Nelumbo nucifera
4 Voluntas pro facto reputatur
Notas iniciais
Voluntas pro facto reputatur
Capítulo IV
Impressionante era notar como sempre que o moreno entrava em algum aposento, ele logo se tornava deserto. Os criados saíam sempre de perto. Na biblioteca, que era bem maior do que se poderia esperar, Ikki entrou ainda um pouco alterado, o que era evidente por sua respiração acelerada e pelo andar agitado. Soltou o pulso do loiro que, embora houvesse trazido em um agarre firme, esforçou-se por não machucar. Não precisou apertar, Shaka não tentaria nada por agora, ele imaginava e foi justamente o que aconteceu, o loiro o seguiu sem reclamar daquela vez. Então fechou a porta da biblioteca e foi até sua mesa. De lá, abriu uma gaveta e retirou uma pomada. Foi até o advogado, que continuava parado onde estava e estendeu a mão:
— Deixa eu ver. – Como se o loiro não houvesse entendido ou ouvido a pergunta, Ikki repetiu, enfático: – Deixe-me ver o seu pulso. Quero ver se está muito machucado. – falou, como se fosse a coisa mais normal do mundo, como se não percebesse o imenso contraste entre suas ações.
Shaka se encolheu por instinto com aquele pedido, olhando para o outro em total confusão, como um animal ferido e acuado. Segurou o próprio pulso o massageando e dando um passo para trás, querendo ficar longe do outro.
— Não quero que chegue perto de mim – as palavras foram um murmúrio baixo. – Poderia fazer pelo menos isso? Eu posso tentar matá-lo novamente e você vai acabar quebrando meu outro pulso – a risada que soltou foi uma tentativa de sarcasmo, mas o que demonstrou foi nervosismo, embora ele tentasse demonstrar o contrário. Ainda estava agitado, seu coração disparado no peito, enquanto Ikki parecia completamente senhor de si. Odiou sentir-se dessa maneira.
Ikki revirou os olhos e deu dois passos à frente, acabando com a distância imposta pelo loiro.
— Céus, você consegue ser impertinente o tempo inteiro, é? – pegou o braço ferido, sem tocar na parte mais machucada e analisou – É. Vamos cuidar disso logo. – aproveitando que já segurava o loiro assim, puxou para o sofá e sentou-se, obrigando que Shaka se sentasse também, à sua frente. Colocou uma quantidade generosa da pomada sobre o pulso dele e depois começou a massagear o creme na região ferida. Suas mãos pareciam bem treinadas e faziam aquilo com conhecimento. Seus olhos estavam fixos na tarefa, o semblante era sério e não parecia mais ser o mesmo homem do salão de jantar.
O loiro mordeu os lábios para não gemer. Aquilo estava doendo, por mais que as mãos do moreno o tocassem de maneira suave e experiente. Shaka observou as mãos dele que, apesar de macias, possuíam pequenas calosidades, suaves, talvez por já não virem trabalho pesado há muitos anos, mas não eram lisas como as suas que só conheciam canetas e lápis. Percebeu isso como bom observador que era.
— O que você quer dizer com pureza? – indagou recordando-se do que o moreno havia dito de si mais cedo, precisava saber mais sobre aquela história. – Sou um advogado e não um virgem celibatário. Você sabe o que dizem dos advogados– riu debochado.
Ikki abriu um sorriso de canto com o comentário. Mas não era um sorriso sarcástico, foi até um meio-sorriso gentil. Não levantou os olhos e permaneceu na sua tarefa.
— Pureza não é sinônimo de virgindade. E eu sei muito bem que não é virgem. – sentiu certa tensão vinda do loiro e quase como se ele quisesse puxar a mão de volta. Segurou-o com alguma firmeza e continuou o que fazia – Ok, relaxe um pouco agora, está bem? Me deixe terminar isso e eu prometo que vai ficar tudo bem. – sentiu que Shaka pareceu concordar e ficaram em silêncio por alguns segundos. Então o moreno começou a falar – Quando eu digo pureza, me refiro a certos sentimentos e modo de ver o mundo. Você tem uma forma de enxergar a vida que é bem diferente da minha. E isso eu não posso e nem vou suportar. – finalizou o que dizia e fazia. Soltou o pulso do loiro e voltou à sua mesa. Sentou-se ali, guardou a pomada e, como se fosse a situação mais natural do mundo, pegou um livro que estava sobre a mesa e o abriu, começando a ler.
