Notas iniciais
Eu tento ao máximo usar meu poder descritivo, para tornar o texto um pouco mais complexo, mas não sei se está bom.

–O que você está fazendo?! –Misandra, com os olhos avermelhados de tanto chorar, o enchia de perguntas, enquanto Andri desesperadamente jogava peças de roupas em uma mala. –Olhe para mim, o que significa isso?!

Andri ignorou os questionamentos de sua mãe, e continuou a jogar peças de roupa em sua mala o mais rápido que conseguia. Ele a ignorou até o momento que Misandra o segurou pelo braço, o segurando e forçando a olhar nos seus olhos.

–Eu tenho que me apressar! Eu vi mãe, eu vi!! Enquanto eu sentia aquela dor de cabeça esquisita, eu consegui ver pessoas no mundo inteiro sentindo a mesma dor! Com certeza elas também me viram, e, se isso de fato aconteceu, eles virão aqui me matar!

–Por que eles viriam?! –Perguntou Misandra, com sua voz enrouquecida de tanto gritar. –Aquilo foi coincidência! Aquele homem da televisão é louco!

–Mãe! Aquele garoto... Que saiu do ônibus em chamas, sem nenhum ferimento... Sou eu mãe! Ele não mentiu em nada, se eu ficar aqui, logo virão aqui, para me matar. E de maneira alguma colocaria você e Diana em perigo! –Andri não conseguiu conter as lágrimas, que agora também manchavam seu rosto.

–Pense em nós! Seu pai já se foi, e agora você?! Você lembra o quanto a morte de Otávio abalou ela?! O que você acha que será dela, agora você indo embora também!

–Ela terá uma vida! Ele viverá, terá filhos, e netos, construirá uma família, e será feliz! –Exclamou Andri, soltando seu braço da fraca mão de Misandra. –Se eu ficar, todos nós morremos. Você e Diana, vocês ainda podem ser felizes. Não serei egoísta à ponto de arriscar suas vidas em troca de uma curta falsa felicidade!

–E o que você pensa em fazer, hein?! Sair por aí matando pessoas?! Você é melhor do que isso Andri, eu sei disso! Pense, será isso que sua irmã irá querer ver nas notícias?! Que seu irmão se tornou um assassino?! Vamos enfrentar isso como uma família, filho, assim como sempre fizemos!

Andri ajoelhou-se, com seus olhos ainda soltando lágrimas direcionado ao chão. –O que eu faço mãe? Por que eu?

Misandra ajoelhou-se a sua frente. Com suas mãos, ergueu a cabeça de Andri, fazendo-o olhar em seus olhos, e o abraçou, dizendo:

–Não se preocupe filho, não permitirei que nada te aconteça.

Já havia escurecido, quando o clima na casa havia acalmado. Depois daquilo, eles não trocaram nenhuma palavra, Misandra foi para a cozinha, preparar o jantar, enquanto Andri dormia em sua cama. O jantar foi terrivelmente triste. Na mesa, se encontrava Andri, Diana e Misandra, ninguém ousava dizer uma única palavra, diferente de todos os anteriores, que passavam a refeição toda rindo e conversando.

–Quem morreu dessa vez, pessoal?! –Disse Diana, levantando-se e apoiando-se as mão na mesa. –É sério, esse é o jantar mais entediante que já tive na vida. Desembuchem, o que aconteceu?

–Não aconteceu nada, Diana. –Misandra a respondeu, enquanto cortava um pedaço de carne. –Dormi mal, e hoje no trabalho foi um tédio.

Diana de cara percebeu que era mentira, mas estava inconformada suficiente com o fato de sua mãe mentir para ela, que reduziu-se apenas a sair da mesa, e ir para o quarto, acompanhado de uma frase aborrecida e amarga:

–Estou sem fome. Podem continuar com o seu jantar.

Todos já haviam dormido. Todos, exceto Andri, que perdera o sono por dormir o resto da tarde inteira. Encostado na cama, se encontrava ajoelhado no chão, com o rosto entre as pernas, e os braços lançando sua cabeça nas pernas. Eu tenho que fazer isso, eu sei que tenho, então, por que é tão difícil?!. Esse era a única coisa que se passava na cabeça dele nesse momento. Enquanto parte de si queria continuar ali, e viver sua vida normalmente, e, apesar de todos os acontecimentos estranhos, tratar o aviso do homem mascado como uma mentira de mal gosto, uma outra parte queria fugir dali, aproveitar a calada da noite para correr o máximo possível, o suficiente para deixar sua família segura.

Após horas se passarem, ele continuava na mesma posição, pensando nas mesmas coisas. Ás vezes ele olhava para sua mala, parcialmente preenchida de roupas. Mas essa visão o encorajava a sair, e ele não gostava de tal pensamento. Foi quando por fim adormeceu.

Foi um cochilo rápido, acordou cerca de trinta minutos após ter dormido, os pesadelos não o deixavam dormir em paz, ficar acordado era mais tranquilizante. Foi quando deu por si com um barulho estrondo na porta da entrada. Alto o suficiente para que ele ouvisse, e baixo para que não acordasse sua mãe e sua irmã.

