Nelumbo nucifera
5 Si vis pacem, para bellum
Notas iniciais
Si vis pacem, para bellum
Chapter V
Shaka deitou-se na cama e forçou-se a tentar dormir, mas não conseguiu e viu o dia amanhecer pela imensa porta de vidro. Estava tão angustiado agora que não conseguia concentração para meditar e sabia que não conseguiria enquanto não descarregasse aquelas energias escuras que dominavam o seu íntimo. Isso raramente acontecia, mas quando acontecia, ele precisava de outra forma de aliviar a tensão, para só então encontrar a paz novamente. Isso era estranho, seu mestre de yoga sempre dizia que significava que não estava pronto, mas em situação de estresse muito extremo – raros em sua vida – ele não conseguia meditar.
Assim pensando, vestiu-se numa calça folgada negra que achou no guarda roupa e pegou dois dos grandes travesseiros e amarrou com um dos lençóis, pendurando-os na madeira que suportava o gracioso telhado da sacada, fazendo dele um amortecedor dos golpes que tencionava dar ali. Logo em seguida, começou a distribuir socos e chutes nos travesseiros, socos e chutes fortes em que descarregava toda sua raiva e frustração. Estava cansado, exausto na verdade, por não ter conseguido dormir e também, provavelmente, por toda a tensão do dia anterior. Ainda assim, continuaria a bater naquela madeira envolvida pelos travesseiros até que expurgasse todo aquele sentimento ruim de dentro de si, recuperasse seu equilíbrio, cansasse ou destruísse a madeira e os travesseiros juntos. Estava com tanto ódio e tanta frustração que não conseguia medir a força com que fazia aquilo.
O mordomo entrou correndo no quarto. Estava dando as primeiras ordens da manhã, quando um dos seguranças que cuidava do quarto do advogado foi avisar a ele o que estava fazendo o prisioneiro. Entretanto, assim que Khan entrou no quarto, imediatamente em seguida Ikki apareceu. Vestia apenas a calça de seu pijama de seda azul. O moreno sempre dormia apenas com a calça e, a julgar pelas suas feições, ele tinha acabado de acordar, a contragosto.
– Senhor, me desculpe, eu acabei de ficar sabendo, mas já ia cuidar disso. Pode voltar para os seus aposentos e...
– Deixe-nos, Khan. – Ikki falou, com um mau-humor crescente.
– Mas, senhor...
– SAIA DAQUI AGORA, Khan!! – Ikki foi mais enfático e tanto o mordomo quanto o segurança abandonaram o quarto no mesmo instante. Shaka, que obviamente deveria ter percebido a entrada abrupta dos invasores no quarto, continuou na varanda do aposento, não dando o ar de sua graça durante a breve discussão de Ikki com seu mordomo. Ikki então se dirigiu enfurecidamente para lá, encontrando o loiro aparentemente esgotado, mas com aquele irritante orgulho ainda estampado não só em sua face, mas em todo seu corpo e postura.
– Qual é o seu problema?? – Ikki bradou, muito nervoso – Tem gente que precisa dormir, sabia?! – viu que o loiro o observava de volta daquele jeito que, pelo que já percebera no rapaz, geraria resistência para atender à sua ordem. Normalmente, Ikki faria uso de todo o jogo engendrado para alcançar seu objetivo, mas agora simplesmente não tinha qualquer paciência – Quer saber? Eu não estou com tempo para discutir agora! – e, como se aquilo não fosse nada, pegou o loiro nos braços e o jogou por cima do ombro, como se fosse um estivador carregando um saco de batatas. O loiro continuou agitado, como era de se esperar, mas Ikki sequer respondeu a isso. Saiu do quarto do loiro desse jeito, carregando-o em um ombro, causando até certo espanto no segurança que ficava do lado de fora. Sem dar maiores satisfações a ninguém, nem mesmo ao mordomo, com quem cruzou enquanto seguia pelo longo corredor, Ikki caminhou até o seu próprio quarto. Entrou no aposento principal e, antes de fechar a porta, gritou: – Ninguém me incomode até meio-dia! Eu preciso dormir! – dito isso, cerrou a gigantesca porta de madeira com força, fazendo ecoar o som por toda a casa.