Shaka calou-se. Precisava reequilibrar-se. Estava muito agitado, internamente agitado, embora por fora parecesse bastante tranquilo, livre do acesso que ocorreu na sala de jantar. Ficou por minutos no mesmo lugar, pensando nas atitudes daquele homem esquisito. “O que há a pensar, ele é louco.” Refletiu angustiado. Precisava achar uma forma de fugir dali e não era tentando matar o tal Ikki que conseguiria. Precisava cuidar para preservar a própria vida, mas não conseguia, não era um covarde e nunca tentou se preservar de nada na vida, ao contrário, sempre fez questão de estar na vanguarda de qualquer causa, sempre fora destemido, mas astuto. Aprendeu desde cedo a correr riscos calculados, muito bem calculados. Sempre foi corajoso, mas previdente o suficiente para não se por em perigos desnecessários. Todavia, aquele homem o irritava de uma forma que era impossível manter esse equilíbrio, porque se havia algo que Shaka nunca admitiu na vida fora receber ordens, nem mesmo de seu pai com toda sua autoridade. Por isso, assim que deixou a faculdade, abriu seu próprio escritório de advocacia e aos poucos foi ganhando o reconhecimento que seu talento merecia. Nunca havia perdido um caso, ainda. Dizia ainda porque era muito jovem e consciente de que esse dia chegaria, mas isso não lhe tirava o sono, era inteligente o suficiente para saber que derrotas também faziam parte da vida e ensinam muitas vezes mais do que as constantes vitórias.
Mirou o próprio pulso que começava a ficar roxo e suspirou.
— Se for prender todos que forem diferentes de você nessa mansão, desculpe, mas ela vai ficar pequena. – Disse com enfado. – Eu posso ver o noticiário? No quarto lá de cima não tem TV. Acho que eu não vou conseguir pedir ajuda pela TV – falou indiferente. Não tinha costume de ver televisão, mas queria ver se havia alguma coisa sobre seu sequestro na imprensa.
— Eu não pretendo prender aqui todos que forem diferentes de mim. Eu só quero ter aqui alguns casos específicos. – Ikki, que estava com o olhar preso ao seu livro, finalmente ergueu os olhos para encarar o loiro, que continuava parado no mesmo lugar – Você não vai sossegar enquanto não conseguir algumas respostas, não é? Bom, tudo bem. Aos poucos, você vai entendendo... Mas, já que faz tanta questão, posso lhe oferecer as seguintes palavras: O que eu faço não é tão óbvio quanto o que está pensando. E eu não saio "sequestrando", como você gosta de falar, qualquer um. Não; são casos específicos, muito especiais. Pontuais. Isso é muito maior do que você imagina. – Ikki voltou a encarar o livro sobre a mesa, tranquilamente – Mas pode ficar orgulhoso. Você é uma das peças centrais disso. Muitos dos que eu trouxe para cá, antes de você, vieram como forma de eu conseguir traçar um caminho para chegar até você. Em outras palavras, você é muito importante para mim e eu vou cuidar bem de você. – o moreno falava com a voz tranquila, como se tudo aquilo fosse muito normal – Mas isso não quer dizer que vou atender a todos os seus pedidos. Há uma sala de TV aqui, muito bem equipada. É praticamente uma sala de cinema particular. Todos os filmes que quiser ver estão lá. Mas você não terá acesso a emissoras ou a programas que estejam passando. Você não vai ter qualquer comunicação com o mundo lá fora. Isso quer dizer nenhum contato. Você não vai falar com qualquer pessoa, a não ser Khan e eu; e também não ouvirá palavras de outros que não sejam meu mordomo e eu. – nesse instante, Ikki levantou novamente o rosto, para encarar firmemente o loiro – E isso não irá mudar. Ficou bem claro?
