamente derrubou Nuntia ao disparar para ajudá-lo. Anima arrancou a espada fincada em sua mão, jogou-a no chão e recuperou a vermelha do chão. Pequenas chamas ardiam em sua mão e em seu pescoço; as feridas estavam se fechando. Ela olhou nos olhos de Zeon mais uma vez, parecendo olhar para todos.
– Eu vi mais do que precisava. E vocês viram mais do que deviam. — Fez curta pausa uma pausa e olhou para as escuras copas das árvores. — Aproveitem sua liberdade.
Ela se virou, caminhou até o mesmo local por onde havia entrado e deixou a clareira, iluminando o caminho por onde andava.
Senj tentou, inutilmente, ajudar os dois a se levantarem. Zeon ainda estava processando os últimos momentos, quase imóvel, e Nuntia estava chorando um pouco mais alto, agora de dor. A adrenalina em todos estava diminuindo, os efeitos da curta, mas intensa, batalha estavam ficando evidentes. Os corações estavam desacelerando, as respirações estavam se acalmando. Um sentimento de alívio os tomou, mas algo a mais passou pela cabeça de Zeon.
– Essa sensação... Tem algum tempo que... não a sinto.
– Que sensação? — Senj abraçava Nuntia, tentando fazê-la parar de pensar na dor.
– Solidão... Mas por quê...?
– Solidão? Você acendeu algum cogumelo? — Nuntia sorriu com sangue escorrendo de sua boca e os olhos quase fechados.
– Fica quieta e sangra aí.
– Digo o mesmo pra você, Zeon.
Eles conseguiram rir; a dor e o medo de minutos antes desapareceram por um momento.
Zeon se levantou, pegou a espada e olhou para o limite da clareira com olhos sérios. Começou a andar.
– Vai fazer o quê?
– Me certificar de que ela foi embora.
– Eu tava tirando uma com a tua cara, mas agora eu acho que a história do cogumelo é séria.
Ele olhou para trás com um sorriso gentil e continuou a andar, deixando Senj e Nuntia abraçados nos chão.
Passos lentos e respiração ofegante. Passos irregulares e respiração pesada. Uma dor no coração. Um peso nos ombros. Uma agonia na mente.
Ele estava cercado cadáveres de animais que habitavam a floresta. O chão estava chamuscado e a grama que restava tinha o mesmo destino. Ele ouviu uma doce voz vinda de cima.
– Eu sabia que você viria.
Um corpo magro caiu à sua frente com uma suavidade que parecia ignorar a gravidade. Apenas um palmo os dividia. Um estranho calor permeou seu corpo.
– Foram os olhos?
Ele suspirou.
– Principalmente... Eles...
Ela entrelaçou seus dedos com os da mão enfaixada dele, puxou-o pelo pescoço e o beijou por segundos que pareceram uma eternidade.
...
– Quem é você...?
– Alguém que pode... te ajudar a encontrar sua irmã.
– Minha irmã...? Você quer dizer...
– Asther.
O coração dele acelerou, a espada caiu, uma lágrima escorreu por seu rosto. Ele a agarrou pela camisa, revelando uma estranha marca preta que só viu de relance. Sua voz tremia.
– O que você sabe sobre ela? Me diga. Agora!
Ela sorriu e arrancou a mão de sua roupa. Um pequeno pedaço de tecido branco foi rasgado e se escondeu na mão de Zeon. Passou seus dedos sujos pelo sangue úmido do curativo nos lábios dele.
– Eu sei muitas coisas sobre ela, mas não posso te dizer. Não agora.
Ela correu na direção oposta, desviando das árvores com suave e impecável habilidade. Ele foi possuído pelo desespero. Suas pernas se moveram sozinhas. Não conseguindo desviar apropriadamente das árvores, viu-se obrigado a empurrá-las violentamente sempre que cruzassem seu caminho. O curativo foi rasgado, suas duas mãos passaram a sangrar.
Ele a empurrou contra um forte tronco e torceu seu braço por trás de suas costas.
– Você é rápido. — Ela sorriu com o canto do rosto.
– Começa a falar!
Ela girou e libertou seu braço; jogou-o contra a árvore e apertou seu pescoço.
– Primeiro, ninguém faz isso comigo. — Soltou-o. — Segundo, o que quer saber?