O quarto de Ikki era muito maior que o do loiro. Entretanto, não era tão luxuoso. Na verdade, impressionava o quanto aquele ambiente se diferenciava do restante da casa. Não havia objetos decorativos, nem qualquer daqueles artifícios elegantes que se viam por toda a mansão. Havia apenas uma cama grande, mas que era até menos confortável que a cama destinada a Shaka. Não havia tapetes, o chão era de mármore preto e apenas isso. A cama trazia lençóis e travesseiros brancos, muito brancos, sem qualquer estampa. Em uma parte do quarto, de forma que parecia até mesmo aleatória, havia uma escrivaninha que não se encaixava ali, parecia estar lá completamente dispersa do restante do ambiente. Em nada essa escrivaninha lembrava a elegante e suntuosa mesa de mogno da biblioteca. Uma cadeira razoavelmente simples a acompanhava e, sobre essa mesinha, apenas o livro que Ikki carregara consigo. Nada de papéis, nada de documentos. O quarto chamava atenção pelo vazio e pela total falta de harmonia entre seus móveis. Havia um closet e nele estavam todas as elegantes e clássicas roupas de um poderoso homem de negócios. O closet era abarrotado de roupas, contrastando com a escassez de tudo no quarto, de maneira geral. O banheiro da suíte seguia o padrão do restante da casa; era luxuoso e requintado, de modo que todo o estranhamento ficava mesmo para aquele cômodo principal, cuja iluminação provinha dos primeiros e parcos, escassos raios da manhã que invadiam o quarto pela varanda; uma varanda no mesmo estilo do quarto e Shaka, mas que, ao contrário desse, não tinha mesinha, cadeiras ou flores. Como o quarto, a varanda era inteiramente nua. Ikki, aproximando-se de sua cama e jogou Shaka nela com força. Depois, foi até a varanda e fechou a cortina, escurecendo bastante o ambiente. Em seguida, voltou à cama, deitou-se nela, ao lado do loiro e disse, com a voz zangada – Agora dorme! E nem ouse me provocar agora! Eu quero dormir e você, querendo ou não, vai se comportar! Então fecha esses olhos e dorme!!! – O moreno falou, ainda exaltado para depois dar as costas para Shaka, abraçar o travesseiro com força, e voltar a dormir.
Tudo aconteceu muito rápido e de forma que não deixou o loiro ter qualquer reação, como Shaka já começava a perceber que era o jeito do tal Ikki agir. Desde que ouviu a voz dele no quarto até o momento que foi jogado sobre aquela cama como um saco de batatas foram apenas alguns mínimos segundos para ele. Não reagiu, não houve tempo para que sua mente cansada pensasse em reação. Fica tenso assim que o soube ali, mas achou que levaria no mínimo um soco; nunca imaginou que ele faria o que fez. Ele não conseguiu nem mesmo lutar e agora estava ali sentado, cheio de ódio dentro de si, um ódio negro que não conseguiu expurgar. Estava suado, com a respiração descompassada, como Ikki achava que conseguiria dormir? Sentia-se no limiar da insanidade, não conseguia achar uma saída para aquela situação, sentia-se perdido e cometeria qualquer ato suicida para se livrar daquela situação.
Shaka praguejou baixinho, agora seu humor estava ainda pior, ele inteiro tremia e tremia de forma tão incontrolável que não conseguia ficar deitado.Escorregou sobre a cama se afastando do moreno. Precisava de autocontrole, precisava, precisava, mas só tinha vontade de beber o sangue daquele homem.
“Desgraçado... eu te odeio... eu vou te matar...” Grunhia entre dentes, atrás de um autocontrole que estava difícil de encontrar, enquanto corria os olhos por aquele quarto vazio, atrás de alguma coisa que pudesse usar naquele intento. Mas não podia tentar matá-lo, se o matasse seria morto pelos capangas, isso se de fato conseguisse...
Um animal acuado. Um animal com medo. Um animal reativo. Era isso que ele era naquele momento.
Shaka percebia que começava adentrar o abismo do desespero que a raiva sem limites trazia a si. Tremia de ódio, tremia de frustração e tremia de vontade de esganar aquele desgraçado que parecia dormir tranquilo ao seu lado.
Ikki se remexeu na cama e logo se sentou, vendo como Shaka permanecia agitado:
– Mas você é impossível! – o moreno se levantou nervoso, pensando que teria uma conversa séria mais tarde com os assessores responsáveis por fazerem o relatório a respeito da personalidade do loiro. Ikki estava preparado para um homem orgulhoso, teimoso, difícil, mas não para isso. – Vá para o banheiro! Gritou, caminhando na direção do loiro e imprimindo seu próprio ritmo ao outro – Para o meu banheiro!! AGORA! – gritou enfurecido, o sono o deixava ainda mais impaciente. Empurrava Shaka com seu corpo, praticamente.