— Ficou. – Respondeu lacônico e calou-se totalmente. Não perderia tempo discutindo com aquele louco. Precisava ser paciente e paciência sempre foi uma das suas características básicas, mas confessava que estava curioso para saber sobre aquela história de “outros que traçaram o caminho até si”, todavia, não era hora de perguntar nada. Precisava testar, experimentar algumas ações e ver qual abordagem daria certo. No momento, seria a abordagem da indiferença e obediência, até onde lhe fosse possível.
Recostou-se mais confortavelmente no sofá e fechou os olhos. Pensava melhor de olhos fechados e a ausência de claridade lhe levava paz e concentração.
Ao perceber que Shaka se sentava, Ikki o observou atentamente. Logo entendeu que ele iria meditar um pouco e balançou a cabeça, ao compreender isso. Voltou à sua leitura, mas já se sentia cansado. Entretanto, não estava interessado em dormir ainda. Queria se manter acordado por mais algum tempo. Sentiu raiva do próprio corpo, que às vezes lhe parecia fraco demais. Havia treinado muito para que o poder da mente pudesse se sobrepor às exigências físicas. Foram muitas tentativas de educar seu corpo assim, mas o máximo que conseguiu foi aprender a controlar bem a dor que sentia. Realmente, seu limite para dor era absurdo; muitas vezes, parecia até mesmo que ele gostava da dor, buscava senti-la de um modo mais intenso, quase como uma autopunição. Obviamente, para quem via de fora, aquilo não fazia sentido. Ou, quando muito, eram coisas de um louco. Taxavam-no de louco pelas costas, Ikki sabia. De todo modo, seu corpo aprendeu a suportar a dor, a fome, aprendeu a passar por duras provações. Por isso mesmo, o moreno tinha o péssimo hábito de esgotar todas as suas energias. E, quando se esvaziava assim, ficava revoltado e muito irritado. Tentou aprender a meditar nesse período, porque lhe haviam dito que, se conseguisse se concentrar, se encontrasse um determinado ponto de equilíbrio em si, talvez conseguisse recuperar um pouco dessas energias longamente perdidas. E é aí que Ikki se detestou. Não era capaz, simplesmente não conseguia fazer o que Shaka parecia conseguir com uma facilidade absurda.
Ikki ficou olhando um pouco, em silêncio, para o loiro. Parecia querer enxergar algo ali. Mas, depois de alguns minutos assim, desistiu. Resolveu que teria de apelar para os métodos convencionais.
— Café. Preciso de café. – murmurou para si mesmo. Levantou-se sem fazer muito barulho, como se não quisesse incomodar o momento do loiro. E, sem dizer mais qualquer palavra, deixou o aposento para ir à cozinha em busca do líquido revigorante.
Assim que percebeu a ausência do outro, Shaka abriu os olhos. Ao contrário do que pensava Ikki, ele não estava meditando, ao contrário, estava analisando toda a situação, tentando entender seu sequestrador através das poucas pistas que possuía a respeito dele. Ele ergueu-se do sofá e foi verificar o que o outro estava lendo e que parecia interessá-lo tanto. Observou a mesa de leitura e cada objeto arrumado ali com cuidado e então experimentou as gavetas, mas todas pareciam trancadas. Mordeu os lábios frustrado e seu olhar caiu novamente na capa do livro. Era uma edição de luxo de Crime e Castigo. Shaka já havia lido aquele livro simplesmente cinco vezes. Era uma literatura meio obrigatória para qualquer criminalista. Dostoievsky era um dos seus autores favoritos e Crime e Castigo ao lado de Notas do subsolo eram seus escritos que mais o impressionaram.
Virou as páginas com cuidado observando onde o moreno havia parado de ler. Pensou por algum tempo que aquela também não deveria ser a primeira leitura dele daquele livro, era uma intuição sua, intuição reforçada pelo conhecimento do pensamento criminoso, estudado a funda em sua profissão.
Soltou o livro e voltou ao sofá. Sabia que deveria estar sendo observado de alguma forma. Nunca estaria sozinho de fato naquele lugar.