Será que... Mas já vieram?! O que eu faço?! Tais pensamentos agora perturbavam sua consciência, foi quando arrumou coragem para sair de seu quarto, e investigar sua casa, em busca do causador do barulho.

Com as luzes apagadas, partiu em direção à sala. Eu conheço a casa, meu inimigo não, as luzes apagadas serão uma vantagem para mim, pensavam, enquanto ia silenciosamente passo a passo, com um bastão em sua mão. Por fim se encontrou no final do corredor, à sua frente, estava a sala. À sua esquerda ficava a televisão, encostada na parede, com um sofá de três lugares um pouco mais a frente. Do lado direito, ficava a mesa de jantar, no centro da parte esquerda da sala, com dois armários cobrindo as paredes.

Em seu interior, não conseguia achar forças para dar o próximo passo, e entrar na sala. O fato de ele ir para um lado, e o inimigo estiver no outro, o desencorajava. Preferia ficar ali, aonde era seguro. Segundos se passaram, até que se deu por fim já na cozinha, que ficava para lá da sala. Não tem ninguém, será que eu ouvi coisas? Aposto que foi aquele gato chato do vizinho. Colocou o bastão que segurava na mesa da cozinha, e ainda com a luz apagada, pegou uma garrafa d’água na geladeira, e fartou sua sede.

Água fria escorria pelo queixo, quando Andri ouviu o grito de sua mãe. Jogando a garrafa ao chão, correu em direção ao quarto de Misandra, esquecendo-se de seu bastão, e deixando a água gelada da garrafa esvair-se cozinha afora.

Quando por fim chegou no quarto, se deparou com sua mãe assustada, atrás de sua cama, utilizando o cabeçalho de sua cama como um escudo, e um homem estranho, de costa à ele, em posição de ataque.

O homem trajava uma calça cinza e esfarrapada, tinha seu cabelo longo, num tom preto e marrom, que se espalhava pela sua cabeça, de forma desorganizada, como se nunca tivesse sido usado nele um pente, ou, pelo cheio, um shampoo. Sua camisa, de cor marrom, era cavada e rasgada, tão suja quanto os braços e os pés descalços que estavam amostra.

Andri gritando, chutou-o e o fez cair em frente à cama, batendo a cabeça no colchão, enquanto o resto de seu corpo se estendia pelo carpete cinza-branco. Rapidamente o homem pôs-se em pé, agora dividindo seus olhares com Misandra e Andri.

–Criança imbecil, poderia ter sobrevivido. Vim atrás apenas da Neo Daemon, mas parece que de sobra matarei um garoto tolo. –Disse o homem, enquanto mostrava seus poucos dentes sujos e com partes negras, num rosnado similar à um cachorro.

Então eu estava certo! Foi a única coisa que Andri pensou. Mas ele acha que minha mãe é a Neo Daemon, o que significa isso? Mesmo querendo resposta, se limitou em continuar olhando para o homem, esperando prever sua próxima ação.

Foi quando, antes que Andri conseguisse piscar, o homem se joga em sua direção. Com o braço direito em volta de seu pescoço, o homem o imobiliza, apontando com o braço esquerdo, uma faca em direção a cabeça de Andri.

–Não tente nada mulher, ou seu filhinho aqui morre. –Disse o homem, agora com um sorriso arrogante, ao invés de um rosnado no rosto. Apontando para uma segunda faca, que foi jogada da mão direita do homem quando Misandra se assustou e o empurrou, disse:

–Se você pegar aquela faca, e se matar, seu querido filho vive. Se você fizer qualquer outra coisa que não seja isso, seu querido filho morre. E então minha querida senhora, o que lhe vale mais, sua vida, ou seu filho?

É a mim que você tem que matar, eu sou o Neo Daemon! Andri sabia que ele era o verdadeiro alvo, que era ele quem teria de morrer, mas seu medo não o permitia dizer tais palavras.

Misandra, lentamente, com os olhos perfurando o indigente, se dirige em direção a faca.

–Eu faço o que você quiser, mas largue o meu filho. –Disse Misandra, tomando o máximo de cuidado, para não enfurecer o homem.

–Uma coisa, depois outra. Primeiro você morre, depois ele morr-vive.

Misandra segurava as facas com as duas mãos. Enquanto chorava, pedia ao homem para soltar Andri. Foi quando um grito veio da porta do quarto:

–O que é isso?! –Diana, em um grito amedrontado, desvia a atenção do homem, de Misandra para ela.

Misandra, por sua vez, vendo isso como uma oportunidade, corre em direção ao homem, a fim de libertar o filho de seus braços. Porém, o homem logo redobra sua atenção para Misandra, que já se encontra em cima dele.

Sangue manchou o carpete cinza-branco de vermelho. O local que antes se encontrava eufórico, agora era dominado por um silêncio absoluto. Os únicos sons que se ouvia, era do gemido de Misandra, ao colocar a mão em seu braço. Ajoelhada, sua mão e seu braço é consumido pelo vermelho de sangue.