...
– Quem é você?
...
– Uma amiga.
– Como conhece a Asther?
– Foi logo depois que vocês se separaram.
– Como sabe que vivíamos juntos?
– Ela me contou. Como mais eu saberia?
– O que ela te contou?
– Muita coisa. Você precisa ser mais específico.
– O que ela falou... sobre o momento em que fomos separados?
– Ela me disse que sentiu medo. Muito medo. Sentiu como se um pedaço fosse arrancado dela.
– E onde vocês...
– Ela também disse — Anima o cortou. — que estava começando a se apaixonar por você, Zeon.
Ele parou por um segundo. Sorriu. Sentiu felicidade e tristeza se misturando harmoniosamente.
– Onde vocês se conheceram?
– Na Academia.
– Na... O quê...? Como eu nunca vi ela?! Como nunca ouvi falar dela?! Como ela nunca me procurou se me chamam de Rei?!
– Ela saiu antes de você ficar famoso.
– Quando?
– Logo antes de eu me formar. Por que você acha que eu requisitei um Teste Especial?
– Você se formou por Teste Especial...? Mas...
– Ninguém nunca sobreviveu? Teste Especial Nº 0. Já ouviu falar?
– Você foi a primeira...
– Parece que você começou a entender.
– Como ela saiu da Academia?
– Um dia, ela simplesmente sumiu. Não conseguia encontrá-la em lugar nenhum, então decidi procurá-la fora daquele buraco infernal.
– E, assim, você burlou as regras da Academia sem quebrá-las.
– Exato.
...
– Eu só tenho... mais quatro perguntas.
– E aí o interrogatório acaba, ótimo.
– Você descobriu alguma coisa?
– Descobri que a pessoa que temos que odiar é o Imperador. Ele é quem causou tudo isso.
– Por isso você não gosta de ser chamada de Imperatriz...
– Perfeitamente.
–Você sabe onde ela tá?
– O Imperador sabe, tenho certeza disso.
...
– Sabia que seus olhos me lembram dos dela?
– Já nos disseram, sim. Por isso soube que eles te trariam até aqui.
...
– Por que você me beijou se sabe que ela é apaixonada por mim?
– No caso — Ela sorriu sedutoramente. — dos olhos não serem o suficiente pra chamar sua atenção.
Continuaram fitando-se em meio a alguns segundos de silêncio.
– Posso contar com você pra ir atrás dela?
– Isso envolve derrubar todo o Império?
– Não necessariamente, mas provavelmente.
...
– Tô dentro. Mas antes... o que é isso? — Ele apontou para a marca entre seus seios.
– Não eram só quatro perguntas?
– Sim, mas...
– Tudo em seu tempo, Zeon. Tudo em seu tempo.
Ela o puxou pelo pescoço e o beijou novamente.
– Pra selar o trato.
– Você não faz sentido...
– Perfeito.
Ela sorriu e se foi mais uma vez. Agora, porém, com a certeza de que não seria seguida.
Zeon perambulou na direção oposta, seus olhos fixos no pano rasgado em sua mão. Não podia parar de pensar em sua quase irmã, sua melhor amiga, a pessoa pela qual ele mataria meio mundo. Ela estava viva. Mesmo depois de ter desistido, ainda havia alguma esperança de encontrá-la. Ele atingiu algo metálico. A espada, jogada no chão como um corpo sem vida, o esperava lealmente. Guardou o tecido em um bolso, pegou-a e seguiu seu caminho de volta à clareira sem mais interrupções.
Senj e Nuntia estavam dormindo, abraçados um ao outro. Uma serenidade estampava seus rostos cansados depois de todo o caos daqueles dois dias. Zeon sorriu maliciosamente.
– Cachorrão.
Ele sentou em uma pedra, cortou um pedaço de seu uniforme e refez o curativo em sua mão esquerda. Estava imunda, mas já não sangrava mais. Imaginou que o mesmo valia para Nuntia. Ele permaneceu acordado naquele lugar por todas as horas restantes; Anima podia não ser um problema, mas animais selvagens talvez o fossem. Sobreviver, entretanto, não era o pensamento que assolava sua mente. Essa honra ia para a beleza e a profundidade daqueles nostálgicos olhos azuis.
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