Quando Ikki regressou à biblioteca, trazendo consigo uma caneca cheia de café, olhou para a figura do loiro sobre o sofá e assumiu um ar pensativo. Suspirou profundamente e disse, com a voz um pouco ríspida:
— Ei. Se está com tanto sono, então vamos para o seu quarto. – ele falou, em pé, com uma mão dentro do bolso do blazer que vestia e a outra segurando a caneca com o café fumegante. Foi até sua mesa, pegou seu livro e voltou a ficar de frente para o sofá em que estava o outro. – Vamos?
— Não estou com sono. – Respondeu somente, cruzando os braços e empinou o nariz delicado. – Estar de olhos fechados não significa que eu esteja dormindo.
Ikki riu – Está bem, me desculpe! Mas olhar para você está me dando sono. Então vamos, levante-se daí. Vamos fazer alguma coisa para eu acordar agora e depois, quando você estiver com sono, a gente vai para o seu quarto.
Shaka se ergueu de imediato e isso fez que ele e Ikki ficassem muito próximos, os corpos quase se tocando nesse momento. Shaka tentou dar um passo para trás, mas seu calcanhar acabou batendo no sofá o que chamou sua atenção para o fato de não haver para onde ir.
— A gente? – ele perguntou olhando dentro dos olhos escuros e intrigantes do moreno. – Eu não entendo o que você poderia querer no meu quarto, lá não tem nada para se fazer. Vai velar meu sono agora? Vai querer garantias de que serei obediente até em sonhos? – um sorriso que era um pequeno esgar de lábios apareceu em seu rosto e ele era apenas uma tentativa de não demonstrar a preocupação íntima e estranha que aquelas palavras lhe causaram. Medo? Não, não. Instinto de autopreservação, tentava se convencer . A voz suave e fria fazia parte do quadro de segurança inabalável que ele precisava pintar para aquele homem. Ikki queria mexer com seu psicológico, arrancar-lhe a calma e a altivez, não podia deixá-lo conseguir isso.
— É. – Ikki olhou rapidamente em seu relógio de pulso, que ficava sob a manga do blazer. Parecia fazer questão de deixá-lo ali, fora do alcance da vista do loiro – Toda noite, fora algumas raras exceções, eu serei a última pessoa que você verá antes de dormir. Simples assim. Vá se acostumando. Agora vamos. Eu preciso caminhar um pouco para acordar. Vou aproveitar e apresentar minha casa para você. Segundo Khan me disse, você estava muito arredio quando ele quis lhe mostrar os cômodos daqui. Vamos? – perguntou Ikki, pela terceira vez, já demonstrando sua impaciência.
Shaka suprimiu um suspiro e resolveu o obedecer porque era importante conhecer aquele lugar. Precisava saber onde estava. Foi andando com o moreno pelos corredores, tentando prestar atenção em tudo e, mais que isso, localizar as câmeras, pelo menos as visíveis.
— Imagino que tenha roubado, matado ou traficado muito para conseguir um patrimônio como esse – disse simplesmente, sem agressividade ou qualquer impressão favorável ou não sobre o local. Apenas examinava as obras de artes e os móveis de bom gosto enquanto andava, acompanhando o “anfitrião”.
— Eu trabalhei arduamente por tudo o que você está vendo aqui. – respondeu Ikki, em um tom igualmente neutro – Existem outras formas de se ganhar a vida, senhor Phalke. Bom, vamos ao que interessa. – depois de caminharem por um corredor, chegaram a uma parte ampla do casarão. Ikki fez correr a enorme porta de madeira e revelou um ambiente bastante largo e que logo se poderia notar como sendo a sala de TV. Equipamentos de última geração, sofás e poltronas confortáveis, prateleiras lotadas de DVDs , televisões diversas espalhas pelo local e, ao centro, um telão. – Quando quiser ver algum filme, é só vir aqui. Há um excelente sistema de som também, caso queira ouvir música. Agora que já sabe onde fica, não precisará de Khan para guiá-lo. Imagino que meu mordomo já lhe tenha dito que você é livre para ir e vir dentro desta mansão. – Ikki falou e tomou mais um gole do seu café.
— Livre – Shaka riu sarcástico. – Você é ótimo com piadas – completou, enquanto observava o local. Lembrou-se da última vez que estivera com Kanon no cinema. Como ele deveria estar agora? Com certeza estava desesperado, assim como sua família.