–Mãe! –Gritou Andri, desesperado. Empurrou com os cotovelos o indigente para trás, e ajoelhou-se de frente para sua mãe. Colocando sua mão no ombro de sua mãe, ele volta a olhar para o homem, que agora se encontrava de costas à Diana, e com a faca ensanguentada na mão.

–O que você fez?! –Gritou Andri com o homem, mesmo sabendo da resposta.

–Isso foi culpa dela moleque! –Gritou o homem, ainda mais alto que Andri.

O indigente rapidamente se virou, e correu para direção de Diana, afim de conseguir um novo refém, porém, foi impedido por Andri, que segurou o homem pela gola da camiseta esfarrapada dele e o jogou em direção oposta a Diana e Misandra, o deixando num canto afastado de ambas.

–Eu não vou te perdoar! –exclamou Andri, enquanto amparava sua irmã, que estava em estado de choque. –Chame uma ambulância, eu cuido desse homem.

Diana, ainda em estado de choque, correu para a cozinha em direção ao telefone, sem dizer uma única palavra, apenas com lágrimas escorrendo de seus olhos e salgando a sua boca.

–Você só está dificultando as coisas, moleque. –Disse o homem, com um sorriso cômico no rosto, e com um olhar de intimidação. De forma corcunda, ele estava com seu lado esquerdo à frente, com a faca em sua mão, enquanto sua mão direita estava com o punho fechado, mais atrás, como se ele estivesse preparado para socar o que viesse.

Andri correu a sua direção. Em resposta, o homem tentou esfaqueá-lo, em um movimento na vertical, de baixo para cima, porém foi impedido, quando Andri segurou seu punho com a mão direita, e o socou o rosto com a esquerda. Andri, ainda sem soltar o punho do homem, ele com a mesma mão que usou para socar, segurou a cabeça do homem, e a aproximou de seu joelho, que acertou em cheio a boca do homem. A faca havia caído no chão, e o homem tinha se soltado de Andri, e afastado dois passos para trás.

O homem limpou seu rosto, sem tirar os olhos de Andri, e depois, mostrou a face para ele, ela que por sua vez não se encontrava com nenhum ferimento ou sangramento se quer.

Não é possível, meu soco e minha joelhada não fez nada com ele?! Pensava Andri, não entendendo a situação.

–Você esperou ver meu nariz sangrando ou algo do tipo? –Disse o homem. Antes que Andri pudesse responder, ele continuou. –Se você esperou, você é um tolo, onde já se viu um bicho de pelúcia sangrar? –O homem que antes falava sério, agora ria do rosto de dúvida de Andri.

Os Neo Daemon ganham superpoderes. Pensou ele, então se tornar um bicho de pelúcia, é o poder desse homem?! Mas se isso é verdade, qual seria o meu?! Andri se limitou a ignorar tais pensamentos, e focar apenas no homem que se encontra a sua frente.

Novamente, Andri correu em direção ao homem, mas dessa vez foi diferente, o homem também correndo em direção a ele, o segurou pela cintura e o jogou para o chão, ambos rolaram de um lado para o outro, até por fim o homem ficar por cima, enforcando Andri, que tentava futilmente tirar a mão do homem do seu pescoço, em busca de ar, enquanto sua outra mão se encontrava empurrando o peito do homem.

–Você, diabinho, irá morrer. E depois, sua querida mamãe, que pena que agora ela desmaiou, e não poderá ver você morrendo, mas não se preocupe! Contarei todos os detalhes a ela antes de matar. Ah, e aquela menininha linda, ela é boa demais para morrer tão cedo, brincarei um pouco com ela, antes de matá-la, se é que me entende. –Tais palavras enfureceram Andri, que agora rosnava, de forma muito mais amedrontadora do que o modo que o homem rosnou anteriormente. De pouco em pouco, o homem foi soltando o pescoço de Andri, e a gritar de dor.

–Quente! O que é isso?! –Praguejava o homem enquanto a pele dele onde Andri tocava era queimada. –Me solte seu insolente, isso queima!

Quando por fim o homem soltou o pescoço de Andri, o seu braço já havia sido parcialmente queimado. Utilizando a mão que antes empurrava o peito do homem, Andri agora segurava o outro braço do homem, enquanto respirava o máximo possível. O homem já estava gritando, se debatendo em cima de Andri numa tentativa que ele se soltasse, mas não tinha resposta. Ele não soltava o homem por nada, foi quando ele terminou de sugar o máximo de ar que seus pulmões conseguiam conter dentro de si.

De repente, ouve-se uma forte explosão. Assustada, Diana corre novamente em direção ao quarto, quando se depara com o teto queimado, o homem, encostado na parede, afastado o máximo possível de Andri, se encontrava desesperado, gritando, com a parte esquerda de seu peito e seu braço esquerdo mutilado, com espumas queimadas no lugar onde deveria estar ossos amostras e sangues escorrendo.

No carpete, um forte fogo separava o homem de Andri. Ele, que por sua vez, se encontrava ajoelhado, admirando suas mãos, ou melhor, seu poder.