Aquilo foi o estopim para que o restante de civilidade, sabedoria e paciência tão fortemente trabalhadas cedesse ao instinto agressivo e primitivo que era uma das características do loiro. Na verdade, toda a sua busca por sabedoria, controle e paz era exatamente para frear aquele seu gênio do demônio como Kanon gostava de dizer. Mas o namorado e mesmo alguns amigos sempre o advertiram que talvez numa situação de crise muito intensa, a linha que separava toda sua sabedoria e razão da agressividade inerente nele fosse rompida e ele acabasse fazendo as coisas estúpidas que todo ser humano é capaz de fazer quando ameaçado. E foi exatamente o que aconteceu sem que ele conseguisse mais controlar-se. Estava cansado, os nervos à flor da pele, sentia-se humilhado, frustrado, impotente e essa combinação numa pessoa que sempre esteve acostumada a ter o poder só poderia ser explosiva.
Assim, no momento que Ikki o empurrou, sua reação foi simplesmente voltar-se e golpeá-lo com toda sua força e se atirar sobre ele com a clara intenção de matar ou morrer.
– Desgraçado! Quem você pensa que é, eu vou matar você! – gritava e golpeava com os punhos cerrados como podia com toda sua força ou que sobrara dela. Se um dia ele temeu enlouquecer, esse dia chegou.
Os golpes de Shaka apenas deixaram o moreno mais zangado. Sem medir forças, segurou os braços dele e o empurrou para dentro do banheiro. Notou, obviamente, que o loiro estava furioso como ainda não tinha visto. Aquilo também era um tanto inesperado – e geraria algumas broncas mais para seus assessores. Mas, no momento, Ikki só queria saber de alcançar o seu intento. Empurrou Shaka, com algum esforço, porque mesmo enfraquecido, Ikki reconheceu que o outro não era facilmente subjugado, para dentro do largo boxe. Enfiou-o ali e abriu o chuveiro, deixando que uma forte torrente de água caísse sobre a cabeça loira. O próprio moreno respirava com força, porque também se sentia esgotado e Shaka conseguira arrancar de si um esforço inesperado agora. Inclusive, para segurar o loiro ali, em um primeiro momento, precisou entrar junto e mantê-lo debaixo d água à força. Depois, quando o outro parou de forcejar nos seus braços, soltou-o e o observou. Viu como a água escorria pelos cabelos loiros e, após algum tempo assim, Ikki recobrou a fala: – Pronto? Podemos agir civilizadamente agora? – ele estava encharcado, como Shaka e seu tom de voz era bastante humano no momento.
Shaka fechou os olhos. Ainda tremia, suas pernas tremiam. Sentia-se esgotado, e seu corpo foi parando quase que de forma automática de reagir, depois que Ikki conseguiu empurrá-lo para a água morna. Ele não queria demonstrar fraqueza, não queria, mas sim, estava fraco, perdido, amedrontado e tinha vontade de escorregar até o chão e deixar-se ficar ali. Ele nunca vira sua calma ruir como naquele pouco tempo de convívio com aquele homem. Nunca na vida. Estava com medo de que ele vencesse, de que ele conseguisse transformá-lo em algo que não era. Aquele não era o verdadeiro Shaka Phalke, não era o homem paciente e equilibrado que todos conheciam. Estava perdendo aquela batalha e não podia permitir isso.
Seus lábios tremiam assim como seu corpo e estava feliz pela água camuflar as lágrimas de desespero que se formavam em seus olhos. Baixou o olhar, pois cada vez que via aquele rosto odioso, sentia-se desabar no abismo da raiva e do desespero.
Abraçou o próprio corpo sob a água, como se assim ficasse mais seguro e virou o rosto de lado, para que o outro não o enxergasse, para que ele não conseguisse ler nada em seu semblante trêmulo e cansado. Tinha vontade de chorar, mas não choraria, não permitiria que Ele visse suas lágrimas. Que Ele o visse ainda mais humilhado. Seu corpo inteiro doía e havia alguns vergões deixados pelas mãos do moreno ao tentar contê-lo, embora não entendesse o motivo para ele não usar realmente a força. O pulso machucado agora estava ainda mais inchado e latejava de maneira desconfortável pelo excesso de exercícios. E finalmente o sono parecia querer levá-lo.