Seus lábios tremeram de aflição sem que ele pudesse evitar ao pensar nisso. A noite do sequestro estava tão viva em suas lembranças? Quanto tempo teria aquilo? cinco, seis dias? Estava completamente perdido no tempo.
Ele e Kanon haviam discutido pela escolha do filme, Shaka como sempre queria ver um drama europeu e Kanon um filme de ação americano. Eles sempre discutiam por essas bobagens, mas eram tão boas essas discussões. Baixou o olhar para que o outro não pudesse ler a tristeza em seus olhos. Agora sim estava preocupado. Até o momento não havia pensando em sua família e nem no namorado de verdade, mas olhando aquele lugar...
— Não quero ver filme algum, estou com sono. – Mentiu e sua voz tentou ser ainda mais fria, porém não tinha certeza de que havia conseguido seu intento.
— Agora ficou com sono, de repente? – Ikki começou a falar, em um tom bastante provocativo. Entretanto, ao não encontrar os olhos do loiro para encará-lo de volta, interrompeu o que diria e silenciou por alguns instantes , depois simplesmente acedeu – Muito bem. Se está com sono, vamos para o seu quarto. – sem aguardar por uma resposta, rumou para o aposento destinado a Shaka. O loiro o seguiu em silêncio e, quando chegaram Ikki abriu a porta e deixou que o outro entrasse primeiro. Em seguida, adentrou o cômodo também. Colocou o livro que vinha carregando consigo e a caneca de café sobre uma cômoda, que ficava ao lado de uma poltrona. – Pode se despir e deite-se na cama. – falou, com seu tom autoritário.
Shaka abriu mais os olhos e depois franziu a testa a ponto da pintinha que tinha desaparecer entre os cabelos da franja. Mas estava cansado demais para discutir. Parecia que as lembranças tinham levado todas as suas forças e também, de uma forma estranha, queria saber até onde Ikki iria naquilo, porque ainda não estava muito claro o que ele queria de si. Que o obedecesse? Sim, mas não era possível que fosse apenas isso. Ele tramava algo, tramava algo para tirar algo mais de si que não fosse aquela obediência mecânica e forçada, só precisava saber o quê.
Começou a desabotoar a camisa pacientemente, olhando em desafio para o outro, sem tirar os olhos dele enquanto fazia aquilo.
— Sabe tudo de mim? – indagou com o olhar sério sobre o moreno enquanto soltava os botões e exibia parcialmente o peito pálido e magro, mas que possuía certa definição pelos constantes exercícios de yoga e boxe tailandês que praticava. Era magro, mas seu corpo era bem proporcionado, trabalhado pelos exercícios físicos, embora delgado.
— Sei. – Ikki se sentou na poltrona, cruzou as pernas e apoiou o queixo na mão cujo braço se apoiava no braço do assento. Observava os gesto de loiro de forma despudorada – Como eu disse, devo saber mais do que você mesmo...
— Ótimo – Shaka sorriu terminando de se livrar da camisa e começando a desafivelar a calça sem nenhum pudor em se despir na frente do outro. Ele não era tímido, nunca foi, e nem tinha complexo algum com seu corpo para ter receio, ao contrário, sabia que era bonito, muito bonito. Afinal o que o outro poderia fazer? Ficar com inveja?
Acabou rindo com os próprios pensamentos enquanto se livrava dos sapatos com os pés e se sentava na cama para arrancar as meias.
— Não acha que seus capangas se esqueceram de trazer algo? – falou casualmente se erguendo novamente, após se livrar das meias e puxando o zíper da calça a removendo, ficando apenas com a cueca boxer preta que vestia. – Com certeza deixaram meus óculos caírem quando me atiraram dentro do carro. Eu tenho um pequeno grau de miopia, ou não sabe disso? – Sorriu provocador, percebendo o olhar atento do outro sobre si. Depois virou-se e foi procurar um pijama no closet.
— Já experimentou olhar na primeira gaveta do criado-mudo ao lado direito da cama? Não é assim que você guarda na sua casa? – Ikki respondeu sem parecer dar muita atenção a essas palavras. Sua atenção estava inteiramente voltada para o corpo de Shaka, que Ikki não fazia a menor questão de ocultar o quanto devorava com os olhos – Ei. Eu disse para se despir e deitar. – interrompeu a trajetória do loiro com a voz firme – Não quero você vestido agora.
Shaka parou a procura e respirou fundo batendo o pé no chão duas vezes para controlar a vontade de ir até onde o outro estava e socar a cara dele. Mas ao invés disso, virou-se com seu sorriso mais debochado e abriu os braços como quem se exibe, depois levando uma das mãos ao elástico da cueca e o esticando de leve.
— Quer que eu tire também? – indagou provocador. – Talvez queira comparar os tamanhos. Sabe que eu começo a achar que sua loucur-... Ah, desculpe, não estou autorizado a chamá-lo de... louco! – provocou, os olhos cintilando, não conseguiu se conter naquele momento. – Hum... então seu complexo é esse?... Não se preocupe, muitos homens passam por isso, mas ajuda psicológica e até cirúrgica resolve, não deve se envergonhar. – E riu debochado.Estava fervendo de raiva e uma das formas de conter isso dentro de si era debochar, sempre foi assim. Odiava a sensação de impotência, odiava estar sem o controle do seu mundo, odiava receber ordens! Ele iria matar aquele homem e sem nenhuma piedade.
Ikki abriu um largo sorriso, passou a mão pelos cabelos e parou na nuca, massageando-a com a mão.
— Olha, se você quiser tirar, eu não vou criar qualquer objeção. Mas não precisa. Não agora. – ele então retirou o blazer que vestia e estendeu os braços, alongando-os, mas ainda sentado – Hoje eu não vou fazer nada com você. – olhou com um sorriso cínico para Shaka – E, se eu fosse fazer, garanto que não iria ficar "comparando tamanhos". Primeiro, porque o que você tem aí já não vai ser surpresa para mim. E, segundo, porque não haveria o que comparar. – o sorriso tornou-se mais hostil – Quer ver? – em um salto, quase felino, Ikki levantou-se da poltrona e jogou o loiro na cama, que caiu deitado. Colocou-se sobre ele, com uma perna de cada lado do quadril, ajoelhado por cima dele – Não me provoque, senhor Phalke. Não me chame de louco; porque, se continuar insistindo assim...– deslizou uma das mãos pela pele nua, passando pelo braço e parte do peito, de forma suave e provocante – ... eu vou acabar provando que você está certo. – aproximou o rosto do pescoço do loiro, tão próximo que seu hálito quente pôde ser sentido contra a pele branca de Shaka. Seus lábios chegaram a roçar brandamente a pele sensível do pescoço, enquanto a mão ensaiou uma carícia no corpo do outro, carícia que foi suavemente descendo, mas que parou próximo ao limite delimitado pela cueca. Foi tudo muito rápido na verdade; e tão rápido quanto avançou, Ikki se recolheu para fora da cama – Mas, como eu disse, não vou fazer nada hoje. Aliás, para que durma tranquilo, fique sabendo que eu não vou fazer nada , a não ser que você me permita. – ele dizia, enquanto pegava seu blazer, que agora estava no chão – Melhor ainda... Eu não farei nada, até o momento em que você me peça para fazer. – O sorriso foi triunfante, e o moreno então pegou seu livro e a caneca para deixar o quarto. Já à porta, olhou para o loiro e fez um breve aceno com a cabeça — Boa noite, senhor Phalke. – saiu e fechou a porta atrás de si.
Shaka continuou parado, caído de costas na cama, os olhos muito abertos, a respiração acelerada. O coração batia tão forte no peito que era possível notar a pulsação pelo suave mover na pele. Todos seus sentimentos estavam em ebulição e ele não conseguia defini-los. Além disso, para seu horror, seu corpo respondeu estranhamente às carícias do moreno, a pele estava arrepiada, sensível e a sensação era estranha, uma mistura de medo e...
“Não”, negou se sentando na cama, o corpo trêmulo, assim como os lábios.
— Desgraçado!... – rosnou como um animal ferido e enfurecido. E voltou a cair na cama com um grunhido frustrado. Sentia-se estranhamente excitado. Não conseguiria dormir nem se quisesse.
Título: A intenção é que faz a ação.
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