Ikki percebeu que o loiro havia se acalmado. Obviamente, não se poderia dizer que ele estava tranquilo, pois isso Ikki já entendeu que não aconteceria. De todo modo, deixou que o ar escapasse pesadamente dos seus pulmões. Olhou para o loiro e vê-lo daquele modo agora lhe inspirou um sentimento mais distinto. Ikki sabia muito bem que sentimento era esse, assim como saberia controlá-lo por agora. Não seria fraco, se sua humanidade aflorasse por um momento ou dois... Saiu de dentro do boxe e puxou uma toalha felpuda e branca. Voltou para onde estava e ergueu as mãos, em um gesto de trégua. Em uma das mãos, segurava a toalha. Com a outra, alcançou o fecho do chuveiro, para fazer a água cessar de cair. Tudo isso fez lentamente, sem gestos bruscos. O loiro parecia estar muito em alerta, a cada gesto seu. Sim, era parte de o plano quebrar o orgulho dele, mas aquilo estava fugindo do modo como deveria ser. Portanto, por agora, era mesmo importante um momento de trégua, até para o próprio Ikki organizar melhor algumas ideias. Aproximou-se devagar, depois de desligado o chuveiro, mantendo um contato visual com o loiro, que o observava desconfiado e analítico. Porém, esse contato visual não era de provocação nem de desafio. Por mais absurda que fosse a situação, aquele olhar buscava transmitir alguma confiança, como se, apesar de todo aquele contexto, o moreno tentasse dizer que o loiro poderia confiar nele. Ao menos, por agora. Chegou perto de Shaka com cuidado, também se mantendo alerta para qualquer atitude brusca do outro. Parecia que se aproximava de uma fera ferida, que rosnava apesar dos machucados. E Ikki percebeu que, se antes ele estava com o pulso ferido, agora a situação estava pior. Ele se forçara, ao bater com força na varanda do quarto. Esse loiro parecia mais louco do que ele. Ou, pelo menos, também não temia a dor, como acontecia com ele.
Com a toalha nas duas mãos, envolveu o outro, que estava todo molhado. Encaminhou-o para fora do banheiro e, sempre agindo dessa forma suave que se estabeleceu dentro dessa "trégua", começou a secar o corpo do outro. Não pronunciou uma palavra durante esse gesto, mas demonstrou um grande cuidado com essa tarefa, agindo com uma delicadeza que contrastava com seu vigor físico. Depois de algum tempo assim, deixou que Shaka continuasse com a tarefa, deixando a toalha para ele, e foi até o banheiro. Dessa vez, trouxe uma caixa de primeiros socorros, porque decidiu que colocaria esparadrapo nos pulsos do loiro, a fim de proteger de modo mais eficaz. Foi e voltou ao quarto, esquecendo-se do fato de que também estava com o corpo inteiramente molhado. Sentou-se na beirada da cama e puxou com o mesmo cuidado de antes o braço do loiro, para fazer o curativo. Não era nada grave, claro, mas achou que seria melhor cuidar disso de um jeito mais sério. E não disse nada, achou que palavras, naquele momento, poderiam findar o breve momento de trégua. E, no momento, Ikki estava bastante cansado para um novo embate entre eles. Afinal, isso já precisava admitir. Shaka conseguia cansá-lo. E isso era, decididamente, uma novidade com a qual estava aprendendo a lidar.
Shaka deixou que Ikki fizesse tudo que quisesse. Estava exausto demais, embora alerta para tudo que o outro fazia. Não queria reagir, achava que não precisava, havia um clima estranho, mas que lhe dizia que, ao menos naquele momento, não precisava temer nada. Havia livrado-se da calça e envolvido o quadril com a toalha. Suas emoções não haviam voltado ao normal, não era isso, mas agora ele simplesmente sentia-se num torpor estranho, como se fosse um simples observador de todos os atos acontecidos ali.
Percebeu que tanto sua calça largada no chão quanto a do moreno, que ainda estava no corpo dele, faziam a água ensopar o piso do quarto.
– Você está molhando tudo... – murmurou, mas não soube muito bem o porquê. Precisava descansar, sua mente precisava de descanso, as emoções descontroladas o exauriram perigosamente e o fragilizavam. – E-Eu preciso dormir... – falou exausto demais para sustentar sua característica altivez.
Ikki terminou o que fazia sem qualquer resistência por parte do loiro. Aquilo, de algum modo, lhe agradou, mas não por sentir que possuía controle, como normalmente ocorria. Era diferente. Mas não gastaria tanto do seu tempo pensando a respeito. As palavras de Shaka o alertaram para o fato de realmente estar molhando seu quarto. Com as últimas palavras do loiro, abriu um sorriso, porque sim, ele também necessitava com alguma urgência de dormir. Levantou-se da ponta da cama e, ainda sem pensar ao certo sobre o que e por que fazia, ajudou o loiro a se vestir, oferecendo a ele uma de suas calças, que ele vestiu sem reclamar, livrando-se da toalha, sem demonstrar nenhum incômodo ali. Depois o moreno o ajudou se acomodar na cama, inclusive cobrindo-o, e Shaka adormeceu quase instantaneamente. Em seguida, Ikki foi se secar e trocar a calça que vestia, aproveitando para secar o chão que molhara. Por fim, sentindo-se já bastante exaurido, deitou-se na cama, tomando bastante cuidado para não acordar o outro e permitiu-se dormir, dentro de um repouso que há muito não sentia.
Título: Se queres a paz prepara-te para a guerra.
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